setembro 23, 2014

Nº 4

Era chata, chata, mesmo chata. Chegava a ser chatíssima. Chateava e achava que não, mesmo quando chegava até ao massacre. Não sabia que chateava, essa é que é essa. E isso era, provavelmente, a maior chatice.

setembro 22, 2014

Domestiquices


Uma conhecida cara da nossa praça disse que consegue manter o seu acelerado nível de trabalho porque, e cito, "não faço rigorosamente nada em casa", acrescentando que tem obviamente quem faça as tarefas por ela. Não, não vou criticar esta confissão, de todo. Na verdade não consegui evitar uma colossal inveja deste estilo de vida. Tirando qualquer espécie de doença ou impedimento trágico, este é o modus vivendi a que eu almejo desde sempre. Nós, as mulheres que têm uma profissão, que também têm filhos, sobretudo pequenos, e que realizam as inúmeras tarefas domésticas, não conseguimos competir, frequentemente, com as que só têm de preocupar-se e ocupar-se com a profissão, ou então que nem sequer uma profissão têm, e isto em termos de frescura, boa disposição, aspeto, disponibilidade de vários tipos e demais apetrechos que nos fazem inclusivamente até perder maridos e companheiros que, coitados, não resistem às curvas da vivacidade e do prazer, quer dizer, lazer. Assim, de caras, é uma realidade. Ainda que haja as super mulheres que tudo parecem ou dizem fazer, muitas vezes as marcas desse esforço, abnegação ou escravidão estão no rosto, no corpo ou manifestam-se de uma forma qualquer. Pessoalmente, quem me dera, estando saudável, não ter de fazer rigorosamente nada em casa. Não, nada, nem cozinha, nem roupa, nem aspirador, nem mangueira, nem camas, nem esfregona. Sobretudo nada que me roubasse tempo, energia e paciência ao tentar, que remédio, fazer quase tudo. E beleza, então não. Tenho dito, de forma totalmente honesta e desassombrada.

Logo no dia a seguir dou de caras com a frase de outro nosso conhecido a nível nacional. Dizia ele, citando novamente, "em casa ela é que faz tudo", referindo-se à sua super companheira e decerto embevecido com estes super poderes que o safam a ele de colaborar (já nem me atrevo a dizer dividir...) nas tarefas quotidianas do lar. Resta saber se "ela" está mesmo satisfeita no seu papel de super fada doméstica que poupa e decerto mima o seu macho e se alimenta isso mesmo ou se, à falta de cooperação, por defeito de fabrico ou ausência, nada mais lhe vale do que a sua incrível energia e juventude. Claro que, neste caso, os filhos ainda não vieram e não sei se a mesma eficiência aguentará o que acompanha a maternidade. Ah, claro, sempre pode arranjar alguém que faça depois rigorosamente tudo. O que é o ideal, pelo menos para mim. Seria, como já deixei claro acima. Mas, de uma maneira ou de outra, com filhos e cadilhos ou não, como me chateia esta coisa da mulher (ter de) ser sempre a eterna gata borralheira (e preferencialmente terna ao mesmo tempo, por razões evidentes). A história é sempre a mesma, muda o tempo e não muda a vontade. E aqui a culpa é todinha do machismo. Ou deles ou delas, que o fazem subsistir. 

setembro 21, 2014

Crítica da religião pura

 
Encontrei estas fotos num excelente artigo que retratava mulheres de coragem ao longo do século XX. Ambas se referem a mulheres afegãs nas décadas de 60 e 70, se a memória não me falha muito, as primeiras a estudarem medicina e as segundas numa biblioteca. Trouxe estas fotos até aqui porque servem o propósito deste post de maneira inequívoca.
Ainda ontem lia na blogosfera que há um núcleo radical no Islão, em claro contraste com o resto das religiões, ocidentais e orientais. De facto, ainda que estas já tenham tido os seus momentos mais bárbaros, sobretudo as cristãs, tal situação já consta dos compêndios de história, uma prova que já se apagou num tempo que já foi. Ao invés, não podemos negar, há neste momento uma forte radicalização de alguns setores do Islão, que têm culminado em organizações terroristas que tentam ou incitar ao ódio contra quem não segue os seus preceitos ou mesmo perseguir e aniquilar quem não confessa a mesma fé. O regresso a tempos medievais e até bárbaros tem sido testemunhado através do estilo de vida de alguns países e agora, de forma que nos surge chocante, através da autoproclamação do mortífero e anacrónico Estado Islâmico. Mas a minha opinião mantém-se: o islão não é incompatível com a modernidade, também como já provaram os estilos de vida de alguns países e as medidas corajosas de alguns dos seus líderes seculares. As fotos que posto aqui são disso um exemplo. Haverá alguma dúvida de que estas mulheres vivessem num país de maioria muçulmana? Não poderiam elas também ser crentes do Islão? E de que forma isso abalou ou impediu que tivessem direitos que atualmente não têm?
Contudo, não podemos ignorar esta crescente onda de fundamentalismo islâmico. Mas, pessoalmente e tendo em conta aquilo que vou vendo, observando e absorvendo, continuo a pensar que este radicalismo perigoso tem uma forte componente política. Fortíssima. E que a maior parte destes movimentos se desenvolveu nos últimos quarenta anos do século anterior e que tal facto está diretamente relacionado com a questão palestiniana. Até porque este conflito teve momentos de máxima tensão por esta altura: A Guerra dos Seis Dias, a do Yom Kippur... Convenhamos. Qual a razão deste grande ódio aos EUA a não ser o facto de serem os grandes aliados do estado de Israel? Isto é constantemente apregoado nos discursos contra a América e contra os seus aliados ocidentais. É recordado nestas ignóbeis execuções do EI e, mesmo que a sociedade capitalista e consumista possa não agradar a estas organizações de terror e guerrilheiros medievais, a questão mantém-se: o antagonismo face ao ocidente tem tudo a ver com a questão da Palestina, primeiro, e depois com os sucessivos erros da administração americana na região do Médio Oriente. Há, também certamente, por parte destes radicais, um sentimento de grande frustração. A corrupção dos seus governantes, a pobreza, a opressão, as condições de vida que em nada ajudam ao esclarecimento, a necessidade, muitas vezes, de e/imigrarem, o racismo, a xenofobia, tudo isto conspira para fazer nascer o ódio. E este só pode conduzir à violência. De maneira que estamos perante um tempo de terrível perigo. Esta radicalização islâmica é castradora, cruel e letal. Por outro lado, a islamofobia que vai crescendo, precisamente pelo medo que o fundamentalismo necessariamente vai criando, também causará danos neste diálogo que parece ser cada vez  mais difícil.
Concluindo, não consigo separar a política desta jihad supostamente em nome de Deus. Até as reportagens da Vice News que vi me mostraram isso: no EI há uma abordagem totalitária - comunista ou fascista, não soube destrinçar - que vai muito para além do credo religioso.  E, voltando às fotografias, pode ser-se crente e isso não constituir problema nenhum. O problema reside quando alguém toma o poder e instaura, pela força e pelo medo, um estilo de vida que toma como o certo. Se usar o nome de Deus para a barbárie ou para o retrocesso será porventura tudo bem mas fácil.  

