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julho 15, 2014

Da raiz do(s) problema(s)


Este ano, por razões profissionais, sobretudo, tenho andado mais distante da blogosfera. Tenho sentido imensas dificuldades em manter o blogue e às vezes penso mesmo em terminar esta aventura. É preciso tempo, disponibilidades várias, coisas que por vezes escasseiam, especialmente quando a nossa atividade profissional é absorvente e se tem uma vida pessoal e familiar que não se quer descurar. Desta forma, não tenho tido oportunidade para ler os outros que tão bem pensam ou escrevem. Em todo o caso, no outro dia dei uma espreitadela a alguns blogues, poucos, é certo, e roubei um excerto de um post que agora transcrevo aqui. Trata-se de uma belíssima reflexão que espelha o modo em que vivemos, ainda que alguns digam que não, por estarem tão metidos na engrenagem que nem o notam ou porque há a ideia que, de alguma forma, assim é que deve ser.

O mundo contemporâneo parece basear-se na ansiedade permanente em relação ao eu. Ninguém se pode sentir bem na sua pele com a obsessão geral de que é preciso ser mais belo e mais jovem e mais rico e mais inteligente e ainda mais elegante e mais sofisticado e mais tudo. Somos constantemente bombardeados por desejos que não podemos concretizar e cada pessoa sonha intensamente em sair de si própria. Assim, a raiz da insatisfação moderna pode estar na forma como nos habituámos a olhar sobretudo para as imperfeições. A sociedade e a cultura são pinturas exageradas das nossas vidas. E, sendo o mundo cada vez mais complexo, queremos tudo simplificado, queremos poder pensar o menos possível, pois já não temos tempo, a mente ocupada com as catástrofes iminentes que o acaso plantou no nosso caminho. E assim estamos quando os prazeres não nos anestesiam.

Não o diria melhor, impossível. Por Luís Naves, em O Fragmentário.

maio 07, 2014

O afeto comanda a vida

Este post foi escrito para o AE por Mafalda Branco, que tive o prazer de conhecer no início deste ano letivo, autora do blogue Do outro lado do espelho.


Não podia estar em melhor companhia para escrever sobre o que dá sentido aos meus dias e ao que faço profissionalmente. Sempre fui uma pessoa de afetos, desde que me lembro de ser gente. As minhas primeiras memórias são do colo da minha bisavó e da minha educadora de infância, que sempre me amaram e protegeram. Da última continuo ainda hoje amiga e os afetos acompanham a nossa relação. Quando nos encontramos, conta-me sempre as mesmas histórias e é curioso como também ela tem na memória a minha bisavó e o que ela, já na altura velhinha, fazia por mim. Fala-me do lençol castanho e do cestinho cor-de-rosa que eu levava todos os dias para a escolinha. Lembra-se como se fosse hoje. Também eu. Sorrimos, abraçamo-nos, reforçamos laços e eu a certeza que a importância da escola é imensa na nossa vida e na formação da nossa personalidade. A minha bisavó já faleceu há muitos anos, mas dela guardo esse amor tão bonito por mim e tudo o que fazia para que eu estivesse bem e feliz.

