Acabei de ler na minha homepage MSN um título a dizer assim: Quem é inteligente ouve Radiohead, quem não é ouve Beyoncé (in DN). Não li o artigo mas avanço já com a pergunta que se (me) impõe: E quem não ouve nem uma coisa nem outra?
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outubro 23, 2014
outubro 11, 2014
setembro 22, 2014
Domestiquices

Uma conhecida cara da nossa praça disse que consegue manter o seu acelerado nível de trabalho porque, e cito, "não faço rigorosamente nada em casa", acrescentando que tem obviamente quem faça as tarefas por ela. Não, não vou criticar esta confissão, de todo. Na verdade não consegui evitar uma colossal inveja deste estilo de vida. Tirando qualquer espécie de doença ou impedimento trágico, este é o modus vivendi a que eu almejo desde sempre. Nós, as mulheres que têm uma profissão, que também têm filhos, sobretudo pequenos, e que realizam as inúmeras tarefas domésticas, não conseguimos competir, frequentemente, com as que só têm de preocupar-se e ocupar-se com a profissão, ou então que nem sequer uma profissão têm, e isto em termos de frescura, boa disposição, aspeto, disponibilidade de vários tipos e demais apetrechos que nos fazem inclusivamente até perder maridos e companheiros que, coitados, não resistem às curvas da vivacidade e do prazer, quer dizer, lazer. Assim, de caras, é uma realidade. Ainda que haja as super mulheres que tudo parecem ou dizem fazer, muitas vezes as marcas desse esforço, abnegação ou escravidão estão no rosto, no corpo ou manifestam-se de uma forma qualquer. Pessoalmente, quem me dera, estando saudável, não ter de fazer rigorosamente nada em casa. Não, nada, nem cozinha, nem roupa, nem aspirador, nem mangueira, nem camas, nem esfregona. Sobretudo nada que me roubasse tempo, energia e paciência ao tentar, que remédio, fazer quase tudo. E beleza, então não. Tenho dito, de forma totalmente honesta e desassombrada.
Logo no dia a seguir dou de caras com a frase de outro nosso conhecido a nível nacional. Dizia ele, citando novamente, "em casa ela é que faz tudo", referindo-se à sua super companheira e decerto embevecido com estes super poderes que o safam a ele de colaborar (já nem me atrevo a dizer dividir...) nas tarefas quotidianas do lar. Resta saber se "ela" está mesmo satisfeita no seu papel de super fada doméstica que poupa e decerto mima o seu macho e se alimenta isso mesmo ou se, à falta de cooperação, por defeito de fabrico ou ausência, nada mais lhe vale do que a sua incrível energia e juventude. Claro que, neste caso, os filhos ainda não vieram e não sei se a mesma eficiência aguentará o que acompanha a maternidade. Ah, claro, sempre pode arranjar alguém que faça depois rigorosamente tudo. O que é o ideal, pelo menos para mim. Seria, como já deixei claro acima. Mas, de uma maneira ou de outra, com filhos e cadilhos ou não, como me chateia esta coisa da mulher (ter de) ser sempre a eterna gata borralheira (e preferencialmente terna ao mesmo tempo, por razões evidentes). A história é sempre a mesma, muda o tempo e não muda a vontade. E aqui a culpa é todinha do machismo. Ou deles ou delas, que o fazem subsistir.
setembro 17, 2014
Coisas sem relação absolutamente nenhuma
1. Toda a gente tem direito a mudar de opinião, creio, e não sou contra as dissidências, são decisões pessoais que podem ter justificação plausível ... ou não. Mas a saída de Marinho Pinto de um partido que pouco tempo antes o levou até ao centro político europeu parece-me francamente desonesta. O dizer que é tempo de seguir o seu próprio caminho ainda corrobora mais esta abordagem que diria interesseira. Mas na verdade não me surpreende. Trata-se de uma figura que nunca me inspirou confiança, talvez porque não aprecio quem habitualmente fala em tom exaltado e quase aos gritos.
2. Este ano a relva cá de casa mantém-se viçosa como uma verdadeira alface. Assim que me lembre, foi a primeira vez em que não se andou desesperadamente a regar pela noitinha para tentar salvá-la de uma morte certa. Eu que nem sou fã de chuva consigo ver o seu lado positivo quando automaticamente penso na relva da frente e do pátio. Mas nem só de relva verdejante vive o meu apreço pela chuva nestes dias. O calor tem-me sufocado e a coisa melhora com a água caidinha do céu. Por outro lado, poucos sons sabem tão bem como o de ouvir uma grande chuvada quando se chega a casa.
3. Faltam tantos professores ainda nas escolas e os alunos lá vagueiam, horas a fio, sem aulas. Quando é que a obsessão pelos cortes e a sua prática indiscriminada na função pública deixará de ser uma realidade que tanto afeta a vida escolar também dos alunos? Nos cursos profissionais acresce o problema de ter de se repor as aulas, uma vez que é obrigatório o volume de formação na totalidade, e bem, a bem dos alunos. Mas também não será uma injustiça os alunos vaguearem agora, contrariados, em tempo certo de aulas, e depois terem de levar com horas a mais numa já de si pesada carga horária, para compensar?
4. De férias a sul, comprovei novamente que os portugueses estão cada vez mais fechados. Têm muitas dificuldades - ou pruridos - em falar para desconhecidos. Para se lhes arrancar um bom dia ou boa tarde num espaço que se partilha é obra. Eu, que sou daquelas que, por exemplo, falo alegremente numa caixa de supermercado se houver alguém que sorria e faça o mesmo, estranho estas coisas. Então quando os nossos filhos brincam em conjunto e tento conversar um pouco e vejo caras fechadas - snobs? - fico mesmo desapontada com a raça humana. Há gente para quem deve ser difícil sorrir e dizer umas palavrinhas, nem que seja sobre o tempo. Timidez ou mania e falta de boas maneiras?
agosto 22, 2014
Essência ou estatuto?

