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outubro 10, 2014

Elevar a fasquia

 
Andamos todos uns contra os outros. Quer dizer, puseram-nos e vão-nos pondo uns contra os outros. É preciso resistir a isto, não deixar que o mal estar se instale entre nós, que não invejemos e queiramos o mal dos outros apenas porque nós não estamos bem ou tão bem quanto desejaríamos e merecíamos. Devemos desejar o bem para nós, reclamá-lo, em vez de querermos que os outros passem também eles a estar mal. Explicando. Somos contra certos direitos dos outros porque não os temos, admitamos. E o mesmo com benefícios ou vantagens. Mas que tal exigirmos que também os tenhamos e não, pelo contrário, contribuir para que desapareçam? Podemos ver isso na questão dos direitos adquiridos que foram ao ar. Muitos regozijam-se com a perda desses direitos, de pessoas mais velhas na profissão ou até de pessoas com mais poder e com mais dinheiro. Não devíamos ao invés mantê-los e alastrá-los, abrangendo-nos a todos? Se não agora, para quando lá chegássemos, sobretudo se falarmos em termos de idade? Nada tenho contra os direitos ou até privilégios de mais velhos se eu própria vier a beneficiar deles também. Donde nos vêm esta tola insistência em nivelar por baixo quando devíamos exigir e conseguir o nivelamento por cima? Se consideramos que estamos em desvantagem que tal lutar para conseguir chegar à vantagem? O mesmo para as condições de trabalho - porque estamos em crise e há, infelizmente, gente sem trabalho devemos aceitar tudo sem reclamar? Devemos baixar os braços e deixar que tudo se deteriore? Devemos sentir-nos contentes porque perdemos - ou outros perdem - qualidade no trabalho? O mal estar entre as pessoas, sobretudo a nível profissional, alimenta-se das injustiças, é certo, mas também da invejazinha decorrente da frustração de quem não luta para abolir essas mesmas injustiças. Mas que possam ser abolidas nivelando por cima e não por baixo. Se A tem um mais lutemos para que B também o tenha. Não há nada de dignificante na ausência e perda de direitos e regalias de quem trabalha ou trabalhou. A dignificação está em conseguir que todos nós deles possamos usufruir. Não há, em última instância, nada de dignificante na pobreza, se extremarmos a questão. Pessoalmente não desejo que a riqueza desapareça, quero é que a miséria despareça. Acabar com os ricos é, se pensarmos bem, uma estupidez. Acabar com os pobres, sim, uma urgente e permanente justiça . Almeje-se à igualdade por cima, insisto, com melhores condições de trabalho - e de vida - por parte de quem as tem inferiores. Almeje-se à equidade com a fasquia alta, muito alta. Testemunhem-se, resumindo, saltos e não quedas.

outubro 05, 2014

No mundo dos surdos num mundo de surdos



Ontem assisti no Coliseu do Porto à peça Tribos, da autoria da inglesa Nina Raine e trazida por António Fagundes a Portugal. Não se tratando de uma alegoria propriamente original - a ideia da surdez física ser menos cruel do que a surdez emocional - a verdade é que momentos como estes levam-nos indiscutivelmente a confrontar-nos com as nossas muitas intolerâncias mentais, as quais excluem da nossa vida tudo e todos os que se apresentam, pensam ou regem sob ângulos de diferença variados.
Afinal, quem é o surdo? Aquele que não ouve por deficiência orgânica ou aquele que, saudável, não quer e não sabe escutar? Quem é que tem dificuldades evidentes de comunicação? Aquele que não sabe o que são sons, lê os lábios ou usa a linguagem dos sinais ou aquele que, fisicamente são, se fecha em si mesmo, nas suas razões e nas suas ideias, incapaz de se colocar no lugar do outro? Surdez psicológica de quem não sabe ouvir. Incomunicação de quem não quer ou não sabe chegar ao outro. De tantas formas, em tantos lugares. Este é o universo dos desafetos que exclui invariavelmente os surdos e os portadores de uma deficiência mas também tantos outros que estão fora do padrão de alguma maneira.
A peça centra-se numa família disfuncional, mesmo segundo as palavras de Fagundes proferidas durante a conversa com o público depois da peça, e em que as relações são povoadas de agressividade, palavrões e barulho. Um ruído que conota a ausência de serenidade e confiança, que reforça por contraste o isolamento das personagens e a sua alienação num quotidiano de frustrações e de conflitualidade. Fagundes caraterizou a peça como "uma comédia perversa" e de facto são vários os apontamentos de humor negro e de uso do vernacular que nos vão, talvez perversamente, pois então, arrancando umas gargalhadas. Em todo o caso a intriga toca-nos e a mensagem é clara: a surdez da alma é mais comum e trágica do que a surdez real. Basta estar atento para perceber isso. Basta, numa palavra, ouvir.

