julho 12, 2014

O tempo dos escravos


Há gente que trabalha e trabalha sem um queixume e sem qualquer espécie de reivindicação, mesmo quando as condições de trabalho se tornam cada vez mais adversas e injustas. Não sei se lhes admire esta notável capacidade de sacrifício se lhes critique este espírito acomodado que em nada beneficia o avanço nas condições laborais. Esqueçamos a crise, até porque não é disso que se trata. Trata-se de um modo de estar, perfeitamente legítimo, que se traduz por uma incrível resistência e uma frequente ausência de ideias próprias. Estes são os trabalhadores, funcionários mais desejados, aqueles a quem chamo de executantes. São, naturalmente, os preferidos das chefias, dos chefes, daqueles que agradecem este caráter, sempre obediente e conformado. Os que ousam queixar-se, barafustar, recusar ou manifestar uma ideia contrária dão muito trabalho e, por causa desta coragem moral, cansam-se muito mais, curiosa mas obviamente. É muito difícil bater contra muros de resignação e de espíritos formatados e mecânicos. Estamos em época perigosa - porque ainda damos graças a deus por termos emprego (e damos) vamos deixando que nos pisem e nos explorem até mais não, degradando-se os nossos dias de várias formas. E calando-nos, sendo resilientes e cumpridores, mesmo quando não devíamos ser, lá vamos contribuindo para a proliferação de chefias medíocres e de condições no local de emprego também cada vez mais medíocres. Trabalhar é preciso, embora uns trabalhem para viver e outros vivam para trabalhar. É justo, é igualmente legítimo. Agora não nos digam que o trabalho deve ser cumprido a qualquer preço nem que os executantes são melhores do que os outros. Porque se os tornarmos melhores, qualquer dia estamos como na revolução industrial - e estamos, em muitas partes do globo, por necessidade extrema de uns e ganância escravizante de outros. Aqui, o retrocesso vai dando passos seguros, quer fruto do medo - a questão de sobrevivência - quer fruto da resignação missionária que muitos cultivam, quando não havia necessidade para tal. Quem pode, não deve calar. A resistência não deve ser só física, deve ser também, e neste caso, sobretudo moral. Mas também é possível que a obediência cega e muda se possa basear em ambições pessoais que, afinal, nada têm de missão.

julho 07, 2014

Um outro verão azul

Chegaram há dias duas meninas ucranianas à minha vizinhança para passarem o verão. Foi-me dito por um vizinho amigo com quem estive à conversa sobre este assunto,  um pouco alheada do facto desse programa - decorrente da tragédia de Chernobyl - ainda estar a decorrer, pensando eu que já se tinham superado os efeitos da tragédia nas crianças, catástrofe muito falada na altura e por razões mais do que tragicamente óbvias. Comoveu-me saber que quanto mais sol e praia apanharem mais anos de vida poderão ter. Nesse dia o céu estava carregado de nuvens e desejei ainda mais o sol de que tanto gosto por causa delas, das minhas novas vizinhas, que ainda não conheci.
Fui fã da série espanhola que o título do post evoca, que marcou a minha e outras gerações, já que foi sendo repetida durante anos a fio. Agora, esta série que representa prolongar a existência destas crianças também é algo para tocante e seriamente apreciar. 

julho 02, 2014

Jogadores, jogadores, beleza à parte

                       
         
Partilho aqui uma questão curiosa, especialmente com os membros do sexo feminino que passam ou poderão passar por aqui. É minha impressão ou os jogadores de futebol estão cada vez mais feios? Passo a explicar. Não tenho visto quase nada do Mundial 2014, apenas está a televisão ligada nessas alturas, porque o pequeno desenvolveu um interesse agudo pelo evento, chegando ao ponto de dizer que não pode perder nenhum jogo e falando em jogadores que não conheço mas que estão lá, existem, e de que maneira. Ora, este interesse começou pela aquisição da caderneta e foi a partir desta que o meu post nasceu.
Ao folheá-la confirmei aquilo de que já desconfiava - a tal minha impressão - de que já não se fazem jogadores bonitos como dantes. Ou eles apostam no feio porque querem ser levados a sério, quer dizer, vender uma imagem mais alternativa, algumas vezes, ou eu já alterei o meu padrão estético com a idade, é possível. São ou estão todos, bem, quase todos, perfeitamente longe da beleza que já vi passear em campo noutros tempos. Onde vi umas 2, 3 carinhas larocas, no máximo? Na Bósnia, é verdade, que pus em primeiro, na Alemanha, na Suíça, até penso que nos EUA, sim, estes com 3 ou 4. Holanda e Austrália talvez com 2. Também considerei o mesmo na Costa Rica, para fugir da tonalidade menos bronzeada, o que me agradou também. Nesta linha, a Argentina, não estando totalmente bem, também não está muito mal. Na Itália ia apanhando um susto. Tive de voltar a ver o nome do país em cima, não fosse estar na página errada. Mas então onde estão os italianos herdeiros dos romanos, pelo menos daqueles que aparecem nos filmes e nas séries? Em Portugal, a mesma coisa, parece que o efeito Rui Meireles é contagioso. E na Grécia? Por momentos, pensei tratar-se da equipa taliban do Afeganistão, nada contra os afegãos, há gente bonita em todo o lado, mas não é de todo o meu conceito de beleza a combinação barbas e roupas de guerrilheiro. Ora aqui está mais uma razão para continuar a não ver futebol. 

