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janeiro 26, 2014

A última caminhada



Um dos assuntos destes dias - e naturalmente - é a praxe académica. Já li opiniões certíssimas sobre o assunto e não irei acrescentar nada de novo nem dizê-lo melhor. De qualquer maneira, aqui fica um registo pessoal.
Não gosto de praxes, nada, nada, e senti-me desconfortável quando eu própria fui praxada, na Universidade de Aveiro, há anos e anos. Apesar de ter sido ligeira, relativamente ao que se via e vem vendo, a verdade é que me deixou algo apreensiva e envergonhada. Eu e as minhas colegas com quem estava na altura, sobretudo as da/o turma/curso. E não vejo as vantagens desse estado de alma, porque no meu caso nunca chegou ao verdadeiro divertimento e à euforia. Contrariado ninguém pode ser feliz, certo? 
É falso, totalmente falso, quando se defende a praxe como um primeiro passo para a integração. No meu caso, novamente, as pessoas que a fizeram nunca mais me ligaram, nem sequer me dirigiram a palavra. Também é verdade que não me lembro delas. Apenas recordo um aluno e digo o mesmo em relação a ele. Nunca fui de grupos nem de copos, ainda por cima, estudava e vivia em casa dos meus pais, não estava fora. De maneira que fui tudo menos popular na vida académica. Sim, tive os meus momentos de diversão, mas saudáveis e longe da boémia constante e noctívaga de outros. Era nova e financeiramente dependente dos meus pais, tive isso sempre em mente, para o bem ou para o mal.
Hoje em dia tenho uma notável - e até antipática - capacidade para dizer não. Não sei se a tinha na altura, era mais insegura e, claro, mais inexperiente. Daí que não me surpreenda quem não consiga fazê-lo, mas aí também depende do que nos pedem ou obrigam. Claramente. Ainda assim, penso que há medos nos caloiros - um deles é o de que os marginalizem, os achem demasiado caretas, sem graça nem espírito de diversão. Também acho que foi o que pensei na altura, que se não achasse graça a certas coisas, e foram leves, o erro estaria em mim. Estupidez monumental, impensável desde há tempos e tempos mas que é possível ocorrer em idades menos sábias. 
No presente caso de que toda a gente fala, a estupidez é levada ao mais absoluto extremo. Ainda assim, pesa mais para o lado de quem praxa, como sempre e como é mais do que óbvio. Porque exercem um domínio inqualificável sobre quem não sabe ou soube defender-se. Um domínio que está para além da minha compreensão. Pois uma enorme dificuldade tenho em compreender o que se retira de divertido, positivo e construtivo deste tipo de experiências. E não compreendo, assim sendo, para onde se vai com elas.

janeiro 11, 2014

Grandes


Os filmes clássicos do século XX desapareceram da pradaria televisiva. De tal modo que as gerações mais novas não os conhecem. Nem os filmes nem os seus intervenientes. Excetuando talvez Marilyn Monroe, cujo marketing pós-vida continua a faturar e ao mesmo tempo a dar a conhecer a sua imagem, não há ideia sobre quem foram os atores e atrizes do cinema clássico norte-americano do século passado, sobretudo antes dos anos oitenta. Eu passei muitas tardes em garota a ver esses filmes - e também noites, mais tarde, pela madrugada adentro. Mas este conhecimento dos "filmes antigos", por vezes, deixava-me envergonhada porque as pessoas da minha geração com quem me relacionava não detinham essa área de saber, estavam mais ocupadas com outras coisas, outros gostos, até outros divertimentos. Tanto assim era que às vezes fingia não saber os nomes para não ser vista como uma "alien". Na verdade, sabia-os, e esse conhecimento estendia-se também a algum cinema europeu, através da televisão, revistas e livros, muitos dos quais ainda tenho em casa. Na universidade, encontrei uma colega que comungava do meu gosto pelo cinema e tornámo-nos amigas. Ela continuou a cultivar esse gosto e esse saber até aos dias de hoje, mais leitora e caseira do que eu. Eu perdi o fio à meada da história do cinema há algum tempo, sobretudo depois da maternidade e de outras coisas chamarem a minha atenção e reclamarem o meu tempo. Hoje em dia, talvez não visse estes filmes com os olhos dos outros tempos, à falta de outros canais na época e à abundância de estímulos variados que existem atualmente. O meu tempo ou, melhor, disponibilidade para o cinema é pouco, mesmo em casa. Mas a verdade é que estas fitas antigas ajudaram-me a crescer de uma forma mais rica, ainda que se mais interior. O cinema é, curiosamente, uma grande experiência interior, semelhante a outras atividades mais viradas para o pensamento e a imaginação. Dos nomes grandes que fizeram essa história do cinema persistem poucos na memória coletiva das gerações mais novas. Muito poucos. É pena. É pena que as televisões tenham erradicado a magia da tela de outros tempos, que não revisitem os espaços e as figuras que marcaram épocas, que não perpetuem o nome de gigantes que não deveriam nunca apagar-se da posteridade.