outubro 03, 2014

Hoje eu também acordei assim *

                                

Isto significa que se está muito mais só, é um facto. A independência tem um preço elevado e a vontade também. Mas ao menos que não nos traiamos a nós mesmos. Vive-se como se quer, sabe e pode, já aqui o disse várias vezes e repito. Muitas vezes não podemos dar mais, não sabemos. Não da forma dos outros. Temos a nossa e é com ela que temos de ir andando. Cada um vive com a sua forma e a sua verdade. Ou aparentemente. E as vontades podem não se cruzar. Não se cruzam, é isso. Daí que uns permaneçam e outros não. Permanecem os que provavelmente têm de permanecer. Muitos, poucos, nenhuns. Interessa é não fugir da própria vontade. Apesar do preço.



(*Não sou nem nunca fui bomba mas quero acreditar que burra não sou. Explicado o roubo. )

outubro 01, 2014

Solidão de uma forma e de outra forma

                       

A solidão física geralmente é indolor, porque e quando necessária e desejada. Já a solidão afetiva é passível de se tornar num imenso deserto de dor. Ela pode ser necessária, como luto ou forma de autoconhecimento e renovação, e por isso mesmo até ser desejada. Mas provavelmente não a tempo inteiro, não eternamente. Já a primeira, por entre saltos de tempo variáveis consoante os humores ou as vontades, pode durar uma vida inteira. Tanto uma como outra podem, no entanto, ser compatíveis com o caráter e as emoções mais profundas de cada um. Ou também podem não ser.

setembro 28, 2014

Atrás de um grande homem


   
 
                   
Ontem ao rever uma boa parte do filme Troia, houve um frase que me ficou na memória, que não fixara da primeira vez que vira o filme, no cinema e já há alguns bons anos. Uma das protagonistas diz ao seu amado: "Não quero um heroi, quero um homem com quem possa envelhecer". Engraçado como Helena de Troia resume o pensamento feminino, acredito que em larga escala e através dos tempos, no que diz respeito ao amor e de certa forma ao casamento ou a algo que se assemelhe.

Na verdade, penso que é preciso muita coragem ou uma consciência social, política ou humanitária muito forte, por parte das mulheres, para aguentarem a ausência dos companheiros por longos períodos de tempo e em que o risco máximo esteja presente. O risco de eles perderem inclusivamente a vida e assim perder-se o amor. E não posso deixar de pensar também como é diferente o mundano chamamento dos homens em relação ao universo dos desejos mais profundos e intrínsecos das mulheres.

Nunca deixei de pensar nisto ao ver biografias sobre homens que ficaram na história e que se tornaram herois para gerações presentes e futuras. Um desses exemplos foi a vida de Che Guevara, um mito à escala mundial, que se perpetua na memória coletiva pelos seus ideais de revolução e liberdade. Mas, sobretudo enquanto via o filme de Steven Sodebergh, não deixava de interrogar-me: o que faz um homem com família, mulher e filhos, quando estava já instalado em Cuba, largar tudo e ir combater como guerrilheiro para a Bolívia, onde aliás perdeu a vida? A nível de abnegação por uma causa é notável, o sacrifício pessoal em prol de um projeto social, de um ideal de justiça. A nível familiar pensei na esposa que deixou para trás, como os homens deixam sempre as mulheres, fortes decerto mas decerto sofrendo, como as deixam na retaguarda, ao sabor de dias receosos, expetantes, sob o signo da ausência.

