novembro 30, 2013

Feliz natal?

Lá vem a época que adoro e detesto em simultâneo. Gosto dos pinheiros de natal, da consoada aconchegante e doce, das luzinhas a piscarem nas janelas, do prazer de comprar para os outros, da magia da decoração natalícia que com uma criança em casa se volta a sentir. Mas não suporto a azáfama até lá, as compras no meio das enchentes, as filas de trânsito,  as escolhas apressadas dos presentes mais exigentes por falta de tempo antes, a histeria coletiva que atravessa os centros comerciais, um consumismo que nos vai sugando perante as muitas coisinhas bonitinhas que aparecem sempre nesta altura. Depois, há outra coisa. Não penso que vá ser um natal fácil. É uma época já terrível para muitos, por razões afetivas, nomeadamente, mas também porque muitos não chegam ou não chegarão à fartura que lhe fomos associando nos últimos tempos. Vai ser muito difícil para muitos, mesmo muito. E este marketing das sociedades de consumo só cria insatisfação e desejos que não se podem concretizar. É uma época para ser mágica mas não há magia sem condições socioeconómicas que o permitam. A simplicidade de outros tempos enchia-nos a alma mas a complexidade em que se tornou tudo isto - os presentes e a consoada que que pretendem fartos - já não deixa que o simples volte sem alguma espécie de dor. Sobretudo para aqueles que nem ao simples conseguem chegar. O natal é uma época muito bonita mas pode ser uma época muito triste, também. Difícil. Todos os anos, é certo, mas cada vez mais para um maior número de pessoas. 

novembro 29, 2013

Mudar de vida

Eliminei o perfil Google + porque não fazia sentido ter aderido a algo que não utilizo, por falta de tempo e de paciência. É certo que aderi a esse perfil por puro acidente, enquanto fazia experiências no blogger do AE, mas a verdade é esta - pretendo manter apenas aquilo que me interessa. Às pessoas que gentilmente me adicionaram agradeço a simpatia. Também reverti os comentários para o perfil do blogger e alterei o nome para AEfetivamente, porque sim. Mantive o nome e a foto porque o AE não é anónimo, embora às vezes me apetecesse, no anonimato pode dizer-se mais coisas e estamos mais salvaguardados. Mas enquanto isto correr bem ficará assim. Quanto ao resto pode ir mudando. Já sinto, por exemplo, vontade de mudar o fundo outra vez.

novembro 28, 2013

Naturezas



Tenho muitas dúvidas se o homem (e a mulher)  nasce naturalmente bom, segundo a teoria de JJ Rousseau. Que a sociedade corrompe ou pode corromper não tenho dúvidas. Que uns são mais bafejados pela sorte desde que nasceram também não tenho dúvidas. Que uns não nasceram virados para a lua não tenho dúvidas. Agora que a natureza pura seja igualmente boa em todos e potenciadora de experiências positivas já me apresenta dúvidas. A educação, o meio, as possibilidades que nos são oferecidas ou que nós procuramos facilitam e favorecem o esclarecimento e a bondade. Pelo contrário, as adversidades de muitas vidas que brotam de condições desfavoráveis ao esclarecimento favorecem a maldade. Mas o bem e o mal existem para lá dos limites impostos pelas dimensões exteriores. O mal existe lá dentro e daí a sua grande imprevisibilidade. Pode surgir de um desnorte, pode ser fruto de uma escolha mas pode haver uma natureza mais predisposta para o mal. A bondade pode ser construída, estimulada, é verdade, mas pode nunca instalar-se totalmente. Ou pode a maldade vir gravada de alguma forma desde que se viu a luz do dia. 

novembro 26, 2013

Inteligência companheira

Escrito por Andreia Silva, de Aveiro, com quem colaborei com grande prazer no projeto de Teatro Escolíadas durante dois anos.

                             

A verdadeira inteligência é a emocional. Só esta nos conduz ao encontro do outro. E sem estes encontros não há vida, não há amor, não há nada. Só esta nos ensina a ser gente. E mesmo quando falha o raciocínio lógico articulado, se esta não nos falhar, seremos homens e mulheres que podem marcar a diferença. Hoje, o meu aluno Rúben revelou-se um grande menino, um grande homem, ainda que marcado pela sua trissomia 21: esteve sensível, sempre atento e carinhoso, numa tentativa de levar algum conforto a uma das pessoas que o acompanham todos os dias na nossa sala de apoio à multideficiência (e que infelizmente recebeu uma muito triste notícia hoje). Foi um companheiro à altura o nosso homenzinho. E está muito certo e seguro de uma das grandes lições que devemos levar da vida: à amizade, responde-se com amizade!

novembro 25, 2013

Montanha russa



Ser paciente o tempo todo é impossível ou é tolice. Ser impaciente a tempo inteiro é impossível ou um tormento. Ser paciente em determinadas circunstâncias é uma benesse. Ser impaciente em determinadas circunstâncias é um motor de construção. Ser paciente em algumas situações é ser estúpido. Ser impaciente noutras tantas é ser insuportável. A paciência é uma grande virtude, enorme, mas pode ser, ao invés, sinal de uma grande idiotice. De um grande marasmo. De uma ausência de ação considerável. É preciso ser paciente, muitas vezes. Esperar é ganhar, ainda que custe. Saber esperar é uma coisa maior. A impaciência é irritante, para nós e para os outros, não dá sossego. E, no entanto, pode trazer a força de um espírito dinâmico e empreendedor, sem tempo para mais delongas. A paciência quer-se e a impaciência é precisa. Um pico aqui, outro acolá. A paciência empata serenamente e a impaciência é grito de libertação. Cada um embarca no ritmo que quer. Ou sabe ou pode. Ou mantém os dois, que será o mais plausível. Ou o menos aborrecido, vá.

novembro 24, 2013

Up there where we don´t belong



Is it me?
Our marriage?
I´ve been thinking...
Have I done anything wrong?
You´ve  stopped loving me?
You´ve found somebody else?
Tell me, I hate to see you like that.
And I´d hate to see you like that because of me.

Come on, nothing of that sort!

So, what is it?
You´re strange...
Why that face?
Why that uncomfortable look that makes me feel even more uncomfortable myself?