abril 25, 2013

Um só dia

Hesitei entre Sophia e Alegre, pois poucos foram, e na minha opinião pessoal, os que escreveram sobre abril como eles. 
São 39 anos. E por muitas promessas que haja ainda por cumprir e sonhos por realizar, há sempre que celebrar. Talvez por isso mesmo. Porque há quimeras e vontades que carecem de concretização, ou porque até já estivemos mais perto de as concretizar. Mas, neste dia, não me interessa particularmente a politiquice, ou não devia interessar. A liberdade é um triunfo e dom maior, a bem de todos e para bem de todos. E desta forma, também, todos a deviam sentir e honrar. A liberdade não tem preço e não devia, sequer, ter cor. 
Mas a palavra a quem sabe, porque, ao contrário de mim, conheceu o antes e o depois.


março 30, 2013

O tempo dos romanos

Aqui está uma das minhas boas memórias de Páscoa.
Não sei bem em que ano é que vi, porque foi exibida várias vezes, em diferentes anos, mas isso não é relevante. Belos tempos, outros tempos. Nomeadamente um tempo em que havia tempo para acompanhar séries na televisão. Sobretudo acerca de tempos distantes. O tempo do império romano, vá lá saber-se porquê sempre gostei de o ver no écrã, deve ser porque há ali uma carga estética considerável, o tempo de jesus, que é sempre, sempre uma figura de eleição, o tempo do caos a ver nascer uma nova ordem, o tempo, porque não podia deixar de ser, o tempo dos amores que brotavam entre pessoas com credos diferentes. O tempo dos senhores, o ano do senhor.


(A.D. Anno Domini. Belísima partitura de Lalo Shifrin e bom naipe de atores, ainda por cima.)

agosto 21, 2012

A Baía às/aos sete

Não me passou despercebido o centenário de Jorge Amado e, numa altura em que há um remake de "Gabriela" na televisão, no Brasil e brevemente em Portugal, aqui fica um texto que já escrevi há algum tempo atrás.
 
Acho que a minha primeira heroína foi a Malvina. Fui mesmo à cabeleireira e pedi um corte exatamente igual ao dela, cabelinho esticado, enrolado para dentro, a culminar numa grande tira em forma de vírgula, uma de cada lado, puxada para o rosto. Tinha sete anos. Não perdia um capítulo da "Gabriela", colava-me ao televisor por volta das sete da tarde e lá vivia as histórias das personagens.
Havia muitas, inesquecíveis, pitorescas, movendo-se aos ritmos e sabores da Baía. Nacib, o turco, que afinal era sírio, dono de uma loja ou de um café, que esta minha memória só regista parcialidades, perdido de amores pela morena Sónia sensualíssima Braga sorridente Gabriela, a do cravo e canela, sapato não, seu Nacib, sapato não. A moça não queria ser dama, queria ser livre, explodindo em naturalidade, mesmo em inocência. Tonico Bastos, narcisista de meia tigela, sempre agarrado ao pentinho minúsculo que frequentemente lhe penteava o também minúsculo bigodinho, símbolo da fanfarronice da sua persona. Maria Machadão, dona do bordel local, ao mesmo tempo carrasco e anjo da guarda das suas meninas, pessoa de poder a quem os coronéis da cidade votavam algum respeito. Dr. Mundinho, um José Wilker de pequeno bigode, idealista de coragem, ousando afrontar o domínio dos coronéis, apaixonado e correspondido pela Jerusa, de quem a minha avó materna dizia ser parecida com a minha mãe. Moça bonita, de boas famílias, mas talvez qualquer coisa de mais ou de menos, já que a minha preferência, fruto da minha infantil perspetiva, ia para a sua amiga Malvina.
Esta era uma jovem idealista, também, e (mas?) com um caráter revolucionário, Várias vezes abalou as estruturas familiares e a cidade com as suas ideias e personalidade, forte, decidida, autêntica e rebelde. Não teve uma historiazinha de contornos fáceis ou previsíveis, o papel de ser discreta, namorar e casar bem, ser uma senhora. Depois de se envolver com o tímido e atrapalhado professor local. acabaria por se ligar com intensidade a um forasteiro de grande charme, mas casado, uma história que não iria resultar e que levou a minha heroína, nos últimos episódios, a abandonar a cidade para procurar a felicidade noutro lado.
Eu tinha sete anos. Não me recordo de muita coisa, mas retenho imagens de beleza paisagística, por entre palmeiras e sol, sons de músicas cantadas naquele sotaquezinho quente, registadas numa velha cassete de feira que ainda guardo, percursos ligeiros, dramáticos, hipócritas, verdadeiros,e por entre este mundo fascinante e nada menos do que fascinante criado pelo amado Amado, revejo, já numa perspetiva mais adulta, a postura da Malvina, o seu não conformismo, a sua audácia e a sua maravilhosa determinação, a sua consciência e diferença. E no meio de tudo isto, fico com saudades, de um tempo e de um espaço que não conheci, saudades da inquestionável fidelidade às sete da tarde, saudades de Ilhéus e do calor daqueles cenários de Vera-Cruz...
É verão. Tenho uma amiga que está de férias no Brasil e que visitou a Baía. Deus, também eu gostava tanto de matar estas saudades.

