junho 17, 2013

Do perigo

                       

Há discursos perigosos, há mentes perigosas, há perigos que saem das palavras, que saem da cabeça, que desvirtuam a dignidade, que deturpam a verdade. Há discursos e mentes que perturbam a ordem, que instalam o caos, que se alimentam perigosamente da hipocrisia, da inverdade, do cinismo.
Acabei de ver várias notícias no telejornal e é cá e é um pouco por todo o mundo. E enquanto existirem estes discursos e estas mentes perigosas, não pode haver paz. Nos seus significados todos, nas suas formas todas. E não é só no telejornal, pode ser perto de nós, ou longe. Há perigos que são mesmo perigosos. E começam na mente e nas nas palavras. E acabam na desordem, interior e exterior. No medo. Tempos perigosos. Gente perigosa. E consequentemente, e pior, vidas em perigo.

junho 12, 2013

Simplicidade

A averiguar pela quantidade de pessoas verdadeiramente simples que vemos por aí, que é pouca, infelizmente muito pouca, deduzo que o difícil, o difícil mesmo é ser simples.

junho 11, 2013

Quem tem medo do medo?

                       

Confirmei hoje e mais uma vez a ideia de como é péssimo quando os outros nos assustam. Ou como nós, estando descontraídos com uma tarefa em mãos, podemos ficar momentaneamente assustados por causa do medo dos outros e que nos tentam passar, ainda que inconscientemente, acerca dessa tarefa. Tenho para mim que tudo se resolve, tirando, infelizmente, a inevitabilidade da morte, da doença, da tragédia, de tudo o que é maior e superior à nossa vontade ou empenho. Por isso, o resto, faz-se, com menos ou mais dificuldade, dependendo daquilo que nos causa mais ansiedade ou mais respeito. No caso em questão, estava perfeitamente descansada porque quem me incumbiu de uma empreitada em particular também o estava. Vai daí que, erro meu, ao falar de tal missão com outras pessoas, um certo mal estar vi tomar conta de mim por instantes devido às dificuldades maiores que logo colocaram, nos termos em que (as) colocaram e passando uma insegurança que não sentira até aí, ou, provavelmente melhor, um stress de última hora que não era necessário e que não era meu. Porque se fosse insegurança ainda a sentiria até agora e a verdade é que desapareceu logo assim que vim embora. Lição a tirar: calar, como faço tantas vezes, guardar para mim, não dar azo a palpites, a leituras impregnadas de aflição, a preciosismos que não possuo, até porque não me afligiu nada a incumbência, talvez apenas o timing, atarefada que ainda estou com papelada e avaliações. 
Não costumo escrever muito na primeira pessoa, tento mais teorizar, assim como evito falar de situações várias que sejam mais pessoais, por mim e pelos outros envolvidos, tornando-as sobretudo momentos reflexivos, muitas vezes. Mas hoje fujo um bocadinho a essa prática, consciente, porque podem não ser propriamente o inferno mas que os outros complicam o que dentro de nós não está nem é complicado, ai isso sim, complicam. Ou, para ser coerente, que os outros complicam o que dentro de mim nem está nem é complicado, ai sim, complicam. Que leveza longe deles, longe desses. A empreitada continua, serei responsável e, no entanto, estou tranquila como estava no início. Como é preciso, por causa destas interferências negativas, encetar tanta coisa a sós. E até saudável e imperioso. Ou não terão vocês, leitores, nunca sentido o mesmo? Sorte, amigos, se não. Significa que têm escapado a muita apoquentação sem razão que não é vossa, mas doutros que, escusadamente, assustam quando não há que ter, sejamos razoáveis, nenhum medo. 

junho 10, 2013

Quem espera


Esperar é difícil, e de que maneira, especialmente para os impacientes. Em qualquer percurso, esperar é um teste à paciência, à perseverança, à resistência. Esperar desespera e, no entanto, esperar significa também alcançar. Lembrássemo-nos mais vezes disto e as coisas poderiam ser, ou ter sido, diferentes. O que se faz, enquanto se espera? Bem, tem-se vontade de desistir, acabar com tudo, tomar outro rumo, parar, voltar para trás, ceder, não continuar. Instala-se o desânimo, a dúvida, desacredita-se, e desacredita-se naquilo que somos, inclusivamente, desespera-se, repita-se. E há quem o faça, provavelmente, ou fazemo-lo algumas vezes, deixamos de acreditar que é possível, tornamo-lo mais impossível, pelo menos na nossa cabeça. E de uma certa ansiedade dolorosa vem então o fim do sonho, do que imaginámos como nosso e que reservámos para nós. Nestas alturas a espera chegou ao fim, pensamos. Nada mais virá, não vale mais a pena. Porém, subitamente, vem a surpresa. Pode vir, e virá, na hora certa. Quando já tínhamos abandonado o nosso objetivo, quando já nos tínhamos preparado para perder a aposta em nós. A espera foi compensada, a espera compensa, frequentemente. É uma intrincada jornada mas vale a pena esperar pelas coisas boas. Ou, de outra forma, as coisas boas, verdadeiramente boas, só vêm com a espera. Por isso, importa continuar. No desespero, muitas vezes, mas continue-se. No fim da espera, há qualquer coisa. Boa, verdadeiramente boa. E isso não é uma coisa qualquer. 

junho 08, 2013

Rir e chorar

                    

Tenho assim mais ou menos esta visão da vida: a indiferença, o umbigo, a vidinha, a futilidade, os prazeres são incomportáveis a tempo inteiro. Significam que as pessoas nunca se comprometem, nunca são solidárias e nunca se preocupam com as questões sociais e humanas. Mas o pensamento e ação sempre focados na crítica, na crise, na luta, no coletivo, no trabalho, e outros aspetos sociais ou políticos significam que as pessoas nunca relaxam, nunca aliviam, nunca brincam e, já agora, nunca aquecem. No meio, e rendo-me ao ditado, é que estará a virtude. Ou seja, é para mim essencial que uma pessoa seja consciente, com capacidade de intervenção, com preocupações pelo mundo em redor e tenha um espírito engagé mas que a isso junte também a capacidade de rir, de descontrair, de ver o que há de bom à volta, de se deslumbrar até, de gostar. Tristes devem ser aqueles que nunca o fazem, embalados pela crítica constante, ou pelo contínuo pessimismo descrente, ou pelas incessantes preocupações com as causas, ainda que estas façam todo o sentido. E tristes, porque vazios, aqueles que não se envolvem, que não tomam parte, que calam, que dissimulam. É preciso o envolvimento, é preciso estar com os outros. É preciso sofrer, até, e chorar. E da mesma forma é necessário o prazer, é necessário sermos felizes connosco. É necessário viver, muito, e rir.

