Aconteceu ver a entrevista de um ator português no programa do Daniel Oliveira no passado sábado. O João Perry disse muitas coisas, umas que compreendo e partilho, outras, de todo, mas disse uma coisa que me ficou. A propósito da pergunta sobre o que é amar, gostar de alguém, ele disse algo que é uma excelente definição e que pode servir para definir o que é de facto gostar de alguém para mim também. Quando nós vamos a um lugar, quando nós estamos num determinado sítio e estamos felizes por lá estar, contentes por vermos o que sempre quisemos ver, ou agradados porque gostamos do que não esperávamos ver, e quando dizemos gostava tanto que o A estivesse aqui, ou quem me dera que o B visse isto, isso realmente é sinal de gostar. É, sim, e acontece-me dizer exatamente a mesma coisa - ou pensar. Esta é, pois, é uma das mais simples e verdadeiras definições de amar. Poupem-me os lugares comuns que falam do coração, do eternamente e do resto. É isto - é ver e apreciar e desejar que o outro visse e apreciasse. Connosco e igualmente.
outubro 23, 2013
outubro 22, 2013
Correto e incorreto
1. A entrevista de Sócrates ao Expresso e a linguagem que utilizou não são a forma correta de estar, na política ou em lado nenhum. As palavras deviam - devem - ser mais contidas e não proferidas como o intuito de incendiar as hostes. Contudo, também me fizeram soltar umas gargalhadas - como o politicamente incorreto e os enfants terribles, muitas vezes, o conseguem.
2. Por falar em palavras com o tom certo - e o conteúdo, já agora - apreciei bastante a entrevista dada na SIC pelo novo presidente da câmara do Porto. Como não o conhecia antes, nada sei dele a não ser o que vejo agora. E, francamente, gosto. Parece-me inspirador, inteligente e sereno, longe dos tons inflamados que caraterizam muitos autarcas por aí. A política precisa de pessoas assim: independentes de espírito e fortes. Livres, pareceu-me.
3. Aqui há tempos tinha falado aqui da hipocrisia da lei portuguesa que não permite a adoção por parte de casais homossexuais mas que permite a adoção por homens solteiros (ou mulheres) que o possam ser. Ao casar-se esta semana uma figura portuguesa (parabéns, de resto) com uma pessoa do mesmo sexo, sabendo que essa figura adotou uma criança, a questão mantém-se. São um casal, agora. E a lei, concorde-se ou não com ela, não pode fazer diferenças, na prática, entre uns e outros.
4. Continuam a ser notícia diariamente histórias de choque de abusos sexuais dentro da família. Vêm muitas ao de cima nos media e vamos sabendo de outras nas escolas. Espanta-me este horror camuflado, abafado, escondido durante tempo demais para quem é vítima. Espanta-me a conivência de algumas mães - ou o silêncio porque, muitas vezes, o padrasto é um companheiro jovem e os prazeres da carne e a vaidade pessoal levam a melhor sobre o amor aos filhos. E espanta-me a leveza das penas. Circulam livremente muitos que já cometeram crimes. E voltam a cometer. Pudera, o crime até compensa.
outubro 21, 2013
Dura lex ou os trilhos da pobreza
A questão da miúda de etnia cigana expulsa de França não se resume só ao facto de ser cigana - mas ao facto de ser cigana com poucos recursos socioeconómicos, ou seja, pobre. Fosse ela de etnia cigana mas cheia de dinheiro e oriunda de uma família com poder que ganhava a documentação (e até a nacionalidade) num abrir e fechar de olhos. Da mesma forma, quando os imigrante são ricos, sejam sírios, palestinianos, chineses, mexicanos ou somalis, a coisa parece ser mais favorável e bem-vinda, quando são pobres são a pior das desgraças. Tudo se resume à pobreza, à ausência de poder, numa palavra, ao dinheiro. A etnia não favorece, vai-se buscar argumentos contra ao baú dos preconceitos e do medo do que não conhecemos, mas o vil metal dita as leis. Por falar nisso, a expulsão desta família e desta miúda estava na lei e o governo francês aplicou-a, é um facto. Resta saber se tudo o que é lei e é legal pode ser considerado humano e construtivo. Andam a roubar-nos à grande e à portuguesa, também, e nada mais legal (governos eleitos) e não se vê nada de construtivo, para aproximar mais a questão às nossas dores nacionais. E também está na lei as mulheres não fazerem mil e uma coisas em países das mil e uma noites e, como imaginamos, não é construtivo. Humanismo e direitos humanos andam, também aqui, longe. E tantos outros exemplos haveria para dar.
Aqui como em outros casos, a lei é dura e a pobreza é muita. Ou a lei é dura porque a pobreza é muita. Essa é que é essa.
Aqui como em outros casos, a lei é dura e a pobreza é muita. Ou a lei é dura porque a pobreza é muita. Essa é que é essa.
outubro 20, 2013
O tocante
Não sei se foram aqueles olhos, aquele rosto bonito, inesperado, aquela dignidade que se alicerça em sensibilidade, preocupação e amor maternais. Mas tudo isso, talvez, me tenha contagiado ao ponto das suas lágrimas, no fim, e como as tentou evitar e esconder antes, ao ponto das suas lágrimas quase arrastarem as minhas. Não era Diretora de Turma de miúdos no básico desde há 4, 5 anos. E como me tornei muito mais sensível a estas questões desde que eu própria fui mãe, não consegui deixar de sentir uma enorme solidariedade com esta mãe que me deixou com os olhos em estado líquido, embora, salva pelo meu espírito prático e força nestas circunstâncias, as lágrimas não tivessem rolado. Mas este post não é sobre mim, de longe, mas sim sobre mães que amam os seus filhos e que sofrem com as suas juvenis escolhas, próprias da idade, algumas vezes, de desacertos emocionais, outras, da influência das más companhias, tantas, de conflitos familiares, também.
