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outubro 03, 2014

Hoje eu também acordei assim *

                                

Isto significa que se está muito mais só, é um facto. A independência tem um preço elevado e a vontade também. Mas ao menos que não nos traiamos a nós mesmos. Vive-se como se quer, sabe e pode, já aqui o disse várias vezes e repito. Muitas vezes não podemos dar mais, não sabemos. Não da forma dos outros. Temos a nossa e é com ela que temos de ir andando. Cada um vive com a sua forma e a sua verdade. Ou aparentemente. E as vontades podem não se cruzar. Não se cruzam, é isso. Daí que uns permaneçam e outros não. Permanecem os que provavelmente têm de permanecer. Muitos, poucos, nenhuns. Interessa é não fugir da própria vontade. Apesar do preço.



(*Não sou nem nunca fui bomba mas quero acreditar que burra não sou. Explicado o roubo. )

setembro 29, 2014

Sem forças nem vontades

 
 
Durante o ano letivo transato, no decorrer da minha atividade profissional, desenvolvi um tipo de trabalho, pela força das circunstâncias, que não tivera a oportunidade de conhecer de perto antes. Falo de uma frente que se cruzou no meu caminho como Diretora de Turma, de forma avassaladora, exaustiva, enriquecedora e que continuará este ano, se bem que com mais apoio de outras instâncias escolares que estiveram, também por motivos de força maior, ausentes no ano passado.
Esta ação consistiu num trabalho de articulação constante com as CPCJS - Comissão de Proteção de Crianças e Jovens - de várias localidades, com os Tribunais de Menores de diversas áreas e ainda com médicos pedopsiquiatras de hospitais da região. É verdade, foi árduo e contínuo, exigiu força, física e mental, quer a nível de reuniões, de telefonemas, de troca de e-mails, de relatórios. Como disse, foi também uma nova experiência que me abriu horizontes, mesmo com pouca luz ao fundo do túnel, em alguns casos, e que me despertou para fortes problemáticas sociais e escolares vistas de uma perspetiva quer mais dramática quer mais interventiva. Isto indica o tipo de alunos que tive e tenho a meu cargo e implica muitas horas de trabalho para além daquelas mais normais que assentam na lecionação de aulas, nas reuniões interpares, nas burocracias incontáveis e no tratamento de problemas como indisciplina, insucesso e outros.
Não foi um bom ano, porque muito difícil, mas também estou mais conhecedora e mais capaz em determinadas áreas cujos meandros desconhecia. Quero acreditar, pelo menos. Acreditar deve dar algum tipo de resistência, forçosamente. E por isto, por tudo o que ano que findou e o ano que começou agora significam, tenho um fortíssimo ataque de nervos  cada vez que olho para a minha atual folha de vencimento. Em circunstâncias normais, em países normais, com economias fortalecidas e justas, penso que trabalho a mais e feito da forma mais honesta e eficaz que se sabe mereceria um aumento ou uma pequena promoção, algum tipo de estímulo, como forma de compensar o desgaste e o sacrifício familiar por arrasto. Mas não, aqui o salário diminuiu fortemente, do género como se eu tivesse menos 10 anos de carreira. Ou 15, até. Por um lado, poderia ficar contente por pensarem que pareço ter menos 10 anos, caramba, afinal estou cada vez mais nova. Mas por outro, e este é o que deriva da triste verdade, os 10 coincidem com o gelo que vou sentindo nos ossos e na alma: é que estou congelada desde 2004 e nem um pequeníssimo vislumbre na progressão na carreira, apesar da avaliação para promoção do mérito, aquela mentira que inventaram para fortalecer o ensino. Resumindo, tudo conspira para nos tirar a força.

