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setembro 28, 2014

Atrás de um grande homem


   
 
                   
Ontem ao rever uma boa parte do filme Troia, houve um frase que me ficou na memória, que não fixara da primeira vez que vira o filme, no cinema e já há alguns bons anos. Uma das protagonistas diz ao seu amado: "Não quero um heroi, quero um homem com quem possa envelhecer". Engraçado como Helena de Troia resume o pensamento feminino, acredito que em larga escala e através dos tempos, no que diz respeito ao amor e de certa forma ao casamento ou a algo que se assemelhe.

Na verdade, penso que é preciso muita coragem ou uma consciência social, política ou humanitária muito forte, por parte das mulheres, para aguentarem a ausência dos companheiros por longos períodos de tempo e em que o risco máximo esteja presente. O risco de eles perderem inclusivamente a vida e assim perder-se o amor. E não posso deixar de pensar também como é diferente o mundano chamamento dos homens em relação ao universo dos desejos mais profundos e intrínsecos das mulheres.

Nunca deixei de pensar nisto ao ver biografias sobre homens que ficaram na história e que se tornaram herois para gerações presentes e futuras. Um desses exemplos foi a vida de Che Guevara, um mito à escala mundial, que se perpetua na memória coletiva pelos seus ideais de revolução e liberdade. Mas, sobretudo enquanto via o filme de Steven Sodebergh, não deixava de interrogar-me: o que faz um homem com família, mulher e filhos, quando estava já instalado em Cuba, largar tudo e ir combater como guerrilheiro para a Bolívia, onde aliás perdeu a vida? A nível de abnegação por uma causa é notável, o sacrifício pessoal em prol de um projeto social, de um ideal de justiça. A nível familiar pensei na esposa que deixou para trás, como os homens deixam sempre as mulheres, fortes decerto mas decerto sofrendo, como as deixam na retaguarda, ao sabor de dias receosos, expetantes, sob o signo da ausência.

Da mesma forma, e não querendo de forma alguma estabelecer nenhum paralelo que não seja este, o das mulheres de armas que não pegam em armas, os guerrilheiros medievais do EI fazem exatamente a mesma coisa. Interrogados pela "Vice News", um dizia que tinha deixado a mulher os filhos e que estava ali por uma causa maior, que a causa era maior do que o resto. Não deixa de ser arrepiante, quando sabemos que a causa significa o terror e o anacronismo, mas o enfoque nesta questão serve o mesmo propósito deste post. E continua a ser algo que causa arrepios, se fundamentalmente do ponto de vista romântico e amoroso.

A coragem em os deixar partir é muita. Ou provavelmente nem se trata disso, são opções do mundo masculino que se regem frequentemente por motivações muito diferentes das do feminino. Eles querem partir, devem partir, o mundo chama-os, o ideal, certo ou errado, nem isso importa aqui, vão-se às as armas e à luta,  alguns voltam, outros não. De qualquer das formas trata-se de uma grande e decerto dolorosa prova para a mulher. Sobretudo se quis um companheiro para dividir as cores dos dias, se o seu coração é mais poderoso do que a cabeça, se não compreende os desígnios do destino e dos homens quando comparados com a alquimia do amor.

Atrevo-me a dizer que a grande maioria de nós, mulheres, não quer herois, à semelhança de Helena de Troia, mas apenas afeto e companhia, isto se falarmos numa base quotidiana e sem sonhar com grandes filmes. Se há delas que estoicamente resistem à saudade e à ausência e conseguem esperar, pelo regresso ou pela criação de uma lenda, outras há que sustentam o histórico longe da vista longe do coração. Admiro as primeiras mas não condeno as segundas. Poucas relações, creio, resistem eternamente às causas, ao apelo do mundo, ao sacrifício em nome do coletivo e em detrimento do estritamente pessoal.
 
O amor é pessoal, pessoalíssimo, e a construção de uma família também. Por muito que admiremos os herois do passado e do presente, não percamos a noção das suas bravas - infelizes? - mulheres na retaguarda. Honremos as que resistem e compreendamos as que sucumbem e anseiam por mais paixão a alimentar-lhes as horas. A esposa de Heitor, viúva, ganhou o estatuto de heroina mas, no filme, é Helena que envelhecerá como e com quem quer.

março 19, 2014

O fim do amor


Finalmente visto o filme "The End of the Affair", adaptado da obra de Graham Greene. Apenas 4 ou 5 personagens, 3 centrais, o par dos amantes e uma história densa, a aflorar os conceitos da culpa católica, geralmente cara ao escritor.
A dado momento, depois de uma promessa, Sarah decide deixar o amante. Despede-se com a frase love doesn´t end just because we dont´see each other. E compara isso ao amor por Deus, que as pessoas amam sem nunca o terem visto. A questão põe-se, pois, na possibilidade do amor se manter para lá da distância e da ausência física.
Há quem diga que sim, há quem diga que não. Pode amar-se alguém uma vida inteira, até à eternidade e estarmos a milhas fisicamente. Ou se não na geografia, a milhas da partilha de uma vida. É bem possível distrairmo-nos, iludirmo-nos, gostarmos de outrem e ainda assim manter o amor intocável, o verdadeiro, algures na memória de algo que desejámos e que não pôde ser. Mas também é possível porque bastante provável que a ausência física vá matando um sentimento que não se alimenta da espiritualidade e do platónico eterno alicerçado na distância. That´s not my kind of love, responde Maurice. Longe da vista, longe do coração, disse-se e diz-se ainda. Podemos então vir a distrair-nos, a iludir-nos e a gostar verdadeiramente de outro ou outra, em suma a amar alguém que não esteja longínquo. Ou então pura e simplesmente o amor desvanecer-se-á, sem influências alheias. 
Pode ser possível que um amor tenha acabado porque deixámos de ver alguém. Ou pode ser que não vendo o mantenhamos, ao amor, puro, forte e inabalável. Quem ama fá-lo como sabe ou pode, na ausência do outro, longe. Saiba-se se se quer continuar a amar na distância ou se se quer amar na proximidade. Se o querer aqui interessa para alguma coisa. Amar não é fruto da escolha, frequentemente, mas sim do acaso. Que pode trazer para perto ou levar o(s) amor(es) para longe.

