fevereiro 17, 2014

Pausando

O AE vai usufruir de umas férias. Os afazeres da bloguista falam mais alto e anda-se por aqui sem tempo e, consequentemente, sem inspiração. Até depois delas.



fevereiro 16, 2014

Recaídas


querido diário
mais um dia e aqui me tens de novo, significando no fundo que nada de novo existe que valha a pena relatar
o dia passa-se por entre caídas no sofá correções a vermelho de testes e trabalhos beijinhos e abraços para demover o traquinas de mais e cada vez maiores traquinices novas caídas no sofá roupa para lavar e estender mais caídas no sofá e a seguir refeições e lanches e umas espreitadelas pelas vidraças para ver o tempo esteve sol até mas frio e mais umas coisitas de casa escada abaixo escada acima e novamente o sofá e apanho uma senhora com 700 gatos em casa no nat geo wild e antes do almoço tinha visto belíssimas imagens do kalahari e do deserto da namíbia porque lá está muitas caídas no sofá
o inverno que não passa e os testes que não acabam e o sol a pedir para se ir lá fora mas não vamos o sofá é mais forte porque há trabalhos e correções e ainda a lareira mais tarde mas há sobretudo cansaço como dizia o poeta e diz e nós sabemos e sentimos enfim mais um apontamento intimista mas é a minha casa e nela digo o que me apetece ou até o que nem me pode apetecer por hoje e para já a fartura do inverno mas está mesmo mau este ano também vejo na televisão mas é sempre assim para mim o inverno é-me difícil o inverno quer dizer janeiro e fevereiro e entrando em março inverno mesmo nada de outono porque nesse aguento-me e bem mas entra janeiro e já não 
fico-me pelas vistas do sofá avisto a televisão e depois avisto os desertos e as viagens que queria fazer e depois avisto através das minhas vidraças a ria que se estende em frente e queria avistar outras coisas mais não queria avistar sobretudo os testes que estão maus mas faz parte queria avistar a primavera e outras cores no céu talvez porque as cores cá dentro também fossem outras são sempre se disso depender só a cor dos dias e o fim do inverno
não te apoquentes querido diário isto são coisas de quem nada tem para fazer de interessante porque não pode mas vai poder acabe assim o inverno e o resto que nos aprisiona as horas 
e vá descansa agora tu que isto sem pontuação não dá trabalho a quem escreve era essa a ideia mas dá uma canseira a quem lê
até a um novo dia

fevereiro 15, 2014

No reino da educação


Tenho assistido a um fenómeno curioso. Como resultado das péssimas notas e demais informações negativas dos alunos, alguns encarregados de educação alteram - e bem - a autorização de saída dos seus educandos. Com o nosso aval e até sugestão. Não é que, como eu, sejamos de castigos mas premiar o que não pode ser premiado não parece lá muito educativo. E são formas de incutir responsabilidades que os alunos, se quiserem, conseguem cumprir. Ainda por cima, como tal situação não tem que ser eterna era só os miúdos alterarem os maus comportamentos que tudo voltaria a ser como queriam e querem. Mas o fenómeno está no seguinte: a intenção de alteração de saída feita perante nós vem a sofrer reviravoltas quando longe de nós. Queremos ver os nossos filhos felizes, é um facto, mas assumamos os riscos e as consequências. Ou a escolha, já agora. Porque ao pedir para nos confirmarem depois por telefone essa alteração ao estipulado a resposta não vem. Enrola-se, não se atendendo ou ignorando os recados e as mensagens de voz. Assim vai o reino do ensino. Ou de alguma família, o que, neste caso, vai dar ao mesmo. Não se aprende nada. 

fevereiro 13, 2014

Horas felizes

                    

Já aqui escrevi acerca da importância que teria os trabalhadores poderem decidir sobre algumas condições de trabalho que lhes dizem diretamente respeito. Uma grande percentagem de pessoas, em todo o mundo, sente-se infeliz com a forma como trabalha mesmo sendo possível que essas pessoas gostem do que fazem. Por várias razões. Uma delas é a questão dos horários. Aqui há semanas li algures que um país nórdico (não sei dizer qual exatamente, mas tinha que ser um país nórdico, claro) está a insistir e a alargar a flexibilidade de horários, escolhida pelo trabalhador, para ir ao encontro dos ritmos de cada um. Pessoas felizes, com energia e motivadas produzem mais, nada de novo nesta conclusão, de resto. A flexibilidade laboral nórdica é conhecida mas penso que a notícia se prendia exclusivamente com a hora de entrada (e saída). Há quem seja matutino e quem, como eu, deteste levantar-se cedo. O objetivo é permitir aos últimos que possam entrar muito mais tarde ao trabalho, respeitando os seus modelos pessoais de sono e níveis de energia física e mental de acordo com as horas do dia. Argumentar-se-á que em Portugal já se pode usufruir do mesmo em muitas empresas e locais de trabalho. Acredito que sim, mas na maioria não. Pessoalmente nunca fui tida e achada para estabelecer preferências no meu horário, de todo. E admito que me faria diferença, para melhor, entrar mais tarde (dar aulas mais tarde, na verdade). Os meus níveis de boa disposição aumentam consideravelmente após o almoço e deve haver mais gente a sentir o mesmo.  Poder escolher é uma grande forma de liberdade. E exercê-la, neste caso, significaria trabalhar mais e melhor. Ninguém, desta forma, sairia perdedor. 

fevereiro 12, 2014

Vai um cafezinho?