setembro 19, 2014

Como não lembrar William Wallace?



Há mais de dez anos, passei duas inesquecíveis semanas na Escócia numa formação para professores portugueses que lecionam inglês, através da APPI. O local que nos acolheu foi a Universidade de Stirling. Desde essa altura que desenvolvi um grande apreço e até carinho pelo país das Terras Altas, tantas foram as boas experiências e os conhecimentos que tal estada me proporcionou. A ponte de Stirling lá estava, a ´nova´, e o monumento a William Wallace também, lá no alto. Um dos pubs chamava-se "Rob Roy" e por ali respirava-se cultura e história de mãos dadas com a modernidade.   
Os escoceses claramente diziam não gostar dos ingleses, faziam, de resto, muitas piadas com este legendário antagonismo. A pontualidade era praticamente um culto. As ghost stories alimentavam o turismo e o gosto popular. As lojas fechavam cedo, muito cedo, para os nossos exagerados padrões lusos. Os espetáculos à noite eram obrigatórios, muitos e esgotados. Os locais que visitei permanecem, pois, na minha memória de afetos e a capital, Edimburgo, sob chuva forte demais para agosto e cheia de referências literárias, elevou-se ao topo das minhas preferências. 
Assim sendo, eu seria uma votante do sim. E entristece-me ver que se gorou uma oportunidade histórica única. Uma oportunidade que não existiu antes desta forma, e que foi e tem sido tão desejada por tantos através dos tempos. Tiro o chapéu à democracia britânica, com sede em Londres, uma das mais justas e tolerantes, quer pelos exemplos de multiculturalismo - que parece chegar até a aspetos exagerados - quer pela abertura política demonstrada através deste referendo. Não são muitos os estados a fazê-lo, poucos ou quase nenhuns, na verdade, e tudo feito de forma pacífica, dialogada e com total civismo.
O não venceu, vejo e escuto, e na minha opinião o medo venceu. Não sou especialista em economia e alta finança nem nada que se pareça mas penso que terá sido a pressão da questão económica que terá ditado a escolha pela não independência. E entristece-me ver que a Europa dos mercados e dos gabinetes, a "respirar de alívio", tenha mais importância do que a alma escocesa. Mas isto sou eu, que por vezes sou dada a motivações poéticas. O RU continua firme, a NATO também deve estar aliviada, e lá se foi o sonho de Wallace. Nem só de memória e de quimeras se alimentam os dias, é um facto, mas lá está, havia e há quem não tenha medo do sim. Hecatombe ou triunfo, só a audácia e o futuro o poderiam dizer.

setembro 17, 2014

Coisas sem relação absolutamente nenhuma



1. Toda a gente tem direito a mudar de opinião, creio, e não sou contra as dissidências, são decisões pessoais que podem ter justificação plausível ... ou não. Mas a saída de Marinho Pinto de um partido que pouco tempo antes o levou até ao centro político europeu parece-me francamente desonesta. O dizer que é tempo de seguir o seu próprio caminho ainda corrobora mais esta abordagem que diria interesseira. Mas na verdade não me surpreende. Trata-se de uma figura que nunca me inspirou confiança, talvez porque não aprecio quem habitualmente fala em tom exaltado e quase aos gritos. 

2. Este ano a relva cá de casa mantém-se viçosa como uma verdadeira alface. Assim que me lembre, foi a primeira vez em que não se andou desesperadamente a regar pela noitinha para tentar salvá-la de uma morte certa. Eu que nem sou fã de chuva consigo ver o seu lado positivo quando automaticamente penso na relva da frente e do pátio. Mas nem só de relva verdejante vive o meu apreço pela chuva nestes dias. O calor tem-me sufocado e a coisa melhora com a água caidinha do céu. Por outro lado, poucos sons sabem tão bem como o de ouvir uma grande chuvada quando se chega a casa. 

3. Faltam tantos professores ainda nas escolas e os alunos lá vagueiam, horas a fio, sem aulas. Quando é que a obsessão pelos cortes e a sua prática indiscriminada na função pública deixará de ser uma realidade que tanto afeta a vida escolar também dos alunos? Nos cursos profissionais acresce o problema de ter de se repor as aulas, uma vez que é obrigatório o volume de formação na totalidade, e bem, a bem dos alunos. Mas também não será uma injustiça os alunos vaguearem agora, contrariados, em tempo certo de aulas, e depois terem de levar com horas a mais numa já de si pesada carga horária, para compensar?