A postura dela foi sempre correta, dialogante, recetiva, sensível. Quero muito ajudar o miúdo. Disse-lho. Ela está perdida no sentido em que não sabe o que fazer nem percebe o que se passa para o filho estar como está - porque é difícil perceber. Viu-se que as palavras tinham de ser reconfortantes, de apoio, de trabalho em conjunto, atento, vigilante mas tolerante, ao mesmo tempo que atuante. A luz que lhe emanava do rosto contrastava com a sua dor. Nenhum progenitor gosta - gostará - de vir à escola e não receber as melhores notícias sobre os descendentes. Mas se há quem negue e recuse o problema há quem o reconheça e com ele sofra, de forma transparente, sem filtros de espécie alguma. Digna e calma, sempre. E, depois, quando o garoto se foi, não aguentou mais e chorou. Mas as lágrimas chegaram de uma forma genuína, que queria travar, eu era uma desconhecida e não é fácil. Não é fácil ser mãe, educar, mesmo se o fazemos mais ou menos bem, ou até muito bem, pode haver coisas que nos ultrapassam. Uma mulher simples, linda, que me tocou muito. Resta saber se o aluno quer ajuda e quer colaborar. Deveria fazê-lo, pela mãe, e sobretudo por ele próprio. Torço por eles. Toquei-lhe no braço ou no ombro e disse-lhe vai tudo correr bem. Há palavras que têm ser ditas, em certos momentos. Só me resta acertar, por eles.
Depois, já ao fim da manhã, entrou outra mãe, também preocupada e atenta ao filho. Acrescente-se que se trata de pessoas com vidas difíceis, a vários níveis. As notícias eram boas, muito boas. Parece que o passado ficou lá para trás, onde deve estar, e o menino está bem no presente, quiçá a delinear já um bom futuro. Também vi lágrimas no rosto desta mãe, de alegria, de alívio, de um medo que existia e que ali se atenuou, como num catarse inesperada. Sacudindo algumas dores interiores. Digna, educada, limpidez no rosto e nas palavras, amor de mãe puro. Que feliz fiquei - e estou - por ela.
A manhã acabou assim, com dois momentos tocantes. Para acreditar que há esperança, porque há sempre gente boa, genuína, que tenta fazer o máximo, nem sempre o conseguindo. Nestes momentos, que no fundo marcaram o meu dia, também volto a acreditar que gosto de ser professora.
outubro 19, 2013
O hilariante
Este é o primeiro de dois posts seguidos. O objetivo? Bom, dividir os pais que se deslocam à escola em duas categorias: a hilariante e a tocante. Começo pela primeira. Porque de tão mauzinhos nos fazem rir. Temos de converter as pequenas desgraças em gargalhadas, é um bom princípio para se manter a sanidade mental, especialmente para quem é diretor de turma, como eu este ano, de um CEF. Na verdade são dois em um, que fica muito mais barato ao governo; desta forma temos 29 alunos juntos nas disciplinas teóricas (aquelas de que eles mais gostam, estão a ver) e desdobrados nas técnico-práticas. Continue-se.
Ontem, apareceu-me uma mãe (não há preocupação nenhuma, desconhecem por completo este blogue e assim continuarão) a culpar os professores pelas desgraças do filho desde os 12 anos. Ele atingiu a maioridade e vem - vinha - com um historial complicado de falhanços escolares por ter fundamentalmente revelado interesses divergentes dos escolares. Mesmo muito divergentes. A senhora, sobre quem eu já tinha sido avisada, falou do alto das suas arrogantes certezas, malhou em professores anteriores (não teve tempo para o fazer em relação aos atuais, nem eu a deixaria), disse nomes e perguntou se eu os conhecia, apontou o dedo a tudo e a todos - menos a ela mesma. Estava nesta atacante toada até que tive de me impor, repare-se que ela não me deixou alternativa. Começou a baixar a crista, gradualmente, e saiu de lá lavada em lágrimas, a pedir desculpa e a dizer obrigada. Não usei métodos anti-amnistia internacional, apenas fui levando a conversa para onde deveria ir - e como deveria ser de acordo com as circunstâncias. O garoto, acrescento, meteu-se em trabalhos mas gostava dele, tinha um potencial enorme em muitos aspetos. Mas percebeu-se claramente que em casa não o educam, apenas o protegem de forma errada. Educar é muito difícil e ser mãe também. Mas sobre isso falarei no post dois sobre esta matéria. Esta história, entre muitas, só nos diz que, realmente, muitos são muito bons para os pais que têm.
Ontem, apareceu-me uma mãe (não há preocupação nenhuma, desconhecem por completo este blogue e assim continuarão) a culpar os professores pelas desgraças do filho desde os 12 anos. Ele atingiu a maioridade e vem - vinha - com um historial complicado de falhanços escolares por ter fundamentalmente revelado interesses divergentes dos escolares. Mesmo muito divergentes. A senhora, sobre quem eu já tinha sido avisada, falou do alto das suas arrogantes certezas, malhou em professores anteriores (não teve tempo para o fazer em relação aos atuais, nem eu a deixaria), disse nomes e perguntou se eu os conhecia, apontou o dedo a tudo e a todos - menos a ela mesma. Estava nesta atacante toada até que tive de me impor, repare-se que ela não me deixou alternativa. Começou a baixar a crista, gradualmente, e saiu de lá lavada em lágrimas, a pedir desculpa e a dizer obrigada. Não usei métodos anti-amnistia internacional, apenas fui levando a conversa para onde deveria ir - e como deveria ser de acordo com as circunstâncias. O garoto, acrescento, meteu-se em trabalhos mas gostava dele, tinha um potencial enorme em muitos aspetos. Mas percebeu-se claramente que em casa não o educam, apenas o protegem de forma errada. Educar é muito difícil e ser mãe também. Mas sobre isso falarei no post dois sobre esta matéria. Esta história, entre muitas, só nos diz que, realmente, muitos são muito bons para os pais que têm.