setembro 09, 2014

Cautelas


Já aqui o disse ou deixei transparecer: as ascensões profissionais rápidas causam-me alguma confusão. E as relações de amizade súbitas igual. Ou ainda mais, é possível. Concluo, assim, que tenho sido e sou cautelosa, sobretudo nas últimas.
Demoro tempo para estabelecer relações verdadeiramente sólidas, embora faça conhecimentos com muita facilidade e adore falar com desconhecidos. Mas da simpatia e conversa de ocasião ou parecido à amizade propriamente dita, que envolva um conhecimento mais profundo e uma partilha maior, vai um enorme passo. E compasso, de espera. Rápidas paixões amistosas têm dado em grande desastres pouco tempo depois, tenho-o observado amiúde. A construção mais lenta, pelo contrário, parece-me dar mais frutos. Uma vez aceite, uma amizade sem deslumbramentos nem defeitos escondidos, será, no meu caso, sempre revestida de lealdade. E se não vivida em presença física pelo menos cá dentro, de alguma maneira. Os amigos podem ser menos desta forma, é um facto, mas serão mais verdadeiros.
Quanto ao veni vidi vici profissional, é possível que resulte, se as pessoas forem verdadeiramente competentes e honestas intelectual e moralmente. Há ascensões meteóricas absolutamente justas, merecidas e baseadas no real valor. Se não, as quedas podem ser surpreendentes. Eu sou daquelas que acredita que a promoção do demérito acaba por cair por terra, mais tarde ou mais cedo. Mas talvez esta conversa não tenha muito interesse para quem gosta e sabe viver sempre no impulso e no calor do momento. E que está certo, de resto. Na verdade, não sei se a cautela é melhor, de todo. Apenas digo que há quem funcione de um modo e quem funcione de um outro. Com o passar dos anos, apercebo-me que me tornei cautelosa. Diga-se que para o bem ou para o mal.

agosto 19, 2014

Anti-anti

                           

Assim muito rapidamente: não posso com radicalismo, com fundamentalismo, com racismo, com xenofobia, com segregação, com intolerância, com opressão, com totalitarismo, com primitivismo, com medievalismo, com tirania,  com ódio, com anti-qualquer coisa que, a favor ou contra, se baseie na cor, credo, etnia, costume, diferença, seja lá o que for. Não posso com nada disto venha de onde vier, esquerda, direita, este, oeste, sul, norte, judaísmo, islamismo, cristianismo, feminino, masculino, noite, dia, yin, yang. Não gosto de ninguém, no sentido total do que é gostar para mim, que se enquadre nestas ideologias, políticas, religiosas, sociais. Ou que decorrem simplesmente, e na maioria das vezes, de um tremendo apetite pelo poder. Tudo isto repele-me, arrepia-me e põe-me a milhas. Não posso com teorias ou práticas anti-liberdade ou anti-diferença, em qualquer parte do globo. E sobretudo não posso com a violência oriunda de qualquer destas formas de negação humana. 

julho 19, 2014

A seu tempo

                      

Veem-se imensos pais atuais com pressa de que os filhos cresçam depressa, antecipando mundos adultos que deveriam chegar apenas no seu tempo. Ou escravizam os miúdos com horários e atividades non-stop ou deixam-nos antever formas de entretenimento que não são próprias do seu mundo infantil. Lembrei-me mais uma vez disto a propósito da presença de crianças de 6, 7, 8, 9 anos em concertos pop ou rock (por exemplo, estavam várias no dos Rolling Stones, vi nas reportagens televisivas). Também já vi, tempos idos, muitas crianças pequenas em cafés até às duas da manhã, de forma que diria quase habitual. Interrogo-me se as crianças conseguem apreciar este tipo de divertimentos ou se são os pais que promovem estas coisas por pura vaidade - pode ser por ignorância, mas não acredito. Ou se os pais não conseguem colocar o bem estar dos garotos à frente dos seus próprios interesses de diversão. Sou um bocado fundamentalista nestas coisas, voilá, nobody is perfect - considero que se deve controlar as horas de deitar dos miúdos, que se deve controlar os seus hábitos alimentares, que se deve controlar as imagens que veem na TV, que se deve controlar o tipo de coisas que têm no quarto, que se deve controlar o uso de palavrões, que se deve controlar a obsessão por marcas, que se deve controlar o descanso e que se deve controlar o encanto do imaginário infantil. E quando a palavra controlar soar feia e não for aplicável substitua-se por respeitar. As pessoas grandes não estão, muitas vezes, para fazer sacrifícios em favor das mais pequenas. E arrastam-nas consigo para horas e locais que não são os destas. Ou então querem à viva força que os rebentos saibam tudo, vejam tudo, façam tudo o mais cedo possível, como vantagem sobre os outros. Nada a apontar sobre o desejo de sucesso dos nossos filhos, é naturalíssimo, mas importa também refletir a que preço. As crianças não têm tempo para ser crianças, sendo atiradas para espaços e horários que afetam o seu bem estar, concentração e afetos, constituindo estes o pilar do seu esperado e harmonioso desenvolvimento emocional. Sem muitos dramas nem cultivando os traumas, a verdade é que nestas matérias costumo estar do lado dos psicólogos. Dê-se afeto e tranquilidade aos miúdos, isso é que é o que realmente mais importa. E, sobretudo, tempo. Tempo em várias e essenciais formas.

