junho 04, 2014

Das determinações


Tenho andado quase completamente arredada da atualidade mas hoje lá me vi a ver e ouvir uma notícia ou outra na informação da noite, a saber, a guerra interna no PS, o cancelamento da viagem para o Brasil do PM por causa do TC, a realeza espanhola a mudar de coroa e pouco mais. Porém, também vi o início, só o início, porque depois desliguei, quer a televisão, quer da atualidade, uma realidade dos meus dias, voluntária e não voluntária, vi o inicio, dizia, de um discurso, entrevista, fosse lá o que fosse, do PM a dizer o seguinte: "A maioria do povo português aprecia a determinação" das nossas políticas ou coisa parecida nesta parte sem aspas. Aprecia ou tem apreciado, já nem me lembro bem, mas dá no mesmo. Aprecia? Declaro já que não estou incluída nesta maioria, não quando, apesar de alguma paciência e zen desconhecimento de questões económicas, não quando, repito, me encontro congelada desde há 10 anos, não quando tenho passado um ano escolar infernal (eu e outros), não quando o meu salário está a mingar volta e não volta, mas com voltas mesmo rápidas, ao melhor estilo rossi, e a voltar, lá está, ao tempo em que era bem mais nova, trabalhava em melhores condições e ainda podia fazer planos, não quando me fartei de ser pacífica, briosa e paciente, profundamente idiota, na verdade. Determinação? Só pode ser uma brincadeira, é mundial, ninguém levaria a mal. Determinação, a meu ver, só pode ser uma: a autodeterminação, rápida e definitiva, que signifique fugir deste PM e restante troupe que não apreciamos. Ou que não aprecio, já que posso estar em minoria.

junho 03, 2014

O chamado aviso à navegação em forma de pequena nota


Não pensem os que me habituei a ler na blogosfera, na semelhança e na diferença, que os deixei de apreciar apenas porque os deixei de visitar, é um facto, nestes últimos tempos. Ou pelo menos com a mesma regularidade. Ou com a regularidade possível, o que ainda assim estaria longe da desejada. Na verdade, tudo se resume a impossibilidades várias, digamos, prioritárias e/ou necessárias. Navegar fora da rede tem sido preciso...

junho 01, 2014

A pontinha do véu



Na sexta, por necessidade de descanso físico, consegui estar quase duas horas ao final da tarde no sofá, a ver um filme que comprara havia algum tempo. A necessidade não me trouxe senão mais uma belíssima experiência cinematográfica. Uma viagem, portanto. No tempo, no espaço, na história que, confesso, me deixou em lágrimas no final. O filme chamava-se e chama-se "O Véu Pintado", adaptado do romance de Somerset Maugham, autor que estudei vagamente nos tempos da universidade. 
O que me fez ficar arrebatada e comover-me de tal forma? Bom, para já tem todos os ingredientes que me fazem inebriar: exotismo, romance, densidade psicológica (como o trailer do filme engana, o conteúdo é muito mais intimista do que possa parecer e transparecer no tom épico das imagens), atores que me convencem e seduzem. Recomendo-o, pois, vivamente. E não levantando muito o véu, já agora,  sobretudo em relação ao final, deixo, no entanto, alguns apontamentos que retirei desta maravilhosa história. 
1. Trata-se de um filme sobre o amor, sim. Um estudo, até, sobre o surgimento do amor contra todas as expetativas iniciais, sobretudo na figura da esposa que não ama - e trai - o seu aparentemente aborrecido marido. 
2. Tratando-se de um filme sobre o amor, relembra-nos, também, que muitas vezes não valorizamos quem temos e quem gosta de nós, pelo simples facto de não vermos, estarmos cegos, de alguma maneira. Quando alguém de fora nos mostra como esse outro é bom e nobre, por exemplo, passamos a vê-lo com outros olhos, descobrimo-lo, e aí vemos o tempo que perdemos e percebemos o quão fomos tontamente idiotas.
3. Ainda o amor, claro, a dizer-nos que muitas vezes nos apercebemos do valor de alguém ao nosso lado já demasiado tarde, sem nunca lhe termos expressado que estávamos enganados ou o que acabámos por sentir, por orgulho ou outra coisa qualquer.
4. O filme é ainda sobre os surpreendentes caminhos do amor. De como alguém, neste caso, a esposa, não sente paixão pelo marido enquanto ele é bom mas insípido e como tudo se transfigura quando ele se torna menos bom, cruel até, porque movido a orgulho ferido e a um aparente desejo de vingança. Na relação entre ambos, porque a consciência da nobreza e coragem dele em relação aos outros também vai aumentando nela à medida que o vê sob uma outra luz.
5. Finalmente,  e voltando ao nascimento do amor que se dá quase inesperadamente, constata-se que ele vem no meio da total adversidade, como se a rotina deixasse morrer o amor, ou nunca o despertasse, e dificuldades maiores o incendiassem de forma totalmente inequívoca. 



(Não gostando particularmente do trailer, pelas razões apontadas, aqui fica no caso de se sentir alguma curiosidade. Também sei que os meus adjetivos são um bocadinho "entusiasmados", coisa rara nos tempos que vão correndo, mas não vejo razão para ser contida se gosto mesmo de alguma coisa, como é aqui o caso; não quis, nem quero, pois, poupar palavras.)

maio 29, 2014

Na coffee shop

"Amsterdam"

Hoje, num café, dois miúdos de 20 anos, coisa menos coisa, puseram um bom bocado de ´ganza´ em cima de uma chicha (ou narguila, como também é conhecida) e espantaram-se quando o dono, estupefacto e furioso, claro, lhes disse que não o podiam ter feito e os convidou, em estilo eufemismo, a sair. Desculpe, não sabíamos, disseram, ele e ela. Isto depois de terem fumado um bocadito, antes de serem detetados pelo cheiro. Não sabia, agora é a minha vez, que isto era a Holanda. E logo hoje que, algures, tinha visto e passado os olhos sobre as 7 razões pelas quais se devia visitar os Países Baixos o quanto antes. Deve ter sido isso que aconteceu com esta rapaziada. Devem ter lido o mesmo e trataram logo de embarcar.