Para terminar a rir à valente, o relato, ouvido também ontem, sobre outra mãe que se deslocou à escola para falar com um colega. Estava a falar a senhora com o diretor de turma e chamam o garoto em questão. Este começa a falar alto, a desafiar a mãe e mesmo a dizer palavrões. Diz-lhe a mãe: "cala-te já, olha que não estás a falar com os teus professores". É isto.
outubro 16, 2013
O que é preciso e o que não é
Não é novidade nenhuma mas o jornalismo televisivo, sobretudo os dos canais generalistas, é cada vez pior. Na sexta, dava uma aula sobre o poder dos media e, ao mostrar o trailer do filme "Mad City", acabei por fixar e registar esta pergunta paradigmática no quadro: is the news what we need to know or what we want to hear? Anda-se, há tempos demais, a dar aquilo que se pensa que se quer, ao invés daquilo que é preciso saber. Tudo pelo espetáculo, nada contra o espetáculo, tudo pela melhor história, nada pela verdade. Pessoalmente, não quero aquilo que nos dão. A mesma visão, o mesmo ângulo de sempre, as histórias vistas apenas parcelarmente, o desconhecimento daquilo que as faz surgir, as leituras erradas, imediatas, especulativas, sensacionalistas, mentirosas ou incompletas. Pessoalmente, cansa-me associar os comportamentos e os acontecimentos, sobretudo os nefastos, a estereótipos e a preconceitos repetidos, consciente ou até, se possível, inconscientemente. Bom, vou mais pela primeira hipótese. Pessoalmente, gostava que nos dessem a conhecer outras realidades no terreno, outros estares, outros sentires, para que a impressão fosse fidedigna, real e mais perto da totalidade. Bem sei que pode dizer-se que quem procura encontra, que quem quer saber mais, e melhor, consegue, que há alternativas ao mainstream, mas a maioria não sabe fazê-lo. Ou não pode, perdida em afazeres que deixam entrever apenas os jornais da noite para alguma informação ou renitente em ter mais do que os canais sem ser por cabo. Que pode passar pela incapacidade financeira em comportar mais essa despesa. E, nada de novo, mas velho demais. Ou seja, o assunto, aqui, é o mesmo de sempre. Para o pior. Mad media.
outubro 14, 2013
Fúria de viver
Pouco interessam as causas. Convém combatê-las, é certo, mas neste momento pouco (me) interessarão. Até porque isto (o trágico episódio de hoje em Massamá) pode surgir, como vai surgindo, repentinamente, sem aviso nem permissão. Ninguém está imune, ainda por cima. Nenhuns pais, nenhuma escola, nenhum tipo de educação, nenhuma zona ou região, nenhuma raça. E isso é que é tremendamente assustador.
Os véus de dentro
Assim que abri o Google vi e li que houve uma manifestação anti-imigração na Rússia. Vítimas, muitas, e o slogan "A Rússia para os russos". Racismo a juntar-se, porque pelos vistos estão contra os imigrantes oriundos das antigas repúblicas soviéticas, no tempo da urss (ou ussr ou cccp, é só escolher a língua). Estes não devem ser "brancos", naturalmente. A Rússia está, é, cada vez mais igual aos Estados Unidos, aqui na vertente wasp. Mas o mais peculiar é que os russos emigram e muito. Ou seja, saem de dentro para fora, como nós em Portugal até sabemos por experiência própria. E penso que gostam de ser bem recebidos; eu cá, e obviamente sem ironias de qualquer espécie, gosto de os receber bem e de receber bem qualquer um que escolha (por extrema necessidade ou opção) o país onde nasci e vivo para trabalhar e viver. Portugal aos portugueses é algo que me deixaria (e deixa) chocada. Como a França aos franceses e o Brasil aos brasileiros. E mais umas largas dezenas de nações e nacionalidades a proferirem o mesmo. Se há coisa que me deixa ultra sensibilizada é a imigração, como já aqui fiz sentir, tantas vezes, neste blogue. E, de igual forma, a emigração, a forçada, a que não teve alternativa alguma para não vir a ser real. Posto isto, qual a diferença entre emigração e imigração? A primeira é coitadinhos, a miséria que isto está, não há emprego, e a segunda é desgraçados, vão embora, vêm roubar os nossos empregos e conspurcar a raça? A primeira recebe um sensível lamento e a segunda um agressivo "fora"?
Ao que parece, por detrás desta movimentação xenófoba e racista, houve um assassinato cometido por um imigrante. Esta costuma ser, aliás, uma das desculpas para justificar o vão-se embora voltem para a vossa terra. Os nossos podem matar mas os outros não. Os nossos podem ser falíveis mas os outros não. Porque quando os nossos matam são maus mas quando os outros matam são muito piores. Em qualquer parte do mundo, que isto não é exclusivo de ninguém, embora se pense que sim. O mal, e já o afirmei aqui no AE, não tem cor nem bandeira. A extrema direita cresce a olhos vistos por essa Europa fora. E noutros locais existem outras formas de superioridade cultural e nacional que separam e dividem, o nós e eles. O mundo anda conflituoso porque as pessoas cultivam os conflitos. A mistura das diferenças, fruto do avanço tecnológico e da globalização a vários níveis, complica muitas cabeças. As pessoas não estão preparadas para o mix, por desconhecimento e porque os media fabricam demónios, por contraposição aos anjos. As pessoas pensam que são livres, porque mais livres deveriam estar, mas carregam burqas interiores.
Ao que parece, por detrás desta movimentação xenófoba e racista, houve um assassinato cometido por um imigrante. Esta costuma ser, aliás, uma das desculpas para justificar o vão-se embora voltem para a vossa terra. Os nossos podem matar mas os outros não. Os nossos podem ser falíveis mas os outros não. Porque quando os nossos matam são maus mas quando os outros matam são muito piores. Em qualquer parte do mundo, que isto não é exclusivo de ninguém, embora se pense que sim. O mal, e já o afirmei aqui no AE, não tem cor nem bandeira. A extrema direita cresce a olhos vistos por essa Europa fora. E noutros locais existem outras formas de superioridade cultural e nacional que separam e dividem, o nós e eles. O mundo anda conflituoso porque as pessoas cultivam os conflitos. A mistura das diferenças, fruto do avanço tecnológico e da globalização a vários níveis, complica muitas cabeças. As pessoas não estão preparadas para o mix, por desconhecimento e porque os media fabricam demónios, por contraposição aos anjos. As pessoas pensam que são livres, porque mais livres deveriam estar, mas carregam burqas interiores.