A hora pode ser tardia para cafeína, para alguns, eu própria incluída. Mas sempre pode ficar para amanhã depois do almoço. Tema não faltará à mesa do café.

fevereiro 11, 2014

A história do bloguista


Num dos blogues que mais admiro, "Kyrie Eleison", o meu colega de blogosfera que também é de profissão, dizia e bem no outro dia, na sua caixa de comentários, que nem sempre os nossos posts têm cariz autobiográfico. Assim é. Nós podemos escrever, bem ou menos bem, até mal, sobre coisas que serão nossas, sentimentos, impressões, opiniões, experiências passadas ou presentes, medos, anseios, gostos, enfim, podemos ir pelo caminho que revela a nossa personalidade - ou muito dela. Porque o nosso mundo é maior do que o do blogue, graças a deus, e portanto há muita faceta e dimensão que não está lá espelhada, seja por escolha ou incapacidade. Ou por outra razão qualquer.
Mas dizia-se aqui que os nossos textos, grandes ou pequenos, bons ou maus, não passam exclusivamente pela demonstração daquilo que somos. Acontece-me escrever a pensar em alguém em específico, ou porque vi algo no cinema, ou ainda porque li uma coisa que ficou a remexer cá dentro, ou ainda porque faço uma generalização do que vejo, ou tantas vezes porque idealizo e intelectualizo determinado aspeto ou circunstância, e isto tudo sem ser sobre mim diretamente. O cunho na análise pode ser meu, é-o certamente, mas não tem a ver com a minha vida, de todo, ou já não tem, ou ainda não teve. Acontece-me ver, ouvir, ler, observar, sentir algo e vir aqui dissertar - ou tentar dissertar - um pouco sobre isso. Quanto menos vir, ouvir, observar, sentir, menos material terei para opinar ou refletir. Bem ou mal, repito. 
Da mesma forma, não se pense que não temos direito a mudar de opinião. Excetuando os valores, há perspetivas que podem ser alteradas. Evolui-se, amadurece-se, ganha-se experiência. Tudo isto pode mudar a nossa visão sobre alguma coisa. Um post escrito há anos atrás pode ter, portanto e entretanto, ganho outro ângulo. Posto isto, a escrita continua. Ou os registos que somos capazes de fazer. Ou que pensamos que somos. Uns dias mais intimistas, é um facto, outros nem por isso e outros, ainda, de todo. Os posts são como são. Que não se veja muito para além do que eles são - incursões no momento pelo nosso mundo, interior, é possível, e não.

fevereiro 10, 2014

O fado feminino


Ao que soube, a atriz Meryl Streep terá dito que as mulheres ocidentais são escravas da beleza. Que os homens quando se encontram perguntam "Como estás?" e que as mulheres dizem "Estás ótima!". Não sei se o terá dito efetivamente ou não mas o que aqui está expresso merece um bravo aplauso pela verdade que encerra. Sem mais nem menos. Há anos que assim penso, que a nossa libertação é muito relativa e que um dos aspetos que a limita é precisamente este - o da obsessão com a imagem, com a eterna juventude e com as medidas perfeitas. Tudo bem alimentado pelos media, naturalmente. E com a máxima colaboração de muitas, de mais do que muitas de nós.
Por outro lado, que não contradiz em nadinha isto tudo, ouvir "estás ótima!" já é um sinal de sorte, porque muitas são bafejadas com um "estás tão magrinha" acompanhado de um ar falsamente preocupado, na verdade de idiota comiseração. Ou um "estás mais gordinha", acompanhado de um sorriso maroto nem sei bem porquê. Esta atriz, que nunca se impôs por nada para além da sua graça natural, enorme talento e sensível afetividade, acertou na mouche. Deixemo-nos de balelas. A imagem é cultivada até à exaustão, e literalmente por vezes, não porque nos faz sentir melhor por dentro e melhores como pessoas, harmonizando assim a nossa vida e as nossas relações. A beleza é perseguida e a imagem alcançada de formas por vezes não naturais porque nos queremos sentir bem por fora, ao espelho e para os outros, para as outras, muitas vezes. Se ela é, eu também tenho que ser, se ela tem, eu também vou ter, se ela pode, porque não posso eu. Isto enquanto mil imagens de rostos e corpos perfeitos são processadas no nosso cérebro, em estimulação non-stop que vem das revistas, dos filmes, da net, da televisão, da moda, do espaço. 
Isto existe e desassombrada a forma de quem o admite publicamente. Tudo isto existe e é, na realidade, triste. 

fevereiro 09, 2014

Entusiasmo e fim




Há relações que estão condenadas desde o início, por mais voltas que deem e voltem a dar. Por isso, quanto menos alarido, melhor. Ou entusiasmo, embora seja muito difícil refrear este no calor dos primeiros momentos. Que até podem durar anos, é um facto. Mas o tal elo dissonante esteve sempre lá, nós é que não o vimos. Ou não quisemos ver. E um dia lá salta ele cá para fora. Não podia permanecer lá dentro, não senão de forma mentirosa. O alarido, então, passa rapidamente a silêncio. 