4. De férias a sul, comprovei novamente que os portugueses estão cada vez mais fechados. Têm muitas dificuldades - ou pruridos - em falar para desconhecidos. Para se lhes arrancar um bom dia ou boa tarde num espaço que se partilha é obra. Eu, que sou daquelas que, por exemplo, falo alegremente numa caixa de supermercado se houver alguém que sorria e faça o mesmo, estranho estas coisas. Então quando os nossos filhos brincam em conjunto e tento conversar um pouco e vejo caras fechadas - snobs? - fico mesmo desapontada com a raça humana. Há gente para quem deve ser difícil sorrir e dizer umas palavrinhas, nem que seja sobre o tempo. Timidez ou mania e falta de boas maneiras? 

setembro 13, 2014

No oeste


Não sei se tenho apreciado as recentes intervenções de Obama perante os microfones, sobretudo pelo tom que encerram. Bem sei que não se pode mostrar qualquer tipo de fraqueza ou vacilação em relação aos adversários terroristas, nomeadamente, mas tem-me parecido que o tom tem-se pautado por uma maior agressividade nacionalista, ou talvez um pouco mais do que seria de esperar de uma nação democrática e líder em vários domínios. É verdade que uma nação como os EUA tudo faz para resgatar ou salvar um seu cidadão, ao contrário de tantos outros estados que não parecem valorizar desta forma a vida dos seus conterrâneos. Assim sendo é legítima a vontade de ripostar e mesmo aniquilar quem, de forma criminosa e bárbara, atenta contra pessoas inocentes que caem nas malhas da sua mortífera loucura. Mas o discurso de um estadista - a sê-lo - tem de ter uma toada diferente da do inimigo, ou seja, não deverá incitar ao ódio e aos princípios mais primários. O discurso de um chefe de estado deve, inteligentemente, mostrar firmeza mas não nacionalismo exacerbado, superioridade cultural ou outra e ainda muito menos qualquer tipo de entusiasmo belicista. Lidar com extremismos de vistas curtas é muito difícil mas uma coisa será precisa para erradicar esses fundamentalismos - é a educação para a tolerância e para a pacificação. Isto tem de ter ecos também - ou sobretudo - em quem lidera, e de ambos os lados da barricada. Nesse aspeto, parece-me que Bill Clinton conseguia um discurso mais diplomata, mais subtil e mais apaziguador. Mas isto pode ser apenas uma impressão de quem tem visto as coisas de relance. Não retiro razão a Obama, de todo, como poderia neste caso, mas preferia, ainda assim, que o tom, repito, fosse menos pistoleiro. 

setembro 12, 2014

Esperança e dúvida


Hoje vi e ouvi ideias novas, vontades e entusiasmos de quem ainda tem (algumas) expetativas que as coisas melhorem - porque podem melhorar precisamente por causa dessas iniciativas, claramente expressas. Vi pessoas um pouco ou bastante cansadas já no início, vi outras bem dispostas porque as férias ainda estavam mais frescas, vi e ouvi propostas interessantes, válidas, inteligentes e que terão tudo para resultar, para eles e por eles. Não têm sido maus estes primeiros dias, por causa disso mesmo. Podiam ser sempre assim, os dias, dialogantes, construtivos, esperançosos. Mas ainda a dúvida me assalta. Na esperança, porque agora ela existe, a dúvida subsiste. Pois resta saber se na próxima semana e nas restantes não seremos completamente esmagados pela realidade que há de vir. 

setembro 10, 2014

Por entre a vista



1. Admiro a coragem da jornalista Judite de Sousa. Nota-se que ainda não está bem, os trejeitos da boca, nervosos, e a voz trémula indicam ainda grande sofrimento e transtorno psíquico, fruto natural da pior das tragédias. Por isso é admirável a forma como se expõe, como aparece em entrevistas ao mais alto nível, como se atira para a frente, de forma pública, numa notória forma de sobrevivência. Tiro-lhe o chapéu, decididamente. Sempre apreciei a sua sensibilidade e de certa maneira admiro-a hoje muito mais. A forma como, curiosamente sempre de preto, está a fazer o luto é de louvar, pois inimaginável será a tormenta que tem atravessado. 

2. O meu pai ontem disse que António José Seguro tinha ganho o debate, logo que terminou. Independentemente disso ser verdade ou não, eu cá não compreendo muito bem a razão pela qual Seguro está tão ofendido com António Costa e não se cansa de bradar isso mesmo aos quatro ventos. Chega a parecer um menino de coro, sentido com coisas que francamente já devia contar num mundo como é o da política. Estratégia e interesses vários podem colidir com amizades e com ditas lealdades, não nos espantemos. Demasiados melindres pessoais não têm justificação se o interesse do país, a sê-lo,  for prioritário. E aqui parece-me ser o caso, o dever ir-se por um outro caminho.  