Jornal O Recado, ESAP

maio 23, 2012

O livro da minha meninice



Uma das obras que me marcou desde cedo, porque lida em garotinha, foi A Cabana do Pai Tomás. O ano passado, na escola, foi-nos proposto que escolhêssemos um livro que nos tivesse marcado e resolvi escolher um que tivesse sido em idade tenra, a par desse clássico juvenil que foi e é Mulherzinhas. Mas enquanto que este último preencheu os meus devaneios românticos de menina que sonhava com aquela família idealizada, o primeiro marcou-me de forma diferente, atingindo fortemente a minha consciência de lutadora contra os oprimidos, contra os que não têm voz e contra as injustiças que nascem fruto de uma nunca aceitável não escolha.
Lembro-me de não conseguir ler passagens, naquela altura, em que o Simon Legree, pois não mais lhe esqueci o nome, brutalizava os escravos selvaticamente. A minha sensibilidade também se ressentia com as passagens da doença e morte de Eva, menina frágil filha de Saint Claire, não menos frágil, ao que me lembro, que muito apoiava os seus escravos que a seus olhos não eram mais do que familiares por vias de algo mais de que não o sangue. Elisa, o Pai Tomás e outros escravos fizeram parte da galeria de personagens sofridos, perseguidos por algozes que não queriam acabar com a escravatura, retratando o que foi a luta abolicionista nos Estados Unidos. 
São passagens, sensações de dor e de revolta que recordo quando evoco o livro que, repito, li em miúda e que nunca vi adaptado ao cinema ou em série. Escrito por Harriet Beecher Stowe, curiosamente também ela uma mulher, à semelhança da autora do outro clássico aqui mencionado, foi das obras que recebi de presente da minha madrinha, cujo marido e meu tio trabalhava numa papelaria. Hoje são donos de uma e agradeço-lhes pelos livros que me ofereceram contrariando outras tias que insistiam em dar-me coisas para o enxoval que eu tão somente abominava. As Mulherzinhas também "me foram oferecidas" (eram 2 volumes) por uma querida tia que trabalhava numa papelaria em Vila Franca de Xira e que viria a falecer alguns anos mais tarde, ainda muito nova.
A escravidão acabou, nos Estados Unidos e legalmente em grande parte do mundo. A consciência, e não só, essa é precisa para acabar com o que resta de escravatura ilegal no resto dele.

abril 25, 2012

Resistência



O que me dizes tu, liberdade?
Não compreendes quem te esqueceu?
Não compreendes quem ainda te renega?


O que me contas tu, liberdade?
Que não te deixam crescer?
Que não te deixam ser quem és e só podes ser?


O que me dizes sentir, liberdade?
Tantas vezes angústia e tristeza?
Mais vezes ainda apreensão e medo?


Como me dizes viver, liberdade?
Calada, sufocada, silenciada?
Armadilhada, aprisionada, ainda amarrada?


Como resistes tu, liberdade?


Porque a força que vem de dentro é maior do que qualquer amarra.
Porque, contra o mal e contra o medo, nasce-se senão para ser livre.



abril 03, 2012

É abril


As minhas primeiras memórias de abril reportam-se ao tempo em que frequentava o ciclo preparatório. Foi-nos pedido na aula de língua portuguesa que escrevêssemos uma composição sobre um tema à escolha. Andava no 2º ano - o equivalente agora ao 6º, portanto - e escrevi sobre a ditadura - ou o que sabia ela ter sido - e o Tarrafal. Era quase uma criança mas foi, de facto, o tema que escolhi. Lembro-me de mais ninguém o ter feito e da professora, visivelmente satisfeita, me pedir para ler em voz alta a composição aos colegas. Não sei já bem o que disse mas foi o registo de histórias e opiniões que ouvira contar em casa e cujo impacto se incrustara em mim por tempos indeterminados. 
A segunda foi também no ciclo, também no segundo ano, e provavelmente em abril mesmo - o que não teria acontecido no primeiro exemplo. Todos pintamos com marcador um desenho feito por nós que ilustrasse a revolução dos cravos, a pedido da professora de educação visual. Esse desenho iria, depois de uma seleção,  ser mostrado na exposição sobre o 25 de abril numa das pequenas praças da cidade. E assim foi. Lembro-me de ir com a família ao domingo ver os desenhos expostos e de lá, orgulhosamente, encontrar o meu, no meio da alegre festa que era aquela celebração. Era um tempo sem tantos canais televisivos, sem internet e demais tecnologias que informam e desinformam, era um tempo em que as pessoas se juntavam mais e em que saíam de casa para trocar e obter alguma informação e entretenimento. 
Quer o texto quer o desenho (ainda tenho este numa capa de artes de garota que considero pessoalmente antológicas)  podem dizer algo sobre a minha consciência social desde muito novinha. Sempre estive do lado da liberdade. Com responsabilidade e respeito pelo outro, não há como viver senão em liberdade. Por fora e por dentro, ela é muito mais do que apenas exterior. Sendo abril ou outro mês qualquer, já agora.

março 14, 2012

Seara em nada nova ...

