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outubro 16, 2014

Detestando quem detesta

Um dos miúdos mais complicados que já tive até hoje perguntou-me o significado do que estava escrito no seu boné: I love haters. Expliquei-lhe, não tendo bem a certeza que tenha entendido, mas como ficou calado deduzo que tenha consentido. Mas o propósito deste apontamento é servir de mote para dizer exatamente o contrário: "I hate haters". Os haters estão na moda - até há grupos de haters, certo? - e é vê-los, quer dizer lê-los e senti-los com força pela internet fora, por exemplo, apesar de os haver também ao vivo e a cores, infelizmente neste caso a vida virtual também é um brutal eco da real. Mas quem são estes haters, afinal? São pessoas que se dedicam a odiar, é uma explicação. Com tudo o que isso implica e traz. Podem ficar-se por ódios de estimação específicos e declarados, desde pessoas de sucesso a profissões ou atividades e mais. Outra é que os haters são pessoas altamente frustradas que desdenham de tudo e de todos. É que há quem não goste de nada - criticam, denigrem, destroem, sobretudo invejam. Também é possível a explicação de que possuam um elevado nível de exigência em relação a tudo e todos, de tal forma que não conseguem deslumbrar-se com nada. Perder a capacidade do deslumbramento é chutar para bem longe os resquícios da infância que muitos outros possuem naturalmente e que outros tentam manter a todo o custo. Por fim, esta negatividade dos haters poderá advir de um conceito de autoestima pretensamente elevado mas profundamente baixo. Dessa forma, a sua suposta superioridade faz disparar setas em todas as direções mas, na verdade, é o desconforto em relação a eles mesmos que despoleta os ódios. É normal gostar-se de e não gostar-se de. Normalíssimo. Quando se faz culto de ódios exagerados e primários, meramente passionais e não razoáveis, já o será menos. Não gosto de quem não gosta de nada e sente prazer em destruir. O negativismo constante e demolidor não faz parte dos meus dias. Cá dentro, e apesar do "hate haters" lá em cima, ainda triunfa o bem.

outubro 10, 2014

Elevar a fasquia

 
Andamos todos uns contra os outros. Quer dizer, puseram-nos e vão-nos pondo uns contra os outros. É preciso resistir a isto, não deixar que o mal estar se instale entre nós, que não invejemos e queiramos o mal dos outros apenas porque nós não estamos bem ou tão bem quanto desejaríamos e merecíamos. Devemos desejar o bem para nós, reclamá-lo, em vez de querermos que os outros passem também eles a estar mal. Explicando. Somos contra certos direitos dos outros porque não os temos, admitamos. E o mesmo com benefícios ou vantagens. Mas que tal exigirmos que também os tenhamos e não, pelo contrário, contribuir para que desapareçam? Podemos ver isso na questão dos direitos adquiridos que foram ao ar. Muitos regozijam-se com a perda desses direitos, de pessoas mais velhas na profissão ou até de pessoas com mais poder e com mais dinheiro. Não devíamos ao invés mantê-los e alastrá-los, abrangendo-nos a todos? Se não agora, para quando lá chegássemos, sobretudo se falarmos em termos de idade? Nada tenho contra os direitos ou até privilégios de mais velhos se eu própria vier a beneficiar deles também. Donde nos vêm esta tola insistência em nivelar por baixo quando devíamos exigir e conseguir o nivelamento por cima? Se consideramos que estamos em desvantagem que tal lutar para conseguir chegar à vantagem? O mesmo para as condições de trabalho - porque estamos em crise e há, infelizmente, gente sem trabalho devemos aceitar tudo sem reclamar? Devemos baixar os braços e deixar que tudo se deteriore? Devemos sentir-nos contentes porque perdemos - ou outros perdem - qualidade no trabalho? O mal estar entre as pessoas, sobretudo a nível profissional, alimenta-se das injustiças, é certo, mas também da invejazinha decorrente da frustração de quem não luta para abolir essas mesmas injustiças. Mas que possam ser abolidas nivelando por cima e não por baixo. Se A tem um mais lutemos para que B também o tenha. Não há nada de dignificante na ausência e perda de direitos e regalias de quem trabalha ou trabalhou. A dignificação está em conseguir que todos nós deles possamos usufruir. Não há, em última instância, nada de dignificante na pobreza, se extremarmos a questão. Pessoalmente não desejo que a riqueza desapareça, quero é que a miséria despareça. Acabar com os ricos é, se pensarmos bem, uma estupidez. Acabar com os pobres, sim, uma urgente e permanente justiça . Almeje-se à igualdade por cima, insisto, com melhores condições de trabalho - e de vida - por parte de quem as tem inferiores. Almeje-se à equidade com a fasquia alta, muito alta. Testemunhem-se, resumindo, saltos e não quedas.

outubro 08, 2014

Rapidíssimas

 
 
1. Não compreendo, por mais que me esforce, como é que o Ministro da Educação ainda não apresentou a demissão. Ou como é possível que não o tenham feito por ele.
 