junho 26, 2014

Esta relação está assim



1. Confirmei ontem e de que maneira que o meu corpo ou o meu espírito - ou os dois ao mesmo tempo - não está - não estão - para desportos radicais. Apanhei uma radical seca num parque destinado a aventuras desses género - que estão longe do meu conceito de aventura, a milhas e milhas. A única coisa do género que ainda vai lá tem que meter volante, porque o resto - o resto que lá estava pelo menos - passo. (É claro que enquanto lá estive filosofei sobre o quão diferente é o conceito do medo, o da aventura e o da coragem, porque é mesmo.)

2. É óbvio que vamos fazer as malas e voltar para casa hoje. No dia do jogo anterior, domingo, creio, estava já a dormir e hoje se vir este estou já de antemão a pensar que estamos de malas aviadas. Até pode ser pessimismo, ainda há 1% de hipótese, mas é isto. É como se eu agora, porque gosto muito de andar de bicicleta ou porque gosto muito de escrever fosse competir com outros melhor preparados e mais talentosos nestas matérias. Nem a vontade e autoconfiança bastam nem a última deve ser em demasia quando há outros na corrida.

Claro que a relação do título é aquela que de momento tenho com o desporto.

junho 24, 2014

Das dificuldades



Há pouco via na televisão a saída em liberdade de Isaltino Morais e saltou-me à vista o cabelo completamente branco e o envelhecimento súbito em pouco espaço de tempo. Recordei imediatamente outros delituosos a quem aconteceu precisamente o mesmo, desde os arguidos do caso Casa Pia até aos PMs Sócrates e Passos Coelho. Em todos estes exemplos foi visível no rosto e no cabelo o aparecimento veloz de marcas de tempos árduos e não propriamente inocentes.  Vai daí que, num ápice, me pus a pensar em mim própria. E eis que a ausência de cor inundou também e imediatamente o meu teclado. Noites em branco, espaços totalmente em branco, brancas inconcebíveis que surgem nos testes, branca de desgaste, cheques cada vez mais a correrem o risco de serem em branco, cada vez menos carta branca, mentiras nada brancas. O meu crime? Bom, não encontro outro, sim, esse mesmo: ter enveredado por esta profissão, que em tempos difíceis ainda é capaz de arranjar mais agruras ao alimentar-se cada vez mais do facilitismo e, espantemo-nos, é verdade, também ela, da impunidade. Está explicado.

junho 12, 2014

Grita liberdade


Detesto tudo o que seja "cultural". Com isto quero dizer que rejeito a sobreposição do meio, da tradição, da religião ou de outra coisa qualquer às liberdades individuais. Sou defensora destas, absolutamente, não como sinónimo de libertinagem, de deboche, de provocação ostensiva, de atropelo da liberdade alheia, mas como essencial sinónimo de escolhas. Não me obriguem a atuar em nome de e contra a minha vontade apenas porque é diferente e não é o que a maioria quer, sente, pensa, faz. Só faço enquanto eu quiser, na obrigação ou na sensibilidade, na consciência ou na necessidade, na reflexão ou na circunstância. Posso fazer sem desejar por causa disto tudo mas a escolha é minha. Boa ou má, é minha. A liberdade individual nasceu para nos servir e todos que a travam, independentemente do modo ou lugar, tempo ou razão, vão aplicar o cultural para o diabo que os carregue.

junho 08, 2014

Coisas que me comoveram

                    