Da mesma forma, e não querendo de forma alguma estabelecer nenhum paralelo que não seja este, o das mulheres de armas que não pegam em armas, os guerrilheiros medievais do EI fazem exatamente a mesma coisa. Interrogados pela "Vice News", um dizia que tinha deixado a mulher os filhos e que estava ali por uma causa maior, que a causa era maior do que o resto. Não deixa de ser arrepiante, quando sabemos que a causa significa o terror e o anacronismo, mas o enfoque nesta questão serve o mesmo propósito deste post. E continua a ser algo que causa arrepios, se fundamentalmente do ponto de vista romântico e amoroso.

A coragem em os deixar partir é muita. Ou provavelmente nem se trata disso, são opções do mundo masculino que se regem frequentemente por motivações muito diferentes das do feminino. Eles querem partir, devem partir, o mundo chama-os, o ideal, certo ou errado, nem isso importa aqui, vão-se às as armas e à luta,  alguns voltam, outros não. De qualquer das formas trata-se de uma grande e decerto dolorosa prova para a mulher. Sobretudo se quis um companheiro para dividir as cores dos dias, se o seu coração é mais poderoso do que a cabeça, se não compreende os desígnios do destino e dos homens quando comparados com a alquimia do amor.

Atrevo-me a dizer que a grande maioria de nós, mulheres, não quer herois, à semelhança de Helena de Troia, mas apenas afeto e companhia, isto se falarmos numa base quotidiana e sem sonhar com grandes filmes. Se há delas que estoicamente resistem à saudade e à ausência e conseguem esperar, pelo regresso ou pela criação de uma lenda, outras há que sustentam o histórico longe da vista longe do coração. Admiro as primeiras mas não condeno as segundas. Poucas relações, creio, resistem eternamente às causas, ao apelo do mundo, ao sacrifício em nome do coletivo e em detrimento do estritamente pessoal.
 
O amor é pessoal, pessoalíssimo, e a construção de uma família também. Por muito que admiremos os herois do passado e do presente, não percamos a noção das suas bravas - infelizes? - mulheres na retaguarda. Honremos as que resistem e compreendamos as que sucumbem e anseiam por mais paixão a alimentar-lhes as horas. A esposa de Heitor, viúva, ganhou o estatuto de heroina mas, no filme, é Helena que envelhecerá como e com quem quer.

agosto 03, 2014

Hostilidade virtual e escuridão real


Já não é a primeira vez que, ao expressar uma opinião num mural de alguém amigo no FB, aparecem pessoas extremamente mal educadas do ponto de vista em que colocam a sua opinião, neste caso obviamente quando não coincide com a minha. Tendo a preferir claramente pessoas francas, diretas  - acrescento esclarecidas - e considero que tenho tolerância e paciência q.b. mesmo quando acho que os seus argumentos, os das duas primeiras, não têm pés nem cabeça. Na verdade, há muita gente convencida que sabe muito ou tudo quando isso não corresponde, de todo, à realidade. Ninguém sabe tudo, ninguém, mas alguns sabem bem menos do que julgam ou querem julgar. Mas a cada um a sua opinião, democracia será isso mesmo, o direito de todos opinarem, razoavelmente ou não. O que já me deixa com alguma irritação mental é a má educação, ou seja, os termos em que de forma ofensiva e irracional discordam da nossa perspetiva. Ora isto diz tudo da natureza humana. Se num simples registo virtual de opinião e numa mera troca de ideias online mostram-se logo garras de maneira hostil e injustificável, aproveitando ínfimos pormenores e/ou vendo coisas que não existem, como não entrar em conflito aberto por coisas um bocadinho maiores? Depois queixamo-nos, queixam-se, de que os outros são diabólicos quando fazem isto ou aquilo - e são, muitas vezes. Mas podia olhar-se um bocadinho mais para dentro e ver que se destila ódio facilmente perante coisas que diria pequenas. Muito pequenas, até. A escuridão está dentro. O inferno, pelos vistos e frequentemente, somos nós mesmos. 