Quando os silêncios não são de ouro



Há silêncios de ouro, sabemos, claro. Mais vale estar calado do que dizer disparates e coisas que não se sabe, dizemos e sabemos. Digo aos meus alunos, frequentemente, ensinando-lhes a conterem-se, que por vezes calar é ganhar. É ser inteligente, sabemos. Num determinado momento, num determinado local, numa determinada circunstância. Sabemos. Mas os silêncios não resolvem muitas coisas, não resolvem tudo. Há silêncios que não podem viver para sempre. Têm de ser quebrados, têm de ganhar voz. Também o sabemos, devíamos saber. Sem diálogo ou sem denúncia, sem dizer o que se quer ou não quer, o que se compreendeu, magoou, confundiu, matou. Em certas alturas e em certas situações, o silêncio corrói, destrói. Portanto, fazer uso dele é uma tremendíssima estupidez. Há silêncios que, pura e simplesmente, não o podem ser.

fevereiro 08, 2014

Um longo not like


De um modo geral. Não gosto de pessoas sem abertura, não gosto de pessoas que não são francas, não gosto de pessoas que não reconhecem os outros, a não ser que sejam dos seus - seja lá o que isso quer dizer -, não gosto de pessoas sem sentido de humor, não gosto de pessoas a rebentar de orgulho, não gosto de pessoas insensíveis, não gosto de pessoas cheias de certezas inabaláveis, não gosto de pessoas que não sabem ver o outro lado, não gosto de pessoas manipuladoras, não gosto de pessoas que se penduram nos outros, não gosto de pessoas muito lamechas, não gosto de pessoas com a mania da perseguição, não gosto de pessoas que se queixam mas não agem, não gosto de pessoas superficiais, não gosto de pessoas muito vaidosas, não gosto de pessoas essencialmente medrosas, não gosto de pessoas que chantageiam emocionalmente, não gosto de pessoas meramente passionais, não gosto de pessoas gélidas, não gosto de pessoas rígidas e formais a toda a hora, não gosto de pessoas que não sabem soltar uma gargalhada, não gosto de pessoas que falam sempre baixinho, não gosto de pessoas que gritam e falam aos berros, não gosto de pessoas que não sabem ouvir, não gosto de pessoas que implicam com tudo e nada, não gosto de pessoas que nos fazem perguntas sobre nós a torto e a direito, não gosto de pessoas dependentes, não gosto de pessoas incompetentes disfarçadas de boazinhas, não gosto de pessoas que não assumem as vulnerabilidades humanas, não gosto de pessoas que enganam ou pretendem enganar, não gosto de pessoas elitistas e snobs, não gosto de pessoas toscas e ignorantes, não gosto de pessoas sem alma, não gosto de pessoas sem coração, não gosto de pessoas só coração, não gosto de pessoas sinuosas, não gosto de pessoas demasiado simplistas, não gosto de pessoas que não me aquecem ou, o mesmo, não gosto de pessoas que me arrefecem. Pode, ao ler-se, pensar-se que não gosto de ninguém, nada mais falso. Posso até eventualmente gostar de pessoas que tenham uma ou mais do que uma, várias, destas caraterísticas. Mas pessoas fantásticas, admiráveis, poderão ser menos. Poderão ser mais difíceis de encontrar. Existem, porém. Existem sem estas coisas que me fazem gostar menos das outras, ou um bocadinho menos. Também é possível e bem provável que as pessoas de quem não gosto não de mim gostem. É justo e mais do que natural. E até que as pessoas fantásticas possam sentir o mesmo, embora duvide. As minhas pessoas fantásticas são tão fantásticas que eu gosto delas e elas, porque o sinto, de mim. Elas merecem um post para breve. Um "longo like", porque invulgar, raro e precioso, e porque eu gosto de dizer que gosto das coisas e das pessoas. Não invalidando que não goste mesmo nada de outras, primeiras e segundas. Gostar ainda é, felizmente, um ato livre.

fevereiro 06, 2014

A máquina do tempo


querido diário
os dias passam, por entre uma chuva interminável que nos vai sugando a energia, e os sobressaltos, não meus, mas deles e que acabam por ser meus. o trabalho e os trabalhos apertam, roubando-nos descaradamente a disposição. não há tempo para escrever, nem ler, não há tempo para sair, não há tempo para a cultura nem para a diversão. o tempo escoa e o outro tempo, o que vejo do lado de fora das minhas vidraças, também não ajuda a tornar mais leves os estados de alma. que dizer, pois então? bom, e voltando ao teor dos meus dias, não foi por falta de aviso. não foi por falta de chamadas de atenção, de conversas mais intimistas, de apelos à consciência, de contactos variados, de esforços para além do comum. mas, ainda assim, prevejo que tudo vá amainar. o tempo deles, de alguns deles, está a esgotar-se, o tempo do inverno também. a espera custa e é um teste à brava mas o tempo da calmaria chegará. o sol brilhará. se não para todos, chegará o inverno ao outro lado do hemisfério, brilhará para alguns. o que não é pouco. sempre assim foi e sempre assim continuará a ser. pena o desgaste e o que se perde no tempo da espera. não é pouco.

fevereiro 03, 2014

Inutilidades ou coisas sem valor absolutamente nenhum

O conceito de inutilidade pode variar e abarcar um sem número de realidades e coisas. Mas ultimamente dei por mim a pensar num bestial sinónimo de inutilidade: dux. 

