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outubro 25, 2014

Quando o teatro não tem close-ups




Faz hoje precisamente uma semana que assisti à peça Gata em Telhado de Zinco Quente pela companhia Artistas Unidos. A começar por este nome, a lembrar-me os estúdios United Artists, tudo tinha um aroma incrível a cinema, o que me fez sentar na plateia com expetativas altíssimas. Havia lido a peça por altura da universidade e, sobretudo, tinha visto o filme antes - na altura muito jovem mas com grande gosto pelo cinema clássico que passava na televisão - e depois. A fita eternizou-se-me mais do que a peça original, é um facto, de tal modo que não é fácil para mim esquecer as interpretações de Elizabeth Taylor e de Paul Newman, um par que venerava, juntos no ecrã ou não. Isto pode ter constituído um problema para ver como credíveis as interpretações desta versão, encenada por Jorge Silva Melo, ainda por cima sendo mais fiel ao texto original e, desta forma, soando menos romântica, inclusivamente no seu final.

No geral, gostei da peça que vi, cenografia aprovadíssima, e o reconhecimento de que o teatro é um ato corajoso de exposição, sem rede, mais ousado e mais exigente. Das interpretações, penso que apreciei mais a de Rubén Gomes no papel de Rick (engraçado como este ator me lembra o Gregory Peck, aqui), num registo interessante em palco. Consegue passar de forma relativamente convincente o drama interior da personagem, desde o cinismo à infelicidade. A seguir, talvez a personagem da Mamã (a Big Mama, no original), meio idiota meio trágica, perdida algures entre a verdade e a mentira. A figura do Papá (Big Daddy) foi talvez a que mais me desapontou, na cruel comparação que não devia ter feito com a fita dos anos 50. O registo, aqui, enveredou por momentos de comédia e pessoalmente não consegui desligar da imensidade do velho gordo a destilar sarcasmo no ecrã, mas também vulnerabilidade, frutos amargos da sua tragédia. E que dizer da personagem central, Maggie a Gata, interpretada por Catarina Wallenstein? Lembrava-me bem de uma deixa fulcral no filme: "I´m Maggie, the Cat and I´m alive!" e esperei para ver a intensidade com que era dita. Esteve abaixo das minhas expetativas, comparando, nem sei se alguém que não tenha visto o filme foi capaz de a carregar para a posteridade. A atriz , contudo, não esteve mal como uma feminina jovem sulista que luta pelo seu casamento - mas aqui com objetivos mais materiais do que propriamente passionais. O encenador aflora isso na sinopse - o objetivo de mostrar a Gata sob uma outra perspetiva e se será possível fazê-lo. Acho que foi. A interpretação da Liz - ai que injusta comparação - foi mais apaixonada e ainda por cima filmada sob ângulos que nos fazem simpatizar com o desejo daqueles olhos violeta. Isto é uma grande chatice, estar a querer ver cinema no palco. De qualquer forma, parabéns aos artistas. Apesar do tom ser menos cínico e menos trágico do que o do filme, apesar de haver menos paixão e sensualidade, subir à cena durante duas horas seguidas num grande clássico, em que só os grandes pegaram, é coisa para apreciar. Neste aspeto, há que aplaudir.

outubro 08, 2014

Rapidíssimas

 
 
1. Não compreendo, por mais que me esforce, como é que o Ministro da Educação ainda não apresentou a demissão. Ou como é possível que não o tenham feito por ele.
 
2. Eu até achava piada ao Zeinal Bava por ser exótico. Fez asneira, pelos vistos, não pequena, pelos vistos. Ouvi hoje que se demitiu. Sempre tem mais caráter - vergonha? - do que o de cima, apesar dos pesares.
 
3. Os raides aéreos parecem não estar a resultar no Estado Islâmico. Razão tinha quem disse que essa não seria a solução ideal (embora eu não saiba qual é, já agora e infelizmente).
 
4. Ontem assustei-me a sério com as informações sobre o ébola. Isto sim, devia e deve preocupar a humanidade. Se em vez de desunirmos e destruirmos construíssemos unidos...
 
5. Seja em que partido for e seja que nome for, prefiro alguém que me diga que é prematuro dizê-lo do que alguém que promete não baixar impostos. Primeiro a honestidade, em último a demagogia.
 