Depois fui crescendo. A minha adaptação à escola não foi fácil, disso também me lembro. E aqui, mais uma vez, as minhas professoras da escola primária marcaram a minha vida, com a sua ternura e o seu cuidado. A professora Zulmira e a professora Elisa, para além do tanto que me ensinaram, deram-me também elas colo e estavam sempre à minha espera com um sorriso. Podia continuar a enumerar todas as pessoas que passaram pela minha vida e que me ensinaram que o mais importante são os afetos, os laços que criamos e que nos permitem crescer e desenvolvermo-nos. E tenho a felicidade de serem tantas! Dessas pessoas fazem parte muitos professores, para além dos que aqui já referi. Talvez tenha sido por isso que hoje trabalho em educação e… com professores… De facto, é um privilégio poder trabalhar em educação, por muitas adversidades que tenhamos que enfrentar. E a base do meu trabalho está… nos afetos, precisamente! Dedico-me a sensibilizar e a inspirar as pessoas, neste caso os professores, para a importância de trabalhar a relação. E escrever hoje estas palavras fez-me pensar em como tudo se encaixa na nossa vida, desde que estejamos atentos e sigamos o nosso coração. Em pequenina o meu sonho era ser professora, depois passou para ser psicóloga e hoje sou psicóloga e trabalho com professores! Nada acontece por acaso e os afetos ajudam a construir o caminho. Neste mundo louco em que vivemos, este é talvez o maior desafio: centrarmos a nossa vida nas relações e dedicarmos-lhes todo o afeto que elas merecem e de que precisam para ser mais plenas. Acredito que o caminho para sermos mais felizes e vivermos em maior equilíbrio é este e é o que procuro transmitir em tudo o que faço. Como dizia Novalis, “tudo é semente”. Para além de semear, resta-nos acreditar e manter a esperança que essa semente dará fruto um dia…

abril 29, 2014

Ainda um outro abril

Este texto foi escrito por Sara Vieira, docente de Inglês/Alemão, de Aveiro.

Para quem não sabe, há 40 anos eu não estava em lugar nenhum, pelo menos nenhum de que eu me lembre (se acreditarmos em vidas passadas) já que ainda não tinha nascido. Sei que a minha mãe estava em casa dos patrões (cujos filhos passaram a noite na cave a ouvir rádio) e não percebeu nada daquilo porque o dia dela foi igual a tantos outros. Sei que as pessoas não sabiam muito bem o que fazer em Aveiro, entre a ânsia de festejar e o medo de que desse para o torto.
A minha imagem do 25 de abril

Eu só nasci quase três anos depois. Portanto, para mim, o 25 de Abril é uma sucessão de momentos que eu não percebia. Manifestações (que hoje não sei se eram do 25 de Abril ou do 1.º de Maio) que eu ia ver descer a Avenida pela mão dos meus pais, com cravos, bandeiras vermelhas, palavras de ordem, discursos sempre mais ou menos iguais e canções da Brigada Victor Jara. Ah, e havia a feira, imensas barracas cheias de coisas que nós íamos ver enquanto os senhores de braço no ar falavam. Era sempre um dia de vestir a roupa nova e ir para o Rossio (tirando uma vez em que fomos visitar os meus avós e caiu a maior camada de granizo de que me lembro).
Quando se é criança, dias assim são marcados pelas imagens e pela emoção, e como o 25 de Abril e o 1.º de Maio eram tão parecidos e tão próximos, hoje não consigo distingui-los na memória. E depois as incoerências que nos espantam aos 4 ou 5 anos, como o estranhamento de haver um feriado por causa de uma ponte que tinha nome de data em vez de nome de ponte e afinal era de todos os dias, não era de um dia só. Porque na minha cidade as pontes tinham nome: a ponte de Pau (que não era de madeira), a ponte das Pirâmides (que não tinha pirâmides nenhumas à vista que não fossem os montes de sal que eram mais para o cone), a ponte de Esgueira (que era um túnel por baixo da linha do comboio) e as Pontes (que era uma praça por cima da ria). Agora a Ponte 25 de Abril devia ser mesmo muito importante para ter um feriado.

E havia sempre eleições. Eu gostava de eleições. Lá ia eu pela mão da minha mãe para uma grande fila que se desdobrava em muitas filas dentro do pavilhão desportivo até a uma mesa com uns senhores de gravata que liam alto o nome da minha mãe (o nome todo!) e depois davam-lhe um papel e íamos a uma mesinha muito escondidinhas e ela escrevia qualquer coisa e o papel ia para uma caixa grande e pronto. Mas era de certeza uma coisa muito séria e muito importante.
Depois cresci e o 25 de Abril tornou-se muito mais importante. Era FERIADO! Feriado, ah, essa palavra doce que queria dizer não ter escola. Esse é que foi o problema. Para os que nasceram depois de 74, mais do que qualquer coisa, o 25 de Abril tornou-se só um feriado.