                             

janeiro 30, 2014

Aniversariando



Abre-se o Google e lá está a imagem personalizada para nós, ou melhor, a imagem poderá ser repetida mas o nome acaba em y e é só meu. De qualquer forma, a imagem pode e deve ser repetida, para o ano e durante muitos e bons, como sói dizer-se. Como está na cover photo do meu mural FB, ficar mais velho é apenas um (grande) privilégio. Que a ele tenhamos acesso, oh sim. 

janeiro 29, 2014

Os dias difíceis


Mais um dia de histórias terríveis, no passado e no presente. Tão bom seria que não se estendessem ao futuro. Lágrimas que já foram, ainda lágrimas agora, à espera de sorrisos e risos lá mais adiante. Alegria e dor misturadas naquilo que é ser mãe e pai. O que fazer, todos perguntam. Respostas certas não há, pois não dependem apenas de nós, sentados frente a frente. Queria dá-las, a solução mágica, tirar-lhes a dor e deixar só a alegria. Queria muito, quero, mas sozinha e sozinhos não poderemos. Faltam eles, os que nada parecem sentir, que se arrastam à procura de um significado que não está lá, que se movem num vazio de afetos e de objetivos, sem amor, por eles e pelos deles. Faltam as suas escolhas ou tão somente a liberdade que julgam ter mas não têm. Prisioneiros da palermice, da descoberta tola e da idade que não os deixa projetar e antever o depois. Quem tiver respostas, é dá-las, darei-as eu a quem as quero dar. Ou então resta esperar. E na espera a dor continuará a sufocar a alegria. Ao menos que esta venha depois da espera. Pode ser que sim, acreditemos. Pode ser que não.

janeiro 28, 2014

Curiosidades de gatos

           

Não tenho gatos e aprecio mais os seus primos selvagens, os "big cats" felinos. Pelo menos ao longe, via televisão, se possível filmados pela BBC. Mas compreendo que os gatos sejam uma excelente companhia com o seu ronron manhoso e engraçado. Aprecio ainda mais as formas de arte que povoam este nosso enorme imaginário criativo. Por isso, admito que isto está genial. G(r)atos estaremos, pois, ao FB já que me deixou roubar esta curiosa coleção.

janeiro 27, 2014

Valentia tunisina


                           

Histórico, sem dúvida. A primeira das revoluções árabes foi também a menos tortuosa e a menos trágica. Ainda assim assassinatos de líderes da oposição e tumultos vários fizeram alguma mossa na confiança vestida de jasmim nestes três anos. Conhecendo muitos tunisinos como conheço, espantar-me-ia se o resultado fosse contrário aos desígnios de quem justamente derrubou o antigo presidente. Mas era possível, era bem possível que os caminhos da escuridão apagassem a luz da esperança numa sociedade mais justa e democrática. Para já, esta nova constituição, com a aprovação de uma esmagadora maioria no parlamento, deixa antever que esse sonho não é impossível e que não há religião nem cultura nem nação que não seja capaz de traçar um futuro melhor. Basta organizar-se, resistir, refletir e andar em frente. Nenhum povo é incompatível com a modernidade. Consagrar na sua constituição a igualdade entre géneros e permitir a liberdade religiosa, incluindo o ateísmo - já conheci bastantes árabes ateus - não é para todos. Sobretudo para quem sempre nos habituámos a ver porque nos habituaram a ver como retrógados e em clivagem com os valores das liberdades várias. Espero que este dia seja o início de novos tempos para os descendentes dos valentes cartagineses. Até aqui, a revolução foi valente, esta votação também. Resta esperar que o que virá, a todos os níveis, também não lhe fique atrás. Sobretudo a economia e a melhoria significativa das condições de vida da população. Não havendo democracias perfeitas, nem tão-pouco sociedades.

Ler mais, aqui.

janeiro 26, 2014

A última caminhada



Um dos assuntos destes dias - e naturalmente - é a praxe académica. Já li opiniões certíssimas sobre o assunto e não irei acrescentar nada de novo nem dizê-lo melhor. De qualquer maneira, aqui fica um registo pessoal.
Não gosto de praxes, nada, nada, e senti-me desconfortável quando eu própria fui praxada, na Universidade de Aveiro, há anos e anos. Apesar de ter sido ligeira, relativamente ao que se via e vem vendo, a verdade é que me deixou algo apreensiva e envergonhada. Eu e as minhas colegas com quem estava na altura, sobretudo as da/o turma/curso. E não vejo as vantagens desse estado de alma, porque no meu caso nunca chegou ao verdadeiro divertimento e à euforia. Contrariado ninguém pode ser feliz, certo? 
É falso, totalmente falso, quando se defende a praxe como um primeiro passo para a integração. No meu caso, novamente, as pessoas que a fizeram nunca mais me ligaram, nem sequer me dirigiram a palavra. Também é verdade que não me lembro delas. Apenas recordo um aluno e digo o mesmo em relação a ele. Nunca fui de grupos nem de copos, ainda por cima, estudava e vivia em casa dos meus pais, não estava fora. De maneira que fui tudo menos popular na vida académica. Sim, tive os meus momentos de diversão, mas saudáveis e longe da boémia constante e noctívaga de outros. Era nova e financeiramente dependente dos meus pais, tive isso sempre em mente, para o bem ou para o mal.
Hoje em dia tenho uma notável - e até antipática - capacidade para dizer não. Não sei se a tinha na altura, era mais insegura e, claro, mais inexperiente. Daí que não me surpreenda quem não consiga fazê-lo, mas aí também depende do que nos pedem ou obrigam. Claramente. Ainda assim, penso que há medos nos caloiros - um deles é o de que os marginalizem, os achem demasiado caretas, sem graça nem espírito de diversão. Também acho que foi o que pensei na altura, que se não achasse graça a certas coisas, e foram leves, o erro estaria em mim. Estupidez monumental, impensável desde há tempos e tempos mas que é possível ocorrer em idades menos sábias. 
No presente caso de que toda a gente fala, a estupidez é levada ao mais absoluto extremo. Ainda assim, pesa mais para o lado de quem praxa, como sempre e como é mais do que óbvio. Porque exercem um domínio inqualificável sobre quem não sabe ou soube defender-se. Um domínio que está para além da minha compreensão. Pois uma enorme dificuldade tenho em compreender o que se retira de divertido, positivo e construtivo deste tipo de experiências. E não compreendo, assim sendo, para onde se vai com elas.