fevereiro 09, 2014

Entusiasmo e fim




Há relações que estão condenadas desde o início, por mais voltas que deem e voltem a dar. Por isso, quanto menos alarido, melhor. Ou entusiasmo, embora seja muito difícil refrear este no calor dos primeiros momentos. Que até podem durar anos, é um facto. Mas o tal elo dissonante esteve sempre lá, nós é que não o vimos. Ou não quisemos ver. E um dia lá salta ele cá para fora. Não podia permanecer lá dentro, não senão de forma mentirosa. O alarido, então, passa rapidamente a silêncio. 

outubro 23, 2013

Amar é


Aconteceu ver a entrevista de um ator português no programa do Daniel Oliveira no passado sábado. O João Perry disse muitas coisas, umas que compreendo e partilho, outras, de todo, mas disse uma coisa que me ficou. A propósito da pergunta sobre o que é amar, gostar de alguém, ele disse algo que é uma excelente definição e que pode servir para definir o que é de facto gostar de alguém para mim também. Quando nós vamos a um lugar, quando nós estamos num determinado sítio e estamos felizes por lá estar, contentes por vermos o que sempre quisemos ver, ou agradados porque gostamos do que não esperávamos ver, e quando dizemos gostava tanto que o A estivesse aqui, ou quem me dera que o B visse isto, isso realmente é sinal de gostar. É, sim, e acontece-me dizer exatamente a mesma coisa - ou pensar. Esta é, pois, é uma das mais simples e verdadeiras definições de amar. Poupem-me os lugares comuns que falam do coração, do eternamente e do resto. É isto - é ver e apreciar e desejar que o outro visse e apreciasse. Connosco e igualmente. 

outubro 20, 2013

O tocante




Não sei se foram aqueles olhos, aquele rosto bonito, inesperado, aquela dignidade que se alicerça em sensibilidade, preocupação e amor maternais. Mas tudo isso, talvez, me tenha contagiado ao ponto das suas lágrimas, no fim, e como as tentou evitar e esconder antes, ao ponto das suas lágrimas quase arrastarem as minhas. Não era Diretora de Turma de miúdos no básico desde há 4, 5 anos. E como me tornei muito mais sensível a estas questões desde que eu própria fui mãe, não consegui deixar de sentir uma enorme solidariedade com esta mãe que me deixou com os olhos em estado líquido, embora, salva pelo meu espírito prático e força nestas circunstâncias, as lágrimas não tivessem rolado. Mas este post não é sobre mim, de longe, mas sim sobre mães que amam os seus filhos e que sofrem com as suas juvenis escolhas, próprias da idade, algumas vezes, de desacertos emocionais, outras, da influência das más companhias, tantas, de conflitos familiares, também.
A postura dela foi sempre correta, dialogante, recetiva, sensível. Quero muito ajudar o miúdo. Disse-lho. Ela está perdida no sentido em que não sabe o que fazer nem percebe o que se passa para o filho estar como está - porque é difícil perceber. Viu-se que as palavras tinham de ser reconfortantes, de apoio, de trabalho em conjunto, atento, vigilante mas tolerante, ao mesmo tempo que atuante. A luz que lhe emanava do rosto contrastava com a sua dor. Nenhum progenitor gosta - gostará - de vir à escola e não receber as melhores notícias sobre os descendentes. Mas se há quem negue e recuse o problema há quem o reconheça e com ele sofra, de forma transparente, sem filtros de espécie alguma. Digna e calma, sempre. E, depois, quando o garoto se foi, não aguentou mais e chorou. Mas as lágrimas chegaram de uma forma genuína, que queria travar, eu era uma desconhecida e não é fácil. Não é fácil ser mãe, educar, mesmo se o fazemos mais ou menos bem, ou até muito bem, pode haver coisas que nos ultrapassam. Uma mulher simples, linda, que me tocou muito. Resta saber se o aluno quer ajuda e quer colaborar. Deveria fazê-lo, pela mãe, e sobretudo por ele próprio. Torço por eles. Toquei-lhe no braço ou no ombro e disse-lhe vai tudo correr bem. Há palavras que têm ser ditas, em certos momentos. Só me resta acertar, por eles. 
Depois, já ao fim da manhã, entrou outra mãe, também preocupada e atenta ao filho. Acrescente-se que se trata de pessoas com vidas difíceis, a vários níveis. As notícias eram boas, muito boas. Parece que o passado ficou lá para trás, onde deve estar, e o menino está bem no presente, quiçá a delinear já um bom futuro. Também vi lágrimas no rosto desta mãe, de alegria, de alívio, de um medo que existia e que ali se atenuou, como num catarse inesperada. Sacudindo algumas dores interiores. Digna, educada, limpidez no rosto e nas palavras, amor de mãe puro. Que feliz fiquei - e estou - por ela. 
A manhã acabou assim, com dois momentos tocantes. Para acreditar que há esperança, porque há sempre gente boa, genuína, que tenta fazer o máximo, nem sempre o conseguindo. Nestes momentos, que no fundo marcaram o meu dia, também volto a acreditar que gosto de ser professora. 