Louvores


Acho, achei e acharei sempre muita graça às pessoas que louvam o surgimento de mais grelhas para preencher. Respiram, aliviadas, e exultam até, porque alguém se lembrou e se deu ao trabalho de as fazer por elas. Cá eu já é mais o contrário, amaldiçoo cada vez mais os papéis que me põem à frente, sejam físicos ou virtuais. Decididamente, é carga a mais para alguém prático e decidido como eu, para o bem ou para o mal, admito. E com interesses fora do local de trabalho, já agora. Não serve este post, pois, para a papelada louvar.

Uncomfortable


Hello? 
Is there anything in there? 
Just touch my hand if you can hear me. 
Is there anything in your heart? 
Come on, now, 
I know you're feeling disappointed. 
I can ease your pain
Get you on your trail of hope again.
Breath. 
I'll need some information first. 
Just the basic facts. 
Can you tell me why it hurts? 

There is no pain you are receding 
A distant tree on the horizon. 
You are only coming through in shades. 
Your hands touch mine but I can't feel anything. 
When I was a child I had a fever 
My hands felt just like two balloons. 
Now I've got that feeling once again 
I can't explain you would not understand 
This is not how I was or am. 
I have become uncomfortably numb. 

maio 26, 2014

As eleições vistas por quem pouco sabe mas vai opinando


Vencedora absoluta : abstenção. É um direito, claro, mas depois não se queixem. Já estou quase como o Miguel Sousa Tavares dizia hoje, ao comentar a mesma: quem não vota porque não quer, porque não acredita no sistema e na democracia, talvez devesse não beneficiar em nada dela... O que se pretende, afinal? É certo que o desencanto é muito, tal facto é por demais compreensível, mas a solução não (me) parece ser por aí.
Perdedor maior: Aliança de Portugal. Um valente cartão vermelho a quem nos governa, sem mais nem menos. Pudera, com o desânimo e revolta que por aí vemos e sentimos, e que nós próprios sentimos, seria de espantar que acontecesse o contrário. Haja coerência.
Vencedor maior: CDU. Pode beneficiar da abstenção, porque os seus militantes não falham, é verdade, mas não deixa de ser um reforço, que significa, certamente, alguma coisa. Ou muita.
Ganhador mas não para ser governo: Partido Socialista. Vitória em números mas ao mesmo tempo derrota em números, porque derrota na intenção de que nos governem. Está clara, assim parece, a falta de alternativa viável para as próximas legislativas.
Perdedor médio: Bloco de Esquerda. Médio a fugir para o grande. Este resultado já vem na sequência dos anteriores, e que foi agravado, a meu ver, como simples cidadã, com a liderança repartida que Francisco Louçã defendeu na saída. Volto a dizer aqui que ver a Catarina Martins a liderar é para mim uma aflição, não tendo perfil absolutamente nenhum para ocupar tal lugar. Ela e João Semedo serão com certeza pessoas de boas intenções mas não chega, claramente. (Com todo o respeito que o seu pai também me merece, trabalhei com ele na José Estêvão há uns bons anos, quando ele era presidente do conselho executivo na altura.) 
Vencedor assim assim e a quem não reconheço muito mais do que um discurso fácil ainda que corajoso: Marinho Pinto, ao serviço de qual partido mesmo? Não me identifico com o estilo, mas ainda assim acho uma certa graça ir para Bruxelas e ser politicamente incorreto, a ver vamos no que a irreverência dará.
Para concluir, destaco dois aspetos que liguei entre si. As más lideranças podem ser feitas feitas de más intenções mas também de boas, é um facto. Ou seja, não são suficientes as pessoas boas, é preciso ser-se competente. E isto serve para a política e para tudo. Muitas vezes temos pessoas muito queridas e apreciadas pela sua bondade mas falta-lhes profissionalismo, visão e inspiração. Ora isto, a ausência de inspiração nas figuras políticas, leva-nos ao descrédito cada vez maior em relação à classe, agravada depois pelas más práticas, corrupção e mais do mesmo ou parecido. Desta forma, sem figuras que nos inspirem e nos levem a acreditar que é possível, aliando humanismo e pragmatismo, honestidade e competência, haverá menos e menos gente com vontade de se deslocar às urnas. E volta-se ao princípio e não saímos daqui. A coisa, resumindo, está feia.


maio 23, 2014

O descanso e a guerreira


Sou intrinsecamente live and let live. Mas este apreciado e cultivado sossego bate em retirada quando alguém que é o oposto lá me vem seriamente incomodar. Então, vou buscar defesas combativas não sei onde, mas vou. O que é uma tremenda maçada porque eu gostava mesmo era de estar sossegada, sob um tranquilo ´living and letting live´. Mas, lá está, eu não quero nem procuro mas o combate surge, obrigatoriamente. Não dá para fugir, se o ataque é muito denunciado. Pode ser evitado, muitas vezes, a experiência vai-nos dando engenho e arte também nestas coisas, e quando o é, permanece o sossego.  Mas declarado, não dá. E é assim que vamos. Ou vou, neste caso. A desejar sempre estar no meu canto mas a não fugir de uma frente de batalha se sou obrigada a combater.