junho 30, 2014

É na Bélgica



Uma colega italiana que conheci há dois anos, ao abrigo do programa Comenius, dizia não gostar de trailers porque estes empolgavam o filme de tal forma, mostrando apenas as partes mais emocionantes, que depois a faziam frequentemente dececionar com as fitas. Tendo a concordar, já que os trailers realmente mostram os momentos mais altos e que espicaçam a nossa curiosidade, mas também pode acontecer o oposto. Ou seja, também há trailers que não nos despertam grande interesse e depois descobre-se que afinal valeu a pena e de que maneira ir ao cinema ou ver o filme em DVD; em suma, há trailers muito inferiores aos filmes que é suposto publicitarem.
Foi o que aconteceu com este "In Bruges"/"Em Bruges". Já me tinha deparado com o trailer no youtube, enquanto navegava atrás de vários filmes que me interessavam e interessaram. Vi e não tratei de ver logo o filme. Mas depois, outros vistos, continuei a navegação, lendo os muitos comentários que existem em inglês a propósito tanto dos trailers como dos filmes que apresentam- já agora, que felicidade haver tanta gente a gostar de cinema, do mesmo cinema e dos mesmos atores do que eu, e a debruçarem-se sobre coisas que me interessam e que não interessam à maioria das pessoas que conheço na vida real, para desconsolo muito meu. Bom, nessa toada lá encontrei um comentário que me remeteu para este filme e para a interpretação - nomeada para prémios, de resto - dos seus protagonistas e aí decidi procurá-lo e vi-o. Quando acabou o filme, estava rendida, a considerá-lo do melhor que já tinha visto, dentro destes géneros menos clássicos ou românticos, completamente rendida a tudo, às interpretações, à história, à música, à loucura e sensibilidade em simultâneo que o atravessam do princípio ao fim. 
"In Bruges" combina de forma magistral cultura e crime, alta comédia e tragédia. Foram muitas e bem sonoras as gargalhadas ao longo do filme, assim como foram tocantes outros momentos, que surgiam inesperadamente, contrariamente ao tipo de filme que talvez se esperaria. A questão que mais me assolou e que partilhei com alguns amigos foi a de como é possível um filme ser tão hilariante e tão comovente ao mesmo tempo. Como é possível rir e chorar quase alternadamente? Bom, o gosto por esta visita a Bruges residiu também na enorme apreciação dos sotaques irlandeses dos dois principais atores e disto ser uma incursão pela insana violência feita por britânicos e irlandeses, de quem sou cinematograficamente fã. Como li algures, trata-se de Tarantino realizado pela dupla Merchant-Ivory. 
Um Ralph Fiennes alucinado, a falar, por exemplo, das dum dums ("that make the hair explode"), Colin Farrel na pele de um gansgter estúpido mas ainda assim sensível, à procura de redenção e Brendan Gleeson como um gangster culto e humano, oferecem-nos interpretações marcantes que nos fazem percorrer os caminhos da amizade e da lealdade, num filme que poderá parecer só para homens mas não é. Isto no meio daquele cenário em tudo contrário a histórias de tiroteios. Como diria Ray, em "f-Bruges", local de onde acredito que saiu, a propósito do brilhante final.

junho 28, 2014

O nós e o eu


Nomes houve que ficaram na história por servirem uma comunidade, por atos bondosos, solidários, corajosos ou revolucionários que visaram um bem comum. Outros nomes ficaram na história por razões inversas, por terem dado asas à mais pura expressão individual, visando o ato de criação, sempre mais egoísta, mas ainda corajosa e profundamente glorificante. Por isso, não venha ninguém dizer que os primeiros são mais válidos do que os segundos ou que o comunitário é mais preciso do que o individual. São apenas formas absolutamente diferentes de estar, porque nascidas de formas completamente distintas de ser. Gosto de uns e de outros, sem ambos os tipos o mundo teria sido e seria bem mais pobre. A riqueza vem da alma nobre e do altruísmo e vem também da liberdade de cada um na expressão pessoal. Tudo o que engrandece, se sozinhos ou em grupos, é fonte de inspiração. E cada um absorve e aplica a que quer, sabe e pode.

junho 26, 2014

Esta relação está assim



1. Confirmei ontem e de que maneira que o meu corpo ou o meu espírito - ou os dois ao mesmo tempo - não está - não estão - para desportos radicais. Apanhei uma radical seca num parque destinado a aventuras desses género - que estão longe do meu conceito de aventura, a milhas e milhas. A única coisa do género que ainda vai lá tem que meter volante, porque o resto - o resto que lá estava pelo menos - passo. (É claro que enquanto lá estive filosofei sobre o quão diferente é o conceito do medo, o da aventura e o da coragem, porque é mesmo.)

2. É óbvio que vamos fazer as malas e voltar para casa hoje. No dia do jogo anterior, domingo, creio, estava já a dormir e hoje se vir este estou já de antemão a pensar que estamos de malas aviadas. Até pode ser pessimismo, ainda há 1% de hipótese, mas é isto. É como se eu agora, porque gosto muito de andar de bicicleta ou porque gosto muito de escrever fosse competir com outros melhor preparados e mais talentosos nestas matérias. Nem a vontade e autoconfiança bastam nem a última deve ser em demasia quando há outros na corrida.

Claro que a relação do título é aquela que de momento tenho com o desporto.

junho 24, 2014

Das dificuldades



Há pouco via na televisão a saída em liberdade de Isaltino Morais e saltou-me à vista o cabelo completamente branco e o envelhecimento súbito em pouco espaço de tempo. Recordei imediatamente outros delituosos a quem aconteceu precisamente o mesmo, desde os arguidos do caso Casa Pia até aos PMs Sócrates e Passos Coelho. Em todos estes exemplos foi visível no rosto e no cabelo o aparecimento veloz de marcas de tempos árduos e não propriamente inocentes.  Vai daí que, num ápice, me pus a pensar em mim própria. E eis que a ausência de cor inundou também e imediatamente o meu teclado. Noites em branco, espaços totalmente em branco, brancas inconcebíveis que surgem nos testes, branca de desgaste, cheques cada vez mais a correrem o risco de serem em branco, cada vez menos carta branca, mentiras nada brancas. O meu crime? Bom, não encontro outro, sim, esse mesmo: ter enveredado por esta profissão, que em tempos difíceis ainda é capaz de arranjar mais agruras ao alimentar-se cada vez mais do facilitismo e, espantemo-nos, é verdade, também ela, da impunidade. Está explicado.

junho 20, 2014

No essencial é que está o ganho



O pormenor é um grande inimigo da generosidade. Dei por mim a pensar nisto, primeiro, a propósito das críticas de cinema, já que tenho passado os olhos por algumas nestas duas últimas semanas, depois, porque tenho observado de perto conflitos que se instalam a partir de coisas mínimas. Na verdade, estes são tempos cada vez menos generosos, em que rapidamente se censuram e se rebaixam coisas e pessoas por causa da fixação em detalhes. O detalhe quando vem por bem pode ser um fino complemento de algo que ainda podemos melhorar, dentro da humildade que nos deve acompanhar. Mas quando vem por mal, apetece-me dar-lhe um pontapé para bem longe, por vir denegrir algo ou alguém que fez vindo da parte de quem não ousou fazer. É incrível o número de problemas causados por esta insistência tola no acessório. Podemos até todos concordar que o pormenor escapou ou falhou mas devemo-nos questionar se isso chega para destruir o essencial. Também é aconselhável, deste ponto de vista, que nos centremos nos detalhes que funcionaram, apesar de continuar a pensar que o fundamental é que interessa. Quanto mais nos concentrarmos naquilo que de positivo as coisas ou as pessoas têm melhor. Tenho cá a ideia de que todos sairiam a ganhar. A generosidade, essa, será - seria - infinitamente maior. E não me parece haver nada que contrarie esta minha fé. Mas não mesmo.

