agosto 08, 2014

Emprego a quanto obrigas


Pelo que li ontem, a atriz Penelope Cruz demarcou-se da posição anteriormente tomada relativamente ao conflito israelo-palestiniano, sob pena, e aqui acrescento eu,  de perder contratos para filmes em Hollywood. Passo a explicar. Ao que li, a atriz espanhola fez parte de uma lista de intelectuais e gente ligada ao cinema em Espanha que escreveu uma carta a condenar os ataques e a ocupação israelitas. Nessa lista constavam também os nomes de Javier Bardem, agora marido da atriz, e de Pedro Almodovar, entre outros. A carta caiu muito mal em Hollywood, ao que li também, embora ainda não tenha pesquisado nada online sobre o assunto. Passado uns dias, Penelope Cruz veio distanciar-se do sucedido, alegando mesmo a notícia que ela teria pedido desculpas a Israel. Em Hollywood, o artigo dizia e não é novidade, há um forte setor judaico que controla grande parte da indústria, pelo que é fácil perceber porque Penelope o terá feito. Triste é o facto das pessoas não poderem ter opiniões vincadas e contrárias aos patrões, desde a base da pirâmide até ao topo, pelos vistos. Não saber separar e avaliar o talento ou a competência independentemente da bajulação é, está visto, transversal e profundamente dececionante. E por falar neste assunto, isto tudo confirma o que sempre suspeitei em relação à talentosa, belíssima e adorável atriz portuguesa Daniela Ruah. Que ela conseguiu chegar onde chegou tão rapidamente por ser judia é algo que já penso há muito. Não tenho absolutamente nada contra isso, nem sequer me interessa a religião de nenhum ator e atriz que admiro, neste caso ainda por cima fico feliz por ela ser portuguesa e ter Hollywood rendida ao seu charme. Mas o emprego, mesmo nos meios altamente desenvolvidos, ainda tem panos que a gente (des)conhece.

agosto 06, 2014

Nº 2

Era impaciente, muito, detestava esperar pelas coisas (mais) pequenas. Mas soube sempre esperar - e de que maneira - pelas coisas verdadeiramente grandes.

agosto 03, 2014

Hostilidade virtual e escuridão real


Já não é a primeira vez que, ao expressar uma opinião num mural de alguém amigo no FB, aparecem pessoas extremamente mal educadas do ponto de vista em que colocam a sua opinião, neste caso obviamente quando não coincide com a minha. Tendo a preferir claramente pessoas francas, diretas  - acrescento esclarecidas - e considero que tenho tolerância e paciência q.b. mesmo quando acho que os seus argumentos, os das duas primeiras, não têm pés nem cabeça. Na verdade, há muita gente convencida que sabe muito ou tudo quando isso não corresponde, de todo, à realidade. Ninguém sabe tudo, ninguém, mas alguns sabem bem menos do que julgam ou querem julgar. Mas a cada um a sua opinião, democracia será isso mesmo, o direito de todos opinarem, razoavelmente ou não. O que já me deixa com alguma irritação mental é a má educação, ou seja, os termos em que de forma ofensiva e irracional discordam da nossa perspetiva. Ora isto diz tudo da natureza humana. Se num simples registo virtual de opinião e numa mera troca de ideias online mostram-se logo garras de maneira hostil e injustificável, aproveitando ínfimos pormenores e/ou vendo coisas que não existem, como não entrar em conflito aberto por coisas um bocadinho maiores? Depois queixamo-nos, queixam-se, de que os outros são diabólicos quando fazem isto ou aquilo - e são, muitas vezes. Mas podia olhar-se um bocadinho mais para dentro e ver que se destila ódio facilmente perante coisas que diria pequenas. Muito pequenas, até. A escuridão está dentro. O inferno, pelos vistos e frequentemente, somos nós mesmos. 

agosto 02, 2014

Os homens devem estar loucos

                   

Despertando um pouco das nossas rotinas atarefadas mas apesar de tudo normais comparadas com a anormalidade de tantas vidas que andam ao sabor da geografia do poder, aqui ficam hoje duas notas de espanto ou horror, sobretudo por elas, as vidas debaixo dessa louca espiral de retrocesso e violência.

1- Na Turquia, um belíssimo país que visitei há mais de uma década e que adorei, o PM atual diz qualquer coisa do género "As mulheres devem evitar rir em público". Não li a notícia toda, apenas o título, e assumindo-a como verdade pensei logo que, no meu caso, estaria verdadeiramente tramada. Mas o que aqui está implicado é muito mais do que uma simples graça por parte de quem está à distância. Significa uma absurda caminhada no processo de islamização, aparentemente discreto para o ocidente, que se está a levar a cabo na Turquia moderna, filha de Ataturk. Sou completamente a favor das liberdades individuais e do estado absolutamente laico. E desilude-me profundamente uma figura - Erdogan -que me parecia moderada e equilibrada, até elegante, tão diferente no porte das figuras mais fundamentalistas que estamos habituados a ver nos media. O ano passado conheci uma turca em Erasmus, aqui na UA. Era completamente contra este PM e as suas políticas de islamização social. De facto, como poderão viver sob este e outros disparates os jovens que vi em Taksim, Istambul, entre tantos e tantos outros?

2- O ISIL ou ISIS, o unilateralmente declarado Estado Islâmico do Iraque (e Levante/Síria) é um perigoso  movimento- porque alucinado e medieval - que surgiu no norte do Iraque no âmbito da queda de Saddam, na subsequente vingança xiita contra os sunitas iraquianos do antigo regime, e agora como vingança anacrónica e brutal  - brutal, mesmo - contra todos aqueles que a organização considerar inimigos, xiitas e cristãos incluídos, sem esquecer a condição feminina, numa onda de terror e de obscurantismo completamente inconcebível. Ontem estive a ler alguns artigos acerca da organização, considerada brutal, repito, até pela Al-Qaeda, espelho também da confusão de alianças políticas, religiosas e étnicas que é praticamente impossível de entender por aqueles lados. Em casa, é-me dito diz-me que agora lembraram-se de falar em países como Portugal e Espanha, que também foram mouros e que, portanto, devem fazer parte desse grande estado que viria de lá de cima por aí fora até cá abaixo. Isto de ser moda querer restaurar fronteiras a partir de livros religiosos de há milénios é uma profunda idiotice e um desrespeito pelas leis internacionais modernas em tempos de ONU e de declarações universais. Sobretudo o que isto representa no terreno: ilegalidades e imoralidades que repudio totalmente.