Ontem estava um tipo português na televisão a dizer que a mulher portuguesa é apreciada porque "é dócil, cozinha e faz uns pratos deliciosos". Pronto, resumiram-nos a isto. Pode o ISIS invadir Portugal para estabelecer o califado que já encontrou um aliado no que diz respeito ao nosso papel.
agosto 14, 2014
Tendências deste verão
1. Obama não veio a ser o que poderia ter sido, ou o que esperava eu que viesse a ser, isto em termos de política externa. Continuou a histórica tendência norte-americana de apoiar incondicionalmente os seus aliados e de ignorar o resto desde que esse resto não coincida com os seus próprios interesses. Ainda assim, não devia estar surpreendida com a desilusão. Afinal, fazer diferente apenas porque se é um pouco diferente seria uma espécie de racismo ao contrário. Se presidentes brancos, nos EUA ou em qualquer lado, fazem-nas mal - e muito - porque não haveria de acontecer exatamente o mesmo com os não brancos?
2. Na Rússia vendem-se T-shirts com a figura do presidente Putin. Esta é uma tendência nova por lá, creio, e espero que a moda não pegue por cá, salvaguardando as devidas distâncias. Ele há gostos para tudo, já que não me pareceu que estivessem os compradores com nenhuma arma apontada para fomentar a aquisição. Mas tudo é possível, há caciquismos que não desaparecem, vão-se é mudando as abordagens. Do que vi, a única coisa de que gostei foi das latas estilosas onde as T-shirts vinham. Tirava-lhes o papel e punha outro, com o rosto do Clive Owen, muito provavelmente. Será que as vendem sem o conteúdo?
3. A tendência em Hollywood é condenar à fogueira quem se opõe ao estado de Israel e quem critica o lobby judaico de alguma forma. No meio da novela Cruz/Bardem, em que estes foram chamados de ignorantes, porque oriundos de um país que teve a Inquisição (de terrivel memória, para que conste), descubro que em 1996 o ator Marlon Brando já tivera de pedir desculpas por ter falado na TV nos estereótipos nacionais dos filmes americanos, nas mãos de executivos e produtores judeus, essencialmente. Liberalismo, sim, mas só se numa direção. Liberdade de expressão e artística, idem aspas. Não soa isto também a medievalismo?
julho 16, 2014
Desertificação