junho 19, 2014

Fantasia irlandesa




Ao que parece, este belo filme de Neil Jordan - Ondine - teve distribuição limitada, não chegando às salas de cinema de forma massiva. Eu desconhecia completamente a fita e foi num momento de pura sorte que felizmente a descobri e vi online. Sorte se isso significar curiosidade e insistência, o que tenho vindo a fazer para ver os filmes por mim não vistos do ator Colin Farrel, e que pretendo fazer desfilar aqui. Para já, os diálogos com o padre - na mais pura tradição católica, ou não estivéssemos na Irlanda -os diálogos, dizia, são hilariantes (o homem de fé é interpretado por Stephen Rea). A cena em que Syracuse, o pescador, confessa ter roubado roupa de senhora é um bom exemplo mas há outros igualmente engraçados.
Passamos o filme a maravilharmo-nos com a paisagem irlandesa e a alimentar encantatoriamente o conto de fadas que nos vai sendo  apresentado pela filha de Syracuse. É uma história de amor, claro, daquelas que nos parecem impossíveis,  absolutamente saída da imaginação ou quase. Por vezes quase mística e, mas ainda assim a fazer reais estragos na tristeza quotidiana deste pescador, dando-lhe esperança, algo que ele receia profundamente. "I´m afraid, father. I´m beginning to hope", traduzindo o medo que todos temos, em algum momento ou circunstância, de sermos felizes. Esperar, arriscar, pode ainda e sempre trazer dor mas felizmente, por vezes, seguimos em frente e dessa forma experimentamos a felicidade - pelo menos a possível, duradoura ou não.
Sonhar com uma selkie qualquer é um bom motivo para sair da sombria letargia dos dias. E fugir da fácil infelicidade é sempre o mais difícil mas vale a pena. Valeu a pena imergir completamente neste filme, valeu a pena dar a sugestão a várias amigas, que também ficaram submersas nas águas desta história, pois viram-na imediatamente assim que a postei no FB, valeu a pena ir até a uma Irlanda aqui quase mitológica que nos seduz pela simplicidade e pela magia. 
Comecei por dizer que os diálogos entre Syracuse e o padre estão cheios de humor - "I suppose you´ve sinned with this girl / Of course; I don´t suppose you want absolvition / No". Ainda assim, a melhor mensagem a retirar e as palavras mais eternas serão "Misery´s easy, (it´s) happiness you have to walk at". Ou seja, há mesmo que mergulhar, por mais fria que esteja a água, para se ser feliz. E, por isso, interrogo-me se este será um belíssimo filme apenas ou sobretudo para mulheres. Gostava tanto que não.



junho 17, 2014

Coisas que me irritaram

                        

A derrota de Portugal, claro. Não é que eu ligue alguma coisa ao futebol hoje em dia mas lá volto a ligar nestas alturas de bandeiras e hinos à espera de alguma sentimental alegria que nos ponha mais contentes por uns bons instantes. Mas foi muito golo do outro lado, golos a mais, pronto. No entanto, isto foi o que postei no meu FB logo a seguir: Não se pode ser grande por picos e apenas por vontade. A grandeza é permanente e tem de ser muito cultivada para se manter. A vários níveis. Serve para o futebol e para muito mais. Leia-se como eu quis que fosse lido ou leia-se de maneira diferente, se se preferir. É preciso uma coisa chamada investimento para se ser grande, ser sempre grande.

A seguir, um amigo brasileiro analisou a derrota portuguesa sob um prisma, como dizer, político, e ao qual achei piada, com a minha eterna capacidade de me distanciar e de brincar com as minhas/nossas falhas. Mas o irritante mesmo foi ver, nos comentários ao post, outros brasileiros, presumo, a tecerem comentários jocosos sobre Portugal, ou, pelo menos, já não lhes consegui achar grande graça. Esta coisa das antipatias nacionais e choques culturais, seja entre que nações forem, não fazem o meu género, embora reconheça que não temos de gostar dos brasileiros apenas porque falam português e eles não têm de gostar dos portugueses pela mesmíssima razão. O sentimento não tem de ser especial, é um facto, mas ainda assim gosto quando o é, de cá para lá e de lá para cá. Lá fiz depois um comentário que ainda ninguém ousou comentar.

Finalmente, e como se não bastasse, dou de caras, também no FB, com a publicidade a um blogue chamado Detalhes de Casada, a falar de bordados e decoraçõezinhas todas elas lavores. Atenção que eu adoro decoração, de coração, mas é da outra, não destas, nada contra mas não, obrigada. Não gosto sobretudo do nome do blogue, soa a estado novo, a fada do lar em modo obrigatório, a seca e a mulher chatinha, sendo que o desplante maior ainda é o casada, como se a solteira não pudesse gostar de fazer estas coisinhas, ou a divorciada ou a viúva, ou como se não tivessem, sequer, casa. Ou, possivelmente pior ou não, como se a casada tivesse de o fazer ou de gostar, já que as duas coisas juntas, fazer e gostar, é muita areia para uma mulher só.  

Ai, as coisas que nos irritam são aquelas que não nos movem, a não ser mover-me, sair daqui, para ir dormir; off to bed.

junho 12, 2014

Grita liberdade


Detesto tudo o que seja "cultural". Com isto quero dizer que rejeito a sobreposição do meio, da tradição, da religião ou de outra coisa qualquer às liberdades individuais. Sou defensora destas, absolutamente, não como sinónimo de libertinagem, de deboche, de provocação ostensiva, de atropelo da liberdade alheia, mas como essencial sinónimo de escolhas. Não me obriguem a atuar em nome de e contra a minha vontade apenas porque é diferente e não é o que a maioria quer, sente, pensa, faz. Só faço enquanto eu quiser, na obrigação ou na sensibilidade, na consciência ou na necessidade, na reflexão ou na circunstância. Posso fazer sem desejar por causa disto tudo mas a escolha é minha. Boa ou má, é minha. A liberdade individual nasceu para nos servir e todos que a travam, independentemente do modo ou lugar, tempo ou razão, vão aplicar o cultural para o diabo que os carregue.