janeiro 25, 2014

Erros meus, má fortuna



Sempre o ouvimos e repetimos. Os erros pagam-se caro. Por vezes, em demasia. Por muito que façamos as coisas sem verdadeira malícia ou sem premeditação no presente, na voragem das emoções ou no desnorte da razão, a verdade é que o passado volta muitas vezes, ensombrando um futuro que sempre se desejou mais risonho e estável. Por vezes, um deslize agora tem consequências gigantescas lá mais à frente. Lembrei-me disto enquanto via, esta semana, as reportagens sobre os jogadores de futebol que já foram grandes e que atravessam dificuldades várias atualmente. Por causa de um em particular e de uma situação que veio, muito provavelmente, desmoronar tudo. Mas podia lembrar-me disto sem ver reportagem nenhuma. Sabemos, devíamos saber. Ainda que o fator sorte seja determinante para alguém se aguentar lá em cima ou não, não deixa de ser verdade que dela depende também muita da nossa ação individual. 
Esta teoria tem, ainda assim, um senão. Muitas vezes assistimos a grandes infortúnios que são tremendamente injustos. Que mal fizeram A ou B, perguntamos frequentemente. Na verdade, em muitos casos, nenhum. Sobretudo se se trata de crianças inocentes ou pessoas claramente bondosas que não escolheram nem tiveram qualquer responsabilidade no surgimento das tragédias. Injusto, profundamente tocante e um travo a revolta são coisas que dizemos e sentimos perante más fortunas que não deviam simplesmente ocorrer. Outras vezes, e não poucas, experimentamos na pele aquilo que fizemos ou dissemos, impulsivamente, no descontrolo ou na escolha atrevida ou perigosa que fizemos. E só mais tarde, só depois dos efeitos dos nossos atos resultarem em desastres pessoais, familiares, profissionais, financeiros, etc, é que olhamos para trás e vemos que não fomos justos. Justos ou razoáveis, bons ou inteligentes, hábeis ou sinceros. Só quando já não vale a pena chorar pelo leite derramado.
Há desaires terríveis, alheios à nossa vontade e à nossa ação. Esses são o choque, a má sorte. Há outros que são fruto de atos conscientes, da aventura inconsciente que se quis ter em determinado campo ou área. Podem continuar a ser chocantes, são-no, mas derivam apenas da nossa tão grande culpa. 

janeiro 24, 2014

Hey dude



Aparecem-me cada vez mais vários comentários spam. Apago-os e depois voltam a aparecer outros. O post que se mantém no top em primeiro lugar aí ao lado assim está posicionado apenas porque todos os comentários spam vão cair lá direitinhos. Wonder why.
Ainda me lembro da primeira vez que recebi um comentário spam aqui no AE. Na altura o mesmo era muito veemente na crítica que me fazia e eu respondi, peito feito, inocência das inocências. Só depois me apercebi que quando clicava no autor do comentário aparecia algo pouco, digamos, recomendável.  Enfim, coisas de quem nada sabia de blogosfera.
Não sabendo muito muito mais agora, ainda assim lá vou apagando os que vou recebendo (e repito que são cada vez mais, o que não me garante que seja mau nem bom). Mas aquilo que quero partilhar aqui é que, sendo todos em inglês, um dos últimos dizia hey dude you´ve done a great job here ou coisa do género.
Esclarecendo quem não vê a foto lá em baixo à direita nem reconhece este meu nome: eu não sou (um) dude. Não sou um homem, nem um tipo, nem um pá, nem nada disso. Às vezes digo que devia ter nascido homem, admito, mas é só quando estou a fazer limpezas, a suar e a praguejar ao mesmo tempo. Depois passa. Estamos esclarecidos, caros comentaristas spam? 

janeiro 23, 2014

O fumo e o fogo

                     

Há muitos dias e mais dias que ando a dizer "burro é aquele que arranja lenha para se queimar". Não me ouvem, não me ouvem. Ou então escutam, silenciam, anuem, para logo a seguir fazerem precisamente o contrário. Destroem diariamente não só as expetativas de quem os ama, independentemente da forma, mas as de outros que os veem brincar com o fogo. Destroem, sobretudo, aquilo que poderia ser e seria. Caminhos mais límpidos e mais promissores. As cabeças deitam fumo. Bom seria de tanto pensarem, neles e em quem os quer bem. A vontade é fraca, a liberdade confunde-se com transgressão, a reputação quer-se má, as promessas não subsistem. Fácil é não resistir. Na verdade, difícil é resistir no meio da exalação inebriante. A chama arde e queima-se o futuro. Porque no presente este fumo vem com fogo.