setembro 09, 2014

Cautelas


Já aqui o disse ou deixei transparecer: as ascensões profissionais rápidas causam-me alguma confusão. E as relações de amizade súbitas igual. Ou ainda mais, é possível. Concluo, assim, que tenho sido e sou cautelosa, sobretudo nas últimas.
Demoro tempo para estabelecer relações verdadeiramente sólidas, embora faça conhecimentos com muita facilidade e adore falar com desconhecidos. Mas da simpatia e conversa de ocasião ou parecido à amizade propriamente dita, que envolva um conhecimento mais profundo e uma partilha maior, vai um enorme passo. E compasso, de espera. Rápidas paixões amistosas têm dado em grande desastres pouco tempo depois, tenho-o observado amiúde. A construção mais lenta, pelo contrário, parece-me dar mais frutos. Uma vez aceite, uma amizade sem deslumbramentos nem defeitos escondidos, será, no meu caso, sempre revestida de lealdade. E se não vivida em presença física pelo menos cá dentro, de alguma maneira. Os amigos podem ser menos desta forma, é um facto, mas serão mais verdadeiros.
Quanto ao veni vidi vici profissional, é possível que resulte, se as pessoas forem verdadeiramente competentes e honestas intelectual e moralmente. Há ascensões meteóricas absolutamente justas, merecidas e baseadas no real valor. Se não, as quedas podem ser surpreendentes. Eu sou daquelas que acredita que a promoção do demérito acaba por cair por terra, mais tarde ou mais cedo. Mas talvez esta conversa não tenha muito interesse para quem gosta e sabe viver sempre no impulso e no calor do momento. E que está certo, de resto. Na verdade, não sei se a cautela é melhor, de todo. Apenas digo que há quem funcione de um modo e quem funcione de um outro. Com o passar dos anos, apercebo-me que me tornei cautelosa. Diga-se que para o bem ou para o mal.

agosto 28, 2014

A ausência da bondade


Há dois ou três dias, apanhei por instantes um apontamento jornalístico num canal de notícias nacional e onde se falava do tecido de que são feitos os atuais líderes mundiais. O que foi dito - e tão bem dito - reforçou a evidência de que estão todos muito longe de um líder de alma grande chamado Nelson Mandela, pela total ausência de valores ligados ao serviço público e à ética e pelo culto quer dos interesses económicos e financeiros quer do seu próprio eu. Na verdade, não há figuras mundiais inspiradoras, que possam, de forma inteligente, altruísta e bondosa, mudar o rumo dos acontecimentos para construir sociedades mais justas e mais dignas. Mas não é só nos políticos que esta realidade se verifica. De um modo geral, todos se comportam deste modo. Os bens materiais e a obsessão pelos egos e pelas imagens que se tentam projetar tornam as pessoas cada vez mais histéricas, calculistas, e desumanas. Cada vez há menos serenidade,  humanidade e generosidade.  Há, infelizmente e numa palavra, cada vez menos bondade.

agosto 27, 2014

Realeza(s)

       

Mudam-se os tempos, mudam-se as figuras. E o resto. A segunda não é soberana mas não deixa de reinar em beleza, simpatia, elegância e, ao mesmo tempo, simplicidade. Não sou monárquica e nunca gostei de estudar as dinastias e os reinados, só ter de decorar os nomes e a amiga numeração romana era, francamente, uma maçada. Mas nos dias de hoje não deixei de notar que, podendo não ser a maioria, é certo, muitos dos países europeus mais prósperos e avançados têm monarcas como chefes de estado. 

agosto 26, 2014

Inabitável evitável

Photo: O cessar-fogo entre Israel e a Faixa de Gaza deixa-me feliz. Pode não ser o ideal mas significa salvar muitas vidas inocentes apanhadas nesta loucura. A ONU avançou com a informação que se durasse mais tempo, Gaza seria inabitável já em 2020. Isto é chocante e seria mesmo uma espécie de extermínio... (não sou antisemita, insisto). Sei que por cá se fala do BES, das romarias, do FC Porto  e está-se de férias mas há quem sofra muito por esse mundo fora. E quando algum sofrimento acaba - pelo menos algum - temos de ficar felizes.

O cessar-fogo definitivo - acredito que sim - entre Israel e a Faixa de Gaza deixa-me feliz. Pode não ser o compromisso ideal, ainda, mas significa salvar muitas vidas inocentes apanhadas nesta loucura. A ONU avançou com a informação que, se a guerra durasse mais tempo, Gaza seria inabitável já em 2020. Isto é chocante e seria mesmo uma espécie de extermínio... (não sou antissemita, insisto, para que não haja quaisquer dúvidas). Sei que por cá se fala do BES, das romarias e festivais, do FC Porto na Champions League e está-se de férias mas há quem sofra muito - e de que maneira - por esse mundo fora. E quando algum sofrimento acaba - pelo menos algum - temos de ficar felizes. Eu cá fico.

Em terra de cegos quem tem um olho é mesmo rei?


Aqui há dias reli com muito agrado uma short story de H.G.Wells chamada The Country of the Blind e que, surpreendentemente, dormitava no meu baú do esquecimento. Estamos perante um fabuloso conto que nos faz pensar sobre o que, na prática, é o domínio e a superioridade. Porque esta história, apesar de nos relembrar a noção de inadaptado, baseia-se essencialmente na descoberta de que capacidades que julgamos preponderantes não servem absolutamente para nada se as tentarmos encaixar e sobressair num mundo que não as partilha, que desenvolveu outras igualmente importantes e que se apresentam funcionais no modus vivendi que foi instalado.
Nunez, o personagem principal, cai (literalmente...) num mundo quase onírico onde ninguém tem a capacidade da visão. Ele lembra-se de imediato da máxima universal "em terra de cegos quem tem um olho é rei". Assim, pensa que facilmente poderá ser o líder daquela comunidade, por possuir faculdades inigualáveis que o tornam mais poderoso do que os outros. A história é fantástica, no duplo sentido da palavra. À medida que vai descrevendo as maravilhas que vê, apercebe-se que tais deslumbradas descrições em nada seduzem os habitantes do local na medida em que estão habituados a viver sem essas sensações visuais e desenvolveram outras com as quais parecem viver eficaz e tranquilamente. De facto, reduzem-nas a nada. Mesmo para a rapariga nativa por quem se apaixona, que escuta as narrativas das maravilhas naturais por amor, de nada serve esta extraordinária faculdade da visão. O hábito é outro e o protagonista vai-se apercebendo, com tristeza e desapontamento, que não só não poderá ser líder como nem sequer valorizam a capacidade que julgou superior. Pelo contrário, de líder passa a servo. No final, tem de escolher entre o amor e a visão - só poderá casar com Medina-saroté se abdicar da visão...
A incursão por este mundo fictício, na América do Sul e repleto de evocações que diria exóticas, é um espantoso convite à reflexão sobre o que é ter uma "deficiência". Ele - Nunez - não tinha um mas dois olhos e, no entanto, não conseguiu nunca reinar. 

agosto 23, 2014

Do medo

É possível que grande parte do medo que sentimos decorra de coisas que já conhecemos. Mas é altamente provável que a maior parte do medo que temos advenha do que não conhecemos. 


agosto 22, 2014

Essência ou estatuto?