outubro 13, 2013
Os olhos da cara

Há dois dias trouxe para casa uma revista feminina, o que não fazia há tempo. Pouco me interessou, a não ser a crónica do PRD relativa à maioridade do filho (como as suas palavras são sempre certas, serenas, afetuosas, nem a mais nem a menos) e um artigo sobre uma tendência necessária, eco-friendly e sensata, o downsizing. Hoje, enquanto esvaziava mais um pouco um armário, pois escolhia alguma roupa do pequeno para dar aos primos, lembrei-me do artigo. Toda a razão e lógica pela sensatez e despojamento. Foram estas as coisas que retive da revista, tudo o resto é absolutamente superficial e pouco razoável, até. Explicando, não faz para mim muito sentido (embora só compre quem quer e quem pode, eu é mais não quero e não posso) estar a olhar para sugestões de moda e beleza coladas a preços perfeitamente inaceitáveis nos dias pincelados a crise que vamos atravessando. Hidratantes a cem euros, botas a quinhentos, pulseiras a mil, e outras coisas mais a preços mais ainda, enfim, uma panóplia de produtos que custam os olhos da cara para muitos de nós. Se é certo que os olhos (também) comem e que, infelizmente, para irmos a algum lado temos de não descurar ou investir na imagem, a verdade é que me choca ver tanta ostentação, ou melhor, propagação de estilos de vida que em nada se assemelham com o que a maioria das pessoas, particularmente neste momento, pode ter ou vir a usufruir. Pode argumentar-se que são apenas sugestões e que os "fashionistas" mais espertos e mais pelintras podem adaptar as tendências a preços muito mais acessíveis, mas não deixa de me irritar esta constante e crescente atenção que se dá às grandes marcas e às multinacionais da moda e da cosmética, nomeadamente, através dos media. Uma revista feminina, para além disso, com apenas dois temas interessantes e construtivos é muito pouco. Por isso as deixei de comprar, seriam incomportáveis numa base diária. Há, ainda, artigos absolutamente carenciados de pesquisa, de verdade e de conhecimento. Este tipo de imprensa alivia, distrai, é certo; o nosso lado vaidoso, por exemplo, gosta de espreitar o que se usa, mas nada mais. Pelintra e a milhas e milhas de ser uma fashion victim, os meus olhos precisam de outro tipo de estímulos para continuarem deslumbrados. Precisam mesmo de ir para além da cara.
outubro 12, 2013
Xenofobia e a polissémica ignorância

Há dias dei aqui conta de uma surpreendente nota positiva acerca do naufrágio trágico e assassino em Lampedusa. Ficara positivamente surpreendida com o teor humanista dos comentários à notícia online, tão pouco habitual no habitual vomitório (esta expressão roubei-ao ao Pedro Correia do Delito de Opinião) que carateriza as reações de quem aparece a comentar este ou outro tipo de acontecimento.
Pois bem, passados poucos dias, a tragédia repete-se (também dissera, nesse post, que não era nem é novidade, é infelizmente um problema que persiste há anos e anos). Repete-se, não com a envergadura da anterior, é certo, e ainda bem apesar dos pesares, mas aí está mais um triste episódio próprio de quem vive à margem e tenta alcançar a outra margem. Pois bem, digo novamente, desta vez o teor dos comentários é do pior possível. Desumanos, ignorantes, racistas, etnocêntricos, cruéis, xenófobos. E se há coisa com que eu não possa (e que faz rebentar toda a minha zen paciência em outras áreas) é com isto. Não posso com gente xenófoba, assim, declaradamente, assumidamente. E nem quero saber se com isso se perdem leitores, amizades ou até amores.
Quando tinha 23 anos, num casamento de uma amiga que casou muito jovem, no meu livre julgamento, arranjei um pretendente de Lisboa. O rapaz era muito simpático, com uma autoestima imbatível, sorridente, entusiasta. Era polícia, tinha para aí uns 27 anos, ao que me lembro. Veio a Aveiro de propósito algumas vezes para estar comigo e lá saímos, pois, algumas vezes. Eu já era uma rapariga exigente e complicada nestas coisas do coração, do género para alguém chegar até lá tem de passar pela minha cabeça primeiro. Vai daí que o rapaz começa a falar de política, numa altura em que eu ainda era algo revolucionária e mais politizada. Não tínhamos a mesma opinião mas tudo bem. Acontece que a conversa resvalou para a colonização e para a imigração. Oh, meus queridos amigos, o que ele foi dizer. Quase nos zangávamos ali mesmo.
Saídos do Bombordo, Praça do Peixe, já não me lembro o que disse ou dissemos. Quando me encontrei com a minha amiga, disse-lhe, Elsa, diz-lhe que estou interessada noutra pessoa. A Elsa, super intelectual e devoradora de livros, que não gostava muito dele, anuiu de imediato. E assim acabou o meu romance que não chegou a sê-lo. Não sou muito normal, eu sei, mas sabem que mais? Não me lembro do nome do rapaz. Isso diz muito quanto a ele me ter marcado. Ah, e depois, casei com um estrangeiro. Um grande chato, é certo, mas porque é homem. Just kidding. Já não se pode brincar é com a desgraça daqueles de quem eu falava acima. Gente sem coração, os que li. E sem cabeça. A ignorância, polissemicamente, é uma tristeza. Ignorar é (muito) triste.
outubro 11, 2013
Muro das lamentações
Não se percebe como dizem haver funcionários públicos a mais - e, neste caso, professores -, como, dessa forma, são dispensados milhares e como, a seguir, se aumenta a carga horária semanal.
Não se percebe como a avaliação dos docentes tão apregoada para premiar o mérito não tem valor absolutamente nenhum; há quem tenha trabalhado muito e muito bem, de forma excelente, na verdade, e tenha no ano a seguir ido parar a 400 kms longe de casa.
Não se percebe como trabalhando cada vez mais, em condições cada vez mais adversas, se ganha cada vez menos. Mais uma tesourada de 10%, mais outra no subsídio de refeição e outra no valor cobrado para a assistência médica. Daqui a pouco estamos de volta ao início da carreira.
Não se percebe como a almejada qualidade do ensino se pode alicerçar na completa desresponsabilização dos alunos, nomeadamente recuperação de faltas sem justificativa válida, na exigência de metas de sucesso praticamente a 100%, nas trocas e baldrocas sistemáticas na legislação e consequentemente nas práticas educativas, nas turmas de 30 alunos ou maiores ainda (sim, nas línguas, isto existe) e em muito mais.
Percebe-se, contudo e como resultado, o estafanço e desânimo que já se fazem sentir nas escolas, pouco naturais para inícios de outubro.
Não se percebe, já agora, como ainda aguentamos. Não se percebe, para mais, como a paciência ainda não se esgotou completamente. Mas percebe-se, é um facto, que já faltou mais.
