Um dos miúdos mais complicados que já tive até hoje perguntou-me o significado do que estava escrito no seu boné: I love haters. Expliquei-lhe, não tendo bem a certeza que tenha entendido, mas como ficou calado deduzo que tenha consentido. Mas o propósito deste apontamento é servir de mote para dizer exatamente o contrário: "I hate haters". Os haters estão na moda - até há grupos de haters, certo? - e é vê-los, quer dizer lê-los e senti-los com força pela internet fora, por exemplo, apesar de os haver também ao vivo e a cores, infelizmente neste caso a vida virtual também é um brutal eco da real. Mas quem são estes haters, afinal? São pessoas que se dedicam a odiar, é uma explicação. Com tudo o que isso implica e traz. Podem ficar-se por ódios de estimação específicos e declarados, desde pessoas de sucesso a profissões ou atividades e mais. Outra é que os haters são pessoas altamente frustradas que desdenham de tudo e de todos. É que há quem não goste de nada - criticam, denigrem, destroem, sobretudo invejam. Também é possível a explicação de que possuam um elevado nível de exigência em relação a tudo e todos, de tal forma que não conseguem deslumbrar-se com nada. Perder a capacidade do deslumbramento é chutar para bem longe os resquícios da infância que muitos outros possuem naturalmente e que outros tentam manter a todo o custo. Por fim, esta negatividade dos haters poderá advir de um conceito de autoestima pretensamente elevado mas profundamente baixo. Dessa forma, a sua suposta superioridade faz disparar setas em todas as direções mas, na verdade, é o desconforto em relação a eles mesmos que despoleta os ódios. É normal gostar-se de e não gostar-se de. Normalíssimo. Quando se faz culto de ódios exagerados e primários, meramente passionais e não razoáveis, já o será menos. Não gosto de quem não gosta de nada e sente prazer em destruir. O negativismo constante e demolidor não faz parte dos meus dias. Cá dentro, e apesar do "hate haters" lá em cima, ainda triunfa o bem.
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outubro 16, 2014
outubro 01, 2014
Solidão de uma forma e de outra forma

A solidão física geralmente é indolor, porque e quando necessária e desejada. Já a solidão afetiva é passível de se tornar num imenso deserto de dor. Ela pode ser necessária, como luto ou forma de autoconhecimento e renovação, e por isso mesmo até ser desejada. Mas provavelmente não a tempo inteiro, não eternamente. Já a primeira, por entre saltos de tempo variáveis consoante os humores ou as vontades, pode durar uma vida inteira. Tanto uma como outra podem, no entanto, ser compatíveis com o caráter e as emoções mais profundas de cada um. Ou também podem não ser.
setembro 09, 2014
Cautelas
Já aqui o disse ou deixei transparecer: as ascensões profissionais rápidas causam-me alguma confusão. E as relações de amizade súbitas igual. Ou ainda mais, é possível. Concluo, assim, que tenho sido e sou cautelosa, sobretudo nas últimas.
Demoro tempo para estabelecer relações verdadeiramente sólidas, embora faça conhecimentos com muita facilidade e adore falar com desconhecidos. Mas da simpatia e conversa de ocasião ou parecido à amizade propriamente dita, que envolva um conhecimento mais profundo e uma partilha maior, vai um enorme passo. E compasso, de espera. Rápidas paixões amistosas têm dado em grande desastres pouco tempo depois, tenho-o observado amiúde. A construção mais lenta, pelo contrário, parece-me dar mais frutos. Uma vez aceite, uma amizade sem deslumbramentos nem defeitos escondidos, será, no meu caso, sempre revestida de lealdade. E se não vivida em presença física pelo menos cá dentro, de alguma maneira. Os amigos podem ser menos desta forma, é um facto, mas serão mais verdadeiros.
Quanto ao veni vidi vici profissional, é possível que resulte, se as pessoas forem verdadeiramente competentes e honestas intelectual e moralmente. Há ascensões meteóricas absolutamente justas, merecidas e baseadas no real valor. Se não, as quedas podem ser surpreendentes. Eu sou daquelas que acredita que a promoção do demérito acaba por cair por terra, mais tarde ou mais cedo. Mas talvez esta conversa não tenha muito interesse para quem gosta e sabe viver sempre no impulso e no calor do momento. E que está certo, de resto. Na verdade, não sei se a cautela é melhor, de todo. Apenas digo que há quem funcione de um modo e quem funcione de um outro. Com o passar dos anos, apercebo-me que me tornei cautelosa. Diga-se que para o bem ou para o mal.
agosto 19, 2014
Anti-anti