O que me choca nestes fundamentalismos todos é a certeza que gente inocente e de bem, que há invariavelmente em todo o lado, sofre de forma chocante e indefesa quando cai sob a alçada de insanidades que intimidam e forçam pela uniformização e pela intolerância, pelo terror e pela violência. O exercício do poder, já de si perigoso, pode tornar-se desumano e demente nas mãos de loucos. Assim foi ao longo da história, em que uns oprimiram e brutalizaram outros. Mas o meu choque advém não do conhecimento da história mas da constatação de que nada aprendemos com ela. Estão a acontecer coisas terríveis por esse mundo fora que não podiam nem podem acontecer, repito, não em tempos de direitos humanos, tecnologia e modernidade. Isto assusta-me profundamente e temo. Temo por aqueles que, geograficamente ou não só, a essas terríveis coisas não conseguem, infelizmente, escapar. 

E quanto mais vejo e escuto ou leio sobre esta loucura humana  mais me apetece ficar a olhar o mar ou estar perto dos flamingos que se instalaram perto da minha casa.

agosto 01, 2014

Seleção natural




Não cabem na nossa vida todas as pessoas que cabem no nosso coração. Ou, se se preferir, na nossa mente. Não conseguimos albergar os afetos de forma física que seja perpetuada  no tempo e permanente no espaço. Não é possível. Daí que, mesmo sem querer, se vão deixando pelo caminho simpatias, afinidades e cumplicidades. O tempo e o espaço encarregam-se de traçar os nossos encontros e também os desencontros. Mesmo que a vontade seja a de manter todos aqueles que vamos conhecendo e de quem gostamos, telefonando, escrevendo, estando pessoalmente, nem todos se mantêm presentes nos nossos dias. Nem nós nos deles. Não nos é possível, já disse, não com todos aqueles que encontramos pelo caminho e que nos deixaram uma boa memória. O que fica de alguns deles pois então? Ou, possivelmente, de muitos? Um rosto, uma frase, um local, um sorriso, um momento, um nome, tudo em simultâneo ou nem por isso, uma emoção, uma saudade, um lugar cá dentro. Até mesmo sem nunca mais lhes termos posto a vista em cima.

julho 30, 2014

Quando um homem ama uma mulher

Quem conhece bem o AE ou passa por aqui acidentalmente saberá que quando escrevo sobre filmes é em estilo retro, uma vez que nunca estou em cima do acontecimento nestas matérias e raramente vou ao cinema desde há vários anos. De tal forma, que falo de filmes que já saíram e já foram vistos, com anos e anos em cima, frequentemente. Embora, e de qualquer forma, o cinema seja para mim arte intemporal.
Desta vez, vi a publicidade a este filme e resolvi escrever aqui algumas palavrinhas sobre o mesmo, apenas e apenas a partir do que vi no trailer. Uma história que vem mesmo a propósito, no meio da escalada do conflito israelo-palestiniano.



A história do filme será ficção, o que se passa praticamente na maioria das fitas todas que vamos vendo. Mas não deixará de ter raízes reais e quiçá ainda mais brutais. De forma simples: um rapaz palestiniano (ou de Gaza ou da Cisjordânia, não consegui perceber, tanto faz) ama uma rapariga que tem um irmão conhecido localmente. É-lhe dito, ao rapaz, se gostas da minha irmã e queres ficar com ela vem comigo e faz isto e isto. Um aliciante poderoso para fazer atos de terrorismo, em nome de uma causa. Fazem-se, ainda e sempre, muitas loucuras por amor. É depois preso pelos israelitas. Estes dizem-lhe se não trabalhares para nós a tua namorada é a primeira a sofrer as consequências. Atos de espionagem, em nome de uma causa. Liberdade ou defesa, o protagonista deste filme simbolizará bem a quantidade de gente que comete atos extremados por aquelas bandas porque alguém lhes faz vincar que podem perder os seus amores. Alargando agora esta tipologia, podem ser amantes, filhos, maridos, esposas, tios, avós, todos. Ou fazes assim ou eles é que sofrem as consequências ou, também, vais fazer assim porque apoiaremos os teus, dar-lhes-emos dinheiro, uma casa, proteção, cuidados de saúde. Ora se isto não é profundamente trágico, não sei. O encurralamento não é meramente físico, geográfico. Ele começa por ser violentamente psicológico.

(Nota informativa: este filme palestiniano foi nomeado para Melhor Filme Estrangeiro nos Óscares 2014.)

julho 29, 2014

Mistério




Dá-me a ideia de que grande parte das pessoas queridas nunca fala contra, nunca se queixa e, sobretudo, não dá um murro na mesa, figurativamente falando, claro. Ou seja, entram mudas e saem caladas. Lá, onde entram e de onde saem e quando era preciso falarem. Saber quando é que alguém que manifestamente não entra mudo nem sai calado pode adquirir o estatuto de ´querido´ é definitivamente uma incógnita.

julho 28, 2014

Determinismo cultural


Lendo o que muito se escreve pela blogosfera e nas redes sociais em que toda a gente opina em liberdade, nada contra, embora tenha o direito de eleger os que na minha perspetiva opinam bem, lendo tanta coisa e escrita por tanta gente, há algo que me tem ocupado os pensamentos: a ideia que perpassa de muitos posts, comentários ou afins que afirma ou insinua que certos povos não sabem viver sob determinadas prerrogativas ou liberdades. Por outras palavras, que há nações ou populações que foram feitas para existir sob um determinado número de coisas más, atrofiantes, ultrapassadas ou até desumanas. Ora isto é uma profunda forma de arrogância cultural. Colocar certos povos, cores ou credos sob um determinismo rácico, religioso, geográfico, histórico é inconcebível. É ridículo e falso. 
Há três momentos que retenho das minhas viagens nas outras duas décadas e um deles teve lugar em Paris, num dia comum em que visitava o parque temático da EuroDisney. Fazia sol, era maio, havia gente de todas as formas e feitios e uma coisa em comum: um profundo desejo de diversão, traduzido pela espera naquelas filas organizadas e longas, com filhos ou sem eles. O pensamento surgiu, dentro de mim, rápido e curto: todos mas todos aspiram às mesmas coisas, independentemente das fronteiras externas que os colocam de um lado ou do outro do globo terrestre. As barreiras interiores, as pancas, as taras, os desvios, as loucuras, elas existem, mas não são automaticamente transversais, não fazem parte da natureza de todos. O meio impõe-se sobre as escolhas individuais, muitas vezes, vezes demais, até podemos concluir, mas o ser humano, despojado de qualquer carga coletiva, no mais profundo do seu intimo, quer apenas ser feliz. Todos os povos o merecem, todos os povos o conseguem fazer, ainda que não ao mesmo tempo e da mesma forma simultaneamente. Considerar que só nós sabemos, conseguimos ou merecemos viver no bem e no bom é uma tremenda arrogância cultural, não me canso de repeti-lo. Nada é eterno, tudo se transforma. Recuso completamente, pois, a noção de determinismo cultural. 

julho 27, 2014

Bancos londrinos

Não se trata de alta finança, trata-se de literacia e literatura espalhadas pela cidade de Londres, como forma de aliciar para a leitura e para o conhecimento que a mesma proporciona. Desta forma, o projeto Books about Town traz para a capital britânica a ilustração de 50 livros em bancos da cidade. Aqui ficam alguns exemplos de uma fantástica ideia.