Oh, silly silly Sally
It´s the cold!
Gosh I´m freezing up here!
Come on, baby, let´s go down. Now!

novembro 23, 2013

Das boas intenções

As intenções podem ser boas, as melhores, mas pode fazer-se asneiras pelo caminho. Danos colaterais que podem fazer mossa em quem está na paz e no sossego. Muitas das boas intenções podem vir acompanhadas de manipulação, inconsciente é certo, mas manipulação. O difícil é ver para além do óbvio. E difícil é apoiar as boas intenções quando já se viu para além dele.

novembro 21, 2013

Pequena instrospeção

Inicio aqui - espero - um novo capítulo intitulado Outros olhares que consistirá na publicação de posts/textos escritos por outras pessoas. Para começar, serão escritos por pessoas que conheço, amigos, na verdade, e que aceitaram participar no AE com a sua perspetiva ou apenas sentir perante alguma coisa. Não vou interferir em nada com o seu conteúdo, identificando-me com o mesmo ou não, interessa-me apenas enriquecer o AE com outros afetos, seguramente, e com outros factos, também. E não se manterá - espero - o toque exclusivamente feminino, desta forma. A ver vamos, haja vontade e tempo para outros nos darem a conhecer o seu olhar.
O post que segue abaixo foi escrito por Lília Santos, de Coimbra, que conheço desde 2009. 

                              

Aqui vão rascunhados alguns pensamentos...
Sendo este um ano mais difícil do que o normal (estou a trabalhar mais longe do que gostaria), dou por mim nas minhas viagens (a CP vai ganhar imenso dinheiro comigo este ano) a pensar em tudo e em nada.
Estou, sem dúvida, numa fase mais introspetiva da minha vida, que passa por uma atitude de solidão em relação aos outros e de um “encontro” comigo mesma. Será bom? Sinceramente, não sei. O “afastamento” tem aspetos positivos e também negativos. Como positivo destaco o facto de me reencontrar, como negativo, o sentir que estou a perder a minha melhor caraterística: o sorriso. Rir é muito bom, mas quando acontece de uma forma espontânea, fácil, natural… Neste momento não vejo grandes razões para tal. O nosso país está em colapso, em falência… O que é hoje, não é amanhã. Muito preocupante! Mas pior do que tudo é quando penso nas próximas gerações… No entanto, é a pensar nelas que vou continuar a sorrir, a pensar que tudo irá mudar e que a minha filha, os nossos filhos terão um futuro feliz, brilhante, colorido. Além do mais, quem me conhece, sabe que o meu sorriso fará falta.

novembro 18, 2013

Pela noite dentro

                 

Na inicial madrugada de domingo tive de me dirigir à urgência pediátrica do hospital da cidade maior aqui da zona. Um cansaço tremendo está instalado nos rostos dos pais e mães que acompanham os filhos àquelas horas da noite (e que se prolonga, muitas vezes, durante horas). Não é, logicamente, um local onde apeteça propriamente ir, seja de madrugada seja a qualquer altura, mas acredito que a hora é especialmente dura para pequenos e grandes. E enquanto se espera e se sai de lá quase de manhã, o que passam na televisão de uma sala de espera da urgência pediátrica? A casa dos segredos, pasme-se. Não há som, também era o que faltava, mas só o teor daquilo dá vómitos. Mas se se pensa que não podia piorar, podia, podia, pode sempre piorar. E pôde. Acaba a transmissão e começa uma sessão de cinema. E o filme que passa na ala das crianças é Call Girl. É preciso dizer mais alguma coisa acerca deste mundo maluco - ou país maluco, provavelmente e melhor dizendo - onde vivemos? Mas digo, sim, ainda algo mais - é que não sei se aquilo era para animar os pais que por ali se encontram, para os despertar, entenda-se. Porque não pode ser para a pequenada, pois não? Não pode, mas o problema é que eles também lá estão. E quem ligou o televisor naquele canal? Outra boa pergunta. De qualquer forma, tanta regulamentação - e tanta fiscalização - que falta fazer por este país adentro. Porque bom senso, sensibilidade e respeito pelo outro são coisas que não existem. Nem que o outro tenha meio metro ou um metro e pico. Mude-se algumas vontades, mude-se por favor. Mas urgentemente. 




 (E por falar em fazer falta, vejo que me falta um capítulo - ou etiqueta - que agora encaixava aqui tão bem: mega irritações.)

novembro 15, 2013

Contente descontentamento


Ontem, enquanto via o telejornal, animei-me momentaneamente quando me foi dito que agora vão começar a distribuir ouro pela população (não gosto de ouro, já agora, mas trocava-o logo logo, vendia-o logo logo, e fazia imensas coisas com ele). Esta resposta que me animou tinha a ver com a minha super sorridente e tonta pergunta: ai sim, saímos da recessão? e agora? o que é que isso significa para nós? vão melhorar as coisas? - enquanto via e ouvia (e lia em rodapé) a notícia da noite (terá sido a do dia, também?). Reparando que a ironia brincalhona era apenas isso mesmo, pergunto a outros, já hoje, na esperança de recuperar a alegria: saímos mesmo da recessão? e agora? já está a acontecer alguma coisa? em concreto? já posso fazer um sem número de coisas que os cortes no salário, congelamento desde 2004, iva, roubo dos subsídios, etc e tal, não me deixaram fazer? Sem falar em quem está pior, muito pior, já no limite da sobrevivência. Bom, digam-me, há alguma coisa que eu já deveria estar a sentir, efetivamente? Sintomas da saída da recessão já esta manhã? Coisas concretas? Hmmm, não? No meu caso, não? Hmm, bem me parecia. Era então um contentamento descontente, porque palerma e apressado, bem me parecia, outra vez. Foi apenas um contente momento porque o descontentamento, esse, parece que não me abandona. A recessão é uma coisa má e a saída é uma coisa boa, deve ser, mas só quando na prática começar a ver aparecerem coisas (na verdade ressurgirem, uma vez que foram tiradas, e sem permissão) que fui vendo desaparecerem. Entre elas o contentamento contente de ver quem trabalha, há anos e anos, compensado por isso. E o resto que daí advém. 

novembro 14, 2013

O lado sapato



Salvo seja. O título, melhor dizendo, e lembrando-me de uma velhinha frase dita numa revista por Rita Lee. Quanto ao post, é para não se dizer que não falo de sapatos. Não falo, é certo, mas mostro-os. E numa língua que dá jeito, caso se vá para fora ou se esteja a ler revistas de moda femininas e sugestões dadas por quem sabe. Quanto ao armário de cada uma, é ver o que falta.