junho 06, 2013

Impérios de aparência


1. Já foram certamente registadas muitas impressões acerca do empreendedor miúdo que apareceu no Prós e Contras recentemente, sobretudo por causa da intervenção da historiadora presente no programa e do pequeno diálogo que ambos mantiveram. A única coisa que me irritou, no pouco que vi, e já à posteriori, foi o discurso vazio das miúdas giras para quem a roupa seria, ao princípio, porque depois era "preciso chegar às outras pessoas". Quais outras pessoas? As feias? Bem, adiante, é um miúdo e gosta de miúdas giras, está certo, é natural. O que não é tão natural é que se condene o trabalho infantil (e bem) mas já não se considere como tal qualquer ligação de não graúdos à moda. Ou seja, não é desejável que trabalhem em mais nenhuma área, mas no mundo da moda tudo é aceitável, até elogiado e promovido. Estranho, porque, a meu ver, este não é de todo um universo que considere especialmente saudável, por razões que agora não vou explanar. Muitas vezes são os próprios pais que empurram os miúdos para os desfiles e fotografia, esperando com isso alcançar alguma fama e muitos mais euros. Sei que há que publicitar a moda infantil ou juvenil, mas não é de todo positivo, para mim, que o façam de forma regular que soe a emprego. 
O miúdo é jovem e foi-lhe elogiado o empreendedorismo. Resta saber se o mesmo aconteceria se ele estivesse a mover-se, da mesma forma, numa área totalmente diferente.

2. Visitei a Turquia há mais de dez anos. Tenho, desde então, um especial apreço por este belíssimo país, rico em diversidade paisagística, histórica, cultural. As notícias que vejo ou leio entristecem-me, mas, ao mesmo tempo, reforçam a minha admiração pelos turcos - ou grande parte deles. Porque recusar o retrocesso social e cultural do seu estado é um sinal de que há um caminho de modernidade e laicidade que não pode ser aniquilado. Ataturk foi um visionário, e um corajoso. Confesso que sou uma espécie de fã, naquilo que significa admirar alguém que ousa romper com regras há muito estabelecidas e até obsoletas. Pelo contrário, Erdogan foi uma desilusão. Bem apessoado, de porte elegante, num tom sereno e ponderado, ainda mais com o rótulo de moderado, fez-me parecer que seria um grande líder, longe dos discursos inflamados de outros políticos mundiais, à esquerda ou direita, muçulmanos ou de qualquer outra confissão religiosa. Mas as notícias vinham, através de amigos ou via alguns media. Estava a dar-se curso a uma islamização do país, nos costumes, na vida social e afetando a organização familiar, os direitos da mulher e outros. Externamente aliado dos "bons", do ocidente, internamente a fazer dar passos para trás. De modo que a resistência vista agora tem toda a lógica e compreensão. E mais, a laicidade (que não põe em causa a fé de cada um) tem o meu apoio. E esperança. Que possa visitar a Turquia outra vez e possa vir novamente encantada. E não só com a geografia.

junho 05, 2013

Peço desculpa pela insistência

Urge uma decisão: ou os alunos ficam traumatizados com os exames ou ficam traumatizados sem eles. Entre os do 4º ano e os que a greve afetará venha a família e escolha.

                   

Brincadeirinha(s)



"“Este tipo de atitude é tomar como refém os nossos alunos. É algo com que não se deve brincar”. (Nuno Crato)

Este argumento não tem pés nem cabeça. Este argumento, dito por quem quer que seja, é uma falácia. Este argumento é para quem pretende somente desvirtuar os direitos de quem pode e deve reivindicar. A greve é para fazer mossa, quanto mais doer, melhor. Já sabemos que em qualquer ação deste tipo há pessoas sem culpas que levam por tabela. Doentes (e aqui é onde me custa mais, confesso), utentes de vários tipos, cidadãos, idosos, alunos. Danos colaterais, é um facto. E, no entanto, uma greve não atinge nenhum objetivo se não os houver. Ela serve para mostrar que certos (todos?) profissionais são indispensáveis em certas (todas?) áreas e que, portanto, são essenciais para o bom funcionamento disto tudo que nos envolve. É ótimo que se sinta a ausência desses profissionais, é ótimo que as coisas parem. O que se pretende? Que se faça greve ao domingo, para não prejudicar ninguém e não provocar transtorno algum? Ou durante a noite, já que a maioria estaria a dormir? Por muito que nos custe a todos nós sermos vítimas passageiras de uma greve em determinado setor, a verdade é que sem causar contrariedades não se vai lá.
Fiz várias vezes greve e outras não, por razões diferentes e minhas, mas nunca sou contra. Trata-se de um direito e, compreendendo que vai contra os direitos de outros num determinado dia, não há outra forma igualmente forte de se fazer sentir a revolta ou urgência relativamente a medidas que também vão contra certos direitos. E sempre repudiei as reportagens feitas nos dias de greve que vão exatamente buscar a perspetiva dos lesados, esquecendo o enfoque nos que estão a fazer greve e nas suas causas. Reféns podemos ser todos nós, já agora, e não apenas num só dia. E vontade de brincar é aquilo que menos temos atualmente. Que argumento. Argumento para ficar bem junto dos modernos papás e dos seus modernos direitos de se meterem no ensino por tudo e por nada. Também sou moderna e mamã e se houver greve a um exame do meu rebento pois que haja. Entenderei. Pois o que não entendo é esta tentativa de demonizar quem à greve direito tem. E no dia que estorve e contrarie mais, pois só assim poderão conseguir alguma vantagem. Ou estar-se-á a confundir a greve com algum tipo de ação benemérita? Só podem estar a brincar.