"A collaboration between the National Literacy Trust and Wild in Art, the BookBenches feature stories linked to London. (...) Visitors can discover the BookBenches by following literary trails in Greenwich, City of London, Riverside and Bloomsbury, until mid-September."

Mais, aqui.

julho 26, 2014

Familiaridade e profissionalismo



Considero-me bastante informal e absolutamente simples em termos de etiqueta e protocolo mas faz-me confusão quando se é demasiadamente familiar em contextos profissionais, sobretudo quando não há qualquer tipo de relação pessoal entre os intervenientes. Relato aqui três situações em que o excesso de à-vontade disfarçado de desejável simpatia me gelou instantaneamente a espinha. Porque continuo a considerar que o profissionalismo tem de passar por um outro (bom) tom.
1- Uma das assistentes sociais com quem articulei (na esfera do trabalho inerente ao caso de alunos com processos no Tribunal de Menores) pediu-me que lhe enviasse informações. Nunca vi a senhora e os meus (poucos) e-mails foram sempre cordiais, diretos e profissionais, como não poderiam deixar de ser. Na sequência do último, recebo as seguintes palavras: Olá, olá, mt obrigdinha (...) bjinhs (..). Obviamente que mal não vem ao mundo por causa disto, bom seria que todas as complicações fossem deste grau, mas realmente não me lembro de ter estabelecido com a pessoa em causa uma relação que justifique estes termos.
2- Nasceu uma priminha há 3 semanas e fui comprar-lhe umas roupas cor-de-rosinha, claro. Desloquei-me a uma loja onde habitualmente compro gangas e t-shirts para rapaz. A empregada que lá está na maioria das vezes fala muito e sorri muito, exageradamente, pois, mas lá se tolera porque não está de trombas (ainda é pior). Mas desta vez, e com várias pessoas na loja (é um espaço pequeno), perguntou em voz estridente se eu, como comprava coisas de menina, estava grávida. Senti um calafrio de alto a baixo. Na verdade, irritou-me estar a entrar dentro de uma intimidade que não partilhei, até porque não seria possível, de todo, fazê-lo. Respondi que não devia fazer essa pergunta, pois era e é íntimo (e é, até ser visível) e que as pessoas podiam não gostar. Pediu desculpa, ao menos. Mas confirma-se a simpatia pegajosa.
3- Há uma família muito simpática à frente de uma pastelaria aqui perto e onde vou quase diariamente. Mas, insisto, eu gosto do atendimento atencioso q.b., ou seja, nem tanto ao mar nem tanto à terra. Há uma miúda que está a atender há algum tempo, é novita, com uma carinha muito bonitinha. O problema é que me trata por tu (não sei se é por influência venezuelana, de onde são todos oriundos) e está sempre a dizer "querida" (algo que geralmente só concebo de mais velha para mais nova ou entre pares) e a fazer perguntas completamente descabidas e atrevidas, situações a que vou respondendo com um sorriso a amarelecer ou com uma observação curta de outro tipo. O meu respeito pelos elementos mais velhos da família não me deixou ainda fazer uma observação maior.

julho 25, 2014

Nº 1

Ele era claramente bipolar. Todos os anos dava um salto ao Polo Norte em março e ao Polo Sul em setembro.

julho 23, 2014

Um conto de dois irmãos



A biblioteca municipal fica, felizmente, perto do local onde vivo. Trata-se de um local onde me dá muito prazer ir, tanto para trabalhar como para procurar informação ou entretenimento, de tal forma que habituei o pequeno a fazer o mesmo. Algumas vezes já lá estive a corrigir testes, por exemplo, numa área tranquila e luminosa de que gosto particularmente porque é a que tem os DVDs e o televisor com sofás para ver filmes. Está geralmente sem ninguém, aquele canto, pelo menos nos dias em que ultimamente lá consegui ir. Numa dessas tardes, após ter corrigido uma turma, e tendo ali algum tempo livre - foi no princípio de junho, curiosamente agora o trabalho é o dobro - por lá fiquei a ver as novidades. Que, a bem dizer, são quase todas, todos os DVDs, ou muitos. Pela simples razão de que levo quase 7 anos de atraso cinéfilo. Foi então que dei de caras com este filme de Woody Allen, Cassandra´s Dream, no original. Não o tinha visto e sentei-me a vê-lo. 
Não vi todos os filmes do Woody Allen mas dos que vi lembro-me de ter gostado. Também não estou particularmente preocupada com o facto de estar a ver determinado realizador e se gosto ou não e se é suposto gostar ou não. Vejo e pronto, conclusão no final. Neste caso, mais uma vez, gostei. Pelo que vi entretanto online, o filme recebeu algumas críticas mais negativas no sentido em que se esperava mais de um filme de Woody Allen, nomeadamente  por não ter o toque de comédia habitual nos seus filmes. Algo que me parece ter mudado no Woody Allen europeu, mais recente, mas também não vi Matchpoint nem Meia-noite em Paris, se bem que me parece que existe alguma comédia pelo menos no último.
Em Cassandra´s Dream a história é trágica, com dois irmãos marcados pela ambição a cometerem um crime por dinheiro a pedido de um tio. Este cobra-lhes a ajuda financeira com uma missão que eles não esperavam. O filme tem um toque de elegância até ao fim e mesmo o crime é filmado sob um ângulo que nunca deixa a fealdade ou violência do ato estragar a beleza dos cenários ingleses, dos dois atores e da lindíssima atriz  por quem um deles se apaixona. Gostei da interpretação de Ewan McGregor, com uns belos e densos olhos azuis e uma atitude que me fez lembrar o filme Look Back in Anger dos anos 50, e ainda mais da de Colin Farrel, cuja personagem passa uma inquietude e um consciente arrependimento fora do comum. Ficamos agitados, deste lado, só de ver a sua agitação, de tão real que a sua performance é.
A questão mais interessante que vi levantada online sobre este filme foi a de saber qual dos dois irmãos era o pior. Pessoalmente, e talvez apenas por instantes, quando e porque considera matar o próprio irmão, escolhi a de Ewan McGregor, claramente. Mas há quem diga o contrário, que o outro irmão, mais fraco porque mais facilmente manipulável e porque era viciado no jogo tomava comprimidos, era pior. Curioso foi ver que para muitos a questão da maldade ainda assenta nos vícios, à boa maneira da lei seca, enquanto que para mim ainda assenta no caráter.



