agosto 30, 2013

Silly ma non troppo


Passaram-me completamente ao lado, ou seja, sei que aconteceram mas não vi nem me interessam particularmente ou até nem me interessam de todo:

- o Pontal e a rentrée da política portuguesa
- a entrevista da Judite de Sousa ao miúdo
- o início da temporada do futebol luso
- a morte de António Borges


Não me passaram ao lado, infelizmente:

- os fogos e a tragédias dos bombeiros
- o Egito, a Síria e outra tragédia, atual e provavelmente futura
- o concurso de docentes - mobilidade interna


De qualquer forma, o descanso e o verão conjuntamente podem ser letárgicos a tal ponto que nos fogem as ideias, a inspiração, a perspicácia, o engenho. A haver isto tudo, claro. Torna-se difícil escrever, por exemplo, à medida que os dias se tornam melhores, mais aliviados, mais exteriores. Manter um blogue na travessia que é o verão que adoro é coisa árdua.

agosto 28, 2013

Satisfaction


De vez em quando aparecem nas revistas e nas redes sociais umas listas do género 10 passos para a felicidade e coisas parecidas. No outro dia apareceu uma que tinha para aí umas 23 coisas. Como não fazia muitas delas concluí que estava muito longe da felicidade. Mas, agora mais a sério, no meio de tanta coisa, há sempre um denominador comum - o parar de nos compararmos com os outros. Na verdade, este é um grande passo para a infelicidade, ou para um grau de insatisfação que pode raiar o doentio, no seu extremo, logicamente. Querendo ou não, de forma automática ou voluntária, acabamos sempre por espreitar para o lado para ver como pairam as coisas. E se as coisas correm bem, também queremos o mesmo para nós. Nada de mal, se de um ponto de vista da estimulação que é necessária à condução da nossa vida. Os outros fazem-nos andar, positivamente, inspiram-nos, exigem-nos. E nós respondemos e alcançamos muito ao mesmo tempo que nos valorizamos e seguimos adiante. Contudo, se olharmos para o lado sob o ângulo do despique (que existe, entre vizinhos, entre familiares, entre colegas) o resultado será o de um desgaste desnecessário e tolo. Porque inclusivamente o que vemos ao lado pode ser enganador. Se olharmos bem, atentamente, há sempre alguma coisa que falta. Que nós temos, ainda por cima. Obviamente que há quem pareça tudo ter, e até pode ter, momentaneamente, no seu tempo. Nós temos o nosso tempo e os outros o deles. É difícil, na sociedade da imagem em que vivemos, em que cada vez mais somos voyeurs uns dos outros, não desejarmos o mesmo bem estar, a mesma felicidade, a que se projeta, na realidade. É tarefa árdua resistir ao sucesso dos outros sem a comparação. Começamos a ver isso bem cedo, nas crianças (eu tenho e tu não tens, eu faço e tu não fazes, constante nos parques infantis) e os pais adotam os mesmos comportamentos. Ou ao contrário, muito provavelmente.  Compararmo-nos aos outros, amiúde, dá cabo de nós. O que importará será desejar e alcançar o que quer que seja por nós mesmos, porque nos faz bem e porque nos é essencial, não porque vimos ou alguém nos faz crer que é o melhor. E não desesperarmos se as coisas tardam, comparativamente, lá está. Convém educarmo-nos para isto, convém-nos, convinha. Tudo seria mais simples. O sonho não deixa de comandar a vida mas é o nosso, não o de alguém que não nós. E logo se verá. Mas certamente que nos deixa um bocadinho mais próximos da satisfação e do contentamento com o que temos ou vamos tendo.  

agosto 27, 2013

O cerco

                 

Outra palavra que já anda a fazer-me espécie é mobilidade. Ontem, no metro para o Chiado, olhei para um poster e vi-a, ia-me dando uma coisa. Já não pode uma pessoa estar longe das coisas de sempre que logo volta o fantasma da desgraça docente. Indecente, como sabemos. Para quem possa não perceber de imediato. Está-se descansadinho em casa, princípio de agosto, merecidas férias, e uma sms chega e avisa-nos que temos de concorrer porque não há turmas para nós. Efetivos, damos aulas há anos e anos e lá vem a mobilidade especial. Isto significa que está a apertar-se o cerco. E entre este e o aperto do metro, venha deus que nós seguramente escolhemos. 

Encantos de Lisboa e não só


Ontem em Lisboa veio à minha baila a questão de sempre: cultura, cosmopolitismo, diversão, modernidade versus o que tenho por aqui onde moro: calmaria, qualidade de vida a vários níveis e marasmo, ou seja, dias mais desinteressantes mas mais relaxantes. Podia era estar mais perto da estimulante capital e manter o que há tranquilamente à minha volta. Podia, digo eu, mas não estou. 

agosto 25, 2013

As horas


Deparei-me com uma frase da estilista Fátima Lopes em que afirma sentir-se chocada com a resistência às 40 horas semanais e acrescentando que ela própria nunca trabalhou menos de 40 horas por semana. Três coisas: primeira - é verdade que não se vai lá sem trabalho e sem esforço; segunda - a estilista trabalha por conta própria, para ela, e sabemos que as pessoas que o fazem são naturalmente mais esforçadas, nomeadamente em termos de horário, por razões mais do que óbvias; terceira - a opção da estilista não é seguramente a de muitos, ou seja, (diz que) não quis ter filhos, está no seu direito, claro, e, neste momento, é, ou parece ser, uma mulher livre, com as implicações que isso significa, mais tempo e maior disponibilidade para se dedicar àquilo que gosta e que a faz ganhar e muito. Por outro lado, não nutro simpatia por workaholics que apregoam o trabalho como opção primeira de vida e que apenas se parecem projetar através dele. Mais uma vez, estão no seu direito, mas também estou no meu ao discordar de uma éxistence privada de ócio e vida familiar. Posso trabalhar até à exaustão, por profissionalismo ou brio, ou respeito e gratidão, mas não porque o procure necessariamente. Na verdade, trabalho porque preciso, e portanto não sou uma viciada, de longe. Por dádiva, fazia mapas astrais e outras coisas que dessem apenas prazer, a mim e aos outros. Eu, nestas matérias, não sou nada feminista - acho que nós mulheres, mães pelo menos, devíamos ter horários completamente adequados à educação e acompanhamento dos filhos, como se vê, penso, em certos países do norte da Europa. Não estejamos com histórias: na senda da igualdade quem perde somos nós. Não basta o full time, como ainda damos o litro com as tarefas domésticas e a supervisão da escola, da saúde, da roupa, da alimentação dos filhos. A maior parte das encarregadas de educação são mães, isso diz tudo. Eu cá voto não pelas 40 - um retrocesso - mas pelas 20. Sou diferente por ser mulher? Sou e não me importo nada de o ser. Quem me dera mais tempo para maior qualidade de vida, para mim e para os meus. Ou é bom as crianças passarem o dia todo na escola e no ATL, com as consequências várias que daí decorrem, nomeadamente a falta de concentração e um grande desacompanhamento que às vezes induz a certos comportamentos? Mas isto vinha a propósito da Fátima. O sucesso advém da dedicação e da entrega, mas cada um trilha o seu caminho. A opção dela não é a minha nem será a de muita gente (mais horas quando ainda por cima dizem que há funcionários a mais?). Gosto de equilíbrio e desiquilibro-me se não o tenho. Trabalho e conhaque, entenda-se. Tem de haver horas para os dois...