Na sexta, pequenas emoções, todas diferentes e no entanto ligadas entre si, deixaram-me comovida. A primeira, decorreu de pura ficção. Vi o filme "The Flowers of War", online, no original e bilingue, portanto. Trata-de de um filme de Zhang Yimou, cineasta que sempre apreciei, desde os primeiros filmes feitos com a atriz Gong Li, e que via na RTP2. Vi-o e fiquei a conhecer um pouco mais da história mundial, pois tem como pano de fundo a invasão japonesa de Nanquim. Apesar de conhecer as atrocidades cometidas pelo Japão na China, através do filme e do livro "O Último Imperador", desconhecia a história das violações que este "As Flores da Guerra" nos faz, tristemente, entrever. Li, entretanto, que o filme não foi um sucesso no ocidente, apesar da presença do ator Christian Bale, um dos meus três favoritos da atualidade. Na China, o filme passou, obviamente, pela censura e foi visto por multidões. Nos comentários online do youtube, muitos americanos confessaram ver atenuados ou mesmo dissipados os ódios anti-comunistas face à China depois de verem esta história de horror, nobreza e sacrifício sem par. 
A segunda emoção surgiu no seguimento das imagens documentais do Dia D, relativas ao desembarque nas praias da Normandia das tropas aliadas há 70 anos. Impossível ficar indiferente perante a coragem, o medo, o sacrifício dos homens que, por vontade própria ou não, perderam ou arriscaram vidas em nome da salvação de tantas outras. Como não me parece haver dúvidas sobre que lado representava o mal nesta guerra, ver a dor do bem não deixa de ser tocante. Emocionaram-me também os sobreviventes, que ainda vivem, e corajosos ainda,  para que a história com h grande não se esqueça das suas histórias mais terríveis.
Por fim, a reportagem da noite sobre os trabalhadores da construção civil, um setor em crise profunda, que ocuparam um prédio em Vila Franca onde tinham trabalhado e que fizeram dele a sua casa. Homens, de diferentes idades, origens, unidos sob o mesmo desabrigado teto, em relatos de sofrimento e ao mesmo tempo ainda de esperança, a mostrarem as marcas no presente dos tempos difíceis e injustos que vivemos. Vítimas colaterais da política e da sociedade, a corda a rebentar sempre pelo lado mais fraco, o desejo de que alguém veja - tenha visto - a reportagem e faça alguma coisa por eles, os tire dali, lhes dê uma nova vida, ainda não desistiram, ainda a querem, ainda há tempo. Alguém que queira e sobretudo que possa, rapidamente, enquanto lhes resta a dignidade interior.
Três momentos, diferentes no tempo e no espaço, mas a dizerem-me, mais uma vez, que não gosto dos infortúnios humanos, da dor que significam. Sensibilidades de sempre, mais visíveis no rosto desde a maternidade. O que nos comove também é, ainda e sempre, o que nos move.

maio 23, 2014

O descanso e a guerreira


Sou intrinsecamente live and let live. Mas este apreciado e cultivado sossego bate em retirada quando alguém que é o oposto lá me vem seriamente incomodar. Então, vou buscar defesas combativas não sei onde, mas vou. O que é uma tremenda maçada porque eu gostava mesmo era de estar sossegada, sob um tranquilo ´living and letting live´. Mas, lá está, eu não quero nem procuro mas o combate surge, obrigatoriamente. Não dá para fugir, se o ataque é muito denunciado. Pode ser evitado, muitas vezes, a experiência vai-nos dando engenho e arte também nestas coisas, e quando o é, permanece o sossego.  Mas declarado, não dá. E é assim que vamos. Ou vou, neste caso. A desejar sempre estar no meu canto mas a não fugir de uma frente de batalha se sou obrigada a combater.

maio 18, 2014

Preparar o verão?