 
Ficou-me a vontade de escrever algo sobre a desertificação do interior a partir de um comentário lido e eleito como o da semana num blogue coletivo que sigo.
A comentarista é alentejana e "falava" do facto de, presentemente, a cidade onde vive ter vindo a ficar sem correios, sem centro de saúde, sem tribunal e mais serviços cuja não existência, desta forma, tem vindo a prejudicar a vida das populações, nesta ou noutra cidade plantada em terras alentejanas ou noutras longe da costa. Vivo na costa, a poucos minutos do mar, numa pequena cidade pertíssimo de uma maiorzinha que oferece todas as condições de vida que dignificam os cidadãos, que pagam impostos e que descontam para usufruirem destes e de outros serviços. Portanto, não tenho, para já, as contrariedades e a tristeza de assistir a esse aniquilamento de serviços e infraestruturas necessárias à vida quotidiana e que leva, depois e sem qualquer surpresa, à desertificação, ao êxodo das pessoas para onde podem ter mais facilidades, a vários níveis,  inclusivamente as de emprego.
Mas esta introdução serve para recordar uma pequena vila no Alentejo onde passei as minhas férias desde miúda e onde ainda vou amiúde, apesar de agora já não pernoitar por lá. Essa vila chama-se Cabrela e fica ao lado de Vendas Novas, onde tenho raízes. Desde sempre que me habituei a passar lá umas semanas no verão, sim, com um calor abrasador, que nos fazia recolher na hora da sesta. Não que a fizesse, não tenho esse hábito, afinal vivo bem a norte, mas era, de facto, extremamente difícil pôr os pés fora de casa antes do entardecer.
Tinha família nessa vila pintada a branco com tiras amarelas, verdes ou azuis nas janelas. O meu tio era o chefe do posto de correios. A casa onde vivia e eu ficava, nunca mais esqueci. Era, do meu ponto de vista pequeno de pequenina, grande, com a parte dos correios na frente e a parte habitacional atrás. Lembro-me  de estar fresca, muito fresca, e de ter um patiozinho quente onde nos recolhíamos sob a sombra apaziguadora das árvores. As brincadeiras com a minha prima passavam muitas vezes pelos correios, onde entrávamos quando não havia gente, e nos atrevíamos a desvendar os objetos que povoavam aquele espaço sério, organizado, impecavelmente limpo e arejado, monocromático quase, logo ao lado mas longe do convívio familiar do resto da casa.
Não havia supermercado mas mercearias, farmácia, nessa altura agora longínqua, não me lembro, assim como não me recordo do posto de saúde. Lembro-me da igreja e de brincarmos, garotada nas correrias e risadas, no seu largo antes e depois do jantar, recordo com facilidade o posto da guarda,  pequenos cafés simples e tranquilos a servirem pires de caracóis e cerveja, pessoas nas portas à conversa fácil porque aberta e disponível, bailes e festas de rua, o cemitério, pois claro, lá estão enterrados os meus avós, e não muito mais em termos de espaços e atividades. Uma espantosa tranquilidade que parece tirada de um filme parado no tempo, se comparado com o ritmo citadino, mas que me renovava e renova as energias, pois volto sempre todos os anos, à procura do silêncio.
Volto a Cabrela mas não fico mais do que um bocadinho. Os correios foram encerrados há anos e anos, o meu tio está reformado, mudou-se com a família para a terra das bifanas ao lado, a vila tem menos e menos gente, continua soalheira e simpática, mas sem farmácias, sem supermercados, sem escolas a partir do 4º ano, sem posto de saúde. A minha prima, entretanto crescida como eu, diz-me que em Vendas Novas o centro de saúde também fechou (até passou nas notícias na televisão, na altura) e que, das urgências, muitas vezes tem que se deslocar com as filhas pequenas no meio da noite ou madrugada adentro até Évora e Lisboa se quer um hospital. Esta prima e outras permanecem no Alentejo, outras saíram e vivem em Lisboa. 
A questão é que sou uma grande fã do Alentejo, para onde parto para descansar e sentir um quieto pulsar de outras coisas que não a rapidez e a voracidade dos dias. Mas não vivo lá e a ver pelo que desaparece do seu mapa de ofertas e serviços não sei até que ponto ou até quando quem vive poderá lá permanecer. Sendo péssimo para quem precisa de trabalhar e viver numa terra que é a sua, também não alegra quem queira respirar umas horas tranquilas. Porque qualquer dia vamos lá e não temos onde ficar, todos terão partido. Por mim, nós e sobretudo por eles, que saudades dos correios.