É gritante e salta a olhos vistos. Há uma debandada, em grande escala, das pessoas dos locais de emprego e, em extremas circunstâncias, do próprio país. As filas nos serviços, nas lojas, supermercados e em tudo o mais são enormes, a prestação de serviços e atendimento arrastam-se lentamente e os que ficam, por sorte ou algo mais, estão sobrecarregados de trabalho. E ganham cada vez menos, claro. Cortes, dizem. Ora aqui está uma outra coisa que já não posso ouvir. Ou sentir. Pois o único corte que é manifestamente positivo, a meu ver, é o do cabelo, a pedido e se sair bem. A palavra corta, essa, só me soa bem se ao som de uma claquete de cinema. Bom seria, já agora e a propósito, que este ataque à dignidade de várias formas fosse mera ficção.
junho 26, 2014
Esta relação está assim

1. Confirmei ontem e de que maneira que o meu corpo ou o meu espírito - ou os dois ao mesmo tempo - não está - não estão - para desportos radicais. Apanhei uma radical seca num parque destinado a aventuras desses género - que estão longe do meu conceito de aventura, a milhas e milhas. A única coisa do género que ainda vai lá tem que meter volante, porque o resto - o resto que lá estava pelo menos - passo. (É claro que enquanto lá estive filosofei sobre o quão diferente é o conceito do medo, o da aventura e o da coragem, porque é mesmo.)
2. É óbvio que vamos fazer as malas e voltar para casa hoje. No dia do jogo anterior, domingo, creio, estava já a dormir e hoje se vir este estou já de antemão a pensar que estamos de malas aviadas. Até pode ser pessimismo, ainda há 1% de hipótese, mas é isto. É como se eu agora, porque gosto muito de andar de bicicleta ou porque gosto muito de escrever fosse competir com outros melhor preparados e mais talentosos nestas matérias. Nem a vontade e autoconfiança bastam nem a última deve ser em demasia quando há outros na corrida.
Claro que a relação do título é aquela que de momento tenho com o desporto.
junho 17, 2014
Coisas que me irritaram

A derrota de Portugal, claro. Não é que eu ligue alguma coisa ao futebol hoje em dia mas lá volto a ligar nestas alturas de bandeiras e hinos à espera de alguma sentimental alegria que nos ponha mais contentes por uns bons instantes. Mas foi muito golo do outro lado, golos a mais, pronto. No entanto, isto foi o que postei no meu FB logo a seguir: Não se pode ser grande por picos e apenas por vontade. A grandeza é permanente e tem de ser muito cultivada para se manter. A vários níveis. Serve para o futebol e para muito mais. Leia-se como eu quis que fosse lido ou leia-se de maneira diferente, se se preferir. É preciso uma coisa chamada investimento para se ser grande, ser sempre grande.
A seguir, um amigo brasileiro analisou a derrota portuguesa sob um prisma, como dizer, político, e ao qual achei piada, com a minha eterna capacidade de me distanciar e de brincar com as minhas/nossas falhas. Mas o irritante mesmo foi ver, nos comentários ao post, outros brasileiros, presumo, a tecerem comentários jocosos sobre Portugal, ou, pelo menos, já não lhes consegui achar grande graça. Esta coisa das antipatias nacionais e choques culturais, seja entre que nações forem, não fazem o meu género, embora reconheça que não temos de gostar dos brasileiros apenas porque falam português e eles não têm de gostar dos portugueses pela mesmíssima razão. O sentimento não tem de ser especial, é um facto, mas ainda assim gosto quando o é, de cá para lá e de lá para cá. Lá fiz depois um comentário que ainda ninguém ousou comentar.
Finalmente, e como se não bastasse, dou de caras, também no FB, com a publicidade a um blogue chamado Detalhes de Casada, a falar de bordados e decoraçõezinhas todas elas lavores. Atenção que eu adoro decoração, de coração, mas é da outra, não destas, nada contra mas não, obrigada. Não gosto sobretudo do nome do blogue, soa a estado novo, a fada do lar em modo obrigatório, a seca e a mulher chatinha, sendo que o desplante maior ainda é o casada, como se a solteira não pudesse gostar de fazer estas coisinhas, ou a divorciada ou a viúva, ou como se não tivessem, sequer, casa. Ou, possivelmente pior ou não, como se a casada tivesse de o fazer ou de gostar, já que as duas coisas juntas, fazer e gostar, é muita areia para uma mulher só.
Ai, as coisas que nos irritam são aquelas que não nos movem, a não ser mover-me, sair daqui, para ir dormir; off to bed.
junho 04, 2014
Das determinações