Adoro o verão, sofro no inverno, estou feliz com estes dias de maio quentes e longos, até as manhãs me parecem apetecíveis, ontem vi-me, inclusivamente, a estender roupa às 8,30 da manhã no pátio com um q.b. contentamento. Claro que me levantei com um propósito específico, o de ir a um determinado local, mas eu e o estendal, juntos, é coisa impensável a esta hora senão sob estas soalheiras temperaturas. Posto isto, renovo-me no verão mesmo quando o ainda não é no calendário mas quase. Ainda assim, não sei o que é preparar o verão. E isto veio-me à ideia porque vi uma foto online em que duas amigas, no verão do ano passado, se diziam a preparar este verão, o de 2014. Eu estou mortinha que ele chegue, o do calendário, que é para eu, final e merecidamente, desligar do trabalho e poder explorar, a minha grande paixão de sempre, o que quer que me apeteça ou possa. Agora, insisto, desconheço o que é preparar o verão. Será ir ao ginásio? Será comprar bikinis novos? Será ir tostando ao sol aos bocadinhos para exibir um bronzeado no pico do verão e das multidões? Será abandonar algum ritual de inverno? Será apenas mudar de roupa e de calçado? Será cortar os cabelos para se ficar mais fresca/o? Será pôr a espreguiçadeira no terraço ou no pátio? O que quer que signifique preparar o verão, eu devo passar-lhe ao lado. Vou fazendo as coisas à medida que surgem  - está muito calor, dou um saltinho à praia, por exemplo - e à medida de que delas tenho necessidade, de tal forma que já comprei ou quis comprar roupa de verão, bikinis incluídos, em agosto, uma grande dificuldade, é certo, porque as pessoas que devem preparar o verão já levaram tudo antes, mais espertas e mais aflitas do que eu. Eu gosto de viver as coisas como elas surgem, sem as antecipar, fugindo completamente ao normal dos dias que correm, em que tudo é feito ansiosamente, antes do tempo, e de acordo com os calendários coletivos e comerciais. Não sei o que é preparar o verão, não quero preparar o verão. Quero que ele venha, simplesmente, dia a dia, um dia de cada vez, que se demore, até, e muito, e como o adoro e preciso dele. Quanto ao resto, não me falem em preparativos. Isso soa-me a trabalheira e a catálogo e o verão, o meu verão, não pode ser feito para me cansar. Às vezes lá calha, também é verdade, mas nessas alturas dou por mim a ansiar pela calmaria do outono...

abril 20, 2014

Ao largo


Tenho-me visto muito atrapalhada com a hifenização sob o novo Acordo Ortográfico, como se já devem ter dado conta por aqui. Se já não era propriamente fã de hífens antes, imagine-se agora. Um desacerto, confesso. Não defendi o AO mas também não fui contra, considerei-o dado adquirido, sendo eu docente ao serviço de uma escola. Ainda por cima, e graças a deus, falo e escrevo em inglês nas aulas, o que é uma considerável vantagem a vários níveis (mas lembre-se, as diferenças entre as variantes de inglês na grafia são muito poucas). Vai daí que, ao ter de mudar, quanto antes melhor e também não me vi nem vejo a escrever de uma forma nos documentos da escola e de outra na vida pessoal, respeito quem o faça e quem o consiga, mas pessoalmente  tenho mais que fazer e em que pensar. E isso leva-me à conclusão deste post nada pascal: há hífens que deviam estar por aqui e outros que não deviam estar (e mais coisas, sei, imagino) mas de todas as preocupações que vou tendo esta é manifestamente insignificante para não dizer nula. O essencial, aquilo que verdadeiramente interessa para irmos indo e não muito mal, anda mesmo muito longe daqui. 

abril 13, 2014

Palavras feias (e falta de palavras bonitas)



