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setembro 10, 2015

Mais e mais

 
 
1- O MNE da Jordânia falou há dias sobre a crise dos refugiados sírios. Para aqueles que pensam e afirmam sem conhecimento que os países árabes não ajudam (os do Golfo não, é um facto, mas não generalizemos), a Jordânia entra no 5º ano de acolhimento, equivalendo ao 5º ano de guerra na Síria. Lembro que a Jordânia já acolhe os refugiados palestinianos desde há décadas (como o Líbano e a própria Síria; muitos sírios são de origem palestiniana, basta lembrarmo-nos de Yarmouk). E o Egito, também (tem tantos sudaneses, por exemplo). E até a pequena Tunísia ( muitos líbios atravessaram a fronteira).
2 - Os estados ricos do Golfo não estão a ser solidários e há excelentes leituras que podem ser feitas online sobre o assunto, em inglês, é um facto. Inaceitável, claro. Para além de culpas no financiamento do ISIS, pelo menos pela parte de milionários que querem perturbar e abortar as democracias (primaveras?) noutro países de herança árabe ou muçulmana. Relembro por exemplo, que a Al-Jazeera, uma televisão de que gosto, é do Qatar. Parece muito livre e até é, mas apenas em relação ao resto do mundo, mostrando tudo exceto o (muito) negativo nas "santas" sociedades do Golfo.
3- O silêncio dos EUA também é intolerável. Gosto de Obama mas aqui é igual aos outros. Quem arrasou com o Iraque à procura de armas de destruição maciça que não existiam? Inglaterra (e eu sou anglófila), Espanha, igual. A França arrasou com a Líbia e os Charlies agora estão muito calados. (E eu sou a favor da liberdade, e anti-jihad, como não?) Ou então sou eu que também não consigo ler nem saber tudo, pode ser, é verdade.
4- Os defensores súbitos dos sem-abrigo aqui na lusitânia são muitos, quase que chega a ser comovente. Eu nos últimos 3 dias (e faço-o habitualmente) dei uma moeda razoável a pedintes de rua em três cidades diferentes, mas não vi muita gente a fazer o mesmo. Podiam já ter dado mas a questão mantém-se. Eu posso ajudar os refugiados uma vez que me compadeço dos pedintes e contribuo de outras formas para atenuar o sofrimento dos mais fracos, ao longo do ano, não tanto como queria, ou até podia, é provável, mas não sou perfeita. Posso, como dizia, ajudar os refugiados, seguindo a linha de pensamento destes preocupados de última hora. A estes que não querem gastar um centavo com as vitimas da guerra e dos conflitos, pergunto se já fizeram sua boa ação do dia em Portugal. Criticam quem quer acolher refugiados mas a minha sugestão é que não querendo fazer o mesmo, estão no seu direito, possam acolher então um sem-abrigo. É justo e a sociedade agradece e seria bem melhor.
 Por agora, é isto, mas podem vir aí mais. Texto e opinião, I mean.

setembro 04, 2015

Da imagem e da fúria


As pessoas e até os media dividem-se entre partilhar a foto do menino sírio e não o fazer. Respeito a posição de cada um mas desejo tecer algumas considerações sobre isto. Pessoalmente, partilhei-a. E partilhei-a pela simples razão de denunciar uma realidade que, muitas vezes, só nos marca profundamente e nos faz agir quando entra assim, de forma inesperada e violenta, pela casa adentro, seja via televisão, jornais, internet, redes sociais. É muito fácil - ou mais cómodo - saber que os horrores (ainda) estão longe, imaginá-los ou então nem sequer pensar neles e continuar com a nossa vidinha. Que não seja mal interpretada, as nossas vidas contam, as nossas angústias familiares, profissionais, afetivas, económicas e as nossas dores também. Mas não sou daqueles que se recusa a ver imagens de sofrimento alheio apenas porque dói profundamente -, neste caso, também, a nossa angústia e dor não serão nunca maiores do que as deles - assobiando para o lado e tentando esquecer o que não pode ser esquecido mas simplesmente denunciado. Se uma imagem, que sabemos valer mais do que mil palavras, pode fazer alguma diferença, por mais pequena que seja, então serviu para algo de positivo. Por outro lado, também noto algum pseudo-intelectualismo nalgum tipo de críticas a esta fotografia. Em 1972 a imagem de uma criança vietnamita a correr completamente nua, vítima de napalm, correu mundo e fez história. A denúncia do sofrimento a oriente, feita por fotojornalistas e pela televisão, teve um profundo impacto na opinião pública americana e foi a pressão desta, back home, que acelerou - ou originou, mesmo - o fim da guerra do Vietname. Mas porque consideramos essa foto como um impressionante testemunho documental e olhamos para ela sem polémica enquanto que refutamos olhar e partilhar a de Aylan, defendendo que não é de bom tom usar a imagem da criança (pobre, pobre menino, que apetece abraçar, vivo, e levar para casa...)? É verdade que Aylan morreu e que isso é muito mais doloroso, foi agora, está a ser em direto, faz-nos chorar e abala a nossa consciência. Há gente que nunca consegue enfrentar a sua consciência, de todas as formas, em várias circunstâncias. Respeito, mas não é o caminho. A nossa sensibilidade de não matar galinhas mas comer galinhas não é o caminho, na minha opinião, discutível e subjetiva. Mas ainda a foto de 1972. Refere-se sempre o nome do fotógrafo, como se por ser da Associated Press - ou eventualmente da Time ou da National Geographic ou de outras igualmente conceituadíssimas - como se, dizia, legitimasse o documento, estilizado a preto e branco, pois, enquanto uma foto a cores tirada possivelmente de um telemóvel não recebe o mesmo estatuto de documento para a posteridade. Partilhei a foto, repito, não porque goste de o fazer mas porque repudio o que aconteceu. Tenho lido e ouvido muitas barbaridades sobre a tragédia dos refugiados. E sobre a publicação da foto, também. Pois bem, das mãos de um fotógrafo de renome (e se fosse Mario Testino?) ou das de um polícia turco ou cidadão comum que assistiu a tal drama a diferença, para mim, é nenhuma. E insisto: se a publicação deste horror, porque o é, contribuir para salvar uma criança, uma criança apenas que seja, inocentes arrastados para uma guerra e um mundo de adultos que não compreendem, então já terá valido a pena. Aylan, meu querido, ficarás sempre na nossa memória coletiva. Chorar ao ver-te, pelo menos por dentro, é um sinal de que ainda temos um pingo de humanidade. E fazer saber ao mundo como nos deixaste não o deixa de o ser. Para que as pessoas acordem, não se distraiam e, sobretudo, façam alguma coisa. A denúncia não pode ser confundida com sensacionalismo. Ocultar não é superioridade moral. É uma escolha, tão somente. Compreensível. Mas não será por aí o caminho. Ver é não ficar indiferente. Assim seja.