(Custou-me ver a diferença entre os platform e os pumps, mas ela existe, existe mesmo. E agora confirmo que os peep toes não são pumps, claro que não, silly me, peep é aquela coisa do espreitar, engraçado o nome, acho que há um filme chamado Peeping Tom, agora que me lembro. Aqui está matéria para uma boa aula em inglês, para meninas, preferencialmente, é possível. Talvez inclui-la no tema shop till you drop, por exemplo?)

novembro 12, 2013

A banalidade do ranking


Não gosto de rankings, valem o que valem e, para mim, nada valem. Já estive numa escola que esteve bem colocada num, naquela altura, e não partilhei o entusiasmo que vi gerar-se entre algumas hostes. Talvez por ser muito infeliz lá, malgré la qualité. Engraçado como uma boa escola, consensualmente falando, pode ser um lugar onde não se é feliz, mas isso seria - é - outra história. Não trabalho para rankings, nem para exames, credo. Sempre me fez espécie fazer-se isso, e fazia-se, dar as aulas em função dos exames que se sabia virem aí. Também me fazia - e faz - impressão aquela histeria, sobretudo dos colegas, em volta do exame (então as reportagens televisivas nesse dia nem se fala) como se de vida ou morte se tratasse. É importante para os alunos, claro, para as entradas nas universidades, vivemos de acordo com seriações e números, mas a mim, enquanto professora que privilegia o saber, era-me igual ao litro. Sou a mesma pessoa de escola para escola, se mo deixarem ser, claro, com exames ou sem exames, com rankings ou sem rankings. Agora estou numa escola profissional pública, que não tem exames, e sou a mesma, ou tento ser, mas aos condicionalismos já lá vamos.
Os rankings vão dizendo o de sempre, porque baseados em resultados de exames (que podem ilustrar uma verdade, parcial, mas ainda assim ser o mais falaciosos possível), vão dizendo o de sempre - que as escolas privadas são melhores do que as públicas. E as pessoas que não gostam dos professores nem do ensino público logo aproveitam este dado para se lançarem ferozmente contra eles. Bom, a escola pública está cheia de condicionalismos, de dificuldades, que não partem de nós, professores ao seu serviço.  As conversas e o nosso espírito revelam muito desencanto e a sensação de se ir contra os próprios princípios. Os professores do público são piores do que os do privado? Os do privado trabalham mais e melhor? Não. Pelo contrário, os do público trabalham em condições adversas a muitos níveis, inclusivamente, e teríamos de chegar lá, trabalham com uma matéria-prima que diverge completamente da do ensino privado, no geral. Mas então os melhores alunos estão no privado, não há excelentes alunos no público? Claro que há alunos brilhantes no público, mas ao lado de outros completamente desmotivados, oriundos de famílias completamente desestruturadas, um rol de problemas que só quem passa por eles é que sabe. Muitos alunos brilhantes perdem-se, de resto, na complexidade inclusiva de muitas turmas (um tema sensível, a não ser explorado aqui agora). Quem vai para o privado não é necessariamente mais inteligente, de todo, mas pode ser melhor aluno, devido ao background socioeconómico da sua família, à sua consequente motivação e aos demais potenciadores do sucesso escolar. Há CEFs, por exemplo, no privado? Seria interessante haver. Em 4 anos já vou no meu sexto CEF e acreditem que aquelas aulas não são a mesma coisa embora eu seja igualzinha por dentro (conhecimento científico, seja lá o que for) e não menos meritória, claro. A matéria-prima é uma noção essencial para o sucesso na escola. Considerando esta e os condicionalismos a que estão sujeitos na escola pública, os seus docentes fazem milagres, acredite-se.
Também não quero dizer que são melhores docentes os professores do ensino público, porque as generalizações são um princípio errado, mas são milagrosos, isso realmente são. Fazem milagres, repito, para conseguir resultados. Sim, são praticamente obrigados a passar os maus alunos (porque os há, que não se ignore) para favorecer as estatísticas, o umbigo dos diretores, a imagem das escolas e, sim, manter o emprego. Sucesso é igual a abertura de turmas e investimento, nomeadamente financeiro, insucesso não. Posto isto, os rankings não me dizem absolutamente nada. Porque nada dizem, nada de nada. Nada que alimente o essencial. Existem para espalhar a desconfiança, a divisão, o caos.  A luta de um professor na escola pública é desgastante, diária, constante. Não precisamos de mais nada que a venha tornar mais dura ainda. 


À posteriori: também existem excelentes alunos no ensino profissional público, já agora. O que não devia existir é toda a investida governativa para acabar com ele(s).

novembro 09, 2013

Descomprimir


Sem qualquer interesse público mas hoje soltei umas boas gargalhadas em frente ao televisor (voltei a saber o que é uma coisa chamada televisão, abençoada chuva e abençoada resma de testes para corrigir que me atiraram para o sofá e me fizeram trabalhar mas rir, combinação que vai sendo cada vez mais rara, segundo o evangelho de muitos de nós).
1. O filme do Robin Williams "Mrs Doubtfire" resiste ao tempo pois não consegui parar de rir até praticamente 10 minutos do fim, mais ou menos. Um mais para Carpe dentum, seize the teeth (agarra os dentes), num hilariante momento que vai buscar, adaptando, a mítica deixa no filme "Clube dos Poetas Mortos", também protagonizado por ele num registo puramente dramático. Trata-se de um ator que não faz parte da galeria dos meus sedutores mas que nos faz rir e chorar simultaneamente num ápice, talento que não é para todos.  Mesmo quando puxa ao melodrama lá estou a comover-me, sobretudo se a história meter miudagem, coisa que acontece desde há uns anos para cá. Grande comédia, esta, e rir ainda é um bom remédio.
2. Vi o episódio da telenovela da SIC passado na Golegã (a propósito, acho que tenho que voltar lá, à terra da festa do cavalo. Quando lá fui, há 4 anos, não gostei, talvez por ir em visita de estudo com pessoas que mal conhecia na altura. Senti-me desconfortável naquele ambiente, vá lá saber-se porquê. Até acho que sei mas não me apetece dizer). Bom, não sabia que o par Rui Unas e Luciana Abreu podia ser tão engraçado, a cena das castanhas está ao nível da boa comédia que aparece, por exemplo, nas produções semelhantes brasileiras. Ela chamar-se Fátinha ou Faty na novela também não está nada mal.  Afinal, a personagem podia ser pior. Tudo pode piorar, como se sabe. Nada como descomprimir, então. É S. Martinho e ninguém leva a mal.