junho 04, 2013

As linhas de combate


A crise tem contornos perigosos e, por vezes, pouco notados. Neste momento, considera-se feliz quem tem trabalho. Por razões óbvias. Mas isso também não significa que tudo vá bem no reino do emprego. Pode continuar a haver situações de grande injustiça salarial, de más condições físicas de trabalho, de prepotência empregadora, de pouca ou nenhuma dignidade, até de escravatura laboral. Daí que não é por se ter trabalho nesta altura que se podem fechar na gaveta reivindicações justas, lutas por melhores condições a vários níveis e recusa e até revolta relativamente a medidas que afetem os trabalhadores, de vária ordem umas e outros. Por se ter emprego, que é obviamente fundamental para a sobrevivência, subsistência e vida individual, familiar e coletiva, não se pode aceitar tudo o que é feito e que signifique retrocesso nos direitos, abuso de poder ou outros aspetos que vão de encontro à justiça, à legalidade, à qualidade e também ao respeito por quem trabalha.
Amiúde se ouve "ao menos tens trabalho, não te queixes que ainda há pior, então e os que perderam o emprego". Certo, certíssimo, não estamos em situação comparável, não podemos naturalmente queixarmo-nos de barriga cheia, muito menos sermos insensíveis para com situações que já roçam o desespero. Mas que tal facto, dramático, não seja impeditivo, por um outro lado, de continuarmos a almejar melhorias nos nossos empregos ou profissões se as condições são duras e indignas, se se deterioraram ou teimam em estagnar. O sacríficio é necessário e louvável, em muitas e determinadas circunstâncias, já o conformismo é inimigo do avanço. E também não é nivelando por baixo, em nenhuma área da sociedade, que se conquistam progressos em várias vertentes. Olhar para quem está pior pode tornar-nos menos ambiciosos e mais humanos mas que não nos torne também menos reivindicativos e mais passivos.
O desemprego é uma brutal e dolorosa realidade mas, por esse mundo fora, acredito que muitos trabalhos também. Não se pode baixar os braços na luta contra um e contra os outros. Era menos mau que o problema fosse apenas um, mas não. São dois, muitas vezes. E nós temos que estar em ambas as linhas de combate.

junho 03, 2013

Gira ao sol


Porque há gente genial que se inspira nos artistas geniais, porque ousadias inesperadas não são nada comuns e porque oferecer flores traz, ainda e sempre, o desejado, ainda que imprevisto, perfume do amor.

junho 02, 2013

Branco português católico


Falássemos nós inglês e não fôssemos nós de maioria católica que a nossa televisão pareceria inspirada ao melhor estilo WASP. A pública e também a privada, não vejo diferenças, mais uma vez infelizmente. A nossa sociedade é maioritariamente homogénea, de facto, a nível linguístico, religioso e cultural. Mas continua a fazer-me mossa cá dentro a constatação de que não há gente de cor ou etnia diferentes nos diferentes canais portugueses. Há uns anos ainda se viu um jornalista negro a apresentar as notícias na TVI, acho. E penso que também há ou houve uma jovem atriz de origem chinesa na série juvenil mais conhecida desta estação, da qual nunca vi um episódio inteiro, é verdade, detesto, outra verdade. Penso também ter aparecido uma personagem ucraniana numa telenovela qualquer mas não sei se a atriz era portuguesa ou desse país de leste. Mas contam-se, assim, pelos dedos os representantes de outras nacionalidades ou origens na televisão (e nos outros media, já agora) e tal facto é para mim negativo, por duas razões. A primeira porque não espelha a sociedade mais multi-cultural que temos e vamos tendo, sobretudo nas duas maiores cidades do país. E a segunda porque pode ser reflexo das dificuldades de inserção que essas minorias vão tendo a um nível mais profundo. Dizer que somos hospitaleiros não chega. Somos, e os turistas disso dão conta facilmente, mas se considerarmos a vida dos estrangeiros que cá residem poderá não ser assim tão linear e simpático. Também por duas razões. Ou porque essas pessoas não têm tido garra ou oportunidade de saírem da existência dura que muitas vezes carateriza o fenómeno da imigração ou porque nós lhes temos vedado a ousadia e o sonho. Ou a mistura das duas, é possível. Ainda assim custa-me a crer que nos castings para a ficção ou dentro de outras áreas mais sérias, como as da informação, não apareçam rostos que não sejam brancos, ou católicos, ou outra coisa qualquer que não seja de Portugal e ainda assim lhe pertence. Irrita-me que a noção de globalização e modernidade seja apenas associada às tecnologias, à comunicação na internet e às viagens de férias para longe. Podemos e devemos ter uma perspetiva global cá dentro. A começar por dar destaque ao tecido multi-cultural que é uma realidade de muito do resto da Europa e que vai sendo também por aqui. Ou estas camadas da sociedade só vêm à baila nos media quando fazem algo de errado? Pena não as vermos quando também fazem certo. Ou quando o poderiam fazer, caso as deixassem. A diferença que isso faria para atenuar a diferença. 

junho 01, 2013

Dancing in the dark


Never thought I could dance
But you can
They always told me I couldn´t
You shouldn´t have believed them
How couldn´t I? I believed it too
You did?
That´s a fact
That´s bad
I wanted to change my clothes, my hair, my face
What for?
Thought I was not right
But you surely were
I am now because of you
Because of you, you mean
You can´t start a fire without a spark, you know
No, I don´t know
You should know then
No, you should know
What?
That the spark is within you

maio 31, 2013

Sem ofensa

As ofensas coletivas podem não atingir certos indivíduos. Há sempre a possibilidade de eles não se sentirem parte do todo. Por exemplo, podem chamar incompetentes aos portugueses mas pode haver quem não se ache incompetente; vai daí que a dita ofensa lhe passa completamente ao lado.


maio 30, 2013

Verdadeiramente bom


"Aqueles que são verdadeiramente bons não perguntam aos nus: Onde está a tua roupa?, nem aos que não têm abrigo: O que aconteceu à tua casa?" (Gibran)