Ontem estava um tipo português na televisão a dizer que a mulher portuguesa é apreciada porque "é dócil, cozinha  e faz uns pratos deliciosos". Pronto, resumiram-nos a isto. Pode o ISIS invadir Portugal para estabelecer o califado que já encontrou um aliado no que diz respeito ao nosso papel.

agosto 20, 2014

Ondas de choque


A notícia de que um português se tornou num bombista radical no Iraque só confirma o que penso desde sempre: a motivação para estes movimentos extremistas não é, ao contrário do que possa e querem fazer parecer, religiosa. O facto de se ter convertido também não me convence. As motivações que levam a estes atos bárbaros sem qualificação são de outra estirpe, que podem passar por fios de frustração e violência já como predisposição interior, convenientemente aproveitados por quem deles se apercebe, até a posições políticas radicalizadas, possivelmente anarquistas e até terroristas porque baseadas em práticas eminentemente destrutivas. Este reino de terror que está a surgir no Iraque tem também uma alucinante e perigosa componente de domínio territorial, o que reforça a minha convicção de sempre em relação à maior parte dos conflitos: eles decorrem maioritariamente da sede de poder e território. 
Ao que parece, há cerca de 3000 a 5000 jovens europeus a combater ao serviço deste "Estado Islâmico" que existe só nestas cabeças como estado mas que no terreno tem instaurado o horror, num retrocesso inacreditável de valores e de estilo de vida. O mais curioso é ver que isto tudo veio numa sequência de eventos desastrosos no Iraque e de purgas atrás de purgas: Saddam amigo dos EUA (dirigente sunita, por contraposição ao inimigo Irão, xiita), invasão dos EUA e deposição do ditador sunita, chegada ao poder dos xiitas e respetiva perseguição aos sunitas do antigo regime, criação do movimento ISIL/ISIS, sunita, com o objetivo de vingança contra os xiitas (e alargando a todos os credos da região, incluindo os curdos e os cristãos), enfim, uma panóplia de vendettas e de alianças completamente caóticas mas extremamente perigosas. É uma tristeza enorme ver aquilo em que se tornou o Iraque desde a queda de Saddam. Não que este não fosse o que era, mas os resultados destas reviravoltas todas tiveram o pior cenário possível. Provavelmente, o que começa com violência só pode acabar em violência.
Mas falava acima dos europeus rendidos a esta "causa". Não sabemos em que termos são prometidas recompensas, porque é possível. Também é possível que sejam apenas opções próprias, mas aqui considero que são radicalismos que devem basear-se na total rejeição dos valores ocidentais (ou americanos?), do capitalismo, do consumismo, das sociedades modernas que se afastam dos valores mais tradicionais. Desta forma, encontram nestes movimentos extremos uma forma de contestação pura, de adrenalina política e social que os faz embarcar numa loucura destas. Também no ocidente há criminosos, mentes desviantes e fracas. As patologias individuais estão por todo o lado. Trágico é quando se tornam coletivas. Sobretudo quando se traduzem em ondas de medieval tirania e de inconcebível crime.

agosto 19, 2014

Anti-anti

                           

Assim muito rapidamente: não posso com radicalismo, com fundamentalismo, com racismo, com xenofobia, com segregação, com intolerância, com opressão, com totalitarismo, com primitivismo, com medievalismo, com tirania,  com ódio, com anti-qualquer coisa que, a favor ou contra, se baseie na cor, credo, etnia, costume, diferença, seja lá o que for. Não posso com nada disto venha de onde vier, esquerda, direita, este, oeste, sul, norte, judaísmo, islamismo, cristianismo, feminino, masculino, noite, dia, yin, yang. Não gosto de ninguém, no sentido total do que é gostar para mim, que se enquadre nestas ideologias, políticas, religiosas, sociais. Ou que decorrem simplesmente, e na maioria das vezes, de um tremendo apetite pelo poder. Tudo isto repele-me, arrepia-me e põe-me a milhas. Não posso com teorias ou práticas anti-liberdade ou anti-diferença, em qualquer parte do globo. E sobretudo não posso com a violência oriunda de qualquer destas formas de negação humana. 