Assim muito rapidamente: não posso com radicalismo, com fundamentalismo, com racismo, com xenofobia, com segregação, com intolerância, com opressão, com totalitarismo, com primitivismo, com medievalismo, com tirania, com ódio, com anti-qualquer coisa que, a favor ou contra, se baseie na cor, credo, etnia, costume, diferença, seja lá o que for. Não posso com nada disto venha de onde vier, esquerda, direita, este, oeste, sul, norte, judaísmo, islamismo, cristianismo, feminino, masculino, noite, dia, yin, yang. Não gosto de ninguém, no sentido total do que é gostar para mim, que se enquadre nestas ideologias, políticas, religiosas, sociais. Ou que decorrem simplesmente, e na maioria das vezes, de um tremendo apetite pelo poder. Tudo isto repele-me, arrepia-me e põe-me a milhas. Não posso com teorias ou práticas anti-liberdade ou anti-diferença, em qualquer parte do globo. E sobretudo não posso com a violência oriunda de qualquer destas formas de negação humana.
agosto 01, 2014
Seleção natural

Não cabem na nossa vida todas as pessoas que cabem no nosso coração. Ou, se se preferir, na nossa mente. Não conseguimos albergar os afetos de forma física que seja perpetuada no tempo e permanente no espaço. Não é possível. Daí que, mesmo sem querer, se vão deixando pelo caminho simpatias, afinidades e cumplicidades. O tempo e o espaço encarregam-se de traçar os nossos encontros e também os desencontros. Mesmo que a vontade seja a de manter todos aqueles que vamos conhecendo e de quem gostamos, telefonando, escrevendo, estando pessoalmente, nem todos se mantêm presentes nos nossos dias. Nem nós nos deles. Não nos é possível, já disse, não com todos aqueles que encontramos pelo caminho e que nos deixaram uma boa memória. O que fica de alguns deles pois então? Ou, possivelmente, de muitos? Um rosto, uma frase, um local, um sorriso, um momento, um nome, tudo em simultâneo ou nem por isso, uma emoção, uma saudade, um lugar cá dentro. Até mesmo sem nunca mais lhes termos posto a vista em cima.
julho 29, 2014
Mistério

Dá-me a ideia de que grande parte das pessoas queridas nunca fala contra, nunca se queixa e, sobretudo, não dá um murro na mesa, figurativamente falando, claro. Ou seja, entram mudas e saem caladas. Lá, onde entram e de onde saem e quando era preciso falarem. Saber quando é que alguém que manifestamente não entra mudo nem sai calado pode adquirir o estatuto de ´querido´ é definitivamente uma incógnita.
julho 28, 2014
Determinismo cultural