agosto 24, 2013

Abnegação


Todos nós conhecemos juras de amor eterno, ou até mais imediato, quer porque as dissemos ou ouvimos quer porque as vimos no cinema. No écrã, suspiramos, geralmente, com as nossas histórias românticas favoritas e na vida real vamos suspirando, mais ou menos, consoante o estado de paixão ou a intensidade dos amores que vamos vivendo. Há frases que ficam realmente muito bem no cinema. Ou na literatura, dá no mesmo. São muito bonitas, absolutas, fazem-nos querer eternizá-las e quiçá experimentá-las, já que muitas vezes a vida imita - e quer imitar - a ficção. No entanto, por vezes é muito difícil reproduzi-las na realidade, sobretudo aquelas em que há um desvelo total pelo outro, revelando um amor tão forte em que um se propõe a fazer tudo pelo outro (ou ambos). Chamar-se-á a isto abnegação. E aqui é que as coisas se complicam. À exceção do amor pelos filhos, nenhum amor físico, erótico, me parece merecer o abandono da vida e dignidade próprias, se a isso tiver de levar essa tal renúncia a nós mesmos. Essa frase de ser capaz de fazer tudo pelo outro é talvez entendível no estado de paixão inicial mas já não o será a nível do amor mais maturado e até mais quotidiano. Na verdade, é estranho esse abandono de nós mesmos se levado a um alto ponto, se levado ao extremo. Aqui há uns anos vi Ondas de Paixão, um filme inquietante, que me perturbou imenso. Se bem me lembro era uma história em que o amor tocava esse extremo, ou melhor, em que o amor pelo outro era tal que se abandonava a dignidade própria e se fazia tudo, literalmente, ou quase, pelo outro. Acredito que haja almas muito apaixonadas e muito emocionais que se deixem levar pelas ondas de uma avassaladora paixão. Mas acredito que há outras que, mesmo apaixonadas, conservam sempre um pingo de racionalidade e de amor próprio. Desvelo total pelo outro versus ego, também é possível. E também entendível, já agora. Os excessos são perigosos, para além disso. Um certo distanciamento é natural, mesmo quando a flor da paixão brota e cresce intensa e rapidamente. O único grande amor que não conhece qualquer espécie de ressalva nem de salvaguarda pessoal é o amor por um filho. O resto é mesmo substituível, sempre. Sabemos que sim. Isso não quer dizer que não amemos e façamos até uma jurita de vez em quando - há quem o faça amiúde, e não quer dizer que dure igualmente. Interessa é estarmos bem no amor, de forma verdadeira, com ou sem palavras bonitas e absolutas. Nós e o outro. 

julho 20, 2013

Vida boa, muito boa e não boa ou o casamento tipo 1, 2 e 3


Apetece-me aventurar-me por aqui: descrever o tipo de mulheres no casamento. Segundo o que dizem e o que vemos, segundo o que acho e o que vou vendo.
1. As primeiras são aquelas de quem dizem "Lá em casa é ela que veste as calças". Confesso que esta expressão é engraçada, do ponto de vista de todos exceto seguramente do elemento masculino que ficou sem elas. Bom, na verdade elas é que mandam. São mais afirmativas, mais dinâmicas, mais dominadoras, mais duras de roer e, portanto, comandam o leme. Ora isto é bom. Deve ser, quer dizer. Imagino eu. Quem não gosta, afinal, de ter as rédeas e de fazer bom uso delas? Decidem, controlam, organizam, lideram, do outro lado obtêm maravilhosas cumplicidades traduzidas em silêncios e obediências. Ui, que vida boa.
2. As segundas são as dóceis, de bom feitio, geralmente, que aceitam que o seu homem dite as leis, imponha as regras, desde por a música de que gostam aos berros no carro ou em casa, levar a malta toda para ver as jogatinas de futebol lá em casa e pedir tremoços e cervejas em cima da coffee table, dizer o que devem vestir, seja para tapar seja para destapar, até dar às filhas o nome da mãe, da avó ou da tia favorita, enfim, uma panóplia de decisões mais ou menos unilaterais sempre recebidas com sorrisos e benevolências. Ora, isto é muito bom. Para os maridos e companheiros, claro. Eu se fosse homem era isto que queria. Vida muito boa.
3. As terceiras são aquelas que possuem um caráter indomável, que, obviamente, só traz complicações. Independentes, opinativas, não quer dizer que mandem mas também não gostam de ser mandadas. Se estas encontram o tipo de maridos em 1. a coisa até pode ir indo de forma razoável. Não dará para mais porque elas são tão complicadas que também só admiram quem não é seu súbdito. Se encontram o marido em 2, está tudo perdido e rapidamente. E se encontram um tipo 3? Ou seja, como elas e igualmente indomáveis? Que admirem mas que as exasperem por não fazerem as suas vontades? Pelo menos quanto desejariam? Difícil, difícil, os egos a colidirem e a testarem forças. Uma vida, está visto, não boa. 
Qual o par que resistirá mais tempo? Todos e nenhum, já que, ao que parece, qualquer deles pode naufragar (fica bem aqui esta palavra, a condizer com a conjuntura lusa). Em todo o caso, parece que há um quarto tipo de mulheres que pode sobreviver mais tempo a este tipo de intempérie. São as solteiras, que podem vestir as calças a tempo inteiro, por a música de que gostam onde querem e no volume que desejam, ser selvagens e ir até às ilhas todas (falando nisso e para condizer com a conjuntura lusa) enfim, ganham, nitidamente. Não quer dizer que as número 1 estejam mal mas têm de levar o marido com elas frequentemente - a não ser que eles fiquem em casa enquanto elas viajam e passeiam sozinhas, é possível - e portanto é uma liderança que comporta um certo fardo. 
Tem o casamento alguma vantagem? Assim, de repente, não, mas olha, não é que toda a moça quer casar? Enfim, a galinha da vizinha é maior do que a minha. Nada como experimentar. Pode ser que haja acordo (para condizer com a conjuntura lusa) e sejam felizes para sempre. Há quem diga que sim. Resta saber se em 1, 2 ou 3. Ou nem interessa saber de todo.