Tenho andado quase completamente arredada da atualidade mas hoje lá me vi a ver e ouvir uma notícia ou outra na informação da noite, a saber, a guerra interna no PS, o cancelamento da viagem para o Brasil do PM por causa do TC, a realeza espanhola a mudar de coroa e pouco mais. Porém, também vi o início, só o início, porque depois desliguei, quer a televisão, quer da atualidade, uma realidade dos meus dias, voluntária e não voluntária, vi o inicio, dizia, de um discurso, entrevista, fosse lá o que fosse, do PM a dizer o seguinte: "A maioria do povo português aprecia a determinação" das nossas políticas ou coisa parecida nesta parte sem aspas. Aprecia ou tem apreciado, já nem me lembro bem, mas dá no mesmo. Aprecia? Declaro já que não estou incluída nesta maioria, não quando, apesar de alguma paciência e zen desconhecimento de questões económicas, não quando, repito, me encontro congelada desde há 10 anos, não quando tenho passado um ano escolar infernal (eu e outros), não quando o meu salário está a mingar volta e não volta, mas com voltas mesmo rápidas, ao melhor estilo rossi, e a voltar, lá está, ao tempo em que era bem mais nova, trabalhava em melhores condições e ainda podia fazer planos, não quando me fartei de ser pacífica, briosa e paciente, profundamente idiota, na verdade. Determinação? Só pode ser uma brincadeira, é mundial, ninguém levaria a mal. Determinação, a meu ver, só pode ser uma: a autodeterminação, rápida e definitiva, que signifique fugir deste PM e restante troupe que não apreciamos. Ou que não aprecio, já que posso estar em minoria.
maio 29, 2014
Louvores
Acho, achei e acharei sempre muita graça às pessoas que louvam o surgimento de mais grelhas para preencher. Respiram, aliviadas, e exultam até, porque alguém se lembrou e se deu ao trabalho de as fazer por elas. Cá eu já é mais o contrário, amaldiçoo cada vez mais os papéis que me põem à frente, sejam físicos ou virtuais. Decididamente, é carga a mais para alguém prático e decidido como eu, para o bem ou para o mal, admito. E com interesses fora do local de trabalho, já agora. Não serve este post, pois, para a papelada louvar.
maio 18, 2014
Preparar o verão?

Adoro o verão, sofro no inverno, estou feliz com estes dias de maio quentes e longos, até as manhãs me parecem apetecíveis, ontem vi-me, inclusivamente, a estender roupa às 8,30 da manhã no pátio com um q.b. contentamento. Claro que me levantei com um propósito específico, o de ir a um determinado local, mas eu e o estendal, juntos, é coisa impensável a esta hora senão sob estas soalheiras temperaturas. Posto isto, renovo-me no verão mesmo quando o ainda não é no calendário mas quase. Ainda assim, não sei o que é preparar o verão. E isto veio-me à ideia porque vi uma foto online em que duas amigas, no verão do ano passado, se diziam a preparar este verão, o de 2014. Eu estou mortinha que ele chegue, o do calendário, que é para eu, final e merecidamente, desligar do trabalho e poder explorar, a minha grande paixão de sempre, o que quer que me apeteça ou possa. Agora, insisto, desconheço o que é preparar o verão. Será ir ao ginásio? Será comprar bikinis novos? Será ir tostando ao sol aos bocadinhos para exibir um bronzeado no pico do verão e das multidões? Será abandonar algum ritual de inverno? Será apenas mudar de roupa e de calçado? Será cortar os cabelos para se ficar mais fresca/o? Será pôr a espreguiçadeira no terraço ou no pátio? O que quer que signifique preparar o verão, eu devo passar-lhe ao lado. Vou fazendo as coisas à medida que surgem - está muito calor, dou um saltinho à praia, por exemplo - e à medida de que delas tenho necessidade, de tal forma que já comprei ou quis comprar roupa de verão, bikinis incluídos, em agosto, uma grande dificuldade, é certo, porque as pessoas que devem preparar o verão já levaram tudo antes, mais espertas e mais aflitas do que eu. Eu gosto de viver as coisas como elas surgem, sem as antecipar, fugindo completamente ao normal dos dias que correm, em que tudo é feito ansiosamente, antes do tempo, e de acordo com os calendários coletivos e comerciais. Não sei o que é preparar o verão, não quero preparar o verão. Quero que ele venha, simplesmente, dia a dia, um dia de cada vez, que se demore, até, e muito, e como o adoro e preciso dele. Quanto ao resto, não me falem em preparativos. Isso soa-me a trabalheira e a catálogo e o verão, o meu verão, não pode ser feito para me cansar. Às vezes lá calha, também é verdade, mas nessas alturas dou por mim a ansiar pela calmaria do outono...
março 17, 2014
Normal e diferente