Lendo o que muito se escreve pela blogosfera e nas redes sociais em que toda a gente opina em liberdade, nada contra, embora tenha o direito de eleger os que na minha perspetiva opinam bem, lendo tanta coisa e escrita por tanta gente, há algo que me tem ocupado os pensamentos: a ideia que perpassa de muitos posts, comentários ou afins que afirma ou insinua que certos povos não sabem viver sob determinadas prerrogativas ou liberdades. Por outras palavras, que há nações ou populações que foram feitas para existir sob um determinado número de coisas más, atrofiantes, ultrapassadas ou até desumanas. Ora isto é uma profunda forma de arrogância cultural. Colocar certos povos, cores ou credos sob um determinismo rácico, religioso, geográfico, histórico é inconcebível. É ridículo e falso.
Há três momentos que retenho das minhas viagens nas outras duas décadas e um deles teve lugar em Paris, num dia comum em que visitava o parque temático da EuroDisney. Fazia sol, era maio, havia gente de todas as formas e feitios e uma coisa em comum: um profundo desejo de diversão, traduzido pela espera naquelas filas organizadas e longas, com filhos ou sem eles. O pensamento surgiu, dentro de mim, rápido e curto: todos mas todos aspiram às mesmas coisas, independentemente das fronteiras externas que os colocam de um lado ou do outro do globo terrestre. As barreiras interiores, as pancas, as taras, os desvios, as loucuras, elas existem, mas não são automaticamente transversais, não fazem parte da natureza de todos. O meio impõe-se sobre as escolhas individuais, muitas vezes, vezes demais, até podemos concluir, mas o ser humano, despojado de qualquer carga coletiva, no mais profundo do seu intimo, quer apenas ser feliz. Todos os povos o merecem, todos os povos o conseguem fazer, ainda que não ao mesmo tempo e da mesma forma simultaneamente. Considerar que só nós sabemos, conseguimos ou merecemos viver no bem e no bom é uma tremenda arrogância cultural, não me canso de repeti-lo. Nada é eterno, tudo se transforma. Recuso completamente, pois, a noção de determinismo cultural.
junho 28, 2014
O nós e o eu
Nomes houve que ficaram na história por servirem uma comunidade, por atos bondosos, solidários, corajosos ou revolucionários que visaram um bem comum. Outros nomes ficaram na história por razões inversas, por terem dado asas à mais pura expressão individual, visando o ato de criação, sempre mais egoísta, mas ainda corajosa e profundamente glorificante. Por isso, não venha ninguém dizer que os primeiros são mais válidos do que os segundos ou que o comunitário é mais preciso do que o individual. São apenas formas absolutamente diferentes de estar, porque nascidas de formas completamente distintas de ser. Gosto de uns e de outros, sem ambos os tipos o mundo teria sido e seria bem mais pobre. A riqueza vem da alma nobre e do altruísmo e vem também da liberdade de cada um na expressão pessoal. Tudo o que engrandece, se sozinhos ou em grupos, é fonte de inspiração. E cada um absorve e aplica a que quer, sabe e pode.
junho 20, 2014
No essencial é que está o ganho
O pormenor é um grande inimigo da generosidade. Dei por mim a pensar nisto, primeiro, a propósito das críticas de cinema, já que tenho passado os olhos por algumas nestas duas últimas semanas, depois, porque tenho observado de perto conflitos que se instalam a partir de coisas mínimas. Na verdade, estes são tempos cada vez menos generosos, em que rapidamente se censuram e se rebaixam coisas e pessoas por causa da fixação em detalhes. O detalhe quando vem por bem pode ser um fino complemento de algo que ainda podemos melhorar, dentro da humildade que nos deve acompanhar. Mas quando vem por mal, apetece-me dar-lhe um pontapé para bem longe, por vir denegrir algo ou alguém que fez vindo da parte de quem não ousou fazer. É incrível o número de problemas causados por esta insistência tola no acessório. Podemos até todos concordar que o pormenor escapou ou falhou mas devemo-nos questionar se isso chega para destruir o essencial. Também é aconselhável, deste ponto de vista, que nos centremos nos detalhes que funcionaram, apesar de continuar a pensar que o fundamental é que interessa. Quanto mais nos concentrarmos naquilo que de positivo as coisas ou as pessoas têm melhor. Tenho cá a ideia de que todos sairiam a ganhar. A generosidade, essa, será - seria - infinitamente maior. E não me parece haver nada que contrarie esta minha fé. Mas não mesmo.
junho 12, 2014
Grita liberdade

Detesto tudo o que seja "cultural". Com isto quero dizer que rejeito a sobreposição do meio, da tradição, da religião ou de outra coisa qualquer às liberdades individuais. Sou defensora destas, absolutamente, não como sinónimo de libertinagem, de deboche, de provocação ostensiva, de atropelo da liberdade alheia, mas como essencial sinónimo de escolhas. Não me obriguem a atuar em nome de e contra a minha vontade apenas porque é diferente e não é o que a maioria quer, sente, pensa, faz. Só faço enquanto eu quiser, na obrigação ou na sensibilidade, na consciência ou na necessidade, na reflexão ou na circunstância. Posso fazer sem desejar por causa disto tudo mas a escolha é minha. Boa ou má, é minha. A liberdade individual nasceu para nos servir e todos que a travam, independentemente do modo ou lugar, tempo ou razão, vão aplicar o cultural para o diabo que os carregue.
maio 23, 2014
O descanso e a guerreira

