Cinquenta por cento doce, cinquenta por cento selvagem. O segredo era conseguir-se despertar-lhe a ternura e não acirrar o seu lado indomável. O segredo era saber quando afastar-se e aproximar-se. O segredo era ter um lado dócil e um lado bravo que exigisse dele os mesmos cuidados. Ou os mesmos tormentos. O segredo era apreciar a sua natureza, quando chovesse ou fizesse sol. Era saber conviver com ela, ou com ele, surpreendo-o com a espantosa gestão do seu lado imprevisível. E à força de tanta mestria conseguir domesticar essa imprevisibilidade. Era o segredo. Que poderá ou não continuar a sê-lo.
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outubro 28, 2012
Nasce selvagem
Cinquenta por cento doce, cinquenta por cento selvagem. O segredo era conseguir-se despertar-lhe a ternura e não acirrar o seu lado indomável. O segredo era saber quando afastar-se e aproximar-se. O segredo era ter um lado dócil e um lado bravo que exigisse dele os mesmos cuidados. Ou os mesmos tormentos. O segredo era apreciar a sua natureza, quando chovesse ou fizesse sol. Era saber conviver com ela, ou com ele, surpreendo-o com a espantosa gestão do seu lado imprevisível. E à força de tanta mestria conseguir domesticar essa imprevisibilidade. Era o segredo. Que poderá ou não continuar a sê-lo.
setembro 17, 2012
Os seus amores
Ele colecionou amores. Viveu-os todos, praticamente, com a mesma intensidade. Casou e descasou, teve filhos, apaixonou-se subitamente e desapaixonou-se da mesma forma. Teve uma vida amorosa plena, daquelas que se contam em sobressalto malandreco e dão origem a livros de que alguém sempre gosta . Ela não colecionou amores. Poucos namoros se lhe reconhecem, pouquíssimas paixões se lhe conhecem. Viveu um grande amor. Casou, teve filhos, teve uma vida afetiva plena, de um só amor que lhe encheu todas as medidas. Não se apaixonou subitamente mas também não se desapaixonou jamais. Foram ambos felizes. Porque amaram muito cada um à sua maneira. Morrerão juntos?
junho 16, 2012
Dizeres
Da última vez que tinham falado ainda não dissera tudo. Como se o tudo fosse fácil de ser dito. Talvez nunca o viesse a dizer. E, no entanto, sentira que quase nada dissera. Por isso, havia ainda muito a dizer. Se ficasse perto do tudo, melhor. Se não, também já seria bom afastar-se do pouco. Pois a pouco lhe soubera o que havia dito. Se mais não dissera não soubera dizer porquê. Talvez porque o muito precisa de mais tempo e o tudo de um tempo que nunca mais acaba. Agora era tempo de dizer mais. E assim acrescentar ao que faltava senão tudo muito do que falta dizer.
maio 29, 2012
Caminho

Não sabia o que fazer. Pela primeira vez não queria ir para o lado que lhe diziam. Também ainda não se atrevia a ir para o lado que a sua própria vontade lhe dizia. Tantos anos a dizerem-lhe para onde ir, não era fácil desiludi-los, esquecê-los e centrar-se, pela primeira vez, apenas em si própria. Tinha sido sempre uma marioneta. E agora, que finalmente já não o queria ser, que cortara os fios que a amarravam a umas mãos que não queria mais que lhe orientassem os movimentos, não sabia o que fazer. Não sabia caminhar pelo seu pé. Não estava habituada a ser livre.
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