2. Eu até achava piada ao Zeinal Bava por ser exótico. Fez asneira, pelos vistos, não pequena, pelos vistos. Ouvi hoje que se demitiu. Sempre tem mais caráter - vergonha? - do que o de cima, apesar dos pesares.
 
3. Os raides aéreos parecem não estar a resultar no Estado Islâmico. Razão tinha quem disse que essa não seria a solução ideal (embora eu não saiba qual é, já agora e infelizmente).
 
4. Ontem assustei-me a sério com as informações sobre o ébola. Isto sim, devia e deve preocupar a humanidade. Se em vez de desunirmos e destruirmos construíssemos unidos...
 
5. Seja em que partido for e seja que nome for, prefiro alguém que me diga que é prematuro dizê-lo do que alguém que promete não baixar impostos. Primeiro a honestidade, em último a demagogia.
 
6. Outono verão, outono inverno, outono verão, outono inverno... Mas o que eu queria mesmo era o verão verão. Que saudades do sul. A sul é-se sempre mais feliz. Talvez me mude..

outubro 05, 2014

No mundo dos surdos num mundo de surdos



Ontem assisti no Coliseu do Porto à peça Tribos, da autoria da inglesa Nina Raine e trazida por António Fagundes a Portugal. Não se tratando de uma alegoria propriamente original - a ideia da surdez física ser menos cruel do que a surdez emocional - a verdade é que momentos como estes levam-nos indiscutivelmente a confrontar-nos com as nossas muitas intolerâncias mentais, as quais excluem da nossa vida tudo e todos os que se apresentam, pensam ou regem sob ângulos de diferença variados.
Afinal, quem é o surdo? Aquele que não ouve por deficiência orgânica ou aquele que, saudável, não quer e não sabe escutar? Quem é que tem dificuldades evidentes de comunicação? Aquele que não sabe o que são sons, lê os lábios ou usa a linguagem dos sinais ou aquele que, fisicamente são, se fecha em si mesmo, nas suas razões e nas suas ideias, incapaz de se colocar no lugar do outro? Surdez psicológica de quem não sabe ouvir. Incomunicação de quem não quer ou não sabe chegar ao outro. De tantas formas, em tantos lugares. Este é o universo dos desafetos que exclui invariavelmente os surdos e os portadores de uma deficiência mas também tantos outros que estão fora do padrão de alguma maneira.
A peça centra-se numa família disfuncional, mesmo segundo as palavras de Fagundes proferidas durante a conversa com o público depois da peça, e em que as relações são povoadas de agressividade, palavrões e barulho. Um ruído que conota a ausência de serenidade e confiança, que reforça por contraste o isolamento das personagens e a sua alienação num quotidiano de frustrações e de conflitualidade. Fagundes caraterizou a peça como "uma comédia perversa" e de facto são vários os apontamentos de humor negro e de uso do vernacular que nos vão, talvez perversamente, pois então, arrancando umas gargalhadas. Em todo o caso a intriga toca-nos e a mensagem é clara: a surdez da alma é mais comum e trágica do que a surdez real. Basta estar atento para perceber isso. Basta, numa palavra, ouvir.