junho 10, 2014

Boulevard da solidão


Na semana passada, apareceu um daqueles quizzes/testes engraçados online que vamos fazendo não sei bem para quê, é certo, mas que nos vão descontraíndo de alguma forma. Este era `What nationality are you?` e depois de responder a uma série de perguntas lá vi, sorridente, o meu resultado: `Irish`.  Compreendi, pois, finalmente a minha atração pela Irlanda, sem nunca ter lá estado, que vai desde a paisagem às diferentes formas culturais e artísticas, música, literatura, cinema, e vai daí, num instantinho, ao ator Colin Farrel. E não sendo exatamente por essa descoberta, a verdade é que me tenho dedicado a ver alguns filmes deste ator durante esta semana, online e no original (quão mais pobre seria o meu mundo, aquele que me interessa, se não soubesse inglês). Vai daí também que vou abrir um capítulo dedicado a este irlandês - e sim, adoro o sotaque - para escrever umas coisitas sobre os filmes. Para já, começo com "London Boulevard", cujo título em português é "Crime e Redenção".
Pelo que li, as críticas não lhes foram, ao filme e ao ator, muito favoráveis. O que também não me influencia nada, porque se trata de um filme com aspetos bem interessantes para explorar, apesar de não ter gostado do final por razões evidentes. A película tem um óbvio toque Sunset Boulevard / O Crepúsculo dos Deuses, desde já pela ligação da personagem de Colin com uma atriz "retirada" e reclusa na sua mansão, aqui por razões que nada têm a ver com a idade ou a passagem ao cinema falado. A violência e alguma loucura do filme lembram as obras de Quentin Tarantino (banda sonora a condizer, muito boa)  mas com uma diferença considerável - o ator principal, graças aos deuses, é a estampa que sabemos, o que não me parece que seja o estilo preferido dos críticos, homens 99, 9%, que assim rebaixam a prestação do ator em inúmeras fitas, e de alguma audiência masculina que teima em fazer o mesmo e aposto que pelas mesmas razões, ignorando completamente a notável capacidade dramática do mesmo, até só pelo olhar. E a atriz Keira Knightley é provavelmente muito clássica para uma parte de público que prefere o estilo cruzar de pernas de Sharon Stone, enfim, gostos não se discutem, diria.  Eu cá gosto dos britânicos e dos irlandeses muito mais do que gosto dos americanos, a ter de escolher. Coisas, inexplicáveis ou talvez não.
Na verdade, e seguindo adiante, trata-se de um belíssimo filme sobre a solidão. E do que gosto mesmo é dessa fragilidade humana no meio de um mundo louco e adverso que contraria as suas expetativas e desejos mais interiores. E como é difícil, por vezes impossível, resistir às avalanches  do mal, a violência,  a invasão da privacidade e a pressão de vários tipos. A bondade não triunfa sobre a crueldade, não sempre, não tão frequentemente quanto desejável, não sequer na ficção. E nem mesmo o amor chega, mesmo e sobretudo o que nasce do desamparo, da desesperação e da absoluta necessidade de conforto emocional extremo.
Gostei, resumindo, desta perturbante  incursão pela cruel negação da felicidade e por último registo aqui provavelmente as mais belas palavras que ouvi e se podem ouvir quando se encontra o amor: - " If I fell in love with you, what would you do about it? - Anything. ... Everything."

junho 08, 2014

Coisas que me comoveram

                    

Na sexta, pequenas emoções, todas diferentes e no entanto ligadas entre si, deixaram-me comovida. A primeira, decorreu de pura ficção. Vi o filme "The Flowers of War", online, no original e bilingue, portanto. Trata-de de um filme de Zhang Yimou, cineasta que sempre apreciei, desde os primeiros filmes feitos com a atriz Gong Li, e que via na RTP2. Vi-o e fiquei a conhecer um pouco mais da história mundial, pois tem como pano de fundo a invasão japonesa de Nanquim. Apesar de conhecer as atrocidades cometidas pelo Japão na China, através do filme e do livro "O Último Imperador", desconhecia a história das violações que este "As Flores da Guerra" nos faz, tristemente, entrever. Li, entretanto, que o filme não foi um sucesso no ocidente, apesar da presença do ator Christian Bale, um dos meus três favoritos da atualidade. Na China, o filme passou, obviamente, pela censura e foi visto por multidões. Nos comentários online do youtube, muitos americanos confessaram ver atenuados ou mesmo dissipados os ódios anti-comunistas face à China depois de verem esta história de horror, nobreza e sacrifício sem par. 
A segunda emoção surgiu no seguimento das imagens documentais do Dia D, relativas ao desembarque nas praias da Normandia das tropas aliadas há 70 anos. Impossível ficar indiferente perante a coragem, o medo, o sacrifício dos homens que, por vontade própria ou não, perderam ou arriscaram vidas em nome da salvação de tantas outras. Como não me parece haver dúvidas sobre que lado representava o mal nesta guerra, ver a dor do bem não deixa de ser tocante. Emocionaram-me também os sobreviventes, que ainda vivem, e corajosos ainda,  para que a história com h grande não se esqueça das suas histórias mais terríveis.
Por fim, a reportagem da noite sobre os trabalhadores da construção civil, um setor em crise profunda, que ocuparam um prédio em Vila Franca onde tinham trabalhado e que fizeram dele a sua casa. Homens, de diferentes idades, origens, unidos sob o mesmo desabrigado teto, em relatos de sofrimento e ao mesmo tempo ainda de esperança, a mostrarem as marcas no presente dos tempos difíceis e injustos que vivemos. Vítimas colaterais da política e da sociedade, a corda a rebentar sempre pelo lado mais fraco, o desejo de que alguém veja - tenha visto - a reportagem e faça alguma coisa por eles, os tire dali, lhes dê uma nova vida, ainda não desistiram, ainda a querem, ainda há tempo. Alguém que queira e sobretudo que possa, rapidamente, enquanto lhes resta a dignidade interior.
Três momentos, diferentes no tempo e no espaço, mas a dizerem-me, mais uma vez, que não gosto dos infortúnios humanos, da dor que significam. Sensibilidades de sempre, mais visíveis no rosto desde a maternidade. O que nos comove também é, ainda e sempre, o que nos move.

