Este filme chama-se Triage, no original, e foi também distribuído com o título Shell Shock (acrescento que este termo refere uma perturbação psicológica de quem é exposto a cenários de guerra e sob bombardeamento). A tradução portuguesa é "Os olhos da guerra". Trata-se de um filme difícil de ver, no sentido em que temos uma personagem masculina fortemente deprimida depois de ter estado no Curdistão na sua qualidade de fotógrafo de guerra. A primeira parte do filme passa-se lá, de resto, e acompanhamos de perto a atmosfera de um palco de guerra e desalento a que poucos conseguem resistir. Na segunda parte, Mark (Colin Farrell) regressa a casa e a partir daqui a ação é completamente outra. A esposa e os amigos apercebem-se que ele está estranho, distante e profundamente traumatizado. Interrogam-se também sobre o facto de ter regressado sozinho, sem o amigo que o acompanhou nesta missão. É então que a esposa (Paz Vega) decide contactar o seu avô para iniciar um processo de terapia com Mark. A relação entre ambos é feita de muita paciência por parte do analista (Christopher Lee) e muita resistência em colaborar por parte do fotojornalista. O filme tem um ritmo lento, sobretudo nesta parte, intimista e até perturbante. Não é fácil estarmos a ver e a partilhar dores psicológicas profundas de ânimo leve, isto se entramos numa história a sério. No entanto, é um filme essencial para compreender o sofrimento de quem passa por cenários de horror e morte. O realizador é bósnio, a Espanha foi o local de filmagens enquanto paisagem curda e o ator principal procedeu a uma dieta baseada em atum para emagrecer drasticamente e ter o ar frágil que apresenta durante grande parte da história. No geral, um filme diferente, denso, que evidencia as capacidades dramáticas do seu protagonista, que nos faz lembrar que as nossas queixas diárias não são nada comparadas com outras bem maiores e que é impossível obter uma vida tranquila sob o signo da culpa.
Mostrar mensagens com a etiqueta Colin. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Colin. Mostrar todas as mensagens
agosto 11, 2014
julho 23, 2014
Um conto de dois irmãos
A biblioteca municipal fica, felizmente, perto do local onde vivo. Trata-se de um local onde me dá muito prazer ir, tanto para trabalhar como para procurar informação ou entretenimento, de tal forma que habituei o pequeno a fazer o mesmo. Algumas vezes já lá estive a corrigir testes, por exemplo, numa área tranquila e luminosa de que gosto particularmente porque é a que tem os DVDs e o televisor com sofás para ver filmes. Está geralmente sem ninguém, aquele canto, pelo menos nos dias em que ultimamente lá consegui ir. Numa dessas tardes, após ter corrigido uma turma, e tendo ali algum tempo livre - foi no princípio de junho, curiosamente agora o trabalho é o dobro - por lá fiquei a ver as novidades. Que, a bem dizer, são quase todas, todos os DVDs, ou muitos. Pela simples razão de que levo quase 7 anos de atraso cinéfilo. Foi então que dei de caras com este filme de Woody Allen, Cassandra´s Dream, no original. Não o tinha visto e sentei-me a vê-lo.
Não vi todos os filmes do Woody Allen mas dos que vi lembro-me de ter gostado. Também não estou particularmente preocupada com o facto de estar a ver determinado realizador e se gosto ou não e se é suposto gostar ou não. Vejo e pronto, conclusão no final. Neste caso, mais uma vez, gostei. Pelo que vi entretanto online, o filme recebeu algumas críticas mais negativas no sentido em que se esperava mais de um filme de Woody Allen, nomeadamente por não ter o toque de comédia habitual nos seus filmes. Algo que me parece ter mudado no Woody Allen europeu, mais recente, mas também não vi Matchpoint nem Meia-noite em Paris, se bem que me parece que existe alguma comédia pelo menos no último.
Em Cassandra´s Dream a história é trágica, com dois irmãos marcados pela ambição a cometerem um crime por dinheiro a pedido de um tio. Este cobra-lhes a ajuda financeira com uma missão que eles não esperavam. O filme tem um toque de elegância até ao fim e mesmo o crime é filmado sob um ângulo que nunca deixa a fealdade ou violência do ato estragar a beleza dos cenários ingleses, dos dois atores e da lindíssima atriz por quem um deles se apaixona. Gostei da interpretação de Ewan McGregor, com uns belos e densos olhos azuis e uma atitude que me fez lembrar o filme Look Back in Anger dos anos 50, e ainda mais da de Colin Farrel, cuja personagem passa uma inquietude e um consciente arrependimento fora do comum. Ficamos agitados, deste lado, só de ver a sua agitação, de tão real que a sua performance é.