janeiro 22, 2014

Ascensão e queda


Hoje ao almoço falávamos da reportagem ontem exibida acerca do ex-futebolista Jorge Cadete. Pessoalmente, e apesar de saber que vários jogadores de futebol aclamados nos relvados mais tarde passam dificuldades, à semelhança de muitos artistas de teatro e televisão, por exemplo, pessoalmente, digo, chocou-me sabê-lo assim.
Aceitemos que "estoirou tudo", porque é possível. Mas ainda assim isso não me deixa propriamente contente. Sabemos que grandes fortunas, conseguidas em várias esferas, muitas vezes são perdidas por más gestões, apostas erradas e uma tremenda falta de sorte. Ou tudo em simultâneo. Acontece que ver alguém que já foi aplaudido por multidões em evidente sofrimento, tal como ver alguém em idêntico sofrimento que já pisou os palcos com êxito, não é algo que me seja agradável. Mesmo se a pessoa em causa cometeu erros. Tantos outros cometem tantos outros e vão-se safando, protegidos por alguma sorte ou por bons amigos, ou ambos.
Mas aquilo que mais me impressionou foi ver que a par da desgraça financeira se juntou o infortúnio familiar e afetivo. Ou seja, o ex-jogador não tem neste momento um pilar de apoio que poderia ser uma companheira e/ou possivelmente filhos (tem uma filha adulta, com a qual não tem relação). Sintomático é os amores correrem bem quando se está na mó de cima e o dinheiro rola e correrem mal quando se está quase literalmente na fossa. Estranhos são os desígnios de certos amores. Ou estranhos são os caminhos da sorte que foge a uns enquanto ampara outros. Estranhos são ainda os fenómenos de ascensão e queda, independentemente das razões, a que também ninguém estará completamente imune. 

janeiro 21, 2014

O romance do amor


Quando andava na universidade o meu professor preferido, que só encontrei no terceiro ano, sorriu enquanto confirmava "So you´ve read Lady Chatterley´s Lover?". Imagino que deva ter achado graça porque o romance só foi impresso e lido na integra nos anos 60 em Inglaterra e deu que falar ainda assim. É uma história controversa, que chocou a sua época, sobre a relação física que passa a amor entre uma jovem aristocrata e um dos seus empregados. Do marido, mais propriamente. Este último está paralisado da cintura para baixo, consequência da guerra, e a esposa irá (re)descobrir o amor sensual com alguém claramente abaixo do seu estatuto. 
Eu li o livro no original, a tal "unexpurgated version of 1928", numa versão pocket book, e achei muito difíceis as passagens em que Mellors usa o dialeto. Connie não gostava e eu muito menos, porque me trouxe dificuldades acrescidas. Ainda mais, na altura, sabia menos inglês. A linguagem tinha de causar sururu, estava-se em 1928 quando foi publicado pela primeira vez em Itália e havia palavras que certamente não haviam sido impressas nunca anteriormente. Não num romance desta natureza, ao alcance de todos. Mas muito mais do que o impacto das passagens ou cenas de sexo ou do escândalo que sempre representa o adultério, a obra marca por uma singularidade feminina: a necessidade de atenção, mimo, carícias, afeto, toque, ternura. Tanto que a componente meramente química e sexual do início da relação é ultrapassada pelo amor crescente que a protagonista vai sentindo. 
Eu vi a adaptação deste romance (novel) à televisão tendo como protagonistas os britânicos Joely Richardson e Sean Bean. E claramente acho que o livro ganhou com essa projeção no écrã (apesar do final diferir do do livro). A interpretação do ator, ao vivo e a cores, deu muito mais ímpeto à personagem masculina, por exemplo. De  especulativo porque apenas na imaginação, passamos a um cenário com sonora emoção e movimento. Mas aquilo de que lembro é da cena em que Connie está num pequeno barco com o marido. Ele fala de política ou de filosofia, é a tal memória incompleta de que padeço, e ela está entediada. Até que confessa que está farta do virtuosismo intelectual, se não falho também as palavras usadas. Ele espanta-se e pergunta se é preferível o animal. Ora bem, não é que ela - e qualquer mulher - viva exclusivamente para a carne, de todo, do amor carnal pode nascer uma ligação espiritual gigantesca. Pode, resumindo, nascer o amor. E a mulher, que os homens se lembrem disso, raramente passa sem ele. E sobretudo sem todo o romance (e não novel, aqui) que ele acaba por trazer consigo.


O link para a série fica aqui.

janeiro 20, 2014

Melhor do que lhes dar o peixe




A proteção deve ser q.b. Sobretudo não pode abafar a autonomia. Associa-se normalmente, pelo menos assim tenho observado, as personalidades protetoras à bondade e às que não são ao egoísmo. Ou seja ser protetor é uma qualidade, não ser é um defeito. Volto a dizer que a proteção pode ser inibidora, paralisante. E que é preciso fomentar a autonomia. Nos filhos, nos alunos. Ainda na semana passada analisava isto na aula - o facto das famílias portuguesas, e mediterrânicas em geral, perpetuarem uma cultura de colo e dependência consideráveis. Que se prolonga cada vez mais até mais tarde. Ao invés, mencionámos as famílias mais a norte, onde é comum as pessoas obterem a independência familiar muito mais cedo. Já conheci, por exemplo, alguns árabes que estão na UA aqui em Aveiro que assumidamente gostam de Portugal pela noção de família ainda ser semelhante à deles, onde essa união é levada a extremos maiores, para o melhor e para o pior.
Aqui a autonomia não é muito apreciada. A pessoa independente não é propriamente a favorita porque a ideia de grupo e do coletivo associados à generosidade é frequentemente apregoada.  Se coisas medíocres são feitas em equipa tudo bem. Se coisas grandes são feitas a título individual nada bem. O conceito de "resourcefulness" está pouco difundido, nomeadamente nos critérios de avaliação de muita coisa à nossa volta. Trabalho colaborativo, cooperação, são usualmente privilegiados. Daí que se veja, é possível, a autonomia como um defeito. Afinal, trata-se de uma afronta. Alguém que não precisa de nós, que prescinde da nossa ajuda, que realiza sem nós, isto não é fácil de aceitar. Para quem gosta de se sentir insubstituível e fulcral nalguma área ou campo.
Mas falava da proteção. Tanto com os nossos filhos como com os filhos dos outros, há que lhes fornecer armas para sobreviverem nas batalhas diárias que vamos todos tendo. Levá-los a defenderem-se, levá-los a pensarem, levá-los a aventurarem-se, levá-los a descobrirem, levá-los a concluírem, levá-los a realizarem. No fundo, arranjar-lhes uma cana de pesca.