agosto 18, 2014

O crime e o campo


Há uns tempos que me virei um pouco para a televisão por cabo, por várias razões. Na descoberta, encontrei uma série britânica da qual me tornei absoluta fã: Midsomer Murders. Trata-se de uma série que passa diariamente na Fox Crime por volta das 18 horas e que se passa numa região ficcional algures no English countryside. Aqui, a par de crimes macabros e recorrentes, respiramos o ar puro do campo e deliciamo-nos a ver as flores, os jardins e as casas tipicamente britânicas, num estilo que poderá ser considerado crime à moda antiga (como a série é publicitada, de resto). Desta forma, ao mesmo tempo que seguimos a interessante investigação de crimes maiores, uma certa tranquilidade acaba também por surgir, de forma contrastante mas realmente possível.  Por isso a vejo com muito agrado, para além do interesse linguístico, por causa desta fuga à confusão citadina e à voracidade das imagens violentas habitualmente presentes em séries policiais. 
A série transitou agora para uma nova fase, aquela em que o detetive principal passa a ser representado por outro ator, já que o primeiro abandonou a série depois de anos a fio como protagonista. Também soube que Midsomer Murders recebeu alguma crítica no sentido em que foi considerada por alguns como " a bastion of Englishness", ou seja, um bastião do que é ser inglês, passando ao lado, portanto, do tecido multicultural que compõe a Inglaterra de hoje. A verdade é que posteriormente a isto, já apareceram personagens asiáticas e africanas esporadicamente, embora os seus autores mantenham que a série é para um público muito específico, até nostálgico, é possível, acrescento eu depois de ler algumas opiniões. Fazendo parte desse público desde há um tempo a esta parte, confirmo que me sabe bem esta incursão pelo campo, onde o tempo parece ser e ter outro tempo, independentemente do resto.

agosto 16, 2014

Nº 3

Ela tinha uns magnets muito engraçados no frigorífico. Um deles dizia "beijo melhor do que cozinho". Uma outra ela, quando o viu, soltou de imediato uma valente gargalhada. Era assim que, em alguns aspetos, eram testadas as visitas em casa. Esta passou no teste. 

agosto 14, 2014

Tendências deste verão


1. Obama não veio a ser o que poderia ter sido, ou o que esperava eu que viesse a ser, isto em termos de política externa. Continuou a histórica tendência norte-americana de apoiar incondicionalmente os seus aliados e de ignorar o resto desde que esse resto não coincida com os seus próprios interesses. Ainda assim, não devia estar surpreendida com a desilusão. Afinal, fazer diferente apenas porque se é um pouco diferente seria uma espécie de racismo ao contrário. Se presidentes brancos, nos EUA ou em qualquer lado, fazem-nas mal - e muito - porque não haveria de acontecer exatamente o mesmo com os não brancos? 

2. Na Rússia vendem-se T-shirts com a figura do presidente Putin. Esta é uma tendência nova por lá, creio, e espero que a moda não pegue por cá, salvaguardando as devidas distâncias. Ele há gostos para tudo, já que não me pareceu que estivessem os compradores com nenhuma arma apontada para fomentar a aquisição. Mas tudo é possível, há caciquismos que não desaparecem, vão-se é mudando as abordagens. Do que vi, a única coisa de que gostei foi das latas estilosas onde as T-shirts vinham. Tirava-lhes o papel e punha outro, com o rosto do Clive Owen, muito provavelmente. Será que as vendem sem o conteúdo? 

3. A tendência em Hollywood é condenar à fogueira quem se opõe ao estado de Israel e quem critica o lobby judaico de alguma forma. No meio da novela Cruz/Bardem, em que estes foram chamados de ignorantes, porque oriundos de um país que teve a Inquisição (de terrivel memória, para que conste), descubro que em 1996 o ator Marlon Brando já tivera de pedir desculpas por ter falado na TV nos estereótipos nacionais dos filmes americanos, nas mãos de executivos e produtores judeus, essencialmente. Liberalismo, sim, mas só se numa direção. Liberdade de expressão e artística, idem aspas. Não soa isto também a medievalismo? 

agosto 12, 2014

Caminhos





Tal como se previa, alguns não permaneceram. Sabíamos, sentíamos. Não ouviram, não souberam ou não quiseram. Preferiram continuar, sozinhos, seguindo o caminho que escolheram, ouvindo-se a eles e a mais ninguém. É perfeitamente natural não querer ajuda quando se sabe o caminho, quando se conhecem os perigos e as saídas. Mas já não é a mesma coisa recusar uma ajuda quando o caminho é nitidamente o que leva ao desastre. Estavam no seu direito, é um facto. Uns mais do que outros, provavelmente. Escolheram, voltaram costas. Mas não a nós. A si mesmos, na verdade. Não há, em alguns casos, como voltar atrás. Seguem agora um caminho, livres e ao mesmo tempo não, já que presos nas suas escolhas. Seguem o seu caminho, pois. Mas que nunca digam que não se lhes mostrou outro. 

agosto 11, 2014

Coexistência

Há três coisas que não podem coexistir com a maturidade intelectual: a tontice, a superficialidade, o vazio. E possivelmente uma quarta. O limbo.

A guerra nos olhos


Este filme chama-se Triage, no original, e foi também distribuído com o título Shell Shock (acrescento que este termo refere uma perturbação psicológica de quem é exposto a cenários de guerra e sob bombardeamento). A tradução portuguesa é "Os olhos da guerra". Trata-se de um filme difícil de ver, no sentido em que temos uma personagem masculina fortemente deprimida depois de ter estado no Curdistão na sua qualidade de fotógrafo de guerra. A primeira parte do filme passa-se lá, de resto, e acompanhamos de perto a atmosfera de um palco de guerra e desalento a que poucos conseguem resistir. Na segunda parte, Mark (Colin Farrell) regressa a casa e a partir daqui a ação é completamente outra. A esposa e os amigos apercebem-se que ele está estranho, distante e profundamente traumatizado. Interrogam-se também sobre o facto de ter regressado sozinho, sem o amigo que o acompanhou nesta missão. É então que a esposa (Paz Vega) decide contactar o seu avô para iniciar um processo de terapia com Mark. A relação entre ambos é feita de muita paciência por parte do analista (Christopher Lee) e muita resistência em colaborar por parte do fotojornalista. O filme tem um ritmo lento, sobretudo nesta parte, intimista e até perturbante. Não é fácil estarmos a ver e a partilhar dores psicológicas profundas de ânimo leve, isto se entramos numa história a sério. No entanto, é um filme essencial para compreender o sofrimento de quem passa por cenários de horror e morte. O realizador é bósnio, a Espanha foi o local de filmagens enquanto paisagem curda e o ator principal procedeu a uma dieta baseada em atum para emagrecer drasticamente e ter o ar frágil que apresenta durante grande parte da história. No geral, um filme diferente, denso, que evidencia as capacidades dramáticas do seu protagonista, que nos faz lembrar que as nossas queixas diárias não são nada comparadas com outras bem maiores e que é impossível obter uma vida tranquila sob o signo da culpa. 