A questão mais interessante que vi levantada online sobre este filme foi a de saber qual dos dois irmãos era o pior. Pessoalmente, e talvez apenas por instantes, quando e porque considera matar o próprio irmão, escolhi a de Ewan McGregor, claramente. Mas há quem diga o contrário, que o outro irmão, mais fraco porque mais facilmente manipulável e porque era viciado no jogo tomava comprimidos, era pior. Curioso foi ver que para muitos a questão da maldade ainda assenta nos vícios, à boa maneira da lei seca, enquanto que para mim ainda assenta no caráter.
junho 30, 2014
É na Bélgica
Uma colega italiana que conheci há dois anos, ao abrigo do programa Comenius, dizia não gostar de trailers porque estes empolgavam o filme de tal forma, mostrando apenas as partes mais emocionantes, que depois a faziam frequentemente dececionar com as fitas. Tendo a concordar, já que os trailers realmente mostram os momentos mais altos e que espicaçam a nossa curiosidade, mas também pode acontecer o oposto. Ou seja, também há trailers que não nos despertam grande interesse e depois descobre-se que afinal valeu a pena e de que maneira ir ao cinema ou ver o filme em DVD; em suma, há trailers muito inferiores aos filmes que é suposto publicitarem.
Foi o que aconteceu com este "In Bruges"/"Em Bruges". Já me tinha deparado com o trailer no youtube, enquanto navegava atrás de vários filmes que me interessavam e interessaram. Vi e não tratei de ver logo o filme. Mas depois, outros vistos, continuei a navegação, lendo os muitos comentários que existem em inglês a propósito tanto dos trailers como dos filmes que apresentam- já agora, que felicidade haver tanta gente a gostar de cinema, do mesmo cinema e dos mesmos atores do que eu, e a debruçarem-se sobre coisas que me interessam e que não interessam à maioria das pessoas que conheço na vida real, para desconsolo muito meu. Bom, nessa toada lá encontrei um comentário que me remeteu para este filme e para a interpretação - nomeada para prémios, de resto - dos seus protagonistas e aí decidi procurá-lo e vi-o. Quando acabou o filme, estava rendida, a considerá-lo do melhor que já tinha visto, dentro destes géneros menos clássicos ou românticos, completamente rendida a tudo, às interpretações, à história, à música, à loucura e sensibilidade em simultâneo que o atravessam do princípio ao fim.
"In Bruges" combina de forma magistral cultura e crime, alta comédia e tragédia. Foram muitas e bem sonoras as gargalhadas ao longo do filme, assim como foram tocantes outros momentos, que surgiam inesperadamente, contrariamente ao tipo de filme que talvez se esperaria. A questão que mais me assolou e que partilhei com alguns amigos foi a de como é possível um filme ser tão hilariante e tão comovente ao mesmo tempo. Como é possível rir e chorar quase alternadamente? Bom, o gosto por esta visita a Bruges residiu também na enorme apreciação dos sotaques irlandeses dos dois principais atores e disto ser uma incursão pela insana violência feita por britânicos e irlandeses, de quem sou cinematograficamente fã. Como li algures, trata-se de Tarantino realizado pela dupla Merchant-Ivory.
Um Ralph Fiennes alucinado, a falar, por exemplo, das dum dums ("that make the hair explode"), Colin Farrel na pele de um gansgter estúpido mas ainda assim sensível, à procura de redenção e Brendan Gleeson como um gangster culto e humano, oferecem-nos interpretações marcantes que nos fazem percorrer os caminhos da amizade e da lealdade, num filme que poderá parecer só para homens mas não é. Isto no meio daquele cenário em tudo contrário a histórias de tiroteios. Como diria Ray, em "f-Bruges", local de onde acredito que saiu, a propósito do brilhante final.
junho 19, 2014
Fantasia irlandesa
Ao que parece, este belo filme de Neil Jordan - Ondine - teve distribuição limitada, não chegando às salas de cinema de forma massiva. Eu desconhecia completamente a fita e foi num momento de pura sorte que felizmente a descobri e vi online. Sorte se isso significar curiosidade e insistência, o que tenho vindo a fazer para ver os filmes por mim não vistos do ator Colin Farrel, e que pretendo fazer desfilar aqui. Para já, os diálogos com o padre - na mais pura tradição católica, ou não estivéssemos na Irlanda -os diálogos, dizia, são hilariantes (o homem de fé é interpretado por Stephen Rea). A cena em que Syracuse, o pescador, confessa ter roubado roupa de senhora é um bom exemplo mas há outros igualmente engraçados.