Exatamente. Os que nos recordam as desgraças não são propriamente modelos de bondade. Por exemplo. Nunca vos aconteceu lembrarem-vos de coisas que querem esquecer? Ou até recordarem-vos de coisas que já inclusivamente esqueceram? Frequentemente no local errado, na altura inoportuna, com um tom inadequado? Podemos estar a sorrir, contentes, e vem de lá uma intrusa memória que nos faz desaparecer a alegria subitamente? Por isso tendo a não ser apreciadora de gente com boa memória. São geralmente exímios a evocar coisas más, experiências dolorosas, insucessos vários, momentos que não desejámos. 
Se por um lado, tenho que ter a humildade de reconhecer que pedras se atravessaram no meu caminho, por outro, é legítimo que não queira ser ser relembrada de episódios ou desafetos ou problemas que me podem incutir, pois é possível, algum tipo de dor. E, ainda mais, se estando ultrapassados, pois deixa de fazer sentido a preocupação. E também porque não me parece que se possa extrair algum prazer em aflorar o que ficou para trás e não foi bom. Aprendemos com as nossas derrotas, fortalecemos o caráter e a resistência, podemos até ser mais interessantes, somos, porque mais conhecedores, mas temos o direito de seguir em frente e de sermos nós a escolher a nossa vida como tópico de conversa.
Porque, muitas vezes, também é a isso que isto se refere. Podemos (ainda) estar a viver uma situação muito desagradável e até penosa mas penso termos nós o máximo direito de sermos também nós a definir o tema da conversa se ela se refere ao nosso sofrimento. Porque podemos querer sofrer em silêncio, é uma possibilidade. Ou podemos não querer desenvolver o assunto, sobretudo com quem não queremos. Não se fala aqui de amigos e familiares próximos que nos entendem e conhecem bem. Esses veem facilmente se podem falar ou não, ou se precisam de nos dar o espaço privado ou não. Ou, pelo contrário, se precisam de nos abanar ou não.
A bondade é uma noção vasta e complexa, com variantes e amplitudes várias. Mas ela não pode significar que se lembre a desgraça quando isso não foi pedido e pode causar sofrimento. Nem que a má sorte esteja aparentemente a ser lembrada por entre sorrisos pretensamente cúmplices, solidários e empáticos. O orgulho e a vaidade não nos podem negar a fortuna adversa mas a falsa bondade também não nos pode mergulhar de novo nela.

maio 29, 2013

Cumprimentos


Confesso que não compreendi logo à primeira. A criatividade linguística foi elevada e por vezes subestimamos essas capacidades em quem aprende - vá, em quem supostamente está a aprender.
Pedi, como parte do trabalho de recuperação de um módulo, que redigisse(m) uma carta de candidatura a um emprego (letter of application), matéria que não gosto de dar, é certo, mas que lá tem de ser. 
Passando completamente ao lado do yours faithfully (ou mesmo do yours sincerely) que tinha sido explicado na aula, ela lá finalizou a carta da maneira mais imaginativa que, neste ponto em particular, eu vira até então:
lenghts
Pois, sim, o problema não reside só no inglês. Também, e dou-vos os parabéns se já o perceberam, também, dizia, atinge o português. Porque para ter este resultado no tradutor só pode ter escrito a palavra que queria de forma completamente errónea. É mesmo, acreditem. Escreveu-a, e tenho 100% de certeza, com um o na primeira sílaba da palavra no título do post. 

A educação do exame



Aqui há tempo, deixei aqui expressa a minha posição face aos exames do 4º ano. Hoje falarei do que os exames em geral podem significar mais concretamente.
Se me perguntarem se prefiro que o meu filho faça exames ou não quando chegar a altura, talvez preferisse que não, mas fundamentalmente por causa do tipo de ensino que geralmente a realização de exames acarreta. Explicando. Tenho visto nas escolas por onde passei uma extrema e redutora preocupação com os exames nacionais, especialmente com os do 12º ano. De tal forma que os professores, alguns deles, passam a ensinar em função do exame. Em vez de passarem o saber de maneira a que os alunos sintam prazer em aprender e estejam munidos de ferramentas variadas de aprendizagem que lhes permitam fazer todo e qualquer tipo de exercício, não, passam-se a fazer os exercícios tipo exame, como preparação, formatando o processo de ensino e, pior, as cabeças que se deviam querer livres e sábias ao invés de estruturadas com uma única finalidade. Coisas minhas. Daí que, se os exames, quaisquer deles, levam ao pensamento uniforme e meramente executante é mau sinal e, assim, não gosto deles. De outra maneira, como instrumento de seriedade e de aferição de alguma qualidade, não vejo grande problema. Mais uma vez, cabe aos professores a decisão de dar as suas aulas fornecendo aos alunos conhecimentos e liberdade, prazer e autonomia. Se insistem em exercícios estruturalistas e formatados, não, se fomentam o gosto pela aprendizagem, pode ser, sim.
Por outro lado, como os discutíveis e, para mim, indiferentes rankings das escolas se baseiam nos resultados dos exames, muitos diretores encetam uma autêntica cruzada com os professores desses anos rumo ao total sucesso. É, desta forma, exigido aos últimos que preparem os alunos em função deles e portanto isso pode condicionar a liberdade do professor em ensinar para o prazer e para a curiosidade, para a sabedoria e para o pensamento crítico. Há uma pergunta enervante por parte de alguns alunos quando estou a mostrar ou a falar de alguma coisa, a registar no quadro e outras mais: "Sai para o teste?" O que é que isso interessa?- pergunto. Porque se encaramos o ensino e a aprendizagem como meros instrumentos para resultados e numa perspetiva quantificadora apenas está tudo dito. Há inclusivamente alunos que tiram excelentes notas neste sistema mas curiosamente isso não quer dizer que sintam gosto pelo saber, que tenham pensamento próprio, que saibam refletir, que sejam brilhantes. 
O exame pode ser positivo, na sua forma de fazer sentir responsabilidade, que vai faltando aos nossos alunos hoje em dia, de criar um certo rigor à passagem pela escola, mostrando que os conhecimentos importam e que não se pode descurá-los. E que podem fazer a diferença. Mas o ensino curricular e contínuo não pode ser feito à sombra do exame. Rico, diversificado, crítico, reflexivo, exigente, mas livre de pressões de números que valem o que valem. 