maio 22, 2014

Mais uma vergonha


Que é como quem diz, mais um muro. Desconhecia que tinha sido ou tem vindo a ser construído um muro em Mellila, como forma de evitar a imigração clandestina vinda das áfricas onde, curiosamente ou não, este enclave se encontra. Se por um lado percebo que o fluxo de imigração possa ser em larga escala e ilegal, a ponto de criar problemas dentro deste território, por outro, e é este que prevalece em mim, não suporto muros deste tipo, e sou absolutamente contra a ideia de que há, ou houve, muros maus e muros bons. A desgraça de quem tenta saltar este, à semelhança de outros, a desgraça, dizia, é tanta que apenas pode instalar-se em nós uma profunda compaixão e solidariedade. Impossível sentir de outra forma se nos pusermos na pele de quem às vezes espera anos no deserto para saltar o muro. Basta imaginarmos que a nossa pobreza relativa (que ainda não é absoluta, como nestes países subsarianos) que nos leva hoje a atravessar a fronteira esbarra com um muro assim, que nos obrigue a ficar num lugar onde já não conseguimos sobreviver condignamente. É só tentar perceber isto que a vergonha salta cá para dentro num instantinho. Vergonha e injustiça, misturadas com comiseração e até dor . Nunca são bem vindos os muros da miséria e do sofrimento.

Normalmente




Muitas vezes, ou até normalmente, considera-se anormal o que devia ser encarado com a maior normalidade - e naturalidade - possível. Desta forma, existiriam menos preconceitos, menos críticas, menos problemas. Por outro lado, aceita-se como normal um rol de anormalidades que são uma autêntica chaga. Estas, sim, deviam fazer com que as pessoas fossem mais exigentes, consigo mesmas e com os outros. Podia dar exemplos, para o dito acima e o dito aqui mais abaixo, sobretudo porque o conceito de normalidade também pode variar, é certo. Mas uma coisa é também certa: há normalidades absolutamente naturais e essenciais e assim devem ser vistas e sentidas e há depois o incrivelmente anormal que só perturba e destrói. A proposta é sermos menos tolerantes com este último.

maio 19, 2014

Um "We ourselves" ou dois


É assim - pouco ou nada percebo do assunto até porque me afasto das notícias por diversas razões. Mas comecei a pensar nisto. A comunidade internacional - vulgo ocidente? - não concorda com a "desvinculação" da Crimeia da Ucrânia e posterior união com a Rússia. Isto com a maioria da população naquele território ucraniano a ser russa, revelando então óbvias preferências pela pátria de origem. Segundo e seguindo esta ordem de pensamentos, uma coisa deveria ser-lhe semelhante, digo eu assim de longe. Trata-se da "desvinculação" da Irlanda do Norte do Reino Unido, que assim se tem mantido, ao que se me tem parecido, pelo facto da maioria da população ser de origem britânica, ainda que num território, obviamente, irlandês. Ora se isto não são dois pesos e duas medidas, não sei não. Talvez não saiba, mesmo. Alguém, por favor, me explique...

maio 18, 2014

Preparar o verão?


Adoro o verão, sofro no inverno, estou feliz com estes dias de maio quentes e longos, até as manhãs me parecem apetecíveis, ontem vi-me, inclusivamente, a estender roupa às 8,30 da manhã no pátio com um q.b. contentamento. Claro que me levantei com um propósito específico, o de ir a um determinado local, mas eu e o estendal, juntos, é coisa impensável a esta hora senão sob estas soalheiras temperaturas. Posto isto, renovo-me no verão mesmo quando o ainda não é no calendário mas quase. Ainda assim, não sei o que é preparar o verão. E isto veio-me à ideia porque vi uma foto online em que duas amigas, no verão do ano passado, se diziam a preparar este verão, o de 2014. Eu estou mortinha que ele chegue, o do calendário, que é para eu, final e merecidamente, desligar do trabalho e poder explorar, a minha grande paixão de sempre, o que quer que me apeteça ou possa. Agora, insisto, desconheço o que é preparar o verão. Será ir ao ginásio? Será comprar bikinis novos? Será ir tostando ao sol aos bocadinhos para exibir um bronzeado no pico do verão e das multidões? Será abandonar algum ritual de inverno? Será apenas mudar de roupa e de calçado? Será cortar os cabelos para se ficar mais fresca/o? Será pôr a espreguiçadeira no terraço ou no pátio? O que quer que signifique preparar o verão, eu devo passar-lhe ao lado. Vou fazendo as coisas à medida que surgem  - está muito calor, dou um saltinho à praia, por exemplo - e à medida de que delas tenho necessidade, de tal forma que já comprei ou quis comprar roupa de verão, bikinis incluídos, em agosto, uma grande dificuldade, é certo, porque as pessoas que devem preparar o verão já levaram tudo antes, mais espertas e mais aflitas do que eu. Eu gosto de viver as coisas como elas surgem, sem as antecipar, fugindo completamente ao normal dos dias que correm, em que tudo é feito ansiosamente, antes do tempo, e de acordo com os calendários coletivos e comerciais. Não sei o que é preparar o verão, não quero preparar o verão. Quero que ele venha, simplesmente, dia a dia, um dia de cada vez, que se demore, até, e muito, e como o adoro e preciso dele. Quanto ao resto, não me falem em preparativos. Isso soa-me a trabalheira e a catálogo e o verão, o meu verão, não pode ser feito para me cansar. Às vezes lá calha, também é verdade, mas nessas alturas dou por mim a ansiar pela calmaria do outono...

