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outubro 17, 2014

A salvo

 
 
 
Em turmas problemáticas e heterogéneas a nível das atitudes, os alunos menores com melhor postura e comportamento - e, logo, aproveitamento - são aqueles que não têm autorização de saída - saída do estabelecimento de ensino durante o dia de escola. É o que acontece na generalidade, os pais e/ou encarregados de educação assim o definiram. Já os alunos com sérios problemas comportamentais - e de aprendizagem - que nem vale a pena enunciar aqui, continuam a usufruir de livre salvo conduto que os afasta tanto de aulas como de atitudes saudáveis ou observadoras das regras. Não sou contra os votos de confiança e considero que toda a gente merece uma segunda oportunidade. Mas, sabendo o que a casa gasta, aqui está uma coisa que, já não estranhando, pois, ainda não fui capaz de entranhar.

outubro 08, 2014

Rapidíssimas

 
 
1. Não compreendo, por mais que me esforce, como é que o Ministro da Educação ainda não apresentou a demissão. Ou como é possível que não o tenham feito por ele.
 
2. Eu até achava piada ao Zeinal Bava por ser exótico. Fez asneira, pelos vistos, não pequena, pelos vistos. Ouvi hoje que se demitiu. Sempre tem mais caráter - vergonha? - do que o de cima, apesar dos pesares.
 
3. Os raides aéreos parecem não estar a resultar no Estado Islâmico. Razão tinha quem disse que essa não seria a solução ideal (embora eu não saiba qual é, já agora e infelizmente).
 
4. Ontem assustei-me a sério com as informações sobre o ébola. Isto sim, devia e deve preocupar a humanidade. Se em vez de desunirmos e destruirmos construíssemos unidos...
 
5. Seja em que partido for e seja que nome for, prefiro alguém que me diga que é prematuro dizê-lo do que alguém que promete não baixar impostos. Primeiro a honestidade, em último a demagogia.
 
6. Outono verão, outono inverno, outono verão, outono inverno... Mas o que eu queria mesmo era o verão verão. Que saudades do sul. A sul é-se sempre mais feliz. Talvez me mude..

setembro 29, 2014

Sem forças nem vontades

 
 
Durante o ano letivo transato, no decorrer da minha atividade profissional, desenvolvi um tipo de trabalho, pela força das circunstâncias, que não tivera a oportunidade de conhecer de perto antes. Falo de uma frente que se cruzou no meu caminho como Diretora de Turma, de forma avassaladora, exaustiva, enriquecedora e que continuará este ano, se bem que com mais apoio de outras instâncias escolares que estiveram, também por motivos de força maior, ausentes no ano passado.
Esta ação consistiu num trabalho de articulação constante com as CPCJS - Comissão de Proteção de Crianças e Jovens - de várias localidades, com os Tribunais de Menores de diversas áreas e ainda com médicos pedopsiquiatras de hospitais da região. É verdade, foi árduo e contínuo, exigiu força, física e mental, quer a nível de reuniões, de telefonemas, de troca de e-mails, de relatórios. Como disse, foi também uma nova experiência que me abriu horizontes, mesmo com pouca luz ao fundo do túnel, em alguns casos, e que me despertou para fortes problemáticas sociais e escolares vistas de uma perspetiva quer mais dramática quer mais interventiva. Isto indica o tipo de alunos que tive e tenho a meu cargo e implica muitas horas de trabalho para além daquelas mais normais que assentam na lecionação de aulas, nas reuniões interpares, nas burocracias incontáveis e no tratamento de problemas como indisciplina, insucesso e outros.
Não foi um bom ano, porque muito difícil, mas também estou mais conhecedora e mais capaz em determinadas áreas cujos meandros desconhecia. Quero acreditar, pelo menos. Acreditar deve dar algum tipo de resistência, forçosamente. E por isto, por tudo o que ano que findou e o ano que começou agora significam, tenho um fortíssimo ataque de nervos  cada vez que olho para a minha atual folha de vencimento. Em circunstâncias normais, em países normais, com economias fortalecidas e justas, penso que trabalho a mais e feito da forma mais honesta e eficaz que se sabe mereceria um aumento ou uma pequena promoção, algum tipo de estímulo, como forma de compensar o desgaste e o sacrifício familiar por arrasto. Mas não, aqui o salário diminuiu fortemente, do género como se eu tivesse menos 10 anos de carreira. Ou 15, até. Por um lado, poderia ficar contente por pensarem que pareço ter menos 10 anos, caramba, afinal estou cada vez mais nova. Mas por outro, e este é o que deriva da triste verdade, os 10 coincidem com o gelo que vou sentindo nos ossos e na alma: é que estou congelada desde 2004 e nem um pequeníssimo vislumbre na progressão na carreira, apesar da avaliação para promoção do mérito, aquela mentira que inventaram para fortalecer o ensino. Resumindo, tudo conspira para nos tirar a força.