maio 28, 2013

Os filhos do homem


Sem estar aqui propriamente a tomar uma posição muito definida, dizendo o que é ideal ou não, lá vou atrever-me a dizer algo sobre a matéria. Um dos argumentos que ouvi e li contra a coadoção (ou adoção plena, se vier a seguir ou não vier tão cedo) por casais homossexuais é a de que estes podem "seduzir" os seus filhos adotivos. Não sei se este medo por parte de considerável parte da população, mesmo a nível mundial, se refere a práticas de tipo pedófilo, inaceitáveis, criminosas e imorais, ou a paixões que um dia possam vir a ter pelas crianças já adultas por eles adotadas. Em todo o caso, faz este medo sentido? Sim e não. Vejamos. Pode essa sedução acontecer? Sim, claro. Mas pode tanto acontecer com "pais" homossexuais como hetero. A verdade é essa. No caso de taras inqualificáveis que signifiquem abuso sexual da criança ou adolescente, o fator é o caráter, ou a falta dele, e não a opção sexual. Aliás, a questão, infelizmente, passa bem além da adoção, passa por perturbadoras relações de sangue onde pais abusam dos filhos, tios e avôs abusam de sobrinhos e netos e por aí fora. Chocante ao mais alto grau, imoralidade completa, e, no entanto, é um facto. Portanto, qualquer opção sexual pode apresentar nas suas fileiras indivíduos com tais comportamentos. Os homossexuais não são, desta forma, piores nem estão, também, acima de qualquer suspeita. Por outro lado, lembro-me automaticamente da Mia Farrow e dos seus muitos filhos adotivos. É sabido que Woody Allen a trocou por uma das "crianças" entretanto já adulta, de origem asiática. Não penso que tenha sido fácil para a Mia enfrentar essa realidade. Mas é possível acontecer, embora não numa situação tão condenável quanto a prática de ofensas em idades que não sabem discernir e que sofrem de coação, na maior parte dos casos. E também não podemos esquecer que muitas crianças são também vítimas nas instituições que as deviam proteger. Porque o animalesco existe em todas as áreas, esferas e opções. Resumindo, e porque me pus a pensar quando li esse argumento, está aí o que penso. O que resta a estas crianças? A estas e a todas, mesmo com família? Sorte. Terem a maior sorte do mundo para que o mal nunca lhes venha roubar a inocência e a magia próprias das suas idades.

maio 26, 2013

Opportunist?



O título não é ideia minha mas serve. Pode até ter graça. Pode até ser verdade. Ou as duas coisas. 

maio 25, 2013

Ligo e logo desisto

                              
Estar sem computador uns dias dá nisto: o mundo não sabe de mim nem eu sei do mundo. Para o pior... ou melhor? Para começar, inúmeras coisinhas que queria comentar perderam a atualidade e eu perdi a vontade. É que realmente há certas coisas que só a quente porque depois, porque não me são importantes, até me esqueço delas, fazendo por isso ou não. Sem computador, portanto. Pode viver-se sem net? Sem blogue, sem facebook, sem e-mail e o resto? Eu dizia que não há uns dias atrás e uma colega mais velha, ajuizadamente, dizia que sim, que eu podia. E a verdade é que pude. Aliás, tive mais tempo para outras coisas como dedicar-me à la maison, que é algo que dá trabalho e requer manutenção, andar no pátio a jogar basquetebol com o pequeno, ir por aí e acolá ao final da tarde, e mais. Claro que não estive completa completamente desligada, na escola fui ver o e-mail diariamente e lá fui espreitando o resto, mas muito rapidamente. Pensei no AE, claro, como não, mas também não foi o fim. Consegui até publicar algo, sofrível, eu sei, mas não deu para mais. Comportável a tempo inteiro? Não, mas foram muito menos horas em linha, mais leves, sem as crispações e irritações do mundo cibernáutico (na maior parte das vezes projeções do mundo exterior) , as indignações, as opiniões, as confusões, as coisinhas de que falo lá em cima, que me interessam momentaneamente ou nunca, porque as que me interessam sempre resistem às vontades e aos tempos. Como não é mau estar fora, algumas vezes. Que vida boa se pode ter longe daquilo que é sempre o mesmo ou se torna pior. Pode sempre piorar, diz um querido amigo. O mesmo para a televisão, claro. E rádio. Sem informação, como se pode ser tão mais feliz. Não se pode viver alheado e ficar à margem dos acontecimentos mas quando a indiferença, ou melhor, o desconhecimento, surge das circunstâncias ou da vontade e sabe bem é aproveitar. São férias. O país está louco, diz-se. Anda tudo doido, diz-se outra vez. Não se anda longe da verdade. Temos de nos salvaguardar, certo? Férias. Férias, mesmo se significa apenas desligar e andar a bater a bola nas traseiras.


maio 23, 2013

Entre futebol e política é preferível o humor

Tive há dois dias conhecimento da tirada do deputado Carlos Abreu Amorim (figura que, confesso, me tem passado ao lado, mal ou bem) relativamente aos benfiquistas ou lisboetas, uns ou outros, eis a questão, aquando da vitória do "dragão" no passado domingo. Já vi e li comentários online que confirmam que o epíteto que utilizou - "magrebinos"-  levantou uma onda de protestos e não só a sul. Alguns comentários  revelaram-se interessantes enquanto que outros não, para dizer o mínimo. O que é certo é que as opiniões dividem-se e há várias leituras feitas, ultrapassando-se ou não o conceito futebolístico, o político ou o regional. Eu própria sinto-me algo dividida. Cada vez gosto menos de futebol... e de política, precisamente porque são duas áreas onde vai escasseando a serenidade em detrimento da paixão algo primária e da opinião baseada na cor do clube ou do partido. Mas também não é um fenómeno exclusivamente português, é só atravessar a fronteira e constatar os ódios clubísticos, regionais e políticos que por lá também grassam. Sinto-me dividida porque estive a ler e fiz leituras diferentes:
- a primeira, a quente, foi a que o nome magrebino continha, bem dissimulado, algum sentimento racista e xenófobo. Muitos de nós, portugueses, consideramo-nos muito superiores aos habitantes do norte de África, por razões várias que não importa explanar aqui. Esquecemo-nos de que já fomos tão parecidos com eles em muitas coisas. E que noutras ainda somos, para o melhor ou pior do que significa ser mediterrânico. Portanto, podia bem ser ofensivo para os magrebinos e para os lisboetas - ou benfiquistas. E pessoas com cargos públicos, independentemente de as apreciarmos ou não, têm de ter um cuidado maior na escolha das palavras.
- a segunda, mais a frio, foi que não haveria mal na palavra, ela só difere um pouco da habitual - mouros - para os habitantes a sul. São conotações, digamos, mais históricas e não há mal nisso. Digo eu que não sou lisboeta nem sulista. Mas tenho uma costela alentejana e o meu padrinho de Vendas Novas sempre me chamou "galega" desde miúda. Tripeira não sou, e também não vejo mal assim chamarem os portuenses. Isto sou eu, que sou de Aveiro. aqui chamam-nos ceboleiros ou cagaréus, eu pertenço a estes últimos. Mal? Nenhum, obviamente, até acho o máximo. São as particularidades de cada região ou cidade. Regionalismos naturais, portanto.
- a terceira é que foi o fim. Ainda não estou recomposta, admito. Ao dizer aqui em casa ao tunisino que aqui vive (espero que os leitores não estranhem e não fujam por causa disso) o que o homem do FCP disse ao pessoal do Benfica/de Lisboa  (? permanece a dúvida) e ao perguntar se ele não achava ofensivo para os benfiquistas/lisboetas e racista para os magrebinos, a resposta foi que não. E mais: eu se fosse ele (e ele nunca votou aqui, já agora) fazia pior, chamava-lhes salafistas (porque tem horror a este  grupo radical).  O humor tem destas coisas. Humor e clubite aguda. Pois agora é que são elas. É que ele é portista, doentinho, e não isento de prazer em gozar connosco, pois, sim sou benfiquista, adormecida, é certo, mas não extinta.
Confusa estou, desta forma. Não sei se me ofenda, se não. Quem diria? É que aqui em casa, meus caros amigos reais ou virtuais, eu é que sou moura. Ou magrebina, pois então.