maio 16, 2014

Uma coletiva emoção



Independentemente de se ser do Porto, Benfica ou Sevilha (desde sempre ou momentaneamente) há sempre qualquer coisa de estranhamente tocante nas lágrimas coletivas. O mesmo serve para as alegrias. Por vezes, a emoção coletiva eleva-nos de uma forma singular, quer seja pelo contentamento, quer seja pela tristeza. Mesmo se a tristeza ou o contentamento tiverem origem em coisa pequena ou não essencial. Os sorrisos e risos e lágrimas de muitos podem contagiar-nos. Não é mau perceber que se pertence a um todo numa circunstância em particular. Não é mau partilhar emoções. É bom sentir em conjunto.

maio 15, 2014

De profundis país lento


Tenho, este ano, no âmbito da minha atividade profissional, vivido experiências brutalmente enriquecedoras apesar de brutalmente desgastantes. Muitos são os pensamentos que delas surgem, impossíveis de registar, atempadamente e por escrito, aqui ou em qualquer outro lugar. Mas uma conclusão pode ser aqui assinalada: a de que tenho mantido, ao longo deste ano, um intrigante e desolador contacto com o Portugal profundo. A modernidade existe, sim, comparada com tempos idos, mas é minoritária e citadina, intelectual e, por contraste, consumista. O resto, tudo o resto aponta para um país ainda muito atrasado, com baixos níveis de conhecimento, de cidadania, de esclarecimento e de pensamento.
Qual o impacto disto tudo na escola? Bom, uma taxa de abandono considerável, ainda, uma falta de ambição cultural e pessoal assustadora, posturas inaceitáveis que as famílias, pouco esclarecidas e, por vezes, mesmo sem maneiras, não conseguem controlar, um desinteresse chocante pelo conhecimento, alheamento do mundo para lá das novas tecnologias e das experiências típicas da adolescência, ignorância natural e cultivada que roça a boçalidade, desrespeito por todo e qualquer tipo de regras e de autoridade, taxas de sucesso baixíssimas e, para as aumentar, fabricadas, enfim, um país atrasado, deprimente, ignorante, com a mania que é rico e que é injustamente desprezado, apostado em ter, ter cada vez mais, e esquecendo completamente o ser.
Também é verdade que este ter o é cada vez menos. As dificuldades económicas só agravam este desalento social, estas psicoses várias que assolam as famílias, as pessoas, a parentalidade, e como consequência, os filhos e os filhos na escola. 50 anos de reclusão obrigatória fizeram-nos muito mal. Persistem dificuldades dessa altura, na cabeça e, como consequência, nos atos. Mas este descalabro financeiro atual tem, certamente, um efeito altamente negativo na melhoria das condições de vida, desnorteando ainda mais aquilo que não estava ainda solidificado.
Hoje coloquei um post no meu FB profissional para que os alunos lessem. Como gostaria que o lessem e interiorizassem. Só assim poderiam e poderão sair destas profundezas em que ainda nos encontramos, assim que saímos da cidade, do teatro ou do centro comercial. A nossa marcha está a ser muito lenta, é possível que estejamos até a andar para trás. Cruzem os braços, cruzem. Fiquem à espera de milagres. Assim não se vai lá.

maio 07, 2014

O afeto comanda a vida

Este post foi escrito para o AE por Mafalda Branco, que tive o prazer de conhecer no início deste ano letivo, autora do blogue Do outro lado do espelho.


Não podia estar em melhor companhia para escrever sobre o que dá sentido aos meus dias e ao que faço profissionalmente. Sempre fui uma pessoa de afetos, desde que me lembro de ser gente. As minhas primeiras memórias são do colo da minha bisavó e da minha educadora de infância, que sempre me amaram e protegeram. Da última continuo ainda hoje amiga e os afetos acompanham a nossa relação. Quando nos encontramos, conta-me sempre as mesmas histórias e é curioso como também ela tem na memória a minha bisavó e o que ela, já na altura velhinha, fazia por mim. Fala-me do lençol castanho e do cestinho cor-de-rosa que eu levava todos os dias para a escolinha. Lembra-se como se fosse hoje. Também eu. Sorrimos, abraçamo-nos, reforçamos laços e eu a certeza que a importância da escola é imensa na nossa vida e na formação da nossa personalidade. A minha bisavó já faleceu há muitos anos, mas dela guardo esse amor tão bonito por mim e tudo o que fazia para que eu estivesse bem e feliz.

Depois fui crescendo. A minha adaptação à escola não foi fácil, disso também me lembro. E aqui, mais uma vez, as minhas professoras da escola primária marcaram a minha vida, com a sua ternura e o seu cuidado. A professora Zulmira e a professora Elisa, para além do tanto que me ensinaram, deram-me também elas colo e estavam sempre à minha espera com um sorriso. Podia continuar a enumerar todas as pessoas que passaram pela minha vida e que me ensinaram que o mais importante são os afetos, os laços que criamos e que nos permitem crescer e desenvolvermo-nos. E tenho a felicidade de serem tantas! Dessas pessoas fazem parte muitos professores, para além dos que aqui já referi. Talvez tenha sido por isso que hoje trabalho em educação e… com professores… De facto, é um privilégio poder trabalhar em educação, por muitas adversidades que tenhamos que enfrentar. E a base do meu trabalho está… nos afetos, precisamente! Dedico-me a sensibilizar e a inspirar as pessoas, neste caso os professores, para a importância de trabalhar a relação. E escrever hoje estas palavras fez-me pensar em como tudo se encaixa na nossa vida, desde que estejamos atentos e sigamos o nosso coração. Em pequenina o meu sonho era ser professora, depois passou para ser psicóloga e hoje sou psicóloga e trabalho com professores! Nada acontece por acaso e os afetos ajudam a construir o caminho. Neste mundo louco em que vivemos, este é talvez o maior desafio: centrarmos a nossa vida nas relações e dedicarmos-lhes todo o afeto que elas merecem e de que precisam para ser mais plenas. Acredito que o caminho para sermos mais felizes e vivermos em maior equilíbrio é este e é o que procuro transmitir em tudo o que faço. Como dizia Novalis, “tudo é semente”. Para além de semear, resta-nos acreditar e manter a esperança que essa semente dará fruto um dia…