agosto 24, 2013

Abnegação


Todos nós conhecemos juras de amor eterno, ou até mais imediato, quer porque as dissemos ou ouvimos quer porque as vimos no cinema. No écrã, suspiramos, geralmente, com as nossas histórias românticas favoritas e na vida real vamos suspirando, mais ou menos, consoante o estado de paixão ou a intensidade dos amores que vamos vivendo. Há frases que ficam realmente muito bem no cinema. Ou na literatura, dá no mesmo. São muito bonitas, absolutas, fazem-nos querer eternizá-las e quiçá experimentá-las, já que muitas vezes a vida imita - e quer imitar - a ficção. No entanto, por vezes é muito difícil reproduzi-las na realidade, sobretudo aquelas em que há um desvelo total pelo outro, revelando um amor tão forte em que um se propõe a fazer tudo pelo outro (ou ambos). Chamar-se-á a isto abnegação. E aqui é que as coisas se complicam. À exceção do amor pelos filhos, nenhum amor físico, erótico, me parece merecer o abandono da vida e dignidade próprias, se a isso tiver de levar essa tal renúncia a nós mesmos. Essa frase de ser capaz de fazer tudo pelo outro é talvez entendível no estado de paixão inicial mas já não o será a nível do amor mais maturado e até mais quotidiano. Na verdade, é estranho esse abandono de nós mesmos se levado a um alto ponto, se levado ao extremo. Aqui há uns anos vi Ondas de Paixão, um filme inquietante, que me perturbou imenso. Se bem me lembro era uma história em que o amor tocava esse extremo, ou melhor, em que o amor pelo outro era tal que se abandonava a dignidade própria e se fazia tudo, literalmente, ou quase, pelo outro. Acredito que haja almas muito apaixonadas e muito emocionais que se deixem levar pelas ondas de uma avassaladora paixão. Mas acredito que há outras que, mesmo apaixonadas, conservam sempre um pingo de racionalidade e de amor próprio. Desvelo total pelo outro versus ego, também é possível. E também entendível, já agora. Os excessos são perigosos, para além disso. Um certo distanciamento é natural, mesmo quando a flor da paixão brota e cresce intensa e rapidamente. O único grande amor que não conhece qualquer espécie de ressalva nem de salvaguarda pessoal é o amor por um filho. O resto é mesmo substituível, sempre. Sabemos que sim. Isso não quer dizer que não amemos e façamos até uma jurita de vez em quando - há quem o faça amiúde, e não quer dizer que dure igualmente. Interessa é estarmos bem no amor, de forma verdadeira, com ou sem palavras bonitas e absolutas. Nós e o outro. 

agosto 23, 2013

Esquerda e direita e aquilo que não é e deveria ser


Há coisas que me irritam na esquerda. O discurso cassete, a eterna crítica, um certo elitismo intelectualóide e cultural, o não saber relaxar, o pensar que todos os desfavorecidos são naturalmente bons e merecedores, a dualidade em relação a ditaduras, a ausência de autocrítica, uma certa divinização do trabalho. Permanentemente em guerra, uma canseira que é incomportável, para mim, a tempo inteiro. 

Há coisas que igualmente me irritam - e detesto - na direita. O snobismo, a indiferença social, os tiques de quem sempre tudo teve, a frieza superior e sobranceira, o preconceito étnico e religioso, o liberalismo económico levado ao extremo, a dualidade em relação a ditaduras, uma insensibilidade que brota de uma existência ao abrigo de dificuldades. Permanentemente sob privilégios e uma certa rigidez face à necessidade de melhorar e mudar o que é preciso.

O que resta então? O centro? Não me parece, a ver pelas jogadas de poder e os interesses que não são nacionais que o centrão tem sempre demonstrado neste nosso país. O que me resta, então? Apesar de nunca ter votado à direita, e não me pareça que o vá fazer algum dia, a verdade é que estou a ficar cada vez mais apartidária. Penso que nunca seria, de resto, capaz de pertencer e militar num partido, sou demasiado independente para isso. Tolher as minhas opiniões e posturas por causa de decisões conjuntas em nome de uma pretensa ideologia não faz o meu género. A ideologia é uma dimensão interessante mas está minada por questões que a defraudam constantemente. E não concebo ideologia sem humanismo, sem alma e sem prazer. 

Também considero que há pessoas de real valor em todos os quadrantes. E que as temos de valorizar, independentemente do  lado em que estão. Se forem humanistas, construtivas,  anti-preconceito, dignas, competentes e positivas, pouco importa em quem votam. Há valores que são, ou dizem ser, tradicionalmente de esquerda e que são essenciais. E outros, que dizem estar historicamente ligados à direita, que também o são. Daí que o que importa é construir e seguir, respeitando o outro, a diferença e sendo sensível às dificuldades, evitando-as ou lutando contra elas.

Os líderes, da esquerda e da direita, também desempenham um papel importante. Há quem nos inspire e há quem nos desiluda e defraude. Há personagens inenarráveis, tanto à esquerda como à direita, tanto nacional como internacionalmente. Há inclusivamente indivíduos que usam a política e o poder que detêm para escoar as suas paranóias pessoais e os seus traumas interiores. Há mentira, há abuso, há exploração, há demência.  Há perigo, portanto.

À esquerda ou à direita, as coisas que me irritam não deviam ser ou estar. Elas afastam-me, sobretudo na área onde me tenho movimentado desde que voto e mesmo desde que desenvolvi a minha perceção do mundo e da política como meio de o (poder) transformar. Será provavelmente isto fruto da sociedade atual onde vivemos, onde os valores e consciência parecem desvanecer-se, onde a vaidade, os egos e o embuste se pavoneiam, onde a vidinha de cada um se sobrepõe a tudo, onde, no fundo, a mediocridade impera. 