outubro 12, 2014

Das ilhas

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Interrogamo-nos muitos nesta altura sobre o facto dos tradicionais aliados dos EUA e da Europa no Médio Oriente, de maiorias muçulmanas, não enfrentarem de forma aberta a ameaça do Estado Islâmico, sabendo-se ao invés que esses governos, ou pelo menos setores das suas sociedades, financiam os terroristas mais temíveis do momento. Falo nomeadamente da Arábia Saudita e do Qatar. E da Turquia, claro. Trata-se, sobretudo no caso dos primeiros, de estados ricos da região que têm mantido relações de interesse, perdão, amizade com os países a ocidente. Espantosamente, o estilo de vida destes países do Golfo em nada é secular, as igualdades ainda são uma miragem, apesar dos petrodólares, e muito provavelmente quanto mais virem outros aderir à lei islâmica e à sharia melhor. A Al-Jazeera, uma televisão da qual se disse ter revolucionado o mundo árabe, mostrando os seus podres e as suas fraquezas à escala regional e global, tem a sua sede no Qatar. E aquilo que nos parece ser uma televisão livre e sem censura, virada para a modernidade, não é mais do que um instrumento de propaganda que serve os seus sustentadores. Na verdade, quanto mais desestabilizados estiverem os estados mais seculares das arábias e Magrebe, mais o radicalismo político e social crescerá, ainda que com aliciantes fundamentalismos religiosos. O que vem agora a comprovar-se com o EI de forma mais assustadora e letal, face às suas práticas bárbaras e à sua meta de expansão de território. Se atentarmos bem, a televisão do Qatar tem mostrado e mostra bem o desnorte e o desconforto existentes em vários países de língua árabe ou de confissão muçulmana mas nunca faz o mesmo em relação ao seu próprio estado e sociedade. Como se o Qatar e a Arábia Saudita fossem modelos de sociedade perfeitos e sem máculas. E quem conhece estas realidades sabe que são ditaduras, islamizadas e sem margem para desvios. Mesmo se mascaradas com opulência e fartura. Por um outro lado, se se tratar do Irão, ainda que com uma sociedade fortemente islamizada, há todo o interesse em que caia, por ser xiita, mas o mesmo já não se passa relativamente às organizações ou movimentos sunitas, como é o caso do EI. A hipocrisia e a incoerência das alianças chegam, neste ponto do globo, a contornos descaradamente incríveis. Seja em nome da religião ou da economia ou da supremacia ou da história. Nada do que parece é. A palavra al-jazeera quer dizer a ilha. Um nome simbólico que traduz a dificuldade que é chegar ao entendimento destas encruzilhadas políticas e geográficas.

outubro 08, 2014

Rapidíssimas

 
 
1. Não compreendo, por mais que me esforce, como é que o Ministro da Educação ainda não apresentou a demissão. Ou como é possível que não o tenham feito por ele.
 
2. Eu até achava piada ao Zeinal Bava por ser exótico. Fez asneira, pelos vistos, não pequena, pelos vistos. Ouvi hoje que se demitiu. Sempre tem mais caráter - vergonha? - do que o de cima, apesar dos pesares.
 
3. Os raides aéreos parecem não estar a resultar no Estado Islâmico. Razão tinha quem disse que essa não seria a solução ideal (embora eu não saiba qual é, já agora e infelizmente).
 
4. Ontem assustei-me a sério com as informações sobre o ébola. Isto sim, devia e deve preocupar a humanidade. Se em vez de desunirmos e destruirmos construíssemos unidos...
 
5. Seja em que partido for e seja que nome for, prefiro alguém que me diga que é prematuro dizê-lo do que alguém que promete não baixar impostos. Primeiro a honestidade, em último a demagogia.
 