outubro 03, 2014

A bem e não a mal

 
Sim, sou uma eterna romântica. Não resisto a uma boa história de amor, sobretudo se mistura cinema e exotismo. De tal forma que fiquei de quatro pelo romance que correu mundo nestes últimos dias. O casamento, melhor dizendo. Lindo, de espírito global, à grande e à italiana. Também eu sucumbi ao charme do enlace, também eu "googlei" para ver as fotos e saber mais sobre a love story, também eu me deixei apanhar pelo guarda roupa da noiva e pela beleza que caraterizou o evento. Eu, que nem sou dada a celebrações nupciais. Bom, um salão de festas qualquer aqui na região não consegue competir com os canais e os convidados cintilantes deste mega casório, deve ser por essa razão. Mas o que o tornou especial talvez seja afinal bem mais do que isso. No meu caso, este nó cativou-me por ser internacional e intercultural, por se tratarem de duas pessoas maduras, num registo sem escândalos, sem atilhos, absolutamente clássico, a deixar um incrível toque de sedução e romantismo.
Sobre George Clooney, já havia escrito aqui umas linhas. Não fazendo parte do meu atual top 5 no que diz respeito a atores de eleição, considero que se trata de um homem real real realmente bonito, simpático e elegante, que tem uma faceta humanitária que muito aprecio. No ecrã é igualmente cativante - tenho vindo a apreciá-lo cada vez mais - e achei graça, muita graça, ao eterno solteirão (ou quase) que jurava não casar nunca mais e que agora ostenta uma aliança no dedo à escala mundial de forma nitidamente feliz. E se alguém está feliz assim, eu feliz fico logo logo a seguir. E a noiva? Quer dizer, a Sra Clooney, neste momento? Não a conhecia antes mas aprovo-a completamente. Exótica, independente, diferente. Acho que irradia luz. Para além dos outros atributos que lhe são dados, a luminosidade já pode explicar muita coisa. Aqueles sorrisos nas imagens que vimos e vemos são verdadeiramente incandescentes. Felicidades, para ambos, que sejam muitas, muitas.
Mas nem toda a gente se deixa contagiar. Há sempre quem deseje mal, espere o mal, veja apenas (o) mal. No meio de grande excitação coletiva online, descubro teorias, medos, augúrios, julgamentos, críticas, desdéns, friezas. Que ela, Amal, é feia e masculinizada, que lhe vai roubar o dinheiro todo, que é árabe, que por ser advogada não é automaticamente inteligente, que casaram porque está grávida, porque ele precisava de casar, porque os gays é que gostam de magras, porque esbanjaram dinheiro quando tantos sofrem, porque ele fez do casamento um carnaval, porque se está apaixonado devia manter tudo mais privado, porque ela defende pessoas que até são duvidosas, porque a família dela é drusa, porque ele não é bem sucedido a nível humanitário, porque é tudo uma fachada para ele chegar a governador, porque o divórcio sairá rapidamente, porque ela já é muito velha para ser mãe e ele nem se fala, baaaaaahhhhhhaaaaaaa. Por favor, parem. Relaxem. Ou o mundo está assim tão cheio de cínicos, de descrentes, de agoirentos, de invejosos, de destruidores, de haters, de corações sem chama? Medo, saber ou ler isto mete medo.
Na verdade, ninguém pode dar certezas acerca da longevidade da sua relação ou do seu casamento. Da mesma forma, cada um saberá das razões para estar com alguém sem ou com papel assinado. Quanto durará este matrimónio é coisa que seguramente não interessa. Pode durar para sempre, como os nossos, ou não, como os nossos. Se durar apenas o tempo de uma fita de cinema afinal já terá valido a pena. A bem dizer, foi um casamento digno de filme. E eu cá não levo isso, de todo, a mal.

setembro 17, 2014

Coisas sem relação absolutamente nenhuma



1. Toda a gente tem direito a mudar de opinião, creio, e não sou contra as dissidências, são decisões pessoais que podem ter justificação plausível ... ou não. Mas a saída de Marinho Pinto de um partido que pouco tempo antes o levou até ao centro político europeu parece-me francamente desonesta. O dizer que é tempo de seguir o seu próprio caminho ainda corrobora mais esta abordagem que diria interesseira. Mas na verdade não me surpreende. Trata-se de uma figura que nunca me inspirou confiança, talvez porque não aprecio quem habitualmente fala em tom exaltado e quase aos gritos. 

2. Este ano a relva cá de casa mantém-se viçosa como uma verdadeira alface. Assim que me lembre, foi a primeira vez em que não se andou desesperadamente a regar pela noitinha para tentar salvá-la de uma morte certa. Eu que nem sou fã de chuva consigo ver o seu lado positivo quando automaticamente penso na relva da frente e do pátio. Mas nem só de relva verdejante vive o meu apreço pela chuva nestes dias. O calor tem-me sufocado e a coisa melhora com a água caidinha do céu. Por outro lado, poucos sons sabem tão bem como o de ouvir uma grande chuvada quando se chega a casa. 

3. Faltam tantos professores ainda nas escolas e os alunos lá vagueiam, horas a fio, sem aulas. Quando é que a obsessão pelos cortes e a sua prática indiscriminada na função pública deixará de ser uma realidade que tanto afeta a vida escolar também dos alunos? Nos cursos profissionais acresce o problema de ter de se repor as aulas, uma vez que é obrigatório o volume de formação na totalidade, e bem, a bem dos alunos. Mas também não será uma injustiça os alunos vaguearem agora, contrariados, em tempo certo de aulas, e depois terem de levar com horas a mais numa já de si pesada carga horária, para compensar?

4. De férias a sul, comprovei novamente que os portugueses estão cada vez mais fechados. Têm muitas dificuldades - ou pruridos - em falar para desconhecidos. Para se lhes arrancar um bom dia ou boa tarde num espaço que se partilha é obra. Eu, que sou daquelas que, por exemplo, falo alegremente numa caixa de supermercado se houver alguém que sorria e faça o mesmo, estranho estas coisas. Então quando os nossos filhos brincam em conjunto e tento conversar um pouco e vejo caras fechadas - snobs? - fico mesmo desapontada com a raça humana. Há gente para quem deve ser difícil sorrir e dizer umas palavrinhas, nem que seja sobre o tempo. Timidez ou mania e falta de boas maneiras? 

setembro 10, 2014

Por entre a vista



1. Admiro a coragem da jornalista Judite de Sousa. Nota-se que ainda não está bem, os trejeitos da boca, nervosos, e a voz trémula indicam ainda grande sofrimento e transtorno psíquico, fruto natural da pior das tragédias. Por isso é admirável a forma como se expõe, como aparece em entrevistas ao mais alto nível, como se atira para a frente, de forma pública, numa notória forma de sobrevivência. Tiro-lhe o chapéu, decididamente. Sempre apreciei a sua sensibilidade e de certa maneira admiro-a hoje muito mais. A forma como, curiosamente sempre de preto, está a fazer o luto é de louvar, pois inimaginável será a tormenta que tem atravessado. 