Sou intrinsecamente live and let live. Mas este apreciado e cultivado sossego bate em retirada quando alguém que é o oposto lá me vem seriamente incomodar. Então, vou buscar defesas combativas não sei onde, mas vou. O que é uma tremenda maçada porque eu gostava mesmo era de estar sossegada, sob um tranquilo ´living and letting live´. Mas, lá está, eu não quero nem procuro mas o combate surge, obrigatoriamente. Não dá para fugir, se o ataque é muito denunciado. Pode ser evitado, muitas vezes, a experiência vai-nos dando engenho e arte também nestas coisas, e quando o é, permanece o sossego. Mas declarado, não dá. E é assim que vamos. Ou vou, neste caso. A desejar sempre estar no meu canto mas a não fugir de uma frente de batalha se sou obrigada a combater.
abril 09, 2014
Quando uma ata o é antes de o ser

Sempre pensei, e pelos vistos erradamente, que uma ata era o resumo feito durante ou após uma reunião ou uma situação formal de qualquer espécie que necessitasse de um registo escrito para provas na posteridade. Pessoalmente, e na minha área profissional, gosto de tirar apontamentos e escrevê-las depois, já que tenho evidentes dificuldades em realizá-las com a concentração e o tempo necessários enquanto as coisas decorrem. Defeito meu, certo, admito. Mas agora está-se a ir por um caminho que estranho porque decididamente não entranho. Os responsáveis pelas atas escrevem-nas antes da reunião - com a sua perspetiva e com o rumo que desta forma acabam por lhes dar - e leem-nas, ao invés de falarem de forma espontânea, e acompanhando o decurso natural da reunião, ainda que sempre subordinada a uma necessária ordem de trabalhos. Estas leituras das atas nestes termos, como forma de conduzir uma reunião, põem-me a voar para outros lados, para longe dali. E então quando são projetadas ainda pior. Continuo a gostar que alguém nos consiga envolver com o seu discurso. A comunicação é uma coisa que valorizo e, desta forma, uma coisa completamente diferente para mim. Não gosto de reuniões centradas, controladas e pré-estabelecidas. " O conselho de turma considerou o comportamento satisfatório..." antes de alguém abrir a boca. Depois vem a pergunta, olhos já fora do papel - "concordam"? Mas eu preferia que não fosse por esta ordem. O cúmulo aconteceu uma vez quando os presentes, todos já sentados, aguardavam o começo da reunião. A pessoa que a dirigia, sendo responsável pela ata, pois, começou a ler: "Depois da apresentação dos docentes..." Bom, estarreceu-se-me logo ali o cérebro. Qual apresentação? Ninguém havia falado nem dito o nome nem coisa parecida. Esta coisa de antecipar tudo torna-se, assim, absolutamente ridícula. Antecipa-se de tal maneira, por forma a agilizar, como está na moda dizer-se, que se diz terem sido feitas coisas antes de elas acontecerem. Escritas, lidas, antes do tempo. Quase proféticas. Se já tenho dificuldade em escrever durante, por falha minha, repito, imagine-se o que sinto quando se escreve antes. Passo. As atas são um resumo do que se passou, não é preciso terem 20 páginas - nem 10 - como se isso fosse sinónimo de qualidade, concentremo-nos no essencial. Pessoalmente não projeto uma linha de uma ata, aliás não podia porque não a faço antes. Não à necessidade de controlar tudo nem de antecipar o não antecipável. Bem ou mal, comigo a coisa - a ata - só desata mesmo depois da reunião.
março 17, 2014
Normal e diferente

