fevereiro 18, 2012

Esclarecendo o que não foi pedido



Durante muito tempo não consegui visualizar muita coisa no meu pc através do internet explorer. Não pude ver listas de seguidores, por exemplo, se me circunscrever aos blogues. Com o google chrome isso já me é possível, daí só agora poder seguir. Não será bem um pedido de desculpas mas quase. Pois lamento não tê-lo feito antes e provavelmente até poderia ter sido estranhado, nomeadamente em blogues que visito (muito) regularmente. Coisas de quem percebe pouco de computadores embora goste deles. Afinal, pode gostar-se de algo sem propriamente o entender. :)

fevereiro 17, 2012

Should I stay or should I go?


Francamente, como convém.
Não me apetecia trabalhar tantas horas, chegar tão tarde, não ter tempo para fazer as coisas de que gosto e que me são saudáveis, não ter tempo para mim, para a família, para o meu filho. É verdade e se pudesse trabalhar half time seria decerto muito bom. Agradar-me-ia ter mais equilíbrio familiar, qualidade de vida. Se me pudesse dar ao luxo de não trabalhar de todo, no sentido de  não ter uma profissão, um emprego com horários fixos e outras tantas exigências, seria ainda melhor. Poderia concluir que não, que não sirvo para estar em casa "sem fazer nada" - que é o que me dizem quando (me) proponho uma vida assim em devaneios impossíveis -, mas como nunca estive por cá dessa forma não posso sabê-lo. Portanto poder por as minhas potencialidades e tendências à prova seria mais do que desejável. Fazer uma pausa na correria, acompanhar mais o pequeno, dedicar-me a outras coisas boas da vida, passando certamente por algum ou vários tipos de criatividade, perfect. Porque seria opção. Fruto da minha livre escolha.
Agora a outra parte. Que alguém me diga que eu tenho de estar em casa, confinada à cozinha e aos rebentos, porque para isso nasci, estilo determinismo de frigideira e fraldas, não, não, não. O caso, assim, muda completamente de figura. E tanto se me dá que seja a igreja católica, o machismo, inclusivamente feminino, sim, claro que o há, a família, a vizinhança, as fadas do lar encantadas na sua submissa procriação e medieval felicidade. Não, porque aquilo que, a nível pessoal,  me é imposto sem pergunta nem concordância simplesmente não terá nunca o meu aval. Disse-o há pouco numa caixa de comentários e repito aqui - as tarefas domésticas faço-as sem grande prazer que há outros mais sedutores, mas porque quero, vá escolho, e necessito - à falta de alternativa ou solução. Organização, estética, seja, gosto disso. Mas não me digam que tenho de o fazer porque esse é o meu papel que largo logo a vassoura e o sabão. Passo de feminina a feminista em dois tempos, ou mesmo em um. Não sei bem porquê - ou saberei? - mas aciona-se um mecanismo cá dentro que recusa veementemente acatar destinos marcados. Ordens na minha vida, não.
As pessoas devem desejar as coisas, atuar segundo vontades vindas de dentro. E não como robots das vontades e desígnios de outros que nada sabem de que somos feitos. Se fico, em casa ou no trabalho, ou vou, só a mim confesso.

fevereiro 16, 2012

Red

Great colour
Guess so
You are beautiful
I am tired
You look tired
I´m exhausted
Why
Because
Tell me
You should know
I don´t
I know
Really
I´ve always known

fevereiro 15, 2012

Log ou o meu diário de bordo


Estive a fazer um powerpoint sobre a Nova Zelândia e de repente apeteceu-me fazer parte de uma expedição aos mares do sul. Tenho uma crónica escrita há anos (no Recado, ESAP) sobre a grande história que foi a revolta na Bounty, opondo gerações e sensibilidades, nas figuras míticas de Fletcher Christian e William Bligh. Vi as 3 versões cinematográficas, li o livro de Richard Hough, em que a de 1984 se baseou e que é a minha preferida, e continuo a conseguir mergulhar, anos e anos depois, naquele destino traçado a fruta pão  e amores de ilhas. Não será alheia a essa marítima paixão a inesperada música eletrónica de Vangelis, que pareceria desfocada a bordo de His Majesty´s Ship mas que encaixa bem, tão bem afinal, nas odisseias da história e do cinema.
Enquanto não encontro o texto, perdido nas papeladas que acumulo com facilidade, embarco rumo ao Pacífico. Não vou, creio, voltar tão cedo.

The Bounty, 1984, de Roger Donaldson

fevereiro 14, 2012

Muito barulho por nada...não!

No outro dia entrei numa farmácia onde não costumo ir. Estava um gelo lá dentro, a farmácia é grande e nova. Mas se o frio se suportava já não aconteceu o mesmo com a música. Não queria acreditar. Rádio a passar música de discoteca, acho. Demasiado agitada para mim, ainda por cima era o final da tarde. Demasiado agitada para uma farmácia, ponto. Estava demasiado alta, ainda por cima. Mas porque carga de água uma farmácia tem de ter música quase aos berros? Já me basta o ruído em alguns restaurantes, isso ou mesmo televisão em alto som, já me basta as lojas de roupa em centros comerciais fazerem uso do mesmo recurso para animar funcionários e baralhar os compradores, agora também num local que me habituou a ser calmo, mesmo silencioso? Há alguns anos entrei uma loja de decoração num centro comercial um pouco mais a norte. Os anormais décibeis rebentaram-me a vontade de comprar de imediato. Saí a correr, parecia que a criança ia nascer logo ali. Não sei de onde veio esta ideia maluca de ter de haver música techno, rap, house, acid, trance e todos aqueles estilos que me põem doente no comércio. (Começo logo a praguejar, a dizer que este país precisa de regras.) Deve ser porque muito dele está direcionado para gente muito nova. (Há adolescentes nas farmácias? Ainda não vi nenhum.) Mas eu não sou propriamente velha, penso. Não gosto é de barulho. Serei?

Certo por linhas tortas?