2. O meu pai ontem disse que António José Seguro tinha ganho o debate, logo que terminou. Independentemente disso ser verdade ou não, eu cá não compreendo muito bem a razão pela qual Seguro está tão ofendido com António Costa e não se cansa de bradar isso mesmo aos quatro ventos. Chega a parecer um menino de coro, sentido com coisas que francamente já devia contar num mundo como é o da política. Estratégia e interesses vários podem colidir com amizades e com ditas lealdades, não nos espantemos. Demasiados melindres pessoais não têm justificação se o interesse do país, a sê-lo,  for prioritário. E aqui parece-me ser o caso, o dever ir-se por um outro caminho.  

agosto 28, 2014

A ausência da bondade


Há dois ou três dias, apanhei por instantes um apontamento jornalístico num canal de notícias nacional e onde se falava do tecido de que são feitos os atuais líderes mundiais. O que foi dito - e tão bem dito - reforçou a evidência de que estão todos muito longe de um líder de alma grande chamado Nelson Mandela, pela total ausência de valores ligados ao serviço público e à ética e pelo culto quer dos interesses económicos e financeiros quer do seu próprio eu. Na verdade, não há figuras mundiais inspiradoras, que possam, de forma inteligente, altruísta e bondosa, mudar o rumo dos acontecimentos para construir sociedades mais justas e mais dignas. Mas não é só nos políticos que esta realidade se verifica. De um modo geral, todos se comportam deste modo. Os bens materiais e a obsessão pelos egos e pelas imagens que se tentam projetar tornam as pessoas cada vez mais histéricas, calculistas, e desumanas. Cada vez há menos serenidade,  humanidade e generosidade.  Há, infelizmente e numa palavra, cada vez menos bondade.

agosto 10, 2014

Tudo isto é pobre



A informação televisiva nos canais generalistas portugueses, dia ou noite, é cada vez mais deprimente. É extremamente pobre, redutora e nada ajuda ao esclarecimento e à informação essencial e necessária. Os jornais duram 1h 30m e grande parte do seu conteúdo é um desfilar de arraiais, feiras, festas, concertos e festivais, mais parecendo um roteiro de férias do que um espaço privilegiado para informar convenientemente. É alarmista, não quebra preconceitos, sendo tendenciosa, e sem qualquer visão global sobre os acontecimentos. Um rol de disparates aborrecem quem quer centrar-se na verdade - ou nas várias verdades - e saber mais com mais rigor e com qualidade: há notícias que são dadas em primeiro lugar sem tanta relevância - ou nenhuma - em relação a outras tão mais importantes; as reportagens de rua feitas por cá são péssimas, com perguntas a roçar a idiotice e que nada trazem de válido ou significante a quem vê as notícias; focam-se aspetos que nada têm a ver com a informação mas com diversão e afins - para isso deveriam criar programas próprios que seriam vistos por quem quisesse, não nos obrigando a ter de passar pelas romarias várias antes de chegar, por exemplo, às notícias internacionais de grande impacto; não parece haver repórteres que cubram decentemente os acontecimentos nas áreas de conflito mundial, no terreno, como já houve antes; a duração é demasiado longa e obcecada com os problemas internos, desde a banca ao governo, explorando essas temáticas até à exaustão, criando por vezes angústias e confusões desnecessárias - gostamos da verdade, obviamente, mas não nos inundem a hora de jantar com  novelas intermináveis criadas basicamente pelos mesmos temas. Posto isto, já quase não vejo televisão portuguesa nenhuma. Correção, já não vejo nenhuma televisão portuguesa. Deprime, desinforma, formata, promove o sensacionalismo, valoriza o supérfluo ao mesmo tempo que ignora o relevante. Dá a sensação que não existem diretores de informação e responsáveis que vejam o estado da informação atualmente e as consequências que traz. A ignorância popular grassa, anestesiada ainda por cima, nesta altura, pelo verão e as suas mil e uma noites de música e de gastronomia. Para onde vamos assim, interrogo-me. A visão estreita-se, a grandeza fica cada vez mais longe. Descreva-se tudo isto numa palavra: pobre. Tudo muito pobre.