agosto 01, 2014

Seleção natural




Não cabem na nossa vida todas as pessoas que cabem no nosso coração. Ou, se se preferir, na nossa mente. Não conseguimos albergar os afetos de forma física que seja perpetuada  no tempo e permanente no espaço. Não é possível. Daí que, mesmo sem querer, se vão deixando pelo caminho simpatias, afinidades e cumplicidades. O tempo e o espaço encarregam-se de traçar os nossos encontros e também os desencontros. Mesmo que a vontade seja a de manter todos aqueles que vamos conhecendo e de quem gostamos, telefonando, escrevendo, estando pessoalmente, nem todos se mantêm presentes nos nossos dias. Nem nós nos deles. Não nos é possível, já disse, não com todos aqueles que encontramos pelo caminho e que nos deixaram uma boa memória. O que fica de alguns deles pois então? Ou, possivelmente, de muitos? Um rosto, uma frase, um local, um sorriso, um momento, um nome, tudo em simultâneo ou nem por isso, uma emoção, uma saudade, um lugar cá dentro. Até mesmo sem nunca mais lhes termos posto a vista em cima.

julho 19, 2014

A seu tempo

                      

Veem-se imensos pais atuais com pressa de que os filhos cresçam depressa, antecipando mundos adultos que deveriam chegar apenas no seu tempo. Ou escravizam os miúdos com horários e atividades non-stop ou deixam-nos antever formas de entretenimento que não são próprias do seu mundo infantil. Lembrei-me mais uma vez disto a propósito da presença de crianças de 6, 7, 8, 9 anos em concertos pop ou rock (por exemplo, estavam várias no dos Rolling Stones, vi nas reportagens televisivas). Também já vi, tempos idos, muitas crianças pequenas em cafés até às duas da manhã, de forma que diria quase habitual. Interrogo-me se as crianças conseguem apreciar este tipo de divertimentos ou se são os pais que promovem estas coisas por pura vaidade - pode ser por ignorância, mas não acredito. Ou se os pais não conseguem colocar o bem estar dos garotos à frente dos seus próprios interesses de diversão. Sou um bocado fundamentalista nestas coisas, voilá, nobody is perfect - considero que se deve controlar as horas de deitar dos miúdos, que se deve controlar os seus hábitos alimentares, que se deve controlar as imagens que veem na TV, que se deve controlar o tipo de coisas que têm no quarto, que se deve controlar o uso de palavrões, que se deve controlar a obsessão por marcas, que se deve controlar o descanso e que se deve controlar o encanto do imaginário infantil. E quando a palavra controlar soar feia e não for aplicável substitua-se por respeitar. As pessoas grandes não estão, muitas vezes, para fazer sacrifícios em favor das mais pequenas. E arrastam-nas consigo para horas e locais que não são os destas. Ou então querem à viva força que os rebentos saibam tudo, vejam tudo, façam tudo o mais cedo possível, como vantagem sobre os outros. Nada a apontar sobre o desejo de sucesso dos nossos filhos, é naturalíssimo, mas importa também refletir a que preço. As crianças não têm tempo para ser crianças, sendo atiradas para espaços e horários que afetam o seu bem estar, concentração e afetos, constituindo estes o pilar do seu esperado e harmonioso desenvolvimento emocional. Sem muitos dramas nem cultivando os traumas, a verdade é que nestas matérias costumo estar do lado dos psicólogos. Dê-se afeto e tranquilidade aos miúdos, isso é que é o que realmente mais importa. E, sobretudo, tempo. Tempo em várias e essenciais formas.

julho 15, 2014

Da raiz do(s) problema(s)