maio 20, 2013

Por um punhado de euros


As formas do estado e das autarquias nos sacarem dinheiro estão cada vez mais duras, no caso do primeiro, e mais imaginativas, no caso das segundas. Aqui onde moro - e desculpem não saber se isto é geral ou apenas local - lembraram-se de cobrarem um imposto "hídrico" que penaliza quem tem casa virada para a ria, da parte da frente ou detrás. Como se os valores exorbitantes do IMI já não bastassem (há por aqui zonas que estão avaliadas ao mesmo nível de Cascais, veja-se, quando há uma fábrica de congelados que faz uma barulheira enorme de dia e de noite, especialmente no verão, e outras coisitas mais que não têm nada, nada, a ver com a qualidade da vila perto da capital).
Ora este outro imposto parece querer seguir os mesmos valores inflacionados. Tenho um primo que, por azar, consegue da parte de trás visualizar lá bem à frente um riachinho minúsculo que é um pobre bracinho magrinho de ria e que, por isso, recebe em casa, surprise, surprise, uma simpática quantia de 800 euros para pagar. Aqui onde moro, frente a um viveiro, nem quero imaginar. Para já, a vizinhança foi avisada para não pagar nada porque, pelos vistos, também veio morar para aqui uma funcionária da câmara que não deve ter achado grande piada à coisa, ao que ouvi dizer. Atravessando a ponte sobre a ria, do outro lado, sem viveiros privados, já houve recolha de assinaturas e preparam-se mais movimentações para evitar o descalabro de tal iluminada ideia. 
Mas o que me custa mais ainda é a ideia ter surgido depois das pessoas estarem instaladas, de terem comprado ou construído casa e ela não constar das opções dos proprietários desde o início. Ou seja, mais uma vez, mudam-se as regras a meio do jogo. Porque há uma diferença, ainda assim, entre uma ideia estúpida pela qual se pode optar e uma ideia estúpida que já não nos dá margem para escolha. Margem, essa é a questão. Este pessoal deve andar a pensar que isto é Cannes ou St Tropez. Também muitos preços imobiliários, inclusivamente de aluguer, são tão altos, por cá e a nível nacional, que parece que estamos em Paris ou em algum local a transbordar de glamour, cultura ou cosmopolitismo. 
Basta haver umas árvores ou estar perto de uma praiazita acidental, sem qualquer tipo de acesso aceitável, ou então um curso de água mesmo que não cheire nada bem que já dá direito a pagar mais uma soma considerável de euros. Não sei como as pessoas resistem ou resistirão. Não basta os salários serem cortados ou desaparecerem, não basta os aumentos de tudo e de nada, não basta os subsídios que se vão, não basta os empregos que já eram, não basta os sacríficios que o estado nos pede e que muitos já não podem, ainda temos de levar com estas piruetas financeiras dos autarcas que nos assaltam de forma desonesta e sem alternativa. As mãos que nos vêm ao bolso não são as nossas, pois não, as nossas, essas, estão no ar.

maio 18, 2013

Quando o que fazes nada diz


Acontece-me frequentemente escrever a propósito de coisas que li noutros blogues. Há dias, considerei interessante a desmontagem feita num deles da usual simpatia que nutrimos, muitos de nós, por profissões como artistas e outros criativos. Na verdade, temos, todos certamente, a tendência para valorizarmos mais umas profissões do que outras. Estatuto, prestígio, dinheiro, poder, fama, talento, todos jogam na valorização ou não de uma determinada profissão, emprego ou carreira em detrimento de outras. E tal valorização pode decorrer da cotação social ou da nossa própria bitola avaliadora, que passará também pela paixão ou interesse que certas áreas nos despertam. Na verdade, insista-se, não há xarope para a  felicidade que seja assegurado por determinada profissão. As pessoas podem ser infelizes em qualquer delas, por milhares de razões, sentindo ou não um enorme prazer com elas. Escritores, atores, pensadores, cientistas, artistas, homens de negócios e outros podem ter vidas cheias de complicações enquanto que outras profissões mais simples e não tão glamorosas ou bem pagas ou prestigiantes socialmente podem ter nas suas fileiras pessoas de bem com a vida, descontraídas, saudáveis, felizes. Da mesma maneira, nenhuma profissão, excetuando aquelas mais marginais que pedem uma total falta de escrúpulos, nenhuma, dizia, é garantia de bom ou mau caráter. Podemos encontrar indivíduos ignóbeis e vis em todas as áreas, até em profissões consideradas insuspeitas teoricamente. Podemos até encontrar indivíduos que cumprem a sua profissão com brio e desvelo mas que têm uma vida - melhor, uma personalidade - dupla em que revelam a sua monstruosidade. Não serão poucos os dr jekylls e mr hydes deste mundo fora da ficção, muito provavelmente. Da mesma forma que atribuímos valor a umas profissões, naquilo que associamos de bom à índole de quem as exerce, também catalogamos como negativa a natureza das pessoas que exercem outras que não apreciamos ou desvalorizamos. Nada mais errado. Há bons e maus profissionais em todas as esferas mas, mais do que isso, há bons e maus corações em todas elas. Ou corações felizes. O nosso percurso profissional pode ser enriquecedor, libertador, criativo, artístico, intelectual, prestigiante, e tantas coisas mais que nos edifiquem. Mas só o será se a nossa natureza profunda o permitir. De igual forma, há profissões que podem ser mais desmotivantes, mais mecânicas, mais rudes, mas só e apenas se nós o desejarmos. Há todo um mundo à nossa volta, lá fora, que nos pode sempre engrandecer. Começando-se, claro, pelo mundo cá dentro.