Detesto falta de educação. Cada vez é mais notória, abrigada sob falsos conceitos de liberdade e humor. São palavrões a torto e a direito em ocasiões sociais, sem qualquer respeito em relação a quem nunca se viu, são palavrões nos transportes públicos, são palavrões ao volante, sobretudo se veem uma mulher sozinha, são palavrões nas escolas e dentro da sala de aula, são palavrões na rua, transversais a nível das idades, dos sexos, das localidades e das profissões. Se acho graça a um ou outro que seja dito num determinado contexto em que haja uma familiaridade considerável entre os presentes, já quando os meus ouvidos os escutam fora de tudo o que seria mais normal e aceitável, o gelo instala-se de imediato.
Também é verdade que a falta de educação não se esgota no abundante vernáculo português, neste caso. Ela surge em forma de ingrata indiferença perante um gesto simpático, ela reside na incapacidade de dizer desculpe e obrigado, ela mora na falta de chá em doses industriais a propósito de pequenas coisas do quotidiano. Convenhamos, o nosso povo, porque dos outros não posso saber da mesma forma, é extremamente mal educado, as gerações mais novas parecem não ter - não têm, na verdade - o mínimo respeito pelos mais velhos, o machismo bronco ainda subsiste por aí em alguns cantos, o modernismo das relações entre homens e mulheres aboliu completamente o cavalheirismo. Porque certas raparigas e mulheres também acompanham, decerto com receio de serem postas de lado e chamadas de antiquadas, chatas e sem interesse como companhia.
Gosto de ser livre, rir é bom, ser divertido, naturalmente, e ter sentido de humor também. Mas o verdadeiro humor anda longe desta descontração boçalmente brejeira, forjada e mentirosa, que é a de aparentemente ser-se livre nos costumes, ainda que a cabeça, o resto, esteja ainda a habitar em tempos medievais. Que povo pequeno armado em grande, onde ser grande significa sonhar em/ou ter Ferraris e ostentar gadgets e outras coisa mais. A grandeza de alma, a nobreza interior, essa não existe, está demodé. E eu também, pelos vistos, porque me perturba esta má educação. E não estou a falar de escola nem de sistemas educativos. A sociedade em que vivemos é mal educada e isto devia preocupar-nos a todos.

abril 07, 2014

Uma outra perspetiva


    

No dia 18 de março o AE teve a oportunidade de ser apresentado no auditório da minha escola na rubrica "Uma outra perspetiva de escrita", atividade inserida na Semana da Leitura, e que se seguiu à apresentação de um romance de Filipe S. L. Monteiro. Esta foi uma simpática ideia do Departamento de Línguas onde me insiro e foi algo que me deu bastante prazer fazer, não só porque foi uma forma de levar o AE a outras pessoas que o desconheciam  como porque me deu oportunidade de estar à conversa sobre temas que me interessam. E o que me faz escrever aqui umas linhas a propósito disto foi o facto de, a dada altura, eu estar a falar dos textos ou crónicas ou posts que alimentam o blogue. E então, lá fui dizendo, sem qualquer espécie de preparação, que já escrevi textos muito zangada com o mundo, ou simplesmente com alguém, que já escrevi textos muito cansada, que já escrevi textos com enxaqueca muitas vezes, que já escrevi textos dos quais agora não gosto nada, que já escrevi textos a rir-me a bandeiras despregadas, que já escrevi textos inspirados numa pessoa em concreto, que já escrevi textos para encher, que já escrevi textos com o meu filho aos pinotes à minha volta, que já escrevi textos com muito sono, que já escrevi textos estando bastante alegre, que estar muito alegre não ajuda a escrever grande coisa mas que estar extenuada não ajuda a escrever nada de nada. E como estou em final de um período estafante e desinspirador, vou, então, retirar-me para já para não registar mais nada que não tenha interesse absolutamente nenhum. (Partindo do arrogante princípio que o que está acima terá algum).

março 26, 2014

O cedo erguer



Não me falem do encanto matutino e do aproveitar do dia todo. Não me falem da atividade matutina e do que se perde quando não se levanta cedo. Não me falem da luminosidade das manhãs quando eu acho que ainda é de noite.