junho 04, 2014

Das determinações


Tenho andado quase completamente arredada da atualidade mas hoje lá me vi a ver e ouvir uma notícia ou outra na informação da noite, a saber, a guerra interna no PS, o cancelamento da viagem para o Brasil do PM por causa do TC, a realeza espanhola a mudar de coroa e pouco mais. Porém, também vi o início, só o início, porque depois desliguei, quer a televisão, quer da atualidade, uma realidade dos meus dias, voluntária e não voluntária, vi o inicio, dizia, de um discurso, entrevista, fosse lá o que fosse, do PM a dizer o seguinte: "A maioria do povo português aprecia a determinação" das nossas políticas ou coisa parecida nesta parte sem aspas. Aprecia ou tem apreciado, já nem me lembro bem, mas dá no mesmo. Aprecia? Declaro já que não estou incluída nesta maioria, não quando, apesar de alguma paciência e zen desconhecimento de questões económicas, não quando, repito, me encontro congelada desde há 10 anos, não quando tenho passado um ano escolar infernal (eu e outros), não quando o meu salário está a mingar volta e não volta, mas com voltas mesmo rápidas, ao melhor estilo rossi, e a voltar, lá está, ao tempo em que era bem mais nova, trabalhava em melhores condições e ainda podia fazer planos, não quando me fartei de ser pacífica, briosa e paciente, profundamente idiota, na verdade. Determinação? Só pode ser uma brincadeira, é mundial, ninguém levaria a mal. Determinação, a meu ver, só pode ser uma: a autodeterminação, rápida e definitiva, que signifique fugir deste PM e restante troupe que não apreciamos. Ou que não aprecio, já que posso estar em minoria.

junho 03, 2014

O chamado aviso à navegação em forma de pequena nota


Não pensem os que me habituei a ler na blogosfera, na semelhança e na diferença, que os deixei de apreciar apenas porque os deixei de visitar, é um facto, nestes últimos tempos. Ou pelo menos com a mesma regularidade. Ou com a regularidade possível, o que ainda assim estaria longe da desejada. Na verdade, tudo se resume a impossibilidades várias, digamos, prioritárias e/ou necessárias. Navegar fora da rede tem sido preciso...

junho 01, 2014

A pontinha do véu



Na sexta, por necessidade de descanso físico, consegui estar quase duas horas ao final da tarde no sofá, a ver um filme que comprara havia algum tempo. A necessidade não me trouxe senão mais uma belíssima experiência cinematográfica. Uma viagem, portanto. No tempo, no espaço, na história que, confesso, me deixou em lágrimas no final. O filme chamava-se e chama-se "O Véu Pintado", adaptado do romance de Somerset Maugham, autor que estudei vagamente nos tempos da universidade. 
O que me fez ficar arrebatada e comover-me de tal forma? Bom, para já tem todos os ingredientes que me fazem inebriar: exotismo, romance, densidade psicológica (como o trailer do filme engana, o conteúdo é muito mais intimista do que possa parecer e transparecer no tom épico das imagens), atores que me convencem e seduzem. Recomendo-o, pois, vivamente. E não levantando muito o véu, já agora,  sobretudo em relação ao final, deixo, no entanto, alguns apontamentos que retirei desta maravilhosa história. 
1. Trata-se de um filme sobre o amor, sim. Um estudo, até, sobre o surgimento do amor contra todas as expetativas iniciais, sobretudo na figura da esposa que não ama - e trai - o seu aparentemente aborrecido marido. 
2. Tratando-se de um filme sobre o amor, relembra-nos, também, que muitas vezes não valorizamos quem temos e quem gosta de nós, pelo simples facto de não vermos, estarmos cegos, de alguma maneira. Quando alguém de fora nos mostra como esse outro é bom e nobre, por exemplo, passamos a vê-lo com outros olhos, descobrimo-lo, e aí vemos o tempo que perdemos e percebemos o quão fomos tontamente idiotas.
3. Ainda o amor, claro, a dizer-nos que muitas vezes nos apercebemos do valor de alguém ao nosso lado já demasiado tarde, sem nunca lhe termos expressado que estávamos enganados ou o que acabámos por sentir, por orgulho ou outra coisa qualquer.
4. O filme é ainda sobre os surpreendentes caminhos do amor. De como alguém, neste caso, a esposa, não sente paixão pelo marido enquanto ele é bom mas insípido e como tudo se transfigura quando ele se torna menos bom, cruel até, porque movido a orgulho ferido e a um aparente desejo de vingança. Na relação entre ambos, porque a consciência da nobreza e coragem dele em relação aos outros também vai aumentando nela à medida que o vê sob uma outra luz.
5. Finalmente,  e voltando ao nascimento do amor que se dá quase inesperadamente, constata-se que ele vem no meio da total adversidade, como se a rotina deixasse morrer o amor, ou nunca o despertasse, e dificuldades maiores o incendiassem de forma totalmente inequívoca. 



(Não gostando particularmente do trailer, pelas razões apontadas, aqui fica no caso de se sentir alguma curiosidade. Também sei que os meus adjetivos são um bocadinho "entusiasmados", coisa rara nos tempos que vão correndo, mas não vejo razão para ser contida se gosto mesmo de alguma coisa, como é aqui o caso; não quis, nem quero, pois, poupar palavras.)

maio 29, 2014

Na coffee shop

"Amsterdam"

Hoje, num café, dois miúdos de 20 anos, coisa menos coisa, puseram um bom bocado de ´ganza´ em cima de uma chicha (ou narguila, como também é conhecida) e espantaram-se quando o dono, estupefacto e furioso, claro, lhes disse que não o podiam ter feito e os convidou, em estilo eufemismo, a sair. Desculpe, não sabíamos, disseram, ele e ela. Isto depois de terem fumado um bocadito, antes de serem detetados pelo cheiro. Não sabia, agora é a minha vez, que isto era a Holanda. E logo hoje que, algures, tinha visto e passado os olhos sobre as 7 razões pelas quais se devia visitar os Países Baixos o quanto antes. Deve ter sido isso que aconteceu com esta rapaziada. Devem ter lido o mesmo e trataram logo de embarcar.

Louvores


Acho, achei e acharei sempre muita graça às pessoas que louvam o surgimento de mais grelhas para preencher. Respiram, aliviadas, e exultam até, porque alguém se lembrou e se deu ao trabalho de as fazer por elas. Cá eu já é mais o contrário, amaldiçoo cada vez mais os papéis que me põem à frente, sejam físicos ou virtuais. Decididamente, é carga a mais para alguém prático e decidido como eu, para o bem ou para o mal, admito. E com interesses fora do local de trabalho, já agora. Não serve este post, pois, para a papelada louvar.

