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janeiro 07, 2013

De profundis

Estou a ler Alberoni - Viagem pela alma humana - e eis que me deparo, logo no início, com o contraste entre superficialidade e profundidade. Deliciada, vejo também confirmadas algumas das teorias "made in me", inclusive aquela que diz que tudo passa para segundo plano quando temos um problema ou encantamento maior. Ou seja, as pequenas coisas da vida ao nível superficial perdem importância quando postas perante um encontro ao nível da profundidade. E que, a par do amor, do pensamento e da arte, são muitas vezes as experiências negativas que nos fazem entrever o sagrado.

O que fazer depois disto? - pergunto eu. Nada, a não ser viver. Superficialmente porque a profundidade não é comportável a tempo inteiro. E profundamente porque uma existência a valer não se coaduna com meras formas de superficialidade. Quando sentimos verdadeiramente? Quando sofremos? Lá na profundidade. Quando nos conhecemos a nós mesmos? Lá, sem dúvida. Quando nos divertimos? Quando nos irritamos? Na superfície. Quando rimos e festejamos? Na esfera das banalidades. Quando exultamos?  É possível que nas duas, dependendo do aspeto em questão, embora o êxtase maior, creio, advenha da vitória sobre dificuldades sérias.

Se é bom usufruir dos prazeres e necessários os diálogos ao nível da superfície, a verdade é que  pobre é aquele que nunca sai da trivial espuma dos dias, pois nunca descobriu um nível mais profundo, uma outra forma de existir, mais dolorosa ou mais sublime. Pois é nele que "vemos algo da nossa essência e daquilo que poderemos ser".

novembro 23, 2012

Cantigas de falso amigo



Há indivíduos que reconhecemos como sendo os que dão as más notícias, quer dizer, que dão sempre as más notícias. E há também aqueles que nos vêm sempre dizer o que de mal outros dizem de nós. Porque gostam de o fazer, aparentemente porque querem ajudar, abrir os olhos do outro, avisá-lo acerca de algo ou alguém. Na verdade, não se importam minimamente com o que o outro possa sentir. Não escolhem o momento, o lugar, não veem problema nenhum em dizer tudo o que sabem, de qualquer maneira, ignorando a sensibilidade do outro e a necessidade da revelação. Parecem solícitos, acham-se úteis quando na verdade nos podem estragar o dia, ou mesmo mais. Conheci, pelo menos, umas duas pessoas assim no passado. Gelam-nos com as descobertas que fizeram e perturbam-nos com histórias de maledicência muitas vezes dispensáveis e que apenas servem a confusão e a intriga. 
Fujo destes tipos humanos. A uma dessas pessoas tive mesmo que dizer claramente que não queria que me viesse contar acerca de quem falava mal de mim ou o quê ou porquê ou quando. Não me interessa, digo-lhe. Mas é para avisar, achando que me fazia um favor. Dispenso. Não quero saber. Prefiro descobrir por mim própria que não tenho afinidades com alguém e afastar-me por causa disso. Como não conseguiu cumprir, era mais forte do que ela, afastei-me e foi dela. Corte definitivo, não só por isso mas essencialmente por isso. Não quero (falsos) amigos que me ponham mal disposta. Nem que criem intrigas e confusões sobretudo onde não as há. Um amigo verdadeiro é bem diferente. Tem muito cuidado quando nos dá uma má notícia, pois sabe que nos irá fazer sofrer. E poupa-nos a histórias de escárnio e maldizer. 
Não devemos nem podemos, pois, tornarmo-nos dependentes de pessoas deste tipo. Não estão lá para nos ajudar porque não nos fazem felizes, antes pelo contrário. No fundo há um certo prazer perverso em nos criarem angústias. Por muito desorientados que estejamos, por muitas dúvidas que nos assaltem não queremos perto de nós estes pretensos aliados. Eu não quero.

novembro 06, 2012

Quando nos enamoramos?

