outubro 01, 2013

Prisão e prazer


Mães dizem-me, na escola, que os filhos não gostam de estar presos. Alunos dizem-me, em igual local, que não gostam de estar presos. Uma e outra vez. Ora, eu também não gosto de estar presa. Abalam-se-me as estruturas, é um facto. Estar preso é algo que realmente não apraz a muitos registos de personalidade. Há quem precise de espaço e de se sentir livre para ser feliz, nada contra, como poderia, entendo-o perfeitamente. Mas a verdade é que descobri isto, sobre mim, não enquanto era adolescente - no liceu - e muito menos sentada nos bancos da primária ou do ciclo (naquele tempo chamávamos assim às escolas). Descobri isto mais tarde, com a consolidação do caráter, por vias da maturidade que ainda não é, a meu ver, compatível com estados de adolescência. Ou seja, até o descobrir (para o bem ou para o mal), consegui sentar-me e com gosto numa sala de aula, estive sossegada (bom, quase sempre), atenta e participativa. Fui respeitadora, paciente, concentrada. Mesmo sendo divertida, mesmo não apreciando todas as disciplinas ou o modo como foram lecionadas. E independentemente de ter já o meu feitio e o caráter adulto em construção.
O que se passa, hoje, então? Os alunos dizem-se, e os pais dizem-nos, sedentos de espaço e liberdade, tão naturalmente, tão cedo, tão precocemente. E aceita-se isto como um dado adquirido que não pode ser melhorado, como quem diz são assim e nada há a fazer. E tudo isto como justificativa para a desconcentração na aula, para o não gostar da sala de aula, para o não se interessarem pelas matérias que os obrigam a estar sentados entre quatro paredes. O que nos diz isto, também, acerca das novas gerações? Ou, talvez melhor, o que nos diz do tipo de sociedade que está a criar estas novas gerações? Pode dizer-se que se dá muita importância aos sentimentos dos miúdos, como nunca se deu antes, e que isso é bom. Ou que é mau, porque se centraliza tudo em volta dos egos em detrimento dos valores, da boa educação, da cidadania, do esforço. Diz-nos também que estamos a promover a cultura (da prioridade) do prazer, por total oposição à noção do sacrifício, necessário, inevitável. E ainda nos diz que o ensino passou do oito para o oitenta, se dantes se regia sob o magister dixit, agora os alunos ditam as regras, mesmo que erradamente, apoiados pelos seus pais, que ressalvam a sua natureza para justificar e anuir aos seus caprichos e indesejáveis comportamentos. 

8 comentários:

  1. Parece que estes jovens são mesmo uns filhos dos pais...

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    1. O que maça e cansa é tudo parecer natural, o estarem presos e não gostarem, a linguagem que sai a qualquer hora em qualquer lugar, o desprezo pelo saber... tudo está banalizado. Chega a ser chocante. Sobretudo para quem trabalha com CEFs.

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  2. Manuela Veigaoutubro 02, 2013

    É tão verdade, Faty Laouini. Os pais que hoje deixam os filhos fazer o que entendem, viver a sua "liberdade", vão também, mais tarde, sentir na pele esses excessos. ai vão, vão! E não vão ter lá nenhum professor para os "salvar"!

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    1. É difícil educar, e as companhias estragam muitos esforços, por vezes. Mas a naturalidade com que são vistas certas atitudes é que assusta.

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  3. Teresa Estevesoutubro 02, 2013

    É o tempo do prazer imediato e contínuo... como se a vida fosse isso. As consequências são muito más para quem assim é educado.

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    1. E para quem educa, na sala de aula :) :(

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  4. Mudam-se os tempos... Nem sempre positivamente... Lília

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