Uncomfortable


Hello? 
Is there anything in there? 
Just touch my hand if you can hear me. 
Is there anything in your heart? 
Come on, now, 
I know you're feeling disappointed. 
I can ease your pain
Get you on your trail of hope again.
Breath. 
I'll need some information first. 
Just the basic facts. 
Can you tell me why it hurts? 

There is no pain you are receding 
A distant tree on the horizon. 
You are only coming through in shades. 
Your hands touch mine but I can't feel anything. 
When I was a child I had a fever 
My hands felt just like two balloons. 
Now I've got that feeling once again 
I can't explain you would not understand 
This is not how I was or am. 
I have become uncomfortably numb. 

maio 26, 2014

As eleições vistas por quem pouco sabe mas vai opinando


Vencedora absoluta : abstenção. É um direito, claro, mas depois não se queixem. Já estou quase como o Miguel Sousa Tavares dizia hoje, ao comentar a mesma: quem não vota porque não quer, porque não acredita no sistema e na democracia, talvez devesse não beneficiar em nada dela... O que se pretende, afinal? É certo que o desencanto é muito, tal facto é por demais compreensível, mas a solução não (me) parece ser por aí.
Perdedor maior: Aliança de Portugal. Um valente cartão vermelho a quem nos governa, sem mais nem menos. Pudera, com o desânimo e revolta que por aí vemos e sentimos, e que nós próprios sentimos, seria de espantar que acontecesse o contrário. Haja coerência.
Vencedor maior: CDU. Pode beneficiar da abstenção, porque os seus militantes não falham, é verdade, mas não deixa de ser um reforço, que significa, certamente, alguma coisa. Ou muita.
Ganhador mas não para ser governo: Partido Socialista. Vitória em números mas ao mesmo tempo derrota em números, porque derrota na intenção de que nos governem. Está clara, assim parece, a falta de alternativa viável para as próximas legislativas.
Perdedor médio: Bloco de Esquerda. Médio a fugir para o grande. Este resultado já vem na sequência dos anteriores, e que foi agravado, a meu ver, como simples cidadã, com a liderança repartida que Francisco Louçã defendeu na saída. Volto a dizer aqui que ver a Catarina Martins a liderar é para mim uma aflição, não tendo perfil absolutamente nenhum para ocupar tal lugar. Ela e João Semedo serão com certeza pessoas de boas intenções mas não chega, claramente. (Com todo o respeito que o seu pai também me merece, trabalhei com ele na José Estêvão há uns bons anos, quando ele era presidente do conselho executivo na altura.) 
Vencedor assim assim e a quem não reconheço muito mais do que um discurso fácil ainda que corajoso: Marinho Pinto, ao serviço de qual partido mesmo? Não me identifico com o estilo, mas ainda assim acho uma certa graça ir para Bruxelas e ser politicamente incorreto, a ver vamos no que a irreverência dará.
Para concluir, destaco dois aspetos que liguei entre si. As más lideranças podem ser feitas feitas de más intenções mas também de boas, é um facto. Ou seja, não são suficientes as pessoas boas, é preciso ser-se competente. E isto serve para a política e para tudo. Muitas vezes temos pessoas muito queridas e apreciadas pela sua bondade mas falta-lhes profissionalismo, visão e inspiração. Ora isto, a ausência de inspiração nas figuras políticas, leva-nos ao descrédito cada vez maior em relação à classe, agravada depois pelas más práticas, corrupção e mais do mesmo ou parecido. Desta forma, sem figuras que nos inspirem e nos levem a acreditar que é possível, aliando humanismo e pragmatismo, honestidade e competência, haverá menos e menos gente com vontade de se deslocar às urnas. E volta-se ao princípio e não saímos daqui. A coisa, resumindo, está feia.


maio 23, 2014

O descanso e a guerreira


Sou intrinsecamente live and let live. Mas este apreciado e cultivado sossego bate em retirada quando alguém que é o oposto lá me vem seriamente incomodar. Então, vou buscar defesas combativas não sei onde, mas vou. O que é uma tremenda maçada porque eu gostava mesmo era de estar sossegada, sob um tranquilo ´living and letting live´. Mas, lá está, eu não quero nem procuro mas o combate surge, obrigatoriamente. Não dá para fugir, se o ataque é muito denunciado. Pode ser evitado, muitas vezes, a experiência vai-nos dando engenho e arte também nestas coisas, e quando o é, permanece o sossego.  Mas declarado, não dá. E é assim que vamos. Ou vou, neste caso. A desejar sempre estar no meu canto mas a não fugir de uma frente de batalha se sou obrigada a combater.

maio 22, 2014

Mais uma vergonha


Que é como quem diz, mais um muro. Desconhecia que tinha sido ou tem vindo a ser construído um muro em Mellila, como forma de evitar a imigração clandestina vinda das áfricas onde, curiosamente ou não, este enclave se encontra. Se por um lado percebo que o fluxo de imigração possa ser em larga escala e ilegal, a ponto de criar problemas dentro deste território, por outro, e é este que prevalece em mim, não suporto muros deste tipo, e sou absolutamente contra a ideia de que há, ou houve, muros maus e muros bons. A desgraça de quem tenta saltar este, à semelhança de outros, a desgraça, dizia, é tanta que apenas pode instalar-se em nós uma profunda compaixão e solidariedade. Impossível sentir de outra forma se nos pusermos na pele de quem às vezes espera anos no deserto para saltar o muro. Basta imaginarmos que a nossa pobreza relativa (que ainda não é absoluta, como nestes países subsarianos) que nos leva hoje a atravessar a fronteira esbarra com um muro assim, que nos obrigue a ficar num lugar onde já não conseguimos sobreviver condignamente. É só tentar perceber isto que a vergonha salta cá para dentro num instantinho. Vergonha e injustiça, misturadas com comiseração e até dor . Nunca são bem vindos os muros da miséria e do sofrimento.