6. Outono verão, outono inverno, outono verão, outono inverno... Mas o que eu queria mesmo era o verão verão. Que saudades do sul. A sul é-se sempre mais feliz. Talvez me mude..

setembro 21, 2014

Crítica da religião pura

 
Encontrei estas fotos num excelente artigo que retratava mulheres de coragem ao longo do século XX. Ambas se referem a mulheres afegãs nas décadas de 60 e 70, se a memória não me falha muito, as primeiras a estudarem medicina e as segundas numa biblioteca. Trouxe estas fotos até aqui porque servem o propósito deste post de maneira inequívoca.
Ainda ontem lia na blogosfera que há um núcleo radical no Islão, em claro contraste com o resto das religiões, ocidentais e orientais. De facto, ainda que estas já tenham tido os seus momentos mais bárbaros, sobretudo as cristãs, tal situação já consta dos compêndios de história, uma prova que já se apagou num tempo que já foi. Ao invés, não podemos negar, há neste momento uma forte radicalização de alguns setores do Islão, que têm culminado em organizações terroristas que tentam ou incitar ao ódio contra quem não segue os seus preceitos ou mesmo perseguir e aniquilar quem não confessa a mesma fé. O regresso a tempos medievais e até bárbaros tem sido testemunhado através do estilo de vida de alguns países e agora, de forma que nos surge chocante, através da autoproclamação do mortífero e anacrónico Estado Islâmico. Mas a minha opinião mantém-se: o islão não é incompatível com a modernidade, também como já provaram os estilos de vida de alguns países e as medidas corajosas de alguns dos seus líderes seculares. As fotos que posto aqui são disso um exemplo. Haverá alguma dúvida de que estas mulheres vivessem num país de maioria muçulmana? Não poderiam elas também ser crentes do Islão? E de que forma isso abalou ou impediu que tivessem direitos que atualmente não têm?
Contudo, não podemos ignorar esta crescente onda de fundamentalismo islâmico. Mas, pessoalmente e tendo em conta aquilo que vou vendo, observando e absorvendo, continuo a pensar que este radicalismo perigoso tem uma forte componente política. Fortíssima. E que a maior parte destes movimentos se desenvolveu nos últimos quarenta anos do século anterior e que tal facto está diretamente relacionado com a questão palestiniana. Até porque este conflito teve momentos de máxima tensão por esta altura: A Guerra dos Seis Dias, a do Yom Kippur... Convenhamos. Qual a razão deste grande ódio aos EUA a não ser o facto de serem os grandes aliados do estado de Israel? Isto é constantemente apregoado nos discursos contra a América e contra os seus aliados ocidentais. É recordado nestas ignóbeis execuções do EI e, mesmo que a sociedade capitalista e consumista possa não agradar a estas organizações de terror e guerrilheiros medievais, a questão mantém-se: o antagonismo face ao ocidente tem tudo a ver com a questão da Palestina, primeiro, e depois com os sucessivos erros da administração americana na região do Médio Oriente. Há, também certamente, por parte destes radicais, um sentimento de grande frustração. A corrupção dos seus governantes, a pobreza, a opressão, as condições de vida que em nada ajudam ao esclarecimento, a necessidade, muitas vezes, de e/imigrarem, o racismo, a xenofobia, tudo isto conspira para fazer nascer o ódio. E este só pode conduzir à violência. De maneira que estamos perante um tempo de terrível perigo. Esta radicalização islâmica é castradora, cruel e letal. Por outro lado, a islamofobia que vai crescendo, precisamente pelo medo que o fundamentalismo necessariamente vai criando, também causará danos neste diálogo que parece ser cada vez  mais difícil.
Concluindo, não consigo separar a política desta jihad supostamente em nome de Deus. Até as reportagens da Vice News que vi me mostraram isso: no EI há uma abordagem totalitária - comunista ou fascista, não soube destrinçar - que vai muito para além do credo religioso.  E, voltando às fotografias, pode ser-se crente e isso não constituir problema nenhum. O problema reside quando alguém toma o poder e instaura, pela força e pelo medo, um estilo de vida que toma como o certo. Se usar o nome de Deus para a barbárie ou para o retrocesso será porventura tudo bem mas fácil.  

setembro 19, 2014

Como não lembrar William Wallace?