Não é frase de filósofo como deveria ser mas apenas de uma atriz portuguesa e dei de caras com ela há já algumas semanas. Dizia a mesma que enquanto a maior parte das pessoas - e dos artistas - tenta cultivar o lado freak, ela sempre desejou ser o mais normal possível. Não pude deixar de sentir uma grande empatia com esta confissão, a levantar a questão do que serão os contornos da normalidade. Já aqui escrevi, pelo menos uma vez, que a ousadia e a transgressão podem ser reveladas de variadas e diferentes maneiras e que, desta forma, não se esgotam nem em looks assumidamente atrevidos nem em comportamentos propositadamente provocantes. Na verdade, sob uma aparência normal, serena e até consensualmente clean, pode existir uma existência perfeitamente inconformada e livre. E do mesmo modo, comportamentos modernos e sociais de desafio às regras podem não ser mais do que o duelo que se quer bater com uma natureza apagada e sem chama. O freak pode ser exterior mas é-o ainda mais se for interior. A diferença não se reduz ao choque, à extravagância, à linguagem, às poses e atitudes que são intencionalmente escolhidas para fazer a diferença. A diferença, por vezes, está lá ainda que não se dê por ela ao princípio. Do género alguém nos perguntar porque é que nunca dizemos um palavrão maior e de nos julgarem certinhos por causa disso. Do género nós respondermos pois mas não usamos aliança, não casámos pela igreja nem fizemos festa, não temos cão nem uma carrinha tipo familiar que ruma ao al-gharb todos os anos. Coisas a que já assisti, divertida. Ou do género todos gostarem de um verde que não existe e nós gostarmos de um verde às bolinhas. Coisas simples, mesmo simples, nada avant-garde, que indicam ou podem indicar escolhas e trajetos menos comuns, porque incomum pode ser a nossa alma ainda que a nossa imagem ou comportamento não. Querer ser normal é para quem quer, e já agora para quem sabe e pode. Porque de normal pouco, felizmente, terá.
janeiro 18, 2014
En passant

No outro dia li já não sei onde que a questão de estarmos aqui de passagem é um conceito ligado à autoajuda. Ora como defendo precisamente isso, sobretudo em alguns aspetos do quotidiano, devo concluir que me insiro nessa corrente, tão menorizada por tantos. Entretanto fico na dúvida se tal visão me é benéfica ou não. Mas outra inquietação me assola já. É que sempre vi esta questão como uma perspetiva existencial. E porque tenho um fraquinho considerável por existencialistas a coisa parecia-me interessante, profunda e irresistivelmente filosófica. Afinal, de nada disso se trata. Esta minha mania de falar da existência por aqui, sem conhecimento teórico absolutamente nenhum para a apoiar e fundamentar, é então uma tonta ousadia que não é para pensadores. Mas se for - a ser - para sofredores, como acabamos por ser todos nós de alguma forma, será assim tão mau?
janeiro 17, 2014
Território sem dono