agosto 03, 2014

Hostilidade virtual e escuridão real


Já não é a primeira vez que, ao expressar uma opinião num mural de alguém amigo no FB, aparecem pessoas extremamente mal educadas do ponto de vista em que colocam a sua opinião, neste caso obviamente quando não coincide com a minha. Tendo a preferir claramente pessoas francas, diretas  - acrescento esclarecidas - e considero que tenho tolerância e paciência q.b. mesmo quando acho que os seus argumentos, os das duas primeiras, não têm pés nem cabeça. Na verdade, há muita gente convencida que sabe muito ou tudo quando isso não corresponde, de todo, à realidade. Ninguém sabe tudo, ninguém, mas alguns sabem bem menos do que julgam ou querem julgar. Mas a cada um a sua opinião, democracia será isso mesmo, o direito de todos opinarem, razoavelmente ou não. O que já me deixa com alguma irritação mental é a má educação, ou seja, os termos em que de forma ofensiva e irracional discordam da nossa perspetiva. Ora isto diz tudo da natureza humana. Se num simples registo virtual de opinião e numa mera troca de ideias online mostram-se logo garras de maneira hostil e injustificável, aproveitando ínfimos pormenores e/ou vendo coisas que não existem, como não entrar em conflito aberto por coisas um bocadinho maiores? Depois queixamo-nos, queixam-se, de que os outros são diabólicos quando fazem isto ou aquilo - e são, muitas vezes. Mas podia olhar-se um bocadinho mais para dentro e ver que se destila ódio facilmente perante coisas que diria pequenas. Muito pequenas, até. A escuridão está dentro. O inferno, pelos vistos e frequentemente, somos nós mesmos. 

julho 28, 2014

Determinismo cultural


Lendo o que muito se escreve pela blogosfera e nas redes sociais em que toda a gente opina em liberdade, nada contra, embora tenha o direito de eleger os que na minha perspetiva opinam bem, lendo tanta coisa e escrita por tanta gente, há algo que me tem ocupado os pensamentos: a ideia que perpassa de muitos posts, comentários ou afins que afirma ou insinua que certos povos não sabem viver sob determinadas prerrogativas ou liberdades. Por outras palavras, que há nações ou populações que foram feitas para existir sob um determinado número de coisas más, atrofiantes, ultrapassadas ou até desumanas. Ora isto é uma profunda forma de arrogância cultural. Colocar certos povos, cores ou credos sob um determinismo rácico, religioso, geográfico, histórico é inconcebível. É ridículo e falso. 
Há três momentos que retenho das minhas viagens nas outras duas décadas e um deles teve lugar em Paris, num dia comum em que visitava o parque temático da EuroDisney. Fazia sol, era maio, havia gente de todas as formas e feitios e uma coisa em comum: um profundo desejo de diversão, traduzido pela espera naquelas filas organizadas e longas, com filhos ou sem eles. O pensamento surgiu, dentro de mim, rápido e curto: todos mas todos aspiram às mesmas coisas, independentemente das fronteiras externas que os colocam de um lado ou do outro do globo terrestre. As barreiras interiores, as pancas, as taras, os desvios, as loucuras, elas existem, mas não são automaticamente transversais, não fazem parte da natureza de todos. O meio impõe-se sobre as escolhas individuais, muitas vezes, vezes demais, até podemos concluir, mas o ser humano, despojado de qualquer carga coletiva, no mais profundo do seu intimo, quer apenas ser feliz. Todos os povos o merecem, todos os povos o conseguem fazer, ainda que não ao mesmo tempo e da mesma forma simultaneamente. Considerar que só nós sabemos, conseguimos ou merecemos viver no bem e no bom é uma tremenda arrogância cultural, não me canso de repeti-lo. Nada é eterno, tudo se transforma. Recuso completamente, pois, a noção de determinismo cultural. 

julho 26, 2014

Familiaridade e profissionalismo



Considero-me bastante informal e absolutamente simples em termos de etiqueta e protocolo mas faz-me confusão quando se é demasiadamente familiar em contextos profissionais, sobretudo quando não há qualquer tipo de relação pessoal entre os intervenientes. Relato aqui três situações em que o excesso de à-vontade disfarçado de desejável simpatia me gelou instantaneamente a espinha. Porque continuo a considerar que o profissionalismo tem de passar por um outro (bom) tom.
1- Uma das assistentes sociais com quem articulei (na esfera do trabalho inerente ao caso de alunos com processos no Tribunal de Menores) pediu-me que lhe enviasse informações. Nunca vi a senhora e os meus (poucos) e-mails foram sempre cordiais, diretos e profissionais, como não poderiam deixar de ser. Na sequência do último, recebo as seguintes palavras: Olá, olá, mt obrigdinha (...) bjinhs (..). Obviamente que mal não vem ao mundo por causa disto, bom seria que todas as complicações fossem deste grau, mas realmente não me lembro de ter estabelecido com a pessoa em causa uma relação que justifique estes termos.
2- Nasceu uma priminha há 3 semanas e fui comprar-lhe umas roupas cor-de-rosinha, claro. Desloquei-me a uma loja onde habitualmente compro gangas e t-shirts para rapaz. A empregada que lá está na maioria das vezes fala muito e sorri muito, exageradamente, pois, mas lá se tolera porque não está de trombas (ainda é pior). Mas desta vez, e com várias pessoas na loja (é um espaço pequeno), perguntou em voz estridente se eu, como comprava coisas de menina, estava grávida. Senti um calafrio de alto a baixo. Na verdade, irritou-me estar a entrar dentro de uma intimidade que não partilhei, até porque não seria possível, de todo, fazê-lo. Respondi que não devia fazer essa pergunta, pois era e é íntimo (e é, até ser visível) e que as pessoas podiam não gostar. Pediu desculpa, ao menos. Mas confirma-se a simpatia pegajosa.
3- Há uma família muito simpática à frente de uma pastelaria aqui perto e onde vou quase diariamente. Mas, insisto, eu gosto do atendimento atencioso q.b., ou seja, nem tanto ao mar nem tanto à terra. Há uma miúda que está a atender há algum tempo, é novita, com uma carinha muito bonitinha. O problema é que me trata por tu (não sei se é por influência venezuelana, de onde são todos oriundos) e está sempre a dizer "querida" (algo que geralmente só concebo de mais velha para mais nova ou entre pares) e a fazer perguntas completamente descabidas e atrevidas, situações a que vou respondendo com um sorriso a amarelecer ou com uma observação curta de outro tipo. O meu respeito pelos elementos mais velhos da família não me deixou ainda fazer uma observação maior.