setembro 17, 2014

Coisas sem relação absolutamente nenhuma



1. Toda a gente tem direito a mudar de opinião, creio, e não sou contra as dissidências, são decisões pessoais que podem ter justificação plausível ... ou não. Mas a saída de Marinho Pinto de um partido que pouco tempo antes o levou até ao centro político europeu parece-me francamente desonesta. O dizer que é tempo de seguir o seu próprio caminho ainda corrobora mais esta abordagem que diria interesseira. Mas na verdade não me surpreende. Trata-se de uma figura que nunca me inspirou confiança, talvez porque não aprecio quem habitualmente fala em tom exaltado e quase aos gritos. 

2. Este ano a relva cá de casa mantém-se viçosa como uma verdadeira alface. Assim que me lembre, foi a primeira vez em que não se andou desesperadamente a regar pela noitinha para tentar salvá-la de uma morte certa. Eu que nem sou fã de chuva consigo ver o seu lado positivo quando automaticamente penso na relva da frente e do pátio. Mas nem só de relva verdejante vive o meu apreço pela chuva nestes dias. O calor tem-me sufocado e a coisa melhora com a água caidinha do céu. Por outro lado, poucos sons sabem tão bem como o de ouvir uma grande chuvada quando se chega a casa. 

3. Faltam tantos professores ainda nas escolas e os alunos lá vagueiam, horas a fio, sem aulas. Quando é que a obsessão pelos cortes e a sua prática indiscriminada na função pública deixará de ser uma realidade que tanto afeta a vida escolar também dos alunos? Nos cursos profissionais acresce o problema de ter de se repor as aulas, uma vez que é obrigatório o volume de formação na totalidade, e bem, a bem dos alunos. Mas também não será uma injustiça os alunos vaguearem agora, contrariados, em tempo certo de aulas, e depois terem de levar com horas a mais numa já de si pesada carga horária, para compensar?

4. De férias a sul, comprovei novamente que os portugueses estão cada vez mais fechados. Têm muitas dificuldades - ou pruridos - em falar para desconhecidos. Para se lhes arrancar um bom dia ou boa tarde num espaço que se partilha é obra. Eu, que sou daquelas que, por exemplo, falo alegremente numa caixa de supermercado se houver alguém que sorria e faça o mesmo, estranho estas coisas. Então quando os nossos filhos brincam em conjunto e tento conversar um pouco e vejo caras fechadas - snobs? - fico mesmo desapontada com a raça humana. Há gente para quem deve ser difícil sorrir e dizer umas palavrinhas, nem que seja sobre o tempo. Timidez ou mania e falta de boas maneiras? 

setembro 12, 2014

Esperança e dúvida


Hoje vi e ouvi ideias novas, vontades e entusiasmos de quem ainda tem (algumas) expetativas que as coisas melhorem - porque podem melhorar precisamente por causa dessas iniciativas, claramente expressas. Vi pessoas um pouco ou bastante cansadas já no início, vi outras bem dispostas porque as férias ainda estavam mais frescas, vi e ouvi propostas interessantes, válidas, inteligentes e que terão tudo para resultar, para eles e por eles. Não têm sido maus estes primeiros dias, por causa disso mesmo. Podiam ser sempre assim, os dias, dialogantes, construtivos, esperançosos. Mas ainda a dúvida me assalta. Na esperança, porque agora ela existe, a dúvida subsiste. Pois resta saber se na próxima semana e nas restantes não seremos completamente esmagados pela realidade que há de vir. 