julho 21, 2014

In the name of the truth

As time and will don´t let me write more than this:

Israel: Stop bombing and killing.
Hamas: Stop the rockets and the building of tunnels.
Israel: Stop colonizing Palestinian land. Stop invading villages ant taking land from both Muslim and Christian families.
Hamas: Stop extremism.
Israel: Stop evoking Holocaust to explain your actions. Stop the occupation.
World: Stop ignoring.
USA and Obama: Stop being biased.
UN: Stop the innaction.

julho 19, 2014

A seu tempo

                      

Veem-se imensos pais atuais com pressa de que os filhos cresçam depressa, antecipando mundos adultos que deveriam chegar apenas no seu tempo. Ou escravizam os miúdos com horários e atividades non-stop ou deixam-nos antever formas de entretenimento que não são próprias do seu mundo infantil. Lembrei-me mais uma vez disto a propósito da presença de crianças de 6, 7, 8, 9 anos em concertos pop ou rock (por exemplo, estavam várias no dos Rolling Stones, vi nas reportagens televisivas). Também já vi, tempos idos, muitas crianças pequenas em cafés até às duas da manhã, de forma que diria quase habitual. Interrogo-me se as crianças conseguem apreciar este tipo de divertimentos ou se são os pais que promovem estas coisas por pura vaidade - pode ser por ignorância, mas não acredito. Ou se os pais não conseguem colocar o bem estar dos garotos à frente dos seus próprios interesses de diversão. Sou um bocado fundamentalista nestas coisas, voilá, nobody is perfect - considero que se deve controlar as horas de deitar dos miúdos, que se deve controlar os seus hábitos alimentares, que se deve controlar as imagens que veem na TV, que se deve controlar o tipo de coisas que têm no quarto, que se deve controlar o uso de palavrões, que se deve controlar a obsessão por marcas, que se deve controlar o descanso e que se deve controlar o encanto do imaginário infantil. E quando a palavra controlar soar feia e não for aplicável substitua-se por respeitar. As pessoas grandes não estão, muitas vezes, para fazer sacrifícios em favor das mais pequenas. E arrastam-nas consigo para horas e locais que não são os destas. Ou então querem à viva força que os rebentos saibam tudo, vejam tudo, façam tudo o mais cedo possível, como vantagem sobre os outros. Nada a apontar sobre o desejo de sucesso dos nossos filhos, é naturalíssimo, mas importa também refletir a que preço. As crianças não têm tempo para ser crianças, sendo atiradas para espaços e horários que afetam o seu bem estar, concentração e afetos, constituindo estes o pilar do seu esperado e harmonioso desenvolvimento emocional. Sem muitos dramas nem cultivando os traumas, a verdade é que nestas matérias costumo estar do lado dos psicólogos. Dê-se afeto e tranquilidade aos miúdos, isso é que é o que realmente mais importa. E, sobretudo, tempo. Tempo em várias e essenciais formas.

julho 16, 2014

Desertificação


É gritante e salta a olhos vistos. Há uma debandada, em grande escala, das pessoas dos locais de emprego e, em extremas circunstâncias, do próprio país. As filas nos serviços, nas lojas, supermercados e em tudo o mais são enormes, a prestação de serviços e atendimento arrastam-se lentamente e os que ficam, por sorte ou algo mais, estão sobrecarregados de trabalho. E ganham cada vez menos, claro. Cortes, dizem. Ora aqui está uma outra coisa que já não posso ouvir. Ou sentir. Pois o único corte que é manifestamente positivo, a meu ver, é o do cabelo, a pedido e se sair bem. A palavra corta, essa, só me soa bem se ao som de uma claquete de cinema. Bom seria, já agora e a propósito, que este ataque à dignidade de várias formas fosse mera ficção.

julho 15, 2014

Da raiz do(s) problema(s)


Este ano, por razões profissionais, sobretudo, tenho andado mais distante da blogosfera. Tenho sentido imensas dificuldades em manter o blogue e às vezes penso mesmo em terminar esta aventura. É preciso tempo, disponibilidades várias, coisas que por vezes escasseiam, especialmente quando a nossa atividade profissional é absorvente e se tem uma vida pessoal e familiar que não se quer descurar. Desta forma, não tenho tido oportunidade para ler os outros que tão bem pensam ou escrevem. Em todo o caso, no outro dia dei uma espreitadela a alguns blogues, poucos, é certo, e roubei um excerto de um post que agora transcrevo aqui. Trata-se de uma belíssima reflexão que espelha o modo em que vivemos, ainda que alguns digam que não, por estarem tão metidos na engrenagem que nem o notam ou porque há a ideia que, de alguma forma, assim é que deve ser.

O mundo contemporâneo parece basear-se na ansiedade permanente em relação ao eu. Ninguém se pode sentir bem na sua pele com a obsessão geral de que é preciso ser mais belo e mais jovem e mais rico e mais inteligente e ainda mais elegante e mais sofisticado e mais tudo. Somos constantemente bombardeados por desejos que não podemos concretizar e cada pessoa sonha intensamente em sair de si própria. Assim, a raiz da insatisfação moderna pode estar na forma como nos habituámos a olhar sobretudo para as imperfeições. A sociedade e a cultura são pinturas exageradas das nossas vidas. E, sendo o mundo cada vez mais complexo, queremos tudo simplificado, queremos poder pensar o menos possível, pois já não temos tempo, a mente ocupada com as catástrofes iminentes que o acaso plantou no nosso caminho. E assim estamos quando os prazeres não nos anestesiam.