Nunca vos dá a ideia de que tudo está torto, trocado? A mim acontece-me, e mais vezes do que consideraria desejável. Gente que se acha uma coisa que não é, palavras que são lidas como não foram ditas, coisas que são apreciadas e que não significam nada, aspetos em que se insiste e que nada acrescentam, imagens que se criam e que não são autênticas, méritos que se atribuem a quem não os merece, fraquezas que são vistas onde não existem, verdades corajosas que são encaradas como fragilidades, seguranças que se exibem onde há insegurança, certezas que se debitam onde há sobretudo dúvida, silêncios que se votam a quem merece aplausos, tanta, tanta coisa que não mora no sítio certo.
Nessas alturas é difícil manter a confiança, perdemo-nos também nós na encruzilhada de injustiças. O que vale é que há algo à frente. Que pode ser bem melhor do que o que vemos agora. Nem sempre o será, muitas vezes até, mas pode. Porque muitas vezes há-de ser.

fevereiro 13, 2012

Pequeno post de esperança

Um aluno veio hoje dizer-me no final da aula que Portugal é muito bem visto. Estranhei. Perguntei o que queria dizer. Disse-me que costuma frequentar um chat num site gótico com pessoas de muitos países e que lhe dizem todos muito bem de Portugal. Como estava a sorrir e é brincalhão assumi que estaria a gracejar. Não, a sério. Se não fosse a parte económica, disse, que lamentam, Portugal era o maior. Mas donde são essas pessoas, indago curiosa. Ingleses, mexicanos, lituanos, tantos. Acrescentou que elogiam a história, a música, a gastronomia, as paisagens, que é muito bonito, que adoraram e adoram cá vir. Música? Conhecem a música portuguesa?, espanto-me. Sim professora. A Canção do Mar, Dulce Pontes, e O Pastor, Madredeus, estão entre as favoritas.
Nem tudo está perdido, afinal. O aluno é gótico e diz que é um vampiro ("my nights are very busy") mas é bom aluno e tão doce e afetuoso que há que lhe dar algum crédito. O crédito que Portugal vai perdendo no campo económico mas que se aguenta, para nosso gáudio, noutros, ainda que de somenos importância no panorama atual. Nem tudo está desacreditado. Sobretudo quando 3 nações nos reconhecem. Esperança.

fevereiro 12, 2012

Miss Saigão


Não sou grande apreciadora de filmes musicais, embora haja alguns que são eternos e outros que, mais recentes, me tenham cativado pelo refinado cruzamento que fizeram das várias artes. Mas já sou bastante apreciadora de musicais no palco. Hoje, não sei porquê, lembrei-me de Miss Saigon, o primeiro musical a que assisti, quando estive em Londres, há mais de uma década. Lembro-me de que foi no Theatre Royal Drury Lane, Covent Garden, e de estar esgotado por volta das 5 da tarde. Apanhamos o metro outra vez no dia seguinte para conseguirmos tirar os bilhetes de manhã. Era assim há anos, esgotado todas as noites.
Ficou-me na memória o helicóptero ruidoso a surgir em palco, fazendo-se um remoínho de vento à medida que descia. Ficou-me na memória o barato vestido preto que comprara em Oxford Street. Ficou-me na memória  a fotografia que tirei antes com um dos atores da peça, um asiático sorridente que era filipino. Ficou-me na memória a presença na plateia do nosso ator António Montez e família e da pequena audácia em dirigir-me a ele e dizer que também era portuguesa. Ficou-me na memória a vida daquela cidade, o West End, fervilhante de cultura, de culturas. Ficou-me na memória a paixão por histórias abrigadas sob o mote vietnamita e as cores e traços condizentes.
Miss Saigon saiu de cena em 1999. Não voltei a Londres. Persiste o gosto pelo oriente.

fevereiro 11, 2012

Era

Uma conhecida atriz nacional dizia numa entrevista há algum tempo que dantes queria aparecer em todo o lado, estar em todos os sítios, fazer todas as coisas. Antes da maternidade, da construção da família, da felicidade que exibe e diz sentir. E como isso lhe parecia desgastante e sem sentido agora. Compreendi-a tão bem.
Há serenidades que só surgem com o tempo, com a segurança e acalmia que ele traz, com novas fases e etapas que invariavelmente cria. O que nos fazia vibrar ontem não será o mesmo de hoje. E vamos sempre seguindo mais ou menos desta forma, ondulando ao ritmo do calendário e das mudanças, mentais, comportamentais e físicas que provoca.
Penso que a maternidade, na mulher, e será o mesmo para os pais, muito seguramente, é de facto um saboroso travão na adrenalina e propensão sociais, assim como o é na impulsividade e na inquietação de sair, de ver, de ir, de aparecer. Ou pode ser que seja apenas a maturidade, é  mais do que provável, que pode coincidir ou não com a descendência. O que interessa é que as sensações de irrequietude e impulso social diminuem, por via das circunstâncias, filhos ou não, ou mesmo porque outros tipos de prazeres e de vontades começam a emergir. Os nossos sábados à noite, por exemplo, vão perdendo glamour - e aqui cito uma bloguista que sigo - mas ganham outras tranquilidades, outros afetos, outras dimensões.
Nem sempre é fácil para pessoas vivas e cintilantes, com claro gosto pelo social, pelas conversas, pelas manifestações culturais, pela diversão, retirarem-se de uma espécie de palco onde possam sentir alguma espécie de reconfortante brilho e prazeirosa projeção, e sem sentido negativo nenhum, diga-se. Mas há fases em que se passa a um protagonismo mais interior, mais caseiro, mais intimista, até mais consanguíneo. Que canseira, ir a todo o lado, ver toda a gente, fazer todas as coisas. Já não vamos ou não queremos ir, já não vemos ou não queremos ver, já não fazemos ou não queremos fazer. Por impossibilidade logística, no caso das crianças, por impossibilidade espiritual, na intemporal aceção camoniana mudam-se os tempos mudam-se as vontades, ou mesmo por ambas.
Os encontros passam a ser  outros. E sobretudo  um  tempo e um espaço para se encontrarem provavelmente com elas mesmas.

Diário de um professor de aldeia



1. Não que o ensino seja propriamente na aldeia. A bem dizer também não o é na metrópole, longe disso. Mas só assim o título evoca a missão e o cinema ao mesmo tempo.