agosto 12, 2014

Caminhos





Tal como se previa, alguns não permaneceram. Sabíamos, sentíamos. Não ouviram, não souberam ou não quiseram. Preferiram continuar, sozinhos, seguindo o caminho que escolheram, ouvindo-se a eles e a mais ninguém. É perfeitamente natural não querer ajuda quando se sabe o caminho, quando se conhecem os perigos e as saídas. Mas já não é a mesma coisa recusar uma ajuda quando o caminho é nitidamente o que leva ao desastre. Estavam no seu direito, é um facto. Uns mais do que outros, provavelmente. Escolheram, voltaram costas. Mas não a nós. A si mesmos, na verdade. Não há, em alguns casos, como voltar atrás. Seguem agora um caminho, livres e ao mesmo tempo não, já que presos nas suas escolhas. Seguem o seu caminho, pois. Mas que nunca digam que não se lhes mostrou outro. 

julho 19, 2014

A seu tempo

                      

Veem-se imensos pais atuais com pressa de que os filhos cresçam depressa, antecipando mundos adultos que deveriam chegar apenas no seu tempo. Ou escravizam os miúdos com horários e atividades non-stop ou deixam-nos antever formas de entretenimento que não são próprias do seu mundo infantil. Lembrei-me mais uma vez disto a propósito da presença de crianças de 6, 7, 8, 9 anos em concertos pop ou rock (por exemplo, estavam várias no dos Rolling Stones, vi nas reportagens televisivas). Também já vi, tempos idos, muitas crianças pequenas em cafés até às duas da manhã, de forma que diria quase habitual. Interrogo-me se as crianças conseguem apreciar este tipo de divertimentos ou se são os pais que promovem estas coisas por pura vaidade - pode ser por ignorância, mas não acredito. Ou se os pais não conseguem colocar o bem estar dos garotos à frente dos seus próprios interesses de diversão. Sou um bocado fundamentalista nestas coisas, voilá, nobody is perfect - considero que se deve controlar as horas de deitar dos miúdos, que se deve controlar os seus hábitos alimentares, que se deve controlar as imagens que veem na TV, que se deve controlar o tipo de coisas que têm no quarto, que se deve controlar o uso de palavrões, que se deve controlar a obsessão por marcas, que se deve controlar o descanso e que se deve controlar o encanto do imaginário infantil. E quando a palavra controlar soar feia e não for aplicável substitua-se por respeitar. As pessoas grandes não estão, muitas vezes, para fazer sacrifícios em favor das mais pequenas. E arrastam-nas consigo para horas e locais que não são os destas. Ou então querem à viva força que os rebentos saibam tudo, vejam tudo, façam tudo o mais cedo possível, como vantagem sobre os outros. Nada a apontar sobre o desejo de sucesso dos nossos filhos, é naturalíssimo, mas importa também refletir a que preço. As crianças não têm tempo para ser crianças, sendo atiradas para espaços e horários que afetam o seu bem estar, concentração e afetos, constituindo estes o pilar do seu esperado e harmonioso desenvolvimento emocional. Sem muitos dramas nem cultivando os traumas, a verdade é que nestas matérias costumo estar do lado dos psicólogos. Dê-se afeto e tranquilidade aos miúdos, isso é que é o que realmente mais importa. E, sobretudo, tempo. Tempo em várias e essenciais formas.

junho 24, 2014

Das dificuldades



Há pouco via na televisão a saída em liberdade de Isaltino Morais e saltou-me à vista o cabelo completamente branco e o envelhecimento súbito em pouco espaço de tempo. Recordei imediatamente outros delituosos a quem aconteceu precisamente o mesmo, desde os arguidos do caso Casa Pia até aos PMs Sócrates e Passos Coelho. Em todos estes exemplos foi visível no rosto e no cabelo o aparecimento veloz de marcas de tempos árduos e não propriamente inocentes.  Vai daí que, num ápice, me pus a pensar em mim própria. E eis que a ausência de cor inundou também e imediatamente o meu teclado. Noites em branco, espaços totalmente em branco, brancas inconcebíveis que surgem nos testes, branca de desgaste, cheques cada vez mais a correrem o risco de serem em branco, cada vez menos carta branca, mentiras nada brancas. O meu crime? Bom, não encontro outro, sim, esse mesmo: ter enveredado por esta profissão, que em tempos difíceis ainda é capaz de arranjar mais agruras ao alimentar-se cada vez mais do facilitismo e, espantemo-nos, é verdade, também ela, da impunidade. Está explicado.