Este ano, por razões profissionais, sobretudo, tenho andado mais distante da blogosfera. Tenho sentido imensas dificuldades em manter o blogue e às vezes penso mesmo em terminar esta aventura. É preciso tempo, disponibilidades várias, coisas que por vezes escasseiam, especialmente quando a nossa atividade profissional é absorvente e se tem uma vida pessoal e familiar que não se quer descurar. Desta forma, não tenho tido oportunidade para ler os outros que tão bem pensam ou escrevem. Em todo o caso, no outro dia dei uma espreitadela a alguns blogues, poucos, é certo, e roubei um excerto de um post que agora transcrevo aqui. Trata-se de uma belíssima reflexão que espelha o modo em que vivemos, ainda que alguns digam que não, por estarem tão metidos na engrenagem que nem o notam ou porque há a ideia que, de alguma forma, assim é que deve ser.

O mundo contemporâneo parece basear-se na ansiedade permanente em relação ao eu. Ninguém se pode sentir bem na sua pele com a obsessão geral de que é preciso ser mais belo e mais jovem e mais rico e mais inteligente e ainda mais elegante e mais sofisticado e mais tudo. Somos constantemente bombardeados por desejos que não podemos concretizar e cada pessoa sonha intensamente em sair de si própria. Assim, a raiz da insatisfação moderna pode estar na forma como nos habituámos a olhar sobretudo para as imperfeições. A sociedade e a cultura são pinturas exageradas das nossas vidas. E, sendo o mundo cada vez mais complexo, queremos tudo simplificado, queremos poder pensar o menos possível, pois já não temos tempo, a mente ocupada com as catástrofes iminentes que o acaso plantou no nosso caminho. E assim estamos quando os prazeres não nos anestesiam.

Não o diria melhor, impossível. Por Luís Naves, em O Fragmentário.

julho 12, 2014

O tempo dos escravos


Há gente que trabalha e trabalha sem um queixume e sem qualquer espécie de reivindicação, mesmo quando as condições de trabalho se tornam cada vez mais adversas e injustas. Não sei se lhes admire esta notável capacidade de sacrifício se lhes critique este espírito acomodado que em nada beneficia o avanço nas condições laborais. Esqueçamos a crise, até porque não é disso que se trata. Trata-se de um modo de estar, perfeitamente legítimo, que se traduz por uma incrível resistência e uma frequente ausência de ideias próprias. Estes são os trabalhadores, funcionários mais desejados, aqueles a quem chamo de executantes. São, naturalmente, os preferidos das chefias, dos chefes, daqueles que agradecem este caráter, sempre obediente e conformado. Os que ousam queixar-se, barafustar, recusar ou manifestar uma ideia contrária dão muito trabalho e, por causa desta coragem moral, cansam-se muito mais, curiosa mas obviamente. É muito difícil bater contra muros de resignação e de espíritos formatados e mecânicos. Estamos em época perigosa - porque ainda damos graças a deus por termos emprego (e damos) vamos deixando que nos pisem e nos explorem até mais não, degradando-se os nossos dias de várias formas. E calando-nos, sendo resilientes e cumpridores, mesmo quando não devíamos ser, lá vamos contribuindo para a proliferação de chefias medíocres e de condições no local de emprego também cada vez mais medíocres. Trabalhar é preciso, embora uns trabalhem para viver e outros vivam para trabalhar. É justo, é igualmente legítimo. Agora não nos digam que o trabalho deve ser cumprido a qualquer preço nem que os executantes são melhores do que os outros. Porque se os tornarmos melhores, qualquer dia estamos como na revolução industrial - e estamos, em muitas partes do globo, por necessidade extrema de uns e ganância escravizante de outros. Aqui, o retrocesso vai dando passos seguros, quer fruto do medo - a questão de sobrevivência - quer fruto da resignação missionária que muitos cultivam, quando não havia necessidade para tal. Quem pode, não deve calar. A resistência não deve ser só física, deve ser também, e neste caso, sobretudo moral. Mas também é possível que a obediência cega e muda se possa basear em ambições pessoais que, afinal, nada têm de missão.