2. Continuação de Stop ou como era bom acabar com isto. De cavalos passamos para tabaco.

3. Aula. Aponto as faltas de material que persistem em fevereiro. Uma aluna de quinze anos,  nível quatro a querer chegar ao cinco, está com ar enfadado e de quem está mal com tudo - e ao que soube posteriormente não estará bem com muitos, na verdade, mas por culpa própria. Não tem livro. O colega ao lado diz como é possível. Ela diz que já não há livros, os tais de 5 euros de caução, na papelaria. Ele diz-lhe que já devia ter lá ido há mais tempo. Ela diz que não tinha dinheiro. Ele responde mas tu fumas. Ela espanta-se. Ele insiste se tens dinheiro para tabaco tens dinheiro para um livro. Ela diz-lhe desagradada a minha mãe está desempregada. Ele ai sim e então, os cigarros? Ela responde, entre o desgraçado e o irritado, tu não sabes mas eu trabalho para os pagar. Ele ri-se ela olha para mim à espera de aprovação.

4. Mais tarde sabe-se que a aluna, que frequentemente enrola cigarros nas aulas, usa uma marca não comum, a combinar com o refinamento próprio de quem diz não ter 5 cêntimos para uma fotocópia.

5. Os livros continuam à espera, às resmas, na papelaria.

fevereiro 10, 2012

Sensibilidade e bom senso

Associar Portugal ao declínio ou mesmo vaticiná-lo a curto prazo não terá caido no goto dos portugueses, isto porque quem o disse é alemão. Lá teve o presidente do parlamento europeu  que se justificar, twitando, de forma a que não recaia sobre ele uma espécie de fatwa ao melhor estilo de indignação radical.
De que nos queixamos, afinal? É que vozes a preverem um futuro negro para o país não têm faltado também por cá, não interessando para o caso se são justificadas e sensatas ou não. Analistas, economistas, políticos, teóricos, peritos e leigos, quantos não ditam o fim da nação, em campos variados que vão desde a língua portuguesa até à finança? Porque nos espantamos, e mais, repudiamos tal expressão?
Bem, a verdade é que nós podemos dizer mal da nossa família (e já vamos com sorte, há quem seja absolutamente familiodependente) mas não nos podem dizer mal dela. Assim tipo irmandade siciliana e até islâmica, unimo-nos logo para o contra ataque. Ah, pois. Ninguém brinca com o nosso nome e muito menos com a nossa raça. Podemos dizer mal da Grécia, satirizar o seu presente, agoirar o seu futuro, mas se fizerem o mesmo connosco é que não. Por outro lado, os gregos também não iriam achar piada às nossas graçolas ou tiradas de relativo gosto político. E sobretudo se for alguém importante a fazê-lo, alguém com responsabilidades, alguém cujo cargo o impede de falar verdade ainda que seja a mentir.
Não me ponho de fora, de todo. Não gosto nada que me digam mal de Portugal, eu que adoro este clima, vá mais lá para o verão é verdade, esta geografia, ai o sul, a costa, a serra, estes brandos costumes, esta vida, ainda assim, tranquila, tudo. Não fiquem dúvidas de que gosto de Portugal e mais que muito. Portanto reagirei mal, sobretudo se estiver no estrangeiro. Falarem mal de Portugal lá fora é muito pior do que cá dentro. Ângulos, espantoso como podem ser sensíveis.
Em jeito de conclusão, e serve para todos nós, mandaria o bom senso que se visse uma crítica exterior da mesma forma que se encara uma interior. Mas não é o que na maior parte das vezes realmente acontece. Piegas ou não, são as tais sensibilidades.

fevereiro 09, 2012

À descoberta

        

Ler é das coisas mais enriquecedoras, porque nos permite aprender tanto e saber sempre mais. Há definições, certamente, sábias e maravilhosas sobre o que significa a leitura, os livros, as histórias, os ensaios, a prosa e a poesia. Não estarei, portanto, em condições de o fazer melhor, nem é o ponto onde quero chegar hoje.
Quando estudei os Descobrimentos, vistos da minha condição de aluna adolescente interessada pela história, e pelas viagens, interesse  que então se começava a desenhar, houve uma parte que me chamou particularmente à atenção. Era a que dizia que o conhecimento deixara de ser livresco para passar a ser experiencial. Ou que deixara de se centrar apenas nos livros para passar a centrar-se na experiência dos sentidos, da descoberta, da observação in loco. E lembro-me de ter gostado. De ter gostado muito do que isso significava e envolvia.

O saber, as referências, a fantasia, a cultura dos conhecimentos não chegam para tornar um indivíduo verdadeiramente sábio e até interessante (pronto, aqui poderá apenas expressar uma preferência, porque todos as temos). O indivíduo fechado em bibliotecas ao melhor estilo bookworm sem contato exterior com os exteriores vários que fazem parte disto tudo, sem capacidade de sociabilização e de abertura, sem conhecimentos sensoriais e de comunicação com o existente, e até com o diferente, sem laços afetivos e efetivos de uma mão cheia de matérias que vão para além das páginas ou de uma hermética erudição, não passa de uma enciclopédia ambulante. Adoro enciclopédias mas também adoro atlas, ou o que eles acarretam. Ou como cultura e vida, viagem, aos locais e às pessoas, não podem estar disassociadas. Sob pena de estarmos perante algo ou alguém meramente fantasioso que sabe muito e exibe muito mas que na prática nada conhece do ser humano, do mundo e das suas idiossincracias, tonalidades. Nada pior do que não reconhecer as nuances de mil e um lugares, de mil e uma coisas, de mil e uma realidades. Não viveu, não viu, não sentiu, não assimilou. Conhece, opina, enuncia factos e nomes, refere, discorre, mas terá realmente apre(e)ndido?