Há mais de dez anos, passei duas inesquecíveis semanas na Escócia numa formação para professores portugueses que lecionam inglês, através da APPI. O local que nos acolheu foi a Universidade de Stirling. Desde essa altura que desenvolvi um grande apreço e até carinho pelo país das Terras Altas, tantas foram as boas experiências e os conhecimentos que tal estada me proporcionou. A ponte de Stirling lá estava, a ´nova´, e o monumento a William Wallace também, lá no alto. Um dos pubs chamava-se "Rob Roy" e por ali respirava-se cultura e história de mãos dadas com a modernidade.   
Os escoceses claramente diziam não gostar dos ingleses, faziam, de resto, muitas piadas com este legendário antagonismo. A pontualidade era praticamente um culto. As ghost stories alimentavam o turismo e o gosto popular. As lojas fechavam cedo, muito cedo, para os nossos exagerados padrões lusos. Os espetáculos à noite eram obrigatórios, muitos e esgotados. Os locais que visitei permanecem, pois, na minha memória de afetos e a capital, Edimburgo, sob chuva forte demais para agosto e cheia de referências literárias, elevou-se ao topo das minhas preferências. 
Assim sendo, eu seria uma votante do sim. E entristece-me ver que se gorou uma oportunidade histórica única. Uma oportunidade que não existiu antes desta forma, e que foi e tem sido tão desejada por tantos através dos tempos. Tiro o chapéu à democracia britânica, com sede em Londres, uma das mais justas e tolerantes, quer pelos exemplos de multiculturalismo - que parece chegar até a aspetos exagerados - quer pela abertura política demonstrada através deste referendo. Não são muitos os estados a fazê-lo, poucos ou quase nenhuns, na verdade, e tudo feito de forma pacífica, dialogada e com total civismo.
O não venceu, vejo e escuto, e na minha opinião o medo venceu. Não sou especialista em economia e alta finança nem nada que se pareça mas penso que terá sido a pressão da questão económica que terá ditado a escolha pela não independência. E entristece-me ver que a Europa dos mercados e dos gabinetes, a "respirar de alívio", tenha mais importância do que a alma escocesa. Mas isto sou eu, que por vezes sou dada a motivações poéticas. O RU continua firme, a NATO também deve estar aliviada, e lá se foi o sonho de Wallace. Nem só de memória e de quimeras se alimentam os dias, é um facto, mas lá está, havia e há quem não tenha medo do sim. Hecatombe ou triunfo, só a audácia e o futuro o poderiam dizer.

setembro 13, 2014

No oeste


Não sei se tenho apreciado as recentes intervenções de Obama perante os microfones, sobretudo pelo tom que encerram. Bem sei que não se pode mostrar qualquer tipo de fraqueza ou vacilação em relação aos adversários terroristas, nomeadamente, mas tem-me parecido que o tom tem-se pautado por uma maior agressividade nacionalista, ou talvez um pouco mais do que seria de esperar de uma nação democrática e líder em vários domínios. É verdade que uma nação como os EUA tudo faz para resgatar ou salvar um seu cidadão, ao contrário de tantos outros estados que não parecem valorizar desta forma a vida dos seus conterrâneos. Assim sendo é legítima a vontade de ripostar e mesmo aniquilar quem, de forma criminosa e bárbara, atenta contra pessoas inocentes que caem nas malhas da sua mortífera loucura. Mas o discurso de um estadista - a sê-lo - tem de ter uma toada diferente da do inimigo, ou seja, não deverá incitar ao ódio e aos princípios mais primários. O discurso de um chefe de estado deve, inteligentemente, mostrar firmeza mas não nacionalismo exacerbado, superioridade cultural ou outra e ainda muito menos qualquer tipo de entusiasmo belicista. Lidar com extremismos de vistas curtas é muito difícil mas uma coisa será precisa para erradicar esses fundamentalismos - é a educação para a tolerância e para a pacificação. Isto tem de ter ecos também - ou sobretudo - em quem lidera, e de ambos os lados da barricada. Nesse aspeto, parece-me que Bill Clinton conseguia um discurso mais diplomata, mais subtil e mais apaziguador. Mas isto pode ser apenas uma impressão de quem tem visto as coisas de relance. Não retiro razão a Obama, de todo, como poderia neste caso, mas preferia, ainda assim, que o tom, repito, fosse menos pistoleiro. 

agosto 28, 2014

A ausência da bondade


Há dois ou três dias, apanhei por instantes um apontamento jornalístico num canal de notícias nacional e onde se falava do tecido de que são feitos os atuais líderes mundiais. O que foi dito - e tão bem dito - reforçou a evidência de que estão todos muito longe de um líder de alma grande chamado Nelson Mandela, pela total ausência de valores ligados ao serviço público e à ética e pelo culto quer dos interesses económicos e financeiros quer do seu próprio eu. Na verdade, não há figuras mundiais inspiradoras, que possam, de forma inteligente, altruísta e bondosa, mudar o rumo dos acontecimentos para construir sociedades mais justas e mais dignas. Mas não é só nos políticos que esta realidade se verifica. De um modo geral, todos se comportam deste modo. Os bens materiais e a obsessão pelos egos e pelas imagens que se tentam projetar tornam as pessoas cada vez mais histéricas, calculistas, e desumanas. Cada vez há menos serenidade,  humanidade e generosidade.  Há, infelizmente e numa palavra, cada vez menos bondade.

agosto 26, 2014

Inabitável evitável

Photo: O cessar-fogo entre Israel e a Faixa de Gaza deixa-me feliz. Pode não ser o ideal mas significa salvar muitas vidas inocentes apanhadas nesta loucura. A ONU avançou com a informação que se durasse mais tempo, Gaza seria inabitável já em 2020. Isto é chocante e seria mesmo uma espécie de extermínio... (não sou antisemita, insisto). Sei que por cá se fala do BES, das romarias, do FC Porto  e está-se de férias mas há quem sofra muito por esse mundo fora. E quando algum sofrimento acaba - pelo menos algum - temos de ficar felizes.