6. Outono verão, outono inverno, outono verão, outono inverno... Mas o que eu queria mesmo era o verão verão. Que saudades do sul. A sul é-se sempre mais feliz. Talvez me mude..

outubro 05, 2014

No mundo dos surdos num mundo de surdos



Ontem assisti no Coliseu do Porto à peça Tribos, da autoria da inglesa Nina Raine e trazida por António Fagundes a Portugal. Não se tratando de uma alegoria propriamente original - a ideia da surdez física ser menos cruel do que a surdez emocional - a verdade é que momentos como estes levam-nos indiscutivelmente a confrontar-nos com as nossas muitas intolerâncias mentais, as quais excluem da nossa vida tudo e todos os que se apresentam, pensam ou regem sob ângulos de diferença variados.
Afinal, quem é o surdo? Aquele que não ouve por deficiência orgânica ou aquele que, saudável, não quer e não sabe escutar? Quem é que tem dificuldades evidentes de comunicação? Aquele que não sabe o que são sons, lê os lábios ou usa a linguagem dos sinais ou aquele que, fisicamente são, se fecha em si mesmo, nas suas razões e nas suas ideias, incapaz de se colocar no lugar do outro? Surdez psicológica de quem não sabe ouvir. Incomunicação de quem não quer ou não sabe chegar ao outro. De tantas formas, em tantos lugares. Este é o universo dos desafetos que exclui invariavelmente os surdos e os portadores de uma deficiência mas também tantos outros que estão fora do padrão de alguma maneira.
A peça centra-se numa família disfuncional, mesmo segundo as palavras de Fagundes proferidas durante a conversa com o público depois da peça, e em que as relações são povoadas de agressividade, palavrões e barulho. Um ruído que conota a ausência de serenidade e confiança, que reforça por contraste o isolamento das personagens e a sua alienação num quotidiano de frustrações e de conflitualidade. Fagundes caraterizou a peça como "uma comédia perversa" e de facto são vários os apontamentos de humor negro e de uso do vernacular que nos vão, talvez perversamente, pois então, arrancando umas gargalhadas. Em todo o caso a intriga toca-nos e a mensagem é clara: a surdez da alma é mais comum e trágica do que a surdez real. Basta estar atento para perceber isso. Basta, numa palavra, ouvir.

setembro 17, 2014

Coisas sem relação absolutamente nenhuma



1. Toda a gente tem direito a mudar de opinião, creio, e não sou contra as dissidências, são decisões pessoais que podem ter justificação plausível ... ou não. Mas a saída de Marinho Pinto de um partido que pouco tempo antes o levou até ao centro político europeu parece-me francamente desonesta. O dizer que é tempo de seguir o seu próprio caminho ainda corrobora mais esta abordagem que diria interesseira. Mas na verdade não me surpreende. Trata-se de uma figura que nunca me inspirou confiança, talvez porque não aprecio quem habitualmente fala em tom exaltado e quase aos gritos. 

2. Este ano a relva cá de casa mantém-se viçosa como uma verdadeira alface. Assim que me lembre, foi a primeira vez em que não se andou desesperadamente a regar pela noitinha para tentar salvá-la de uma morte certa. Eu que nem sou fã de chuva consigo ver o seu lado positivo quando automaticamente penso na relva da frente e do pátio. Mas nem só de relva verdejante vive o meu apreço pela chuva nestes dias. O calor tem-me sufocado e a coisa melhora com a água caidinha do céu. Por outro lado, poucos sons sabem tão bem como o de ouvir uma grande chuvada quando se chega a casa. 

3. Faltam tantos professores ainda nas escolas e os alunos lá vagueiam, horas a fio, sem aulas. Quando é que a obsessão pelos cortes e a sua prática indiscriminada na função pública deixará de ser uma realidade que tanto afeta a vida escolar também dos alunos? Nos cursos profissionais acresce o problema de ter de se repor as aulas, uma vez que é obrigatório o volume de formação na totalidade, e bem, a bem dos alunos. Mas também não será uma injustiça os alunos vaguearem agora, contrariados, em tempo certo de aulas, e depois terem de levar com horas a mais numa já de si pesada carga horária, para compensar?