Vou continuar a votar. À espera de um milagre qualquer, ainda e sempre. Há surpresas, apesar de tudo, no meio das desilusões. Lutando quando se quer, como se sabe e pode, e relaxando quando se quer, como se sabe e pode. Importa é que os dias possam ser melhores, tanto quanto os outros nos deixem e tanto quanto nós próprios os possamos tornar.

agosto 22, 2013

Conhecedores

Podemos ter opinião - temos direito a ela - mas se não experimentámos ou vivemos certas situações a nossa opinião não é tão sábia como quem as experimentou ou viveu. Estar dentro ou fora faz, quase sempre, toda a diferença. Quer neguemos isso quer não. 

agosto 21, 2013

Livros caros e caros livros


Este ano estreio-me na compra dos livros escolares com o pequeno. Como ainda se trata de um nível elementar - iniciante, na verdade - são apenas 3 os manuais a adquirir. Estão encomendados e vai ser uma alegria quando chegarem. Porque era sempre uma alegria para mim a chegada dos manuais escolares, tanto que os guardo praticamente todos, sobretudo os da escola primária. E pretendo transmitir essa alegria quando o pequeno os vir e folhear. Vem isto a propósito da aquisição dos manuais escolares no início de cada ano letivo. Entre eles e outro material necessário, as somas costumam ser um forte encargo para as famílias, sobretudo para quem tem mais de um filho. O negócio das editoras é uma realidade, são muitos os manuais que são caros, sobretudo nos anos em que são precisos vários, e a crise que afeta o seio de muitas famílias vem complicar a aquisição dos mesmos. Há neste momento escolas que recorrem ao sistema de empréstimo e sempre se podem emprestar/passar entre familiares e amigos. Contudo, há duas questões que me parecem pertinentes de abordar.  A primeira é a de que a crise não pode justificar todo o desinvestimento que se faz em relação à escola e à aprendizagem. Ou seja, não me convencem os argumentos de que os livros são caros e portanto não se compram, quando em casa ou na família existem vários televisores, computadores, telemóveis topo de gama, playstations e os outros gadgets todos de última geração. E tantas outras coisas a que os miúdos têm acesso e que são supérfluas. Continuo a insistir na questão das prioridades. Não me esqueço de um aluno, por exemplo, que não tinha manual mas que apareceu com um tablet na aula - coisa que não possuo nem sinto falta. Ou de outros, maiores de idade, que não tinham nem têm manual mas vinham e vêm de carro próprio para a escola. Muitas vezes usa-se a crise para descartar as responsabilidades escolares e com isso não posso compactuar. Por outro lado, havendo dificuldades ou não, não se deve passar aos miúdos um certo  desagrado com a compra dos manuais, como se de um fardo se tratasse, retirando o prazer que deve constituir a chegada ou compra dos livros escolares. Deve-se incutir o gosto pelos manuais - e pela escola - desde cedo, pelos livros, pela aprendizagem e descoberta que podem representar e representam. Desconheço se os meus pais tiveram dificuldades para me comprar os manuais, não me lembro, mas imagino que sim. Nunca senti isso, porém, o que fez com que apreciasse sobremaneira e guardasse na memória o início do ano letivo, o folhear dos mesmos, o antecipar das matérias, até o encapar, antigamente muito comum. Está a chegar-se a um ponto em que se desprezam os livros, em que se dá valor e adquire-se um rol de coisas não essenciais em detrimento do saber que eles nos proporcionam, que é sempre, sempre mais perene do que aquilo que se apreende online. Se há dinheiro, e falo dos filhos, para férias no estrangeiro, concertos, roupa de marca, novas tecnologias, tardadas no café, e tantas coisas mais, tem de haver dinheiro para os livros escolares. Uma vez que não são grátis e não invalidando que sejam caros e que custe a muitos (não falo aqui das famílias realmente necessitadas). Há que estabelecer prioridades. E há que fomentar o gosto de ir para a escola. Os livros são caros mas têm de nos ser caros, da outra forma. Compreende-se, claro, o resto mas o prazer tem de passar para os miúdos. Pois se de pequenino se torce o pepino...

agosto 19, 2013

Quo vadis?


Não tenho acompanhado de forma elucidativa e completa os acontecimentos no Egito. Já aqui registei que uma democracia não se esgota em eleições. Mas também não sou a favor de golpes militares, sobretudo se instalam regimes em que se resolve tudo à lei da bala. E pensar que uma civilização que já foi tão grandiosa, apesar dos pesares, mergulhou, mais uma vez, numa convulsão que afasta ainda mais a melhoria de condições de vida para uma grande parte - para a grande parte - da população. Quando era novita, fascinava-me o país das Pirâmides e do Nilo. Hoje esse encantamento desvaneceu-se, por várias razões, embora acredite que as suas estâncias balneares sejam boas e que a experiência de visitar o país seja um enriquecimento a vários níveis. Mas agora não. Agora está longe de uma segurança que é essencial, quer para visitantes, quer para residentes. Conheço um engenheiro egípcio, também com nacionalidade canadiana, que está na Universidade de Aveiro e que foi agora passar quinze dias ao Cairo, para ver a família. Não saiu de casa, ao que se me constou. Em tempo de férias, o Egito não deixa espaço para a tontice de verão. Bom seria que deixasse, bom sinal seria. E não tanto por causa de quem o visita mas essencialmente de quem lá vive. E que não tem nada a ver nem com desejos de medievalismo religioso nem com a tirania das armas. 

agosto 15, 2013

Histórias no feminino que fizeram história



Ando a ler - ou reler, a completar a leitura iniciada anteriormente - o livro Mulheres que amaram demais, de/a Helena Sacadura Cabral. Tenho apreciado bastante as histórias de vida no feminino, à semelhança do que já tinha acontecido com Histórias de Mulheres, de Rosa Montero. Trata-se de mulheres que fizeram história, em diversos campos da sociedade ou das artes, reclamando para si os louros da sua audácia e inspirando quem as conheceu na altura e quem hoje em dia as vai (re)conhecendo de outra forma. 
Uma coisa é certa, e saída destas leituras - parece-me que dantes era um tempo mais ousado e que hoje somos mais conservadores, malgrado os anos 60 e 70, a geração dos movimentos de libertação e (liberização) sexual e o afastamento de códigos mais rígidos de conduta pessoal. Qual a razão desta conclusão? Bem, ao ler estas histórias femininas, constata-se que havia muito adultério, muita bissexualidade (e homo) e muito mas muito "mènage à trois". E coleções de amantes consideráveis, claro. Todas estas mulheres estiveram muito à frente do tempo nestes parâmetros de existência afetiva, marital ou familiar. Todas desafiaram convenções da época - e que não estão assim tão diluídas como isso atualmente - e viveram sob padrões não isentos de escândalos que, no entanto, não deixaram de as fazer prosseguir, viver livremente e, depois, eternizar-se. 
Se pensar nas famosas de hoje em dia, a quantidade maior residirá na cultura pop e também no cinema, assim à primeira abordagem. E, curiosamente, apesar de serem mundos de desafio ao normal quotidiano, parece-me que se pautam por um maior conservadorismo a nível das relações amorosas e da estrutura familiar, tendo em conta a projeção que se faz das suas histórias. Ou estamos todos mais familiarizados com o atrevimento e com escândalos de vária ordem ou o feminismo, e as suas conquistas em várias frentes, é responsável por uma maior exigência no que diz respeito ao modo como nós, mulheres, queremos viver. Teremos mais liberdade de escolha, independência financeira, e isso já faz bastante (ou toda a) diferença.
Também é possível que a incrível ousadia destas mulheres residisse no facto de, em tempos diferentes, terem atravessado dificuldades várias até ao triunfo, ou à fama. A necessidade é, de facto, mãe de muitas coisas e estas mulheres enfrentaram obstáculos variados que as fizeram querer alcançar sempre mais, por uma questão de orgulho, muitas delas, brio pessoal, vontade de vencer e sair de um destino que não lhes fora favorável no início. Demonstraram, desta forma, um espírito incrível, de sobrevivência, força e astúcia, frequentemente também. Não são heroínas boazinhas que estão em casa de forma passiva, são sobreviventes e exploradoras do seu caminho, inteligentes e ambiciosas. Muitas vezes, triunfam mesmo sobre as suas origens.
A audácia foi muita e o seu legado, diferente mas igualmente perpetuado no tempo, aí está. Amaram demais - homens, projetos e, atrevo-me a dizer, também, elas próprias porque a sua vontade foi sempre maior do que o resto. Quando chegar ao fim do livro provavelmente direi mais umas coisas. Para já, estou a amar demais ler sobre elas.