março 04, 2012

As rodas do desejo

Ontem, ao folhear uns jornais antigos da escola onde estava antes da atual, (re)encontrei uma entrevista de uma colega muito especial. Era (e continuará a ser) uma professora de história, da minha idade, invisual. Dela recordo o sorriso e o riso, a postura curiosa, o caráter doce mas nada tonto, as ideias próprias, a força de vontade, o gostinho pelo convívio, a personalidade equilibrada e determinada, o humor com verdadeira graça. 
A sua postura em sala de aula, pelo que me apercebi, era irrepreensível. Ordem e disciplina, facilmente conquistado o respeito dos alunos. Havia sempre alguém na sala com ela em dia de teste. E sempre colegas, inclusivamente eu, tantas vezes, que a acompanhavam até às salas, mais por amizade e solidária ajuda do que por  uma dependência absoluta. A O. detestava sentir-se dependente. Ela tinha um nadinha de orgulho, tão natural e saudável, a exigir brio, profissionalismo e autonomia. Como tantos de nós a entenderemos, mesmo sem nenhum tipo de handicap do género. Ao reler ontem a entrevista, parei numa parte significativa. O que mais gostarias de fazer e que não possas? Conduzir, dizia ela, pegar no carro, quando estou chateada, e ir para longe. Tão simples para todos e impossível no meu caso.
Um simples desejo de liberdade de movimentos, que me tocou, e que, para mim, também é essencial. E, no meu caso, nem é preciso estar chateada, não conseguiria viver sem sentir essa espantosa autonomia que é pegar no volante. Não sei bem por onde anda, há alguns anos que não nos encontramos. Mas mesmo sem carro, parece-me que, porque assim a conheci, continuará livre por dentro.

março 02, 2012

Cá, ainda que lá


Fiquei hoje a saber que um ex-aluno é jornalista, tendo inclusivamente estagiado no Público. É o segundo que sei ter-se formado nesta área, de que eu tenha conhecimento.
Dele retenho o sorriso contagiante, a simpatia cortês, o trato gentil, a cabeleira loura, o aluno aplicado, a curiosidade ativa. Na memória mas também não desaparecido - afinal, somos amigos FB.  Não me tinha, contudo, apercebido de como o tempo, entretanto, passou, nem do percurso estudantil a nível superior e do seu incipiente percurso profissional. Fui reencontrá-lo através do seu blogue e que felicidade foi revê-lo em cenários inesperados por esse mundo que também amo, ao sabor da aventura da verdade, numa escrita que não pude reconhecer porque nunca a conheci em português. 
Por vezes desfilo aqui situações mais ou menos anedóticas ou menos ideais da vida de professor/a. Mas também há e haverá sempre espaço para relatar casos de sucesso que sejam dignos de registo, memórias de alunos que melhoraram os meus dias na escola, afetos que não se apagaram com a distância física. Muito jovem, ainda no básico, sentava-se na minha aula com prazer e alegria. E com prazer e alegria lhe ensinei um bocadinho mais de inglês. Está cá dentro, porque também sei que não me esqueceu, ainda que tantas vezes isso possa acontecer e tenha acontecido.
Nuno, este post é teu. Como é o teu futuro, o teu sorriso, a tua aura amarela e calorosa. Que os raios de sol estejam sempre contigo.

dezembro 24, 2011

Sonho de uma noite de natal


Quando era criança, na rua onde vivia, tinha vizinhos emigrados na Alemanha e na França. Vinham, habitualmente, passar o natal. Mas era ainda um tempo em que se escreviam postais natalícios e assim havia sempre cartões na caixa do correio, também deles, por esta altura. Claro que os meus preferidos eram precisamente esses porque me mostravam um romântico inverno europeu que desconhecia, cheios de magia, em que o manto de neve e os gorros dos meninos faziam as minhas delícias e me faziam sonhar com algo parecido.
O natal construiu-se na minha imaginação assim. Nunca tive, afinal, nada parecido, porque sempre o passei em locais onde jamais neva, mas este é de facto o postal de natal que ainda me faz apreciar a quadra.
Fantasia absoluta, sim. E que é importante passar aos miúdos, sob pena de não conceberem noites de consoada acalentadas pelo sonho.