O cessar-fogo definitivo - acredito que sim - entre Israel e a Faixa de Gaza deixa-me feliz. Pode não ser o compromisso ideal, ainda, mas significa salvar muitas vidas inocentes apanhadas nesta loucura. A ONU avançou com a informação que, se a guerra durasse mais tempo, Gaza seria inabitável já em 2020. Isto é chocante e seria mesmo uma espécie de extermínio... (não sou antissemita, insisto, para que não haja quaisquer dúvidas). Sei que por cá se fala do BES, das romarias e festivais, do FC Porto na Champions League e está-se de férias mas há quem sofra muito - e de que maneira - por esse mundo fora. E quando algum sofrimento acaba - pelo menos algum - temos de ficar felizes. Eu cá fico.

agosto 20, 2014

Ondas de choque


A notícia de que um português se tornou num bombista radical no Iraque só confirma o que penso desde sempre: a motivação para estes movimentos extremistas não é, ao contrário do que possa e querem fazer parecer, religiosa. O facto de se ter convertido também não me convence. As motivações que levam a estes atos bárbaros sem qualificação são de outra estirpe, que podem passar por fios de frustração e violência já como predisposição interior, convenientemente aproveitados por quem deles se apercebe, até a posições políticas radicalizadas, possivelmente anarquistas e até terroristas porque baseadas em práticas eminentemente destrutivas. Este reino de terror que está a surgir no Iraque tem também uma alucinante e perigosa componente de domínio territorial, o que reforça a minha convicção de sempre em relação à maior parte dos conflitos: eles decorrem maioritariamente da sede de poder e território. 
Ao que parece, há cerca de 3000 a 5000 jovens europeus a combater ao serviço deste "Estado Islâmico" que existe só nestas cabeças como estado mas que no terreno tem instaurado o horror, num retrocesso inacreditável de valores e de estilo de vida. O mais curioso é ver que isto tudo veio numa sequência de eventos desastrosos no Iraque e de purgas atrás de purgas: Saddam amigo dos EUA (dirigente sunita, por contraposição ao inimigo Irão, xiita), invasão dos EUA e deposição do ditador sunita, chegada ao poder dos xiitas e respetiva perseguição aos sunitas do antigo regime, criação do movimento ISIL/ISIS, sunita, com o objetivo de vingança contra os xiitas (e alargando a todos os credos da região, incluindo os curdos e os cristãos), enfim, uma panóplia de vendettas e de alianças completamente caóticas mas extremamente perigosas. É uma tristeza enorme ver aquilo em que se tornou o Iraque desde a queda de Saddam. Não que este não fosse o que era, mas os resultados destas reviravoltas todas tiveram o pior cenário possível. Provavelmente, o que começa com violência só pode acabar em violência.
Mas falava acima dos europeus rendidos a esta "causa". Não sabemos em que termos são prometidas recompensas, porque é possível. Também é possível que sejam apenas opções próprias, mas aqui considero que são radicalismos que devem basear-se na total rejeição dos valores ocidentais (ou americanos?), do capitalismo, do consumismo, das sociedades modernas que se afastam dos valores mais tradicionais. Desta forma, encontram nestes movimentos extremos uma forma de contestação pura, de adrenalina política e social que os faz embarcar numa loucura destas. Também no ocidente há criminosos, mentes desviantes e fracas. As patologias individuais estão por todo o lado. Trágico é quando se tornam coletivas. Sobretudo quando se traduzem em ondas de medieval tirania e de inconcebível crime.

agosto 14, 2014

Tendências deste verão


1. Obama não veio a ser o que poderia ter sido, ou o que esperava eu que viesse a ser, isto em termos de política externa. Continuou a histórica tendência norte-americana de apoiar incondicionalmente os seus aliados e de ignorar o resto desde que esse resto não coincida com os seus próprios interesses. Ainda assim, não devia estar surpreendida com a desilusão. Afinal, fazer diferente apenas porque se é um pouco diferente seria uma espécie de racismo ao contrário. Se presidentes brancos, nos EUA ou em qualquer lado, fazem-nas mal - e muito - porque não haveria de acontecer exatamente o mesmo com os não brancos? 

2. Na Rússia vendem-se T-shirts com a figura do presidente Putin. Esta é uma tendência nova por lá, creio, e espero que a moda não pegue por cá, salvaguardando as devidas distâncias. Ele há gostos para tudo, já que não me pareceu que estivessem os compradores com nenhuma arma apontada para fomentar a aquisição. Mas tudo é possível, há caciquismos que não desaparecem, vão-se é mudando as abordagens. Do que vi, a única coisa de que gostei foi das latas estilosas onde as T-shirts vinham. Tirava-lhes o papel e punha outro, com o rosto do Clive Owen, muito provavelmente. Será que as vendem sem o conteúdo? 

3. A tendência em Hollywood é condenar à fogueira quem se opõe ao estado de Israel e quem critica o lobby judaico de alguma forma. No meio da novela Cruz/Bardem, em que estes foram chamados de ignorantes, porque oriundos de um país que teve a Inquisição (de terrivel memória, para que conste), descubro que em 1996 o ator Marlon Brando já tivera de pedir desculpas por ter falado na TV nos estereótipos nacionais dos filmes americanos, nas mãos de executivos e produtores judeus, essencialmente. Liberalismo, sim, mas só se numa direção. Liberdade de expressão e artística, idem aspas. Não soa isto também a medievalismo? 