Das dores



Temos muita dificuldade em admitir o sofrimento. Porque há quem nos faça sentir, provavelmente, que fazê-lo revela fraqueza e debilidade de caráter. Então quando algo nos dói instigam-nos a fugir a essa dor, rapidamente e através de variadas formas. Esta exigência de não sofrer - como se o sofrimento significasse, então, fragilidade - é cruel e foge completamente à verdade. A dor não é uma boa sensação, não é, e o ideal de muitos de nós é não senti-la mas a verdade é que ninguém lhe está imune. E ninguém pode ser julgado ou inferiorizado por senti-la. Ou deixar que, de forma transparente, o vejam senti-la. Ninguém deve interferir - até certo ponto, claro - com o exorcismo da dor.

Também ninguém nos pode exigir que nos irritemos com as coisas que não nos irritam. O que irrita e faz sofrer um pode passar completamente ao lado de um outro. E vice-versa. A cada um as suas irritações, já aqui o escrevi anteriormente. De igual forma, ninguém pode exibir superioridade moral em considerar a sua irritação maior do que a do outro. Cada um escolhe a sua cruzada e sofre com aquilo que para si é essencial. A noção do essencial diverge de pessoa para pessoa e não se pode impor ao outro que algo que não lhe faz diferença faça. Ou o contrário. Há movimentos coletivos que são precisos, certo, mas em várias frentes e de várias maneiras. Não podemos todos atuar de igual forma em todas as circunstâncias se temos dessa circunstância uma visão diferente. A democracia das ideias deverá estar acompanhada da democracia dos sentimentos. E, consequentemente, das atitudes.

novembro 08, 2013

Civismo e inspiração


Um mini-regresso já hoje para dizer apenas uma coisa: a rejeição do que Margarida Rebelo Pinto disse numa entrevista na televisão - que não vi mas da qual tive conhecimento por causa da rábula feita por Bruno Nogueira a esta figura da literatura light (epíteto não meu ainda que concorde). Disse a mesma que fazer manifestações nesta altura, presumo, dado não saber se o pensa em relação a anteriores, demonstra falta de civismo e um desrespeito pelo trabalho dos governantes. Podia ser irónica e até sarcástica, porque também o consigo, mas calmamente digo apenas que a mim, pessoalmente, me espanta é haver tanto civismo por parte de todos nós. Na verdade, temos reagido da forma mais pacífica possível, tendo em conta o agravamento das condições de vida, de trabalho e demais retrocessos em vários aspetos da sociedade em geral. Tem havido, como sabemos, reações muito mais acaloradas e explosivas noutros locais do globo, e mesmo na cívica Europa reações então muito pouco cívicas, sendo assim colocada a questão. 
Pessoalmente não me tenho identificado muito com o estilo das manifestações mas considero-as uma muito boa e legítima forma de se mostrar descontentamento e com um significado que dirá muito e poderá ainda fazer mais. Porque não me identifico eu com a forma como as manifestações são levadas a cabo, isto se estiver lá dentro e não apenas a olhar de fora? Porque nas que já participei concluí que foi - é? - muito superficial a maneira como os manifestantes encararam a coisa - pelo menos os que pude observar. Dizem-se piadas, fala-se de trivialidades, reúnem-se pessoas que não se viam há muito e tenta mostrar-se que apesar de tudo se está muito bem disposto e que se está a triunfar de alguma maneira individualmente. Não há profundidade, não há reflexão e, sobretudo, não há silêncio e consternação. Sim, para mim as manifestações deviam ter qualquer coisa de funeral, mostrar-se que não se trata de uma festa e de um passeio a não sei onde mas sim de um momento de tomada de consciência coletiva e que envolve alguma dor, desencanto e revolta pelo estado das coisas. Obviamente que haverá e há decerto exceções mas naquelas a que fui houve, frequentemente, um sentimento de não pertença a uma forma de protesto que gostaria de ver encarado de uma forma diferente. Poderá argumentar-se que a revolta necessita da exteriorização de sentimentos e da capacidade argumentativa dos manifestantes, da luta. Certíssimo. Isso vejo em quem as lidera, realmente,  mas não em quem está lá dentro, nos anónimos (e infelizmente conhecidos a fazer paródia). São demasiado levianas (até tímidas, pode ser, no confronto com a verdade que elas significam), demasiado levianas, repito, as coisas que se dizem nesses momentos. Mas isto sou eu e as manifestações onde estive e com as quais não me identifiquei. Repudiá-las, impossível, pelo contrário, e acusar os manifestantes de falta de civismo é de uma insensibilidade social para além do razoável. Se há erro nas manifestações, nestas circunstâncias de revolta social, é que são ou demasiado mornas ou demasiado festivaleiras. Como disse acima, não concebo o ato da manifestação sem consternação nem seriedade. Também não defendo a violência, é um facto, embora não me surpreenda quando certas situações são levadas ao limite. No fundo, sonho com manifestações ao estilo marcha sobre Washington ou mesmo a non-violent non-cooperation de Gandhi, daquilo que vi e penso saber sobre elas. O silêncio e a profundidade são uma inspiração que deve acompanhar a indignação. E mais do que palavras de ordem precisamos de inspiração. O que não retira em nada do que disse sobre o total repúdio acerca da falta de civismo dos portugueses dita pela MRP. (Discordo de tudo o que disse, de resto.) Falta-nos inspiração, sem dúvida, mas já não nos falta civismo. Aqui, sinceramente, até o estamos a ter em demasia.


