julho 05, 2012

Substituição ou a ausência de lugar cativo



Há indivíduos que pensam ser insubstituíveis. Nos afetos, no emprego, socialmente. Na verdade, excluindo os laços  familiares de sangue, somos todos mais do que substituíveis. Até nos afetos do coração, entre marido e mulher, podemos ser substituídos facilmente por outros. Às vezes espantamo-nos até com a rapidez dessa substituição, como nos puderam esquecer assim tão rapidamente, após uma divergência, um rompimento, um divórcio, até uma morte.  
A pessoa que pensa ser insubstituível não é só arrogante, por considerar que ninguém ultrapassa os seus encantos ou as suas capacidades, é também, e talvez surpreendentemente, ingénua. Ingénua por pensar exatamente o que disse atrás. Pois não é ingenuidade não reconhecer o valor de um outro e, ainda mais, não conhecer a natureza daquele que a substituiu ou não entrever a circunstância da sua substituição? 
Alberoni escreve sobre as pessoas que no trabalho criam uma ordem desordenada na qual só elas se entendem, porque querem precisamente criar a ideia de que são insubstituíveis, de que sem elas nada avança e tudo paralisa. Da mesma forma a mãe que faz pensar à sua filha que esta sem ela não consegue ser boa dona de casa e até mãe, está também a achar-se insubstituível, prolongando a sua vida com pequeno alcance na dos filhos, tolhendo-lhes os movimentos e incapacitando-os. Esse tipo de pessoas surpreende-se quando os outros se desenvencilham sem elas, mas achando sempre que as coisas não estão tão bem feitas como se fossem elas a fazê-las.
Quem se acha insubstituível é o oposto de um generoso, de alguém que confia nos outros. É, portanto, um desconfiado que desconhece coisas como delegar, relaxar, estimular o outro. Sendo alguém que vive de forma aflita, pode infligir sentimentos de impotência a quem o rodeia, a começar desde logo pela impossibilidade que vemos de se (auto-)analisar com justeza, atribuindo-se o lugar certo no equilíbrio das relações e no meio laboral, se for o caso. 
Ser substituível não significa que não se tenha qualidade. Podemos tê-la e muita mas outros a terão também. Significa apenas que estamos vivos, sujeitos às nossas limitações e a contingências de várias espécies. Significa também que podemos, nós mesmos, substituir alguém.

2 comentários:

  1. Bem disse Clemenceau que os cemitérios estão cheios de pessoas insubstituíveis.

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