Não o diria melhor, impossível. Por Luís Naves, em O Fragmentário.

julho 14, 2014

Verdadeiramente

Pode falar-se, dizer-se tudo acerca de nós. A partir de uma certa altura, cada um identifique a sua, deixa de importar. A verdade dos outros não é - e nunca será - tão importante e verdadeira quanto a nossa.



julho 12, 2014

O tempo dos escravos


Há gente que trabalha e trabalha sem um queixume e sem qualquer espécie de reivindicação, mesmo quando as condições de trabalho se tornam cada vez mais adversas e injustas. Não sei se lhes admire esta notável capacidade de sacrifício se lhes critique este espírito acomodado que em nada beneficia o avanço nas condições laborais. Esqueçamos a crise, até porque não é disso que se trata. Trata-se de um modo de estar, perfeitamente legítimo, que se traduz por uma incrível resistência e uma frequente ausência de ideias próprias. Estes são os trabalhadores, funcionários mais desejados, aqueles a quem chamo de executantes. São, naturalmente, os preferidos das chefias, dos chefes, daqueles que agradecem este caráter, sempre obediente e conformado. Os que ousam queixar-se, barafustar, recusar ou manifestar uma ideia contrária dão muito trabalho e, por causa desta coragem moral, cansam-se muito mais, curiosa mas obviamente. É muito difícil bater contra muros de resignação e de espíritos formatados e mecânicos. Estamos em época perigosa - porque ainda damos graças a deus por termos emprego (e damos) vamos deixando que nos pisem e nos explorem até mais não, degradando-se os nossos dias de várias formas. E calando-nos, sendo resilientes e cumpridores, mesmo quando não devíamos ser, lá vamos contribuindo para a proliferação de chefias medíocres e de condições no local de emprego também cada vez mais medíocres. Trabalhar é preciso, embora uns trabalhem para viver e outros vivam para trabalhar. É justo, é igualmente legítimo. Agora não nos digam que o trabalho deve ser cumprido a qualquer preço nem que os executantes são melhores do que os outros. Porque se os tornarmos melhores, qualquer dia estamos como na revolução industrial - e estamos, em muitas partes do globo, por necessidade extrema de uns e ganância escravizante de outros. Aqui, o retrocesso vai dando passos seguros, quer fruto do medo - a questão de sobrevivência - quer fruto da resignação missionária que muitos cultivam, quando não havia necessidade para tal. Quem pode, não deve calar. A resistência não deve ser só física, deve ser também, e neste caso, sobretudo moral. Mas também é possível que a obediência cega e muda se possa basear em ambições pessoais que, afinal, nada têm de missão.

julho 07, 2014

Um outro verão azul

Chegaram há dias duas meninas ucranianas à minha vizinhança para passarem o verão. Foi-me dito por um vizinho amigo com quem estive à conversa sobre este assunto,  um pouco alheada do facto desse programa - decorrente da tragédia de Chernobyl - ainda estar a decorrer, pensando eu que já se tinham superado os efeitos da tragédia nas crianças, catástrofe muito falada na altura e por razões mais do que tragicamente óbvias. Comoveu-me saber que quanto mais sol e praia apanharem mais anos de vida poderão ter. Nesse dia o céu estava carregado de nuvens e desejei ainda mais o sol de que tanto gosto por causa delas, das minhas novas vizinhas, que ainda não conheci.
Fui fã da série espanhola que o título do post evoca, que marcou a minha e outras gerações, já que foi sendo repetida durante anos a fio. Agora, esta série que representa prolongar a existência destas crianças também é algo para tocante e seriamente apreciar. 

julho 02, 2014

Jogadores, jogadores, beleza à parte

                       
         
Partilho aqui uma questão curiosa, especialmente com os membros do sexo feminino que passam ou poderão passar por aqui. É minha impressão ou os jogadores de futebol estão cada vez mais feios? Passo a explicar. Não tenho visto quase nada do Mundial 2014, apenas está a televisão ligada nessas alturas, porque o pequeno desenvolveu um interesse agudo pelo evento, chegando ao ponto de dizer que não pode perder nenhum jogo e falando em jogadores que não conheço mas que estão lá, existem, e de que maneira. Ora, este interesse começou pela aquisição da caderneta e foi a partir desta que o meu post nasceu.
Ao folheá-la confirmei aquilo de que já desconfiava - a tal minha impressão - de que já não se fazem jogadores bonitos como dantes. Ou eles apostam no feio porque querem ser levados a sério, quer dizer, vender uma imagem mais alternativa, algumas vezes, ou eu já alterei o meu padrão estético com a idade, é possível. São ou estão todos, bem, quase todos, perfeitamente longe da beleza que já vi passear em campo noutros tempos. Onde vi umas 2, 3 carinhas larocas, no máximo? Na Bósnia, é verdade, que pus em primeiro, na Alemanha, na Suíça, até penso que nos EUA, sim, estes com 3 ou 4. Holanda e Austrália talvez com 2. Também considerei o mesmo na Costa Rica, para fugir da tonalidade menos bronzeada, o que me agradou também. Nesta linha, a Argentina, não estando totalmente bem, também não está muito mal. Na Itália ia apanhando um susto. Tive de voltar a ver o nome do país em cima, não fosse estar na página errada. Mas então onde estão os italianos herdeiros dos romanos, pelo menos daqueles que aparecem nos filmes e nas séries? Em Portugal, a mesma coisa, parece que o efeito Rui Meireles é contagioso. E na Grécia? Por momentos, pensei tratar-se da equipa taliban do Afeganistão, nada contra os afegãos, há gente bonita em todo o lado, mas não é de todo o meu conceito de beleza a combinação barbas e roupas de guerrilheiro. Ora aqui está mais uma razão para continuar a não ver futebol. 