janeiro 18, 2014

Rear window


Come, come, here they come!
A bit later than usual, I should say.
Yes, but look, another umbrella.
Yes, another umbrella.
I wonder where they´ll go this time.
Scares me to death just to think of it.
Nobody knows but us.
Which scares me even more.
We could tell the police.
We could.
We should.
Should we? What should we say?
The truth.
What truth? That we´ve found hundreds of colourful umbrellas abandoned in an alley?
At least somebody else would know.

En passant


No outro dia li já não sei onde que a questão de estarmos aqui de passagem é um conceito ligado à autoajuda. Ora como defendo precisamente isso, sobretudo em alguns aspetos do quotidiano, devo concluir que me insiro nessa corrente, tão menorizada por tantos. Entretanto fico na dúvida se tal visão me é benéfica ou não. Mas outra inquietação me assola já. É que sempre vi esta questão como uma perspetiva existencial. E porque tenho um fraquinho considerável por existencialistas a coisa parecia-me interessante, profunda e irresistivelmente filosófica. Afinal, de nada disso se trata. Esta minha mania de falar da existência por aqui, sem conhecimento teórico absolutamente nenhum para a apoiar e fundamentar, é então uma tonta ousadia que não é para pensadores. Mas se for - a ser - para sofredores, como acabamos por ser todos nós de alguma forma, será assim tão mau?

janeiro 17, 2014

Território sem dono


Isto não é politicamente correto nem idealista, na verdade estou a cansar-me da visão idílica das coisas e da dicotomia esquerda/direita e da forma como ela condiciona a visão dessas mesmas coisas. Por isso, aqui vai.
A igualdade absoluta nunca será uma realidade. Ilude-se quem assim pensa, é um mito. A igualdade de oportunidades, sim, é possível, tem de ser possível. Defendo-a e considero-a essencial e um direito inalienável de qualquer ser humano. Mas o que se fará com ela nunca será igual. Pois diferentes são aqueles que de circunstâncias iguais podem partir. Não existem apenas bons caráteres, boas escolhas, bons caminhos e boas ideias. Experimente-se dar uma quantia exorbitante a dois indivíduos e dê-se um prazo de algum tempo, um tempo considerável, para ver o que fazem com ela. Poderão vir com resultados completamente diferentes. Da mesma forma, veja-se o que fazem dois indivíduos com a mesma instrução, o mesmo grau de escolaridade. O percurso e o sucesso poderão ser completamente diferentes. Arranje-se duas famílias completamente estruturadas, em termos afetivos e financeiros. Os seus filhos poderão evoluir de formas completamente díspares. Há uma coisa subjacente à natureza dos seres humanos, que é a atração pelo abismo. Nenhuma sociedade será perfeita um dia e mesmo se o fosse não seria nem será garante nenhum contra a natureza de cada um e as más apostas que possam fazer. O perigo e o desvio farão sempre parte da existência. Termino dizendo que não gosto da direita quando contribui para o apartheid de oportunidades, mantendo as elites e sacrificando os outros. E não gosto da esquerda utópica que sonha com o impossível, partindo do pressuposto que a igualdade total é alcançável. Posto isto, espero escrever pouquíssimo sobre política (e, vou tentar, sobre educação) doravante aqui no AE. Ou se porventura prevaricar e escrever será, como sempre, de acordo com o prisma pessoal, segundo o que penso, observo e absorvo. Sou, e assim quero manter-me, um país livre.

janeiro 16, 2014

Coisas com graça

                 

1. A conta do CDS na Meta dos Leitões (casa que conheço, afinal também eu sou daqui perto desta região); roubar ao governo porque nos rouba a nós não é uma má ideia, admita-se. Tudo isto tem graça, muita. Pela petulante ousadia e pela destemida coragem no famoso restaurante. 
2. A reação do treinador Vítor Pereira na Árabia Saudita quando é manifestamente censurado na conferência de imprensa. Não que ver uma pessoa exaltada seja divertido. Mas quando ele diz "This is a free country" não há como não achar piada. O seu repetido "true" para truth também não se saiu nada mal.
3. A descoberta de que o aparentemente sem graça presidente francês é afinal um leonino conquistador. Mas atenção, não falo de paixões clubísticas, é mesmo do facto de ele ter nascido em agosto e exalar, ao que parece, romance por todos os poros, para não fugir à regra. Temos Leão.
4. Um miúdo fala mentira a querer dizer verdade: de uma soma de 2.60 euros para umas fotocópias para um manual inteiro diz ter gastado 8 na compra do manual em si. Mas o manual novo custa 5, digo. Onde o compraste? Comprei-o ao X. O X já passou para o ano seguinte e fez, pelos vistos, um bom negócio. A não ser que o X lhe tenha dado o manual já usado e a soma foi-se. Para coisas que eu cá sei. E que ele não diz. Esta graça, todavia, não deixa de ser desgraça. Sobretudo para quem ele quer enganar - a mãe.
5. A recente descoberta nacional de que temos um Panteão não deixa de ser engraçada. Estamos em 2014 e ainda vamos a tempo, acrescente-se. E pode ainda esta palavra concorrer nas mais ditas do ano, juntando-se provavelmente às crise e troika. Nada mau para um monumento que não fazia história.

