maio 16, 2013

As cores da discriminação

                        

Ao longo da minha carreira docente, tenho encontrado alguns alunos com posturas muito racistas e xenófobas. Não sei se por influência familiar, por identidade do grupo onde se movem, por ignorância ou desconhecimento, por instintos negativos, por preconceitos que os media alimentam. A razão não importa, o que é facto é que sempre tive embates na sala de aula quando estas opiniões revelam ostensivamente falta de  humanidade e maldade nua e crua. A diferença de opiniões é enriquecedora mas há campos em que não se trata de diversidade mas simplesmente do justo e do bem.
Nessas alturas, tento sempre que vejam o outro lado, colocando-se na outra pele, porque é completamente diferente a perspetiva quando se está do lado de lá e leva a compreender as razões dos outros. Quando há razão e se fala do justo e do bem. Também já levei filmes para a aula que abordam de forma ímpar essas questões, como forma de sensibilização de cabeças mais fechadas e intolerantes. Nem sempre os filmes resultam, alunos já vi ficarem impassíveis com as situações de sofrimento humano retratadas, mas penso ter conseguido tocar outros.
A questão da imigração é uma das vertentes que os alunos muito criticam. São lestos a condenar quem vem e quem vem e tem vantagens na vinda. Há sempre uma grande implicância com as lojas dos chineses, por exemplo, e acham que problemas como o desemprego ou o crime se devem exclusivamente aos imigrantes. Quando lhes coloco a questão ao contrário, se gostariam de ser bem recebidos noutros países para onde fossem trabalhar, se lhes dessem hipóteses de abrir negócios com regalias, independentemente das razões e da sua justiça, ficam calados. Admitem que sim. Portanto, para eles sim, para os outros não. Esquecemo-nos frequentemente que temos uma enorme comunidade de emigrantes lá fora e que gostamos de os ver bem recebidos porque quando não são estamos perante situações de discriminação ou xenofobia e sentimos até revolta. Ou não? 
Para além disto, já tive na sala de aula observações assumidamente nazistas, de desejo de extermínio de minorias, seja por diferença racial, cultural, opção sexual ou outras. São pensamentos que me assustam, que me repelem, que me repugnam. A democracia das ideias é uma realidade boa mas não o é quando ela implica o desrespeito pela dignidade ou liberdade alheias. Respeite-se democraticamente as ideias diferentes mas não compreendo as que revelam crueldade ou agressividade humanas sem qualquer espécie de valores éticos. Preconceitos todos temos ou teremos, uns mais do que outros, mas mesmo se não nos identificamos com certas formas de ser ou estar isso não nos dá o direito da condenação, da discriminação ou, pior, do desejo de extermínio.
Já ouvi elogios a Hitler, reflexo da total ignorância do que significou o nazismo e do que seria hoje em dia caso existisse. Já senti desumanidade perante a imigração, indiferença perante a miséria extrema de certos continentes, julgamento de quem é bem sucedido e não fala a nossa língua. Hoje, nem de propósito, falei de imigração na aula. (Começara a escrever este post de manhã e depois não pude continuar, só agora o retomei.) Salta uma opinião daquelas que me custam. Tento fazer ver o outro lado. Mas um é duro de roer. Os outros percebem e consigo o seu silêncio com relatos de tragédias e sofrimentos de vários tipos que acompanham muita imigração. Os chineses, diz. Os chineses? Sim, insiste. Nós portugueses vamos pelo mundo fora para expandir a nossa perspetiva e os negócios, acrescenta. Ai, os chineses não? - pergunto. Não. E é isto. 
Tenho um grande preconceito, eu própria. É uma alergia à rigidez de pensamento, à incapacidade de ver para além do quintal, à falta de abertura no século XXI, à inveja em relação a quem prospera (já foi assim com os judeus, já que falei no kaiser alemão nascido na Áustria), à mesquinhez e arrogância cultural, à insensibilidade face ao desabrigo humano, à recusa em deixar os outros ter uma nova vida. Estamos a atravessar uma crise que tem obrigado gente a emigrar. Pena tenho se lá, nos países para onde forem, aparecerem reações como estas a que assisto aqui. Porque as haverá, claro. O mal não tem nação nem cor nem bandeira. E o bem também não. E é isto mesmo que eu tento fazer ver.


8 comentários:

  1. Fátima, permita-me que divida este seu texto em dois. Primeiro assino por baixo a maior parte do que aqui escreve, principalmente naquela parte do "já vi ficarem impassíveis com as situações de sofrimento humano retratadas". Isto assusta, pessoas e neste caso gente mais jovem, ficar indiferente ao sofrimento humano, quanto à parte das lojas dos chineses consigo perceber o desagrado e pela minha parte não se trata sequer de implicância. Sou adulta, acho que tenho capacidade de separar águas. Dou-lhe um exemplo concreto. No local onde o meu pai vive, um local tranquilo e perto da praia, existe uma forma estar bastante saudável. Lojas ditas tradicionais. Mercado com produtos frescos. Pessoas que cultivam legumes e têm árvores de fruto e entretanto vendem os seus produtos e por aí fora. De há uns tempos para cá e com a entrada de 4 lojas - 2 delas de dimensões absurdas - o comércio na zona sofreu uma queda brutal, atirando gente para o desemprego, porque muitas lojas tiverem que fechar. As pessoas começaram a frequentar a loja dos chineses, onde a maior parte dos produtos nem sequer tem uma supervisão adequada. logo, podem ser perigosos. Onde as pessoas passaram a comprar, só porque é barato, acumulando e acumulando coisas de que não necessitam. Eu pergunto? Acha que é implicância? Ou existe aqui um qualquer fundo de verdade?