Olhar de menino tímido que ousou o sonho

Hoje, o maior problema deste país é que para as pessoas como eu e mais novas do que eu, o 25 de Abril é um dia a cores no calendário em que não vamos nem para a escola, nem para o trabalho. Triste, triste povo este que não tem memória. Triste povo que hoje tem saudades da ditadura e admira Salazar. Triste povo este que não tem ideais nem sonhos.
E se eu pudesse escolher lembrar-me de uma vida passada, queria lembrar-me de ter estado em Lisboa no dia 25 de Abril de 1974 em cima de uma chaimite com um cravo no cano da G3, ou melhor, ter sido a mulher que deu o cravo ao soldado ou a criança que atravessou a minha infância nos cartazes nas paredes. Quem me dera que fosse possível que toda a gente neste país tivesse a verdadeira memória do 25 de Abril e a defendesse com unhas e dentes e cravos vermelhos.

novembro 26, 2013

Inteligência companheira

Escrito por Andreia Silva, de Aveiro, com quem colaborei com grande prazer no projeto de Teatro Escolíadas durante dois anos.

                             

A verdadeira inteligência é a emocional. Só esta nos conduz ao encontro do outro. E sem estes encontros não há vida, não há amor, não há nada. Só esta nos ensina a ser gente. E mesmo quando falha o raciocínio lógico articulado, se esta não nos falhar, seremos homens e mulheres que podem marcar a diferença. Hoje, o meu aluno Rúben revelou-se um grande menino, um grande homem, ainda que marcado pela sua trissomia 21: esteve sensível, sempre atento e carinhoso, numa tentativa de levar algum conforto a uma das pessoas que o acompanham todos os dias na nossa sala de apoio à multideficiência (e que infelizmente recebeu uma muito triste notícia hoje). Foi um companheiro à altura o nosso homenzinho. E está muito certo e seguro de uma das grandes lições que devemos levar da vida: à amizade, responde-se com amizade!

novembro 21, 2013

Pequena instrospeção

Inicio aqui - espero - um novo capítulo intitulado Outros olhares que consistirá na publicação de posts/textos escritos por outras pessoas. Para começar, serão escritos por pessoas que conheço, amigos, na verdade, e que aceitaram participar no AE com a sua perspetiva ou apenas sentir perante alguma coisa. Não vou interferir em nada com o seu conteúdo, identificando-me com o mesmo ou não, interessa-me apenas enriquecer o AE com outros afetos, seguramente, e com outros factos, também. E não se manterá - espero - o toque exclusivamente feminino, desta forma. A ver vamos, haja vontade e tempo para outros nos darem a conhecer o seu olhar.
O post que segue abaixo foi escrito por Lília Santos, de Coimbra, que conheço desde 2009. 

                              

Aqui vão rascunhados alguns pensamentos...
Sendo este um ano mais difícil do que o normal (estou a trabalhar mais longe do que gostaria), dou por mim nas minhas viagens (a CP vai ganhar imenso dinheiro comigo este ano) a pensar em tudo e em nada.
Estou, sem dúvida, numa fase mais introspetiva da minha vida, que passa por uma atitude de solidão em relação aos outros e de um “encontro” comigo mesma. Será bom? Sinceramente, não sei. O “afastamento” tem aspetos positivos e também negativos. Como positivo destaco o facto de me reencontrar, como negativo, o sentir que estou a perder a minha melhor caraterística: o sorriso. Rir é muito bom, mas quando acontece de uma forma espontânea, fácil, natural… Neste momento não vejo grandes razões para tal. O nosso país está em colapso, em falência… O que é hoje, não é amanhã. Muito preocupante! Mas pior do que tudo é quando penso nas próximas gerações… No entanto, é a pensar nelas que vou continuar a sorrir, a pensar que tudo irá mudar e que a minha filha, os nossos filhos terão um futuro feliz, brilhante, colorido. Além do mais, quem me conhece, sabe que o meu sorriso fará falta.