maio 17, 2013

Afinal era outra

                               

Quem é professor saberá bem do que falo, sobretudo em certas disciplinas. Na minha, língua estrangeira, há coisas inacreditáveis, sobretudo a nível da tradução/retroversão, mas quem dá história, geografia, filosofia, sei lá, tantas outras mais, já se deparou com pérolas de desconhecimento que, patéticas, também são anedóticas, daí que nos façam rir. Sobretudo a quem está de fora, sem o drama da frustração que é ensinar e a ignorância, fruto do total desinteresse, continuar. Há dias, estava eu particularmente saturada da papelada de planos para isto e planos para aquilo, soltei umas valentes gargalhadas enquanto almoçava com algumas colegas. Porque esta nunca tinha ouvido e convenhamos que rir alivia o stress. A docente e decente colega de Português, a lecionar ao nível secundário, disse que a última que tinha registado, recentemente, é a de um distraído, não quero ser particularmente ofensiva, que escreveu por várias vezes no trabalho o nome de um autor português de forma particularmente anedótica. Ou, ok, patética. Foram precisas semanas e semanas a dar "Os Maias", essa obra que ninguém conhece, para perceber que afinal nós próprios nunca tínhamos percebido que ela foi afinal escrita por uma senhora. Sim, sim senhora: Elsa de Queirós.


maio 16, 2013

Estrela


Margarida. Não posso dizer que conheço profundamente a sua carreira. Mas aprecio-a e muito. Houve uma telenovela que via por causa dela, aquela que começou com o ataque do leão em África e que desfigurou o rosto  da personagem principal e que depois veio a ser ela. É belíssima. Está fantástica aos cinquenta, tem um sorriso gaiato e maroto como há poucos em atrizes de alguma forma já consagradas por cá, e parece ter ganho a parada aos amores disputados com a Alexandra Lencastre no passado pela capacidade de sedução e inteligência.  Percebe-se. Magnetiza o écrã, grande ou pequeno. Nunca a vi em palco, infelizmente. E vejo pouca ou nenhuma televisão hoje em dia. Mas é, para mim, uma excelente atriz que mistura de forma ímpar sedução e sensibilidade, e dona de uma cativante expressividade. E é nossa, essa é que é essa. Olhem a nossa sorte.

As cores da discriminação

                        

Ao longo da minha carreira docente, tenho encontrado alguns alunos com posturas muito racistas e xenófobas. Não sei se por influência familiar, por identidade do grupo onde se movem, por ignorância ou desconhecimento, por instintos negativos, por preconceitos que os media alimentam. A razão não importa, o que é facto é que sempre tive embates na sala de aula quando estas opiniões revelam ostensivamente falta de  humanidade e maldade nua e crua. A diferença de opiniões é enriquecedora mas há campos em que não se trata de diversidade mas simplesmente do justo e do bem.
Nessas alturas, tento sempre que vejam o outro lado, colocando-se na outra pele, porque é completamente diferente a perspetiva quando se está do lado de lá e leva a compreender as razões dos outros. Quando há razão e se fala do justo e do bem. Também já levei filmes para a aula que abordam de forma ímpar essas questões, como forma de sensibilização de cabeças mais fechadas e intolerantes. Nem sempre os filmes resultam, alunos já vi ficarem impassíveis com as situações de sofrimento humano retratadas, mas penso ter conseguido tocar outros.
A questão da imigração é uma das vertentes que os alunos muito criticam. São lestos a condenar quem vem e quem vem e tem vantagens na vinda. Há sempre uma grande implicância com as lojas dos chineses, por exemplo, e acham que problemas como o desemprego ou o crime se devem exclusivamente aos imigrantes. Quando lhes coloco a questão ao contrário, se gostariam de ser bem recebidos noutros países para onde fossem trabalhar, se lhes dessem hipóteses de abrir negócios com regalias, independentemente das razões e da sua justiça, ficam calados. Admitem que sim. Portanto, para eles sim, para os outros não. Esquecemo-nos frequentemente que temos uma enorme comunidade de emigrantes lá fora e que gostamos de os ver bem recebidos porque quando não são estamos perante situações de discriminação ou xenofobia e sentimos até revolta. Ou não? 
Para além disto, já tive na sala de aula observações assumidamente nazistas, de desejo de extermínio de minorias, seja por diferença racial, cultural, opção sexual ou outras. São pensamentos que me assustam, que me repelem, que me repugnam. A democracia das ideias é uma realidade boa mas não o é quando ela implica o desrespeito pela dignidade ou liberdade alheias. Respeite-se democraticamente as ideias diferentes mas não compreendo as que revelam crueldade ou agressividade humanas sem qualquer espécie de valores éticos. Preconceitos todos temos ou teremos, uns mais do que outros, mas mesmo se não nos identificamos com certas formas de ser ou estar isso não nos dá o direito da condenação, da discriminação ou, pior, do desejo de extermínio.
Já ouvi elogios a Hitler, reflexo da total ignorância do que significou o nazismo e do que seria hoje em dia caso existisse. Já senti desumanidade perante a imigração, indiferença perante a miséria extrema de certos continentes, julgamento de quem é bem sucedido e não fala a nossa língua. Hoje, nem de propósito, falei de imigração na aula. (Começara a escrever este post de manhã e depois não pude continuar, só agora o retomei.) Salta uma opinião daquelas que me custam. Tento fazer ver o outro lado. Mas um é duro de roer. Os outros percebem e consigo o seu silêncio com relatos de tragédias e sofrimentos de vários tipos que acompanham muita imigração. Os chineses, diz. Os chineses? Sim, insiste. Nós portugueses vamos pelo mundo fora para expandir a nossa perspetiva e os negócios, acrescenta. Ai, os chineses não? - pergunto. Não. E é isto. 
Tenho um grande preconceito, eu própria. É uma alergia à rigidez de pensamento, à incapacidade de ver para além do quintal, à falta de abertura no século XXI, à inveja em relação a quem prospera (já foi assim com os judeus, já que falei no kaiser alemão nascido na Áustria), à mesquinhez e arrogância cultural, à insensibilidade face ao desabrigo humano, à recusa em deixar os outros ter uma nova vida. Estamos a atravessar uma crise que tem obrigado gente a emigrar. Pena tenho se lá, nos países para onde forem, aparecerem reações como estas a que assisto aqui. Porque as haverá, claro. O mal não tem nação nem cor nem bandeira. E o bem também não. E é isto mesmo que eu tento fazer ver.