    Eu acho, francamente, que a existir uma loja de chineses seria perfeitamente aceitável. Quatro, praticamente coladas umas às outras parece-me um abuso, um atropelo, uma falta de respeito por quem trabalha e tem uma loja aberta e, que tem o direito de o continuar a fazer.

    Se sempre critiquei o chico-espertismo nacional, aqui parece-me que existe outra espécie de chico-espertismo com aroma a produto chinês.

    Devo acrescentar que, se somos bem recebidos noutros países e gostamos, espero que não exista este atropelo por parte dos portugueses, porque estaríamos a fazer exactamente a mesma coisa, que as lojas de chineses fazem em determinadas zonas do nosso país.

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    1. Cara maria, vou também dividir o comentário em partes,embora eu tenda a ser lacónica, como já deve ter percebido :)
      1- Acha que 4 lojas chinesas são muitas? Então e se houvesse uma Chinatown? Há em Londres e Nova Iorque, por exemplo, e parece-me perfeitamente natural que haja bairros de imigrantes que se tendem a concentrar todos juntos. Little Italy em Nova Iorque, Little Havana em Miami e por aí fora. Pode ir-se lá (em Londres fui e adorei) ou não.
      2 - O pequeno comércio está arruinado por essas lojas... e os grandes centros comerciais? Não têm responsabilidade nisso também ? Em Aveiro há 4, para uma cidade pequena, desapareceu todo o comércio da avenida principal e de outras ruas. Opção: ir aos centros comerciais, ir aos chineses ... ou não. Comprar mais barato, maria? Porque será? As pessoas acumulam coisas de que não necessitam... é verdade. Que culpa disso têm os comerciantes, independentemente da sua nacionalidade ou origem? Isso é consumismo e está na cabeça de cada um. Sou é contra muita publicidade (olhe, nomeadamente nos canais infantis...)
      3- Finalmente, porque já vai longo demais. Imagine que eu, a maria, o jrd aqui em baixo e, por exemplo, a Marla vamos para a África do Sul. Ou para O Brasil ou outro lado qualquer. Dão-nos vantagens nos nossos negócios (não interessa as razões) e conseguimos abrir os 4 na mesma rua o nosso negócio. Estaríamos nós com pruridos de consciência porque vão fechar outras lojas, as dos sul-africanos ou dos brasileiros? Não aproveitaríamos o negócio? O negócio não tem alma. Tem um objetivo: lucro. Em toda a parte, com todas as cores, maria. Life. :(
      Resumindo, percebo o que diz mas também percebo o que digo. :) Bjokas

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    2. Fátima, desde que abrir o tal negócio dos 4, não fosse dentro do mesmo ramo de actividade, porque aí, o lucro de pelo menos dois deles era bem capaz de ir à vida. Digo eu. Concorrência é saudável, mas não me parece inteligente abrir 4 lojas dentro do mesmo ramo de actividade na mesma área coladas umas às outras.

      Quanto às 4 lojas de chineses no local onde o meu pai mora, é bem verdade que 'rebentaram' mesmo com o comércio local. Costumo falar com as pessoas que por lá vivem. E o acumular, neste caso, tem a ver com as 'pechinchas', dizem eles, que existem na loja dos chineses. Vai na volta gastam muito mas dinheiro com as 300 mil pechinchas que gastam nas lojas dos chineses. Se tiver que defender alguém, defendo primeiro as pessoas do meu país e os produtos que por cá se fazem. Não me aptece, dizendo isto de forma mais 'light' ver mais gente atirada para o desemprego. Pronto. Coissa minhas.

      Não sou a favor de centros comerciais por tudo quanto é lado. Não gosto do exagero e não sou pessoa de frequentar centros comerciais. Vou quando tenho de ir e por uma questão de horários. O comércio dito tradicional por vezes não é compatível com os horários de trabalho. Aí o pequeno comércio terá de se adaptar. Actualizando-se. Renovando. O que não será de todo mau.

      Termino dizendo que não sou, de todo, fundamentalista. Apenas estou atenta ao que se vai passando por aí e algumas coisas não me agradam.

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    3. Defender primeiro as pessoas do nosso país não está errado, maria, mas eu prefiro defender pessoas, independentemente da sua origem - pelo caráter, pelo esforço, pelo talento, por tudo aquilo que fazem bem. E também não estou aqui a defender ninguém, apenas não gosto de xenofobia, seja lá onde for, e gosto de ver as coisas pelos dois lados da questão. Colocarmo-nos na pele do outro. Porque se fizer o que diz então aceitará com naturalidade que outros lá foram ponham os dos seus países em primeiro e os portugueses, neste caso, em segundo. Um dia, quiçá, conversaremos sobre isso amistosamente e chegaremos a um acordo :)

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  2. As sementinhas do Diabo andam por aí à solta. Alguém lhes transmitiu a mensagem de que há sempre um bode expiatório...

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    1. É... é tão mais cómodo culpar o bode :)

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  3. Eu também sou completamente alérgica à falta de abertura e às mentes pequeninas que não aceitam ou toleram o outro por motivos culturais, religiosos, de orientação sexual... Quanto à questão das lojas chinesas, se me permitem opinar, aqui vai: Mesmo que tenham alguma influência no facto do comércio tradicional estar de rastos, acho que os clientes serão mais culpados. Eu não sou fã dessas lojas, por isso é raro ir lá. Mas como vendem barato, o povão não resiste... As grandes superfícies terão mais culpa nesta matéria, inclusive o próprio comércio tradicional que não se soube reinventar nem acompanhar os novos tempos. Marla

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    1. Também vou por aí :) Mas de qualquer forma a haver descontentamento será ou seria por haver regalias ou condições negociais diferentes e não porque são estrangeiros ou têm um tom de pele diferente :) Toda a gente aproveita as vantagens que lhes são dadas, em qualquer lugar.

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