(Não querendo tornar, apesar de tudo, este blogue num queixume profissional constante, cá fica mais um post tocado pela maré da revolta na esperança de que algum jornalista por aqui passe e possa, com mais uma gota, dar eco do mar de adversidades em que andamos mergulhados.)
outubro 09, 2013
Não basta querer
Por vezes, não basta termos confiança em nós mesmos. Não basta acreditarmos que podemos mudar algo ou alguém. Não basta acreditarmos que podemos fazer a diferença. Por vezes, não bastamos nós. Não basta a nossa vontade, a nossa fé, a nossa força. Por vezes, outras coisas impossibilitam tudo isto. Por vezes os obstáculos são maiores do que a nossa capacidade. Por vezes os outros, não querendo, não vão mudar. Mesmo gostando de nós, coisas outras existem que os levam para onde não deviam ir. Por vezes os outros gostam de nós mas não de si próprios. E ninguém muda se não quiser, se não vier de dentro, se não tiver o desejo de mudar e ganas para o conseguir. Posto isto, que fazer? Desistir é uma possibilidade, acreditar, ainda assim, é outra. No final, haverá um resultado. É esperar para ver. A esperança mantém-se embora não baste. Não basta e, no entanto, alimenta os dias. No final, se se salvar apenas um, o nosso esforço não terá sido em vão.
outubro 08, 2013
Eu hoje também acordei assim
A direção de turma de duas turmas CEF em uma (sim, são trinta numa sala), o aumento para as 40 horas de trabalho em escolas que não estão preparadas para laborarmos desta forma, os trabalhos de casa do pequeno, diários, e muito bem, e aos quais tenho de estar atenta, as reuniões intercalares pós-laborais esta e a outra semana, a papelada interminável para tudo e nada e, por último mas não menos importante, as tarefas de casa que nunca findam deixaram-me assim:
Ao menos há que rir das nossas pequenas arrelias em dias arreliados, até porque são coisa pouca em dias mais aliviados. E rir ainda é o melhor remédio. Quem ri seus males espanta; não rima mas anima. Oh santa irreverência que (me) faz tanta falta. Isso e o jantarinho pronto, claro. Por falar nisso, is there any cook out there?
outubro 07, 2013
Ou uma ou outra ou até nenhuma

É curioso ver como o PSD é um partido onde há frequentemente fortes lutas internas e posições vindas de dentro que são autênticas oposições. Antes de criticarmos ou celebrarmos, vale a pena saber qual das duas análises seguintes será a verdadeira. Ou isto significa que a luta pelo poder é feroz, que os barões e as elites não brincam em serviço, que os egos são bem maiores do que o coletivo, que a noção de lealdade lhes passa ao lado ou significa isto que aqui há uma clara independência que não se vê noutros partidos, que as ideias individuais ainda contam, que não existe o culto da personalidade, nomeadamente do líder, que há maior liberdade em discordar sem a obediência cega de outros. Ora após isto, cada um que escolha a verdade que lhe convier e que o faça mais feliz. É possível que haja verdade até nas duas. Ou, não percebendo eu nadinha disto, que não haja verdade nenhuma.
(A)Normalidades
Em Espanha, ao que li, um tribunal deu razão ao professor que tinha tomado o telemóvel de um aluno por suspeita de conteúdo sexual impróprio. Até aqui, tudo normal. Um aluno que espreita o que não deve na aula, um docente que lhe apreende o telemóvel, um tribunal que, o bom senso prevaleceu, dá razão ao professor quando acusado de violação da privacidade do discente. O não normal? Um pai que leva o caso a tribunal por considerar que a esfera privada do filho, na escola, é intocável e assim há que penalizar quem se atreveu a desafiá-la. Que os pais protejam os filhos é normal, anormal seria não o fazerem, que os pais se preocupem com os filhos é normal, que os pais defendam a privacidade dos filhos é normal. Anormal é pensar que um professor não é educador, anormal é considerar normal o conteúdo do telemóvel a circular na escola, anormal é não se preocupar com as escolhas inoportunas do seu educando, anormal é a permissividade face ao necessário controlo educativo, que deveria começar a partir de si mesmo, anormal é castigar alguém que tentou proteger o seu filho e outros filhos de problemas eventualmente maiores. Normal é a moda de bater no professor. Anormal é a forma de educar os miúdos na mais completa ausência de responsabilidade parental.
outubro 06, 2013
O mundo de Orwell
Não é só porque o espírito Big Brother reside num programa de televisão que, a partir daí, viu outros semelhantes lhe seguirem. Não é só porque esse espírito se alimenta e alimenta o voyeurismo das massas e a máquina do poder, se pensarmos em todos os sistemas de escuta, de observação via câmaras, de controlo do quotidiano. É fundamental e perigosamente porque se vive em tempos em que a esfera do privado é controlada de forma totalitária, sem margem para a escolha e para o livre arbítrio naquilo que é e devia ser íntimo e pessoal. Na China, uma mulher é levada durante a noite para um hospital onde é obrigada a abortar. Está - estava - grávida de 6 meses. O marido só a verá depois, já de manhã, após a perda do filho. Em reportagem para a televisão, estão ambos lavados em lágrimas. O seu crime? Desafio à política de um só filho - que apenas permite o segundo nascimento quando o primogénito é uma menina. Política que tem causado desastres a nível social, com milhões de homens (privilegiando-se o filho varão, e imaginando-se o que é feito para assegurar essa preferência) sem namoradas nem esposas. A intimidade desventrada por agentes governamentais. A liberdade de escolha - escolha em prosseguir com uma gravidez - assassinada por poderes políticos. Um exemplo chocante de totalitarismo cruel, inibidor da vida. E, o problema reside aqui, não se trata de ficção. O futuro, aquele que não queríamos imaginar para lá das páginas de um romance, o futuro, impessoal e desumano, está aqui.
outubro 04, 2013
Amores e medos
Não está completamente claro, portanto agradecem-se contribuições para o esclarecimento, se o ciúme que nós sentimos, se o sentimos, deriva do amor pelo outro e do medo de o perdermos ou do amor próprio e do medo do orgulho ferido.

outubro 03, 2013
À margem

Tive há pouco conhecimento do naufrágio de mais uma embarcação de imigrantes às portas da Europa. Li a notícia, que me chocou - mais uma, deste tipo - e comoveu profundamente. Este é um problema que persiste, fruto das profundas desigualdades entre nações, de políticas corruptas e opressoras, de condições indignas, de sobrevivência no limite. Chegam, alguns conseguem, muitos não - por variadíssimas razões - mas hoje, neste caso, nem puderam tentar. Mas, no meio da notícia, que li online, vi pela primeira vez uma nota positiva. Os comentários, que tantas e tantas vezes são cruéis, perversos, doentios e carregados de ódios e preconceitos, desta vez perpassaram humanismo, solidariedade, compaixão. Péssimo seria se perante uma tragédia destas o fator humano não vencesse sobre o resto. Pois trágica e péssima é a travessia que não deixa quem sonha chegar à outra margem.