maio 29, 2014

Louvores


Acho, achei e acharei sempre muita graça às pessoas que louvam o surgimento de mais grelhas para preencher. Respiram, aliviadas, e exultam até, porque alguém se lembrou e se deu ao trabalho de as fazer por elas. Cá eu já é mais o contrário, amaldiçoo cada vez mais os papéis que me põem à frente, sejam físicos ou virtuais. Decididamente, é carga a mais para alguém prático e decidido como eu, para o bem ou para o mal, admito. E com interesses fora do local de trabalho, já agora. Não serve este post, pois, para a papelada louvar.

maio 15, 2014

De profundis país lento


Tenho, este ano, no âmbito da minha atividade profissional, vivido experiências brutalmente enriquecedoras apesar de brutalmente desgastantes. Muitos são os pensamentos que delas surgem, impossíveis de registar, atempadamente e por escrito, aqui ou em qualquer outro lugar. Mas uma conclusão pode ser aqui assinalada: a de que tenho mantido, ao longo deste ano, um intrigante e desolador contacto com o Portugal profundo. A modernidade existe, sim, comparada com tempos idos, mas é minoritária e citadina, intelectual e, por contraste, consumista. O resto, tudo o resto aponta para um país ainda muito atrasado, com baixos níveis de conhecimento, de cidadania, de esclarecimento e de pensamento.
Qual o impacto disto tudo na escola? Bom, uma taxa de abandono considerável, ainda, uma falta de ambição cultural e pessoal assustadora, posturas inaceitáveis que as famílias, pouco esclarecidas e, por vezes, mesmo sem maneiras, não conseguem controlar, um desinteresse chocante pelo conhecimento, alheamento do mundo para lá das novas tecnologias e das experiências típicas da adolescência, ignorância natural e cultivada que roça a boçalidade, desrespeito por todo e qualquer tipo de regras e de autoridade, taxas de sucesso baixíssimas e, para as aumentar, fabricadas, enfim, um país atrasado, deprimente, ignorante, com a mania que é rico e que é injustamente desprezado, apostado em ter, ter cada vez mais, e esquecendo completamente o ser.
Também é verdade que este ter o é cada vez menos. As dificuldades económicas só agravam este desalento social, estas psicoses várias que assolam as famílias, as pessoas, a parentalidade, e como consequência, os filhos e os filhos na escola. 50 anos de reclusão obrigatória fizeram-nos muito mal. Persistem dificuldades dessa altura, na cabeça e, como consequência, nos atos. Mas este descalabro financeiro atual tem, certamente, um efeito altamente negativo na melhoria das condições de vida, desnorteando ainda mais aquilo que não estava ainda solidificado.
Hoje coloquei um post no meu FB profissional para que os alunos lessem. Como gostaria que o lessem e interiorizassem. Só assim poderiam e poderão sair destas profundezas em que ainda nos encontramos, assim que saímos da cidade, do teatro ou do centro comercial. A nossa marcha está a ser muito lenta, é possível que estejamos até a andar para trás. Cruzem os braços, cruzem. Fiquem à espera de milagres. Assim não se vai lá.