"Enamoramo-nos quando estamos prontos para mudar, quando estamos prontos a deixar uma experiência já feita e gasta e temos o impulso vital para realizar uma nova exploração, para mudar de vida. Quando estamos prontos a tirar proveito de capacidades que não tínhamos explorado, a explorar mundos que não tínhamos explorado, a realizar sonhos e desejos a que tínhamos renunciado. Enamoramo-nos quando estamos profundamente insatisfeitos com o presente e temos a energia interior para iniciar outra etapa da nossa existência. (...) O enamoramento acontece quando encontramos alguém que nos ajuda a crescer, a realizar novas possibilidades. A ir numa direção que corresponde às nossas exigências interiores. (...) O estado nascente amoroso é a tentativa de mudar radicalmente a própria vida. (...) Todos os enamoramentos são potencialmente revolucionários."
Francesco Alberoni, "Amo-te"

Absolutamente. É preciso um desencanto, um vazio para que o amor a sério possa nascer. Não surgirá se quisermos continuar da mesma forma, com as mesmas rotinas e hábitos, se insistirmos em atividades e divertimentos a toda hora, sem pausas para sentir o desalento, a inutilidade, a extrema necessidade de uma mudança radical. Só insatisfeitos nos poderemos enamorar. O que, espantosamente, pode ser tranquilizador. Resta apenas encontrar alguém que nos faça entrever e entrar nesse outro mundo.

agosto 08, 2012

O grupo

"(...) A companhia ilustra, de forma emblemática, a estupifidicação e a degradação do indivíduo por obra do grupo (...).
em Amizade, de Alberoni

Em inglês, a expressão peer pressure é habitual aparecer referida quando se fala dos problemas dos adolescentes e traduz-se por qualquer coisa como pressão de/do grupo (pares). Tenho para mim, e já não será a primeira vez que escrevo sobre isso, que a estrutura e rituais de grupo tendem a aniquilar sobremaneira os traços de individualidade caraterísticos e naturais de qualquer ser humano. Ao pertencer-se a um grupo está-se, automaticamente, a entrar num código (com frequência fechado) de valores e atitudes que tendem a exaltar o coletivo em detrimento do individual. Temos na língua portuguesa, de resto, uma tirada de sabedoria popular que todos conhecemos "Diz-me com quem andas dir-te-ei quem és" que não deixa de ser altamente exemplificativa da ideia que tem vindo a ser desenvolvida até agora. Isto acontece porque o grupo acaba por fazer (aos jovens?) um ultimato do género - ou és como nós ou não tens valor, ou ages como nós ou não podes pertencer aqui, entre outros.
Porventura tendo mais valia e mais talentos do que aqueles apregoados pelo grupo, o indivíduo acaba, pois, por anular a sua própria vontade e capacidade de opinião faca à força da companhia. Alberoni di-lo claramente e nestes termos: "Mesmo quando os participantes, individualmente, são inteligentes e vivos, mal entram na "companhia" diminuem-se totalmente." Sem dúvida. Até porque as conversas de grupo tendem a ser completamente tolas e banais, não dando espaço de manobra para o real valor de alguém com aquelas qualidades. Voltando a falar dos jovens, quantas vezes não se diminuem? Quantas vezes não optam por certos comportamentos porque não sabem dizer não e se sentem pressionados, ainda que não declaradamente, pelos seus pares?
Com isto quero dizer que não há grupo de "amigos" que mereça o sacrifício dos nossos valores ou, dito de outra maneira, que não se pode vender a consciência em troca de elos fraternais passageiros, e mesmo inexistentes, ou de prestígio postiço. Não podem os nossos amigos retirar-nos liberdade de ação, em caso algum. Assim como não se pode abdicar da originalidade e da sensibilidade quando elas nos são negadas por maiorias, em organizações ou grupos doutro género. E muito menos podemos não valorizar as nossas potencialidades e qualidades (misturadas com os nossos defeitos, naturalmente) em função dos falsos modelos de felicidade e sucesso que tantas vezes nos querem impingir. 
Para os jovens, é importante reter uma mensagem: a de que a amizade verdadeira respeita incondicionalmente a sua maneira única e exclusiva de ser. Para os menos jovens, a de que o grupo, de amigalhaços ou outro, não pode abafar a opinião e a essência. Porque o faz, amiúde, e se o fizer, então, está comprometida qualquer individualidade.