Passamos o filme a maravilharmo-nos com a paisagem irlandesa e a alimentar encantatoriamente o conto de fadas que nos vai sendo apresentado pela filha de Syracuse. É uma história de amor, claro, daquelas que nos parecem impossíveis, absolutamente saída da imaginação ou quase. Por vezes quase mística e, mas ainda assim a fazer reais estragos na tristeza quotidiana deste pescador, dando-lhe esperança, algo que ele receia profundamente. "I´m afraid, father. I´m beginning to hope", traduzindo o medo que todos temos, em algum momento ou circunstância, de sermos felizes. Esperar, arriscar, pode ainda e sempre trazer dor mas felizmente, por vezes, seguimos em frente e dessa forma experimentamos a felicidade - pelo menos a possível, duradoura ou não.
Sonhar com uma selkie qualquer é um bom motivo para sair da sombria letargia dos dias. E fugir da fácil infelicidade é sempre o mais difícil mas vale a pena. Valeu a pena imergir completamente neste filme, valeu a pena dar a sugestão a várias amigas, que também ficaram submersas nas águas desta história, pois viram-na imediatamente assim que a postei no FB, valeu a pena ir até a uma Irlanda aqui quase mitológica que nos seduz pela simplicidade e pela magia.
Comecei por dizer que os diálogos entre Syracuse e o padre estão cheios de humor - "I suppose you´ve sinned with this girl / Of course; I don´t suppose you want absolvition / No". Ainda assim, a melhor mensagem a retirar e as palavras mais eternas serão "Misery´s easy, (it´s) happiness you have to walk at". Ou seja, há mesmo que mergulhar, por mais fria que esteja a água, para se ser feliz. E, por isso, interrogo-me se este será um belíssimo filme apenas ou sobretudo para mulheres. Gostava tanto que não.
junho 10, 2014
Boulevard da solidão
Na semana passada, apareceu um daqueles quizzes/testes engraçados online que vamos fazendo não sei bem para quê, é certo, mas que nos vão descontraíndo de alguma forma. Este era `What nationality are you?` e depois de responder a uma série de perguntas lá vi, sorridente, o meu resultado: `Irish`. Compreendi, pois, finalmente a minha atração pela Irlanda, sem nunca ter lá estado, que vai desde a paisagem às diferentes formas culturais e artísticas, música, literatura, cinema, e vai daí, num instantinho, ao ator Colin Farrel. E não sendo exatamente por essa descoberta, a verdade é que me tenho dedicado a ver alguns filmes deste ator durante esta semana, online e no original (quão mais pobre seria o meu mundo, aquele que me interessa, se não soubesse inglês). Vai daí também que vou abrir um capítulo dedicado a este irlandês - e sim, adoro o sotaque - para escrever umas coisitas sobre os filmes. Para já, começo com "London Boulevard", cujo título em português é "Crime e Redenção".
Pelo que li, as críticas não lhes foram, ao filme e ao ator, muito favoráveis. O que também não me influencia nada, porque se trata de um filme com aspetos bem interessantes para explorar, apesar de não ter gostado do final por razões evidentes. A película tem um óbvio toque Sunset Boulevard / O Crepúsculo dos Deuses, desde já pela ligação da personagem de Colin com uma atriz "retirada" e reclusa na sua mansão, aqui por razões que nada têm a ver com a idade ou a passagem ao cinema falado. A violência e alguma loucura do filme lembram as obras de Quentin Tarantino (banda sonora a condizer, muito boa) mas com uma diferença considerável - o ator principal, graças aos deuses, é a estampa que sabemos, o que não me parece que seja o estilo preferido dos críticos, homens 99, 9%, que assim rebaixam a prestação do ator em inúmeras fitas, e de alguma audiência masculina que teima em fazer o mesmo e aposto que pelas mesmas razões, ignorando completamente a notável capacidade dramática do mesmo, até só pelo olhar. E a atriz Keira Knightley é provavelmente muito clássica para uma parte de público que prefere o estilo cruzar de pernas de Sharon Stone, enfim, gostos não se discutem, diria. Eu cá gosto dos britânicos e dos irlandeses muito mais do que gosto dos americanos, a ter de escolher. Coisas, inexplicáveis ou talvez não.
Na verdade, e seguindo adiante, trata-se de um belíssimo filme sobre a solidão. E do que gosto mesmo é dessa fragilidade humana no meio de um mundo louco e adverso que contraria as suas expetativas e desejos mais interiores. E como é difícil, por vezes impossível, resistir às avalanches do mal, a violência, a invasão da privacidade e a pressão de vários tipos. A bondade não triunfa sobre a crueldade, não sempre, não tão frequentemente quanto desejável, não sequer na ficção. E nem mesmo o amor chega, mesmo e sobretudo o que nasce do desamparo, da desesperação e da absoluta necessidade de conforto emocional extremo.
Gostei, resumindo, desta perturbante incursão pela cruel negação da felicidade e por último registo aqui provavelmente as mais belas palavras que ouvi e se podem ouvir quando se encontra o amor: - " If I fell in love with you, what would you do about it? - Anything. ... Everything."
Subscrever:
Mensagens (Atom)