agosto 14, 2013

Atentados sem valor



atentados, ofensas, afrontas, dá no mesmo.

primeiro atentado - chamar Mandela ao cão que desfez a cabeça da bebé, ainda que as circunstâncias, ao que parece, não estejam completamente clarificadas, é de uma idiotice sem fim. equiparar o seu percurso ao do símbolo da liberdade sul-africano é um atentado. à dor da família que perdeu a criança e à prioridade da defesa da vida humana. as crianças, então, estão primeiro. como pode alguém esquecer-se disso? só falta agora nomearem o animal para o nobel da paz. assim vamos, com preocupações deste tipo, passando-se ao lado do que é essencial. sim, porque aqui o resto é acessório e uma mediatização que nem sequer interessa. a inversão de valores que vamos assistindo atualmente é algo que me custa a perceber.

segundo atentado - o PM ter dito, já algum tempo mas estava agendado e aqui vem,  que "a crise tem sido mais forte porque as pessoas gastaram menos do que previmos" é uma observação, numa palavra, idiota. ou parva, se preferirem. não votei em quem nos governa mas tenho sido paciente em muitos domínios, não me ofendi com o piegas nem com outras coisas mais, embora esteja tudo a chegar a um ponto que não pensei ser possível. esta tirada é um atentado à dignidade. de quem trabalha e de quem perdeu o emprego, de quem viu a sua vida andar para trás, e mesmo da maioria de nós. ó caro PM, dê-me o(s) meu(s) subsídio(s) de férias, reponha os valores dos cortes a que me tem sujeitado sistematicamente, descongele-me que já gelo desde 2004, e aposto que não estaria em casa a escrever estas linhas nesta altura. outros valores cantariam, já que estes - e de vária ordem - vão de mal a pior.

agosto 13, 2013

Exotismo é beleza

              

Não me espanta que o ator Marlon Brando tenha sido sempre chegado a mulheres exóticas. Namoriscou e casou com algumas, estas últimas foram três, ao que me lembro. Ou que tivesse, mais tarde, comprado uma ilha no Pacífico para fugir à civilização ocidental. Afinal, protagonizou alguns filmes em que o fator exotismo ou etnicidade estavam bem patentes: Revolta na Bounty, Cinco anos depois, Viva Zapata, Sayonara, Casa de chá do luar de agosto, A condessa de Hong-Kong (vi todos). Até mesmo Apocalypse Now, se esticarmos a guerra do Vietname a um certo gosto pelo desafio oriental.  Sobretudo a oriente ou a sul do equador, o exotismo e a diferença de tantas etnias, nacionalidades e origens é sinónimo de fascínio para muitos. E de beleza. Ou, provavelmente melhor, a beleza reside precisamente no exotismo e na diferença desses traços e caraterísticas. Não me espantam os casamentos multiculturais, muito pelo contrário, os romances vividos na geografia das cores, os amores que resultam de uma atração pela galeria do exotismo que povoa este nosso mundo. Vejo beleza a oriente, eu também, desde sempre. Feminina e masculina (é reconhecida a beleza das mulheres tailandesas, por exemplo, e outras, mas já não é tão comum o reconhecimento de beleza oriental também no masculino). E a sul do equador, a oeste, nos pontos cardeais todos. Encantam-me-me as incursões por esses mundos de contraste e da mesma forma atraem-me esses rostos. Os rostos exóticos podem ser extremamente belos. Tantos rostos exóticos que são belos, diferentes, invulgares. Mulheres e homens. Traços de outras linhagens, contornos de outras histórias, olhares de outros cantos. Por isso me fascinam as viagens e o cinema que mos fazem entrever. E, físicas ou ficcionais, as histórias de amor que cruzam os oceanos e os mares mais a sul. 

agosto 11, 2013

O passado é um país diferente

E fazem as coisas de modo diferente lá. 
   O genérico, no início, demora mais ou menos 1 minuto e 20 segundos 
(coisa impensável hoje em dia, onde até se omite no princípio, algo que me deixa desagradada e me faz ficar a ver o nome dos atores e pouco mais no fim, já que todos se levantam no cinema e já não consigo ver nem saber mais nada)
    As pessoas - e os amantes - escreviam cartas
(coisa impensável hoje em dia, se formos para a abordagem amorosa escrita, podemos arrancar umas sms, até mesmo para nos descartarmos de um relacionamento)
    A diferença de classes era notória
(coisa mais subtil hoje em dia, não vivemos em castas, é um facto, não há uma etiqueta a dizer povo, nobreza, clero. mas ainda assim rico atrai rico e pobre atrai pobre, ou canudo atrai canudo, o nome atrai nome e por aí fora)
    Os filmes eram rústicos e românticos
(hoje são maioritariamente urbanos e violentos, thrillers, suspense, investigação criminal e forense, muito adn)
    Não havia trailers, de todo ou como há hoje
(os atuais são muito vertiginosos, embora dependendo do tipo de filme, é certo. no fundo, não são os trailers que são maus, tecnicamente são bons, são os filmes que não são melhores)



Não é segredo para quem me conhece a este nível - e são poucos - que sou fã do cinema britânico, dos atores, realizadores, e da literatura britânica. Já o disse aqui, no meu seminário, último ano na universidade, o tema era esse - a adaptação de obras literárias ao cinema. Também sou fã de um certo classicismo, pois sou. E este título, O mensageiro, romance e filme, reúne um pouco isso tudo. Trata-se da história de um rapazinho que é feito mensageiro entre dois amantes, na tela Alan Bates e Julie Christie, de forma involuntária, e que, porque ele próprio se apaixona pela protagonista, sofre com o teor das cartas que vai clandestinamente lendo. Toda a intriga é marcada por aspetos de diferença social, o que acaba por levar à tragédia. O rapaz é inocente e, de certa forma, a época também. Ou pretendia-se manter falsamente essa inocência. No original, chama-se The Go-Between. Vale a pena e de que maneira revisitar algum passado, através das páginas de um romance ou no écrã. É um país diferente, realmente. É ir lá e ver.