Da mesma forma, o saber experiencial obrigará também a uma organização de ideias, a um registo de ocorrências, a um contar para a posteridade. Eternizar o momento. Aí os livros, as leituras, melhor dizendo, são imprescindíveis para a interiorização, para a reflexão, para o sonho, para viajar no tempo e no espaço. Uma bela dança de emoções entre um e outro será algures e somehow o ponto de encontro. Encontro entre a cultura e o conhecimento e entre as vivências e as experiências. Só esta fusão nos poderá tornar mais completos. E, lá está, muito mais interessantes.

fevereiro 08, 2012

To be or not to be

Ainda não vi/ouvi o discurso do PM. Mas pelo que andei a ler por aqui na blogosfera, e apesar das opiniões absolutamente contraditórias, parece-me, ter-me-á parecido que a coisa terá sido empolada por métodos de jornalismo mediático frequentemente habituais.
Não votei PSD, aliás nunca, mas ainda assim perceberei se alguém se zangar aqui momentaneamente comigo. Mas então, não o defendendo, o que me fez estar do lado de quem não enfiou o rótulo da pieguice? Basicamente porque retirar um frase ou expressão do seu contexto natural e desvirtuar completamente o seu significado é prática comum no jornalismo sensacionalista que apenas pretende vender, baralhando e acirrando os ânimos. Foi agora como o foi antes, como o foi antes tantas e tantas vezes. E não é só na política que tais estratégias de desorientação com vista a diferentes formas de lucro ocorrem. Muitas vezes aparecem capas sensacionalistas, com outro tipo de figuras, com frases desordenadas que logo nos espicaçam a comprar a revista ou o jornal. Quando temos a oportunidade de ler o artigo ou a entrevista no seu todo, lá dentro, verificamos que fomos defraudados na nossa curiosidade voyeur. Não era nada daquilo que se suposera. Nada. E ainda bem que é nada, pois não era tão grave nem tão inusitado ou idiota como o pintaram. 
Serve isto para dizer que o piegas pode, podia não ter as leituras que foram criadas se enquadrado na sua moldura original. Porque neste domínio, a autocrítica é sempre mais difícil de fazer. Posto isto, penso dever ver o video. Até lá não sou piegas. Não sei se o serei depois.

fevereiro 07, 2012

Valiosa oferta altamente limitada


De vez em quando largo entre os colegas a teoria maluca do numerus clausus. E soltam-se gargalhadas, às quais me junto, de tão louca, impossível e basicamente estapafúrdia que é.
Quando frequentei a universidade e tive de escolher, graças a deus, viva a escolha, o tema do meu seminário no último ano, em paralelo com o estágio, passei, e não estava sozinha, uma noite, uma noite inteira em claro, à porta da uni, departamento de letras, para poder inscrever-me naquele tema, naquele grupo e, last but not least, com aquele professor. Não queria outro e lá levamos uma mantinha para aguentar o fresco da noite, não era muito, penso que seria junho ou julho no máximo. Consegui, assim, a inscrição - pudera - entre os 20 alunos possíveis. O meu seminário - obras literárias de expressão inglesa adaptadas ao cinema e estudo comparativo de ambos - ficará na minha memória como das últimas experiências de aprendizagem sentada do lado de cá, na carteira, verdadeiramente enriquecedora, cultural e mesmo genial. Assim foi e postarei mais tarde sobre algum do seu teor, por tudo o que disse mesmo agora. Penso que todo o grupo terá ficado igualmente marcado, afinal estavamos lá porque o escolhemos, porque nos esfalfamos por uma inscrição limitada.
Mas falava eu disso - de quão seria revolucionário e extraordinariamente eficaz se fossem os nossos alunos a escolherem-nos. É verdade, acabei de escrever isto desta forma. Sendo mais complicado para alguém que acaba de chegar a uma escola, por não possuir curriculum ou reputação na mesma, não o seria para os que estão, os que permanecem, os que, mal ou bem, já são conhecidos. Teríamos portanto um número máximo de alunos e depois seguir-se-iam critérios para os aceitarmos ou não. Classificações anteriores, ordem de chegada - não vão os fãs horas antes, dias até para o local do concerto? -, comportamento geral, gostos musicais e outros que podem acrescentar. Obviamente que as nossas aulas subiriam a um nível nunca antes visto. Obviamente que a nossa cotação subiria em flecha. E até poderia e deveria subir o cachet, sim, que não temos que ser missionários na excelência.
Pressupõe-se, claro, que somos excelentes. Pressupõe-se que todos nos querem. Pressupõe-se que podemos ser quase ídolos, se não fosse o pequeno pormenor de avaliar. E avaliar justamente, também fica claro. Isto poderia jogar contra nós, se o aluno apenas procura aprovação, boas notas e pouco esforço. Mas se procura o saber, o enriquecimento, a formação, e mérito nas notas então escolherá decerto os eleitos. Se não formos escolhidos ou tivermos poucas inscrições isto sim seria a verdadeira avaliação de professores. Alguma coisa está mal connosco. Pode ser só um penteado antigo ou não usar computador na aula, mas vamos remediar isso concerteza. (Claro que também posso comprar os alunos em caso de aflitivo desespero.)
Grande sistema de ensino. Grande realização profissional. Grandes aulas. Só vantagens. Inesquecível experiência. Para mim foi. E não é que hoje, hoje mesmo avistei o meu professor de seminário à hora de almoço? Num local perfeitamente inesperado, displaced? A dirigir-se ao restaurantezinho perto da praia onde vai diariamente esta sua ex-discipula? Ah como desejei falar-lhe! A conduzir, já ia apertada, entrava às 13.20h,  e não me viu, ele do alto do seu britânico 1,95m enfiado no sobretudo. Que saudades tive dele, daquelas aulas, daquelas viagens pelo conhecimento que ofereceu. Numerus clausus. Riam-se, riam-se. Do melhor que tive.

fevereiro 05, 2012

E se, de repente, alguém lhe oferecer flores?


O que é a imprevisibilidade?
Pode ser a ausência de rituais, de fazer aquelas coisas de sempre, à mesma hora, no mesmo lugar.
Pode ser um reflexo da impulsividade de caráter, que não programa o que dizer ou fazer.
Pode ser uma manobra, para confundir o outro, baralhá-lo, e fugir da suas previsíveis análises.
Pode, desta maneira, ser também uma poderosa estratégia de sedução, pelo surpreender constante.
Pode ser uma atitude natural, de quem vive ao sabor do momento sem gosto pela planificação.
Pode ser cada uma destas coisas e todas ao mesmo tempo.
Pode incomodar, sobretudo os que não são nós, porque não conseguimos nem conseguem organizar-nos. Pode dar prazer, sobretudo se formos nós, deliciando-nos com impulsos surpresa que pensamos que deixam marca e melhor ainda se o pensam os outros.
Pode assustar, mesmo quem o é. Pode fascinar.
Pode repelir. Pode prender.
Pode matar. Pode fazer viver.
Assim é a imprevisibilidade.
Pode-se?
Depende. Depende se gostarmos de flores vindas de um desconhecido.