Jornal O Recado,  ESAP, ligeiramente adaptado

maio 20, 2012

"Retidão e moralismo"


"(...) O estudante defende que os professores são injustos mas ele copia o trabalho de um colega. O comerciante lamenta-se pelo facto de as pessoas não pagarem os impostos mas ele foge ao IVA. (...) O moralista toma a atitude de moralizador muito íntegro mas depois faz o que lhe apetece. Tem sempre na boca expressões morais como direito, dever, bem, mal, justo, injusto. Porém, como na parábola do evangelho, vê o argueiro no olho do outro mas não a trave no seu. 
Os sentimentos específicos da moralidade são o sentimento do dever, o sentimento de culpa, a arrependimento e o remorso. Pelo contrário, o moralista condena, indigna-se, protesta, estigmatiza, pede justiça, castigos exemplares. Olha sempre para os outros, nunca para si mesmo." (Francesco Alberoni, O Otimismo)
Aos de cima, poderíamos acrescentar muitos mais exemplos de moralistas e hipócritas que proliferam à nossa volta. Que infelizmente proliferam à nossa volta. Não é preciso centrarmo-nos apenas nos políticos, como deve ter percebido, eles atravessam transversalmente todas as profissões, géneros, religiões, idades e áreas geográficas. Esse é que é o grande problema. Pois se nem a evolução dos tempos o tem conseguido, difícil é  conseguir de alguma maneira uma ordem que possa mudar as cabeças desonestas disfarçadas de morais. Desta forma, até quando e porque temos nós que levar com a falsa moralidade que habita longe da verdadeira retidão?

maio 05, 2012

O mal é fácil

                            
   


"Ser bom é difícil."
A frase não será nova, mas foi dita por um aluno de 17 anos na aula e eleita in loco como a frase do dia. Um colega havia terminado uma apresentação oral e fazíamos, como é hábito, uma reflexão sobre a mesma e aqui sobre o tema ´Poverty´- aliás, o da extrema pobreza, chocados como estávamos com as imagens projetadas no excelente powerpoint com que o aluno em avaliação nos presenteara a todos.
Queremos ajudar mas não sabemos como, ouvia-se. Há sempre tantos entraves, insistia-se. Sozinhos é mais difícil, rematava-se. Apesar de sentados, contrariando o apelo a que o vídeo exibido fazia aos mais ricos deste mundo, lá nos conseguimos levantar ao menos na consciência, ainda que por uns breves instantes. Há que começar por algum lado; naquele momento a bondade terá saído da letargia distraída e cómoda dos nossos europeus dias. 
Mas não é só na área da solidariedade, da caridade, que as dificuldades se fazem sentir. Elas estendem-se a valores como o altruísmo mas também e apenas à integridade, à verdade e autenticidade, ao respeito, à tolerância. Podíamos dar milhares de exemplos ou mais, em milhares de situações, em tantas e tantas dimensões. As desilusões e as perdas são muitas.  O preço é alto, a luta e o desgaste são intensos. O esforço, inglório... Por causa disto, perde-se frequentemente o alento.
A bondade e a entrega não são necessariamente, pois, sinónimos de bonança, de justiça, de  merecida recompensa. Mas então, e honestamente, se não é fácil e se não vale a pena, porquê ser bondoso? Francesco Alberoni diz "A única resposta é esta: por dádiva, porque gostamos de alguém, porque queremos fazer o bem ao nosso filho, aos nossos amigos, à nossa cidade, à natureza, a quem vier. Se não existir este ´bem querer´original, livre, imotivado, gratuito, esta dádiva que surge diretamente da nossa natureza humana e da nossa liberdade, não poderá existir nenhuma moralidade".

abril 22, 2012

Porquê escrever o bem no pó e o mal no mármore?

                      


"Se lerem atentamente, frase por frase, tudo o que é escrito, se examinarem com cuidado cada palavra dita, aperceber-se -ão que as expressões de elogio, os adjectivos que exprimem admiração, reconhecimento são escassíssimos. Encontramo-los um pouco no campo da arte e dirigidos a alguns autores consagrados, sempre os mesmos (...)"  Encontrei esta fabulosa passagem (deverei retirar fabulosa...?) numa das minhas bíblias, um dos magníficos (ooops, outra vez...) livros de Alberoni, e pus-me de imediato a refletir. É que reparei que uso, de forma frequente e natural, muitos adjetivos de elogio e das duas uma - ou continuo na minha verdade embora a maioria das pessoas deva pensar que não pode ser verdade, pois não é o que a maior parte faz, ou devo começar a retirá-los desde já, por forma a não remar contra a má onda, perdão, maré.