Isto não é politicamente correto nem idealista, na verdade estou a cansar-me da visão idílica das coisas e da dicotomia esquerda/direita e da forma como ela condiciona a visão dessas mesmas coisas. Por isso, aqui vai.
A igualdade absoluta nunca será uma realidade. Ilude-se quem assim pensa, é um mito. A igualdade de oportunidades, sim, é possível, tem de ser possível. Defendo-a e considero-a essencial e um direito inalienável de qualquer ser humano. Mas o que se fará com ela nunca será igual. Pois diferentes são aqueles que de circunstâncias iguais podem partir. Não existem apenas bons caráteres, boas escolhas, bons caminhos e boas ideias. Experimente-se dar uma quantia exorbitante a dois indivíduos e dê-se um prazo de algum tempo, um tempo considerável, para ver o que fazem com ela. Poderão vir com resultados completamente diferentes. Da mesma forma, veja-se o que fazem dois indivíduos com a mesma instrução, o mesmo grau de escolaridade. O percurso e o sucesso poderão ser completamente diferentes. Arranje-se duas famílias completamente estruturadas, em termos afetivos e financeiros. Os seus filhos poderão evoluir de formas completamente díspares. Há uma coisa subjacente à natureza dos seres humanos, que é a atração pelo abismo. Nenhuma sociedade será perfeita um dia e mesmo se o fosse não seria nem será garante nenhum contra a natureza de cada um e as más apostas que possam fazer. O perigo e o desvio farão sempre parte da existência. Termino dizendo que não gosto da direita quando contribui para o apartheid de oportunidades, mantendo as elites e sacrificando os outros. E não gosto da esquerda utópica que sonha com o impossível, partindo do pressuposto que a igualdade total é alcançável. Posto isto, espero escrever pouquíssimo sobre política (e, vou tentar, sobre educação) doravante aqui no AE. Ou se porventura prevaricar e escrever será, como sempre, de acordo com o prisma pessoal, segundo o que penso, observo e absorvo. Sou, e assim quero manter-me, um país livre.
janeiro 06, 2014
Trabucar para manducar

A maior parte das pessoas tem um certo pudor - como se fosse pecado ou algo do género - em admitir que trabalha para ganhar dinheiro. E a maior parte das pessoas trabalha para ganhar dinheiro. Está bem, há a paixão por aquilo que se faz, a satisfação profissional, a realização pessoal, o desafio ao talento, o sentimento de ser útil, a vaidade e brio de cada um, a socialização saudável, a ideia de contribuir para a sociedade e para a evolução do mundo, uma panóplia de justificações, válidas e verdadeiras, que servem para cada um de nós, se não todas, uma ou algumas. Mas tirem-nos os salários, as remunerações, o ganha pão, o vil papel e veremos quem se mantém na fileira do emprego. Deixemo-nos de historietas. Trabalhar para aquecer é apanágio ou de mentirosos ou daqueles que realmente não precisam de dinheiro algum.
novembro 15, 2013
Contente descontentamento

Ontem, enquanto via o telejornal, animei-me momentaneamente quando me foi dito que agora vão começar a distribuir ouro pela população (não gosto de ouro, já agora, mas trocava-o logo logo, vendia-o logo logo, e fazia imensas coisas com ele). Esta resposta que me animou tinha a ver com a minha super sorridente e tonta pergunta: ai sim, saímos da recessão? e agora? o que é que isso significa para nós? vão melhorar as coisas? - enquanto via e ouvia (e lia em rodapé) a notícia da noite (terá sido a do dia, também?). Reparando que a ironia brincalhona era apenas isso mesmo, pergunto a outros, já hoje, na esperança de recuperar a alegria: saímos mesmo da recessão? e agora? já está a acontecer alguma coisa? em concreto? já posso fazer um sem número de coisas que os cortes no salário, congelamento desde 2004, iva, roubo dos subsídios, etc e tal, não me deixaram fazer? Sem falar em quem está pior, muito pior, já no limite da sobrevivência. Bom, digam-me, há alguma coisa que eu já deveria estar a sentir, efetivamente? Sintomas da saída da recessão já esta manhã? Coisas concretas? Hmmm, não? No meu caso, não? Hmm, bem me parecia. Era então um contentamento descontente, porque palerma e apressado, bem me parecia, outra vez. Foi apenas um contente momento porque o descontentamento, esse, parece que não me abandona. A recessão é uma coisa má e a saída é uma coisa boa, deve ser, mas só quando na prática começar a ver aparecerem coisas (na verdade ressurgirem, uma vez que foram tiradas, e sem permissão) que fui vendo desaparecerem. Entre elas o contentamento contente de ver quem trabalha, há anos e anos, compensado por isso. E o resto que daí advém.
outubro 08, 2013
Eu hoje também acordei assim
A direção de turma de duas turmas CEF em uma (sim, são trinta numa sala), o aumento para as 40 horas de trabalho em escolas que não estão preparadas para laborarmos desta forma, os trabalhos de casa do pequeno, diários, e muito bem, e aos quais tenho de estar atenta, as reuniões intercalares pós-laborais esta e a outra semana, a papelada interminável para tudo e nada e, por último mas não menos importante, as tarefas de casa que nunca findam deixaram-me assim:
Ao menos há que rir das nossas pequenas arrelias em dias arreliados, até porque são coisa pouca em dias mais aliviados. E rir ainda é o melhor remédio. Quem ri seus males espanta; não rima mas anima. Oh santa irreverência que (me) faz tanta falta. Isso e o jantarinho pronto, claro. Por falar nisso, is there any cook out there?
setembro 29, 2013
Loisas e coisas