abril 21, 2013

With or without you


Gosto desta música, desde que ela existe. Mas não é apenas, para mim, uma boa canção pop/rock. A letra parece-me não ser assim tão linear, não tão apenas romântica. Na verdade, acho que pode ser profundamente existencial, mesmo se falar exclusivamente do amor.  Ou por isso mesmo.
Li há muito tempo que Liz Taylor e Richard Burton diziam que não podiam viver separados mas que também não conseguiam viver juntos. Dois casamentos e dois divórcios significam alguma coisa, não é verdade? Pois é um bocadinho deste tema que reveste muitas relações, amorosas ou outras. Talvez seja mais lógico falar das primeiras porque há depois, ou haverá quase sempre, uma divisão do espaço e uma partilha do tempo que se destaca das outras, e um projeto comum que as faz suster de especial forma ou não.
O que significa "não consigo viver contigo ou (nem) sem ti"? No caso das ditas estrelas cinematográficas, parece que era por serem extremamente parecidas. A sua combinação astral pareceria perfeita (ela, peixes com ascendente em sagitário e ele, escorpião com ascendente em carneiro), encaixando perfeitamente os elementos água, emoções e sensibilidade com os do fogo, ação e impulsividade. Atração máxima, entendimento máximo. Mas da mesma forma argumentos iguais, capacidade de luta igual, filmes interiores iguais, reacções iguais. Tudo misturado numa torrente emotiva considerável. Quando bem, é o melhor, o êxtase máximo, quando mal, o inferno.
As pessoas demasiado parecidas ou até iguais conhecem-se reconhecem-se rapidamente. Envolvem-se com frequência facilmente, descobrem o estado de paixão absoluta, tendem a racionalizar muito pouco, enquanto dura esse deslumbramento mútuo. O amor raramente é razão, sabemos. Ou quase nunca. Com os momentos fulgurantes iniciais da paixão a esbaterem-se por via natural, há que possuir um projeto de vida comum. Se este não existe, não se resiste. Mas embora ele possa existir, também nada nos garante que consigamos viver com o nosso amor. Ou ele connosco. Sobretudo se as emoções estiverem sempre um patamar acima da razão. Continuamente. 
Para o dia a dia funcionar, com as chatices e rotinas próprias, há uma parte emocional que deve ser desligada da ficha. Brilho, adrenalina, ardor, e outros, a tempo inteiro desgastam a existência. E o mesmo serve para a irascibilidade, a impaciência, a hiper emotividade. Eu diria que até são caraterísticas faiscantes, que acendem um relacionamento mas que também o podem aniquilar. Se não a nível do sentimento, a nível da coexistência. Viver no limbo das emoções e da reações, ainda por cima de forma igual, pode mesmo dar cabo de um amor que podia ter tudo. Ou que tendo, ou tendo tido, nunca desceu à tranquilidade de dias menos feitos de paixões.

janeiro 09, 2013

O amor não acontece

                                         
Tenho para mim esta ideia que muitos passam pela vida sem conhecer o amor. O verdadeiro, o sublime, aquele que vemos no cinema e nas paixões difíceis ou proibidas que nos deixam em êxtase. Não falo das pessoas solitárias, mas de todas, mesmo daquelas que tiveram ou têm tido um grande número de paixões e de relacionamentos. E das que se dizem felizes - e não temos motivos para duvidar - nos seus casamentos e relações estáveis. Entre estas todas, muitas há que nunca experimentaram o sabor do verdadeiro amor. Ou, que tendo-lo entrevisto, deixaram-no escapar. É uma ideia tola que tenho, esta, a de que ficamos muitas vezes pelas opções mais fáceis e mais convenientes, que não comportam grande risco nem dor. Nós e os outros, claro. Haverá química, haverá desejo, haverá romance, haverá fusão, física e espiritual, haverá exclusividade, e isso leva-nos a acreditar que estamos enamorados. E estamos. Há vários graus de intensidade no amor. Mas aquele amor brutal, não convidado, que irrompe de sentires não esperados, por vezes nem pretendidos, que, a ser vivido, traz uma boa dose de sofrimento de alguma espécie, porque significa cortar com o que é e tem sido, ora, esse amor não é para todos. Muitos nunca o viveram e, provavelmente, muitos lhe terão fugido. Teme-se, quantas, quantas vezes, um amor com esta força avassaladora, que abana as estruturas existenciais de alguém até aí.  Queremos o amor mais possível, que não faça sofrer e não nos dê trabalho. O romantismo perfeito e feliz, que dure e acabe bem, como nos contos de fadas. Pelo menos, que seja essa a previsão. Queremos o amor ao nível da camada mais superficial. Porque o outro, o mais profundo, a um nível que permitirá vislumbrar o sagrado, é coisa de filmes e de livros e de histórias que se podem dar ao luxo de acabar mal. E, no entanto, fugindo-lhe ou desconhecendo-o de todo, nunca se mergulhará na felicidade mais completa que é a vertigem de amar no maior limite.

dezembro 07, 2012

O menino


O menino de sua mãe nasceu.
O menino de sua mãe cresce.
Cresce a alegria de sua mãe.

O menino de sua mãe nasceu.
Enterneceu  e enternece os dias de sua mãe.

Anoitece. Breve, breve, o menino de sua mãe adormece.
E adormece, feliz, sua mãe.

(Poema em jeito de sem jeito nenhum para o menino de sua mãe que faz hoje cinco anos.)

novembro 20, 2012

O fim e o começo

"O casamento é o fim do romance e o começo da história.
Oscar Wilde



 Não sei se o casamento é ou é sempre uma desilusão agora que é o fim do romance... é. Pois que romance pode haver em quotidianos impregnados de tarefas não glamorosas e que sugam as energias? Que magia há em cestos de roupa para lavar, em peúgas espalhadas pelo chão, em louça acumulada no lava louças, em compras para fazer no supermercado, em esfregonas a bailar no meio da cozinha e entre tantas outras coisas que não existem no cinema? Que lugar para o romanticismo em espaços partilhados onde a resmunguice, a impaciência, a desresponsabilização,a exigência, a pressa, a falta de colaboração, a cobrança e outras fazem mossa à melhor das intenções?
O começo da história. Na verdade, uma história que deve ser vista realisticamente, sob pena da desilusão chegar cedo. Recordo uma ideia ou outra que já ouvi de mulheres ( pois nunca ouvi o mesmo de homens) que acharam que o seu casamento  significava a almejada chegada da liberdade. E eu a pensar que se sai da prisão da influência dos pais e se passa a morar no cárcere das explicações e compromissos. Compreensíveis, mas que nos roubam liberdade - a nós e ao outro. Outra ideia é a de que o casamento é  ou ia ser para sempre. Como assegurar que será eterno? Esperamos que seja. é tudo, e já vamos com sorte... Cada dia que passa é uma vitória - frase que digo amiúde e como ficam estarrecidas algumas almas à minha volta. Do género o que quererá ela dizer com isso. Mas eu penso e pensei sempre assim, desde o primeiro dia, o encantamento é para quebrar, ao passo que outras coisas são para fortalecer. A história começa - com os altos e baixos, alegrias e tristezas, cumplicidades e divergências. Não sempre pior, não necessariamente pior, apenas muito diferente. O romance é o antes. O resto é o depois.

novembro 06, 2012

Quando nos enamoramos?