junho 28, 2014

O nós e o eu


Nomes houve que ficaram na história por servirem uma comunidade, por atos bondosos, solidários, corajosos ou revolucionários que visaram um bem comum. Outros nomes ficaram na história por razões inversas, por terem dado asas à mais pura expressão individual, visando o ato de criação, sempre mais egoísta, mas ainda corajosa e profundamente glorificante. Por isso, não venha ninguém dizer que os primeiros são mais válidos do que os segundos ou que o comunitário é mais preciso do que o individual. São apenas formas absolutamente diferentes de estar, porque nascidas de formas completamente distintas de ser. Gosto de uns e de outros, sem ambos os tipos o mundo teria sido e seria bem mais pobre. A riqueza vem da alma nobre e do altruísmo e vem também da liberdade de cada um na expressão pessoal. Tudo o que engrandece, se sozinhos ou em grupos, é fonte de inspiração. E cada um absorve e aplica a que quer, sabe e pode.

junho 20, 2014

No essencial é que está o ganho



O pormenor é um grande inimigo da generosidade. Dei por mim a pensar nisto, primeiro, a propósito das críticas de cinema, já que tenho passado os olhos por algumas nestas duas últimas semanas, depois, porque tenho observado de perto conflitos que se instalam a partir de coisas mínimas. Na verdade, estes são tempos cada vez menos generosos, em que rapidamente se censuram e se rebaixam coisas e pessoas por causa da fixação em detalhes. O detalhe quando vem por bem pode ser um fino complemento de algo que ainda podemos melhorar, dentro da humildade que nos deve acompanhar. Mas quando vem por mal, apetece-me dar-lhe um pontapé para bem longe, por vir denegrir algo ou alguém que fez vindo da parte de quem não ousou fazer. É incrível o número de problemas causados por esta insistência tola no acessório. Podemos até todos concordar que o pormenor escapou ou falhou mas devemo-nos questionar se isso chega para destruir o essencial. Também é aconselhável, deste ponto de vista, que nos centremos nos detalhes que funcionaram, apesar de continuar a pensar que o fundamental é que interessa. Quanto mais nos concentrarmos naquilo que de positivo as coisas ou as pessoas têm melhor. Tenho cá a ideia de que todos sairiam a ganhar. A generosidade, essa, será - seria - infinitamente maior. E não me parece haver nada que contrarie esta minha fé. Mas não mesmo.

maio 22, 2014

Normalmente




Muitas vezes, ou até normalmente, considera-se anormal o que devia ser encarado com a maior normalidade - e naturalidade - possível. Desta forma, existiriam menos preconceitos, menos críticas, menos problemas. Por outro lado, aceita-se como normal um rol de anormalidades que são uma autêntica chaga. Estas, sim, deviam fazer com que as pessoas fossem mais exigentes, consigo mesmas e com os outros. Podia dar exemplos, para o dito acima e o dito aqui mais abaixo, sobretudo porque o conceito de normalidade também pode variar, é certo. Mas uma coisa é também certa: há normalidades absolutamente naturais e essenciais e assim devem ser vistas e sentidas e há depois o incrivelmente anormal que só perturba e destrói. A proposta é sermos menos tolerantes com este último.

abril 16, 2014

Onde não pertencemos





"Muitos dos nossos problemas nascem de nos termos deixado arrastar, talvez por complacência para connosco e para com os outros, para espaços que não são os nossos e frequentar pessoas que não nos convêm. Elas, as pessoas que não nos convêm, sempre que tiverem oportunidade não deixarão de assinalar a nossa inconveniência."
Jorge Carreira Maia (Kyrie Eleison)