julho 19, 2014

A seu tempo

                      

Veem-se imensos pais atuais com pressa de que os filhos cresçam depressa, antecipando mundos adultos que deveriam chegar apenas no seu tempo. Ou escravizam os miúdos com horários e atividades non-stop ou deixam-nos antever formas de entretenimento que não são próprias do seu mundo infantil. Lembrei-me mais uma vez disto a propósito da presença de crianças de 6, 7, 8, 9 anos em concertos pop ou rock (por exemplo, estavam várias no dos Rolling Stones, vi nas reportagens televisivas). Também já vi, tempos idos, muitas crianças pequenas em cafés até às duas da manhã, de forma que diria quase habitual. Interrogo-me se as crianças conseguem apreciar este tipo de divertimentos ou se são os pais que promovem estas coisas por pura vaidade - pode ser por ignorância, mas não acredito. Ou se os pais não conseguem colocar o bem estar dos garotos à frente dos seus próprios interesses de diversão. Sou um bocado fundamentalista nestas coisas, voilá, nobody is perfect - considero que se deve controlar as horas de deitar dos miúdos, que se deve controlar os seus hábitos alimentares, que se deve controlar as imagens que veem na TV, que se deve controlar o tipo de coisas que têm no quarto, que se deve controlar o uso de palavrões, que se deve controlar a obsessão por marcas, que se deve controlar o descanso e que se deve controlar o encanto do imaginário infantil. E quando a palavra controlar soar feia e não for aplicável substitua-se por respeitar. As pessoas grandes não estão, muitas vezes, para fazer sacrifícios em favor das mais pequenas. E arrastam-nas consigo para horas e locais que não são os destas. Ou então querem à viva força que os rebentos saibam tudo, vejam tudo, façam tudo o mais cedo possível, como vantagem sobre os outros. Nada a apontar sobre o desejo de sucesso dos nossos filhos, é naturalíssimo, mas importa também refletir a que preço. As crianças não têm tempo para ser crianças, sendo atiradas para espaços e horários que afetam o seu bem estar, concentração e afetos, constituindo estes o pilar do seu esperado e harmonioso desenvolvimento emocional. Sem muitos dramas nem cultivando os traumas, a verdade é que nestas matérias costumo estar do lado dos psicólogos. Dê-se afeto e tranquilidade aos miúdos, isso é que é o que realmente mais importa. E, sobretudo, tempo. Tempo em várias e essenciais formas.

julho 16, 2014

Desertificação


É gritante e salta a olhos vistos. Há uma debandada, em grande escala, das pessoas dos locais de emprego e, em extremas circunstâncias, do próprio país. As filas nos serviços, nas lojas, supermercados e em tudo o mais são enormes, a prestação de serviços e atendimento arrastam-se lentamente e os que ficam, por sorte ou algo mais, estão sobrecarregados de trabalho. E ganham cada vez menos, claro. Cortes, dizem. Ora aqui está uma outra coisa que já não posso ouvir. Ou sentir. Pois o único corte que é manifestamente positivo, a meu ver, é o do cabelo, a pedido e se sair bem. A palavra corta, essa, só me soa bem se ao som de uma claquete de cinema. Bom seria, já agora e a propósito, que este ataque à dignidade de várias formas fosse mera ficção.

