novembro 27, 2012

De olhos bem fechados


O final do filme Trust, Perigo Online, que passei aos meus alunos do 11º ano, é algo surpreendente. Ou talvez não. Estamos à espera de ver o pedófilo apanhado, e apanhado nas malhas de uma vida errónea, criminosa e clandestina, e eis que ele nos surge, feliz em família, com uma profissão decente e na mais completa normalidade, visto com respeito e credibilidade. Dececionante para os justos deste mundo mas talvez nada surpreendente, afinal. Nada mesmo. Na verdade, quem vê caras não vê corações, já diz o velhinho ditado, da mesma forma que não se pode meter a mão no fogo por muitos, sob pena de sairmos queimados.
De que se trata aqui, então? De casos de dupla personalidade, ou talvez melhor, de uma vida dupla. E isto não é tão incomum assim. Pessoas que julgamos conhecer relativamente bem, razoavelmente bem até extraordinariamente bem, podem, em todo o caso, aparentar o que não são. Ou ser mais e pior do que aquilo que parecem, que é mais ou menos a mesma coisa. Tal facto não é nada reconfortante. Pelo contrário, é assustador, leva-nos a pensar o que não queremos - pensar que se deve deixar margem para a dúvida, a desconfiança e em última instância a desilusão.
Mas qual a motivação de uma outra vida, de quem não é o que parece? De quem age em total desacordo com o que exibe publica e socialmente e em círculos familiares? Saberão eles próprios qual a sua motivação? Penso que se tratarão de impulsos primários que não têm explicação racional por parte de quem não lhes resiste, incontroláveis pela ausência de pensamento, pela falta de ética e de conhecimento da diferença entre bem e mal, pelo prazer  que retiram da clandestinidade, pelo risco de comportamentos perigosos, pelo jogo que significa desafiar o convencional, pela perversidadezinha que mora lá. Já dizia Shakespeare, "Se as paixões aconselham por vezes mais ousadamente do que a reflexão, isso deve-se a que elas dão mais força para executar." Nestes casos, apenas infelizmente.
O que fazer quando se descobre que se viveu com alguém que mantinha uma cara e uma atitude e revela depois uma identidade completamente diferente daquela que supúnhamos? O que sentir quando descobrimos que vivemos com alguém que afinal não conhecíamos, que nunca conhecemos? E, sabendo que isto pode acontecer, o que fazer para nos precavermos? Desconfiar de tudo e de todos? Estar mais atento a gestos e palavras que resvalam? Viver no medo e nunca nos entregarmos? Dar-mo-nos e depois sermos cilindrados com revelações que nunca fomos capazes de descortinar por nós mesmos? Tão difícil, tão desencantado, tão ingrato partirmos para as relações assim. 
Sobretudo se se tratarem de relações muito próximas, de alguém com quem escolhemos partilhar sei lá o quê. Não sei se será possível antever, adivinhar, pressentir, ler a mente dos outros. Nuns casos sim, em que a máscara está mal construída, noutros não - não quando se trata de profissionais do disfarce, do embuste , da mentira, jogadores sem afetos verdadeiros, sem noções de laços, sem algum caráter. O que nos resta, neste caso? Ter sorte, basicamente. Esperar que nunca sejamos surpreendidos por estas patologias, confiar na nossa intuição, na nossa análise racional, na nossa inteligência. Esperar, sobretudo, que elas não falhem.


(Eu sei que este espantoso quadro de Magritte merecia que falasse do amor. Mas não é descabido de todo, ao falar-se de amarmos alguém que afinal não conhecemos.)

8 comentários:

  1. Quando os olhos estão bem fechados, convém que as mentes estejam bem abertas.

    :)

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    1. Pois, os nossos olhos e as mentes dos outros:)

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  2. Este assunto é muito pertinente! Dele pode depender a entrega parcial da entrega total, se bem que esta última é algo utópica e não me parece plenamente comcretizável. Friso o seu "ter sorte", porque, como em quase tudo na vida, ela pode estar e não estar presente. Faça como eu: confie completamente, desconfiando um niquinho, só um niquinho... :)

    Ainda sobre o seu texto anterior sobre as palavras e os gestos: muitas vezes, os gestos estão pejados de palavras, mas, também, muitas palavras só são preferidas representando uma miríade de gestos...

    Beijos e bons posts (as usual)
    :)

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    1. É verdade, Paulo. Também acho difícil a entrega total, embora haja quem o faça ou diga fazer:) Sorte, sim, no fundo nada mais do que isso, quase sempre....
      Falando em gestos e palavras, obrigada por estas últimas:) Kisses***

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  3. Pois é, será que podemos confiar em quem está ao nosso lado? Eu sei que a maioria dos pedófilos, por exemplo,são pessoas comuns com vidas comuns. Como saber? Provavelmente, nunca podemos saber ao certo. Como alguém dizia, todos temos uma vida pública, uma privada e uma secreta. Resta esperar que a vida secreta de quem escolhemos para estar ao nosso lado não passe de pequenos pecadilhos insignificantes.

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  4. É isso tudo, Teresa. :) Esperemos e confiemos :) Mas imagino a dúvida e a angústia da incerteza quando isso acontece - quando se revela algo de que nunca suspeitaríamos. Com certeza dilacerante. Beijinho

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  5. Os sinais estão sempre lá. Agora, se na altura não nos convém ler os sinais, já é outra história. E por vezes também existe a grande hipótese, de sermos cegos de todo, nessa coisa da leitura dos tais sinais. Mas que andam sempre à nossa volta, sem dúvida alguma! E a maior parte das vezes até fazem questão de nos "atropelar" ;)

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    1. Pois, Maria, tem razão, provavelmente estão mesmo. Estão? :)

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