Quando andava na universidade o meu professor preferido, que só encontrei no terceiro ano, sorriu enquanto confirmava "So you´ve read Lady Chatterley´s Lover?". Imagino que deva ter achado graça porque o romance só foi impresso e lido na integra nos anos 60 em Inglaterra e deu que falar ainda assim. É uma história controversa, que chocou a sua época, sobre a relação física que passa a amor entre uma jovem aristocrata e um dos seus empregados. Do marido, mais propriamente. Este último está paralisado da cintura para baixo, consequência da guerra, e a esposa irá (re)descobrir o amor sensual com alguém claramente abaixo do seu estatuto.
Eu li o livro no original, a tal "unexpurgated version of 1928", numa versão pocket book, e achei muito difíceis as passagens em que Mellors usa o dialeto. Connie não gostava e eu muito menos, porque me trouxe dificuldades acrescidas. Ainda mais, na altura, sabia menos inglês. A linguagem tinha de causar sururu, estava-se em 1928 quando foi publicado pela primeira vez em Itália e havia palavras que certamente não haviam sido impressas nunca anteriormente. Não num romance desta natureza, ao alcance de todos. Mas muito mais do que o impacto das passagens ou cenas de sexo ou do escândalo que sempre representa o adultério, a obra marca por uma singularidade feminina: a necessidade de atenção, mimo, carícias, afeto, toque, ternura. Tanto que a componente meramente química e sexual do início da relação é ultrapassada pelo amor crescente que a protagonista vai sentindo.
Eu vi a adaptação deste romance (novel) à televisão tendo como protagonistas os britânicos Joely Richardson e Sean Bean. E claramente acho que o livro ganhou com essa projeção no écrã (apesar do final diferir do do livro). A interpretação do ator, ao vivo e a cores, deu muito mais ímpeto à personagem masculina, por exemplo. De especulativo porque apenas na imaginação, passamos a um cenário com sonora emoção e movimento. Mas aquilo de que lembro é da cena em que Connie está num pequeno barco com o marido. Ele fala de política ou de filosofia, é a tal memória incompleta de que padeço, e ela está entediada. Até que confessa que está farta do virtuosismo intelectual, se não falho também as palavras usadas. Ele espanta-se e pergunta se é preferível o animal. Ora bem, não é que ela - e qualquer mulher - viva exclusivamente para a carne, de todo, do amor carnal pode nascer uma ligação espiritual gigantesca. Pode, resumindo, nascer o amor. E a mulher, que os homens se lembrem disso, raramente passa sem ele. E sobretudo sem todo o romance (e não novel, aqui) que ele acaba por trazer consigo.
O link para a série fica aqui.