maio 05, 2014

Tiro e queda

A exigência é inimiga da popularidade. Nas chefias, no cumprimento do dever, na educação, nas relações sociais e mesmo afetivas. Ser exigente é não ser popular. Quem quer ser popular, amado ou, na realidade muitas vezes apenas bajulado, deve cultivar a facilidade, o deixa andar, o porreirismo. É garantido.

maio 03, 2014

Conhecer é poder ou querer poder

               
  
Afazeres profissionais intensos e consequente cansaço têm-me afastado da blogosfera. E conseguiram uma proeza no dia do trabalhador: pôr-me a preguiçar, a ver televisão no sofá, como já não fazia há muito. De uma assentada, vejo dois filmes, apesar de não os apanhar totalmente desde o início. Duas biografias, diferentes, mas que no fim lá liguei através de frases emblemáticas ou filosofias de vida que me chamaram à atenção.
1 - a primeira, mítica e de culto para alguns, nada intelectual e desinteressante para outros - a vida de Bruce Lee. Nada de profunda erudição e ainda assim reveladora de uma força de alma incomum, de um percurso, infelizmente breve, a desbravar fronteiras culturais, físicas e psicológicas. O trazer a beleza da cultura chinesa para a cultura americana de origem anglo-saxónica, neste caso, como forma de fazer frente ao desconhecimento, e, desta forma, ao medo, ao preconceito e às barreiras instaladas. Conhecer é assim aproximar, contribuir para a harmonia, ser feliz. 
2- a segunda, mítica e de culto para tantos, provavelmente insuportável para outros - a vida de Che Guevara. Ou melhor, parte dela. O filme a que assisti é a segunda parte da fita dirigida por Steven Sodebergh, e é centrada na guerrilha na Bolívia, onde, de resto, haveria de sucumbir. Um filme belíssimo, falado em espanhol, que nos deixa espreitar uma visão de sociedade perfeita, idílica, é possível, com erros pelo caminho, mas profundamente justa. A viagem pelo continente sul-americano que fez enquanto jovem marcaram a sua posição política, social e até filosófica. Como conhecer o que pôde conhecer, vendo e sentindo, e não querer alterá-lo? Da mesma forma, esta Bolívia de contrastes chocantes e indignos, com níveis de pobreza campesina atrozes, não era justa em 1967 e não sei se o será hoje - duvido. Aqui o conhecimento não traz propriamente felicidade. Conhecer, aqui e assim, é querer agir, é não conseguir sossegar, é ter de intervir, ainda que pagando um preço altíssimo. 
Os dois filmes ligaram-se nisso mesmo - na forma como o conhecimento nos pode apaziguar e tranquilizar e na outra forma, naquela em que o conhecimento nos pode inquietar, perturbar. Assim, desconhecer é sinónimo de temer, de hostilizar e ao mesmo tempo conhecer pode ser e é sinónimo de participar, de atuar. O conhecimento pode trazer alegria e harmonia e pode trazer sofrimento, consciência. Trata-se, pois, e unindo as biografias e os pensamentos que me assolaram, de uma poderosa arma contra a intolerância e a injustiça que pode alterar uma vida, almejando-se alterar muitas.

abril 29, 2014

Ainda um outro abril

Este texto foi escrito por Sara Vieira, docente de Inglês/Alemão, de Aveiro.

Para quem não sabe, há 40 anos eu não estava em lugar nenhum, pelo menos nenhum de que eu me lembre (se acreditarmos em vidas passadas) já que ainda não tinha nascido. Sei que a minha mãe estava em casa dos patrões (cujos filhos passaram a noite na cave a ouvir rádio) e não percebeu nada daquilo porque o dia dela foi igual a tantos outros. Sei que as pessoas não sabiam muito bem o que fazer em Aveiro, entre a ânsia de festejar e o medo de que desse para o torto.
A minha imagem do 25 de abril

Eu só nasci quase três anos depois. Portanto, para mim, o 25 de Abril é uma sucessão de momentos que eu não percebia. Manifestações (que hoje não sei se eram do 25 de Abril ou do 1.º de Maio) que eu ia ver descer a Avenida pela mão dos meus pais, com cravos, bandeiras vermelhas, palavras de ordem, discursos sempre mais ou menos iguais e canções da Brigada Victor Jara. Ah, e havia a feira, imensas barracas cheias de coisas que nós íamos ver enquanto os senhores de braço no ar falavam. Era sempre um dia de vestir a roupa nova e ir para o Rossio (tirando uma vez em que fomos visitar os meus avós e caiu a maior camada de granizo de que me lembro).
Quando se é criança, dias assim são marcados pelas imagens e pela emoção, e como o 25 de Abril e o 1.º de Maio eram tão parecidos e tão próximos, hoje não consigo distingui-los na memória. E depois as incoerências que nos espantam aos 4 ou 5 anos, como o estranhamento de haver um feriado por causa de uma ponte que tinha nome de data em vez de nome de ponte e afinal era de todos os dias, não era de um dia só. Porque na minha cidade as pontes tinham nome: a ponte de Pau (que não era de madeira), a ponte das Pirâmides (que não tinha pirâmides nenhumas à vista que não fossem os montes de sal que eram mais para o cone), a ponte de Esgueira (que era um túnel por baixo da linha do comboio) e as Pontes (que era uma praça por cima da ria). Agora a Ponte 25 de Abril devia ser mesmo muito importante para ter um feriado.