(romance de L.P.Hartley, de cariz autobiográfico e lido há muitos anos, argumento do filme de Harold Pinter, dramaturgo, realizador, ator, música de Michel Legrand, realização de Joseph Losey)

agosto 10, 2013

Os bichos


Aqui em casa voltou-se à bicharada. Está de férias, sozinho, sem a influência dos outros, e desta forma ficaram para segundo plano os beyblades, os skylanders, e todos os outros nomes parecidos, com funções parecidas e despesas parecidas. Voltaram as enciclopédias, o nat geo wild, os dinossauros, as espécies, os felinos e a savana toda. Voltou a si mesmo, desde que era bem pequenino. Bicharada, vida animal, biologia, ciência, um possível caminho. Voltou ao que ele é. E não consigo deixar de projetar esta ideia um pouco mais. Tal como as crianças, também nós mudamos, pelo menos aparentemente, com os outros e por causa dos outros. Ou seja, deixamo-nos influenciar. Ainda que digamos que não, a verdade é que por vezes nos desviamos do nosso caminho por causa dos outros. Melhor ou pior, nem sequer é essa a questão. Mas desviamo-nos, encetamos outras possibilidades, exploramos. Não que haja mal nisso, a serem os caminhos alheios melhores que os inicialmente traçados por nós. A permitirem aprendizagens que nos enriqueçam. Mas isto, observado num pequeno comportamento de uma criança, tem muito que se lhe diga. Significa que se foge muitas vezes à nossa própria verdade. Que se parece, também, o que não se é. O ser e o parecer coabitam em nós, até se podem contradizer. Ou complementar-se. Mas, dizia, significa uma fuga de alguma espécie. Um salto em frente... ou não, possivelmente. Em suma - nós somos quando estamos sozinhos. O resto é reação, imitação, reflexo, resposta. Resta saber se o que somos chega para as encomendas. Ou se precisamos de parecer para seguir. É bem possível. 

julho 31, 2013

O cansaço de (uma) pessoa


O post anterior é um bocadinho enganador. Gostaria que este início de férias de verão fosse apenas isso - verão, tonteria e o resto, mas por vezes nem tontos podemos ser, não nos deixam. Tenho na ideia bastantes temas sobre os quais escrever mas vou fazer uma pausa de alguns dias no blogue, quando voltar ao teclado espero estar mais descansada e organizada mentalmente.  O que há em mim é sobretudo cansaço. Cansaço pessoal e pessoano, íssimo. Até lá vou procurar alguns pontos da lista anterior para ver se se refresca o interior. Obrigada a todos os leitores, amigos, reais ou virtuais, seguidores, poucos mas bons, curiosos, simpatizantes, navegantes que aqui aportam acidentalmente, visitantes em geral, tenho tido sorte, a maior, com toda a gente que por aqui passa. Vou e volto.

julho 30, 2013

All that summer allows

Here´s a list of nice things about summer. This is obsviously a post about nothing relevant. In fact this is totally irrelevant. Silly days ask for silly things. If you can follow this till the end I congratulate you because you´re in a total silly mood yourself. The two of us could be on the way to happiness. That´s something. That´s summer. 


1. Crystal-clear waters, smooth beaches that look like paradise on earth

    

2. Relaxing hammocks... they don´t have the same effect in winter, do they?


3. Seashells and little buckets that take me to childhood memories of beach time mornings


4. Flip flops...  total freedom at your feet:)


5. Picnics in the fields... romantic ideas on the countryside


6. Pools... relaxation of mind and body


7. The road... and going south. On the search for the sun and warmth


8. I want to ride my bicycle... I want to ride my bicycle

julho 29, 2013

Pessoal e transmissível

Marilyn Monroe por Lawrence Schiller

A linha entre o privado e o público é ténue e muitas vezes somos nós que a tornamos assim.  O Facebook, por exemplo, é um local de partilhas. Um pequeno grande mundo, até. Cada um usa-o à sua maneira. Posso estranhar que postem algumas coisas, desde fotos a pensamentos ou ambos, sobretudo quando significam uma grande trabalheira, ousam em aspetos mais intimos, naquilo que intimo significa para mim, ou manifestamente não me interessam para nada. Mas os outros também podem estranhar aquilo que eu publico também, considerando que também estou a expor algo que não devia, que não lhes interessa ou que condenam por alguma razão. Posto isto, tudo é criticável, de acordo com a nossa lente, relativamente àquilo que é interessante, relevante ou até próprio para publicação pública...ou parcialmente pública. Disto dependerá quem temos na nossa rede de amigos, se apenas estes ou conhecidos, ou até um mural aberto a todos.
Mas vejamos exemplos mais em concreto. Um casamento, e da mesma forma, um divórcio, um nascimento de um filho, uma festa numa discoteca, um aniversário festejado à grande, um reconhecimento profissional, e tantas outras coisas não são propriamente assuntos privados. Quer dizer, são pessoais, da esfera individual de cada um, mas não são segredos e mais tarde ou mais cedo, e quantas vezes na hora, são do conhecimento público, ainda que apenas local, dependendo do alcance da nossa própria reputação, familiar ou profissional, popularidade ou até fama. Se são do conhecimento público não estão fora da esfera pública. É natural que as pessoas partilhem essas informações, se bem que há tendência para focarmos os acontecimentos positivos, queremos aparecer na mó de cima, e já não o contrário, o que é normal, absolutamente normal. Queremos as nossas melhores fotos, parecer bem, enfim, a feirinha de vaidades que não devemos ver como anormal.  
Pessoalmente, há coisas que gosto de saber e só as sei pelo FB, são coisas boas ou naturais nos outros e como muitos, inclusivamente familiares, estão longe fisicamente, sempre acompanhamos as pequenas ou grandes felicidades de quem gostamos. Ou pelo menos de quem não desgostamos. Já me causa maior impressão, admito, quem critica mas não se expõe, ou melhor, quem tem perfil e está registado, nunca publica nada e anda por lá a ver os outros. Certo, se não queremos ser vistos, não nos mostremos. Está bem dito. Mas, aos outros, pergunto, se criticam porque lá andam? Uma boa pergunta para os voyeurs ou mirones, é só escolher o vocábulo, deste virtual mundo que também não deixa de ser real. 
Para concluir, tal como tudo, o Facebook é o que se faz dele. E a questão do público e do privado continuará a alimentar discussões. Há quem não se proteja minimamente, há quem critique sempre, há as duas coisas juntas, há vida para além do FB, há vida no FB. Faça como quiser, se possível, sendo feliz com isso. E se possível, é, não chateando os outros. Por causa disso ou de outras coisas mais. 