Olhos de África

Noite de cinema que não tinha há séculos.

Os olhos azuis de Yonta, que ainda não vira.
Pós independência. África já livre, pobre, pois não se trata de África?, resgatada do passado mas ainda sem o futuro que quereria.
Presente a desligar-se dos ideais, surgem os negócios e as negociatas.
Inocência de costumes, liberdades ainda muito coletivas.
A moça star de Bissau, vaidosa, a querer viver a moda e o romance.
E Amilcarzinho, maradona de bola na mão, que diz à irmã: sabes que tenho de treinar todos os dias. Quero ir para Portugal jogar.

Como renegar o sonho de uma criança? Como desejar que não venha?
Alguém de longe sonhar com o meu país alegra-me, enche-me de jubilante orgulho.
Como fechar as portas a quem vem? Como dizer vão embora, não pertencem cá?
Como desprezar quem sonha, terna e inocentemente, com o meu país?
Como, afinal, cortar as asas ao sonho?

Nem era a questão central do filme, mas tornou-se na deixa que não esquecerei.

fevereiro 04, 2012

Languages

Que língua falas?
Português.
Bela língua. E és do Brasil ou de Portugal?
Sou português. O português é a minha língua.
É verdade. Mas não é só tua. Também é daquele ali.
Porquê?
Porque também a fala. E eles, os outros também. Pode até ser minha, se eu quiser aprender. E a minha também é tua, vês?


Ela não fala.
Não?
Não. Comunica.

Que língua falas, pergunta ele.
Falo a língua da música. Entendes?
Não.
Pois não.

O que os une? Que língua falam eles afinal?
A língua do amor.



A frio

Uma breve passagem pelos comentários do jornal online e o caos instalado na ordem que se tenta construir. Já sabia, já escrevi, já jurei não repetir. O que me dá para voltar? Raio de curiosa esperança idiota e sem nexo.
Parece que o frio, e não sou a única a dizê-lo hoje, não está a ser suficiente. Os ânimos e o teor das paixões não arrefecem a propósito de coisas relevantes e doutras nada relevantes.
E a liberdade de expressão que tanto prezo aparece irritante, pois tudo parece que tem de ser aceitável, justo, certo, democrático, ético. Aceita-se, claro, mas fujo para longe. Posso? Afinal, também sou livre.
Não me apetece inflamar-me na desorganização infernal do pensamento que por aí vai.
Mantenha-se o frio.

fevereiro 03, 2012

O inferno não são só os outros

Há umas semanas entrei numa saudável disputa com um familiar acerca da desonestidade crassa que assola a sociedade portuguesa. Ele referia-se essencialmente à dos governantes e dos políticos, naturalmente zangado como está com a crise causada por jogadas de oportunismo, por situações de impunidade,  por incompetências mentirosas, por injustiças descaradas e por tudo o mais que nos tem afundado social e economicamente.  
Dizia-lhe eu que esses comportamentos não encontram eco apenas em quem ele referia. Que são, infelizmente, muito mais transversais do que possa parecer, que vêm de cima, certo, mas de baixo também, estendendo-se para os lados. Porque simplesmente se cultiva e vive-se do safanço próprio mais do que era desejável. É culpado o governante, o político, o patrão, o gestor, o funcionário, o gerente, o empregado, todos estes, outros e muitos mais, se olham para o seu umbigo e para os seus interesses primeiro e apenas, e os dos amigalhaços e os dos parentes e os dos vizinhos.
Que quero eu dizer com isto? Desculpabilizar quem tem culpa, não. Repartir culpas, talvez. Porque se eu compactuo/compatuo com favores, favoritismos, cunhas, palmadinhas nas costas enquanto recebo uns bónus, obediência cega e acéfala em troca de umas regaliazitas, então eu sou culpada, mesmo se estou longe do topo da pirâmide. Sou culpada por omitir, sou culpada por não produzir, sou culpada por (ajudar a) promover o demérito, sou culpada por ser incompetente e receber  privilégios sabendo que o sou, sou culpada por comprar de formas diferentes bons horários e demais benesses, sou culpada por deixar que o meu bem estar seja o mal estar de outrém, sou culpada por não recusar uma  pregorrativa que não deveria ser minha ou apenas minha, sou culpada quando minto, quanto trapaceio, quando entro no jogo do logro.
Vi, vejo, veremos isto diariamente, ontem, hoje e, pior, amanhã. Quem, e não são poucos, aceita prémios em nome de algo não limpo. Pequenas coisas, grandes coisas. Maus exemplos vêm de cima? Certo, vêm, vêm muito e muitos e é revoltante que venham. Aumenta a descrença, desilude e repugna. Mas preciso sempre de ter modelos para que possa projetar-me construtivamente? Por vezes, desanima-se, porque não fazer como os outros, os que se safam, os que passam incólumes, sem mérito, sem caráter, sem transparência. Mas o desânimo, justo porque tudo é tão injusto, terá de dar  lugar à esperança, à consciência de que não me juntarei a eles, à honestidade. E isto tem de construir alguma coisa. A curto ou a longo prazo, não sei. Mas tem de.

fevereiro 02, 2012

Volta ao mundo em 17 países



Não é que dá vontade de agarrar o passaporte?
Não é que estas e outras viagens nos levam a infinitos de descoberta?
Não é que o melhor destas e doutras voltas é  fazer amar o mundo?

E não é que Portugal aparece?

Rosa choque


O rosa das revistas e o choque em que estou por ver que um texto nada, nada, nada, como dizer, nada abonatório (não quer dizer que os outros o sejam, já agora, de todo) continua no top mês em número 2 e no top de sempre em número 1. Só pode ser porque o nome do Pedro Rolo Duarte aparece logo no início, dando todas as garantias de que a coisa poderia ser interessante. Já nem me lembro do que escrevi exatamente  mas é muito pouco consentâneo com a cultura de qualidade, com a intelectualidade seletiva, com a élite dos gostos.