E havia sempre eleições. Eu gostava de eleições. Lá ia eu pela mão da minha mãe para uma grande fila que se desdobrava em muitas filas dentro do pavilhão desportivo até a uma mesa com uns senhores de gravata que liam alto o nome da minha mãe (o nome todo!) e depois davam-lhe um papel e íamos a uma mesinha muito escondidinhas e ela escrevia qualquer coisa e o papel ia para uma caixa grande e pronto. Mas era de certeza uma coisa muito séria e muito importante.
Depois cresci e o 25 de Abril tornou-se muito mais importante. Era FERIADO! Feriado, ah, essa palavra doce que queria dizer não ter escola. Esse é que foi o problema. Para os que nasceram depois de 74, mais do que qualquer coisa, o 25 de Abril tornou-se só um feriado.

Olhar de menino tímido que ousou o sonho

Hoje, o maior problema deste país é que para as pessoas como eu e mais novas do que eu, o 25 de Abril é um dia a cores no calendário em que não vamos nem para a escola, nem para o trabalho. Triste, triste povo este que não tem memória. Triste povo que hoje tem saudades da ditadura e admira Salazar. Triste povo este que não tem ideais nem sonhos.
E se eu pudesse escolher lembrar-me de uma vida passada, queria lembrar-me de ter estado em Lisboa no dia 25 de Abril de 1974 em cima de uma chaimite com um cravo no cano da G3, ou melhor, ter sido a mulher que deu o cravo ao soldado ou a criança que atravessou a minha infância nos cartazes nas paredes. Quem me dera que fosse possível que toda a gente neste país tivesse a verdadeira memória do 25 de Abril e a defendesse com unhas e dentes e cravos vermelhos.

abril 23, 2014

A memória dos quarenta

Como não terei tempo para muito mais até lá, aqui fica em mosaico a revolução que se fez e que mudou os nossos dias. Não adianta retirarem-lhe significado pelo que podia ter acontecido a seguir e pelo que tem acontecido entretanto. A coragem emergiu, o silêncio quebrou-se, a noite iluminou-se. Não é, e para que definitivamente se entranhe, nada pouco. 



abril 21, 2014

Mais do que óbvio

É bom falar, ler acerca do óbvio quando o óbvio é a verdade. A natureza é linda, o amor de mãe é incondicional, a liberdade é preciosa. E mais, tanto mais. Mas não é de todo suportável, o óbvio, quando ele é a tradução da mentira. Aí, não quero ouvir falar dele nem lê-lo. Obviamente.

abril 20, 2014

Ao largo


Tenho-me visto muito atrapalhada com a hifenização sob o novo Acordo Ortográfico, como se já devem ter dado conta por aqui. Se já não era propriamente fã de hífens antes, imagine-se agora. Um desacerto, confesso. Não defendi o AO mas também não fui contra, considerei-o dado adquirido, sendo eu docente ao serviço de uma escola. Ainda por cima, e graças a deus, falo e escrevo em inglês nas aulas, o que é uma considerável vantagem a vários níveis (mas lembre-se, as diferenças entre as variantes de inglês na grafia são muito poucas). Vai daí que, ao ter de mudar, quanto antes melhor e também não me vi nem vejo a escrever de uma forma nos documentos da escola e de outra na vida pessoal, respeito quem o faça e quem o consiga, mas pessoalmente  tenho mais que fazer e em que pensar. E isso leva-me à conclusão deste post nada pascal: há hífens que deviam estar por aqui e outros que não deviam estar (e mais coisas, sei, imagino) mas de todas as preocupações que vou tendo esta é manifestamente insignificante para não dizer nula. O essencial, aquilo que verdadeiramente interessa para irmos indo e não muito mal, anda mesmo muito longe daqui. 

abril 16, 2014

Onde não pertencemos





"Muitos dos nossos problemas nascem de nos termos deixado arrastar, talvez por complacência para connosco e para com os outros, para espaços que não são os nossos e frequentar pessoas que não nos convêm. Elas, as pessoas que não nos convêm, sempre que tiverem oportunidade não deixarão de assinalar a nossa inconveniência."
Jorge Carreira Maia (Kyrie Eleison)

A verdade é esta: continuamos a fazer coisas - frequentar espaços e pessoas que não nos convêm - porque somos demasiados complacentes, porque não sabemos ou não queremos dizer não, porque queremos agradar a quem nos é próximo, em determinada altura ou circunstância, porque não queremos defraudar as expetativas dos outros, porque nos pomos em dúvida a nós próprios, porque pensamos que fazer igual pode ser melhor, mesmo antecipando que não seja nem é, porque estamos presos por algum tipo de sentimento, porque temos à nossa volta pessoas fracas que manipulam as superiores, porque queremos dar uma ou mais uma oportunidade, porque o ´porque não´ nos ocorre, porque somos ou nos tornamos indulgentes ao ponto de abusarem de nós, porque não sabemos estar sozinhos, porque receamos o confronto com a nossa verdade, porque receamos ser diferentes, porque fazemos más escolhas, porque a vida é mesmo assim, porque não devia ser mas vai sendo. Até ao momento da epifania - não nos convêm. E das duas uma: ou sempre o soubemos e fomos bondosos e parvos ou nunca o percebemos por ilusão, ingenuidade e insegurança. Por isso a maturidade é essencial - os fretes, espaciais ou sociais, até familiares, ou na verdade os problemas, passam a ser muito menos. Ou, se corajosos formos, podem deixar pura e simplesmente de existir.

