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setembro 26, 2013

Modus vivendi



Ilumina a noite e no entanto deixa a noite cair
Não travemos o tempo enquanto escolhemos o nosso tempo
Ilumina a noite até ao amanhecer
Façamos o tempo e deixe-se o resto apenas ir
O dia virá depois da noite mais escura
Virá, pois e depois da melancolia
Ilumina a noite, mas deixa-a vir
Enfrentemo-la, com bravura
Apaguem-se as luzes ao raiar do dia
Apaguem-se as luzes ao alvorecer
E apaguemos a maior agrura
A noite virá, mesmo a ritmo lento
Ilumina a noite e ilude o tempo

abril 28, 2013

As horas e os dias

                          

Foram muitas as horas
Foram muitos os dias
Em que o tempo parou

Foram mais as horas
E foram mais os dias
Em que esperou e esperou

Foram tantas as horas
Foram tantos os dias
Em que desesperou

Foram ainda mais as horas
E ainda mais os dias
Em que finalmente voltou

Horas e dias
Tempo interminável
Dias e horas
Para retornar saudável

Horas e dias
De invasor sofrimento
Dias e horas
Para voltar o alento

abril 25, 2013

Um só dia

Hesitei entre Sophia e Alegre, pois poucos foram, e na minha opinião pessoal, os que escreveram sobre abril como eles. 
São 39 anos. E por muitas promessas que haja ainda por cumprir e sonhos por realizar, há sempre que celebrar. Talvez por isso mesmo. Porque há quimeras e vontades que carecem de concretização, ou porque até já estivemos mais perto de as concretizar. Mas, neste dia, não me interessa particularmente a politiquice, ou não devia interessar. A liberdade é um triunfo e dom maior, a bem de todos e para bem de todos. E desta forma, também, todos a deviam sentir e honrar. A liberdade não tem preço e não devia, sequer, ter cor. 
Mas a palavra a quem sabe, porque, ao contrário de mim, conheceu o antes e o depois.


abril 08, 2013

Quando o importante é ir



VIAGEM

Todas as manhãs o aeroporto em frente
me dá lições de partir.
Hei de aprender com ele a partir de uma vez.

Sem medo
sem remorso
sem saudade


(Manuel Bandeira)


Encontrei-o um dia destes. Um poema com significado. Há muitos, claro, mas também há outros que nada (me) dizem. Será assim com a poesia, com a música, com o cinema, com a literatura, com todas as formas de arte, expressando o pensamento verbalmente, como é o caso, ou até não.
Têm significado estas palavras. Significam que o partir pode ser uma dimensão meramente física - há quem possa ver aqui inclusivamente a partida deste mundo terreno - mas também não só. Que se pode partir para uma viagem exploratória mas também que se pode partir à procura de um lugar que pode não ser apenas geográfico. Há lugares feitos de tempo e tempos, afetos, liberdades, escolhas. E que podem estar perto, até mesmo dentro de cada um de nós. 
Significam também estes versos que partir pode não simbolizar apenas um fim. Que não pode ser apenas um fim. Pode deixar-se algo para trás, é certo, mas eles são significativos porque podem representar um recomeço. Um recomeço que tarda muitas vezes por medo, o medo do remorso, o medo da saudade. Porque refreamos frequentemente  o desejo de aventura, o salto no desconhecido, o desbravar de caminhos não calcorreados, pois tolhidos estamos, por medos e angústias que nos povoam as horas e nos atrasam os tempos. 
A saudade significa memória. Não é negativa, de todo, se não for impeditiva de uma libertação e ousadia em frente. Há que aprender a partir. Do sítio que não nos faz feliz, do momento que desejámos melhor. Até mesmo com medo, é possível, mas não deixando de ir.

novembro 03, 2012

A ceifeira

       
The Solitary ReaperWilliam Wordsworth 

BEHOLD her, single in the field,
Yon solitary Highland Lass!
Reaping and singing by herself;
Stop here, or gently pass!
Alone she cuts and binds the grain,
And sings a melancholy strain;
O listen! for the Vale profound
Is overflowing with the sound.