fevereiro 16, 2014

Recaídas


querido diário
mais um dia e aqui me tens de novo, significando no fundo que nada de novo existe que valha a pena relatar
o dia passa-se por entre caídas no sofá correções a vermelho de testes e trabalhos beijinhos e abraços para demover o traquinas de mais e cada vez maiores traquinices novas caídas no sofá roupa para lavar e estender mais caídas no sofá e a seguir refeições e lanches e umas espreitadelas pelas vidraças para ver o tempo esteve sol até mas frio e mais umas coisitas de casa escada abaixo escada acima e novamente o sofá e apanho uma senhora com 700 gatos em casa no nat geo wild e antes do almoço tinha visto belíssimas imagens do kalahari e do deserto da namíbia porque lá está muitas caídas no sofá
o inverno que não passa e os testes que não acabam e o sol a pedir para se ir lá fora mas não vamos o sofá é mais forte porque há trabalhos e correções e ainda a lareira mais tarde mas há sobretudo cansaço como dizia o poeta e diz e nós sabemos e sentimos enfim mais um apontamento intimista mas é a minha casa e nela digo o que me apetece ou até o que nem me pode apetecer por hoje e para já a fartura do inverno mas está mesmo mau este ano também vejo na televisão mas é sempre assim para mim o inverno é-me difícil o inverno quer dizer janeiro e fevereiro e entrando em março inverno mesmo nada de outono porque nesse aguento-me e bem mas entra janeiro e já não 
fico-me pelas vistas do sofá avisto a televisão e depois avisto os desertos e as viagens que queria fazer e depois avisto através das minhas vidraças a ria que se estende em frente e queria avistar outras coisas mais não queria avistar sobretudo os testes que estão maus mas faz parte queria avistar a primavera e outras cores no céu talvez porque as cores cá dentro também fossem outras são sempre se disso depender só a cor dos dias e o fim do inverno
não te apoquentes querido diário isto são coisas de quem nada tem para fazer de interessante porque não pode mas vai poder acabe assim o inverno e o resto que nos aprisiona as horas 
e vá descansa agora tu que isto sem pontuação não dá trabalho a quem escreve era essa a ideia mas dá uma canseira a quem lê
até a um novo dia

fevereiro 08, 2014

Um longo not like


De um modo geral. Não gosto de pessoas sem abertura, não gosto de pessoas que não são francas, não gosto de pessoas que não reconhecem os outros, a não ser que sejam dos seus - seja lá o que isso quer dizer -, não gosto de pessoas sem sentido de humor, não gosto de pessoas a rebentar de orgulho, não gosto de pessoas insensíveis, não gosto de pessoas cheias de certezas inabaláveis, não gosto de pessoas que não sabem ver o outro lado, não gosto de pessoas manipuladoras, não gosto de pessoas que se penduram nos outros, não gosto de pessoas muito lamechas, não gosto de pessoas com a mania da perseguição, não gosto de pessoas que se queixam mas não agem, não gosto de pessoas superficiais, não gosto de pessoas muito vaidosas, não gosto de pessoas essencialmente medrosas, não gosto de pessoas que chantageiam emocionalmente, não gosto de pessoas meramente passionais, não gosto de pessoas gélidas, não gosto de pessoas rígidas e formais a toda a hora, não gosto de pessoas que não sabem soltar uma gargalhada, não gosto de pessoas que falam sempre baixinho, não gosto de pessoas que gritam e falam aos berros, não gosto de pessoas que não sabem ouvir, não gosto de pessoas que implicam com tudo e nada, não gosto de pessoas que nos fazem perguntas sobre nós a torto e a direito, não gosto de pessoas dependentes, não gosto de pessoas incompetentes disfarçadas de boazinhas, não gosto de pessoas que não assumem as vulnerabilidades humanas, não gosto de pessoas que enganam ou pretendem enganar, não gosto de pessoas elitistas e snobs, não gosto de pessoas toscas e ignorantes, não gosto de pessoas sem alma, não gosto de pessoas sem coração, não gosto de pessoas só coração, não gosto de pessoas sinuosas, não gosto de pessoas demasiado simplistas, não gosto de pessoas que não me aquecem ou, o mesmo, não gosto de pessoas que me arrefecem. Pode, ao ler-se, pensar-se que não gosto de ninguém, nada mais falso. Posso até eventualmente gostar de pessoas que tenham uma ou mais do que uma, várias, destas caraterísticas. Mas pessoas fantásticas, admiráveis, poderão ser menos. Poderão ser mais difíceis de encontrar. Existem, porém. Existem sem estas coisas que me fazem gostar menos das outras, ou um bocadinho menos. Também é possível e bem provável que as pessoas de quem não gosto não de mim gostem. É justo e mais do que natural. E até que as pessoas fantásticas possam sentir o mesmo, embora duvide. As minhas pessoas fantásticas são tão fantásticas que eu gosto delas e elas, porque o sinto, de mim. Elas merecem um post para breve. Um "longo like", porque invulgar, raro e precioso, e porque eu gosto de dizer que gosto das coisas e das pessoas. Não invalidando que não goste mesmo nada de outras, primeiras e segundas. Gostar ainda é, felizmente, um ato livre.