"Enamoramo-nos quando estamos prontos para mudar, quando estamos prontos a deixar uma experiência já feita e gasta e temos o impulso vital para realizar uma nova exploração, para mudar de vida. Quando estamos prontos a tirar proveito de capacidades que não tínhamos explorado, a explorar mundos que não tínhamos explorado, a realizar sonhos e desejos a que tínhamos renunciado. Enamoramo-nos quando estamos profundamente insatisfeitos com o presente e temos a energia interior para iniciar outra etapa da nossa existência. (...) O enamoramento acontece quando encontramos alguém que nos ajuda a crescer, a realizar novas possibilidades. A ir numa direção que corresponde às nossas exigências interiores. (...) O estado nascente amoroso é a tentativa de mudar radicalmente a própria vida. (...) Todos os enamoramentos são potencialmente revolucionários."
Francesco Alberoni, "Amo-te"

Absolutamente. É preciso um desencanto, um vazio para que o amor a sério possa nascer. Não surgirá se quisermos continuar da mesma forma, com as mesmas rotinas e hábitos, se insistirmos em atividades e divertimentos a toda hora, sem pausas para sentir o desalento, a inutilidade, a extrema necessidade de uma mudança radical. Só insatisfeitos nos poderemos enamorar. O que, espantosamente, pode ser tranquilizador. Resta apenas encontrar alguém que nos faça entrever e entrar nesse outro mundo.

agosto 29, 2012

Antes e depois do amor



O Moínho, de Eça de Queirós, é um belíssimo conto sobre o desassossego em que se pode tornar a existência. E sobre a existência de sonhos românticos que alteraram a ordem de uma vida, esvaziada de paixão. Esta, uma vez instalada, pode fazer abanar a mais bondosa e altruísta das almas. Pois pode fazer cair a mais insuspeita figura, transformar-lhe o caráter e levá-la a loucuras que nada nem ninguém fazia prever. É a tal questão das expetativas. Se não se sonha alto a existência decorre mais ou menos sem sobressaltos. Se se ousa sonhar e desejar algo a quietude esvai-se. E isso pode correr pelo melhor ou não. A paixão é uma coisa diabólica. Há alguns anos li uma entrevista em que um cantor da nossa praça dizia que não queria estar apaixonado, que isso dava uma grande trabalheira. É verdade. A protagonista passa de santa a flor da paixão e da rotineira cadência dos remédios em família passa para a canseira de sustentar o amante. Se pusermos de parte qualquer laivo de romantismo que exista em nós, é verdade. É o desassossego maior. Bem ou mal sucedida, enquanto dura, a paixão é cá uma coisa. Mas, depois e afinal, quem não deseja experimentá-la?

agosto 02, 2012

Os amores impossíveis

    
Não, não vou falar nem de mim nem de ti nem de ninguém cuja(s) história(s) tenha(m) ou não tido contornos de impossibilidade romântica. Não vou falar sequer do que nos rodeia, do real. Vou falar da tela. E na tela, realmente, aquilo que me fez ficar sempre com um nó esquisito na garganta não foram os dramas familiares a puxar ao sentimento mais fácil nem os melodramas óbvios com histórias a acabarem bem. Realmente, não. O que sempre me arrebatou foram as longa-metragens, geralmente biográficas, em que há invariavelmente um final que nos dilacera, que nos faz doer, que nos põe a dizer não pode, não pode. Mas estes impossíveis romances hão de ter um traço em comum, hão de ser vividos em grandes espaços ou estarão a rebentar de exotismo ou ainda a fazer-nos entrar numa outra época. Quase e quase sempre. Estarão fora, longe, longérrimo de casa. Terá de haver quase e quase sempre uma viagem...

1. O comboio a largar vapor. O caminho de ferro na paisagem aberta. A música de john barry. E o diário de quentes memórias a ser folheado. "I had a farm in Africa.... I had a farm in Africa at the foot of the Ngong Hills..." Não me canso jamais deste filme. Sei diálogos de cor, os cenários e as personagens fazem parte do meu imaginário romântico, impossível resistir. Sobretudo, e curiosamente, a personagem de meryl streep. A dinamarquesa que interpreta marcou-me pela coragem, pela força, pelos sentimentos fortes, pela ação, pela emoção. A história de amor que viveu com o aventureiro inglês foi interrompida pela sua óbvia possessividade e necessidade de exclusividade mas também pela clara incapacidade do companheiro de assumir compromissos. Foi também interrompida pela morte. Em Tsavo, uma avioneta despenha-se para nos fazer chorar. E, depois do fogo, interrompe-se também a história de amor com África. Há que voltar a uma Dinamarca fria, sem riscos, sem poder ter "a glimpse of the world through god´s eyes" ou seja sem viver no limite e no perigo e na incerteza. E quando os leões acasalam na sepultura do amante, pelo final da tarde, e quando os cânticos africanos femininos são entoados ("will Africa know a song of me?") e quando tudo acaba é triste, triste, triste mas tão estranhamente belo, tão belo.