Mantenho, apesar de, o que terei dito, no essencial. No outro dia folheei uma revista desse tipo numa papelaria e pude ler uma belíssima entrevista da regenerada Angelina Jolie. Uma celebridade, continuo a gostar delas, sim, prefiro-as aos cinzentões, que diz coisas que achei interessantes, numa abordagem em discurso direto ao seu novo filme, como realizadora, e ainda ao encanto familiar que tem atravessado desde há algum tempo. Era isso a parte boa, o facto de poder ler acerca de artistas, atores, cantores, e pessoas com outros talentos e outro tipo de notoriedade, ainda que em publicações de supermercado, de consumo rápido e de fácil acesso, e que têm, no geral, péssima reputação. (Pensando bem também 698668090 autores se encontram disponíveis nos escaparates dos hiper. Se acho isso bom? Preferia, prefiro as livrarias, mas se chega assim de forma mais acessível a todos, não é mau.)

Também dizia que havia o (relativo) bom e o mau no meio deste tipo de oferta. Claro, às vezes o muito mau. Este muito mau refere-se sobretudo a figuras que não o são, que vendem histórias que não interessam nada, que não acrescentam nadinha, que não nos enriquecem nada nem nadinha. Há, de facto, revistas que parecem incluir apenas isso, aquelas capas com as casas dos segredos e os reality shows todos, numa parafernália oca, fácil, deslumbrada, pirosa e inculta. Isto sim é aflitivo, e é-o não porque quem sabe discernir vê mas porque quem não sabe cultiva, imita, glorifica, desde adolescentes a graúdos sem outro tipo de curiosidade, leituras ou conhecimentos. Ainda que  momentaneamente. Quase sempre momentaneamente porque o real talento sobrevive enquanto que o aparente, o falso ou o inexistente sucumbirá na prova do tempo.

Há então uma imprensa rosa light que inclui algumas coisas interessantes, relaxantes, curiosas, dependendo dos visados e dos gostos de tempos livres de quem lê, e há depois uma rosa choque que nos confunde, nos desagrada e nos repulsa e que não merecem os nossos livres tempos. Má, péssima, meramente sensacionalista, desinformativa. Dizer que há alguma dela aceitável, sem dizer nomes de publicações, claro, não abona a meu favor. Mas pode filtrar-se o que interessa e desligar e esquecer o que não. A memória seletiva é uma grande aliada de gente não preocupada em ler só o canónico ou o exigido pela cultura eminentemente elitista.

Porque o rosa, tal como todas as outras cores, também tem nuances.

fevereiro 01, 2012

Etnicidades



Étnico, exótico, boémio, individual ou conjuntamente, desde que jogue com a cor, almofadas e tecidos de recortes orientais a convidarem-me ao ócio consciente de apetecíveis recantos, cor, modernidade citadina inspirada em viagens de seda, hippy chic, as mil e uma noites e as índias todas, ainda a cor, é muito assim que gosto. Já foi mais assim, apartamento de estreia, e às vezes gostaria que assim pudesse voltar a ser.

janeiro 31, 2012

Crime, algo fundamental no meio e castigo

Não vale a pena castigar sem explicar porquê. Sem fazer refletir, explorar ao máximo as razões, as consequências, ouvir as versões todas, tirar conclusões, levar à auto crítica, ao assumir que se falhou, mostrar caminhos novos, apostar numa segunda chance, basicamente refletir e esperar pela mudança de comportamento.
De que falo, concretamente?
Falo dos miúdos, não de crianças, mas dos miúdos que estão na minha, tua, sua, vossa escola sem o saberem estar. Má educação, atitudes inaceitáveis e impróprias na aula, desafio da autoridade do professor quando ela é de direito e justa, agressões verbais ou piores, dentro ou fora da sala, enfim, todas aquelas situações que alunos perturbadores e problemáticos tantas vezes causam.
As participações, instrumentos naturais e muitas vezes precisos, as punições de vários tipos, as suspensões de 5, 10 dias, ou menos, e as expulsões. De nada servem, sobretudo todas exceto a última, pela simples razão de que o aluno se vai para sempre, se não houver uma conversa, uma confrontação, um exorcizar do problema, uma construção de um esquema mental que permita a alteração, mas sentida, consciente, voluntária.
Punir sem nada disto acontecer previamente, todos os envolvidos reunidos, alunos, dts, diretores de curso e mesmo os outros, família se aparecer, numa sessão que se pretende catártica - sem nada disto, dizia, nada feito. Sim, é merecidamente punido mas voltará disposto a mudar, uma disposição vinda de dentro, que é a que interessa? Sobretudo se os miúdos têm vidas completamente desestruturadas, desamcompanhadas, chocantes até?  Pode aqui alegar-se que a reflexão, o diálogo  não é possível com todos, que há caraterísticas indomáveis de uns que não o facilitam, que não o permitem. Não acredito muito isso. É possível dialogar com todos, até com o inimigo. Se depois os caminhos não forem o que nós, positivamente, esperamos à partida, perdemos. Mas não terá sido por não termos tentado.
E se não conseguir ganhar todos, poderei ganhar alguns. Ganharei alguns - pois alguns não se perderão. E isso faz toda a diferença. Atuar é preciso, às vezes urgente, mas compreender também e formar ainda mais. Trabalhar a cabeça. Só assim, de forma absolutamente livre, é que os prevaricadores deixarão de o ser.

janeiro 30, 2012

B-day ou aquele dia



Não sei se celebre ou me assuste com mais um ano no curriculum.
Inclino-me mais para a primeira, ainda assim. 

janeiro 29, 2012

O desprazer


Estou a ler as crónicas de alguém razoavelmente ou até bastante conhecido. Tenho gostado de grande parte dos textos, de acordo com a minha própria sensibilidade, visão das coisas e demais apetrechos pessoais que nos fazem ou não apreciar certas leituras.
Mas ontem entristeceu-me ler algo de que não estava à espera. Não pelo desabafo, porque é legítimo, a liberdade de expressão existe e não pensamos todos da mesma maneira, não pela existência do assumido preconceito, todos nós teremos os nossos, mais suaves ou mais gravosos, mas pela justificação dada. Ao princípio não entendi bem, fiquei confusa, voltei a reler porque poderia ter entendido mal, reli, era mesmo aquilo, sem apelo nem agravo. E a grande deceção - partir do princípio que o nosso prazer tem que ser o prazer dos outros só pode ser uma brincadeira, mas  infeliz. Explique-se, pois.