agosto 08, 2014

Emprego a quanto obrigas


Pelo que li ontem, a atriz Penelope Cruz demarcou-se da posição anteriormente tomada relativamente ao conflito israelo-palestiniano, sob pena, e aqui acrescento eu,  de perder contratos para filmes em Hollywood. Passo a explicar. Ao que li, a atriz espanhola fez parte de uma lista de intelectuais e gente ligada ao cinema em Espanha que escreveu uma carta a condenar os ataques e a ocupação israelitas. Nessa lista constavam também os nomes de Javier Bardem, agora marido da atriz, e de Pedro Almodovar, entre outros. A carta caiu muito mal em Hollywood, ao que li também, embora ainda não tenha pesquisado nada online sobre o assunto. Passado uns dias, Penelope Cruz veio distanciar-se do sucedido, alegando mesmo a notícia que ela teria pedido desculpas a Israel. Em Hollywood, o artigo dizia e não é novidade, há um forte setor judaico que controla grande parte da indústria, pelo que é fácil perceber porque Penelope o terá feito. Triste é o facto das pessoas não poderem ter opiniões vincadas e contrárias aos patrões, desde a base da pirâmide até ao topo, pelos vistos. Não saber separar e avaliar o talento ou a competência independentemente da bajulação é, está visto, transversal e profundamente dececionante. E por falar neste assunto, isto tudo confirma o que sempre suspeitei em relação à talentosa, belíssima e adorável atriz portuguesa Daniela Ruah. Que ela conseguiu chegar onde chegou tão rapidamente por ser judia é algo que já penso há muito. Não tenho absolutamente nada contra isso, nem sequer me interessa a religião de nenhum ator e atriz que admiro, neste caso ainda por cima fico feliz por ela ser portuguesa e ter Hollywood rendida ao seu charme. Mas o emprego, mesmo nos meios altamente desenvolvidos, ainda tem panos que a gente (des)conhece.

agosto 02, 2014

Os homens devem estar loucos

                   

Despertando um pouco das nossas rotinas atarefadas mas apesar de tudo normais comparadas com a anormalidade de tantas vidas que andam ao sabor da geografia do poder, aqui ficam hoje duas notas de espanto ou horror, sobretudo por elas, as vidas debaixo dessa louca espiral de retrocesso e violência.

1- Na Turquia, um belíssimo país que visitei há mais de uma década e que adorei, o PM atual diz qualquer coisa do género "As mulheres devem evitar rir em público". Não li a notícia toda, apenas o título, e assumindo-a como verdade pensei logo que, no meu caso, estaria verdadeiramente tramada. Mas o que aqui está implicado é muito mais do que uma simples graça por parte de quem está à distância. Significa uma absurda caminhada no processo de islamização, aparentemente discreto para o ocidente, que se está a levar a cabo na Turquia moderna, filha de Ataturk. Sou completamente a favor das liberdades individuais e do estado absolutamente laico. E desilude-me profundamente uma figura - Erdogan -que me parecia moderada e equilibrada, até elegante, tão diferente no porte das figuras mais fundamentalistas que estamos habituados a ver nos media. O ano passado conheci uma turca em Erasmus, aqui na UA. Era completamente contra este PM e as suas políticas de islamização social. De facto, como poderão viver sob este e outros disparates os jovens que vi em Taksim, Istambul, entre tantos e tantos outros?

2- O ISIL ou ISIS, o unilateralmente declarado Estado Islâmico do Iraque (e Levante/Síria) é um perigoso  movimento- porque alucinado e medieval - que surgiu no norte do Iraque no âmbito da queda de Saddam, na subsequente vingança xiita contra os sunitas iraquianos do antigo regime, e agora como vingança anacrónica e brutal  - brutal, mesmo - contra todos aqueles que a organização considerar inimigos, xiitas e cristãos incluídos, sem esquecer a condição feminina, numa onda de terror e de obscurantismo completamente inconcebível. Ontem estive a ler alguns artigos acerca da organização, considerada brutal, repito, até pela Al-Qaeda, espelho também da confusão de alianças políticas, religiosas e étnicas que é praticamente impossível de entender por aqueles lados. Em casa, é-me dito diz-me que agora lembraram-se de falar em países como Portugal e Espanha, que também foram mouros e que, portanto, devem fazer parte desse grande estado que viria de lá de cima por aí fora até cá abaixo. Isto de ser moda querer restaurar fronteiras a partir de livros religiosos de há milénios é uma profunda idiotice e um desrespeito pelas leis internacionais modernas em tempos de ONU e de declarações universais. Sobretudo o que isto representa no terreno: ilegalidades e imoralidades que repudio totalmente.

O que me choca nestes fundamentalismos todos é a certeza que gente inocente e de bem, que há invariavelmente em todo o lado, sofre de forma chocante e indefesa quando cai sob a alçada de insanidades que intimidam e forçam pela uniformização e pela intolerância, pelo terror e pela violência. O exercício do poder, já de si perigoso, pode tornar-se desumano e demente nas mãos de loucos. Assim foi ao longo da história, em que uns oprimiram e brutalizaram outros. Mas o meu choque advém não do conhecimento da história mas da constatação de que nada aprendemos com ela. Estão a acontecer coisas terríveis por esse mundo fora que não podiam nem podem acontecer, repito, não em tempos de direitos humanos, tecnologia e modernidade. Isto assusta-me profundamente e temo. Temo por aqueles que, geograficamente ou não só, a essas terríveis coisas não conseguem, infelizmente, escapar. 