Feliz natal aos miúdos que ainda somos e aos que passam por aqui iluminando os meus dias.

dezembro 18, 2011

Espetadora em casa desesperada


Lady Chatterley´s Lover (BBC)

Espantem-se, vá. Nunca vi um episódio de Donas de Casa Desesperadas, nem de Dr House, nem de CSI (acho que vi um, mas não me lembro do seu conteúdo), de Sexo e a Cidade só vi um (por acaso até achei piada, pois nele entrava o Mikhail Baryshnikov), nem de Seinfeld, nem nenhum inteiro dos Simpsons (pelo menos não me lembro de ter aguentado mais de uns minutos seguidos), pouquíssimos de Friends, nem de mais umas quantas séries norteamericanas que estiveram ou estão na berra. Por aqui grassa a incultura destes tipos de séries, já se vê. Há muito tempo que deixei de ter pachorra para este tipo de programas, habitualmente frenéticos, espelhando um tipo de sociedade também ela frenética, idiota ou perturbada.
Em contrapartida, sinto saudades de ver as excelentes séries britânicas que sempre adorei e vi desde os tempos de adolescente, especialmente da BBC e da Granada Television. Foram muitas e inesquecíveis, geralmente adaptadas de obras literárias de renome, com o tipo de qualidade europeia que bem aprecio. Se percebesse francês, juntaria as séries que passam na TV5, certamente. Gosto de séries (embora prefira filmes, a espera não é uma vantagem) que mostrem pessoas mais reais, menos artificiais e platinadas, ambientes menos urbanos e psicóticos, de época, geralmente mas não só, que permitam viagens de vários tipos, no tempo, no espaço, no interior de nós mesmos, que transmitam alguma espécie de tranquilidade, geralmente através do cenário,  ainda que carregadas de dramatismo e de forte intriga e/ou paixão.
Outros tempos, tantos canais, perco-me na confusão de uma oferta que me diz pouco. Se juntarmos a isso os pandas e jim jams a que não consigo escapar, está dada a receita para a desatualização. Agradeço ser informada - ainda há por aí, nesta voracidade de programas estupidificantes, séries de excelência que ando a perder? É que, à semelhança do cinema clássico, parecem ter desaparecido do panorama do écrã panorâmico. E tendo ido, foi-se o gosto de ver histórias que me prendiam ao televisor, histórias contadas de forma cativante, arrebatadora, marcante. Histórias mais simples, porque de gente mais natural, e ao mesmo tempo mais complexas, porque impregnadas de realismo e recorte literário.
Aguardo... quer as sugestões, quer novos tempos.

novembro 22, 2011

Outros filmes

 

Num tempo em que não havia canais privados, num tempo em que não havia internet, num tempo em que não havia tantos efeitos especiais, num tempo em que eu fui adolescente, num tempo em que havia mais e melhor tempo.
As tardes da RTP (e também muitas noites) eram preenchidas com cinema clássico, maioritariamente de origem norteamericana mas ocasionalmente filmes italianos, franceses, britânicos. Os rostos e os nomes de uma incrível galeria de atores foi-me sendo, pois, altamente familiar, tendo aos 16,17 anos uma cultura cinematográfica relevante. Os meus colegas de liceu impressionavam-se com os meus conhecimentos na área, mas, de facto, era uma muito jovem cinéfila. Comprava livros de cinema e colecionava resumos de filmes, muito interessantes na altura, da revista TV Guia, para além de mini biografias, os quais colava num caderno A4 e que constituía uma espécie de bíblia que confortava a minha avidez pelas fitas. Os nomes dos realizadores também não me passavam, evidentemente, ao lado. E fui contruindo a minha lista de favoritos, ganhando os anos 50 e 60 como as décadas da minha preferência.
Cinema mudo nunca gostei. Anos 30 e 40, pouco, excetuando alguns filmes e figuras que são, naturalmente, geniais. Mas, no geral, achava tudo algo insípido, ou melhor, demasiado clássico. Os anos 50 e a geração de Brando e Dean trouxeram um cinema mais autêntico, mais problemático, mais perto da realidade, porque mais moody e mais psicológico. Era grande fã do Método de Stanislavski que foi ensinado no Actor´s Studio, inclusivamente por Lee Strasberg, e que criou uma geração de atores, a meu ver, assombrosa. Era, no fundo, uma intelectualização do cinema, longe das performances ligeiras e sem traumas das gerações anteriores. Até Marilyn o procurou, como forma de mostrar que era mais do que uma loura tonta. O fabuloso filme The Misfits ("Os Inadaptados") mostrou-a de maneira completamente diferente, indo também repescar um ator da velha guarda, a tal  mais heróica e menos introspetiva - Clark Gable.
A partir daí e até meados dos anos 70, quantos atores fulgurantes me deixaram marca. Mas os realizadores desta época também me marcaram muito com as suas longa-metragens. Elia Kazan, Robert Mulligan, Sydney Pollack, Martin Ritt, Robert Rossen, Joseph L. Mankiewski, Otto Preminger, George Stevens, Vincent Minnelli, só para mencionar alguns americanos e de cujos filmes ainda tenho memória. As suas obras eram, sobretudo, dramas. Histórias mais profundas, estados de espírito mais lunares, personagens menos perfeitas. E, no entanto, que belos filmes fizeram. E como tenho saudades desse absoluto classicismo, que desapareceu quase completamente do grande écrã. De um certo tipo de romance, como em "Esplendor na Relva", "Flor à Beira do Pântano", "Hud, o mais Selvagem entre Mil", "Lilith e o seu Destino", "Bruscamente no Verão Passado".
Ou "Verão de 42". Um filme que evoca uma geração, uma etapa, uma aprendizagem, um despertar. Outro(s) tempo(s).

