
Estou a ler Alberoni - Viagem pela alma humana - e eis que me deparo, logo no início, com o contraste entre superficialidade e profundidade. Deliciada, vejo também confirmadas algumas das teorias "made in me", inclusive aquela que diz que tudo passa para segundo plano quando temos um problema ou encantamento maior. Ou seja, as pequenas coisas da vida ao nível superficial perdem importância quando postas perante um encontro ao nível da profundidade. E que, a par do amor, do pensamento e da arte, são muitas vezes as experiências negativas que nos fazem entrever o sagrado.
O que fazer depois disto? - pergunto eu. Nada, a não ser viver. Superficialmente porque a profundidade não é comportável a tempo inteiro. E profundamente porque uma existência a valer não se coaduna com meras formas de superficialidade. Quando sentimos verdadeiramente? Quando sofremos? Lá na profundidade. Quando nos conhecemos a nós mesmos? Lá, sem dúvida. Quando nos divertimos? Quando nos irritamos? Na superfície. Quando rimos e festejamos? Na esfera das banalidades. Quando exultamos? É possível que nas duas, dependendo do aspeto em questão, embora o êxtase maior, creio, advenha da vitória sobre dificuldades sérias.
Se é bom usufruir dos prazeres e necessários os diálogos ao nível da superfície, a verdade é que pobre é aquele que nunca sai da trivial espuma dos dias, pois nunca descobriu um nível mais profundo, uma outra forma de existir, mais dolorosa ou mais sublime. Pois é nele que "vemos algo da nossa essência e daquilo que poderemos ser".