2. É a barca. É a barca do Mékong. Assim se pode ler nas primeiras páginas do livro de marguerite duras. Mas no écrã a sedução não é menor. Uma mulher em Paris recebe um telefonema do Oriente. Um homem diz-lhe que sempre a amou que nunca a deixou de amar e que a amará sempre. Parece piegas, conversa fácil. Mas não é. E não é porque a mulher nos transporta depois para uma história de amor entre uma adolescente francesa e um homem chinês a que é impossível ficar indiferente. Para além do ambiente intenso que inconfundivelmente carateriza o Extremo Oriente e da estranha intensidade da sua relação, o filme aflora também algumas diferenças culturais entre as personagens. Culturais e sociais. A sua história de amor é interrompida pelas imposições da sociedade na qual se inserem. Ele, adulto, não tem força suficiente para traçar o seu próprio destino. Ela, adolescente, não tem maturidade suficiente para discernir sobre os seus sentimentos. Ou melhor, sobre o sentimento. A história é também interrompida pela distância. O período colonialista chega ao fim, os franceses saem da Indochina e a "criança" volta, num navio, para longe da intensidade. Lembro-me bem dos rostos e das cores quentes e do carro no cais. Novamente, quando tudo acaba, é triste. Mas, novamente, é muitíssimo belo.

3. A charrete. A charrete apressada e o toque das mãos também apressado. A paixão que não irá ser consumada. A história de newland e de helen, numa idade de inocência. O pano de fundo, a sociedade nova-iorquina do século dezanove. Trata-se aqui, e sobretudo, de um incrível ensaio sobre a renúncia. É também uma história em que uma mulher de alta sensibilidade (que fantástica está a michelle pfeiffer aqui), vinda de uma cosmopolita Europa, quase que revoluciona o ritualizado status quo implantado. E é maravilhoso e paradoxal ver que só não o faz pura e simplesmente por amor. De personagem com laivos feministas a heroína romântica, renunciando ao amor para não magoar quem ama - amado, família. Contudo, a sua história é também interrompida pela incapacidade de agir revelada por newland, que, preso a esquemas culturais, não consegue libertar-se a tempo. Acaba, assim, por continuar com uma vida de representação, encenação, no papel de mero contemplador. Simples esteta. Afinal uma ópera começa o filme... Como desejamos que ele tivesse agido. Em Paris, para onde ela voltou, quero empurrá-lo apartamento acima, desejo tanto um final feliz, mas não, a mesma sensação de tristeza e, mais uma vez, a constatação que algo muito belo acabou. O pano cai, no escuro do cinema, as "yellow roses" deixaram de nos trazer luz...

De volta à vida real, não queremos nós viver coisas tão intensamente impossíveis. Queremos ser felizes, seja lá o que isso quer dizer, mas queremos tornar as coisas possíveis. É bom que o consigamos, é muito bom. Mas, e de qualquer maneira, viajar por estes amores pode ser uma fascinante incursão ao mundo da mais intempestiva e/ou inquieta e/ou sublime paixão.

junho 09, 2012

Porreirismo



Ontem na leitura de um post do PRD li que as pessoas porreiras também dizem coisas como "vai-te lixar" no meio de brigas conjugais e coisas parecidas que só parecem pertencer a quem não é porreiro e quem não controla bem e educadamente as emoções.  Pois bem, manancial do melhor para uma reflexãozinha, portanto. 
Oh pá, afinal os porreiros, os educados, os formados e os de bem com a vida no geral também vivem cenas destas. Também dizem palavras menos polidas, e aquela expressão é a mais delicada, quer-me parecer, também descambam em impulsos como bater com a porta, também gritam e se desiludem, até porque também se divorciam. Sim, os porreiros. E tornar-se-ão menos porreiros por causa disso? Obviamente que não. Esse era aliás o cerne do post, que aliás era uma transcrição de parte de uma entrevista lida no Público pelo jornalista. A questão que se levantava era que os indivíduos não são monstros por dizerem e fazerem coisas destas. E que a arte o(s) deveria mostrar, que um museu qualquer os deveria retratar nestas lutas conjugais do dia a dia, que os humanizasse aos olhos da sociedade, uma vez que são comuns e que fazem parte da condição humana com as suas limitações e fraquezas. 
A arte não deve glorificar o que é mau mas deve aproximar o real das leituras possíveis. Assim como o afeto, o ciúme, a paixão, o sexo e o casamento, a desavença deve ser encarada como parte integrante da dimensão imensa do amor ou dos caminhos sinuosos do amor e da relação amorosa. Que não contem palavras doces é uma realidade, que é duro de ouvir e que explode num chorrilho de impulsividades escusadas muitas vezes também. Que faz estragos, idem aspas. Mas porque negá-la? Porque alimentar sentimentos de culpa e de vergonha quando é mais abrangente do que se pensa? 
As brigas são do caraças. Não são nada porreiras. Mas porreiros ou não, todos as conheceremos. A menos que não vivamos intensamente a relação amorosa. Ou que sejamos estranhos mestres no controlo total das emoções. Portanto, encaremo-nos com mais naturalidade. Da próxima vez que visite um museu, olhe bem para a galeria de imagens. Pode ser que se reconheça lá. A dizer "vai-te lixar", claro. E sem deixar certamente de ser porreiro. 

junho 07, 2012

A invenção do amor


Ah o amor...
O que foram inventar
Uma história tão bonita no cinema
Especialmente porque não há roupa para lavar.
Ah o amor...
Quem já o viu nascer 
Sabe as coisas tontas que nos faz dizer.
Quem já o pôde sentir
Conhece o entusiasmo do início
O quanto nos fez chorar ou rir.
Ah o amor...
Como sem ele os dias passar?
Mesmo crescido, com louça e tanque, fora do écrã e dos livros
É bem melhor com ele morar.
Ah o amor...
Que invenção foram criar
Como uma peça delicada que meticulosamente temos de manter
Que trabalheira essa que nos foram dar
Ah o amor...
Que história bonita nos fizeram docemente entrever.

maio 12, 2012

Os nossos filhos são e não são nossos


             