junho 30, 2014

É na Bélgica



Uma colega italiana que conheci há dois anos, ao abrigo do programa Comenius, dizia não gostar de trailers porque estes empolgavam o filme de tal forma, mostrando apenas as partes mais emocionantes, que depois a faziam frequentemente dececionar com as fitas. Tendo a concordar, já que os trailers realmente mostram os momentos mais altos e que espicaçam a nossa curiosidade, mas também pode acontecer o oposto. Ou seja, também há trailers que não nos despertam grande interesse e depois descobre-se que afinal valeu a pena e de que maneira ir ao cinema ou ver o filme em DVD; em suma, há trailers muito inferiores aos filmes que é suposto publicitarem.
Foi o que aconteceu com este "In Bruges"/"Em Bruges". Já me tinha deparado com o trailer no youtube, enquanto navegava atrás de vários filmes que me interessavam e interessaram. Vi e não tratei de ver logo o filme. Mas depois, outros vistos, continuei a navegação, lendo os muitos comentários que existem em inglês a propósito tanto dos trailers como dos filmes que apresentam- já agora, que felicidade haver tanta gente a gostar de cinema, do mesmo cinema e dos mesmos atores do que eu, e a debruçarem-se sobre coisas que me interessam e que não interessam à maioria das pessoas que conheço na vida real, para desconsolo muito meu. Bom, nessa toada lá encontrei um comentário que me remeteu para este filme e para a interpretação - nomeada para prémios, de resto - dos seus protagonistas e aí decidi procurá-lo e vi-o. Quando acabou o filme, estava rendida, a considerá-lo do melhor que já tinha visto, dentro destes géneros menos clássicos ou românticos, completamente rendida a tudo, às interpretações, à história, à música, à loucura e sensibilidade em simultâneo que o atravessam do princípio ao fim. 
"In Bruges" combina de forma magistral cultura e crime, alta comédia e tragédia. Foram muitas e bem sonoras as gargalhadas ao longo do filme, assim como foram tocantes outros momentos, que surgiam inesperadamente, contrariamente ao tipo de filme que talvez se esperaria. A questão que mais me assolou e que partilhei com alguns amigos foi a de como é possível um filme ser tão hilariante e tão comovente ao mesmo tempo. Como é possível rir e chorar quase alternadamente? Bom, o gosto por esta visita a Bruges residiu também na enorme apreciação dos sotaques irlandeses dos dois principais atores e disto ser uma incursão pela insana violência feita por britânicos e irlandeses, de quem sou cinematograficamente fã. Como li algures, trata-se de Tarantino realizado pela dupla Merchant-Ivory. 
Um Ralph Fiennes alucinado, a falar, por exemplo, das dum dums ("that make the hair explode"), Colin Farrel na pele de um gansgter estúpido mas ainda assim sensível, à procura de redenção e Brendan Gleeson como um gangster culto e humano, oferecem-nos interpretações marcantes que nos fazem percorrer os caminhos da amizade e da lealdade, num filme que poderá parecer só para homens mas não é. Isto no meio daquele cenário em tudo contrário a histórias de tiroteios. Como diria Ray, em "f-Bruges", local de onde acredito que saiu, a propósito do brilhante final.

junho 28, 2014

O nós e o eu


Nomes houve que ficaram na história por servirem uma comunidade, por atos bondosos, solidários, corajosos ou revolucionários que visaram um bem comum. Outros nomes ficaram na história por razões inversas, por terem dado asas à mais pura expressão individual, visando o ato de criação, sempre mais egoísta, mas ainda corajosa e profundamente glorificante. Por isso, não venha ninguém dizer que os primeiros são mais válidos do que os segundos ou que o comunitário é mais preciso do que o individual. São apenas formas absolutamente diferentes de estar, porque nascidas de formas completamente distintas de ser. Gosto de uns e de outros, sem ambos os tipos o mundo teria sido e seria bem mais pobre. A riqueza vem da alma nobre e do altruísmo e vem também da liberdade de cada um na expressão pessoal. Tudo o que engrandece, se sozinhos ou em grupos, é fonte de inspiração. E cada um absorve e aplica a que quer, sabe e pode.

junho 26, 2014

Esta relação está assim



1. Confirmei ontem e de que maneira que o meu corpo ou o meu espírito - ou os dois ao mesmo tempo - não está - não estão - para desportos radicais. Apanhei uma radical seca num parque destinado a aventuras desses género - que estão longe do meu conceito de aventura, a milhas e milhas. A única coisa do género que ainda vai lá tem que meter volante, porque o resto - o resto que lá estava pelo menos - passo. (É claro que enquanto lá estive filosofei sobre o quão diferente é o conceito do medo, o da aventura e o da coragem, porque é mesmo.)

2. É óbvio que vamos fazer as malas e voltar para casa hoje. No dia do jogo anterior, domingo, creio, estava já a dormir e hoje se vir este estou já de antemão a pensar que estamos de malas aviadas. Até pode ser pessimismo, ainda há 1% de hipótese, mas é isto. É como se eu agora, porque gosto muito de andar de bicicleta ou porque gosto muito de escrever fosse competir com outros melhor preparados e mais talentosos nestas matérias. Nem a vontade e autoconfiança bastam nem a última deve ser em demasia quando há outros na corrida.

Claro que a relação do título é aquela que de momento tenho com o desporto.

junho 24, 2014

Das dificuldades



Há pouco via na televisão a saída em liberdade de Isaltino Morais e saltou-me à vista o cabelo completamente branco e o envelhecimento súbito em pouco espaço de tempo. Recordei imediatamente outros delituosos a quem aconteceu precisamente o mesmo, desde os arguidos do caso Casa Pia até aos PMs Sócrates e Passos Coelho. Em todos estes exemplos foi visível no rosto e no cabelo o aparecimento veloz de marcas de tempos árduos e não propriamente inocentes.  Vai daí que, num ápice, me pus a pensar em mim própria. E eis que a ausência de cor inundou também e imediatamente o meu teclado. Noites em branco, espaços totalmente em branco, brancas inconcebíveis que surgem nos testes, branca de desgaste, cheques cada vez mais a correrem o risco de serem em branco, cada vez menos carta branca, mentiras nada brancas. O meu crime? Bom, não encontro outro, sim, esse mesmo: ter enveredado por esta profissão, que em tempos difíceis ainda é capaz de arranjar mais agruras ao alimentar-se cada vez mais do facilitismo e, espantemo-nos, é verdade, também ela, da impunidade. Está explicado.

junho 20, 2014

No essencial é que está o ganho



O pormenor é um grande inimigo da generosidade. Dei por mim a pensar nisto, primeiro, a propósito das críticas de cinema, já que tenho passado os olhos por algumas nestas duas últimas semanas, depois, porque tenho observado de perto conflitos que se instalam a partir de coisas mínimas. Na verdade, estes são tempos cada vez menos generosos, em que rapidamente se censuram e se rebaixam coisas e pessoas por causa da fixação em detalhes. O detalhe quando vem por bem pode ser um fino complemento de algo que ainda podemos melhorar, dentro da humildade que nos deve acompanhar. Mas quando vem por mal, apetece-me dar-lhe um pontapé para bem longe, por vir denegrir algo ou alguém que fez vindo da parte de quem não ousou fazer. É incrível o número de problemas causados por esta insistência tola no acessório. Podemos até todos concordar que o pormenor escapou ou falhou mas devemo-nos questionar se isso chega para destruir o essencial. Também é aconselhável, deste ponto de vista, que nos centremos nos detalhes que funcionaram, apesar de continuar a pensar que o fundamental é que interessa. Quanto mais nos concentrarmos naquilo que de positivo as coisas ou as pessoas têm melhor. Tenho cá a ideia de que todos sairiam a ganhar. A generosidade, essa, será - seria - infinitamente maior. E não me parece haver nada que contrarie esta minha fé. Mas não mesmo.