abril 09, 2014

Quando uma ata o é antes de o ser



Sempre pensei, e pelos vistos erradamente, que uma ata era o resumo feito durante ou após uma reunião ou uma situação formal de qualquer espécie que necessitasse de um registo escrito para provas na posteridade. Pessoalmente, e na minha área profissional, gosto de tirar apontamentos e escrevê-las depois, já que tenho evidentes dificuldades em realizá-las com a concentração e o tempo necessários enquanto as coisas decorrem. Defeito meu, certo, admito. Mas agora está-se a ir por um caminho que estranho porque decididamente não entranho. Os responsáveis pelas atas escrevem-nas antes da reunião - com a sua perspetiva e com o rumo que desta forma acabam por lhes dar - e leem-nas, ao invés de falarem de forma espontânea, e acompanhando o decurso natural da reunião, ainda que sempre subordinada a uma necessária ordem de trabalhos. Estas leituras das atas nestes termos, como forma de conduzir uma reunião, põem-me a voar para outros lados, para longe dali. E então quando são projetadas ainda pior. Continuo a gostar que alguém nos consiga envolver com o seu discurso. A comunicação é uma coisa que valorizo e, desta forma, uma coisa completamente diferente para mim. Não gosto de reuniões centradas, controladas e pré-estabelecidas. " O conselho de turma considerou o comportamento satisfatório..." antes de alguém abrir a boca. Depois vem a pergunta, olhos já fora do papel - "concordam"? Mas eu preferia que não fosse por esta ordem. O cúmulo aconteceu uma vez quando os presentes, todos já sentados, aguardavam o começo da reunião. A pessoa que a dirigia, sendo responsável pela ata, pois, começou a ler: "Depois da apresentação dos docentes..." Bom, estarreceu-se-me logo ali o cérebro. Qual apresentação? Ninguém havia falado nem dito o nome nem coisa parecida. Esta coisa de antecipar tudo torna-se, assim, absolutamente ridícula. Antecipa-se de tal maneira, por forma a agilizar, como está na moda dizer-se, que se diz terem sido feitas coisas antes de elas acontecerem. Escritas, lidas, antes do tempo. Quase proféticas. Se já tenho dificuldade em escrever durante, por falha minha, repito, imagine-se o que sinto quando se escreve antes. Passo. As atas são um resumo do que se passou,  não é preciso terem 20 páginas - nem 10 - como se isso fosse sinónimo de qualidade, concentremo-nos no essencial. Pessoalmente não projeto uma linha de uma ata, aliás não podia porque não a faço antes. Não à necessidade de controlar tudo nem de antecipar o não antecipável. Bem ou mal, comigo a coisa - a ata - só desata mesmo depois da reunião.

março 28, 2014

Ponto da situação, digo, saturação



Não gosto do ensino que protege, que facilita, que desresponsabiliza. Não gosto do ensino que dá a papa toda, que não exige, que não promove a autonomia. Não gosto de demasiada familiaridade no ensino, das relações tu cá tu lá, embora goste dos afetos e de harmonia. Não gosto da linguagem que é permitida e muito menos gosto da linguagem que é usada e que nunca o deveria ser. Não gosto que se permitam novas tecnologias na aula, não as que usamos, as que eles usam, por baixo da carteira, ou nos ouvidos. Não gosto deste ensino em que estamos presos de várias maneiras mas mais ainda tolhidos pelo medo ou vencidos pelo cansaço. A saturação é mais do que muita. É difícil remar contra a maré, contra a loucura que vem de cima, ministerial, a que vem de baixo, dos miúdos, a que vem dos lados, famílias, sociedade e mais. A boçalidade, o desafio gratuito, a agressividade verbal, a preguiça, o desinteresse, as prioridades trocadas, a linguagem vernácula, o desconhecimento do que é a pontualidade, a ausência das aulas, o barulho, o desinvestimento no saber, a impunidade, o abuso de confiança, e havia mais, tanta coisa mais, tudo isto é o que alguns de nós veem, todos os dias, em quase todas as horas, agora e depois. Se isto não é uma forma de violência, contínua e sem fim, desvirtuadora de qualquer valor, inclusive, então não sei. Não se queixem depois dos adultos corruptos, indignos e patifes. Estamos a prepará-los, desde já, a safarem-se na mais completa desonestidade intelectual e moral.

março 24, 2014

Gasta!