(Entretanto, a TVI abre com um tiroteio nos EUA e as outras com a troika. Isto diz muito da indiferença em relação ao problema da imigração. A não ser que os imigrantes (emigrantes) sejam portugueses, claro.)
outubro 02, 2013
De caras
Há uma semana ou mais dei de caras, no livro das caras, com a notícia de que a França se preparava ou prepara para proibir os concursos de beleza para crianças. Sinceramente, é uma boa notícia. Por muito inocentes que possam ser as intenções, nomeadamente dos pais que as inscrevem, orgulhosos, naturalmente, das caras larocas dos seus rebentos, a verdade é que a obsessão pela beleza começa a desenhar-se mais cedo. Já chega o culto da imagem e os sacrifícios em nome da perfeição física na idade adulta (modelos, concursos de misses - li também um interessantíssimo post há algum tempo sobre as raparigas venezuelanas obcecadas pelos concursos femininos daquele país). Quanto mais se retardar - a não ser possível evitar - esta preocupação excessiva pela beleza melhor. Para além disso, a infância é, devia ser, uma fase de brincadeira, de despreocupação, de reinação sadia, de inocência livre. Não podem elas, as crianças, ser escravizadas em nome do trabalho, do rendimento familiar, da fama e da beleza. Bom seria que os pais compreendessem, de vez, isto. Devem preocupar-se estes, sim, com a educação, com o afeto, com as coisas de que elas precisam e merecem. Tanta coisa para ver, sentir, fazer, haja tempo e vontade. O que se pretende, afinal? Adoramos os nossos filhos - e são sempre lindos, os mais lindos, a nossos olhos -, as crianças são ainda o melhor do mundo, não as estraguemos, pois, com perigosas superficialidades. Quem vê caras não vê corações, sabemos. Que tal, então, desde tenra idade, preocuparmo-nos mais com estes?
outubro 01, 2013
Prisão e prazer
Mães dizem-me, na escola, que os filhos não gostam de estar presos. Alunos dizem-me, em igual local, que não gostam de estar presos. Uma e outra vez. Ora, eu também não gosto de estar presa. Abalam-se-me as estruturas, é um facto. Estar preso é algo que realmente não apraz a muitos registos de personalidade. Há quem precise de espaço e de se sentir livre para ser feliz, nada contra, como poderia, entendo-o perfeitamente. Mas a verdade é que descobri isto, sobre mim, não enquanto era adolescente - no liceu - e muito menos sentada nos bancos da primária ou do ciclo (naquele tempo chamávamos assim às escolas). Descobri isto mais tarde, com a consolidação do caráter, por vias da maturidade que ainda não é, a meu ver, compatível com estados de adolescência. Ou seja, até o descobrir (para o bem ou para o mal), consegui sentar-me e com gosto numa sala de aula, estive sossegada (bom, quase sempre), atenta e participativa. Fui respeitadora, paciente, concentrada. Mesmo sendo divertida, mesmo não apreciando todas as disciplinas ou o modo como foram lecionadas. E independentemente de ter já o meu feitio e o caráter adulto em construção.
O que se passa, hoje, então? Os alunos dizem-se, e os pais dizem-nos, sedentos de espaço e liberdade, tão naturalmente, tão cedo, tão precocemente. E aceita-se isto como um dado adquirido que não pode ser melhorado, como quem diz são assim e nada há a fazer. E tudo isto como justificativa para a desconcentração na aula, para o não gostar da sala de aula, para o não se interessarem pelas matérias que os obrigam a estar sentados entre quatro paredes. O que nos diz isto, também, acerca das novas gerações? Ou, talvez melhor, o que nos diz do tipo de sociedade que está a criar estas novas gerações? Pode dizer-se que se dá muita importância aos sentimentos dos miúdos, como nunca se deu antes, e que isso é bom. Ou que é mau, porque se centraliza tudo em volta dos egos em detrimento dos valores, da boa educação, da cidadania, do esforço. Diz-nos também que estamos a promover a cultura (da prioridade) do prazer, por total oposição à noção do sacrifício, necessário, inevitável. E ainda nos diz que o ensino passou do oito para o oitenta, se dantes se regia sob o magister dixit, agora os alunos ditam as regras, mesmo que erradamente, apoiados pelos seus pais, que ressalvam a sua natureza para justificar e anuir aos seus caprichos e indesejáveis comportamentos.
setembro 30, 2013
O mau estado da nação

Não vi a noite eleitoral de forma completa porque tive de preparar o jantar, arrumar a cozinha, deitar o pequeno e depois preparar aulas. À segunda começo logo ao primeiro tempo, aliás como quase sempre. Estive na escola desde cedo, ocupada entre aulas, contactos com encarregados de educação, papelada administrativa das 2 direções de turma, e agora vim ver os resultados e a informação disponibilizada online sobre a matéria. Sou uma leiga nestes assuntos mas como sou livre e estou na minha casa, aqui ficam as minhas primeiras impressões a propósito das autárquicas e do que li por aqui na internet.
1- metade do país não foi a votos. É uma brutal abstenção e contribui negativamente para o exercício da cidadania responsável e da democracia, que não é perfeita, mas que nos deixa participar em momentos como estes. Falamos à boca cheia das ditaduras que vão por aí mundo fora, dos direitos violados, de vários tipos de opressão, mas depois quando temos a possibilidade - e a liberdade - de opinar, de marcar uma posição, de mudar os acontecimentos, que fazemos? Ignoramos, chutamos para canto. O que se espera com este comportamento? Dizer que espelha o descontentamento e desilusão com a política? Possível, mas e qual é a solução, então? Não vamos lá desta forma, parece-me. E espanta-me mais ainda porque diz respeito a aspetos diretamente relacionados com o local onde vivemos, com a qualidade de vida ou não que também passa pelas práticas do poder local. Não sei se compreendo esta indiferença, esta forma de protesto ( a sê-lo, duvido).