junho 19, 2014

Fantasia irlandesa




Ao que parece, este belo filme de Neil Jordan - Ondine - teve distribuição limitada, não chegando às salas de cinema de forma massiva. Eu desconhecia completamente a fita e foi num momento de pura sorte que felizmente a descobri e vi online. Sorte se isso significar curiosidade e insistência, o que tenho vindo a fazer para ver os filmes por mim não vistos do ator Colin Farrel, e que pretendo fazer desfilar aqui. Para já, os diálogos com o padre - na mais pura tradição católica, ou não estivéssemos na Irlanda -os diálogos, dizia, são hilariantes (o homem de fé é interpretado por Stephen Rea). A cena em que Syracuse, o pescador, confessa ter roubado roupa de senhora é um bom exemplo mas há outros igualmente engraçados.
Passamos o filme a maravilharmo-nos com a paisagem irlandesa e a alimentar encantatoriamente o conto de fadas que nos vai sendo  apresentado pela filha de Syracuse. É uma história de amor, claro, daquelas que nos parecem impossíveis,  absolutamente saída da imaginação ou quase. Por vezes quase mística e, mas ainda assim a fazer reais estragos na tristeza quotidiana deste pescador, dando-lhe esperança, algo que ele receia profundamente. "I´m afraid, father. I´m beginning to hope", traduzindo o medo que todos temos, em algum momento ou circunstância, de sermos felizes. Esperar, arriscar, pode ainda e sempre trazer dor mas felizmente, por vezes, seguimos em frente e dessa forma experimentamos a felicidade - pelo menos a possível, duradoura ou não.
Sonhar com uma selkie qualquer é um bom motivo para sair da sombria letargia dos dias. E fugir da fácil infelicidade é sempre o mais difícil mas vale a pena. Valeu a pena imergir completamente neste filme, valeu a pena dar a sugestão a várias amigas, que também ficaram submersas nas águas desta história, pois viram-na imediatamente assim que a postei no FB, valeu a pena ir até a uma Irlanda aqui quase mitológica que nos seduz pela simplicidade e pela magia. 
Comecei por dizer que os diálogos entre Syracuse e o padre estão cheios de humor - "I suppose you´ve sinned with this girl / Of course; I don´t suppose you want absolvition / No". Ainda assim, a melhor mensagem a retirar e as palavras mais eternas serão "Misery´s easy, (it´s) happiness you have to walk at". Ou seja, há mesmo que mergulhar, por mais fria que esteja a água, para se ser feliz. E, por isso, interrogo-me se este será um belíssimo filme apenas ou sobretudo para mulheres. Gostava tanto que não.



junho 17, 2014

Coisas que me irritaram

                        

A derrota de Portugal, claro. Não é que eu ligue alguma coisa ao futebol hoje em dia mas lá volto a ligar nestas alturas de bandeiras e hinos à espera de alguma sentimental alegria que nos ponha mais contentes por uns bons instantes. Mas foi muito golo do outro lado, golos a mais, pronto. No entanto, isto foi o que postei no meu FB logo a seguir: Não se pode ser grande por picos e apenas por vontade. A grandeza é permanente e tem de ser muito cultivada para se manter. A vários níveis. Serve para o futebol e para muito mais. Leia-se como eu quis que fosse lido ou leia-se de maneira diferente, se se preferir. É preciso uma coisa chamada investimento para se ser grande, ser sempre grande.

A seguir, um amigo brasileiro analisou a derrota portuguesa sob um prisma, como dizer, político, e ao qual achei piada, com a minha eterna capacidade de me distanciar e de brincar com as minhas/nossas falhas. Mas o irritante mesmo foi ver, nos comentários ao post, outros brasileiros, presumo, a tecerem comentários jocosos sobre Portugal, ou, pelo menos, já não lhes consegui achar grande graça. Esta coisa das antipatias nacionais e choques culturais, seja entre que nações forem, não fazem o meu género, embora reconheça que não temos de gostar dos brasileiros apenas porque falam português e eles não têm de gostar dos portugueses pela mesmíssima razão. O sentimento não tem de ser especial, é um facto, mas ainda assim gosto quando o é, de cá para lá e de lá para cá. Lá fiz depois um comentário que ainda ninguém ousou comentar.

Finalmente, e como se não bastasse, dou de caras, também no FB, com a publicidade a um blogue chamado Detalhes de Casada, a falar de bordados e decoraçõezinhas todas elas lavores. Atenção que eu adoro decoração, de coração, mas é da outra, não destas, nada contra mas não, obrigada. Não gosto sobretudo do nome do blogue, soa a estado novo, a fada do lar em modo obrigatório, a seca e a mulher chatinha, sendo que o desplante maior ainda é o casada, como se a solteira não pudesse gostar de fazer estas coisinhas, ou a divorciada ou a viúva, ou como se não tivessem, sequer, casa. Ou, possivelmente pior ou não, como se a casada tivesse de o fazer ou de gostar, já que as duas coisas juntas, fazer e gostar, é muita areia para uma mulher só.  