4. De férias a sul, comprovei novamente que os portugueses estão cada vez mais fechados. Têm muitas dificuldades - ou pruridos - em falar para desconhecidos. Para se lhes arrancar um bom dia ou boa tarde num espaço que se partilha é obra. Eu, que sou daquelas que, por exemplo, falo alegremente numa caixa de supermercado se houver alguém que sorria e faça o mesmo, estranho estas coisas. Então quando os nossos filhos brincam em conjunto e tento conversar um pouco e vejo caras fechadas - snobs? - fico mesmo desapontada com a raça humana. Há gente para quem deve ser difícil sorrir e dizer umas palavrinhas, nem que seja sobre o tempo. Timidez ou mania e falta de boas maneiras? 

agosto 26, 2014

Em terra de cegos quem tem um olho é mesmo rei?


Aqui há dias reli com muito agrado uma short story de H.G.Wells chamada The Country of the Blind e que, surpreendentemente, dormitava no meu baú do esquecimento. Estamos perante um fabuloso conto que nos faz pensar sobre o que, na prática, é o domínio e a superioridade. Porque esta história, apesar de nos relembrar a noção de inadaptado, baseia-se essencialmente na descoberta de que capacidades que julgamos preponderantes não servem absolutamente para nada se as tentarmos encaixar e sobressair num mundo que não as partilha, que desenvolveu outras igualmente importantes e que se apresentam funcionais no modus vivendi que foi instalado.
Nunez, o personagem principal, cai (literalmente...) num mundo quase onírico onde ninguém tem a capacidade da visão. Ele lembra-se de imediato da máxima universal "em terra de cegos quem tem um olho é rei". Assim, pensa que facilmente poderá ser o líder daquela comunidade, por possuir faculdades inigualáveis que o tornam mais poderoso do que os outros. A história é fantástica, no duplo sentido da palavra. À medida que vai descrevendo as maravilhas que vê, apercebe-se que tais deslumbradas descrições em nada seduzem os habitantes do local na medida em que estão habituados a viver sem essas sensações visuais e desenvolveram outras com as quais parecem viver eficaz e tranquilamente. De facto, reduzem-nas a nada. Mesmo para a rapariga nativa por quem se apaixona, que escuta as narrativas das maravilhas naturais por amor, de nada serve esta extraordinária faculdade da visão. O hábito é outro e o protagonista vai-se apercebendo, com tristeza e desapontamento, que não só não poderá ser líder como nem sequer valorizam a capacidade que julgou superior. Pelo contrário, de líder passa a servo. No final, tem de escolher entre o amor e a visão - só poderá casar com Medina-saroté se abdicar da visão...
A incursão por este mundo fictício, na América do Sul e repleto de evocações que diria exóticas, é um espantoso convite à reflexão sobre o que é ter uma "deficiência". Ele - Nunez - não tinha um mas dois olhos e, no entanto, não conseguiu nunca reinar. 

agosto 18, 2014

O crime e o campo


Há uns tempos que me virei um pouco para a televisão por cabo, por várias razões. Na descoberta, encontrei uma série britânica da qual me tornei absoluta fã: Midsomer Murders. Trata-se de uma série que passa diariamente na Fox Crime por volta das 18 horas e que se passa numa região ficcional algures no English countryside. Aqui, a par de crimes macabros e recorrentes, respiramos o ar puro do campo e deliciamo-nos a ver as flores, os jardins e as casas tipicamente britânicas, num estilo que poderá ser considerado crime à moda antiga (como a série é publicitada, de resto). Desta forma, ao mesmo tempo que seguimos a interessante investigação de crimes maiores, uma certa tranquilidade acaba também por surgir, de forma contrastante mas realmente possível.  Por isso a vejo com muito agrado, para além do interesse linguístico, por causa desta fuga à confusão citadina e à voracidade das imagens violentas habitualmente presentes em séries policiais. 
A série transitou agora para uma nova fase, aquela em que o detetive principal passa a ser representado por outro ator, já que o primeiro abandonou a série depois de anos a fio como protagonista. Também soube que Midsomer Murders recebeu alguma crítica no sentido em que foi considerada por alguns como " a bastion of Englishness", ou seja, um bastião do que é ser inglês, passando ao lado, portanto, do tecido multicultural que compõe a Inglaterra de hoje. A verdade é que posteriormente a isto, já apareceram personagens asiáticas e africanas esporadicamente, embora os seus autores mantenham que a série é para um público muito específico, até nostálgico, é possível, acrescento eu depois de ler algumas opiniões. Fazendo parte desse público desde há um tempo a esta parte, confirmo que me sabe bem esta incursão pelo campo, onde o tempo parece ser e ter outro tempo, independentemente do resto.