O tom religioso em O Profeta de Kahlil Gibran parece à partida não se coadunar com os tempos apressados, desumanizados e dir-se-ia quase “ateizados” que correm. Mas, espantosamente, o seu conteúdo é intemporal e, por isso mesmo, atualíssimo para os dias de hoje. No capítulo que dedica aos filhos, diz-nos que os filhos não nos pertencem, que têm os seus próprios pensamentos. Uma coisa que parece óbvia, há tanto tempo, e que, na prática, é geradora de muitos problemas.
Para muitos pais, é muito difícil a aceitação de que os filhos não são o seu prolongamento. Para quase todos nós, poderá avançar-se. Prolongamento do seu projeto de vida, dos seus sonhos, do seu ego, das suas vaidades, dos seus devaneios de criança, até das suas frustrações (já que não pude ser ao menos que tu possas…). É-lhes muito difícil que os filhos façam escolhas diferentes daquelas que eles próprios preconizaram para os mesmos, que rumem a sítios por eles impensados e por isso impensáveis, que se atrevam a contrariar muitas das suas expetativas em relação a amores e orientação sexual, a carreiras e sonhos de protagonismo, a estilos de vida e até de imagem e look exterior.
Quantos problemas geracionais na família se poderiam evitar se a filosofia do let (it) go pudesse acompanhar o amor incondicional que se tem por um filho? Deixar fluir um pouco mais as suas próprias ânsias e desejos, deixá-lo ir ao encontro do seu próprio caminho? Nem sempre é fácil, porque julgamos saber o que é melhor para os nossos filhos, muitas vezes queremos tão somente protegê-los de adversidades maiores, mas a nossa bitola deixa de saber medir quando eles crescem e fazem escolhas que nós também ousámos fazer, noutros tempos e noutras circunstâncias. Há um corte, algures, que terá de ser feito, saudavelmente feito, sob pena de comprometermos o crescimento de alguém que não pode ficar pequenino e dependente para sempre. Porque nós também já nos libertámos. E se não o fizemos é porque não atingimos a maior idade psicológica, aquela que existe para além da data no calendário.
Há pais que, amando os seus rebentos, lhes fomentam a autonomia e lhes proporcionam um crescimento saudável (não estamos a falar da amamentação nem da alimentação, por favor, a maternidade e paternidade não se esgotam na satisfação básica destes e outros aspetos) e harmonioso, que vai respeitando as personalidades e preferências e aptidões dos filhos, desde pequenos até adolescentes e adultos. Já outros, amando-os na mesma, porventura aqueles que focam a educação nas necessidades básicas em detrimento de outras dimensões (não vendo a parentalidade como um todo), são extremamente rígidos com a diferença, a originalidade, a sensibilidade, até o talento, ou a falta de identificação com eles mesmos. Então, procuram à força que os filhos sejam iguais a eles, caindo em atitudes de rigidez e inflexibilidade que muito ferem quem não entende porque diabo há de ser igual, pensar de maneira semelhante.
Há resultados catastróficos em educações deste tipo, expetáveis e imagináveis para quem vislumbra para além do que parece ser apenas uma educação rigorosa e apurada. Elas parecem residir e residirão também no amor, que afinal todos sentem, mas acima dele está algures uma ordem qualquer, algo de difícil definição, entre o amor e a exigência dura, despudorada, mecânica, tacanha, vaidosa, sem afetos e mil coisas mais.
É maravilhoso ser-se mãe e ser-se pai. É também difícil sê-lo e não cometer erros. Mas não queiramos ser donos dos nossos filhos ad eternum. Há e haverá uma altura em que eles se soltam e soltarão. Para o bem, se para o bem os tivermos, no amor, educado. E para o bem, esperando que tenham a maior sorte deste mundo. Para o bem deles e, assim, para o nosso.
 publicado no site baiano onde colaboro

maio 06, 2012

Emoção




Quando era miúda, pré-adolescente, já nem sei em que ano foi, falava-se muito de um filme em que um casal disputava o filho após o divórcio : Kramer contra Kramer. Quando, posteriormente, o vi não percebi a razão pela qual as plateias tinham ficado tão emocionadas com uma história sem aventura nem romanticismo, sem viagem de espécie alguma, bem como gosto. E não entendi durante anos.
Nunca mais vi esse filme. Mas sei que, se o visse hoje, me emocionaria de forma não imaginada naquela altura em que não sabia o que era ser mãe. Porque muito mais emocionante e tocante do que ser filha é ser-se mãe. Não se entende uma mãe, a nossa mãe, até o sermos também. E por isso, porque esses olhos são indubitavelmente outros, a pequena tulipa de papel e o saco de pano com o meu cabelo comprido pintado de forma possível por um pequeno soube a tanto hoje, a mais do que tudo. 
Para as mães, pois. A nossa e a dos nossos filhos.