Ai, as coisas que nos irritam são aquelas que não nos movem, a não ser mover-me, sair daqui, para ir dormir; off to bed.

junho 12, 2014

Grita liberdade


Detesto tudo o que seja "cultural". Com isto quero dizer que rejeito a sobreposição do meio, da tradição, da religião ou de outra coisa qualquer às liberdades individuais. Sou defensora destas, absolutamente, não como sinónimo de libertinagem, de deboche, de provocação ostensiva, de atropelo da liberdade alheia, mas como essencial sinónimo de escolhas. Não me obriguem a atuar em nome de e contra a minha vontade apenas porque é diferente e não é o que a maioria quer, sente, pensa, faz. Só faço enquanto eu quiser, na obrigação ou na sensibilidade, na consciência ou na necessidade, na reflexão ou na circunstância. Posso fazer sem desejar por causa disto tudo mas a escolha é minha. Boa ou má, é minha. A liberdade individual nasceu para nos servir e todos que a travam, independentemente do modo ou lugar, tempo ou razão, vão aplicar o cultural para o diabo que os carregue.

junho 10, 2014

Boulevard da solidão


Na semana passada, apareceu um daqueles quizzes/testes engraçados online que vamos fazendo não sei bem para quê, é certo, mas que nos vão descontraíndo de alguma forma. Este era `What nationality are you?` e depois de responder a uma série de perguntas lá vi, sorridente, o meu resultado: `Irish`.  Compreendi, pois, finalmente a minha atração pela Irlanda, sem nunca ter lá estado, que vai desde a paisagem às diferentes formas culturais e artísticas, música, literatura, cinema, e vai daí, num instantinho, ao ator Colin Farrel. E não sendo exatamente por essa descoberta, a verdade é que me tenho dedicado a ver alguns filmes deste ator durante esta semana, online e no original (quão mais pobre seria o meu mundo, aquele que me interessa, se não soubesse inglês). Vai daí também que vou abrir um capítulo dedicado a este irlandês - e sim, adoro o sotaque - para escrever umas coisitas sobre os filmes. Para já, começo com "London Boulevard", cujo título em português é "Crime e Redenção".
Pelo que li, as críticas não lhes foram, ao filme e ao ator, muito favoráveis. O que também não me influencia nada, porque se trata de um filme com aspetos bem interessantes para explorar, apesar de não ter gostado do final por razões evidentes. A película tem um óbvio toque Sunset Boulevard / O Crepúsculo dos Deuses, desde já pela ligação da personagem de Colin com uma atriz "retirada" e reclusa na sua mansão, aqui por razões que nada têm a ver com a idade ou a passagem ao cinema falado. A violência e alguma loucura do filme lembram as obras de Quentin Tarantino (banda sonora a condizer, muito boa)  mas com uma diferença considerável - o ator principal, graças aos deuses, é a estampa que sabemos, o que não me parece que seja o estilo preferido dos críticos, homens 99, 9%, que assim rebaixam a prestação do ator em inúmeras fitas, e de alguma audiência masculina que teima em fazer o mesmo e aposto que pelas mesmas razões, ignorando completamente a notável capacidade dramática do mesmo, até só pelo olhar. E a atriz Keira Knightley é provavelmente muito clássica para uma parte de público que prefere o estilo cruzar de pernas de Sharon Stone, enfim, gostos não se discutem, diria.  Eu cá gosto dos britânicos e dos irlandeses muito mais do que gosto dos americanos, a ter de escolher. Coisas, inexplicáveis ou talvez não.
Na verdade, e seguindo adiante, trata-se de um belíssimo filme sobre a solidão. E do que gosto mesmo é dessa fragilidade humana no meio de um mundo louco e adverso que contraria as suas expetativas e desejos mais interiores. E como é difícil, por vezes impossível, resistir às avalanches  do mal, a violência,  a invasão da privacidade e a pressão de vários tipos. A bondade não triunfa sobre a crueldade, não sempre, não tão frequentemente quanto desejável, não sequer na ficção. E nem mesmo o amor chega, mesmo e sobretudo o que nasce do desamparo, da desesperação e da absoluta necessidade de conforto emocional extremo.
Gostei, resumindo, desta perturbante  incursão pela cruel negação da felicidade e por último registo aqui provavelmente as mais belas palavras que ouvi e se podem ouvir quando se encontra o amor: - " If I fell in love with you, what would you do about it? - Anything. ... Everything."

junho 08, 2014

Coisas que me comoveram

                    

Na sexta, pequenas emoções, todas diferentes e no entanto ligadas entre si, deixaram-me comovida. A primeira, decorreu de pura ficção. Vi o filme "The Flowers of War", online, no original e bilingue, portanto. Trata-de de um filme de Zhang Yimou, cineasta que sempre apreciei, desde os primeiros filmes feitos com a atriz Gong Li, e que via na RTP2. Vi-o e fiquei a conhecer um pouco mais da história mundial, pois tem como pano de fundo a invasão japonesa de Nanquim. Apesar de conhecer as atrocidades cometidas pelo Japão na China, através do filme e do livro "O Último Imperador", desconhecia a história das violações que este "As Flores da Guerra" nos faz, tristemente, entrever. Li, entretanto, que o filme não foi um sucesso no ocidente, apesar da presença do ator Christian Bale, um dos meus três favoritos da atualidade. Na China, o filme passou, obviamente, pela censura e foi visto por multidões. Nos comentários online do youtube, muitos americanos confessaram ver atenuados ou mesmo dissipados os ódios anti-comunistas face à China depois de verem esta história de horror, nobreza e sacrifício sem par. 
A segunda emoção surgiu no seguimento das imagens documentais do Dia D, relativas ao desembarque nas praias da Normandia das tropas aliadas há 70 anos. Impossível ficar indiferente perante a coragem, o medo, o sacrifício dos homens que, por vontade própria ou não, perderam ou arriscaram vidas em nome da salvação de tantas outras. Como não me parece haver dúvidas sobre que lado representava o mal nesta guerra, ver a dor do bem não deixa de ser tocante. Emocionaram-me também os sobreviventes, que ainda vivem, e corajosos ainda,  para que a história com h grande não se esqueça das suas histórias mais terríveis.
Por fim, a reportagem da noite sobre os trabalhadores da construção civil, um setor em crise profunda, que ocuparam um prédio em Vila Franca onde tinham trabalhado e que fizeram dele a sua casa. Homens, de diferentes idades, origens, unidos sob o mesmo desabrigado teto, em relatos de sofrimento e ao mesmo tempo ainda de esperança, a mostrarem as marcas no presente dos tempos difíceis e injustos que vivemos. Vítimas colaterais da política e da sociedade, a corda a rebentar sempre pelo lado mais fraco, o desejo de que alguém veja - tenha visto - a reportagem e faça alguma coisa por eles, os tire dali, lhes dê uma nova vida, ainda não desistiram, ainda a querem, ainda há tempo. Alguém que queira e sobretudo que possa, rapidamente, enquanto lhes resta a dignidade interior.
Três momentos, diferentes no tempo e no espaço, mas a dizerem-me, mais uma vez, que não gosto dos infortúnios humanos, da dor que significam. Sensibilidades de sempre, mais visíveis no rosto desde a maternidade. O que nos comove também é, ainda e sempre, o que nos move.