maio 16, 2014

Uma coletiva emoção



Independentemente de se ser do Porto, Benfica ou Sevilha (desde sempre ou momentaneamente) há sempre qualquer coisa de estranhamente tocante nas lágrimas coletivas. O mesmo serve para as alegrias. Por vezes, a emoção coletiva eleva-nos de uma forma singular, quer seja pelo contentamento, quer seja pela tristeza. Mesmo se a tristeza ou o contentamento tiverem origem em coisa pequena ou não essencial. Os sorrisos e risos e lágrimas de muitos podem contagiar-nos. Não é mau perceber que se pertence a um todo numa circunstância em particular. Não é mau partilhar emoções. É bom sentir em conjunto.

maio 03, 2014

Conhecer é poder ou querer poder

               
  
Afazeres profissionais intensos e consequente cansaço têm-me afastado da blogosfera. E conseguiram uma proeza no dia do trabalhador: pôr-me a preguiçar, a ver televisão no sofá, como já não fazia há muito. De uma assentada, vejo dois filmes, apesar de não os apanhar totalmente desde o início. Duas biografias, diferentes, mas que no fim lá liguei através de frases emblemáticas ou filosofias de vida que me chamaram à atenção.
1 - a primeira, mítica e de culto para alguns, nada intelectual e desinteressante para outros - a vida de Bruce Lee. Nada de profunda erudição e ainda assim reveladora de uma força de alma incomum, de um percurso, infelizmente breve, a desbravar fronteiras culturais, físicas e psicológicas. O trazer a beleza da cultura chinesa para a cultura americana de origem anglo-saxónica, neste caso, como forma de fazer frente ao desconhecimento, e, desta forma, ao medo, ao preconceito e às barreiras instaladas. Conhecer é assim aproximar, contribuir para a harmonia, ser feliz. 
2- a segunda, mítica e de culto para tantos, provavelmente insuportável para outros - a vida de Che Guevara. Ou melhor, parte dela. O filme a que assisti é a segunda parte da fita dirigida por Steven Sodebergh, e é centrada na guerrilha na Bolívia, onde, de resto, haveria de sucumbir. Um filme belíssimo, falado em espanhol, que nos deixa espreitar uma visão de sociedade perfeita, idílica, é possível, com erros pelo caminho, mas profundamente justa. A viagem pelo continente sul-americano que fez enquanto jovem marcaram a sua posição política, social e até filosófica. Como conhecer o que pôde conhecer, vendo e sentindo, e não querer alterá-lo? Da mesma forma, esta Bolívia de contrastes chocantes e indignos, com níveis de pobreza campesina atrozes, não era justa em 1967 e não sei se o será hoje - duvido. Aqui o conhecimento não traz propriamente felicidade. Conhecer, aqui e assim, é querer agir, é não conseguir sossegar, é ter de intervir, ainda que pagando um preço altíssimo. 
Os dois filmes ligaram-se nisso mesmo - na forma como o conhecimento nos pode apaziguar e tranquilizar e na outra forma, naquela em que o conhecimento nos pode inquietar, perturbar. Assim, desconhecer é sinónimo de temer, de hostilizar e ao mesmo tempo conhecer pode ser e é sinónimo de participar, de atuar. O conhecimento pode trazer alegria e harmonia e pode trazer sofrimento, consciência. Trata-se, pois, e unindo as biografias e os pensamentos que me assolaram, de uma poderosa arma contra a intolerância e a injustiça que pode alterar uma vida, almejando-se alterar muitas.