julho 28, 2013

Boa viagem



Ontem passava na televisão por cabo, a hora já tardia, o filme "Sete Anos no Tibete". Não estive a ver, mas vi-o há anos no cinema, há mais de 10, para aí, que não sou muito dada a linhas do tempo físico. Do grupo com quem fui ver, fui talvez a única que o apreciou verdadeiramente. Eu  gosto muito de cinema que me tranquiliza e faz viajar simultaneamente. Esta viagem ao Tibete é física e é também espiritual, psicológica, e eu gosto da geografia dos afetos e dos afetos na geografia. Acredito que muitos não consigam ver este tipo de filmes, que o considerem aborrecido, sem interesse, a raiar o tédio. Afinal não tem grande ação, violência, sexo, demência, suspense, a adrenalina não corre. Eu gosto muito e cada vez mais, sobretudo desde que soube o que era a maternidade, gosto muito, queria dizer, quando não há adrenalina no cinema. O que não quer dizer que não haja emoção, lembre-se. Há filmes realmente entediantes, mas para mim são-no porque são demasiado conceptuais, frios, sem alma. Um filme tranquilo mas com emoção, que nos transmite calma mas nos faz pensar, filosófico mas simples, tem geralmente o  meu aval. Há muito que me deixei de violências no cinema. Há realizadores de culto que geralmente fazem uso dela - da violência - ou a ironizam até, mas que constroem filmes que perturbam, incomodam, aprisionam, durante o seu visionamento. Não me apetece ver esses filmes, por muito cotados que sejam ou estejam. O que não quer dizer que não consiga ver um filme perturbante. Mas um filme perturbante pode não passar pela violência física e geralmente urbana gratuitas, na verdade, considero essencial ver filmes que relatam realidades duras, por exemplo, como "Diamante de Sangue" ou "Hotel Rwanda", ou outros. Ok, de novo a geografia... Talvez seja isso mesmo. Cansei-me dos filmes urbanos. A metrópole, e a sua panóplia de paranóias e caraterísticas diárias e previsíveis, não me interessa no grande écrã. Não me faz viajar e não me tranquiliza nem preenche. Não me emociona. De uma forma geral, obviamente, há exceções. Mas atualmente prefiro cinema que não me ponha mal-disposta. Por caráter e por escolha, prefiro cada vez mais as boas viagens. 

julho 26, 2013

Escolhas

O casamento é mais ou menos como a democracia. Ambos não são perfeitos, longe disso, mas até agora o resto, contrário e diferente, não provou ser melhor.

A quem interessar


Não me interessa o que se disse e bem, ainda que de várias maneiras, do desfecho da salvação nacional encetada pelo PR. Não me interessa se o que digo aqui está mal. Na verdade, a minha opinião nada interessa no meio das de quem se interessa verdadeiramente por política e pela atualidade nacional e que temos todo o interesse em ouvir ou seguir. Vamos ao que interessa, podendo ser interessante ou não. Para mim, quem venceu esta maratona de desencontros foi o PM, Passos. Quem perdeu em toda a linha foi Seguro. Quem também perdeu redondamente, porque uma péssima ideia não podia vencer, foi o PR. Quem se conseguiu safar e esteve quase a perder foi Portas. Em que ficamos, após estas derrotas e vitórias? Passos não sucumbiu, é firme e teve sorte porque o PS não foi na conversa. Ou o governo não foi na conversa de Seguro. Este estava preso por ter cão e por não ter. Se se juntava ao governo para salvar Portugal enterrava-se a ele dentro do PS, de alguns setores, e da esquerda toda, que não lhe perdoaria nunca. Não quer dizer que o tenham, ainda assim, perdoado. Afinal ponderou mais juntar-se à direita do que à esquerda. Seguro volta para a sua posição de oposição insegura, que só colhe algumas vantagens porque a desgovernação, under pressure porque under troika, nos vai asfixiando, demérito do adversário, pois. Portas canta vitória, certamente, depois de ter estado mal e muito mal. Mal quando choveram críticas pela saída impulsiva e calculada, onde estará a verdade, e pior quando Cavaco quase o chutou. Chega a vice, tal como era a ideia no princípio. Cavaco, então, mostrou-se um perdedor em todas as frentes, sem qualquer visão do que poderia acontecer, somando ingenuidades pacóvias que a nada conduzem. Um comentador político do PSD dizia que a não haver acordo os partidos sairiam fragilizados e não inspirariam mais confiança. Achava ele que o PR estava a fazer bem. Na verdade, os partidos neste momento inspiram pouca confiança mas ela, a ausência, já vem de trás, e de que maneira. Chegar a acordo assentes numa ideia algo ridícula, que apenas fez perder tempo o país, é que não os favoreceria, ainda que o interesse nacional devesse estar acima dos interesses partidários. Mas há mais partidos e não se interessaram por eles. Posto isto, o PR não esteve bem. A ideia poderia até ter alguma lógica bem intencionada, a estar-se no céu, mas é ingenuamente inconcebível na realidade infernal do burgo. E até discriminatória. Em que ficamos? Bom, na mesma, se pensarmos no arco governativo e, temo, na (des)ordem das nossas coisas. Mudam-se as caras, algumas, é certo, mudar-se-ão as vontades? Revelar-se-ão, os novos e de pasta nova, interessantes ou interesseiros? Isto é o que interessa saber. Sairá este país do atrofio? E quando? As reviravoltas, qual o efeito para a nossa vida de todos os dias? Ainda que isto, a política, esta política, seja do mais desinteressante que há, não podemos dizer que não interessa nada. Na verdade, estamos interessados, em ver, em saber. Porque é do nosso maior interesse que isto tudo se componha, que não se afunde de vez. Por isso mesmo, interessemo-nos. 

julho 25, 2013

Agora e sempre

                

Tenho o LP ainda, no velhinho vinil. Enquanto publico a canção aqui, o pequeno diz-me "que linda, mãe, deixa-me ouvir". Tão bonita, a melodia, tão bonito, o poema. Tão poética e melodiosa, a voz. Tão grande, este artista que é nosso. E tão bom ouvir esta música de novo, agora e antes e depois, certamente, também. 

Quando chegar significa perder


Neste momento, a palavra que mais detesto é metas. Como cidadã, funcionária pública e professora, assim mesmo por esta ordem crescente, já nem a posso ouvir. Não que não haja metas boas, há uma, por exemplo, uma metinha, que fica na Bairrada e que é o nome de um belíssimo local para comer leitão. Também há a meta do Tour de France e as outras voltas todas e em todos os desportos. Essas até são inspiradoras. O pior são as outras, as que atrofiam, asfixiam, ao ponto de não se poder respirar. De ser livre, idóneo e coerente, quer dizer. Estas são as metas para as quais, pelo viciar dos resultados e pela injustiça que alimentam, me fazem pura e simplesmente desejar nem sequer entrar na corrida.  Metas para que vos não quero.

julho 24, 2013

Os 10 mandamentos


Em tempos de troika, de aperto ministerial ou de fundos europeus, de chantagem profissional, de inversão de valores, de mediocridade geral, aqui está o que tu, professor, não deves fazer, para manter o emprego, fornecer excelentes estatísticas e sobreviver, de forma estranha, ao descalabro institucional, não sabendo, contudo, se manterás a sanidade mental:

1. não marcarás faltas
2. não chumbarás qualquer aluno
3. não trabalharás sem ser para os números
4. não porás em causa nenhuma ordem superior ou ministerial
5. não exigirás nada dos alunos
6. não rejeitarás nenhuma solicitação seja de que ordem for e quando for
7. não reivindicarás nenhum direito 
8. não progredirás na carreira
9. não terás subsídios de férias 
10. não terás vida pessoal e/ou familiar