agosto 10, 2014

Tudo isto é pobre



A informação televisiva nos canais generalistas portugueses, dia ou noite, é cada vez mais deprimente. É extremamente pobre, redutora e nada ajuda ao esclarecimento e à informação essencial e necessária. Os jornais duram 1h 30m e grande parte do seu conteúdo é um desfilar de arraiais, feiras, festas, concertos e festivais, mais parecendo um roteiro de férias do que um espaço privilegiado para informar convenientemente. É alarmista, não quebra preconceitos, sendo tendenciosa, e sem qualquer visão global sobre os acontecimentos. Um rol de disparates aborrecem quem quer centrar-se na verdade - ou nas várias verdades - e saber mais com mais rigor e com qualidade: há notícias que são dadas em primeiro lugar sem tanta relevância - ou nenhuma - em relação a outras tão mais importantes; as reportagens de rua feitas por cá são péssimas, com perguntas a roçar a idiotice e que nada trazem de válido ou significante a quem vê as notícias; focam-se aspetos que nada têm a ver com a informação mas com diversão e afins - para isso deveriam criar programas próprios que seriam vistos por quem quisesse, não nos obrigando a ter de passar pelas romarias várias antes de chegar, por exemplo, às notícias internacionais de grande impacto; não parece haver repórteres que cubram decentemente os acontecimentos nas áreas de conflito mundial, no terreno, como já houve antes; a duração é demasiado longa e obcecada com os problemas internos, desde a banca ao governo, explorando essas temáticas até à exaustão, criando por vezes angústias e confusões desnecessárias - gostamos da verdade, obviamente, mas não nos inundem a hora de jantar com  novelas intermináveis criadas basicamente pelos mesmos temas. Posto isto, já quase não vejo televisão portuguesa nenhuma. Correção, já não vejo nenhuma televisão portuguesa. Deprime, desinforma, formata, promove o sensacionalismo, valoriza o supérfluo ao mesmo tempo que ignora o relevante. Dá a sensação que não existem diretores de informação e responsáveis que vejam o estado da informação atualmente e as consequências que traz. A ignorância popular grassa, anestesiada ainda por cima, nesta altura, pelo verão e as suas mil e uma noites de música e de gastronomia. Para onde vamos assim, interrogo-me. A visão estreita-se, a grandeza fica cada vez mais longe. Descreva-se tudo isto numa palavra: pobre. Tudo muito pobre.

agosto 08, 2014

Emprego a quanto obrigas


Pelo que li ontem, a atriz Penelope Cruz demarcou-se da posição anteriormente tomada relativamente ao conflito israelo-palestiniano, sob pena, e aqui acrescento eu,  de perder contratos para filmes em Hollywood. Passo a explicar. Ao que li, a atriz espanhola fez parte de uma lista de intelectuais e gente ligada ao cinema em Espanha que escreveu uma carta a condenar os ataques e a ocupação israelitas. Nessa lista constavam também os nomes de Javier Bardem, agora marido da atriz, e de Pedro Almodovar, entre outros. A carta caiu muito mal em Hollywood, ao que li também, embora ainda não tenha pesquisado nada online sobre o assunto. Passado uns dias, Penelope Cruz veio distanciar-se do sucedido, alegando mesmo a notícia que ela teria pedido desculpas a Israel. Em Hollywood, o artigo dizia e não é novidade, há um forte setor judaico que controla grande parte da indústria, pelo que é fácil perceber porque Penelope o terá feito. Triste é o facto das pessoas não poderem ter opiniões vincadas e contrárias aos patrões, desde a base da pirâmide até ao topo, pelos vistos. Não saber separar e avaliar o talento ou a competência independentemente da bajulação é, está visto, transversal e profundamente dececionante. E por falar neste assunto, isto tudo confirma o que sempre suspeitei em relação à talentosa, belíssima e adorável atriz portuguesa Daniela Ruah. Que ela conseguiu chegar onde chegou tão rapidamente por ser judia é algo que já penso há muito. Não tenho absolutamente nada contra isso, nem sequer me interessa a religião de nenhum ator e atriz que admiro, neste caso ainda por cima fico feliz por ela ser portuguesa e ter Hollywood rendida ao seu charme. Mas o emprego, mesmo nos meios altamente desenvolvidos, ainda tem panos que a gente (des)conhece.

agosto 06, 2014

Nº 2

Era impaciente, muito, detestava esperar pelas coisas (mais) pequenas. Mas soube sempre esperar - e de que maneira - pelas coisas verdadeiramente grandes.