                           

Um aluno disse-me, fora da aula, divertido e vaidoso, que os seus sapatos custaram 70 euros, exibindo-os e perguntando-me se gostava deles. Disse que sim, claro. O miúdo é simpático embora desbocado e uma cabeça de vento. Passado alguns minutos, disse-me que brevemente ia - e vai - para a Disneyland. Disse-lhe que é um local fantástico - já lá fui há muitos anos, em solteira - e a seguir, confesso, não me contive. Então não tens as fotocópias do manual de inglês, que custam um euro e pico (por módulo, ao todo são 3 módulos)? Ai, ai, apanhei-te. Ele sorriu algo surpreendido e o outro ao lado sorriu para mim, percebendo onde queria chegar. Ui, estas prioridades, eu bem digo que andam trocadíssimas. Ou se calhar não andam, tudo depende do ponto de vista, eu é que frequento lugares dos quais por vezes queria estar a milhas para, entre outros aspetos, não ver coisas que me são totalmente incompreensíveis. 

março 11, 2014

Facilidade e dificuldade

     

Não são raras as vezes em que quem não é pai nem mãe, independentemente da razão, dá grandes palpites sobre como educar as crianças. Toda a gente tem o direito de opinar, sobre isso não há dúvida, apenas acho que teorizar é uma coisa e passar por elas na prática é outra. Eu também dizia e dizia antes de ser mãe, tinha mais certezas do que tenho agora, pois tenho cada vez menos. Por isso as acho descabidas, as recomendações, e absolutamente indesejadas quando não pedidas. Então as observações ao jeito de reprimendas nem se fala. Como se pode criar e aplicar um manual de intruções quando se desconhece algo na sua mais profunda realidade? Opinar, sim, falar com a voz da experiência, não. Mesmo se se dizem coisas teoricamente muito acertadas. O pior é o desacerto diário que significa educar, educar bem, pelo menos. Na prática, educar é difícil. Já falar é sempre mais fácil. Criticar, censurar, desaprovar. Também aqui, com os filhos dos outros. 

fevereiro 15, 2014

No reino da educação


Tenho assistido a um fenómeno curioso. Como resultado das péssimas notas e demais informações negativas dos alunos, alguns encarregados de educação alteram - e bem - a autorização de saída dos seus educandos. Com o nosso aval e até sugestão. Não é que, como eu, sejamos de castigos mas premiar o que não pode ser premiado não parece lá muito educativo. E são formas de incutir responsabilidades que os alunos, se quiserem, conseguem cumprir. Ainda por cima, como tal situação não tem que ser eterna era só os miúdos alterarem os maus comportamentos que tudo voltaria a ser como queriam e querem. Mas o fenómeno está no seguinte: a intenção de alteração de saída feita perante nós vem a sofrer reviravoltas quando longe de nós. Queremos ver os nossos filhos felizes, é um facto, mas assumamos os riscos e as consequências. Ou a escolha, já agora. Porque ao pedir para nos confirmarem depois por telefone essa alteração ao estipulado a resposta não vem. Enrola-se, não se atendendo ou ignorando os recados e as mensagens de voz. Assim vai o reino do ensino. Ou de alguma família, o que, neste caso, vai dar ao mesmo. Não se aprende nada. 

janeiro 29, 2014

Os dias difíceis


Mais um dia de histórias terríveis, no passado e no presente. Tão bom seria que não se estendessem ao futuro. Lágrimas que já foram, ainda lágrimas agora, à espera de sorrisos e risos lá mais adiante. Alegria e dor misturadas naquilo que é ser mãe e pai. O que fazer, todos perguntam. Respostas certas não há, pois não dependem apenas de nós, sentados frente a frente. Queria dá-las, a solução mágica, tirar-lhes a dor e deixar só a alegria. Queria muito, quero, mas sozinha e sozinhos não poderemos. Faltam eles, os que nada parecem sentir, que se arrastam à procura de um significado que não está lá, que se movem num vazio de afetos e de objetivos, sem amor, por eles e pelos deles. Faltam as suas escolhas ou tão somente a liberdade que julgam ter mas não têm. Prisioneiros da palermice, da descoberta tola e da idade que não os deixa projetar e antever o depois. Quem tiver respostas, é dá-las, darei-as eu a quem as quero dar. Ou então resta esperar. E na espera a dor continuará a sufocar a alegria. Ao menos que esta venha depois da espera. Pode ser que sim, acreditemos. Pode ser que não.