julho 12, 2014

O tempo dos escravos


Há gente que trabalha e trabalha sem um queixume e sem qualquer espécie de reivindicação, mesmo quando as condições de trabalho se tornam cada vez mais adversas e injustas. Não sei se lhes admire esta notável capacidade de sacrifício se lhes critique este espírito acomodado que em nada beneficia o avanço nas condições laborais. Esqueçamos a crise, até porque não é disso que se trata. Trata-se de um modo de estar, perfeitamente legítimo, que se traduz por uma incrível resistência e uma frequente ausência de ideias próprias. Estes são os trabalhadores, funcionários mais desejados, aqueles a quem chamo de executantes. São, naturalmente, os preferidos das chefias, dos chefes, daqueles que agradecem este caráter, sempre obediente e conformado. Os que ousam queixar-se, barafustar, recusar ou manifestar uma ideia contrária dão muito trabalho e, por causa desta coragem moral, cansam-se muito mais, curiosa mas obviamente. É muito difícil bater contra muros de resignação e de espíritos formatados e mecânicos. Estamos em época perigosa - porque ainda damos graças a deus por termos emprego (e damos) vamos deixando que nos pisem e nos explorem até mais não, degradando-se os nossos dias de várias formas. E calando-nos, sendo resilientes e cumpridores, mesmo quando não devíamos ser, lá vamos contribuindo para a proliferação de chefias medíocres e de condições no local de emprego também cada vez mais medíocres. Trabalhar é preciso, embora uns trabalhem para viver e outros vivam para trabalhar. É justo, é igualmente legítimo. Agora não nos digam que o trabalho deve ser cumprido a qualquer preço nem que os executantes são melhores do que os outros. Porque se os tornarmos melhores, qualquer dia estamos como na revolução industrial - e estamos, em muitas partes do globo, por necessidade extrema de uns e ganância escravizante de outros. Aqui, o retrocesso vai dando passos seguros, quer fruto do medo - a questão de sobrevivência - quer fruto da resignação missionária que muitos cultivam, quando não havia necessidade para tal. Quem pode, não deve calar. A resistência não deve ser só física, deve ser também, e neste caso, sobretudo moral. Mas também é possível que a obediência cega e muda se possa basear em ambições pessoais que, afinal, nada têm de missão.

julho 07, 2014

Um outro verão azul

Chegaram há dias duas meninas ucranianas à minha vizinhança para passarem o verão. Foi-me dito por um vizinho amigo com quem estive à conversa sobre este assunto,  um pouco alheada do facto desse programa - decorrente da tragédia de Chernobyl - ainda estar a decorrer, pensando eu que já se tinham superado os efeitos da tragédia nas crianças, catástrofe muito falada na altura e por razões mais do que tragicamente óbvias. Comoveu-me saber que quanto mais sol e praia apanharem mais anos de vida poderão ter. Nesse dia o céu estava carregado de nuvens e desejei ainda mais o sol de que tanto gosto por causa delas, das minhas novas vizinhas, que ainda não conheci.
Fui fã da série espanhola que o título do post evoca, que marcou a minha e outras gerações, já que foi sendo repetida durante anos a fio. Agora, esta série que representa prolongar a existência destas crianças também é algo para tocante e seriamente apreciar. 

junho 08, 2014

Coisas que me comoveram

                    

Na sexta, pequenas emoções, todas diferentes e no entanto ligadas entre si, deixaram-me comovida. A primeira, decorreu de pura ficção. Vi o filme "The Flowers of War", online, no original e bilingue, portanto. Trata-de de um filme de Zhang Yimou, cineasta que sempre apreciei, desde os primeiros filmes feitos com a atriz Gong Li, e que via na RTP2. Vi-o e fiquei a conhecer um pouco mais da história mundial, pois tem como pano de fundo a invasão japonesa de Nanquim. Apesar de conhecer as atrocidades cometidas pelo Japão na China, através do filme e do livro "O Último Imperador", desconhecia a história das violações que este "As Flores da Guerra" nos faz, tristemente, entrever. Li, entretanto, que o filme não foi um sucesso no ocidente, apesar da presença do ator Christian Bale, um dos meus três favoritos da atualidade. Na China, o filme passou, obviamente, pela censura e foi visto por multidões. Nos comentários online do youtube, muitos americanos confessaram ver atenuados ou mesmo dissipados os ódios anti-comunistas face à China depois de verem esta história de horror, nobreza e sacrifício sem par. 
A segunda emoção surgiu no seguimento das imagens documentais do Dia D, relativas ao desembarque nas praias da Normandia das tropas aliadas há 70 anos. Impossível ficar indiferente perante a coragem, o medo, o sacrifício dos homens que, por vontade própria ou não, perderam ou arriscaram vidas em nome da salvação de tantas outras. Como não me parece haver dúvidas sobre que lado representava o mal nesta guerra, ver a dor do bem não deixa de ser tocante. Emocionaram-me também os sobreviventes, que ainda vivem, e corajosos ainda,  para que a história com h grande não se esqueça das suas histórias mais terríveis.
Por fim, a reportagem da noite sobre os trabalhadores da construção civil, um setor em crise profunda, que ocuparam um prédio em Vila Franca onde tinham trabalhado e que fizeram dele a sua casa. Homens, de diferentes idades, origens, unidos sob o mesmo desabrigado teto, em relatos de sofrimento e ao mesmo tempo ainda de esperança, a mostrarem as marcas no presente dos tempos difíceis e injustos que vivemos. Vítimas colaterais da política e da sociedade, a corda a rebentar sempre pelo lado mais fraco, o desejo de que alguém veja - tenha visto - a reportagem e faça alguma coisa por eles, os tire dali, lhes dê uma nova vida, ainda não desistiram, ainda a querem, ainda há tempo. Alguém que queira e sobretudo que possa, rapidamente, enquanto lhes resta a dignidade interior.
Três momentos, diferentes no tempo e no espaço, mas a dizerem-me, mais uma vez, que não gosto dos infortúnios humanos, da dor que significam. Sensibilidades de sempre, mais visíveis no rosto desde a maternidade. O que nos comove também é, ainda e sempre, o que nos move.