Podia explicá-los, traduzi-los, para quem está fora melhor pudesse entender. Mas não me apetece. São muitos. Não necessariamente por esta ordem. E, por outro lado, dez é pouco. Pois é muito o que nos mandam. Não que seja mau quando nos mandam ser honestos, firmes, profissionais, dedicados, rigorosos. Mas mau quando nos mandam ficcionar, mentir, ignorar, inventar, comer e calar, esquecendo-se, eles, os que mandam, que são precisos dois para dançar o tango. Não se fazem omeletes sem ovos. E porque mantenho a minha: não se deve dar dar o peixe, todos os dias, mas sim uma cana e ensinar a pescar. Vem da China este provérbio, não é? Eu bem que sou fã do oriente. 
Não sei que tipo de sociedade esperam eles, os que mandam, vir a ter. Da maneira que estão as escolas, onde não há verdade e se forjam resultados para inglês, perdão alemão, ver, não antevejo propriamente uma geração futura responsável e capaz. Mandam todos os dias e mandam mal. Fazem as coisas mal  e fazem-nos  mal - aos alunos, acreditem, é verdade, a nós, à sociedade, a todos. Diria mais: fazem mal e fazem-nos mal. Tristes tempos, estes presentes, e, infelizmente, não o serão menos os futuros. 

julho 22, 2013

Pobre, pobre





"Tribal elaborate poor."

Pobre do inglês.
Pobre desgraçado que não se emenda.
Pobre vai o ensino porque pobre vai o conhecimento.
Pobre do país.
Pobre sistema tão pobre.
E, sobretudo, pobre da professora.


Nota: má, claro. Não, não é isso. Nota, repita-se: aceitam-se tentativas de tradução, ainda assim. Ou melhor, aceitam-se inscrições de alunos no mínimo mais atentos ao fazerem tarefas em casa para recuperação de módulos em atraso em inglês nível 8 (com auxílio de dicionário, familiares e amigos, e ainda dessa pouco sábia ferramenta chamada tradutor google). Aceita-se, em última análise, um mundo melhor. Obrigada.  



julho 20, 2013

Vida boa, muito boa e não boa ou o casamento tipo 1, 2 e 3


Apetece-me aventurar-me por aqui: descrever o tipo de mulheres no casamento. Segundo o que dizem e o que vemos, segundo o que acho e o que vou vendo.
1. As primeiras são aquelas de quem dizem "Lá em casa é ela que veste as calças". Confesso que esta expressão é engraçada, do ponto de vista de todos exceto seguramente do elemento masculino que ficou sem elas. Bom, na verdade elas é que mandam. São mais afirmativas, mais dinâmicas, mais dominadoras, mais duras de roer e, portanto, comandam o leme. Ora isto é bom. Deve ser, quer dizer. Imagino eu. Quem não gosta, afinal, de ter as rédeas e de fazer bom uso delas? Decidem, controlam, organizam, lideram, do outro lado obtêm maravilhosas cumplicidades traduzidas em silêncios e obediências. Ui, que vida boa.
2. As segundas são as dóceis, de bom feitio, geralmente, que aceitam que o seu homem dite as leis, imponha as regras, desde por a música de que gostam aos berros no carro ou em casa, levar a malta toda para ver as jogatinas de futebol lá em casa e pedir tremoços e cervejas em cima da coffee table, dizer o que devem vestir, seja para tapar seja para destapar, até dar às filhas o nome da mãe, da avó ou da tia favorita, enfim, uma panóplia de decisões mais ou menos unilaterais sempre recebidas com sorrisos e benevolências. Ora, isto é muito bom. Para os maridos e companheiros, claro. Eu se fosse homem era isto que queria. Vida muito boa.
3. As terceiras são aquelas que possuem um caráter indomável, que, obviamente, só traz complicações. Independentes, opinativas, não quer dizer que mandem mas também não gostam de ser mandadas. Se estas encontram o tipo de maridos em 1. a coisa até pode ir indo de forma razoável. Não dará para mais porque elas são tão complicadas que também só admiram quem não é seu súbdito. Se encontram o marido em 2, está tudo perdido e rapidamente. E se encontram um tipo 3? Ou seja, como elas e igualmente indomáveis? Que admirem mas que as exasperem por não fazerem as suas vontades? Pelo menos quanto desejariam? Difícil, difícil, os egos a colidirem e a testarem forças. Uma vida, está visto, não boa. 
Qual o par que resistirá mais tempo? Todos e nenhum, já que, ao que parece, qualquer deles pode naufragar (fica bem aqui esta palavra, a condizer com a conjuntura lusa). Em todo o caso, parece que há um quarto tipo de mulheres que pode sobreviver mais tempo a este tipo de intempérie. São as solteiras, que podem vestir as calças a tempo inteiro, por a música de que gostam onde querem e no volume que desejam, ser selvagens e ir até às ilhas todas (falando nisso e para condizer com a conjuntura lusa) enfim, ganham, nitidamente. Não quer dizer que as número 1 estejam mal mas têm de levar o marido com elas frequentemente - a não ser que eles fiquem em casa enquanto elas viajam e passeiam sozinhas, é possível - e portanto é uma liderança que comporta um certo fardo. 
Tem o casamento alguma vantagem? Assim, de repente, não, mas olha, não é que toda a moça quer casar? Enfim, a galinha da vizinha é maior do que a minha. Nada como experimentar. Pode ser que haja acordo (para condizer com a conjuntura lusa) e sejam felizes para sempre. Há quem diga que sim. Resta saber se em 1, 2 ou 3. Ou nem interessa saber de todo.


julho 18, 2013

As pontas do iceberg


Não faço ideia de como estão as coisas neste momento na salvação nacional. Não sei se há fumo branco, preto ou de outra cor qualquer, já que de cores também se trata. Não tenho tecido comentários acerca destas últimas três semanas, por opção e por há quem o tenha feito e faça melhor do que eu, insisto. Mas posso dizer que tem sido confuso, por vezes hilariante, nada que não se possa passar lá fora e, desse ponto de vista, até normal, se olharmos para o estado do país e tudo o que isso permite.
Sem ter visto ou ouvido hoje as notícias, aqui fica um resumo do que penso sobre as figuras em questão, num registo meio sério, meio humorístico, porque não estou com capacidade - nem vontade - para muito mais.

Paulo Portas - toda a gente tem o direito de sair por consciência, até o de voltar atrás, ainda que voltar com mais poderes signifique ambição, pessoal ou não só, e não propriamente consciência. Que foi o que, na verdade, pareceu. En tout cas, a esta hora deve estar francamente arrependido. Não só foi criticado pelas trocas e baldrocas, como depois levou com um veto (e um vexame) tão inesperado e tão grande que acabará por perder tudo. Ou deitar tudo a perder, que será o mesmo. A ver vamos. Em baixo, nas sondagens de popularidade, e decerto pessoalmente, com a derrota, porque não deixa de o ser. 