abril 06, 2012

Amizade enamorada



Pode a amizade assemelhar-se ao amor no que pode ter de mais negativo?
Pode. Os amores que prendem demais as vontades, que vigiam os movimentos, que controlam os círculos sociais de forma obsessiva, não são, facilmente, coisa de que se goste. Digo eu, e na maior parte dos casos. O ciúme extremo e os infernos a que pode levar à partida parecem só pertencer à esfera do amor, numa vivência de quem vive a cem, duzentos por cento a paixão. Ou o poder que dela querem fazer brotar.
Quando falamos em amizade, à partida definimo-la como algo de bom, algo que não cobra nem se pode cobrar. As pessoas escolhem os seus amigos, não vivem com eles, não existem compromissos de mil e um aspetos onde é preciso ceder, retroceder, negociar, jogar até. Os amigos sentem-se bem juntos, conversam, dão gargalhadas, bebem uns copos, vão à praia e ao cinema, exercitam o corpo no ginásio ou ao ar livre, marcam hora ou não, vão e veem, veem e vão. Confiam segredos, podem contar uns com os outros, cultivam afinidades e percorrem caminhadas de ousadia e perigos juntos, tantas vezes.
Há amizades que são de sempre, que duram anos e anos, uma vida até. Há outras que foram e não são mais, outras que surgem, outras que se renovam depois de interregnos voluntários ou não, amizades físicas, bem reais que passam por um generoso aperto de mão ou um sincero abraço, e outras pode haver virtuais, porque reconfortantes em palavras e ânimos que vêm de longe, às vezes sem rosto, mas que ainda assim podem ser pilares de apoio em momentos mais difíceis.
O amor terá disto, é certo, mas muito mais. Definir e descrever o estado amoroso podia de facto passar por falar de aventuras partilhadas, mas iríamos muito mais longe, mais devagar, porque o amor, sobretudo se só revestido de aspetos positivos, dar-nos-ia asas para voar bem e bem alto.
Como pode então a amizade adquirir contornos negativos que lembram o amor possessivo? De várias formas. Se os nossos amigos nos acham propriedade exclusiva deles, tolhendo-nos inclusivamente desejos e programas, então estamos no bom caminho para responder à pergunta. Ou no mau, mais exatamente. Se eu quero explorar novas possibilidades de amizade e me sentir coagida a não fazê-lo, porque pertenço a um grupo de amigos em exclusivo que não me libera, então estão a prender-me. O facto de sair sistematicamente com alguém, ou em grupo, não me pode roubar a liberdade de ocasionalmente não o fazer. A ciumeira de amigos não faz sentido – o medo de perder o amigo não é real na amizade verdadeira. Porque podemos ter amigos por diferentes razões, porque nos dão coisas diferentes. Um diverte-me, o outro aconchega-me. Um compreende-me porque vive o mesmo, o outro dá-me uma perspetiva nova porque não vive o mesmo. Com uns partilho medos e fragilidades, com outros partilho ideias loucas e planos aventureiros. E posso desejar estar com eles em momentos completamente díspares, assim sendo. O facto de não fazer tudo com o mesmo amigo não pode deixá-lo enciumado e a cobrar presença ou afeto o tempo todo em exclusivo.
Namorado existe para dar dor de cabeça também, amigo não. Namorado existe para perguntar onde estamos, onde vamos e a que horas, amigo não. Namorado usa relógio, amigo não. Namorado é chato, amua e faz birra, amigo não. Namorado desconfia, credo mas é verdade, amigo só confia. Namorado faz beicinho quando a paixão comanda a razão, amigo não. Amigo não pode funcionar com alavanca de paixão. Namorado amarra, amigo não tem amarras.
Porque se tem, o seu conceito de amizade anda um bocado baralhado. Claro que a maturidade tem muito a dizer neste processo, no amor ou na amizade. Alguém maduro deverá, deveria, controlar exageros de possessividade e ciúme juvenil. E nós também crescemos e amadurecemos. Não se aceita, e focando-nos na amizade, quem controla a nossa vida. Amigos a sério respeitam o nosso espaço, físico e psicológico e nós o deles. Ser feliz é ser livre. Ser feliz é ter amigos que nos deixem sê-lo.
(escrito para o site baiano onde colaboro)

fevereiro 22, 2012

Quando o amor vier ter convosco *

  
Uma amiga enviou-me um excerto de um texto de Khalil Gibran sobre o amor. O conhecido texto, dirigido à segunda pessoa do plural, tem, de facto, algo de profundamente religioso, como dissera assim que lhe dei conta da leitura.  Sem intenção de comentar a intenção do autor, cuja obra fui depois brevemente googlar, não deixa contudo de nos fazer querer perceber o que é o amor.
Assim de repente - É o amor uma espécie de religião? Que incondicionalmente cresce a partir de um objeto amado? Ou não deve contemplar nenhuma adoração ainda que seja quase sempre uma grande dádiva? É difícil definir o amor se visto na suas múltiplas facetas. Romance, amizade, erotismo, paixão, parentalidade, sexo, solidariedade e outros podem servir-lhe como sinónimos ou sub formas, não conseguindo defini-lo unicamente mas para lá caminhando se num todo. Mas se nos cingirmos ao amor comum, que brota da seiva que alimenta a vida de dois seres que querem um encontro de dois mundos, poderemos começar por aí - e não necessariamente acabar. 
Alberoni chama-lhe estado nascente, em que há um despertar de pelo menos um para uma nova existência. É o amor revelação, projeto de vida, revolução. No seus livros, Enamoramento e Amor e Amo-te, discorre sobre esse novo estado, em que o encontro de duas almas que querem renovar-se não é exatamente sinónimo de fusão total. É uma união de vontades, de ânsias que são novas, ou então velhas mas adormecidas,  mas não me parece que seja a entrega - amai para sangrar - que sinto no amor religião do texto de Gibran. É mais pragmático, e ainda que signifique comunhão de sonhos ou ideias, não chega à brutal espiritualidade embrenhada no  texto que recebi.
Claro que o autor de origem libanesa usa esta e outras imagens de dor que podem afastar a noção de prazer geralmente associada ao amor, e assim afastar-nos. Mas, é certo e sabido, nem sempre ele é prazeiroso e fácil, os seus caminhos podem ser insondáveis e mesmo tortuosos. Os grandes amores não chegam facilmente e, por vezes, partem antes da hora. Há até grandes amores que poderiam ter sido.Também não possuímos os nossos amores, vamos até onde ele, o amor, nos deixa ir. Querer aprisioná-lo não nos garante o amor. Devemos recebê-lo mas não prendê-lo.
Pessoalmente acho mais inconcebível o amor adoração que cega e ilude o lado menos pacífico, este estado estará mais próximo de uma paixão inicial que é impossível comportar a longo prazo. Mas já o vejo como uma escalada conjunta que implica cedências e dúvidas, mas também apoio e generosidade. E vejo-o definitivamente como não possuir nem ser possuído, embora seja tão difícil, tão difícil essa libertadora abnegação. Os fisicamente observáveis orgulho e possessividade teimam, tantas vezes, em reinar sobre o espiritual.
Entre Alberoni e Gibran, e tantos outros que o conheceram e sobre o amor escreveram, está algures a definição certa. Ou então pode até não ter definição nenhuma. Na proliferação de teorias sobre o que é o amor, retenhamos aquela que nos faz sobreviver dentro dele. Se possível, pois, com menos dor e mais coração alado.


1. * É a primeira frase do/a texto/versão que me foi enviado/a.

2. Texto completo Pela voz de Letícia Sabatella