novembro 12, 2011

Histórias da meninice


A minha professora da escola primária era a D. Maria Augusta. Uma mulher alta e de constituição forte, austera na forma de vestir e na reputação que construiu. Muitos miúdos temiam-na e um chegou mesmo a confidenciar-me, muitos anos mais tarde, que tinha odiado a escola e que nunca mais quisera estudar.
Tinha dois filhos, uma menina, mais velha, e um menino meiguinho de ar adoentado, grandes olheiras e um sobretudo no inverno, que se chamava Zézinho. A professora morava num bairro chique da cidade, mas sei que rumou a sul,  algum tempo depois da tragédia. Nunca mais soube dela.
Relembro-a incontáveis vezes, faz parte do meu ideário de menina, num tempo em que fui feliz na pequena escola de uma área que também eu deixei para trás. Severa, sem dúvida, fama de exigente, e igual proveito. Mas era uma figura que eu admirava, que me ensinou e preparou muito bem, que me cativava para a aprendizagem, que me estimulava quando me destacava. "É sempre a nossa desenhista", disse, enquanto sorria e afixava um desenho meu no placard, e enquanto eu exultava, contente, com a pequena vitória no pequeno concurso de artes.
Quando estive doente com uma infeção intestinal, e no tempo que o médico ia a casa, foi visitar-me. Alegrou-me a sua visita - na verdade, reverenciava-a, fruto também de um enorme respeito que havia, naquela altura, para com os professores. Era comum dar-se presentes (hábito que quero absolutamente preservar com a educadora do meu pequeno). Numa ocasião, compramo-lhes  um exótico elefante numa feira de artesanato, que lhe fomos depois levar a casa. Não me lembro dos outros.
Um dia, veio a notícia triste. O Zézinho falecera.  Fiquei muito preocupada durante semanas. No nosso livro de Português, lá mais para a frente, havia uma lição com um menino chamado Zézinho. Como evitar que a professora Maria Augusta passasse por tamanha dor? A de repetir e relembrar o seu pequenito desaparecido precocemente? Andei a magicar naquilo. Disse, então, aos meus colegas para colarmos todos as folhas para que aquelas duas páginas desaparecessem miraculosamente - assim, aquando da altura da lição diríamos à senhora professora que não tínhamos nada disso no nosso manual. A ideia, tonta de inocência, não foi adiante. Mas lembro-me perfeitamente da minha angústia e depois do dia em que chegou a lição e da professora dizer - como compreendem não a vamos dar. E de como, de maneira simples, ultrapassou aquela página.
A minha escola primária permanece, ainda hoje, como uma feliz memória de tempos maravilhosos untados a frescura e deslumbre. Do gosto por aprender às brincadeiras do recreio, da excelente aluna que era à dor da professora vestida de preto até ao fim da escolaridade, dos dias de festa assinalados por almoços e cartõezinhos especiais às caminhadas traquinas em grupo até à escola.
Que doce recordação, apesar de tudo, a dos meus dias de escola terem sido assim.

outubro 25, 2011

Os Mortos



Há uns anos leccionei uma obra de James Joyce, em inglês mas adaptada a miúdos, para a  leitura extensiva que se pedia no 9º ano. Foi escolha minha ( apoiada, felizmente, pela colega com quem trabalhei) por ter gostado tanto de a ler na universidade. No original, The Dead, uma short story que faz parte de Dubliners (Gente de Dublin), conta a história irlandesa de um casal assombrado pela morte dum antigo amor da mulher. Este chamava-se, porque não esqueço, Michael Furey e, doente,  passou uma noite à chuva, encharcado torrencialmente até de manhã, por amor a Grettta,  morrendo depois de uma pneumonia.

O marido, Gabriel, não é capaz de expressar o grande amor que tem pela esposa e sofre ao descobrir que ela ainda relembra o amante, muito tempo depois. Inseguro, interroga-se onde é que falhou. A questão de fundo subjacente à obra é saber se é preferível arriscar e poder morrer cedo, deixando marcas profundas, sobretudo e aqui no coração dos outros, ou levar uma vida longa, sem riscos nem paixões e sem, desta forma, deixar marcas da sua tranquila passagem pela terra. A frase no livro, em inglês, é ela própria inesquecível e emblemática. Better pass boldly into that other world, in the full glory of some passion, than fade and wither dismally with age.

Não é a primeira vez que relembro esta obra nos textos que escrevo. De facto, a discussão desta difícil escolha foi muito bem entendida e trabalhada pelos alunos (sim, eram excelentes) e foi por demais interessante ver como optavam por um caminho ou outro, justificando-se, e na impossibilidade de, idealmente, terem os dois: viver muito intensamente e/ou viver longamente. Uma espécie de live fast, die young? Ousar, obter o sabor máximo da vida, pagar um preço alto por isso e tornar-se depois imortal, espiritualmente? Ou preferíriamos o contrário? Nunca ousar, viver by the rule,  morrer de velho e desaparecer-se completamente com o corpo? Viver  e morrer em glória versus simplesmente existir.