Não estou - devia estar? - preocupada porque não tenho estado a refletir.
Vi mais televisão hoje, e não foi muito, do que vejo habitualmente num mês. Dei uma volta pelas telenovelas portuguesas e, justiça seja feita, a nossa ficção tem evoluído muito. São é muitas, à mesma hora, e a quantidade só baralha.
Considero inacreditável o nível de insultos e de estupidez que vejo nas caixas de comentários dos (excelentes, hiper excelentes) textos do Daniel Oliveira no Arrastão. E como ele responde a um ou outro comentário, imagino que os lê todos. É dose...
A prova de acesso para ingressar na carreira docente peca por duas coisas: passa um certificado de incompetência às universidades e promove a desigualdade. No dia em que os governantes e ministros da educação também a fizerem pode ser que tudo seja mais igual. Ou então que as universidades chumbem mais. Que os liceus chumbem mais. Que a primária chumbe. E que o PR, pois então, chumbe esta mirabolante ideia.
Andei a ver fotografias de decoração online, no FB. Decididamente sou mais El Mueble do que Interdesign Interiores. Esta última abordagem ao décor é muito moderna, muito in, mas o minimalismo acaba por cheirar-me a hospital em muitas das suas criações. Não há vida; tudo simétrico, sintético, absolutamente estético, mas decoração sem madeira, sem fusão de estilos, sem exotismo, sem criatividade colorida, sem calor, ná. Prefiro o estilo mediterrânico, onde é mais fácil encontrar isso tudo. Portanto, nem clássico barroco e pesado nem minimalista hospitalar e frio. Diversidade, conforto e alma devem ser as palavras...
(6 etiquetas para um só post é record absoluto aqui no AE. Agora que reparo. )
setembro 22, 2013
Agridoce

tenho dias em que resmungo - e muito - contra a minha condição de mulher, uma condição que me faz sentir gata borralheira quase a tempo inteiro. para os diabos a casa, as tarefas, a roupa, a cozinha, o pátio, a garagem, tudo o que me tira o tempo para explorar e aproveitar a natureza no seu esplendor. ontem e hoje estiveram dias magníficos, que ainda convidam à areia e ao mar, ao sol e às árvores, à ria (mesmo em frente) e aos campos (praticamente ao lado), ao sentir livre e regenerador que é percorrer os trilhos naturais. estiveram dias maravilhosos e eis que se me cola o limpar, arrumar, organizar, preparar refeições, e mais verbos tarefeiros acabados em ar, um rol de coisinhas chatas que podem saber bem - a saberem - apenas em dias mais frios, chuvosos, caseiros e recolhidos. o verão, ainda que pelo outono adentro, atira-me para fora de portas, o caráter solar foge das quatro paredes, e o resto, a rotina, impede-me de usufruir da natureza como gostaria.
tenho dias em que me sinto uma privilegiada, porque o sou. nesses dias maravilho-me com o que vejo em redor. como queixar-me? uma natureza plena, magnífica, cerca-me a existência, uma (para mim) elevada qualidade de vida faz-me alegrar pela escolha do lugar onde estou, olho e preencho-me, sorrio, contemplo e absorvo cenários e estímulos revitalizantes sem os quais já não posso passar. não me canso de maravilhar com o mundo, com o natural que há no mundo, com o meu pequeno mundo. que engloba também o meu pequeno. o encantamento é perene, se olhar à minha volta, havendo tempo para olhar. talvez por isso, quando não há, me sinta como no parágrafo acima. não gosto que me roubem o tempo para as minhas explorações natureza adentro. para as minhas explorações, sejam elas quais forem. mas eu estava na fase do encantamento. que não se quebre, ao menos, neste parágrafo.
e assim vão os dias, entre a resmunguice e o deslumbramento. venero setembro, por isso o deslumbramento e a resmunguice.
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