A verdade é esta: continuamos a fazer coisas - frequentar espaços e pessoas que não nos convêm - porque somos demasiados complacentes, porque não sabemos ou não queremos dizer não, porque queremos agradar a quem nos é próximo, em determinada altura ou circunstância, porque não queremos defraudar as expetativas dos outros, porque nos pomos em dúvida a nós próprios, porque pensamos que fazer igual pode ser melhor, mesmo antecipando que não seja nem é, porque estamos presos por algum tipo de sentimento, porque temos à nossa volta pessoas fracas que manipulam as superiores, porque queremos dar uma ou mais uma oportunidade, porque o ´porque não´ nos ocorre, porque somos ou nos tornamos indulgentes ao ponto de abusarem de nós, porque não sabemos estar sozinhos, porque receamos o confronto com a nossa verdade, porque receamos ser diferentes, porque fazemos más escolhas, porque a vida é mesmo assim, porque não devia ser mas vai sendo. Até ao momento da epifania - não nos convêm. E das duas uma: ou sempre o soubemos e fomos bondosos e parvos ou nunca o percebemos por ilusão, ingenuidade e insegurança. Por isso a maturidade é essencial - os fretes, espaciais ou sociais, até familiares, ou na verdade os problemas, passam a ser muito menos. Ou, se corajosos formos, podem deixar pura e simplesmente de existir.

março 17, 2014

Normal e diferente



Não é frase de filósofo como deveria ser mas apenas de uma atriz portuguesa e dei de caras com ela há já algumas semanas. Dizia a mesma que enquanto a maior parte das pessoas - e dos artistas - tenta cultivar o lado freak, ela sempre desejou ser o mais normal possível. Não pude deixar de sentir uma grande empatia com esta confissão, a levantar a questão do que serão os contornos da normalidade. Já aqui escrevi, pelo menos uma vez, que a ousadia e a transgressão podem ser reveladas de variadas e diferentes maneiras e que, desta forma, não se esgotam nem em looks assumidamente atrevidos nem em comportamentos propositadamente provocantes. Na verdade, sob uma aparência normal, serena e até consensualmente clean, pode existir uma existência perfeitamente inconformada e livre. E do mesmo modo, comportamentos modernos e sociais de desafio às regras podem não ser mais do que o duelo que se quer bater com uma natureza apagada e sem chama. O freak pode ser exterior mas é-o ainda mais se for interior. A diferença não se reduz ao choque, à extravagância, à linguagem, às poses e atitudes que são intencionalmente escolhidas para fazer a diferença. A diferença, por vezes, está lá ainda que não se dê por ela ao princípio. Do género alguém nos perguntar porque é que nunca dizemos um palavrão maior e de nos julgarem certinhos por causa disso. Do género nós respondermos pois mas não usamos aliança, não casámos pela igreja nem fizemos festa, não temos cão nem uma carrinha tipo familiar que ruma ao al-gharb todos os anos. Coisas a que já assisti, divertida. Ou do género todos gostarem de um verde que não existe e nós gostarmos de um verde às bolinhas. Coisas simples, mesmo simples, nada avant-garde, que indicam ou podem indicar escolhas e trajetos menos comuns, porque incomum pode ser a nossa alma ainda que a nossa imagem ou comportamento não. Querer ser normal é para quem quer, e já agora para quem sabe e pode. Porque de normal pouco, felizmente, terá. 

março 14, 2014

Quando somos nós



Quando é que nós somos mais nós? Mais autênticos, mais verdadeiros? Às vezes dou por mim a cogitar nisto. Já uma vez li uma nota sociológica que dizia que a voz ao telefone indica o caráter de alguém na perfeição, sem subterfúgios de qualquer espécie. Pode ser mas isso não faz de nós mais nós quando estamos ao telefone. Pessoalmente não sou fã de telefones e muito menos de conversas ao telemóvel. Então não me convence muito a ideia de autenticidade aqui. Há quem diga que as pessoas se revelam mais elas pela internet, sem medos e com a máscara tirada, enquanto que outros defendem precisamente o contrário, que virtualmente as pessoas se agigantam - há essa possibilidade - porque criam personagens que podem não a ser as suas na realidade. Outros dirão que somos mais nós com as pessoas que amamos, que conhecemos bem e que nos conhecem e gostam de nós. Mas ainda assim podemos estar a desempenhar papéis, a ir ao encontro do que pensam e querem de nós e digo isto até sem qualquer espécie de crítica. Pode ser quando estamos no local de trabalho. Motivados e ativos, comunicando e interagindo com gosto, dando o melhor de nós. Mas quando há desencanto e cansaço, então? Lá se vai a teoria. E quando estamos sozinhos? Sozinhos com os nossos pensamentos, na nossa mais profunda interioridade. Não será aí que as forças e inseguranças, qualidades e defeitos, vêm mais ao de cima? Também é possível que não, já que precisamos de outros para interagir e mostrar o que se é. E quando mostramos o que somos, é mais válido o caráter sob pressão e stress ou aquele que resulta do ócio, por exemplo, e da descontração máxima? Poderemos ser tudo isto e somos, mas um dia escrevi aqui no AE que estar com desconhecidos poderá ser também quando somos mais nós, uma vez que não há expetativas nenhumas a preencher ou a gorar. Pode ser mesmo quando mostramos e agimos mais como realmente somos, embora os tímidos possam vir contrariar isto. Então, e assim sendo, repito: quando é que somos mais nós? 