abril 23, 2014

A memória dos quarenta

Como não terei tempo para muito mais até lá, aqui fica em mosaico a revolução que se fez e que mudou os nossos dias. Não adianta retirarem-lhe significado pelo que podia ter acontecido a seguir e pelo que tem acontecido entretanto. A coragem emergiu, o silêncio quebrou-se, a noite iluminou-se. Não é, e para que definitivamente se entranhe, nada pouco. 



abril 20, 2014

Ao largo


Tenho-me visto muito atrapalhada com a hifenização sob o novo Acordo Ortográfico, como se já devem ter dado conta por aqui. Se já não era propriamente fã de hífens antes, imagine-se agora. Um desacerto, confesso. Não defendi o AO mas também não fui contra, considerei-o dado adquirido, sendo eu docente ao serviço de uma escola. Ainda por cima, e graças a deus, falo e escrevo em inglês nas aulas, o que é uma considerável vantagem a vários níveis (mas lembre-se, as diferenças entre as variantes de inglês na grafia são muito poucas). Vai daí que, ao ter de mudar, quanto antes melhor e também não me vi nem vejo a escrever de uma forma nos documentos da escola e de outra na vida pessoal, respeito quem o faça e quem o consiga, mas pessoalmente  tenho mais que fazer e em que pensar. E isso leva-me à conclusão deste post nada pascal: há hífens que deviam estar por aqui e outros que não deviam estar (e mais coisas, sei, imagino) mas de todas as preocupações que vou tendo esta é manifestamente insignificante para não dizer nula. O essencial, aquilo que verdadeiramente interessa para irmos indo e não muito mal, anda mesmo muito longe daqui. 

abril 16, 2014

O melhor e o pior


O melhor do ser humano visto hoje num exemplo de corajosa superação. Uma mulher, dançarina, vítima do atentado em Boston há um ano, volta a dançar após o implante de uma perna biónica. E o especialista do IMT que, com a sua equipa, tudo isso possibilitou.
O pior do ser humano visto hoje num exemplo de corrupta degradação. Uma telefonista permitiu e promoveu, é bem possível, a entrada de todo o tipo de substâncias e produtos ilícitos numa prisão. Sem falar da mãe americana e dos 7 bebés, na mais absoluta e cruel loucura.

abril 05, 2014

Mais e menos

                                

Cada vez mais próximos de alguém no outro lado do mundo e cada vez mais distantes do vizinho ao lado.
Cada vez mais facilitada e acessível a informação e cada vez mais ignorantes e dispersos estão alunos e outros.
Cada vez mais degradadas as condições de trabalho e cada vez mais reduzidos os salários.
Cada vez mais revoltados com a crise e o resto e cada vez mais conformados e calados.
Cada vez mais mergulhados no consumo e cada vez mais infelizes.
Cada vez mais ativas, as mulheres, e cada vez mais vítimas de cansaço.
Cada vez mais estímulos e encontros sociais e cada vez mais solidão.
Cada vez mais ambições e sonhos e cada vez mais frustração.
Cada vez mais leis e direitos humanos e cada vez mais injustiças.
Cada vez mais presente a imagem e cada vez mais ausente a verdade.
Cada vez mais e cada vez menos.

