abril 05, 2013

Ausências


Tenho talvez falado um bocadinho demais em educação ultimamente. Aproveito o facto de ser professora e de ter, em boa hora, vindo parar ao mundo dos blogues para dar conta a quem por aqui passa da nossa realidade e de certas peculiaridades com que vamos, ano após ano, sendo brindados por experiências governativas.
Uma delas é a recuperação de assiduidade (e dos respetivos conteúdos). Nada contra. Se pelas razões certas, que quase nunca são boas. As certas. Obviamente que é benéfico para o aluno recuperar as matérias a que faltou, e eliminar as faltas que foram causadas por doença, acidente, convalescença, consultas, perdas de familiares, enfim, faltas que fazem sentido limpar e recuperar. Agora, o que não é entendível é que este sistema permita abusos constantes por parte de alunos, inclusive maiores de idade, com idade para revelarem uma maior responsabilidade, ao invés de se refugiarem na lei e, lá vai, baldarem-se. 
Pois que outra atitude é a de alunos que fazem planos de recuperação de assiduidade (com trabalho acrescido para eles e para os docentes) com faltas sistemáticas ao primeiro tempo e estando já presentes ao segundo ou com constantes atrasos de 20, 25 minutos e mesmo mais? Que atitude é a de, passados dois meses sobre o plano, exigirem um outro pelas mesmíssimas razões? Como justificam as faltas, ultrapassa-me. Porque os planos incidem sobre as faltas justificadas (só faltava serem sobre as outras, embora não me surpreenda que qualquer dia cheguemos lá). Ultrapassa-me, não é da minha responsabilidade enquanto professora (já o será enquanto diretora de turma, mas isso é outra história).
Pergunto que atitude é esta, quando há alunos que já estive sem ver semanas e semanas a fio, quase meses, sabendo que vinham a outras disciplinas. O meu azar (e a total irresponsabilidade deles) chamava-se horário. Horário da disciplina, claro. Duas vezes por semana ao primeiro tempo da manhã é obra. Estava muitas vezes frio e a chover, ou o chat tinha acabado muito tarde ou coisas parecidas ou diferentes que os faziam ter sono de manhã. E assim fomos e íamos. Planos de recuperação sempre para os mesmos, pelas mesmas razões que razão nenhuma tinham de ser.
Um dia, a professora disse, alto e bom som, que fazia os planos mas contrariada. Que a eles tinham direito mas contrariada. Que não sabia como justificavam as faltas e contrariada. Silêncio. Uma delas, nesse dia, chegara à escola ao mesmo tempo que a professora mas entrou na aula 25 minutos depois. E a professora disse-lho. Os planos são para fazer. Contrariada. E alguns alunos no dia seguinte chegaram a horas. Estavam sorridentes, felizes por cumprir e a professora sorriu e disse que, sim, era possível terem outra atitude. Adivinhem agora se esta nova atitude, a certa, se aguentou até ao fim. Ou se mais planos falsos tiveram de ser feitos. Ou terão. O sistema continua. E quem, adivinhem outra vez, vai saindo para a rua?

4 comentários:

  1. Começa-se cedo a fazer distorcer a lei, dobrá-la para o que faz jeito.

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    1. Bem observado, Célia. E assim, mal vamos.

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  2. O sistema tem mais buracos que um queijo suíço... Marla

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    1. E sem o sabor desse, isso é que é pior :)

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