maio 15, 2013

À pequena luz


Hungria... goulash, filmes animados no tempo do Vasco Granja, Buda e Peste, cinema com sexo, e a propósito, Cicciolina, as louras manas Gabor da época do studio system, o cubo mágico que já soube fazer, Pulitzer, a música de Bela Bartok. Bela. Não há bela sem senão: Bela Gutman. Maldição! É nestas alturas que se acende o fiozinho de luz que ainda há em mim. Que, pelos vistos, teima em manter-se anos a fio apagado. Maldição!


Querer, saber, poder

Tirando a liberdade que prejudica a do outro e a ação que fere a dignidade do outro, cada um vive como quer, sabe ou ... pode. O resto, ora, o resto é paisagem. 


maio 14, 2013

Uma abelha no prato


Bem, vi há pouco um apontamento sobre o consumo de insetos pelo mundo, que atinge praticamente dois milhões de pessoas. Entomofagia, nome científico. Não posso dizer que me tenha deixado seduzida. Horroriza-me, é verdade, não consigo evitar a náusea só de pensar em levá-los à boca. Porém, admito que é profundamente cultural e que, portanto, se tivesse nascido na China ou na África do Sul ou ainda noutros pontos do hemisfério sul, decerto que os consumiria como petisco gastronómico.  Afinal, eu sou daquelas que come caracóis e se delicia sempre que vou para sul no verão, aqui no norte não é tão habitual. Mas aquilo que mais me despertou a atenção não foi a existência de insetos na confeção de iguarias orientais, mas a recomendação da FAO como forma de evitar a fome. E, sim, foram mostradas realidades, sobretudo em África, que exigem uma solução nutritiva à falta de alimentos que conhecemos. Uma imensa dor percorre-me ao ver rostos de sofrimento físico primário, fruto de privações básicas que para nós ainda estão, apesar de tudo, garantidas. Se o consumo de insetos não for prejudicial, pelo contrário, então há que compreender quem o faça. Preferia que assim não fosse mas sou eu, do alto dos meus hábitos europeus de fartura, que falo. Não tenho de me chocar, chocante é a fome, e a miséria.  Necessidade ou cultura, há quem goste ou precise de os consumir. Tudo se resume a uma questão de hábito. Quero crer. Como o meu em sentar-me numa esplanada alentejana e pedir um belo pires de caracóis. 

Navegar quando é preciso

   

Acabei de dar uma volta por alguma blogosfera, sobretudo que não conhecia ou onde raramente vou. Vi coisas de fugir, sem interesse, rascas, sensacionalistas, mal educadas, do piorio. Um mundo que não me interessa. Depois, li coisas do maior interesse, que desmontam ideias, questionam, abalam as estruturas habituais de pensamento. Inspiradoras, porque me fazem refletir, querer escrever também sobre isso, concordando ou mesmo não partilhando as mesmas ideias. Um mundo inteligente e que passa ao lado do caos que se vai cultivando do outro lado. Dois mundos paralelos. Enveredar por um, eis a questão. 
Isto da blogosfera tem ecos da vida real, se tem. Até nos amores. Há quem nos continue a apreciar depois de nos conhecer e há quem nos deixe. E nós o mesmo, temos entusiasmos iniciais que depois não resistem. Ao que quer que seja que não nos faz o clique. Então passam pelo nosso blogue e ficam ou partem. E nós igual, acabei de confirmar rotas que não quero percorrer e outras que me levam ao destino que vou escolhendo. Amores ou outros afetos, que se consolidam ou morrem. Igualzinho ao mundo offline. Perspetivas e estilos que não se complementam nem se encaixam. Ou que sim, e muito.
Esta incursãozinha por alguma blogosfera também me disse outras coisas. Que os números, em muitos casos, não significam o que podiam significar. Seguidores, visitas, comentários, há muitos, muitíssimos, e, no entanto, o conteúdo pode ser o vazio, o óbvio ou o caótico. Pode ser, nem sempre, como saberão. Comentários. Já dizia a Ivone, uma bloguista de que gosto, que mais vale poucos e bons do que muitos e maus. Vi cada um, nesta voltinha. Nada dizem, nada clarificam, nada valem. Mal estruturados, mal escritos, mal pensados, pronto, maus mesmo. O que se quer? Poucos e bons. Ou muitos e bons. Bons.
Uma pequena viagem muito elucidativa, foi. A dizer claramente para onde e não ir.  São as escolhas, não possíveis, neste caso, mas conscientes e voluntárias. Sem elitismos culturais mas passando pelo discutível teste pessoal de qualidade e interesse. Seleção natural, não há como evitar. Porque há coisas que quero que façam parte da espuma dos meus dias e outras não. Online ou cá fora.

maio 13, 2013

Para quem pode

         

Há alturas em que temos de deixar a luta para os outros. O ramadão não é para grávidas nem doentes nem crianças nem idosos com problemas. As batalhas e a guerra destes tempos são para quem pode, não necessariamente para quem quer. Há outras lutas a travar. E as forças, sobretudo quando são menores, têm de ir para aí.  Outras coisas sobrepõem-se, outras coisas urgem. Baixa-se a guarda, em certas alturas. E ninguém nos pode condenar por isso. Sobretudo quando nada sabem.