Normalmente




Muitas vezes, ou até normalmente, considera-se anormal o que devia ser encarado com a maior normalidade - e naturalidade - possível. Desta forma, existiriam menos preconceitos, menos críticas, menos problemas. Por outro lado, aceita-se como normal um rol de anormalidades que são uma autêntica chaga. Estas, sim, deviam fazer com que as pessoas fossem mais exigentes, consigo mesmas e com os outros. Podia dar exemplos, para o dito acima e o dito aqui mais abaixo, sobretudo porque o conceito de normalidade também pode variar, é certo. Mas uma coisa é também certa: há normalidades absolutamente naturais e essenciais e assim devem ser vistas e sentidas e há depois o incrivelmente anormal que só perturba e destrói. A proposta é sermos menos tolerantes com este último.

maio 19, 2014

Um "We ourselves" ou dois


É assim - pouco ou nada percebo do assunto até porque me afasto das notícias por diversas razões. Mas comecei a pensar nisto. A comunidade internacional - vulgo ocidente? - não concorda com a "desvinculação" da Crimeia da Ucrânia e posterior união com a Rússia. Isto com a maioria da população naquele território ucraniano a ser russa, revelando então óbvias preferências pela pátria de origem. Segundo e seguindo esta ordem de pensamentos, uma coisa deveria ser-lhe semelhante, digo eu assim de longe. Trata-se da "desvinculação" da Irlanda do Norte do Reino Unido, que assim se tem mantido, ao que se me tem parecido, pelo facto da maioria da população ser de origem britânica, ainda que num território, obviamente, irlandês. Ora se isto não são dois pesos e duas medidas, não sei não. Talvez não saiba, mesmo. Alguém, por favor, me explique...

maio 18, 2014

Preparar o verão?


Adoro o verão, sofro no inverno, estou feliz com estes dias de maio quentes e longos, até as manhãs me parecem apetecíveis, ontem vi-me, inclusivamente, a estender roupa às 8,30 da manhã no pátio com um q.b. contentamento. Claro que me levantei com um propósito específico, o de ir a um determinado local, mas eu e o estendal, juntos, é coisa impensável a esta hora senão sob estas soalheiras temperaturas. Posto isto, renovo-me no verão mesmo quando o ainda não é no calendário mas quase. Ainda assim, não sei o que é preparar o verão. E isto veio-me à ideia porque vi uma foto online em que duas amigas, no verão do ano passado, se diziam a preparar este verão, o de 2014. Eu estou mortinha que ele chegue, o do calendário, que é para eu, final e merecidamente, desligar do trabalho e poder explorar, a minha grande paixão de sempre, o que quer que me apeteça ou possa. Agora, insisto, desconheço o que é preparar o verão. Será ir ao ginásio? Será comprar bikinis novos? Será ir tostando ao sol aos bocadinhos para exibir um bronzeado no pico do verão e das multidões? Será abandonar algum ritual de inverno? Será apenas mudar de roupa e de calçado? Será cortar os cabelos para se ficar mais fresca/o? Será pôr a espreguiçadeira no terraço ou no pátio? O que quer que signifique preparar o verão, eu devo passar-lhe ao lado. Vou fazendo as coisas à medida que surgem  - está muito calor, dou um saltinho à praia, por exemplo - e à medida de que delas tenho necessidade, de tal forma que já comprei ou quis comprar roupa de verão, bikinis incluídos, em agosto, uma grande dificuldade, é certo, porque as pessoas que devem preparar o verão já levaram tudo antes, mais espertas e mais aflitas do que eu. Eu gosto de viver as coisas como elas surgem, sem as antecipar, fugindo completamente ao normal dos dias que correm, em que tudo é feito ansiosamente, antes do tempo, e de acordo com os calendários coletivos e comerciais. Não sei o que é preparar o verão, não quero preparar o verão. Quero que ele venha, simplesmente, dia a dia, um dia de cada vez, que se demore, até, e muito, e como o adoro e preciso dele. Quanto ao resto, não me falem em preparativos. Isso soa-me a trabalheira e a catálogo e o verão, o meu verão, não pode ser feito para me cansar. Às vezes lá calha, também é verdade, mas nessas alturas dou por mim a ansiar pela calmaria do outono...

maio 16, 2014

Uma coletiva emoção



Independentemente de se ser do Porto, Benfica ou Sevilha (desde sempre ou momentaneamente) há sempre qualquer coisa de estranhamente tocante nas lágrimas coletivas. O mesmo serve para as alegrias. Por vezes, a emoção coletiva eleva-nos de uma forma singular, quer seja pelo contentamento, quer seja pela tristeza. Mesmo se a tristeza ou o contentamento tiverem origem em coisa pequena ou não essencial. Os sorrisos e risos e lágrimas de muitos podem contagiar-nos. Não é mau perceber que se pertence a um todo numa circunstância em particular. Não é mau partilhar emoções. É bom sentir em conjunto.

maio 15, 2014

De profundis país lento


Tenho, este ano, no âmbito da minha atividade profissional, vivido experiências brutalmente enriquecedoras apesar de brutalmente desgastantes. Muitos são os pensamentos que delas surgem, impossíveis de registar, atempadamente e por escrito, aqui ou em qualquer outro lugar. Mas uma conclusão pode ser aqui assinalada: a de que tenho mantido, ao longo deste ano, um intrigante e desolador contacto com o Portugal profundo. A modernidade existe, sim, comparada com tempos idos, mas é minoritária e citadina, intelectual e, por contraste, consumista. O resto, tudo o resto aponta para um país ainda muito atrasado, com baixos níveis de conhecimento, de cidadania, de esclarecimento e de pensamento.
Qual o impacto disto tudo na escola? Bom, uma taxa de abandono considerável, ainda, uma falta de ambição cultural e pessoal assustadora, posturas inaceitáveis que as famílias, pouco esclarecidas e, por vezes, mesmo sem maneiras, não conseguem controlar, um desinteresse chocante pelo conhecimento, alheamento do mundo para lá das novas tecnologias e das experiências típicas da adolescência, ignorância natural e cultivada que roça a boçalidade, desrespeito por todo e qualquer tipo de regras e de autoridade, taxas de sucesso baixíssimas e, para as aumentar, fabricadas, enfim, um país atrasado, deprimente, ignorante, com a mania que é rico e que é injustamente desprezado, apostado em ter, ter cada vez mais, e esquecendo completamente o ser.
Também é verdade que este ter o é cada vez menos. As dificuldades económicas só agravam este desalento social, estas psicoses várias que assolam as famílias, as pessoas, a parentalidade, e como consequência, os filhos e os filhos na escola. 50 anos de reclusão obrigatória fizeram-nos muito mal. Persistem dificuldades dessa altura, na cabeça e, como consequência, nos atos. Mas este descalabro financeiro atual tem, certamente, um efeito altamente negativo na melhoria das condições de vida, desnorteando ainda mais aquilo que não estava ainda solidificado.
Hoje coloquei um post no meu FB profissional para que os alunos lessem. Como gostaria que o lessem e interiorizassem. Só assim poderiam e poderão sair destas profundezas em que ainda nos encontramos, assim que saímos da cidade, do teatro ou do centro comercial. A nossa marcha está a ser muito lenta, é possível que estejamos até a andar para trás. Cruzem os braços, cruzem. Fiquem à espera de milagres. Assim não se vai lá.

maio 07, 2014

O afeto comanda a vida

Este post foi escrito para o AE por Mafalda Branco, que tive o prazer de conhecer no início deste ano letivo, autora do blogue Do outro lado do espelho.