Pedro Passos Coelho - embora esteja farta desta governação, que tira tudo a quase todos, ainda não consigo odiar o estilo do PM. Dificilmente resisto a um Leão, são coisas minhas, ainda por cima com tendência para o exótico. Quanto ao resto... Decidiu ficar, o que pode ser visto como responsabilidade ou cegueira, é só escolher, haverá uma verdade para todos. Mas penso que será difícil isto aguentar-se. Eu se fosse mulher dele, agradecia que viesse embora. Mais ou menos como o pai disse, ainda por cima a perder beleza a cada dia que passa. Como cidadã e professora, também pode ir indo. Não deixará saudades, na verdade. Piorar ou melhorar, só vendo depois.

António José Seguro - de inseguro a desejado, já que tanto à direita como à esquerda o querem para reforçar a maioria ou para a liderar. Agora é que são elas, governar não é o mesmo que dizer que se quer ou sabe como governar. Sempre estou curiosa para ver o que aí vem. Mais do mesmo, já que não saímos dos mesmos de sempre, ou soluções que realmente nos permitam não naufragar? A ser assim, até me rendia, mas até lá, e porque já lá estiveram há tão pouco tempo, também não lhe compro o discurso. Mas posso enganar-me e ele vir a ser um grande líder. Credo, não, isto soa tão mal. Um bom PM, era isso. Se isso existe, claro. Em Portugal, claro, também.

Cavaco Silva - a coisa mais fantástica que li acerca dele, porque gostei de tantas que li, foi a satisfação pelo cheiro a napalm quando largou a bomba (in "Delito de Opinião"). Na verdade, partiu tudo e baralhou mais ainda. Para quem vivia e vive em silêncios e recolhia críticas por tanta passividade, mostrou-se surpreendente. E, pior, contraditório, porque aceitava que se fizesse trinta por uma linha aos portugueses mas não aceita a remodelação, da sua área política, que nasceu de um capricho, pensará ele. A aparência cinzenta e rígida revela mesmo um caráter pouco dado a flexibilidades, boas ou más. Eleições presidenciais, quando são?

julho 16, 2013

Globalização

Prefiro saber as novidades do casamento Brangelina, a havê-las, do que qualquer novidade do mesmo tipo acerca de qualquer vizinho. A vida pessoal, afetiva, amorosa, familiar de gente como os de cima, aqui em baixo, interessa-me sempre mais do que a cusquice local sobre quem mora na casa ao virar da esquina.

julho 15, 2013

Só e bem acompanhada


Pode ser que não seja a primeira vez que aflore aqui isto. Mas, por causa da conversa de hoje ao almoço, mais uma, e mais uma que me faz escrever uma coisita ou outra, cá fica.
Há gente que não consegue estar sozinha, precisa de companhia permanentemente, seja para estar em casa, para praticar desporto, para ir às compras, para ir ao restaurante ou ao cinema, para tudo. Independentemente do facto de viverem com alguém ou não, não é esse o cerne da questão. É mesmo uma grande necessidade de terem outros ao pé para conversar a tempo inteiro, para as ouvirem, para sei lá o que for mais. Eu cá, e pelos vistos mais duas colegas, pelo menos, gosto muito da minha companhia. Gosto, pronto. Renova-me as energias ao mais alto grau passar bocados de tempo só comigo mesma. Cinema, compras, restaurante, café, caminhada, e mais. Aprecio o meu silêncio e a minha independência, a ausência de compromissos e de horas marcadas, a não existência de conversas sobre tudo e sobre nada, a paz que é fazer as coisas simples de que gosto, que podem até não ser coisíssima nenhuma, a liberdade de ir e vir, ou apenas de estar e ser. Sou sociável e comunicativa mas preciso destes espaços para me equilibrar. E cultivo-os.
Há, está visto, indivíduos que são autênticos animais sociais, quer dizer, não vivem sem companhia, festas, saídas, divertimento, tudo deste género. Mesmo que depois não façam a menor diferença quando saem, que não acrescentem nada, que não sejam necessariamente mais felizes por causa disso, se formos à essência da coisa. Sou sociável, repito, mas não sou um animal social. Gosto de sair e de estar em casa, gosto de algum divertimento e companhia, boa, mas também do recolhimento, do riso mas da reflexão, e gosto principalmente de, quando saio, fazer a diferença, acrescentar alguma coisa. Estar para ali a fingir que gosto e que me divirto é que não. Passei a idade dos fretes. Para sair e ser feliz na diversão é preciso uma boa dose de energia e quando a não tenho gosto de ficar sozinha e ir buscá-la de novo. Não sou fã das donices de casa (grande amiga Adília, a expressão é tua), a tempo inteiro e por obrigação. Mas gosto de casa para recarregar as baterias, e gosto de estar sozinha em casa para isso mesmo. E sozinha, muitas vezes fora, por isso também. Ou algo mais, é possível.
Não preciso de estar sempre acompanhada, é um facto. Gosto da minha companhia, mais uma vez. E quem fala a verdade não merece castigo.

julho 14, 2013

Beijar Damasco



Nunca estive na Síria, embora tenha mantido desde sempre um fascínio considerável por este mosaico de culturas variado e relativamente bem sucedido - diga-se assim en passant - desde há bastante tempo. Não sendo uma conhecedora do país, só o nome da capital, alimentado por séries e filmes de inspiração bíblica, me fazia logo pensar em história e histórias marcadas no tempo, de tal forma que cheguei a batizar o meu primeiro carro, um clio verde, de "damasco". Explicando. Com a grande mania da geografia, quando olho para uma matrícula associo automaticamente um lugar, uma cidade, um país. O meu carrinho tinha DS e eu só me lembrava do nome da capital síria, ainda por cima em inglês, Damascus, indiscutivelmente para mim mais sonante ainda, pois que cinematográfico. Muitos filmes, sei, muita sede de viagens e outras paragens, mas na verdade esta cidade, sem nunca a ter conhecido, fez uma certa parte de mim durante uns tempos. Daí que ver hoje em dia a destruição de Damasco - e não só - por guerras fraticidas que não mais revelam do que a sede de poder e de manutenção dos privilégios e do status quo, mal ou bem, positiva ou negativamente, não me deixa nada indiferente, de longe. Ainda que de longe fisicamente. Custa-me ver uma cidade e um país que sempre desejei visitar - porque só conhecer permite aprender - em escombros. Esta foto circulava hoje na página da Obvious. É a projeção virtual, por parte de um artista sírio, do quadro de Klimt que todos conhecemos, no que resta da fachada de prédios bombardeados. É, numa palavra, brutal. E altamente significativa, pelas razões que não deviam ser. Eu sempre quis beijar Damasco, quer dizer, dizer olá, cumprimentar, apreciar e despedir-me ao vir embora. Não sei quando será possível fazê-lo, porque a tragédia sobrepõe-se à razoabilidade, a destruição à sensatez, a morte à vida. Até quando fica adiado o meu beijo? E, pior, até quando ficam adiados o amor e a paz de quem lá vive e por isso morre? Para quando, e até quando serão impedidos, os beijos naturais e desejáveis em Damasco?