Não é frase de filósofo como deveria ser mas apenas de uma atriz portuguesa e dei de caras com ela há já algumas semanas. Dizia a mesma que enquanto a maior parte das pessoas - e dos artistas - tenta cultivar o lado freak, ela sempre desejou ser o mais normal possível. Não pude deixar de sentir uma grande empatia com esta confissão, a levantar a questão do que serão os contornos da normalidade. Já aqui escrevi, pelo menos uma vez, que a ousadia e a transgressão podem ser reveladas de variadas e diferentes maneiras e que, desta forma, não se esgotam nem em looks assumidamente atrevidos nem em comportamentos propositadamente provocantes. Na verdade, sob uma aparência normal, serena e até consensualmente clean, pode existir uma existência perfeitamente inconformada e livre. E do mesmo modo, comportamentos modernos e sociais de desafio às regras podem não ser mais do que o duelo que se quer bater com uma natureza apagada e sem chama. O freak pode ser exterior mas é-o ainda mais se for interior. A diferença não se reduz ao choque, à extravagância, à linguagem, às poses e atitudes que são intencionalmente escolhidas para fazer a diferença. A diferença, por vezes, está lá ainda que não se dê por ela ao princípio. Do género alguém nos perguntar porque é que nunca dizemos um palavrão maior e de nos julgarem certinhos por causa disso. Do género nós respondermos pois mas não usamos aliança, não casámos pela igreja nem fizemos festa, não temos cão nem uma carrinha tipo familiar que ruma ao al-gharb todos os anos. Coisas a que já assisti, divertida. Ou do género todos gostarem de um verde que não existe e nós gostarmos de um verde às bolinhas. Coisas simples, mesmo simples, nada avant-garde, que indicam ou podem indicar escolhas e trajetos menos comuns, porque incomum pode ser a nossa alma ainda que a nossa imagem ou comportamento não. Querer ser normal é para quem quer, e já agora para quem sabe e pode. Porque de normal pouco, felizmente, terá.
março 09, 2014
Trivial

A maior parte das palavras que nos saem da boca são profundas banalidades. Assim vamos vivendo os nossos dias. A fugir do essencial, por desconhecimento ou medo. Não quer dizer que esteja errado ou que não se possa passar por cá assim, por vezes é mesmo necessário, mas a fuga à verdade e ao que interessa a tempo inteiro é coisa saturante e desinspiradora. Jogar é preciso mas parar também. Muito mais.
janeiro 18, 2014
En passant

No outro dia li já não sei onde que a questão de estarmos aqui de passagem é um conceito ligado à autoajuda. Ora como defendo precisamente isso, sobretudo em alguns aspetos do quotidiano, devo concluir que me insiro nessa corrente, tão menorizada por tantos. Entretanto fico na dúvida se tal visão me é benéfica ou não. Mas outra inquietação me assola já. É que sempre vi esta questão como uma perspetiva existencial. E porque tenho um fraquinho considerável por existencialistas a coisa parecia-me interessante, profunda e irresistivelmente filosófica. Afinal, de nada disso se trata. Esta minha mania de falar da existência por aqui, sem conhecimento teórico absolutamente nenhum para a apoiar e fundamentar, é então uma tonta ousadia que não é para pensadores. Mas se for - a ser - para sofredores, como acabamos por ser todos nós de alguma forma, será assim tão mau?
dezembro 31, 2013
Criatividade e felicidade

Ontem peguei numa revista não de agora de moda feminina, enquanto esperava pelos meus num determinado local fora de casa. O tema era a criatividade e tudo nela andava à volta disso. Havia uma rubrica em que 6 criativos, escolha da revista, respondiam a questões sobre o ato de criar. Estive a ler. Confesso que não tinha pensado em algumas delas, mas aqui vai o que responderia, se fosse eu. E tendo em conta o que criar significa para mim e em mim.
Onde - Não sei se há um lugar exato para criar. Pode surgir em vários locais, dependendo do que observamos, sentimos ou recordamos. Já me vi a ter ideias em locais completamente distintos, embora haja deles mais recorrentes, acompanhando naturalmente a rotina dos meus dias.
Quando - Dizia um dos criativos que as melhores ideias lhe chegam pela manhã. Errado, para mim. É geralmente a noite e até o deitar que trazem mais e melhores ideias. Não sou de manhãs, nem de madrugadas, já agora. Essas horas são-me ótimas para dormir.
Como - Se o ato de criação é individual ou não. Diria que sim, que é, acontece na cabeça, lá dentro e para isso é preciso algum tipo de solidão ou silêncios criativos. Levá-lo a cabo já dependerá daquilo que se cria. Há criações absolutamente individuais e há outras em pares, grupos, equipas, sei lá o que mais.
Crio, logo... - Acabava assim. E gostei da frase da fadista Ana Moura, se não estou equivocada. Crio, logo "sou livre e feliz". Subscrevo e acrescento que criar é sempre ser livre. Ou exercer um bom bocado da liberdade que temos. E isso, sem dúvida, pelo menos nesse instante, é ser feliz. Já não é nada mau, convenhamos.
dezembro 10, 2013
Lá longe