agosto 03, 2014

Hostilidade virtual e escuridão real


Já não é a primeira vez que, ao expressar uma opinião num mural de alguém amigo no FB, aparecem pessoas extremamente mal educadas do ponto de vista em que colocam a sua opinião, neste caso obviamente quando não coincide com a minha. Tendo a preferir claramente pessoas francas, diretas  - acrescento esclarecidas - e considero que tenho tolerância e paciência q.b. mesmo quando acho que os seus argumentos, os das duas primeiras, não têm pés nem cabeça. Na verdade, há muita gente convencida que sabe muito ou tudo quando isso não corresponde, de todo, à realidade. Ninguém sabe tudo, ninguém, mas alguns sabem bem menos do que julgam ou querem julgar. Mas a cada um a sua opinião, democracia será isso mesmo, o direito de todos opinarem, razoavelmente ou não. O que já me deixa com alguma irritação mental é a má educação, ou seja, os termos em que de forma ofensiva e irracional discordam da nossa perspetiva. Ora isto diz tudo da natureza humana. Se num simples registo virtual de opinião e numa mera troca de ideias online mostram-se logo garras de maneira hostil e injustificável, aproveitando ínfimos pormenores e/ou vendo coisas que não existem, como não entrar em conflito aberto por coisas um bocadinho maiores? Depois queixamo-nos, queixam-se, de que os outros são diabólicos quando fazem isto ou aquilo - e são, muitas vezes. Mas podia olhar-se um bocadinho mais para dentro e ver que se destila ódio facilmente perante coisas que diria pequenas. Muito pequenas, até. A escuridão está dentro. O inferno, pelos vistos e frequentemente, somos nós mesmos. 

agosto 02, 2014

Os homens devem estar loucos

                   

Despertando um pouco das nossas rotinas atarefadas mas apesar de tudo normais comparadas com a anormalidade de tantas vidas que andam ao sabor da geografia do poder, aqui ficam hoje duas notas de espanto ou horror, sobretudo por elas, as vidas debaixo dessa louca espiral de retrocesso e violência.

1- Na Turquia, um belíssimo país que visitei há mais de uma década e que adorei, o PM atual diz qualquer coisa do género "As mulheres devem evitar rir em público". Não li a notícia toda, apenas o título, e assumindo-a como verdade pensei logo que, no meu caso, estaria verdadeiramente tramada. Mas o que aqui está implicado é muito mais do que uma simples graça por parte de quem está à distância. Significa uma absurda caminhada no processo de islamização, aparentemente discreto para o ocidente, que se está a levar a cabo na Turquia moderna, filha de Ataturk. Sou completamente a favor das liberdades individuais e do estado absolutamente laico. E desilude-me profundamente uma figura - Erdogan -que me parecia moderada e equilibrada, até elegante, tão diferente no porte das figuras mais fundamentalistas que estamos habituados a ver nos media. O ano passado conheci uma turca em Erasmus, aqui na UA. Era completamente contra este PM e as suas políticas de islamização social. De facto, como poderão viver sob este e outros disparates os jovens que vi em Taksim, Istambul, entre tantos e tantos outros?

2- O ISIL ou ISIS, o unilateralmente declarado Estado Islâmico do Iraque (e Levante/Síria) é um perigoso  movimento- porque alucinado e medieval - que surgiu no norte do Iraque no âmbito da queda de Saddam, na subsequente vingança xiita contra os sunitas iraquianos do antigo regime, e agora como vingança anacrónica e brutal  - brutal, mesmo - contra todos aqueles que a organização considerar inimigos, xiitas e cristãos incluídos, sem esquecer a condição feminina, numa onda de terror e de obscurantismo completamente inconcebível. Ontem estive a ler alguns artigos acerca da organização, considerada brutal, repito, até pela Al-Qaeda, espelho também da confusão de alianças políticas, religiosas e étnicas que é praticamente impossível de entender por aqueles lados. Em casa, é-me dito diz-me que agora lembraram-se de falar em países como Portugal e Espanha, que também foram mouros e que, portanto, devem fazer parte desse grande estado que viria de lá de cima por aí fora até cá abaixo. Isto de ser moda querer restaurar fronteiras a partir de livros religiosos de há milénios é uma profunda idiotice e um desrespeito pelas leis internacionais modernas em tempos de ONU e de declarações universais. Sobretudo o que isto representa no terreno: ilegalidades e imoralidades que repudio totalmente.

O que me choca nestes fundamentalismos todos é a certeza que gente inocente e de bem, que há invariavelmente em todo o lado, sofre de forma chocante e indefesa quando cai sob a alçada de insanidades que intimidam e forçam pela uniformização e pela intolerância, pelo terror e pela violência. O exercício do poder, já de si perigoso, pode tornar-se desumano e demente nas mãos de loucos. Assim foi ao longo da história, em que uns oprimiram e brutalizaram outros. Mas o meu choque advém não do conhecimento da história mas da constatação de que nada aprendemos com ela. Estão a acontecer coisas terríveis por esse mundo fora que não podiam nem podem acontecer, repito, não em tempos de direitos humanos, tecnologia e modernidade. Isto assusta-me profundamente e temo. Temo por aqueles que, geograficamente ou não só, a essas terríveis coisas não conseguem, infelizmente, escapar. 

E quanto mais vejo e escuto ou leio sobre esta loucura humana  mais me apetece ficar a olhar o mar ou estar perto dos flamingos que se instalaram perto da minha casa.

agosto 01, 2014

Seleção natural




Não cabem na nossa vida todas as pessoas que cabem no nosso coração. Ou, se se preferir, na nossa mente. Não conseguimos albergar os afetos de forma física que seja perpetuada  no tempo e permanente no espaço. Não é possível. Daí que, mesmo sem querer, se vão deixando pelo caminho simpatias, afinidades e cumplicidades. O tempo e o espaço encarregam-se de traçar os nossos encontros e também os desencontros. Mesmo que a vontade seja a de manter todos aqueles que vamos conhecendo e de quem gostamos, telefonando, escrevendo, estando pessoalmente, nem todos se mantêm presentes nos nossos dias. Nem nós nos deles. Não nos é possível, já disse, não com todos aqueles que encontramos pelo caminho e que nos deixaram uma boa memória. O que fica de alguns deles pois então? Ou, possivelmente, de muitos? Um rosto, uma frase, um local, um sorriso, um momento, um nome, tudo em simultâneo ou nem por isso, uma emoção, uma saudade, um lugar cá dentro. Até mesmo sem nunca mais lhes termos posto a vista em cima.