fevereiro 11, 2014

A história do bloguista


Num dos blogues que mais admiro, "Kyrie Eleison", o meu colega de blogosfera que também é de profissão, dizia e bem no outro dia, na sua caixa de comentários, que nem sempre os nossos posts têm cariz autobiográfico. Assim é. Nós podemos escrever, bem ou menos bem, até mal, sobre coisas que serão nossas, sentimentos, impressões, opiniões, experiências passadas ou presentes, medos, anseios, gostos, enfim, podemos ir pelo caminho que revela a nossa personalidade - ou muito dela. Porque o nosso mundo é maior do que o do blogue, graças a deus, e portanto há muita faceta e dimensão que não está lá espelhada, seja por escolha ou incapacidade. Ou por outra razão qualquer.
Mas dizia-se aqui que os nossos textos, grandes ou pequenos, bons ou maus, não passam exclusivamente pela demonstração daquilo que somos. Acontece-me escrever a pensar em alguém em específico, ou porque vi algo no cinema, ou ainda porque li uma coisa que ficou a remexer cá dentro, ou ainda porque faço uma generalização do que vejo, ou tantas vezes porque idealizo e intelectualizo determinado aspeto ou circunstância, e isto tudo sem ser sobre mim diretamente. O cunho na análise pode ser meu, é-o certamente, mas não tem a ver com a minha vida, de todo, ou já não tem, ou ainda não teve. Acontece-me ver, ouvir, ler, observar, sentir algo e vir aqui dissertar - ou tentar dissertar - um pouco sobre isso. Quanto menos vir, ouvir, observar, sentir, menos material terei para opinar ou refletir. Bem ou mal, repito. 
Da mesma forma, não se pense que não temos direito a mudar de opinião. Excetuando os valores, há perspetivas que podem ser alteradas. Evolui-se, amadurece-se, ganha-se experiência. Tudo isto pode mudar a nossa visão sobre alguma coisa. Um post escrito há anos atrás pode ter, portanto e entretanto, ganho outro ângulo. Posto isto, a escrita continua. Ou os registos que somos capazes de fazer. Ou que pensamos que somos. Uns dias mais intimistas, é um facto, outros nem por isso e outros, ainda, de todo. Os posts são como são. Que não se veja muito para além do que eles são - incursões no momento pelo nosso mundo, interior, é possível, e não.

janeiro 06, 2014

Trabucar para manducar

                                    
                            

A maior parte das pessoas tem um certo pudor - como se fosse pecado ou algo do género - em admitir que trabalha para ganhar dinheiro. E a maior parte das pessoas trabalha para ganhar dinheiro. Está bem, há a paixão por aquilo que se faz, a satisfação profissional, a realização pessoal, o desafio ao talento, o sentimento de ser útil, a vaidade e brio de cada um, a socialização saudável, a ideia de contribuir para a sociedade e para a evolução do mundo, uma panóplia de justificações, válidas e verdadeiras, que servem para cada um de nós, se não todas, uma ou algumas. Mas tirem-nos os salários, as remunerações, o ganha pão, o vil papel e veremos quem se mantém na fileira do emprego. Deixemo-nos de historietas. Trabalhar para aquecer é apanágio ou de mentirosos ou daqueles que realmente não precisam de dinheiro algum. 

dezembro 23, 2013

Modernidade ou modernice e a história



Os alunos, mas não só, mostram um desprezo considerável pela história. E esse desconhecimento, que advém da falta de vontade em saber algo ou mais sobre o passado, só gera equívocos em relação ao presente. Não sou agarrada ao que já passou, a nível pessoal. E não sou muito de festividades, de efemérides, de datas no calendário, de celebrações exteriores. Gosto de história não para a celebrar com atos mais ou menos públicos e alegrias forçadas. Gosto de história para compreender. O presente, o que foi, o que é e o que ainda poderá ser, para me dar uma visão mais completa do que aquela que é feita por leituras parcelares e imediatas, centradas no hoje, no agora. A história interessa-me, e o que sei não me chega. Por isso, agradeço existir uma coisa chamada cinema que, de vez em quando, me faz viajar lá para trás, para que possa ter essa compreensão dos tempos modernos. E tento, com imensas dificuldades, passar isso, sempre que possível, a quem está sentado na minha sala de aula. Eles não gostam, na sua maioria, e muitas vezes. Querem que a aula seja, sempre, uma continuação do que têm lá fora, daquilo que gostam. Contrario esta expetativa. Com os filmes que passo. Conscientemente, voluntariamente. Porque tenho um objetivo muito específico: o de lhes mostrar algo que não conhecem, que nunca viram nem (de que) ouviram, que até rejeitam, por vezes, ou frequentemente. Mas isto acontece para lá das fronteiras da sala de aula. Há muito desconhecimento do que foi feito e conseguido, mal ou bem, em tempos que não são estes, os nossos. Não há curiosidade, não há interesse, não há investimento em conhecer. E, por isso, muitas opiniões e ideias sobre o hoje refletem essa falta de conhecimento. Nomeadamente, quando se pensa que tudo o que temos esteve sempre e desde sempre garantido. Que sempre fomos esclarecidos, justos e livres. Na verdade, esclarecimento, há muito pouco. E há liberdades que são apenas exteriores. Conheça-se a história, a mais recente e a outra, também. E conheçamo-nos, dessa forma, um pouco mais enquanto gente moderna. 