O melhor e o pior


O melhor do ser humano visto hoje num exemplo de corajosa superação. Uma mulher, dançarina, vítima do atentado em Boston há um ano, volta a dançar após o implante de uma perna biónica. E o especialista do IMT que, com a sua equipa, tudo isso possibilitou.
O pior do ser humano visto hoje num exemplo de corrupta degradação. Uma telefonista permitiu e promoveu, é bem possível, a entrada de todo o tipo de substâncias e produtos ilícitos numa prisão. Sem falar da mãe americana e dos 7 bebés, na mais absoluta e cruel loucura.

abril 14, 2014

Controverso




1. Não é possível fazer calar os capitães de abril ou não ter interesse no que dizem. Simplesmente porque ainda vivem e carregam na memória os dias antes e depois. E nós temos que lhes estar gratos, mesmo quem não soube o que era o antes e é livre desde que nasceu. Precisamente por isso, esses, nós, temos que lhes estar agradecidos por terem mudado o curso da nossa história e dos nossos dias. Não faço ideia se há espaço para falarem na assembleia ou não, mas se não houver devia haver. Os intervenientes na história na sua forma mais direta estão vivos, repito, o acontecimento é recente - o que são 40 anos na linha do tempo?- e esquecê-los neste dia é uma profunda forma de ingratidão. Se o esquecimento acaba por ser natural com a passagem do tempo, quando as gerações que vivem certos acontecimentos dão lugar a outras, aqui ainda não. Não é possível esquecê-los, ainda, e ignorá-los. A nossa humildade, enquanto povo, em reconhecer a sua coragem e importância devia ser muito maior. Devia existir, simplesmente. 


2. A remota possibilidade (será?) de Durão Barroso se candidatar à presidência da república deixa-me quase em estado crítico. Não lhe reconheço nenhum mérito nem possui qualquer envergadura moral ou intelectual para desempenhar este cargo. Quando discursa parece-me sempre artificial, como se estivesse a posar para uma fotografia, à espera de causar algum tipo de impacto. Desconheço se na vida quotidiana é um tipo simples, honesto e com qualidades várias, pode ser que sim, claro. Mas politicamente é um desastre, compactuou na invasão do Iraque, não me parece ter espinha dorsal para dizer não e seria anedótico tê-lo a representar-me. Mas enfim, tudo é possível, sobretudo dar-se muita importância e valor histórico a quem não o merece e desvalorizar-se quem a ele tem o máximo direito.

abril 13, 2014

Palavras feias (e falta de palavras bonitas)



Detesto falta de educação. Cada vez é mais notória, abrigada sob falsos conceitos de liberdade e humor. São palavrões a torto e a direito em ocasiões sociais, sem qualquer respeito em relação a quem nunca se viu, são palavrões nos transportes públicos, são palavrões ao volante, sobretudo se veem uma mulher sozinha, são palavrões nas escolas e dentro da sala de aula, são palavrões na rua, transversais a nível das idades, dos sexos, das localidades e das profissões. Se acho graça a um ou outro que seja dito num determinado contexto em que haja uma familiaridade considerável entre os presentes, já quando os meus ouvidos os escutam fora de tudo o que seria mais normal e aceitável, o gelo instala-se de imediato.
Também é verdade que a falta de educação não se esgota no abundante vernáculo português, neste caso. Ela surge em forma de ingrata indiferença perante um gesto simpático, ela reside na incapacidade de dizer desculpe e obrigado, ela mora na falta de chá em doses industriais a propósito de pequenas coisas do quotidiano. Convenhamos, o nosso povo, porque dos outros não posso saber da mesma forma, é extremamente mal educado, as gerações mais novas parecem não ter - não têm, na verdade - o mínimo respeito pelos mais velhos, o machismo bronco ainda subsiste por aí em alguns cantos, o modernismo das relações entre homens e mulheres aboliu completamente o cavalheirismo. Porque certas raparigas e mulheres também acompanham, decerto com receio de serem postas de lado e chamadas de antiquadas, chatas e sem interesse como companhia.
Gosto de ser livre, rir é bom, ser divertido, naturalmente, e ter sentido de humor também. Mas o verdadeiro humor anda longe desta descontração boçalmente brejeira, forjada e mentirosa, que é a de aparentemente ser-se livre nos costumes, ainda que a cabeça, o resto, esteja ainda a habitar em tempos medievais. Que povo pequeno armado em grande, onde ser grande significa sonhar em/ou ter Ferraris e ostentar gadgets e outras coisa mais. A grandeza de alma, a nobreza interior, essa não existe, está demodé. E eu também, pelos vistos, porque me perturba esta má educação. E não estou a falar de escola nem de sistemas educativos. A sociedade em que vivemos é mal educada e isto devia preocupar-nos a todos.

abril 10, 2014

Quartos sem vista sobre a cidade nem coisa alguma

A desigualdade nunca é mais cruel quando atinge quem nada fez para ser desigual. Este desequilíbrio nas imagens de 21 quartos de crianças espalhadas pelo mundo inteiro é manifestamente doloroso de ver. São chocantes estas fotografias, que mostram a mais profunda ausência de conforto e de condições minimamente dignas que uma criança só podia e merece ter. Para crescer saudável e ter confiança no seu mundo, projetando-se depois no mundo dos outros de forma positiva. E mais chocante é saber que são muito mais do que apenas imagens. 