maio 29, 2014

Na coffee shop

"Amsterdam"

Hoje, num café, dois miúdos de 20 anos, coisa menos coisa, puseram um bom bocado de ´ganza´ em cima de uma chicha (ou narguila, como também é conhecida) e espantaram-se quando o dono, estupefacto e furioso, claro, lhes disse que não o podiam ter feito e os convidou, em estilo eufemismo, a sair. Desculpe, não sabíamos, disseram, ele e ela. Isto depois de terem fumado um bocadito, antes de serem detetados pelo cheiro. Não sabia, agora é a minha vez, que isto era a Holanda. E logo hoje que, algures, tinha visto e passado os olhos sobre as 7 razões pelas quais se devia visitar os Países Baixos o quanto antes. Deve ter sido isso que aconteceu com esta rapaziada. Devem ter lido o mesmo e trataram logo de embarcar.

maio 16, 2014

Uma coletiva emoção



Independentemente de se ser do Porto, Benfica ou Sevilha (desde sempre ou momentaneamente) há sempre qualquer coisa de estranhamente tocante nas lágrimas coletivas. O mesmo serve para as alegrias. Por vezes, a emoção coletiva eleva-nos de uma forma singular, quer seja pelo contentamento, quer seja pela tristeza. Mesmo se a tristeza ou o contentamento tiverem origem em coisa pequena ou não essencial. Os sorrisos e risos e lágrimas de muitos podem contagiar-nos. Não é mau perceber que se pertence a um todo numa circunstância em particular. Não é mau partilhar emoções. É bom sentir em conjunto.

maio 15, 2014

De profundis país lento


Tenho, este ano, no âmbito da minha atividade profissional, vivido experiências brutalmente enriquecedoras apesar de brutalmente desgastantes. Muitos são os pensamentos que delas surgem, impossíveis de registar, atempadamente e por escrito, aqui ou em qualquer outro lugar. Mas uma conclusão pode ser aqui assinalada: a de que tenho mantido, ao longo deste ano, um intrigante e desolador contacto com o Portugal profundo. A modernidade existe, sim, comparada com tempos idos, mas é minoritária e citadina, intelectual e, por contraste, consumista. O resto, tudo o resto aponta para um país ainda muito atrasado, com baixos níveis de conhecimento, de cidadania, de esclarecimento e de pensamento.
Qual o impacto disto tudo na escola? Bom, uma taxa de abandono considerável, ainda, uma falta de ambição cultural e pessoal assustadora, posturas inaceitáveis que as famílias, pouco esclarecidas e, por vezes, mesmo sem maneiras, não conseguem controlar, um desinteresse chocante pelo conhecimento, alheamento do mundo para lá das novas tecnologias e das experiências típicas da adolescência, ignorância natural e cultivada que roça a boçalidade, desrespeito por todo e qualquer tipo de regras e de autoridade, taxas de sucesso baixíssimas e, para as aumentar, fabricadas, enfim, um país atrasado, deprimente, ignorante, com a mania que é rico e que é injustamente desprezado, apostado em ter, ter cada vez mais, e esquecendo completamente o ser.
Também é verdade que este ter o é cada vez menos. As dificuldades económicas só agravam este desalento social, estas psicoses várias que assolam as famílias, as pessoas, a parentalidade, e como consequência, os filhos e os filhos na escola. 50 anos de reclusão obrigatória fizeram-nos muito mal. Persistem dificuldades dessa altura, na cabeça e, como consequência, nos atos. Mas este descalabro financeiro atual tem, certamente, um efeito altamente negativo na melhoria das condições de vida, desnorteando ainda mais aquilo que não estava ainda solidificado.
Hoje coloquei um post no meu FB profissional para que os alunos lessem. Como gostaria que o lessem e interiorizassem. Só assim poderiam e poderão sair destas profundezas em que ainda nos encontramos, assim que saímos da cidade, do teatro ou do centro comercial. A nossa marcha está a ser muito lenta, é possível que estejamos até a andar para trás. Cruzem os braços, cruzem. Fiquem à espera de milagres. Assim não se vai lá.