2- não foi a votos e, pior, o país pôs-se a ver o reality show que considero inenarrável e que, infelizmente, inicia mais uma temporada. Como pode uma nação abster-se de se interessar pela organização da sua vida pública e quotidiana? Como pode um povo afundar a sua responsabilidade civil em programas de duvidosa qualidade que são o oposto de modelos de conduta para toda uma geração? Como podem, depois, estas pessoas ousar reclamar, pedir, queixar-se, quando o exercício de uma consciência coletiva e individual lhes passa completamente ao lado? Tenho sentido de humor e nada tenho contra o entretenimento. Contra o bom entretenimento, que eleva o espírito e que desperta o melhor das pessoas. Que nos faz rir, descomprimir e soltar os nossos demónios. Já não compactuo com a vulgaridade, a boçalidade, a estupidez, a burrice, o despudor descarado propositadamente ostensivo (e ofensivo?). Triste país este que promove estes paradigmas da inversão de valores e prioridades.
3- temos um novo mapa cor-de-rosa, na grande maioria das localidades. Não deixa de ser um cartão amarelo, amarelíssimo, ao eixo governativo. Sabemos que em questões autárquicas, por vezes são os nomes, as figuras e o seu bom trabalho (ou mau) que arrastam os votantes. Terá ainda acontecido desta forma em muitas localidades. Mas não deixa de significar uma amostra da insatisfação crescente com os governantes. O descrédito atual dos partidos também se revela através dos independentes e das suas surpreendentes vitórias. Pessoalmente, penso que o slogan do Porto estava extraordinariamente bem conseguido. O partido é o Porto, e veja-se no que deu. O futuro virá e dirá, mas não deixa de transparecer a vontade de dar um pontapé na política mais alinhada e sectarista. Ainda não vi nem li a reação do PM sobre estes resultados. Quanto à CDU, reforçou-se e o BE quase... desaparece? Neste, não aprecio a liderança bicéfala e considero a Catarina Martins (com cujo pai já trabalhei numa escola) uma fraca escolha.
Para onde vais? Eleições autárquicas. Donde vens? Eleições autárquicas. Donde vens? De um país com muitos problemas. Para onde vais? Para um país com muitos problemas...
setembro 29, 2013
Romantic mode
E esta foi a minha banda sonora para este fim de semana. É verdade, também sou um bocadinho isto.
(não costumo postar aqui este tipo de música mas o meu ladinho british por defeito de profissão e o culto dos anos 80 fazem-me gostar, muito e ainda, dos Depeche Mode)
Loisas e coisas

Não estou - devia estar? - preocupada porque não tenho estado a refletir.
Vi mais televisão hoje, e não foi muito, do que vejo habitualmente num mês. Dei uma volta pelas telenovelas portuguesas e, justiça seja feita, a nossa ficção tem evoluído muito. São é muitas, à mesma hora, e a quantidade só baralha.
Considero inacreditável o nível de insultos e de estupidez que vejo nas caixas de comentários dos (excelentes, hiper excelentes) textos do Daniel Oliveira no Arrastão. E como ele responde a um ou outro comentário, imagino que os lê todos. É dose...
A prova de acesso para ingressar na carreira docente peca por duas coisas: passa um certificado de incompetência às universidades e promove a desigualdade. No dia em que os governantes e ministros da educação também a fizerem pode ser que tudo seja mais igual. Ou então que as universidades chumbem mais. Que os liceus chumbem mais. Que a primária chumbe. E que o PR, pois então, chumbe esta mirabolante ideia.
Andei a ver fotografias de decoração online, no FB. Decididamente sou mais El Mueble do que Interdesign Interiores. Esta última abordagem ao décor é muito moderna, muito in, mas o minimalismo acaba por cheirar-me a hospital em muitas das suas criações. Não há vida; tudo simétrico, sintético, absolutamente estético, mas decoração sem madeira, sem fusão de estilos, sem exotismo, sem criatividade colorida, sem calor, ná. Prefiro o estilo mediterrânico, onde é mais fácil encontrar isso tudo. Portanto, nem clássico barroco e pesado nem minimalista hospitalar e frio. Diversidade, conforto e alma devem ser as palavras...
(6 etiquetas para um só post é record absoluto aqui no AE. Agora que reparo. )
setembro 27, 2013
Filhos de uma família menor
Hoje aconteceu estar a falar com uma colega nova na escola e ir-se até ao tema dos filhos únicos. O que eu lhe disse, face à preocupação dela a este propósito, foi o seguinte: ninguém pode afirmar com certeza absoluta, ou com certeza não absoluta, que alguém com irmãos será forçosamente mais feliz do que alguém que não os tenha. Pois disse.
Para lá da partilha, das gargalhadas, da cumplicidade, de todas as alegrias que os irmãos, de facto, trazem, há uma noção de felicidade pessoal e de percurso individual que vai para além das fronteiras familiares deste tipo. Sobretudo quando se cresce. Nada, nada garante que quem viva estas alegrias não possa ter dores maiores, presentes ou, ainda mais, futuras, que lhe ensobrem a existência. Seria fácil, muito fácil, se a solução para as infelicidades e males do mundo passasse por uma coisa desse género, toda a gente, à partida e podendo, acorreria a ter mais do que um filho. Relembremo-nos também das pessoas que nem sequer os têm - por opção, aqui - e não serão mais infelizes por isso. E, do mesmo modo, nada provou nem prova que os filhos únicos venham a sofrer mais do que os não filhos únicos. Há um estigma social, meio a brincar meio a sério, que ainda considera que filho único é sinónimo de maluquice, ou de egoísmo. Mas então como explicar os desequilíbrios de quem o não é? Não ter irmãos é não viver muitas formas de contentamento companheiro e genuíno. É estar mais só, carregar todas as expetativas dos progenitores, viver no silêncio. Mas é também não ter uma panóplia de chatices, conflitos e dores alheias que acabam também por ser nossas. Basta observar à nossa volta, espreitando o mundo adulto. É, será, maravilhoso ter mais do que um filho assim como pode ser e é maravilhoso ter um. Que um único filho não signifique, na opinião das pessoas, uma espécie de determinismo trágico, que só causa angústias ou aflições ao visado ou, pior, que o torna pior pessoa.