O verso de Dylan Thomas "Do Not Go Gentle Into That Good  Night" transparece claramente aqui. A noite como metáfora da morte e a suavidade como sinónimo de brandos atos ou ações.  Relembrando os mortos da comunidade num jantar no Natal, numa Irlanda aqui coberta de uma simbólica neve, a personagem de Gabriel surge cultivada, racional, serena, aborrecida, "pequena". Michael Furey, ao invés, surge cheio de ímpeto, fogo, paixão. E, naturalmente, Gretta preferiu este último. Penso que a história é um retrato de muitas relações estáveis, apagadas, sem chama, mortas, se olharmos para o casal protagonista, e de como a alma feminina anseia por muito mais, um rasgo, uma ousadia, um ato de amor louco, que incendeie os seus devaneios românticos.

Fiquei fascinada pelo "livro", ao contrário do que um título assim poderia sugerir. Ainda por cima vi e continuo a ver o espantoso Gabriel Byrne, ele próprio irlandês, na figura da personagem homónima (mas que não protagonizou o filme de John Huston, curiosamente). Assim, The Dead para mim está vivo. Bem vivo, apesar de não ver ninguém na figura de Michael Furey. Mas também não teve ele a parte mais difícil? Ou será que não? Leitor, escolha o seu caminho. Ou não.

setembro 25, 2011

Conto-vos como foi

                                 

              Fui uma feliz e irrequieta mariarapaz na minha meninice. Andava sempre, sempre com feridas nos joelhos. Mas daquelas que doíam a valer, enormes, e muitas vezes fazia feridas em cima das que já lá estavam, de uma aventura desastrada anterior, à espera de sararem. Saltava à corda e lá dava um trambolhão. Andava de bicicleta e lá ia mais outro. Jogava ao elástico e idem aspas. Corria e percorria os pinhais e chegava a casa com mais um joelho a sangrar. Uma vez fui mais longe. Dei um grande e ousado salto, pois andava a explorar a casa maior da rua, ainda em construção, e, sim, fui bater na parede em frente. Ainda hoje não calculo muito bem as distâncias, acho. (Estas, que as outras creio que sim e faço por isso.) O meu nariz sangrava, pois então, cheguei a casa a chorar de dor, vi a minha mãe aflita  e, sim, o dito nariz não foi mais o mesmo.
             Tinha muita, diria extrema, dificuldade em voltar para casa. Já gostava de rua, de andar por todo o lado e muitas vezes andava sozinha,  Eram outros tempos, felizes e simples, sem tecnologias e muita correria e brincadeiras de vizinhança fora de portas. Explorava tudo à volta, a pé ou de bicicleta. Ao domingo ia à missa com a canalha vizinha e o momento alto da mesma era quando o padre dizia - saudai-vos na paz de cristo. Adivinhem porquê. Risinhos e emoção na parte de trás da igreja, mas ao mesmo tempo tudo tão inocente, tão naive. Até o catolicismo era uma coisa divertida. Era uma grande alegria quando na Páscoa, por exemplo, o padre vinha e nós tinhamos alecrim espalhado à frente da porta e na rua.
             As minhas brincadeiras de rua eram muito arrapazadas - jogava à cavilha, dava uns toques de futebol com o Paulo, filho da dona da mercearia, tinha carrinhos e um apreço especial por um mercedes azul que viria, de resto, a ser roubado. Pois sim, até as crianças têm apetência por furtos de carros de brincar imponentes e de grandes marcas. Depois, mais ameninada, brincava ao lencinho com a rapaziada do bairro, jogava às lojas (os bocados das telhas eram a carne, a urze era o arroz), às casinhas e mesmo os legos na sala serviam não para fazer blocos nem torres mas para inventar pessoas e casas, em constante interação, romance, família, enfim, coisas de miúdas.
            Quando vinha da escola no inverno e já começava a escurecer, ficava sentada a ver televisão e a comer bolachas (a minha paixão pelas mesmas tem, pois, raízes profundas). Fiquei sozinha em casa por volta dos 9, 10 anos quando a minha mãe começou a trabalhar. Ela só chegava às 8 da noite e o meu pai trabalhava por turnos e à noite. Tinha medo, muitas vezes, do escuro e dos ladrões. Por isso a sala, virada para a rua, estava sempre com a luz acesa e a persiana corrida para cima.  Para me proteger, tinha um cão chamado Fixe que, na verdade, era uma cadela. A casa tinha, portanto, pátio e um grande quintal. Saí de lá aos 16 anos. E, no apartamento, a vida de criança de joelhos esmurrados,  livre e aventureira, pelo espaço e pela idade, não mais seria a mesma.