outubro 29, 2013

Ter e haver




A propósito dos maus - péssimos - profissionais em todos os setores e áreas, dou aqui conta de um pequeno episódio que me aconteceu para aí há duas semanas. Entrei numa pequena loja de decoração onde não entrava há bastante tempo. Desloquei-me lá, ao centro da cidade, porque nas outras lojas do género onde vou mais vezes, mais na periferia, não encontrara o que procurava. A loja estava vazia. A empregada de balcão estava sentada numa poltrona da loja e falava ao telemóvel. Devia, pelo teor da conversa que pude perceber, estar a falar com uma amiga, para passar o tempo. Entrei, disse boa tarde, como sempre, e ela, passado alguns instantes, levantou-se da poltrona. Continuou a falar ao telemóvel, embora já na parte de dentro do pequeno balcão onde está a máquina registadora. Entretanto, aproximo-me porque pretendo sair, uma vez que não encontrei o que procurava. Ao passar pelo balcão, a minha parva mania de dar explicações enquanto agradeço leva-me a dizer: obrigada, já vi, mas não encontro o que quero. A mulher pergunta o que procurava eu. E eu, parva a dobrar, respondo. E ela diz, com um ar muitíssimo snob e enfadado (enfadonho, também): ah, mas esse não é o nosso conceito. Conceito? Não percebi bem o que queria dizer com isto. A que diabo de conceito se referia ela? Porque tem de ter um conceito um simples desejo de uma coisa que tem - tinha - tudo a ver com a loja? Surpreendida, ou talvez não, mas já algo irritada, riposto: não? mas era, ou já foi, realmente não venho aqui há anos. Já nem sei o que ela disse, do alto do seu conceito e decerto a pensar que eu, no seu conceito, não valia grande coisa. Os jeans são grandes inimigos da credibilidade social a partir de certa altura, sobretudo se não tiverem uma marca italiana à vista. Ou pode ter sido dos cabelos não lisos, selvagens. Ou até de tudo, daquele meu ar. Ou foi mesmo dela, a exibir uma superioridade qualquer que não existe nem faz sentido, sobretudo para quem está a atender clientes, o público. Na verdade, este tipo de gente, antipática e sobranceira, que nos mira de alto a baixo e nos julga por um sem número de coisas que efetivamente nada revelam também não faz parte do meu conceito. Do meu conceito de profissional competente e que quer e tem de agradar ao público e aos clientes. Porque faz parte do meu conceito reforçar os meus teres e haveres sob um conceito de atendimento completamente diferente.

setembro 24, 2013

Out of Europe



Um dos meus filmes preferidos assenta numa relação que começou com a oferta de uma esferográfica - "he began our friendship with a gift", diz ela, em voz off. E depois fala da história de amor que a uniria a um homem e a um continente. Eterno, romântico, já aqui falei deste famoso filme uma vez ou outra antes.
Hoje ofereceram-me uma caneta. Foi numa papelaria, onde fui tirar fotocópias para os alunos, e o gesto pareceu-me uma simpatia, uma vez que sabem qual é a minha profissão. Não estava a sonhar com fazendas nem viagens, nem o resto, claro, era apenas uma generosidade e, por isso, apressei-me a agradecer, sorrindo, ah, obrigada, dá sempre jeito. Lá fora uma algazarra de microfones e pessoas pela rua. O rapaz sorriu, é sempre simpático, é verdade, e enquanto esperava pelo troco, rolei a caneta nas mãos para a ver melhor. Vejo umas coisas escritas, penso rapidamente que pena a caneta era tão mais bonita sem nada, e logo logo reconheço o símbolo de um partido político e respetivo nome. Ui, a desilusão. Era propaganda política, a combinar com as carrinhas, as bandeiras e a música lá fora. Não foi a generosidade que eu supusera. Não deixou de ser simpatia, se pensar que ele pensou que a caneta me fazia jeito, mas não deixou de ser campanha. Logo eu, que tenho escapado ao folclore autárquico, talvez como nunca até hoje, por várias razões. África está mesmo longe. 