Ontem, enquanto esperava que vissem a minha entorse, peguei no único jornal que se encontrava nas cadeiras da sala de espera. Não sei já quem escreveu o artigo, se era editor, jornalista ou nada disso. Falava da escola de Xangai e dos resultados milagre que por lá se operam, fruto das aulas de rajada que os alunos têm, das 8 às 16h, da ausência de intervalos e da competição feroz que se fez fomentar entre os professores. Por fim, sugeria o autor do artigo que nós, portugueses, puséssemos os olhos naquele exemplo, professores, pais, alunos. E comparava-se esse sucesso ao de Ronaldo, porque oriundo, também, de esforço, dedicação e muito trabalho. Certo, nada se obtém de verdadeiramente notável sem estas três vertentes. Nem a inteligência basta, sabemos. Mas refuto essa visão de escola e de sociedade automatizadas, em que as pessoas são máquinas, sem margem para outros tempos que fazem também o tempo coletivo e individual. Não é preciso trabalhar-se até à exaustão e viver-se sob permanente pressão para se ser excelente. A excelência passa pelas dimensões mencionadas acima, realmente, mas as condições socioeconómicas e background cultural dos discentes também são favoráveis à aprendizagem. E mais, claro, que tem a ver com aquilo que é a qualidade de ensino. Destas e doutras harmonias, nascerão o prazer de aprender, o saber pensar, o equilíbrio entre ambição e qualidade do tempo que só favorecem o sucesso académico e mais tarde o profissional. Tendo em conta a noção de sucesso que tenho, é possível. Sucesso é, em última instância, ser feliz, connosco e com os outros, conseguir ter alma no meio da engrenagem laboral e social. Horroriza-me a escola de Xangai nos moldes em que foi apresentada, pelo menos. Estamos as milhas, sei. Dos seus resultados, infelizmente, mas da sua robotizada prática. E aqui só tenho a dizer ´ainda bem´.
outubro 13, 2013
Os olhos da cara

Há dois dias trouxe para casa uma revista feminina, o que não fazia há tempo. Pouco me interessou, a não ser a crónica do PRD relativa à maioridade do filho (como as suas palavras são sempre certas, serenas, afetuosas, nem a mais nem a menos) e um artigo sobre uma tendência necessária, eco-friendly e sensata, o downsizing. Hoje, enquanto esvaziava mais um pouco um armário, pois escolhia alguma roupa do pequeno para dar aos primos, lembrei-me do artigo. Toda a razão e lógica pela sensatez e despojamento. Foram estas as coisas que retive da revista, tudo o resto é absolutamente superficial e pouco razoável, até. Explicando, não faz para mim muito sentido (embora só compre quem quer e quem pode, eu é mais não quero e não posso) estar a olhar para sugestões de moda e beleza coladas a preços perfeitamente inaceitáveis nos dias pincelados a crise que vamos atravessando. Hidratantes a cem euros, botas a quinhentos, pulseiras a mil, e outras coisas mais a preços mais ainda, enfim, uma panóplia de produtos que custam os olhos da cara para muitos de nós. Se é certo que os olhos (também) comem e que, infelizmente, para irmos a algum lado temos de não descurar ou investir na imagem, a verdade é que me choca ver tanta ostentação, ou melhor, propagação de estilos de vida que em nada se assemelham com o que a maioria das pessoas, particularmente neste momento, pode ter ou vir a usufruir. Pode argumentar-se que são apenas sugestões e que os "fashionistas" mais espertos e mais pelintras podem adaptar as tendências a preços muito mais acessíveis, mas não deixa de me irritar esta constante e crescente atenção que se dá às grandes marcas e às multinacionais da moda e da cosmética, nomeadamente, através dos media. Uma revista feminina, para além disso, com apenas dois temas interessantes e construtivos é muito pouco. Por isso as deixei de comprar, seriam incomportáveis numa base diária. Há, ainda, artigos absolutamente carenciados de pesquisa, de verdade e de conhecimento. Este tipo de imprensa alivia, distrai, é certo; o nosso lado vaidoso, por exemplo, gosta de espreitar o que se usa, mas nada mais. Pelintra e a milhas e milhas de ser uma fashion victim, os meus olhos precisam de outro tipo de estímulos para continuarem deslumbrados. Precisam mesmo de ir para além da cara.
outubro 12, 2013
Xenofobia e a polissémica ignorância