(Todas as imagens do AE são tiradas do Google - ou do FB. Espero não repetir nenhuma mas é bem possível.)

novembro 04, 2013

Pausa no cais

O AE vai estar em standby esta semana, visto que a autora está atolada em trabalho. Obrigada pelas leituras e visitas e até ao fim de semana, em princípio, quando deverei começar a sair um pouco do lodo.

novembro 02, 2013

Passo a palavra

Passo reuniões em que se projetam atas e outros documentos, passo papeladas certificadas para tudo e para nada, passo memorandos para mostrar que se esteve, fez e falou, passo ideias de gente que ou tem medo de não sei o quê ou não tem nada melhor para fazer. Passo a ineficácia, passo a verborreia, passo a exibição pessoal, passo a tecnologia desnessária. Passo isto tudo e passo todo e qualquer tipo de massacre mental (e físico) para o qual não tenho compreensão, complacência ou, na verdade, paciência. Quanto tempo desperdiçado, quanta energia despendida, quanta coisa que realmente interessa não se faz por causa disto e de mais. Passo. E sofro quando não me deixam passar. Podem passar palavra.

novembro 01, 2013

Considerações blogosféricas


1. Ando sem tempo, e prevejo que vá continuar, a ver pela minha desafiante direção de turma e também porque o pequeno e a escola primária o exigem. Não tenho conseguido, e prevejo que vá continuar, visitar os blogues onde costumo planar, daí que não estranhem, colegas ou amigos da blogosfera, a minha ausência. Não deixei de gostar de vos visitar, de todo. Ou, visitando-vos, não estranhem a baixa nos comentários, que prevejo que vá continuar. Tempo, não há. Não me lembro de um primeiro período assim, tão extenuante e exigente, ainda que, valha-me isso, aliciante (estou a olhar para os aspetos bons da coisa, porque os há, ou sou eu que quero que eles o sejam).

2. Não sou de coisas definitivas nem de lealdades estáticas e eternas. O blogroll que aparece aqui ao lado, bem em baixo, de vez em quando é e será alterado. Tenho a certeza que faltarão lá links de bons blogues que desconheço totalmente e de outros que não tive tempo ainda de explorar melhor - o que prevejo que irá continuar. Vão estando os blogues onde vou, uns mais assiduamente, outros frequentemente, outros de vez em quando.  Se achar que nunca lá vou - é possível que os haja - será melhor retirá-los da lista e deixar espaço a outros que forem surgindo. Esta necessidade de mudança e de atualização de preferências também é algo que prevejo que vá continuar.

3. Tenho algumas preocupações com os números mas estou a aprender a relativizar. Tenho que pensar que qualidade é melhor do que quantidade. E, também desta forma, tenho escrito textos/posts que por vezes deviam ter mais qualidade, com menos gralhas (quantas vezes escrevo com o meu filho aos pinotes à minha volta), sendo mais pausados e mais refletidos, porque escrever muito não quer dizer escrever bem. Tento atualizar isto diariamente mas não é fácil, nada fácil. Admiro quem o consegue fazer numa base diária, até várias vezes ao dia. Eu vejo-me aflita e prevejo que vá continuar. Não fora a satisfação que ao mesmo tempo me dá e a sorte de ter amigos leitores que me dão alento, não sei, não. Ou melhor, sei. Continuaria, apesar dos pesares. Isto é viciante e um estimulante prazer. E prevejo que assim vá continuar.

outubro 31, 2013

Amigos amigos géneros à parte


                    

"A amizade, entre um homem e uma mulher, é (o leitor que escolha): um bico de obra; uma coisa muito linda; ainda mais complicado que o amor; absolutamente impossível; amizade da parte da mulher e astúcia da parte do homem; astúcia da parte da mulher e amizade da parte do homem; só é possível se a mulher for forte e feia; impossível se o homem for minimamente atraente; receita certa para a desgraça; prelúdio certo para o romance; indescritível; inenarrável; sempre desejável; o que Deus quiser; o diabo." MEC

Uma amiga postou isto e achei muita piada. Eu, leitora, escolhia algumas, sem hesitações. Tenho amigos homens, essencialmente colegas, muito bons colegas, melhor dizendo. Amizades íntimas são poucas, sobretudo por opção e maneira de ser (independente). Poucas, dizia, sejam homens ou mulheres. Poucas mas muito boas, já agora. Quanto aos homens, e batendo certo com algumas coisas ali em cima sic MEC, a verdade é que perdi alguns amigos - vários - quando me casei. Foram deixando de telefonar, de aparecer, de estar comigo -ou  connosco. Agora não sei se o fizeram porque deixei de estar disponível, quer dizer, livre, ou se por respeito ao respetivo, do género pensarem que causariam algum tipo de aborrecimento, é bem possível. Também é possível que nestas coisas os homens sejam mais observadores do compromisso alheio, enquanto que as mulheres continuam atiradiças e conversadoras com os homens casados. Não é regra geral, mas é possível. Ou então é mesmo aquela coisa do é impossível uma amizade desinteressada entre um homem e uma mulher. A não ser que ele seja feio ou ela feia. Ou os dois feios, o que também é possível. Os dois bonitos e atraentes deve ser um berbicacho, sobretudo se forem casados, um ou outro, ou até, possivelmente, os dois. Por causa da ciumeira dos respetivos, que pode ser possível. Mas há casos e casos. Pode, no fundo, esta amizade ser o que as pessoas quiserem. Ou então o que Deus quiser, claro. E aí a amizade pode desembocar em romance, é possível. (E numa possível desgraça.) Ou não, o que também não deixa de ser possível. Posto isto, aos bons amigos. Se possível, bonitos e atraentes, o que me parece impossível. Mas é possível que os haja, é um facto. Com ou sem astúcia, eis uma boa questão.

