Ao longo da minha carreira docente, tenho encontrado alguns alunos com posturas muito racistas e xenófobas. Não sei se por influência familiar, por identidade do grupo onde se movem, por ignorância ou desconhecimento, por instintos negativos, por preconceitos que os media alimentam. A razão não importa, o que é facto é que sempre tive embates na sala de aula quando estas opiniões revelam ostensivamente falta de humanidade e maldade nua e crua. A diferença de opiniões é enriquecedora mas há campos em que não se trata de diversidade mas simplesmente do justo e do bem.
Nessas alturas, tento sempre que vejam o outro lado, colocando-se na outra pele, porque é completamente diferente a perspetiva quando se está do lado de lá e leva a compreender as razões dos outros. Quando há razão e se fala do justo e do bem. Também já levei filmes para a aula que abordam de forma ímpar essas questões, como forma de sensibilização de cabeças mais fechadas e intolerantes. Nem sempre os filmes resultam, alunos já vi ficarem impassíveis com as situações de sofrimento humano retratadas, mas penso ter conseguido tocar outros.
A questão da imigração é uma das vertentes que os alunos muito criticam. São lestos a condenar quem vem e quem vem e tem vantagens na vinda. Há sempre uma grande implicância com as lojas dos chineses, por exemplo, e acham que problemas como o desemprego ou o crime se devem exclusivamente aos imigrantes.
Quando lhes coloco a questão ao contrário, se gostariam de ser bem recebidos
noutros países para onde fossem trabalhar, se lhes dessem hipóteses de abrir
negócios com regalias, independentemente das razões e da sua justiça, ficam
calados. Admitem que sim. Portanto, para eles sim, para os outros não. Esquecemo-nos frequentemente que temos uma enorme comunidade de
emigrantes lá fora e que gostamos de os ver bem recebidos porque quando não são
estamos perante situações de discriminação ou xenofobia e sentimos até revolta. Ou não?
Para além disto, já tive na sala de aula observações assumidamente nazistas, de desejo de extermínio de minorias, seja por diferença
racial, cultural, opção sexual ou outras. São pensamentos que me assustam, que me repelem, que me repugnam. A democracia das ideias é uma realidade boa mas não o é quando ela implica o desrespeito pela dignidade ou liberdade alheias. Respeite-se democraticamente as ideias diferentes mas não compreendo as que revelam crueldade ou agressividade humanas sem qualquer espécie de valores éticos. Preconceitos todos temos ou teremos, uns mais do que outros, mas mesmo se não nos identificamos com certas formas de ser ou estar isso não nos dá o direito da condenação, da discriminação ou, pior, do desejo de extermínio.
Já ouvi elogios a Hitler, reflexo da total ignorância do que significou o nazismo e do que seria hoje em dia caso existisse. Já senti desumanidade perante a imigração, indiferença perante a miséria extrema de certos continentes, julgamento de quem é bem sucedido e não fala a nossa língua. Hoje, nem de propósito, falei de imigração na aula. (Começara a escrever este post de manhã e depois não pude continuar, só agora o retomei.) Salta uma opinião daquelas que me custam. Tento fazer ver o outro lado. Mas um é duro de roer. Os outros percebem e consigo o seu silêncio com relatos de tragédias e sofrimentos de vários tipos que acompanham muita imigração. Os chineses, diz. Os chineses? Sim, insiste. Nós portugueses vamos pelo mundo fora para expandir a nossa perspetiva e os negócios, acrescenta. Ai, os chineses não? - pergunto. Não. E é isto.
Tenho um grande preconceito, eu própria. É uma alergia à rigidez de pensamento, à incapacidade de ver para além do quintal, à falta de abertura no século XXI, à inveja em relação a quem prospera (já foi assim com os judeus, já que falei no kaiser alemão nascido na Áustria), à mesquinhez e arrogância cultural, à insensibilidade face ao desabrigo humano, à recusa em deixar os outros ter uma nova vida. Estamos a atravessar uma crise que tem obrigado gente a emigrar. Pena tenho se lá, nos países para onde forem, aparecerem reações como estas a que assisto aqui. Porque as haverá, claro. O mal não tem nação nem cor nem bandeira. E o bem também não. E é isto mesmo que eu tento fazer ver.