A pessoa conhecida diz não compreender quem não cozinha. Podia ser pior, claro. Podia ter dito que não compreende quem não gosta de cozinhar e aí abarcava mais gente, decerto, aqueles que, hélas, comme moi, o fazem sem jeito nenhum nem paciência, por obrigação, necessidade,  e não por gosto. Adiante. Tem então um preconceito, dito, em relação a estas pessoas. Também não me parece mal. Também há coisas que não compreendo, porque não partilho embora pense, quero pensar, que tenho algum cuidado em expressá-las, em tom e veemência, de acordo com a hora, o local e outros. O irritante até ao tutano foi ler a explicação - não os compreende porque eles/elas não conhecem o prazer de decompor texturas e sabores, desconhecem e não chegarão nunca ao nirvana do descobrimento que preside ao ato de cozinhar. Ainda por cima, porque gostam de comer. Para, para tudo. (Com acordo ortográfico, sem acento.)

Só porque gosto de arte e pintura tenho que saber e gostar de pintar? Só porque gosto de ler tenho que saber e gostar de escrever? Só porque gosto de cinema tenho que ser atriz e gostar de representar? São precisos mais exemplos para tornar, como se preciso, essa ideia completamente disparatada? Mas se há dúvidas, continue-se. Não vou/vamos compreender quem não faz um determinado número de coisas que a mim/nós me/nos dá/dão prazer? Listemos então mais uns grupos passíveis do nosso preconceito. Assim, e de repente, não entendemos
- os que não nadam e não atingem o nirvana do total relaxamento debaixo de água
- os que não conduzem e não sentem a sensação de poder ou velocidade, máxima ou não, ao volante
- os que não comem chocolate, especialmente o preto, porque não degustam um sabor sem igual ( gelados  também se incluem)
- os que não têm filhos porque não recebem beijinhos ensonados à noite e não apanham mil brinquedos do chão
- os que não dançam porque não exercitam o corpo (e os que não frequentam o ginásio, já agora, ui, esses)
- os que não têm internet porque não sabem o prazer que a comunicação global permite
- os que não ouvem Bach nem Beethoven (ou qualquer outro músico ou artista)  porque desconhecem o que é a (boa) música
- os que não são bonitos porque não se babam ao espelho
- e mais 8698959 grupos que não há tempo nem espaço para isso.

Convenhamos. O meu prazer não tem que ser o dele nem o vosso nem o dela nem o teu nem o nosso. Não me imponhas o teu que tento não impor-te o meu. E se cozinhar é para "ti" uma orgásmica experiência, ótimo. Mas tal facto não exige que todos sintam exatamente isso - ou que queiram lá chegar.  Nem malvados nem coitados. A cada um o seu prazer. A meu bel prazer. Ou até mesmo que não.

janeiro 28, 2012

(A) Boa sorte


Porque é que umas pessoas têm sorte e outras não? Ou, melhor, porque é que umas pessoas têm aquilo a que se chama de sorte e outras não?


Definir sorte é tarefa algo difícil, porque relativa, mas entendamos aqui por sorte aquele sentido comum, o de significar sucesso, ter saúde, não ter de passar grandes obstáculos ou tragédias no amor, na família, na profissão, que quase sempre deixam as pessoas infelizes e perdidas durante algum tempo. Ter sorte será o contrário da aridez da solidão, do caos que é estar desorientado, do vazio que é não ter rumo, da colossal insatisfação de viver, ainda que por um ou vários períodos, temporariamente ou mais do que isso. Ou ainda, e pior, o contrário da dor da doença ou mesmo da morte. De alguém ou de outrem muito chegado.

Mas voltemos à pergunta. Porque é que uns exibem tanta felicidade, sem cortes de dolorosa má sorte, e outros não? A resposta é difícil, extraordinariamente difícil. Mas parece-me, por tudo aquilo que tenho visto, observado, entendido, que ela estará algures na generosidade. Mas a generosidade não se esgota em atos voluntários de quem ajuda os pobres e os famintos, em coisas como dar roupa, sapatos, comida. Que são, naturalmente, precisos e preciosos, e que indiciam, à partida, um caráter bondoso. Mas esta bondade não chegará a sê-la se não se estender depois aos outros que também estão perto, ou seja, aos familiares, aos amigos, aos colegas, aos vizinhos. De nada valerá ter um grande coração quando se pratica a caridade ou a solidariedade social se depois, num círculo mais restrito, se infernizar a vida de outros menos carentes, se se teimar em não compreender outros menos necessitados, se não se cultivar a empatia com outro tipo de problemas e de anseios.

A generosidade não pode ser apenas baseada na ajuda do quotidiano, em satisfazer as necessidades básicas. Ela terá de ser verbal, ela terá de significar abertura, ela terá de ser o oposto da mesquinhez, da inveja, da cobardia moral, da negatividade, da agressividade, da  perversidade. Ela terá, assim, de ir ao encontro de outro tipo de necessidades frequentemente desdenhadas - as espirituais, intelectuais. O generoso é aquele que sente e pratica, também, a dádiva mental. Que me parece ser bem mais difícil de encontrar, as pessoas gostam de dar pão mas não palavras amáveis encorajadoras, sobretudo se os outros não estão abrigados sob a miséria física ou humana.  Não haver desabrigo deste género então já retira qualquer tipo de encorajamento moral, de altruísmo, de solidariedade.

Mas a questão é que os seres verdadeiramente generosos têm, ou é possível que tenham, mais sorte, são mais felizes. E são-no porque simplesmente o merecem. Mas que dizer de crianças que são acometidas por uma doença terrível, que as leva, por vezes, demasiado cedo deste mundo? A maior das crueldades, a maior das desumanidades. Porque uma criança não pode, não podia, ser julgada pelo facto de ser generosa ou não, o seu tempo ainda não lho permite. Pois não sei. Não sei. Aqui é onde não se pode aplicar a teoria do crime e castigo. Ultrapassa-nos, dói, e é profundamente injusto.