outubro 30, 2013

Quando não se vai à bola


Não é bom nem convém dramatizar a situação mas também a mim não me caíram bem as palavras do presidente da FIFA sobre o jogador Cristiano Ronaldo. Não é por ser português, é porque é um grande jogador (o melhor ou não, isso não vem ao caso) e não pode ser referido como  "o outro". Este tipo de tratamento revela alguma frieza e sobretudo algum desprezo, quando lhe é reconhecido o mérito futebolístico pelos quatro cantos do globo. E depois a cereja podre em cima do bolo estragado: refere os gastos no cabeleireiro do  português, por oposição ao bom rapaz que será Messi (e será, nada contra). Não se percebe o que tem isto a ver com a qualidade do futebol praticado e não se percebe quando houve um jogador que viveu da imagem como nenhum outro - Beckham - e, que eu saiba, ninguém o julgou ou gozou publicamente por isso. Ninguém com responsabilidades públicas e desportivas, ainda por cima. Sem entrar em histeria coletiva e nacionalista, a verdade é que observações deste género não ajudam a serenar em nada o já de si explosivo mundo da bola.

outubro 29, 2013

Ter e haver




A propósito dos maus - péssimos - profissionais em todos os setores e áreas, dou aqui conta de um pequeno episódio que me aconteceu para aí há duas semanas. Entrei numa pequena loja de decoração onde não entrava há bastante tempo. Desloquei-me lá, ao centro da cidade, porque nas outras lojas do género onde vou mais vezes, mais na periferia, não encontrara o que procurava. A loja estava vazia. A empregada de balcão estava sentada numa poltrona da loja e falava ao telemóvel. Devia, pelo teor da conversa que pude perceber, estar a falar com uma amiga, para passar o tempo. Entrei, disse boa tarde, como sempre, e ela, passado alguns instantes, levantou-se da poltrona. Continuou a falar ao telemóvel, embora já na parte de dentro do pequeno balcão onde está a máquina registadora. Entretanto, aproximo-me porque pretendo sair, uma vez que não encontrei o que procurava. Ao passar pelo balcão, a minha parva mania de dar explicações enquanto agradeço leva-me a dizer: obrigada, já vi, mas não encontro o que quero. A mulher pergunta o que procurava eu. E eu, parva a dobrar, respondo. E ela diz, com um ar muitíssimo snob e enfadado (enfadonho, também): ah, mas esse não é o nosso conceito. Conceito? Não percebi bem o que queria dizer com isto. A que diabo de conceito se referia ela? Porque tem de ter um conceito um simples desejo de uma coisa que tem - tinha - tudo a ver com a loja? Surpreendida, ou talvez não, mas já algo irritada, riposto: não? mas era, ou já foi, realmente não venho aqui há anos. Já nem sei o que ela disse, do alto do seu conceito e decerto a pensar que eu, no seu conceito, não valia grande coisa. Os jeans são grandes inimigos da credibilidade social a partir de certa altura, sobretudo se não tiverem uma marca italiana à vista. Ou pode ter sido dos cabelos não lisos, selvagens. Ou até de tudo, daquele meu ar. Ou foi mesmo dela, a exibir uma superioridade qualquer que não existe nem faz sentido, sobretudo para quem está a atender clientes, o público. Na verdade, este tipo de gente, antipática e sobranceira, que nos mira de alto a baixo e nos julga por um sem número de coisas que efetivamente nada revelam também não faz parte do meu conceito. Do meu conceito de profissional competente e que quer e tem de agradar ao público e aos clientes. Porque faz parte do meu conceito reforçar os meus teres e haveres sob um conceito de atendimento completamente diferente.

outubro 28, 2013

Reggae pró-volante?


Bom, acabei de ver isto nos murais do FB. Não sei se o Bob Marley árabe é realmente da Arábia Saudita ou não, mas que está engraçado, está. Um ativismo subtil, inteligente, humorístico. (Se assim for, pelo menos interpretei assim, pelo pouco que pude ler acerca do assunto, de resto.) Embora a temática não tenha graça nenhuma, claro. Vale a pena ver, sorrir ou rir, pela ironia, logicamente, e agir. Para quem o pode e deve fazer. Para que as mulheres não chorem, metaforicamente, e por razões que já deviam estar no baú das histórias medievais. 

outubro 26, 2013

Filme do desassossego

Ilude-se quem pensa que uma relação é perfeita quando não há desarmonia de qualquer espécie. Quando não se discute, quando não se dizem palavras feias, quando não há desentendimentos. A perfeição no silêncio pode ser a mais traiçoeira e mentirosa das tranquilidades. Enquanto que o desassossego dos conflitos pode ser o sincero confronto das verdades.


outubro 25, 2013

Grilhões em demasia



Estou a ver histórias de perto, histórias de que não gosto, muitas histórias. Em demasia, até. São demasiadas as histórias de mães que são roubadas e agredidas pelos filhos, são demasiadas as histórias de mulheres que são maltratadas pelos maridos, são demasiadas as histórias de consanguinidade sexual forçada nas famílias, são demasiadas as histórias em que os jovens companheiros das mães exercem violências várias, são demasiadas as prisões e dores a que as mulheres se submetem neste país, em pleno século XXI, pós-libertação feminina, pós-direitos das mulheres, pós-lutas pela igualdade. São demasiados os casos em que as mulheres são agentes e vítimas de tragédias suas e de quem é delas. Se, por esse mundo fora, há leis que ainda legitimam certos comportamentos e práticas, aqui já não. O que torna, então, possível estes grilhões em que ainda vivem? Amor, medo, vergonha social, dependência emocional e financeira, medo da solidão, pavor da perda. Onde fica, por causa disto, a dignidade de cada uma, o amor a si mesmas e também, em certos casos, aos seus? Nas escolas sabemos o que se passa em muitas famílias, com muitas mulheres, com muitos filhos e filhas. E saber, já sabemos, é sofrer. Sobretudo quando, ao ajudarmos, ao tentarmos compreender e ajudar, falhamos redondamente. Para o diabo com as leis do coração que só trazem sofrimento. E igualmente para o inferno com as leis da estrutura familiar que se alicerçam no terror e na violência. O medo destas mulheres fá-las sofrer e fazer sofrer outros. Não há lei que o legitime e, no entanto, não tem conseguido a lei erradicá-lo. Não pode libertar-se quem não afronta o medo que aprisiona. A emancipação é uma fraude, a liberdade é uma máscara. Para muitas, porque o sabemos. Ou para demasiadas.