No Nightingale did ever chaunt
More welcome notes to weary bands
Of travellers in some shady haunt,
Among Arabian sands:
A voice so shrilling ne'er was heard
In spring-time from the Cuckoo-bird,
Breaking the silence of the seas
Among the farthest Hebrides.

Will no one tell me what she sings?--
Perhaps the plaintive numbers flow
For old, unhappy, far-off things,
And battles long ago:
Or is it some more humble lay,
Familiar matter of to-day?
Some natural sorrow, loss, or pain,
That has been, and may be again?

Whate'er the theme, the Maiden sang
As if her song could have no ending;
I saw her singing at her work,
And o'er the sickle bending;--
I listen'd, motionless and still;
And, as I mounted up the hill,
The music in my heart I bore,
Long after it was heard no more.



A sonoridade das palavras, o ritmo do poema, a musicalidade dos versos.
Estudos universitários que deixa(ra)m saudades.
E foi assim: This poem in my heart I bore long after it was read no more.

junho 07, 2012

A invenção do amor


Ah o amor...
O que foram inventar
Uma história tão bonita no cinema
Especialmente porque não há roupa para lavar.
Ah o amor...
Quem já o viu nascer 
Sabe as coisas tontas que nos faz dizer.
Quem já o pôde sentir
Conhece o entusiasmo do início
O quanto nos fez chorar ou rir.
Ah o amor...
Como sem ele os dias passar?
Mesmo crescido, com louça e tanque, fora do écrã e dos livros
É bem melhor com ele morar.
Ah o amor...
Que invenção foram criar
Como uma peça delicada que meticulosamente temos de manter
Que trabalheira essa que nos foram dar
Ah o amor...
Que história bonita nos fizeram docemente entrever.

abril 25, 2012

Resistência



O que me dizes tu, liberdade?
Não compreendes quem te esqueceu?
Não compreendes quem ainda te renega?


O que me contas tu, liberdade?
Que não te deixam crescer?
Que não te deixam ser quem és e só podes ser?


O que me dizes sentir, liberdade?
Tantas vezes angústia e tristeza?
Mais vezes ainda apreensão e medo?


Como me dizes viver, liberdade?
Calada, sufocada, silenciada?
Armadilhada, aprisionada, ainda amarrada?


Como resistes tu, liberdade?


Porque a força que vem de dentro é maior do que qualquer amarra.
Porque, contra o mal e contra o medo, nasce-se senão para ser livre.



janeiro 26, 2012

Incomplete


so many things undone
so many more things not done
so many things yet to be done...
she thought.

and many stories unlived
and many more feelings unveiled
and many projects yet to be lived...
she thought.

many thoughts unexpressed
many more ideas unrevealed
many places yet to be revealed...
she thought.

how many dreams delayed.
she thinks.
still in time? she wonders...

janeiro 18, 2012

Assim são os dias



os dias assim trazem nostalgia
os dias assim soltam gargalhadas
os dias assim choram mais do que gostaria
os dias assim glorificam pequenos nadas

os dias assim trazem as memórias
os dias assim saltam alegremente o muro
os dias assim fazem eco das histórias
os dias assim projetam o futuro

os dias assim pulsam cheios de vida
os dias assim param em movimento
os dias assim inundam-se de dúvida
os dias assim clarificam o pensamento

os dias assim nada trazem e trazem tudo
os dias assim são lindos e cerrados
os dias assim são de todos e meus sobretudo
os dias assim não deviam nunca estar errados

porque os dias são assim.

setembro 20, 2011

Adolescência



Quando nos encontramos
na rua
ou à porta do café
sinto-me como se estivesse desnudada
e com muita gente ao pé.
Intimidada
ridícula e sem jeito
tento saudar-te
mas sem efeito,
de tão embaraçada que estou
de tão insegura que sou.



(Provavelmente escrito aos 13,14 anos..., em ensaios poéticos de uma miúda)

abril 24, 2010

Madrigal


Hoje é o Dia Mundial do Livro. Na poesia, sempre gostei muito de Eugénio de Andrade...
Madrigal
Tu já tinhas um nome, e eu não sei
se eras fonte ou brisa ou mar ou flor.
Nos meus versos chamar-te-ei amor.

(...)
Eugénio de Andrade