março 12, 2014

Abrir os olhos


Imagino que todos têm direito a uma segunda oportunidade. Acredito, até. Mas que não passe muito para além dela, da segunda. Porque ver continuamente os mesmos erros apenas indica que já está fossilizado, o que quer que seja que se fez (de) mal. E mais. Quando se viu mais do que uma vez uma determinada caraterística negativa, muito negativa, repentina, súbita, inesperada, ela há de voltar, uma e outra vez. Terceira, quarta, vigésima e mais vezes ainda. Não nos peçam mais oportunidades. Não quando já percebemos que o caminho é o errado, ou melhor, não quando já compreendemos que não é nosso caminho. As oportunidades fenecerão à medida que fenece a nossa ilusão e esperança. Quanto mais depressa sairmos dessa fé mentirosa e maléfica melhor. No fundo, sempre o soubemos. E que não nos culpem, sobretudo que não nos culpem, por terem passado ao lado das oportunidades. Na realidade, nunca as mereceram. Sabíamos.

março 11, 2014

Facilidade e dificuldade

     

Não são raras as vezes em que quem não é pai nem mãe, independentemente da razão, dá grandes palpites sobre como educar as crianças. Toda a gente tem o direito de opinar, sobre isso não há dúvida, apenas acho que teorizar é uma coisa e passar por elas na prática é outra. Eu também dizia e dizia antes de ser mãe, tinha mais certezas do que tenho agora, pois tenho cada vez menos. Por isso as acho descabidas, as recomendações, e absolutamente indesejadas quando não pedidas. Então as observações ao jeito de reprimendas nem se fala. Como se pode criar e aplicar um manual de intruções quando se desconhece algo na sua mais profunda realidade? Opinar, sim, falar com a voz da experiência, não. Mesmo se se dizem coisas teoricamente muito acertadas. O pior é o desacerto diário que significa educar, educar bem, pelo menos. Na prática, educar é difícil. Já falar é sempre mais fácil. Criticar, censurar, desaprovar. Também aqui, com os filhos dos outros. 

março 09, 2014

Trivial



A maior parte das palavras que nos saem da boca são profundas banalidades. Assim vamos vivendo os nossos dias. A fugir do essencial, por desconhecimento ou medo. Não quer dizer que esteja errado ou que não se possa passar por cá assim, por vezes é mesmo necessário, mas a fuga à verdade e ao que interessa a tempo inteiro é coisa saturante e desinspiradora. Jogar é preciso mas parar também. Muito mais. 

fevereiro 09, 2014

Entusiasmo e fim




Há relações que estão condenadas desde o início, por mais voltas que deem e voltem a dar. Por isso, quanto menos alarido, melhor. Ou entusiasmo, embora seja muito difícil refrear este no calor dos primeiros momentos. Que até podem durar anos, é um facto. Mas o tal elo dissonante esteve sempre lá, nós é que não o vimos. Ou não quisemos ver. E um dia lá salta ele cá para fora. Não podia permanecer lá dentro, não senão de forma mentirosa. O alarido, então, passa rapidamente a silêncio.