De qualquer forma, a pergunta do início refere-se ao mundo dos crescidos, daqueles que tiveram tempo para aprender. E aí a generosidade parece ser, e era bom que fosse, um denominador comum, uma alavanca da felicidade. Mais do que merecidamente. 

janeiro 26, 2012

Incomplete


so many things undone
so many more things not done
so many things yet to be done...
she thought.

and many stories unlived
and many more feelings unveiled
and many projects yet to be lived...
she thought.

many thoughts unexpressed
many more ideas unrevealed
many places yet to be revealed...
she thought.

how many dreams delayed.
she thinks.
still in time? she wonders...

janeiro 25, 2012

Os tiros do presidente

 
O assunto Cavaco Silva tem dominado muitas conversas e troca de opiniões, em público, na televisão, na blogosfera, tem levantado questões, movimentado ações e originado muitas reflexões. Peritos na matéria política e jornalística e menos peritos, cada um, com todo o direito a que assiste a liberdade de expressão, tem comentado a infeliz deixa presidencial.
Não gostando de escrever sobre pessoas em particular, a não ser sobre ícones e referências que me marcam ou marcaram pela positiva, também eu, desta vez, penso poder avançar com a minha em nada perita mas convicta posição face ao homem de quem se fala. Nunca votei em Cavaco, portanto estou mais que à vontade para o poder criticar. Não fui adepta do cavaquismo, não fiz nunca parte do seu séquito de admiradores, e lembro-me de ter sido nessa altura que muitas más medidas foram adotadas no campo da educação nomeadamente, quando me encontrava no começo da carreira. E lembro-me de se estar perante uma governação ao estilo obras públicas de Fontes Pereira de Melo, com muito betão e pouca substância estrutural, cultural e de outros tipos.
Se no governo  foi sofrível, na presidência incomodou-me muito mais. Simplesmente porque não me revi nem revejo no estilo, na atitude, no substrato de que deveria ser feito um presidente. Respeito o cargo e quem lá está, neste caso, mas ele não me representa, e nem sequer passa isso por uma ideologia, mas sim por uma filosofia, uma visão, que não existe. Na verdade, falta a Cavaco tudo o que admiro e considero necessário para tão alto cargo, representativo de toda uma sociedade e uma nação - a envergadura moral e política, a dimensão humanista, o conhecimento universal, a sabedoria de vida, ou de uma vida plena de experiências, de lutas, de conquistas e de aprendizagens. Este é um presidente que possui uma mentalidade porque vivência de quintal.
Há dias li um comentário num blogue de referência que falava da lendária postura tabu do presidente - de como nunca sabe nada, ouviu nada, comenta nada. Estes silêncios cúmplices de tudo e muitas vezes de nada são o oposto da clareza e da transparência que sempre venerei, efeitos de uma ausência de abertura e força moral que depois descamba em momentos e enunciados ridículos, pequenos, inoportunos e, pior, inverdadeiros. As pessoas que querem ser relembradas por serem grandes precisam em absoluto de sair do seu quintal. Na geografia e, sobretudo,  na cabeça.
Não acho que deva sair por causa desta tirada desastrada, de todo. O que me custa foi, por tudo o que disse antes, ele ter sido eleito.

janeiro 23, 2012

Na outra pele


       Há uma dificuldade nítida, evidente, gritante que é a de nos pormos no lugar do outro. E ela, porque omnipresente, surge de forma continuada  se se olhar em redor, e também se se olhar para dentro, para quem o consegue fazer. Esta dificuldade é das coisas mais prejudiciais para o entendimento mútuo, para a compreensão dos outros e para a tolerância em relação a tudo o que não é exatamente igual a nós. É de tão difícil cultivo e, no entanto, seria tão desejável que fosse fácil. Porque esta simples caraterística, a de sentir na pele de quem não somos, eliminaria simplesmente um infindável número de malentendidos, problemas e hostilidades.
        De vez em quando assisto a manifestações de mal estar perante aqueles que, não sendo portugueses, para cá vieram estudar ou trabalhar. Nessas alturas, se com alunos, faço sempre um premente exercício do género incorporação no outro. Imagina que és tu. Se fosses para um país estrangeiro gostarias de ser bem recebido? Gostarias que te ajudassem a integrares-te melhor? Gostarias que te respeitassem e que não vissem em ti uma ameaça a seja lá o que for? Gostarias que não te chamassem nomes? Gostarias que não te vissem nem como malfeitor nem como ladrão de quaisquer direitos? Gostarias que não te considerassem um intruso? Sim... professora, costumo ouvir. E à medida que vou largando as perguntas, o tom do repúdio,  o teor da intolerância, os laivos de racismo vão ficando mais silenciosos, mais serenos, mais complacentes.
         Estes exemplos reais vindos de miúdos perante os quais é impossível deixar de trabalhar a consciência do outro podem, depois, estender-se a tantos mais, incrustados no espírito de quem já passou da fase da adolescência. Porque é que é tão difícil também à maturidade descentrar a perspetiva e tentar perceber o que está por detrás de uma outra visão de algo? Porque é que é rejeitado por vezes tão drasticamente o ângulo de alguém ao lado? Porque é que o nosso prisma tem absolutamente de prevalecer em todas as circunstâncias? Porque não nos esforçamos nós por trilhar o caminho de outrém para que dele retenhamos um outro tipo de experiência? Quantas vezes não seria eficaz, salutar e brutalmente pacificador se o fizéssemos?
         Nos campos da amizade, do amor, da famíllia, do trabalho, da sociedade em geral, da história e da humanidade, palavras como conflito, raiva, discriminação, inimizade, ódio, guerra, rancor, desprezo, crueldade - palavras torpes e não desejadas porque vis - poderiam apagar-se se tu e eu nos puséssemos consciente e voluntariamente no meu e no teu lugar.

janeiro 22, 2012

Quatro casamentos e um bando em fuga


Os quatro signos da liberdade - Aquário, Sagitário, Carneiro, Gémeos.


Os quatro signos do casamento: Capricórnio, Caranguejo, Leão, Balança.



Posto isto, que dizer...?