Não podia estar em melhor companhia para escrever sobre o que dá sentido aos meus dias e ao que faço profissionalmente. Sempre fui uma pessoa de afetos, desde que me lembro de ser gente. As minhas primeiras memórias são do colo da minha bisavó e da minha educadora de infância, que sempre me amaram e protegeram. Da última continuo ainda hoje amiga e os afetos acompanham a nossa relação. Quando nos encontramos, conta-me sempre as mesmas histórias e é curioso como também ela tem na memória a minha bisavó e o que ela, já na altura velhinha, fazia por mim. Fala-me do lençol castanho e do cestinho cor-de-rosa que eu levava todos os dias para a escolinha. Lembra-se como se fosse hoje. Também eu. Sorrimos, abraçamo-nos, reforçamos laços e eu a certeza que a importância da escola é imensa na nossa vida e na formação da nossa personalidade. A minha bisavó já faleceu há muitos anos, mas dela guardo esse amor tão bonito por mim e tudo o que fazia para que eu estivesse bem e feliz.

Depois fui crescendo. A minha adaptação à escola não foi fácil, disso também me lembro. E aqui, mais uma vez, as minhas professoras da escola primária marcaram a minha vida, com a sua ternura e o seu cuidado. A professora Zulmira e a professora Elisa, para além do tanto que me ensinaram, deram-me também elas colo e estavam sempre à minha espera com um sorriso. Podia continuar a enumerar todas as pessoas que passaram pela minha vida e que me ensinaram que o mais importante são os afetos, os laços que criamos e que nos permitem crescer e desenvolvermo-nos. E tenho a felicidade de serem tantas! Dessas pessoas fazem parte muitos professores, para além dos que aqui já referi. Talvez tenha sido por isso que hoje trabalho em educação e… com professores… De facto, é um privilégio poder trabalhar em educação, por muitas adversidades que tenhamos que enfrentar. E a base do meu trabalho está… nos afetos, precisamente! Dedico-me a sensibilizar e a inspirar as pessoas, neste caso os professores, para a importância de trabalhar a relação. E escrever hoje estas palavras fez-me pensar em como tudo se encaixa na nossa vida, desde que estejamos atentos e sigamos o nosso coração. Em pequenina o meu sonho era ser professora, depois passou para ser psicóloga e hoje sou psicóloga e trabalho com professores! Nada acontece por acaso e os afetos ajudam a construir o caminho. Neste mundo louco em que vivemos, este é talvez o maior desafio: centrarmos a nossa vida nas relações e dedicarmos-lhes todo o afeto que elas merecem e de que precisam para ser mais plenas. Acredito que o caminho para sermos mais felizes e vivermos em maior equilíbrio é este e é o que procuro transmitir em tudo o que faço. Como dizia Novalis, “tudo é semente”. Para além de semear, resta-nos acreditar e manter a esperança que essa semente dará fruto um dia…

maio 05, 2014

Tiro e queda

A exigência é inimiga da popularidade. Nas chefias, no cumprimento do dever, na educação, nas relações sociais e mesmo afetivas. Ser exigente é não ser popular. Quem quer ser popular, amado ou, na realidade muitas vezes apenas bajulado, deve cultivar a facilidade, o deixa andar, o porreirismo. É garantido.

maio 03, 2014

Conhecer é poder ou querer poder

               
  
Afazeres profissionais intensos e consequente cansaço têm-me afastado da blogosfera. E conseguiram uma proeza no dia do trabalhador: pôr-me a preguiçar, a ver televisão no sofá, como já não fazia há muito. De uma assentada, vejo dois filmes, apesar de não os apanhar totalmente desde o início. Duas biografias, diferentes, mas que no fim lá liguei através de frases emblemáticas ou filosofias de vida que me chamaram à atenção.
1 - a primeira, mítica e de culto para alguns, nada intelectual e desinteressante para outros - a vida de Bruce Lee. Nada de profunda erudição e ainda assim reveladora de uma força de alma incomum, de um percurso, infelizmente breve, a desbravar fronteiras culturais, físicas e psicológicas. O trazer a beleza da cultura chinesa para a cultura americana de origem anglo-saxónica, neste caso, como forma de fazer frente ao desconhecimento, e, desta forma, ao medo, ao preconceito e às barreiras instaladas. Conhecer é assim aproximar, contribuir para a harmonia, ser feliz. 
2- a segunda, mítica e de culto para tantos, provavelmente insuportável para outros - a vida de Che Guevara. Ou melhor, parte dela. O filme a que assisti é a segunda parte da fita dirigida por Steven Sodebergh, e é centrada na guerrilha na Bolívia, onde, de resto, haveria de sucumbir. Um filme belíssimo, falado em espanhol, que nos deixa espreitar uma visão de sociedade perfeita, idílica, é possível, com erros pelo caminho, mas profundamente justa. A viagem pelo continente sul-americano que fez enquanto jovem marcaram a sua posição política, social e até filosófica. Como conhecer o que pôde conhecer, vendo e sentindo, e não querer alterá-lo? Da mesma forma, esta Bolívia de contrastes chocantes e indignos, com níveis de pobreza campesina atrozes, não era justa em 1967 e não sei se o será hoje - duvido. Aqui o conhecimento não traz propriamente felicidade. Conhecer, aqui e assim, é querer agir, é não conseguir sossegar, é ter de intervir, ainda que pagando um preço altíssimo. 
Os dois filmes ligaram-se nisso mesmo - na forma como o conhecimento nos pode apaziguar e tranquilizar e na outra forma, naquela em que o conhecimento nos pode inquietar, perturbar. Assim, desconhecer é sinónimo de temer, de hostilizar e ao mesmo tempo conhecer pode ser e é sinónimo de participar, de atuar. O conhecimento pode trazer alegria e harmonia e pode trazer sofrimento, consciência. Trata-se, pois, e unindo as biografias e os pensamentos que me assolaram, de uma poderosa arma contra a intolerância e a injustiça que pode alterar uma vida, almejando-se alterar muitas.