janeiro 26, 2014

A última caminhada



Um dos assuntos destes dias - e naturalmente - é a praxe académica. Já li opiniões certíssimas sobre o assunto e não irei acrescentar nada de novo nem dizê-lo melhor. De qualquer maneira, aqui fica um registo pessoal.
Não gosto de praxes, nada, nada, e senti-me desconfortável quando eu própria fui praxada, na Universidade de Aveiro, há anos e anos. Apesar de ter sido ligeira, relativamente ao que se via e vem vendo, a verdade é que me deixou algo apreensiva e envergonhada. Eu e as minhas colegas com quem estava na altura, sobretudo as da/o turma/curso. E não vejo as vantagens desse estado de alma, porque no meu caso nunca chegou ao verdadeiro divertimento e à euforia. Contrariado ninguém pode ser feliz, certo? 
É falso, totalmente falso, quando se defende a praxe como um primeiro passo para a integração. No meu caso, novamente, as pessoas que a fizeram nunca mais me ligaram, nem sequer me dirigiram a palavra. Também é verdade que não me lembro delas. Apenas recordo um aluno e digo o mesmo em relação a ele. Nunca fui de grupos nem de copos, ainda por cima, estudava e vivia em casa dos meus pais, não estava fora. De maneira que fui tudo menos popular na vida académica. Sim, tive os meus momentos de diversão, mas saudáveis e longe da boémia constante e noctívaga de outros. Era nova e financeiramente dependente dos meus pais, tive isso sempre em mente, para o bem ou para o mal.
Hoje em dia tenho uma notável - e até antipática - capacidade para dizer não. Não sei se a tinha na altura, era mais insegura e, claro, mais inexperiente. Daí que não me surpreenda quem não consiga fazê-lo, mas aí também depende do que nos pedem ou obrigam. Claramente. Ainda assim, penso que há medos nos caloiros - um deles é o de que os marginalizem, os achem demasiado caretas, sem graça nem espírito de diversão. Também acho que foi o que pensei na altura, que se não achasse graça a certas coisas, e foram leves, o erro estaria em mim. Estupidez monumental, impensável desde há tempos e tempos mas que é possível ocorrer em idades menos sábias. 
No presente caso de que toda a gente fala, a estupidez é levada ao mais absoluto extremo. Ainda assim, pesa mais para o lado de quem praxa, como sempre e como é mais do que óbvio. Porque exercem um domínio inqualificável sobre quem não sabe ou soube defender-se. Um domínio que está para além da minha compreensão. Pois uma enorme dificuldade tenho em compreender o que se retira de divertido, positivo e construtivo deste tipo de experiências. E não compreendo, assim sendo, para onde se vai com elas.

janeiro 23, 2014

O fumo e o fogo

                     

Há muitos dias e mais dias que ando a dizer "burro é aquele que arranja lenha para se queimar". Não me ouvem, não me ouvem. Ou então escutam, silenciam, anuem, para logo a seguir fazerem precisamente o contrário. Destroem diariamente não só as expetativas de quem os ama, independentemente da forma, mas as de outros que os veem brincar com o fogo. Destroem, sobretudo, aquilo que poderia ser e seria. Caminhos mais límpidos e mais promissores. As cabeças deitam fumo. Bom seria de tanto pensarem, neles e em quem os quer bem. A vontade é fraca, a liberdade confunde-se com transgressão, a reputação quer-se má, as promessas não subsistem. Fácil é não resistir. Na verdade, difícil é resistir no meio da exalação inebriante. A chama arde e queima-se o futuro. Porque no presente este fumo vem com fogo.

janeiro 13, 2014

Tortura obrigatória

                     