Há dias dei aqui conta de uma surpreendente nota positiva acerca do naufrágio trágico e assassino em Lampedusa. Ficara positivamente surpreendida com o teor humanista dos comentários à notícia online, tão pouco habitual no habitual vomitório (esta expressão roubei-ao ao Pedro Correia do Delito de Opinião) que carateriza as reações de quem aparece a comentar este ou outro tipo de acontecimento.
Pois bem, passados poucos dias, a tragédia repete-se (também dissera, nesse post, que não era nem é novidade, é infelizmente um problema que persiste há anos e anos). Repete-se, não com a envergadura da anterior, é certo, e ainda bem apesar dos pesares, mas aí está mais um triste episódio próprio de quem vive à margem e tenta alcançar a outra margem. Pois bem, digo novamente, desta vez o teor dos comentários é do pior possível. Desumanos, ignorantes, racistas, etnocêntricos, cruéis, xenófobos. E se há coisa com que eu não possa (e que faz rebentar toda a minha zen paciência em outras áreas) é com isto. Não posso com gente xenófoba, assim, declaradamente, assumidamente. E nem quero saber se com isso se perdem leitores, amizades ou até amores.
Quando tinha 23 anos, num casamento de uma amiga que casou muito jovem, no meu livre julgamento, arranjei um pretendente de Lisboa. O rapaz era muito simpático, com uma autoestima imbatível, sorridente, entusiasta. Era polícia, tinha para aí uns 27 anos, ao que me lembro. Veio a Aveiro de propósito algumas vezes para estar comigo e lá saímos, pois, algumas vezes. Eu já era uma rapariga exigente e complicada nestas coisas do coração, do género para alguém chegar até lá tem de passar pela minha cabeça primeiro. Vai daí que o rapaz começa a falar de política, numa altura em que eu ainda era algo revolucionária e mais politizada. Não tínhamos a mesma opinião mas tudo bem. Acontece que a conversa resvalou para a colonização e para a imigração. Oh, meus queridos amigos, o que ele foi dizer. Quase nos zangávamos ali mesmo.
Saídos do Bombordo, Praça do Peixe, já não me lembro o que disse ou dissemos. Quando me encontrei com a minha amiga, disse-lhe, Elsa, diz-lhe que estou interessada noutra pessoa. A Elsa, super intelectual e devoradora de livros, que não gostava muito dele, anuiu de imediato. E assim acabou o meu romance que não chegou a sê-lo. Não sou muito normal, eu sei, mas sabem que mais? Não me lembro do nome do rapaz. Isso diz muito quanto a ele me ter marcado. Ah, e depois, casei com um estrangeiro. Um grande chato, é certo, mas porque é homem. Just kidding. Já não se pode brincar é com a desgraça daqueles de quem eu falava acima. Gente sem coração, os que li. E sem cabeça. A ignorância, polissemicamente, é uma tristeza. Ignorar é (muito) triste.
outubro 08, 2013
Eu hoje também acordei assim
A direção de turma de duas turmas CEF em uma (sim, são trinta numa sala), o aumento para as 40 horas de trabalho em escolas que não estão preparadas para laborarmos desta forma, os trabalhos de casa do pequeno, diários, e muito bem, e aos quais tenho de estar atenta, as reuniões intercalares pós-laborais esta e a outra semana, a papelada interminável para tudo e nada e, por último mas não menos importante, as tarefas de casa que nunca findam deixaram-me assim:
Ao menos há que rir das nossas pequenas arrelias em dias arreliados, até porque são coisa pouca em dias mais aliviados. E rir ainda é o melhor remédio. Quem ri seus males espanta; não rima mas anima. Oh santa irreverência que (me) faz tanta falta. Isso e o jantarinho pronto, claro. Por falar nisso, is there any cook out there?
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