agosto 30, 2013

Silly ma non troppo


Passaram-me completamente ao lado, ou seja, sei que aconteceram mas não vi nem me interessam particularmente ou até nem me interessam de todo:

- o Pontal e a rentrée da política portuguesa
- a entrevista da Judite de Sousa ao miúdo
- o início da temporada do futebol luso
- a morte de António Borges


Não me passaram ao lado, infelizmente:

- os fogos e a tragédias dos bombeiros
- o Egito, a Síria e outra tragédia, atual e provavelmente futura
- o concurso de docentes - mobilidade interna


De qualquer forma, o descanso e o verão conjuntamente podem ser letárgicos a tal ponto que nos fogem as ideias, a inspiração, a perspicácia, o engenho. A haver isto tudo, claro. Torna-se difícil escrever, por exemplo, à medida que os dias se tornam melhores, mais aliviados, mais exteriores. Manter um blogue na travessia que é o verão que adoro é coisa árdua.

julho 05, 2013

Certos e errados


Há muita gente nos lugares errados. Ou, por outras palavras, há uma grande quantidade de maus nos lugares que poderiam ser certos. Porque os bons, na maior parte das vezes, não querem o que os lugares certos - como poderiam ser - significam ou trazem. Por outro lado, isto de raramente vermos os bons nos lugares certos, só nos deixa ver tudo errado. Duvidamos que haja bons porque vemos somente os maus. Era interessante ver os bons nos lugares certos, para ver se algo sairia errado. Poucos são aqueles, ao que parece, que não se deixam deslumbrar pelo poder, pela fama, pelo dinheiro, pelo reconhecimento, pelo estatuto. Será que os bons continuariam a sê-lo? Era interessante, e penso que a resposta é sim. Os bons, a sê-lo verdadeiramente, não fariam errado. Mas o preço provavelmente seria alto, a variadíssimos níveis. E assim continuam os bons nos lugares errados e os maus nos certos. Enfim, um desacerto.

maio 25, 2013

Ligo e logo desisto

                              
Estar sem computador uns dias dá nisto: o mundo não sabe de mim nem eu sei do mundo. Para o pior... ou melhor? Para começar, inúmeras coisinhas que queria comentar perderam a atualidade e eu perdi a vontade. É que realmente há certas coisas que só a quente porque depois, porque não me são importantes, até me esqueço delas, fazendo por isso ou não. Sem computador, portanto. Pode viver-se sem net? Sem blogue, sem facebook, sem e-mail e o resto? Eu dizia que não há uns dias atrás e uma colega mais velha, ajuizadamente, dizia que sim, que eu podia. E a verdade é que pude. Aliás, tive mais tempo para outras coisas como dedicar-me à la maison, que é algo que dá trabalho e requer manutenção, andar no pátio a jogar basquetebol com o pequeno, ir por aí e acolá ao final da tarde, e mais. Claro que não estive completa completamente desligada, na escola fui ver o e-mail diariamente e lá fui espreitando o resto, mas muito rapidamente. Pensei no AE, claro, como não, mas também não foi o fim. Consegui até publicar algo, sofrível, eu sei, mas não deu para mais. Comportável a tempo inteiro? Não, mas foram muito menos horas em linha, mais leves, sem as crispações e irritações do mundo cibernáutico (na maior parte das vezes projeções do mundo exterior) , as indignações, as opiniões, as confusões, as coisinhas de que falo lá em cima, que me interessam momentaneamente ou nunca, porque as que me interessam sempre resistem às vontades e aos tempos. Como não é mau estar fora, algumas vezes. Que vida boa se pode ter longe daquilo que é sempre o mesmo ou se torna pior. Pode sempre piorar, diz um querido amigo. O mesmo para a televisão, claro. E rádio. Sem informação, como se pode ser tão mais feliz. Não se pode viver alheado e ficar à margem dos acontecimentos mas quando a indiferença, ou melhor, o desconhecimento, surge das circunstâncias ou da vontade e sabe bem é aproveitar. São férias. O país está louco, diz-se. Anda tudo doido, diz-se outra vez. Não se anda longe da verdade. Temos de nos salvaguardar, certo? Férias. Férias, mesmo se significa apenas desligar e andar a bater a bola nas traseiras.