Porque te afundas em pensamentos?
Porque ondulas ao sabor dos humores?
Porque te escondes na tua carapaça?
Porque não verbalizas o que pensas?
Porque insistes nos teus silêncios?
Porque não apenas sentir?











The Solitary Reaper, William Wordsworth![]()



Finalmente lá me resolvi a escrever uma coisa que poderá desagradar a alguns leitores - pois teve o mesmo efeito em mim. Há dias, um estrangeiro meu conhecido, que está em Portugal a doutorar-se na área das letras no Porto, dizia-me que achava que a crise em Portugal era basicamente propaganda. Vindo da Sorbonne, onde esteve 7 meses, salientava que em Portugal as pessoas vivem bem, têm belos carros, casas, que os hipermercados estão cheios e que há muito consumo. Disse-lhe que a crise se vem arrastando e que esse estilo de vida, observado por inúmeros estrangeiros, verdade seja dita, está a perder-se, pois até na classe média estão a sentir-se sérias dificuldades. Não estamos a conseguir viver como outrora, tem havido cortes nos salários, em subsídios e a austeridade é para continuar. Ficou surpreso quando lhe falei, desagradada, pois então, que, também no meu caso, me cortaram subsídios e que isso significa perda de benefícios e outros. Mas têm de contribuir para recuperar o vosso país, isso é inclusivamente uma questão de patriotismo, avançou. Aqui, o verniz estalou. Não discuti mais o caso porque o nosso encontro estava a chegar ao fim e eu estava com pressa. Mas... patriotismo? Patriotismo quando trabalho há anos e vejo cortados tantos direitos de que outros já usufruíram, em várias áreas? Bem sei que tem razão quando diz que nós, portugueses, consumimos demasiado. Sabemos que este consumo desenfreado, baseado no crédito e nas aliciantes bancárias, também fez claros estragos. Mas porque me hei de eu sentir patriótica se cumpri o meu dever, paguei os meus impostos, fui uma cidadã exemplar e em retorno vejo despojadas as minhas posses? Mas o meu caso, classe média, funcionária pública (ah, será esse o meu pecado, claro) nem é nada relevante. Ou é muito pouco. Mas que dizer de quem ficou desempregado? De quem tudo perdeu? De quem não pode sequer sustentar uma família com os bens essenciais? Que fazer quando há um casal a viver desta forma? E com filhos, muitas das vezes? Que dizer da emigração forçada dos jovens e não tão jovens como escape para uma vida aqui, sem dignidade possível? Que espécie de patriotismo poderão eles sentir? Como lhes exigir que amem o seu país e se sacrifiquem por ele quando os seus projetos estão constantemente a ser adiados? E como explicar a um idoso que deve contribuir também com o seu esforço (e que esforço, tantas vezes) quando já se havia esforçado como forma do estado lhe assegurar uma velhice tranquila? Penso que são precisos sacríficios, de vez em quando, a nível pessoal e coletivo, como nesta situação. Mas isso também é fácil de dizer quando ainda há muito que se consegue assegurar. Impossível dizê-lo quando já se tem pouco ou nada. O que é que podes fazer pelo teu país e não o que é que o teu país pode fazer por ti. Parece-me, é verdade, que precisamos de nos lembrar disto, ocasionalmente e com sentido de responsabilidade, com a responsabilidade que também devemos ter e que nos é naturalmente exigida. Mas o teu, o meu país também não pode retirar-me tudo, desiludir-me quando cumpri e acreditei. Porque, lá está, não o amarei da mesma maneira.
Maravilhoso filme, o primeiro de Warren Beatty, e um de muitos em que Natalie Wood surge esplendorosa, apesar de sofrida. Um romance que não podia acabar como acabou, uma história com demasiadas interferências, um eco de um tempo e ainda assim tão intemporal, tão eterno. Porque o amor torna tudo possível, mesmo quando não desejamos que assim fosse.
"Though nothing can bring back the hour Of splendour in the grass, of glory in the flower, We will grieve not, rather find Strength in what remains behind." (William Wordsworth) |