E quanto mais vejo e escuto ou leio sobre esta loucura humana  mais me apetece ficar a olhar o mar ou estar perto dos flamingos que se instalaram perto da minha casa.

julho 30, 2014

Quando um homem ama uma mulher

Quem conhece bem o AE ou passa por aqui acidentalmente saberá que quando escrevo sobre filmes é em estilo retro, uma vez que nunca estou em cima do acontecimento nestas matérias e raramente vou ao cinema desde há vários anos. De tal forma, que falo de filmes que já saíram e já foram vistos, com anos e anos em cima, frequentemente. Embora, e de qualquer forma, o cinema seja para mim arte intemporal.
Desta vez, vi a publicidade a este filme e resolvi escrever aqui algumas palavrinhas sobre o mesmo, apenas e apenas a partir do que vi no trailer. Uma história que vem mesmo a propósito, no meio da escalada do conflito israelo-palestiniano.



A história do filme será ficção, o que se passa praticamente na maioria das fitas todas que vamos vendo. Mas não deixará de ter raízes reais e quiçá ainda mais brutais. De forma simples: um rapaz palestiniano (ou de Gaza ou da Cisjordânia, não consegui perceber, tanto faz) ama uma rapariga que tem um irmão conhecido localmente. É-lhe dito, ao rapaz, se gostas da minha irmã e queres ficar com ela vem comigo e faz isto e isto. Um aliciante poderoso para fazer atos de terrorismo, em nome de uma causa. Fazem-se, ainda e sempre, muitas loucuras por amor. É depois preso pelos israelitas. Estes dizem-lhe se não trabalhares para nós a tua namorada é a primeira a sofrer as consequências. Atos de espionagem, em nome de uma causa. Liberdade ou defesa, o protagonista deste filme simbolizará bem a quantidade de gente que comete atos extremados por aquelas bandas porque alguém lhes faz vincar que podem perder os seus amores. Alargando agora esta tipologia, podem ser amantes, filhos, maridos, esposas, tios, avós, todos. Ou fazes assim ou eles é que sofrem as consequências ou, também, vais fazer assim porque apoiaremos os teus, dar-lhes-emos dinheiro, uma casa, proteção, cuidados de saúde. Ora se isto não é profundamente trágico, não sei. O encurralamento não é meramente físico, geográfico. Ele começa por ser violentamente psicológico.

(Nota informativa: este filme palestiniano foi nomeado para Melhor Filme Estrangeiro nos Óscares 2014.)

julho 28, 2014

Determinismo cultural


Lendo o que muito se escreve pela blogosfera e nas redes sociais em que toda a gente opina em liberdade, nada contra, embora tenha o direito de eleger os que na minha perspetiva opinam bem, lendo tanta coisa e escrita por tanta gente, há algo que me tem ocupado os pensamentos: a ideia que perpassa de muitos posts, comentários ou afins que afirma ou insinua que certos povos não sabem viver sob determinadas prerrogativas ou liberdades. Por outras palavras, que há nações ou populações que foram feitas para existir sob um determinado número de coisas más, atrofiantes, ultrapassadas ou até desumanas. Ora isto é uma profunda forma de arrogância cultural. Colocar certos povos, cores ou credos sob um determinismo rácico, religioso, geográfico, histórico é inconcebível. É ridículo e falso. 
Há três momentos que retenho das minhas viagens nas outras duas décadas e um deles teve lugar em Paris, num dia comum em que visitava o parque temático da EuroDisney. Fazia sol, era maio, havia gente de todas as formas e feitios e uma coisa em comum: um profundo desejo de diversão, traduzido pela espera naquelas filas organizadas e longas, com filhos ou sem eles. O pensamento surgiu, dentro de mim, rápido e curto: todos mas todos aspiram às mesmas coisas, independentemente das fronteiras externas que os colocam de um lado ou do outro do globo terrestre. As barreiras interiores, as pancas, as taras, os desvios, as loucuras, elas existem, mas não são automaticamente transversais, não fazem parte da natureza de todos. O meio impõe-se sobre as escolhas individuais, muitas vezes, vezes demais, até podemos concluir, mas o ser humano, despojado de qualquer carga coletiva, no mais profundo do seu intimo, quer apenas ser feliz. Todos os povos o merecem, todos os povos o conseguem fazer, ainda que não ao mesmo tempo e da mesma forma simultaneamente. Considerar que só nós sabemos, conseguimos ou merecemos viver no bem e no bom é uma tremenda arrogância cultural, não me canso de repeti-lo. Nada é eterno, tudo se transforma. Recuso completamente, pois, a noção de determinismo cultural. 

julho 27, 2014

Bancos londrinos

Não se trata de alta finança, trata-se de literacia e literatura espalhadas pela cidade de Londres, como forma de aliciar para a leitura e para o conhecimento que a mesma proporciona. Desta forma, o projeto Books about Town traz para a capital britânica a ilustração de 50 livros em bancos da cidade. Aqui ficam alguns exemplos de uma fantástica ideia.







"A collaboration between the National Literacy Trust and Wild in Art, the BookBenches feature stories linked to London. (...) Visitors can discover the BookBenches by following literary trails in Greenwich, City of London, Riverside and Bloomsbury, until mid-September."