janeiro 15, 2014

O sexo e a sociedade


Muito se tem escrito e falado acerca de François Hollande e da alegada ligação amorosa com uma atriz francesa que o coloca na posição de alguém indecente que trai a companheira ou esposa. Independentemente dos atributos e encantos que o presidente da república francesa possa ou não ter e dos pecados que esteja a cometer, a verdade é que considero isto como um aspeto da sua vida privada. Dele ou de qualquer um. O que me continua a espantar é a diferença de tratamento que relações amorosas ilícitas e apimentadas, de figuras famosas ou influentes, acabam por receber dos media. Uns são atacados de forma descarada, outros nem por isso. Ou os primeiros não sabem fazê-las, o que é possível, ou os segundos estão protegidos, também possível. Continua a intrigar-me, por exemplo, que o mundo gay, de pessoas famosas ou influentes, não receba o mesmo tratamento que as relações heterossexuais recebem. A igualdade é para o bem e para o mal, assim penso. Só sabemos, a um nível coletivo, que figuras gay têm casos e com quem quando isso é assumido publicamente pelos indivíduos em questão. Affairs que poderão passar por traições, também, não será diferente. Vida privada, dizem. E está certo. Mas também se trata de vida privada quando se fala dos amores e das traições dos que são straight, para variar a palavra. Donde vem esta dualidade de critérios? Nada tenho, obviamente, contra as opções de cada um, cada um escolhe viver como quer, sabe, pode. Mas é nítida a proteção que certos grupos têm e não me refiro apenas à orientação sexual. Os lobbies são vários e o poder que detêm determina e muito a informação que sai cá para fora. Em todo o lado, diga-se, não me parece que seja algo exclusivo da realidade portuguesa, de todo. Há quem esteja muito desprotegido e há quem se abrigue sob o manto da influência e da hipocrisia. E há aqueles que só sabem destruir, dizendo quer a verdade quer a mentira. A mentira é ignóbil, a verdade, não é, há que assumi-la. Mas na frente em cujo lugar ela pertence. Ainda que possa a verdade privada dizer algo sobre o caráter, pode não dizer nada sobre o desempenho público de uma função. Pode não dizer, não digo que não possa dizer. Mas então, para ser justo e coerente, haveria - e haverá - decerto muito mais para contar, para saber e para avaliar. 

janeiro 14, 2014

Objetivo e ilusão

Eu cá diria que o sonho enquanto objetivo e força motriz que induz à ação é bom. E diria que o sonho enquanto ilusão que turva a realidade é mau. Pragmatismo e idealismo não podem ser incompatíveis.

                        

janeiro 13, 2014

Tortura obrigatória

                     

Não me interessa comentar a proposta da juventude centrista sobre a redução da escolaridade obrigatória, não em termos políticos, diga-se, e dissertar sobre os possíveis objetivos de tal proposta. Agora, como professora de alunos, muitos alunos, com mais de 15 e menos de 18 no ensino básico tenho apenas a dizer o seguinte: é penoso, para discentes e docentes, ver alunos contrariados e que manifestamente não gostam nem querem estudar arrastarem-se pela escola e mandriaram nas aulas e que só estão à espera, alguns, de completar 18 anos para se porem a andar da escola para fora. Assumidamente. Não trazem material, não fazem rigorosamente nada, chegam atrasados e mantêm-se apenas na escola e nas aulas, não em todas em abono da verdade, porque a CPCJ (Comissão de Proteção a Crianças e Jovens) está em cima deles e das suas famílias. Com o esforço acrescido - e maioritariamente inglório - que os serviços de psicologia das escolas têm com isto, os diretores de turma e mesmo os tribunais, se a coisa for mesmo complicada. 
Há alunos que já têm emprego assegurado nas empresas de familiares. "Faltam quatro meses, professora." E assim perturbam as aulas, espalham o mau comportamento e o desinteresse ao resto dos que lá estão e ainda querem fazer alguma coisa. Assim vamos, indo muito pouco. Só quem trabalha em escolas de elite ou quem desconhece completamente a realidade na sala de aula - e as realidades socioeconómicas ou culturais por detrás dos alunos -  é que pode concordar com uma lei absolutamente contraproducente. O saber desta rapaziada é mínimo, zero, abaixo de zero, muitas vezes. Ninguém aprende contrariado. Também nem todos têm as mesmas capacidades, a mesma curiosidade ou o mesmo background familiar. E a verdade é que nem todos podem ser doutores, sob pena de desaparecerem ofícios muito dignos e úteis em qualquer sociedade.
Seria muito bom que toda a gente soubesse muito, gostasse de aprender muito, chegasse muito longe ( e mesmo isto é relativo). Mas é preciso poder e querer. E não podendo ou não querendo, é impossível. Torturantes as aulas para este tipo de alunos, torturantes as aulas para os colegas mais novos que ainda querem aprender e tirar uma qualificação, ainda que não alta, torturantes as aulas para os docentes que têm de apresentar resultados e sucesso a toda a força. "Faltam quatro meses para fazer 18 anos", escuto diariamente Até lá, tanta água passará ainda debaixo da porta da sala de aula.