outubro 24, 2013

Chuva no coração


Sou essencialmente solar. Não gosto de dias cinzentos, escuros, nada. Mas tolero-os se chover. A chuva traz-me o gosto pelo recolher, e daí calha imaginar, viajar de uma outra forma. Olha-se pela janela e vai-se. 
Hoje choveu. Muito, a potes e cântaros. Nestes dias, lembro-me da Irlanda, onde nunca estive. Lembro-me de "A filha de Ryan" e de "Esta terra não é minha", filmes passados naquela Irlanda rural, chuvosa, húmida. Depois também me lembro de "Mau tempo no canal", nos Açores nemesianos. Nove ilhas igualmente debaixo de chuva e tempestades durante dias e dias, onde nunca estive. Depois lembro-me das estações das chuvas, dos trópicos africanos e das monções asiáticas, locais onde nunca estive. Depois sou capaz de me lembrar do romantismo das grandes cidades sob a chuva, pois mais belas são as cidades quando a chuva cai. E sou ainda capaz de me lembrar de histórias de tempestades, crimes e naufrágios. De amores à chuva e de solidões, dolorosas ou não. E, invariavelmente, lá vem à memória também uma música de eleição, uma música que me pôs e põe a chuva no coração, desde há anos. Mesmo que não chovam gatos e cães no vídeo, é para mim, uma música intemporal, uma história quase literária no meio do temporal. Algo trágica, sem o ser... Then the storm... believe the light in you.




outubro 23, 2013

Amar é


Aconteceu ver a entrevista de um ator português no programa do Daniel Oliveira no passado sábado. O João Perry disse muitas coisas, umas que compreendo e partilho, outras, de todo, mas disse uma coisa que me ficou. A propósito da pergunta sobre o que é amar, gostar de alguém, ele disse algo que é uma excelente definição e que pode servir para definir o que é de facto gostar de alguém para mim também. Quando nós vamos a um lugar, quando nós estamos num determinado sítio e estamos felizes por lá estar, contentes por vermos o que sempre quisemos ver, ou agradados porque gostamos do que não esperávamos ver, e quando dizemos gostava tanto que o A estivesse aqui, ou quem me dera que o B visse isto, isso realmente é sinal de gostar. É, sim, e acontece-me dizer exatamente a mesma coisa - ou pensar. Esta é, pois, é uma das mais simples e verdadeiras definições de amar. Poupem-me os lugares comuns que falam do coração, do eternamente e do resto. É isto - é ver e apreciar e desejar que o outro visse e apreciasse. Connosco e igualmente. 

outubro 22, 2013

Correto e incorreto




1. A entrevista de Sócrates ao Expresso e a linguagem que utilizou não são a forma correta de estar, na política ou em lado nenhum. As palavras deviam - devem - ser mais contidas e não proferidas como o intuito de incendiar as hostes. Contudo, também me fizeram soltar umas gargalhadas - como o politicamente incorreto e os enfants terribles, muitas vezes, o conseguem.

2. Por falar em palavras com o tom certo - e o conteúdo, já agora - apreciei bastante a entrevista dada na SIC pelo novo presidente da câmara do Porto. Como não o conhecia antes, nada sei dele a não ser o que vejo agora. E, francamente, gosto. Parece-me inspirador, inteligente e sereno, longe dos tons inflamados que caraterizam muitos autarcas por aí. A política precisa de pessoas assim: independentes de espírito e fortes. Livres, pareceu-me.

3. Aqui há tempos tinha falado aqui da hipocrisia da lei portuguesa que não permite a adoção por parte de casais homossexuais mas que permite a adoção por homens solteiros (ou mulheres) que o possam ser. Ao casar-se esta semana uma figura portuguesa (parabéns, de resto) com uma pessoa do mesmo sexo, sabendo que essa figura adotou uma criança, a questão mantém-se. São um casal, agora. E a lei, concorde-se ou não com ela, não pode fazer diferenças, na prática, entre uns e outros.

4. Continuam a ser notícia diariamente histórias de choque de abusos sexuais dentro da família. Vêm muitas ao de cima nos media e vamos sabendo de outras nas escolas. Espanta-me este horror camuflado, abafado, escondido durante tempo demais para quem é vítima. Espanta-me a conivência de algumas mães - ou o silêncio porque, muitas vezes, o padrasto é um companheiro jovem e os prazeres da carne e a vaidade pessoal levam a melhor sobre o amor aos filhos. E espanta-me a leveza das penas. Circulam livremente muitos que já cometeram crimes. E voltam a cometer. Pudera, o crime até compensa.

outubro 21, 2013

Dura lex ou os trilhos da pobreza

                   

A questão da miúda de etnia cigana expulsa de França não se resume só ao facto de ser cigana - mas ao facto de ser cigana com poucos recursos socioeconómicos, ou seja, pobre. Fosse ela de etnia cigana mas cheia de dinheiro e oriunda de uma família com poder que ganhava a documentação (e até a nacionalidade) num abrir e fechar de olhos. Da mesma forma, quando os imigrante são ricos, sejam sírios, palestinianos, chineses, mexicanos ou somalis, a coisa parece ser mais favorável e bem-vinda, quando são pobres são a pior das desgraças. Tudo se resume à pobreza, à ausência de poder, numa palavra, ao dinheiro. A etnia não favorece, vai-se buscar argumentos contra ao baú dos preconceitos e do medo do que não conhecemos,  mas o vil metal dita as leis. Por falar nisso, a expulsão desta família e desta miúda estava na lei e o governo francês aplicou-a, é um facto. Resta saber se tudo o que é lei e é legal pode ser considerado humano e construtivo. Andam a roubar-nos à grande e à portuguesa, também, e nada mais legal (governos eleitos) e não se vê nada de construtivo, para aproximar mais a questão às nossas dores nacionais. E também está na lei as mulheres não fazerem mil e uma coisas em países das mil e uma noites e, como imaginamos, não é construtivo. Humanismo e direitos humanos andam, também aqui, longe. E tantos outros exemplos haveria para dar. 
Aqui como em outros casos, a lei é dura e a pobreza é muita. Ou a lei é dura porque a pobreza é muita. Essa é que é essa.