Para ver mais, aqui.

abril 09, 2014

Quando uma ata o é antes de o ser



Sempre pensei, e pelos vistos erradamente, que uma ata era o resumo feito durante ou após uma reunião ou uma situação formal de qualquer espécie que necessitasse de um registo escrito para provas na posteridade. Pessoalmente, e na minha área profissional, gosto de tirar apontamentos e escrevê-las depois, já que tenho evidentes dificuldades em realizá-las com a concentração e o tempo necessários enquanto as coisas decorrem. Defeito meu, certo, admito. Mas agora está-se a ir por um caminho que estranho porque decididamente não entranho. Os responsáveis pelas atas escrevem-nas antes da reunião - com a sua perspetiva e com o rumo que desta forma acabam por lhes dar - e leem-nas, ao invés de falarem de forma espontânea, e acompanhando o decurso natural da reunião, ainda que sempre subordinada a uma necessária ordem de trabalhos. Estas leituras das atas nestes termos, como forma de conduzir uma reunião, põem-me a voar para outros lados, para longe dali. E então quando são projetadas ainda pior. Continuo a gostar que alguém nos consiga envolver com o seu discurso. A comunicação é uma coisa que valorizo e, desta forma, uma coisa completamente diferente para mim. Não gosto de reuniões centradas, controladas e pré-estabelecidas. " O conselho de turma considerou o comportamento satisfatório..." antes de alguém abrir a boca. Depois vem a pergunta, olhos já fora do papel - "concordam"? Mas eu preferia que não fosse por esta ordem. O cúmulo aconteceu uma vez quando os presentes, todos já sentados, aguardavam o começo da reunião. A pessoa que a dirigia, sendo responsável pela ata, pois, começou a ler: "Depois da apresentação dos docentes..." Bom, estarreceu-se-me logo ali o cérebro. Qual apresentação? Ninguém havia falado nem dito o nome nem coisa parecida. Esta coisa de antecipar tudo torna-se, assim, absolutamente ridícula. Antecipa-se de tal maneira, por forma a agilizar, como está na moda dizer-se, que se diz terem sido feitas coisas antes de elas acontecerem. Escritas, lidas, antes do tempo. Quase proféticas. Se já tenho dificuldade em escrever durante, por falha minha, repito, imagine-se o que sinto quando se escreve antes. Passo. As atas são um resumo do que se passou,  não é preciso terem 20 páginas - nem 10 - como se isso fosse sinónimo de qualidade, concentremo-nos no essencial. Pessoalmente não projeto uma linha de uma ata, aliás não podia porque não a faço antes. Não à necessidade de controlar tudo nem de antecipar o não antecipável. Bem ou mal, comigo a coisa - a ata - só desata mesmo depois da reunião.

abril 07, 2014

Uma outra perspetiva


    

No dia 18 de março o AE teve a oportunidade de ser apresentado no auditório da minha escola na rubrica "Uma outra perspetiva de escrita", atividade inserida na Semana da Leitura, e que se seguiu à apresentação de um romance de Filipe S. L. Monteiro. Esta foi uma simpática ideia do Departamento de Línguas onde me insiro e foi algo que me deu bastante prazer fazer, não só porque foi uma forma de levar o AE a outras pessoas que o desconheciam  como porque me deu oportunidade de estar à conversa sobre temas que me interessam. E o que me faz escrever aqui umas linhas a propósito disto foi o facto de, a dada altura, eu estar a falar dos textos ou crónicas ou posts que alimentam o blogue. E então, lá fui dizendo, sem qualquer espécie de preparação, que já escrevi textos muito zangada com o mundo, ou simplesmente com alguém, que já escrevi textos muito cansada, que já escrevi textos com enxaqueca muitas vezes, que já escrevi textos dos quais agora não gosto nada, que já escrevi textos a rir-me a bandeiras despregadas, que já escrevi textos inspirados numa pessoa em concreto, que já escrevi textos para encher, que já escrevi textos com o meu filho aos pinotes à minha volta, que já escrevi textos com muito sono, que já escrevi textos estando bastante alegre, que estar muito alegre não ajuda a escrever grande coisa mas que estar extenuada não ajuda a escrever nada de nada. E como estou em final de um período estafante e desinspirador, vou, então, retirar-me para já para não registar mais nada que não tenha interesse absolutamente nenhum. (Partindo do arrogante princípio que o que está acima terá algum).

abril 05, 2014

Mais e menos

                                

Cada vez mais próximos de alguém no outro lado do mundo e cada vez mais distantes do vizinho ao lado.
Cada vez mais facilitada e acessível a informação e cada vez mais ignorantes e dispersos estão alunos e outros.
Cada vez mais degradadas as condições de trabalho e cada vez mais reduzidos os salários.
Cada vez mais revoltados com a crise e o resto e cada vez mais conformados e calados.
Cada vez mais mergulhados no consumo e cada vez mais infelizes.
Cada vez mais ativas, as mulheres, e cada vez mais vítimas de cansaço.
Cada vez mais estímulos e encontros sociais e cada vez mais solidão.
Cada vez mais ambições e sonhos e cada vez mais frustração.
Cada vez mais leis e direitos humanos e cada vez mais injustiças.
Cada vez mais presente a imagem e cada vez mais ausente a verdade.
Cada vez mais e cada vez menos.