Não me interessa comentar a proposta da juventude centrista sobre a redução da escolaridade obrigatória, não em termos políticos, diga-se, e dissertar sobre os possíveis objetivos de tal proposta. Agora, como professora de alunos, muitos alunos, com mais de 15 e menos de 18 no ensino básico tenho apenas a dizer o seguinte: é penoso, para discentes e docentes, ver alunos contrariados e que manifestamente não gostam nem querem estudar arrastarem-se pela escola e mandriaram nas aulas e que só estão à espera, alguns, de completar 18 anos para se porem a andar da escola para fora. Assumidamente. Não trazem material, não fazem rigorosamente nada, chegam atrasados e mantêm-se apenas na escola e nas aulas, não em todas em abono da verdade, porque a CPCJ (Comissão de Proteção a Crianças e Jovens) está em cima deles e das suas famílias. Com o esforço acrescido - e maioritariamente inglório - que os serviços de psicologia das escolas têm com isto, os diretores de turma e mesmo os tribunais, se a coisa for mesmo complicada. 
Há alunos que já têm emprego assegurado nas empresas de familiares. "Faltam quatro meses, professora." E assim perturbam as aulas, espalham o mau comportamento e o desinteresse ao resto dos que lá estão e ainda querem fazer alguma coisa. Assim vamos, indo muito pouco. Só quem trabalha em escolas de elite ou quem desconhece completamente a realidade na sala de aula - e as realidades socioeconómicas ou culturais por detrás dos alunos -  é que pode concordar com uma lei absolutamente contraproducente. O saber desta rapaziada é mínimo, zero, abaixo de zero, muitas vezes. Ninguém aprende contrariado. Também nem todos têm as mesmas capacidades, a mesma curiosidade ou o mesmo background familiar. E a verdade é que nem todos podem ser doutores, sob pena de desaparecerem ofícios muito dignos e úteis em qualquer sociedade.
Seria muito bom que toda a gente soubesse muito, gostasse de aprender muito, chegasse muito longe ( e mesmo isto é relativo). Mas é preciso poder e querer. E não podendo ou não querendo, é impossível. Torturantes as aulas para este tipo de alunos, torturantes as aulas para os colegas mais novos que ainda querem aprender e tirar uma qualificação, ainda que não alta, torturantes as aulas para os docentes que têm de apresentar resultados e sucesso a toda a força. "Faltam quatro meses para fazer 18 anos", escuto diariamente Até lá, tanta água passará ainda debaixo da porta da sala de aula. 

janeiro 08, 2014

Ponto a ponto enche a bloguista o post

             

1. Estou rendida à fisioterapia. E às pessoas que aliviam as nossas dores e nos devolvem à vida normal.
2. Não estou ofendida com o luto por Eusébio, de longe. Não é um homem da cultura, certo, mas nem todos podem ser. Era - é - um símbolo de Portugal, clubismos e intelectualismos à parte. Compararem-no a Mandela, contudo, não. Não comparemos o incomparável.
3. O meu CEF 35 hoje conversou em demasia mas acabei por me rir, ao menos houve e há cada vez mais bom ambiente. Nada mau. E quando não podes vencê-los junta-te a eles, num dia pouco habitual de maior brincadeira.
4. A praia onde vou desde criança, uma delas, a 5 minutos do local onde vivo agora, ficou sem o seu areal. Ondas brutais arrasaram bares mas o pior é o longo tapete de areia branca e fina que se foi.
5. Na Tunísia foram aprovados por larga maioria dois pontos essenciais para a sua nova constituição: igualdade entre homens e mulheres em todas as esferas e declaração do estado laico, ficando a religião a cargo do povo, cada qual escolhe a que quer ou não quer (há ateus nestes países, para que conste). Caso único em países árabes de matriz muçulmana.
6. As festas passaram e algum alívio surgiu porque os dias são, apesar do regresso ao trabalho desafiante e intenso, mais livres e meus. A canseira coletiva chega uma vez por ano.
7. Não raras vezes os pais telefonam para os filhos em plena aula. Ou não sabem o horário dos mesmos - coisa estranha a não ser que se tenham muitos em idade escolar - ou insistem num comportamento errado que prejudica a aula e que depois não lhes dá nenhum direito para criticarem um professor em determinadas áreas. 
8. Há pessoas que nos alegram os dias. Virtuais ou reais, ajudam-nos a reconciliarmo-nos com o mundo e os dias que nos parecem matar. E é bom quando não são assim tão poucas.