novembro 22, 2011

Outros filmes

 

Num tempo em que não havia canais privados, num tempo em que não havia internet, num tempo em que não havia tantos efeitos especiais, num tempo em que eu fui adolescente, num tempo em que havia mais e melhor tempo.
As tardes da RTP (e também muitas noites) eram preenchidas com cinema clássico, maioritariamente de origem norteamericana mas ocasionalmente filmes italianos, franceses, britânicos. Os rostos e os nomes de uma incrível galeria de atores foi-me sendo, pois, altamente familiar, tendo aos 16,17 anos uma cultura cinematográfica relevante. Os meus colegas de liceu impressionavam-se com os meus conhecimentos na área, mas, de facto, era uma muito jovem cinéfila. Comprava livros de cinema e colecionava resumos de filmes, muito interessantes na altura, da revista TV Guia, para além de mini biografias, os quais colava num caderno A4 e que constituía uma espécie de bíblia que confortava a minha avidez pelas fitas. Os nomes dos realizadores também não me passavam, evidentemente, ao lado. E fui contruindo a minha lista de favoritos, ganhando os anos 50 e 60 como as décadas da minha preferência.
Cinema mudo nunca gostei. Anos 30 e 40, pouco, excetuando alguns filmes e figuras que são, naturalmente, geniais. Mas, no geral, achava tudo algo insípido, ou melhor, demasiado clássico. Os anos 50 e a geração de Brando e Dean trouxeram um cinema mais autêntico, mais problemático, mais perto da realidade, porque mais moody e mais psicológico. Era grande fã do Método de Stanislavski que foi ensinado no Actor´s Studio, inclusivamente por Lee Strasberg, e que criou uma geração de atores, a meu ver, assombrosa. Era, no fundo, uma intelectualização do cinema, longe das performances ligeiras e sem traumas das gerações anteriores. Até Marilyn o procurou, como forma de mostrar que era mais do que uma loura tonta. O fabuloso filme The Misfits ("Os Inadaptados") mostrou-a de maneira completamente diferente, indo também repescar um ator da velha guarda, a tal  mais heróica e menos introspetiva - Clark Gable.
A partir daí e até meados dos anos 70, quantos atores fulgurantes me deixaram marca. Mas os realizadores desta época também me marcaram muito com as suas longa-metragens. Elia Kazan, Robert Mulligan, Sydney Pollack, Martin Ritt, Robert Rossen, Joseph L. Mankiewski, Otto Preminger, George Stevens, Vincent Minnelli, só para mencionar alguns americanos e de cujos filmes ainda tenho memória. As suas obras eram, sobretudo, dramas. Histórias mais profundas, estados de espírito mais lunares, personagens menos perfeitas. E, no entanto, que belos filmes fizeram. E como tenho saudades desse absoluto classicismo, que desapareceu quase completamente do grande écrã. De um certo tipo de romance, como em "Esplendor na Relva", "Flor à Beira do Pântano", "Hud, o mais Selvagem entre Mil", "Lilith e o seu Destino", "Bruscamente no Verão Passado".
Ou "Verão de 42". Um filme que evoca uma geração, uma etapa, uma aprendizagem, um despertar. Outro(s) tempo(s).

Sem comentários:

Enviar um comentário