Mais, aqui.

julho 21, 2014

In the name of the truth

As time and will don´t let me write more than this:

Israel: Stop bombing and killing.
Hamas: Stop the rockets and the building of tunnels.
Israel: Stop colonizing Palestinian land. Stop invading villages ant taking land from both Muslim and Christian families.
Hamas: Stop extremism.
Israel: Stop evoking Holocaust to explain your actions. Stop the occupation.
World: Stop ignoring.
USA and Obama: Stop being biased.
UN: Stop the innaction.

julho 07, 2014

Um outro verão azul

Chegaram há dias duas meninas ucranianas à minha vizinhança para passarem o verão. Foi-me dito por um vizinho amigo com quem estive à conversa sobre este assunto,  um pouco alheada do facto desse programa - decorrente da tragédia de Chernobyl - ainda estar a decorrer, pensando eu que já se tinham superado os efeitos da tragédia nas crianças, catástrofe muito falada na altura e por razões mais do que tragicamente óbvias. Comoveu-me saber que quanto mais sol e praia apanharem mais anos de vida poderão ter. Nesse dia o céu estava carregado de nuvens e desejei ainda mais o sol de que tanto gosto por causa delas, das minhas novas vizinhas, que ainda não conheci.
Fui fã da série espanhola que o título do post evoca, que marcou a minha e outras gerações, já que foi sendo repetida durante anos a fio. Agora, esta série que representa prolongar a existência destas crianças também é algo para tocante e seriamente apreciar. 

junho 08, 2014

Coisas que me comoveram

                    

Na sexta, pequenas emoções, todas diferentes e no entanto ligadas entre si, deixaram-me comovida. A primeira, decorreu de pura ficção. Vi o filme "The Flowers of War", online, no original e bilingue, portanto. Trata-de de um filme de Zhang Yimou, cineasta que sempre apreciei, desde os primeiros filmes feitos com a atriz Gong Li, e que via na RTP2. Vi-o e fiquei a conhecer um pouco mais da história mundial, pois tem como pano de fundo a invasão japonesa de Nanquim. Apesar de conhecer as atrocidades cometidas pelo Japão na China, através do filme e do livro "O Último Imperador", desconhecia a história das violações que este "As Flores da Guerra" nos faz, tristemente, entrever. Li, entretanto, que o filme não foi um sucesso no ocidente, apesar da presença do ator Christian Bale, um dos meus três favoritos da atualidade. Na China, o filme passou, obviamente, pela censura e foi visto por multidões. Nos comentários online do youtube, muitos americanos confessaram ver atenuados ou mesmo dissipados os ódios anti-comunistas face à China depois de verem esta história de horror, nobreza e sacrifício sem par. 
A segunda emoção surgiu no seguimento das imagens documentais do Dia D, relativas ao desembarque nas praias da Normandia das tropas aliadas há 70 anos. Impossível ficar indiferente perante a coragem, o medo, o sacrifício dos homens que, por vontade própria ou não, perderam ou arriscaram vidas em nome da salvação de tantas outras. Como não me parece haver dúvidas sobre que lado representava o mal nesta guerra, ver a dor do bem não deixa de ser tocante. Emocionaram-me também os sobreviventes, que ainda vivem, e corajosos ainda,  para que a história com h grande não se esqueça das suas histórias mais terríveis.
Por fim, a reportagem da noite sobre os trabalhadores da construção civil, um setor em crise profunda, que ocuparam um prédio em Vila Franca onde tinham trabalhado e que fizeram dele a sua casa. Homens, de diferentes idades, origens, unidos sob o mesmo desabrigado teto, em relatos de sofrimento e ao mesmo tempo ainda de esperança, a mostrarem as marcas no presente dos tempos difíceis e injustos que vivemos. Vítimas colaterais da política e da sociedade, a corda a rebentar sempre pelo lado mais fraco, o desejo de que alguém veja - tenha visto - a reportagem e faça alguma coisa por eles, os tire dali, lhes dê uma nova vida, ainda não desistiram, ainda a querem, ainda há tempo. Alguém que queira e sobretudo que possa, rapidamente, enquanto lhes resta a dignidade interior.
Três momentos, diferentes no tempo e no espaço, mas a dizerem-me, mais uma vez, que não gosto dos infortúnios humanos, da dor que significam. Sensibilidades de sempre, mais visíveis no rosto desde a maternidade. O que nos comove também é, ainda e sempre, o que nos move.

maio 22, 2014

Mais uma vergonha


Que é como quem diz, mais um muro. Desconhecia que tinha sido ou tem vindo a ser construído um muro em Mellila, como forma de evitar a imigração clandestina vinda das áfricas onde, curiosamente ou não, este enclave se encontra. Se por um lado percebo que o fluxo de imigração possa ser em larga escala e ilegal, a ponto de criar problemas dentro deste território, por outro, e é este que prevalece em mim, não suporto muros deste tipo, e sou absolutamente contra a ideia de que há, ou houve, muros maus e muros bons. A desgraça de quem tenta saltar este, à semelhança de outros, a desgraça, dizia, é tanta que apenas pode instalar-se em nós uma profunda compaixão e solidariedade. Impossível sentir de outra forma se nos pusermos na pele de quem às vezes espera anos no deserto para saltar o muro. Basta imaginarmos que a nossa pobreza relativa (que ainda não é absoluta, como nestes países subsarianos) que nos leva hoje a atravessar a fronteira esbarra com um muro assim, que nos obrigue a ficar num lugar onde já não conseguimos sobreviver condignamente. É só tentar perceber isto que a vergonha salta cá para dentro num instantinho. Vergonha e injustiça, misturadas com comiseração e até dor . Nunca são bem vindos os muros da miséria e do sofrimento.