Infelizes podem ser ou vir a ser todos. Felizes são os que têm uma grande família feliz e felizes são os que têm uma família pequena feliz. E felizes serão uns e outros, ao construírem as suas próprias vidas e, certamente, famílias. Não necessariamente, mas possivelmente.
setembro 26, 2013
Mundo do trabalho
Os criativos perdem frequentemente - quero acreditar que não sempre - para os legalistas. Nem sequer se trata de saber quem é mais preciso, trata-se de saber que quem não segue aquela e a outra regra, por muito sentido que não (lhes) façam, é simplesmente albaroado.
Modus vivendi
Ilumina a noite e no entanto deixa a noite cair
Não travemos o tempo enquanto escolhemos o nosso tempo
Ilumina a noite até ao amanhecer
Façamos o tempo e deixe-se o resto apenas ir
O dia virá depois da noite mais escura
Virá, pois e depois da melancolia
Ilumina a noite, mas deixa-a vir
Enfrentemo-la, com bravura
Apaguem-se as luzes ao raiar do dia
Apaguem-se as luzes ao alvorecer
E apaguemos a maior agrura
A noite virá, mesmo a ritmo lento
Ilumina a noite e ilude o tempo
setembro 24, 2013
Out of Europe
Um dos meus filmes preferidos assenta numa relação que começou com a oferta de uma esferográfica - "he began our friendship with a gift", diz ela, em voz off. E depois fala da história de amor que a uniria a um homem e a um continente. Eterno, romântico, já aqui falei deste famoso filme uma vez ou outra antes.
Hoje ofereceram-me uma caneta. Foi numa papelaria, onde fui tirar fotocópias para os alunos, e o gesto pareceu-me uma simpatia, uma vez que sabem qual é a minha profissão. Não estava a sonhar com fazendas nem viagens, nem o resto, claro, era apenas uma generosidade e, por isso, apressei-me a agradecer, sorrindo, ah, obrigada, dá sempre jeito. Lá fora uma algazarra de microfones e pessoas pela rua. O rapaz sorriu, é sempre simpático, é verdade, e enquanto esperava pelo troco, rolei a caneta nas mãos para a ver melhor. Vejo umas coisas escritas, penso rapidamente que pena a caneta era tão mais bonita sem nada, e logo logo reconheço o símbolo de um partido político e respetivo nome. Ui, a desilusão. Era propaganda política, a combinar com as carrinhas, as bandeiras e a música lá fora. Não foi a generosidade que eu supusera. Não deixou de ser simpatia, se pensar que ele pensou que a caneta me fazia jeito, mas não deixou de ser campanha. Logo eu, que tenho escapado ao folclore autárquico, talvez como nunca até hoje, por várias razões. África está mesmo longe.
setembro 22, 2013
A origem das espécies
Isto realmente há pessoas e pessoas. Umas valem mais do que as outras, ou assim parece. E umas são conscientes e outras são inclassificáveis. Num dos jornais da noite, vejo a notícia do ataque terrorista a um centro comercial no Quénia. Sabia do sucedido mas ainda não tinha visto nem lido nada sobre esse horror. Mas, espantosamente, a notícia não abriu esse jornal. Fica a dúvida, se a houver : aconteceria o mesmo se este angustiante e horrível acontecimento tivesse lugar em Nova Iorque, Paris ou Madrid? Como pode aparecer uma notícia destas a poucos minutos das 21 horas? E, pior, como pode vir alinhada com duas notícias de menor impacto, sendo a última apenas um fait-divers? Fala-se da perda de vidas e do terror dos reféns e a seguir fala-se da anca do rei Juan Carlos (nada contra isso mas não me parece de todo comparável) e, pasmemo-nos, do bebé dos príncipes Kate e William como atração turística e a constar de uma lista de grande figuras. Vidas perdidas em África estão ao lado destes apontamentos? Estão. As prioridades, insisto, andam trocadas de forma transversal. Tristemente trocadas. Nada contra as celebrities, distraem. Mas, mais importante, nada contra a valorização da vida humana, venha ela de onde vier. Sobretudo nada contra a igualdade de tratamento de vítimas e tragédias. No fundo, nada contra a igualdade da espécie.
Agridoce
tenho dias em que resmungo - e muito - contra a minha condição de mulher, uma condição que me faz sentir gata borralheira quase a tempo inteiro. para os diabos a casa, as tarefas, a roupa, a cozinha, o pátio, a garagem, tudo o que me tira o tempo para explorar e aproveitar a natureza no seu esplendor. ontem e hoje estiveram dias magníficos, que ainda convidam à areia e ao mar, ao sol e às árvores, à ria (mesmo em frente) e aos campos (praticamente ao lado), ao sentir livre e regenerador que é percorrer os trilhos naturais. estiveram dias maravilhosos e eis que se me cola o limpar, arrumar, organizar, preparar refeições, e mais verbos tarefeiros acabados em ar, um rol de coisinhas chatas que podem saber bem - a saberem - apenas em dias mais frios, chuvosos, caseiros e recolhidos. o verão, ainda que pelo outono adentro, atira-me para fora de portas, o caráter solar foge das quatro paredes, e o resto, a rotina, impede-me de usufruir da natureza como gostaria.
tenho dias em que me sinto uma privilegiada, porque o sou. nesses dias maravilho-me com o que vejo em redor. como queixar-me? uma natureza plena, magnífica, cerca-me a existência, uma (para mim) elevada qualidade de vida faz-me alegrar pela escolha do lugar onde estou, olho e preencho-me, sorrio, contemplo e absorvo cenários e estímulos revitalizantes sem os quais já não posso passar. não me canso de maravilhar com o mundo, com o natural que há no mundo, com o meu pequeno mundo. que engloba também o meu pequeno. o encantamento é perene, se olhar à minha volta, havendo tempo para olhar. talvez por isso, quando não há, me sinta como no parágrafo acima. não gosto que me roubem o tempo para as minhas explorações natureza adentro. para as minhas explorações, sejam elas quais forem. mas eu estava na fase do encantamento. que não se quebre, ao menos, neste parágrafo.
e assim vão os dias, entre a resmunguice e o deslumbramento. venero setembro, por isso o deslumbramento e a resmunguice.
setembro 21, 2013
Break
Please, don´t break my heart
Don´t break up with me
My heart has been broken too many times
People already call me Breaking Benjamin
Without you I´ll surely break down
Come on, give me a break
You don´t look like the breaking type
And I´m not breaking up
All I want is to break the routine
Like breaktime, you know, essential
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