outubro 20, 2013

O tocante




Não sei se foram aqueles olhos, aquele rosto bonito, inesperado, aquela dignidade que se alicerça em sensibilidade, preocupação e amor maternais. Mas tudo isso, talvez, me tenha contagiado ao ponto das suas lágrimas, no fim, e como as tentou evitar e esconder antes, ao ponto das suas lágrimas quase arrastarem as minhas. Não era Diretora de Turma de miúdos no básico desde há 4, 5 anos. E como me tornei muito mais sensível a estas questões desde que eu própria fui mãe, não consegui deixar de sentir uma enorme solidariedade com esta mãe que me deixou com os olhos em estado líquido, embora, salva pelo meu espírito prático e força nestas circunstâncias, as lágrimas não tivessem rolado. Mas este post não é sobre mim, de longe, mas sim sobre mães que amam os seus filhos e que sofrem com as suas juvenis escolhas, próprias da idade, algumas vezes, de desacertos emocionais, outras, da influência das más companhias, tantas, de conflitos familiares, também.
A postura dela foi sempre correta, dialogante, recetiva, sensível. Quero muito ajudar o miúdo. Disse-lho. Ela está perdida no sentido em que não sabe o que fazer nem percebe o que se passa para o filho estar como está - porque é difícil perceber. Viu-se que as palavras tinham de ser reconfortantes, de apoio, de trabalho em conjunto, atento, vigilante mas tolerante, ao mesmo tempo que atuante. A luz que lhe emanava do rosto contrastava com a sua dor. Nenhum progenitor gosta - gostará - de vir à escola e não receber as melhores notícias sobre os descendentes. Mas se há quem negue e recuse o problema há quem o reconheça e com ele sofra, de forma transparente, sem filtros de espécie alguma. Digna e calma, sempre. E, depois, quando o garoto se foi, não aguentou mais e chorou. Mas as lágrimas chegaram de uma forma genuína, que queria travar, eu era uma desconhecida e não é fácil. Não é fácil ser mãe, educar, mesmo se o fazemos mais ou menos bem, ou até muito bem, pode haver coisas que nos ultrapassam. Uma mulher simples, linda, que me tocou muito. Resta saber se o aluno quer ajuda e quer colaborar. Deveria fazê-lo, pela mãe, e sobretudo por ele próprio. Torço por eles. Toquei-lhe no braço ou no ombro e disse-lhe vai tudo correr bem. Há palavras que têm ser ditas, em certos momentos. Só me resta acertar, por eles. 
Depois, já ao fim da manhã, entrou outra mãe, também preocupada e atenta ao filho. Acrescente-se que se trata de pessoas com vidas difíceis, a vários níveis. As notícias eram boas, muito boas. Parece que o passado ficou lá para trás, onde deve estar, e o menino está bem no presente, quiçá a delinear já um bom futuro. Também vi lágrimas no rosto desta mãe, de alegria, de alívio, de um medo que existia e que ali se atenuou, como num catarse inesperada. Sacudindo algumas dores interiores. Digna, educada, limpidez no rosto e nas palavras, amor de mãe puro. Que feliz fiquei - e estou - por ela. 
A manhã acabou assim, com dois momentos tocantes. Para acreditar que há esperança, porque há sempre gente boa, genuína, que tenta fazer o máximo, nem sempre o conseguindo. Nestes momentos, que no fundo marcaram o meu dia, também volto a acreditar que gosto de ser professora. 

outubro 19, 2013

O hilariante

                              

Este é o primeiro de dois posts seguidos. O objetivo? Bom, dividir os pais que se deslocam à escola em duas categorias: a hilariante e a tocante. Começo pela primeira. Porque de tão mauzinhos nos fazem rir. Temos de converter as pequenas desgraças em gargalhadas, é um bom princípio para se manter a sanidade mental, especialmente para quem é diretor de turma, como eu este ano, de um CEF. Na verdade são dois em um, que fica muito mais barato ao governo; desta forma temos 29 alunos juntos nas disciplinas teóricas (aquelas de que eles mais gostam, estão a ver) e desdobrados nas técnico-práticas. Continue-se.
Ontem, apareceu-me uma mãe (não há preocupação nenhuma, desconhecem por completo este blogue e assim continuarão) a culpar os professores pelas desgraças do filho desde os 12 anos. Ele atingiu a maioridade e vem - vinha - com um historial complicado de falhanços escolares por ter fundamentalmente revelado interesses divergentes dos escolares. Mesmo muito divergentes. A senhora, sobre quem eu já tinha sido avisada, falou do alto das suas arrogantes certezas, malhou em professores anteriores (não teve tempo para o fazer em relação aos atuais, nem eu a deixaria), disse nomes e perguntou se eu os conhecia, apontou o dedo a tudo e a todos - menos a ela mesma. Estava nesta atacante toada até que tive de me impor, repare-se que ela não me deixou alternativa. Começou a baixar a crista, gradualmente, e saiu de lá lavada em lágrimas, a pedir desculpa e a dizer obrigada. Não usei métodos anti-amnistia internacional, apenas fui levando a conversa para onde deveria ir - e como deveria ser de acordo com as circunstâncias. O garoto, acrescento, meteu-se em trabalhos mas gostava dele, tinha um potencial enorme em muitos aspetos. Mas percebeu-se claramente que em casa não o educam, apenas o protegem de forma errada. Educar é muito difícil e ser mãe também. Mas sobre isso falarei no post dois sobre esta matéria. Esta história, entre muitas, só nos diz que, realmente, muitos são muito bons para os pais que têm. 
Para terminar a rir à valente, o relato, ouvido também ontem, sobre outra mãe que se deslocou à escola para falar com um colega. Estava a falar a senhora com o diretor de turma e chamam o garoto em questão. Este começa a falar alto, a desafiar a mãe e mesmo a dizer palavrões. Diz-lhe a mãe: "cala-te já, olha que não estás a falar com os teus professores". É isto.