fevereiro 06, 2014

A máquina do tempo


querido diário
os dias passam, por entre uma chuva interminável que nos vai sugando a energia, e os sobressaltos, não meus, mas deles e que acabam por ser meus. o trabalho e os trabalhos apertam, roubando-nos descaradamente a disposição. não há tempo para escrever, nem ler, não há tempo para sair, não há tempo para a cultura nem para a diversão. o tempo escoa e o outro tempo, o que vejo do lado de fora das minhas vidraças, também não ajuda a tornar mais leves os estados de alma. que dizer, pois então? bom, e voltando ao teor dos meus dias, não foi por falta de aviso. não foi por falta de chamadas de atenção, de conversas mais intimistas, de apelos à consciência, de contactos variados, de esforços para além do comum. mas, ainda assim, prevejo que tudo vá amainar. o tempo deles, de alguns deles, está a esgotar-se, o tempo do inverno também. a espera custa e é um teste à brava mas o tempo da calmaria chegará. o sol brilhará. se não para todos, chegará o inverno ao outro lado do hemisfério, brilhará para alguns. o que não é pouco. sempre assim foi e sempre assim continuará a ser. pena o desgaste e o que se perde no tempo da espera. não é pouco.

janeiro 30, 2014

Aniversariando



Abre-se o Google e lá está a imagem personalizada para nós, ou melhor, a imagem poderá ser repetida mas o nome acaba em y e é só meu. De qualquer forma, a imagem pode e deve ser repetida, para o ano e durante muitos e bons, como sói dizer-se. Como está na cover photo do meu mural FB, ficar mais velho é apenas um (grande) privilégio. Que a ele tenhamos acesso, oh sim. 

janeiro 11, 2014

Grandes


Os filmes clássicos do século XX desapareceram da pradaria televisiva. De tal modo que as gerações mais novas não os conhecem. Nem os filmes nem os seus intervenientes. Excetuando talvez Marilyn Monroe, cujo marketing pós-vida continua a faturar e ao mesmo tempo a dar a conhecer a sua imagem, não há ideia sobre quem foram os atores e atrizes do cinema clássico norte-americano do século passado, sobretudo antes dos anos oitenta. Eu passei muitas tardes em garota a ver esses filmes - e também noites, mais tarde, pela madrugada adentro. Mas este conhecimento dos "filmes antigos", por vezes, deixava-me envergonhada porque as pessoas da minha geração com quem me relacionava não detinham essa área de saber, estavam mais ocupadas com outras coisas, outros gostos, até outros divertimentos. Tanto assim era que às vezes fingia não saber os nomes para não ser vista como uma "alien". Na verdade, sabia-os, e esse conhecimento estendia-se também a algum cinema europeu, através da televisão, revistas e livros, muitos dos quais ainda tenho em casa. Na universidade, encontrei uma colega que comungava do meu gosto pelo cinema e tornámo-nos amigas. Ela continuou a cultivar esse gosto e esse saber até aos dias de hoje, mais leitora e caseira do que eu. Eu perdi o fio à meada da história do cinema há algum tempo, sobretudo depois da maternidade e de outras coisas chamarem a minha atenção e reclamarem o meu tempo. Hoje em dia, talvez não visse estes filmes com os olhos dos outros tempos, à falta de outros canais na época e à abundância de estímulos variados que existem atualmente. O meu tempo ou, melhor, disponibilidade para o cinema é pouco, mesmo em casa. Mas a verdade é que estas fitas antigas ajudaram-me a crescer de uma forma mais rica, ainda que se mais interior. O cinema é, curiosamente, uma grande experiência interior, semelhante a outras atividades mais viradas para o pensamento e a imaginação. Dos nomes grandes que fizeram essa história do cinema persistem poucos na memória coletiva das gerações mais novas. Muito poucos. É pena. É pena que as televisões tenham erradicado a magia da tela de outros tempos, que não revisitem os espaços e as figuras que marcaram épocas, que não perpetuem o nome de gigantes que não deveriam nunca apagar-se da posteridade.