novembro 14, 2012

Caranguejo


Porque te afundas em pensamentos?
Porque ondulas ao sabor dos humores?
Porque te escondes na tua carapaça?
Porque não verbalizas o que pensas?
Porque insistes nos teus silêncios?

Porque não apenas sentir?

Mais afetos e menos fações



No seu mural no FB um colega escreveu que no meio dos afetos as bandeiras não valem nada. Não podia concordar mais e, no entanto, não é isso que frequentemente se verifica. Ao invés, muitas das reações que vemos hoje em dia, pelo menos, revelam-se impregnadas de ideologia, não se distinguindo o bem do mal de forma independente, refletida, amenizadora. Há muito pouca tolerância para com o erro, as falhas, as fragilidades, há uma visível cólera quando se discorda, há uma grande agressividade nas palavras e sobretudo no tom, instalam-se pequenas guerras que só dividem, catalogam-se as posições meramente de acordo com as áreas políticas, olha-se impacientemente para os outros como eles (por oposição a nós). 
Temos todos direito à nossa opinião e  de a expressarmos. É um facto que há opiniões que são bem expressas, bem argumentadas, bem alicerçadas mas outras nem por isso e outras ainda mais valia não virem à tona nunca (por ausência de ética). Por outro lado, é absolutamente normal que tenhamos diferentes posições políticas, perspetivas de sociedade divergentes e ideias sobre direitos e deveres que não coincidem. Contudo, seria bom que tais opiniões fossem discutidas e recebidas de forma mais calma e tranquila, menos radicalizada, sobretudo menos agressiva. Tenho dias em que estou farta dos confrontos verbais, da intolerância face a quem pensa diferente, da ausência de margem para o erro, das palavras iradas que atiçam (não faço ideia se alguns leitores poderão sentir o mesmo, imagino que sim). É preciso reavivar os afetos, pensar e agir sobre o que verdadeiramente importa, unir e não desunir, pensar antes de falar, saber perdoar, reconhecer os méritos de outros. Não falo do desespero, das situações extremas que se vivem, do turbilhão de emoções difíceis de quem vive dificuldades várias. Mas é preciso canalizarmos a raiva, a desilusão  e mesmo o espírito crítico para construir, de alguma forma, porque esse é o caminho. Faltam afetos no meio de tanta fação. Só eles podem melhorar os dias, encetar novas saídas, porque fundados no verdadeiro bem e não nas bandeiras que os condicionam.

novembro 13, 2012

Com os olhos postos



1. O vídeo de Marcelo Rebelo de Sousa
Quase patético, de pouca qualidade estética e tecnológica, ao estilo amador, e extremamente provinciano. Ainda que possa ser verdadeiro factualmente numa passagem ou noutra, é provocatório para os alemães (uma vez que o povo português não tem culpa pelo estado atual das coisas, que culpa tem o povo alemão das políticas da sua líder?), assenta numa certa superioridade moral (aquela de que nos sabemos manifestar, por exemplo, deixou-me em fúrias) e ao mesmo tempo tosco (zé povinhos e afins). Reprovado, claro. Lá e cá.

2. A visita de Merkel vista pelo povo
Por favor não me façam entrevistas aos tugas semelhantes àquelas que ouvi ontem. Parece que escolhem os piores e o pior é que estes existem. "Tudo isto por causa de uma mulher", ouvia-se. Não sei se com esta tirada a senhora expressava a vontade de terem vindo mais mulheres ou ou se desejava que tivesse vindo um homem. E outras pérolas do género. Mas aquela que leva o prémio da intolerância foi "ela que vá para a terra dela", uma pequena amostra do mais pequenino espírito xenófobo misturado com uma ignorância de fazer dó. Políticas à  parte, por vezes, não se pode mesmo ouvir o povo.


3. O filme sobre Aristides de Sousa Mendes
Vi e gostei mas esperava mais. Penso que a estratégia narrativa não foi a melhor porque a história aparece praticamente contada na terceira pessoa e as atenções acabam por se desviar em demasia para essa personagem, a do maestro judeu que conheceu o Cônsul quando tinha 14 anos. Esperava uma abordagem mais biográfica e não apenas ver Aristides a passar vistos,embora mostrando força moral e coragem em desobedecer a Salazar. Mas soube-me a pouco - faltou explorar o seu percurso após a "queda" e, desta forma, provavelmente glorificá-lo um pouco mais. Aí, o cinema de Hollywood sabe-la toda. 

novembro 12, 2012

A chantagem e a culpa


A chantagem psicológica é uma coisa dos diabos. Diabólica, infernal. Provavelmente todos a usamos, em diferentes graus, momentos, contextos, humores. Quando nos sentimos mais carentes, mais inseguros, mais sensíveis, mais desabrigados, mais stressados. Trata-se de uma arma fácil de usar, para prender o outro, obrigá-lo a retroceder, a anuir, a sentir uma culpazinha que, tendo ou não tendo, nos poderá beneficiar. Assim é feito o nosso mundo de emoções mais fracas, mais irracionais, mais infantis. Mas se a pequena chantagem emocional, ocasional, percebida, até consentida, não causará danos propriamente gravosos, o mesmo não se poderá dizer da chantagem psicológica plena, sistemática porque hábito e defeito de quem a ela amiúde recorre como forma de conseguir os seus desejos e objetivos, malévola e causadora de grandes culpas castradoras e que inibem o outro de agir livremente. O sentimento de culpa, sobretudo quando ela não existe ou não é da forma que a querem pintar, pode causar a maior das angústias porque o maior dos dilemas poderá daí surgir. E ligarmo-nos a alguém que nos prende com esse tipo de argumentos não pode senão criar infelicidade. Deles, inclusivamente também, porque nossa. Se estou com e aturo alguém e lhe satisfaço os anseios porque me sinto amordaçado pela culpa, então não sou feliz, porque não livre, e não posso espalhar felicidade quando não a sinto. Curiosamente, quem aciona o mecanismo da chantagem parece não se aperceber disso – melhor, finge não se aperceber disso. Muita gente prefere manter pessoas contrariadas e nitidamente insatisfeitas ao pé de si do que enfrentar e admitir a sua perda.
Trata-se de uma questão de autoestima, de baixa autoestima, na verdade. Segundo o sociólogo italiano Francesco Alberoni, as pessoas mais fracas podem manter perto de si e com tolerância para os seus caprichos e humores as pessoas mais fortes e independentes, precisamente através do uso do sentimento de culpa. As últimas, inteligentes e saudáveis de espírito, podem, no entanto, sucumbir a estas chantagens por causa da bondade, da compreensão e da sensibilidade. Se não souberem e ousarem dizer não e não pactuar com o jogo, podem anular-se e sentir-se responsáveis pela (in)felicidade do outro e assim também serão infelizes.
Quem usa a chantagem para alcançar os seus objetivos soa como alguém desprovido de inteligência emocional e respeito pelo outro. Mas, na verdade, encontramos tanta gente assim, na família, nos (falsos) amigos, por vezes, no emprego, nas relações sociais que mantemos. Umas são mais fáceis de nos libertarmos do que outras. Uma mãe que chantageia os filhos adultos é mais difícil de largar do que um colega carente e que cobra constantemente atenção e mimos para existir. E mais exemplos podiam ser dados no seio familiar, esfera privilegiada para estas relações que fomentam e se alimentam de culpas.
É uma arma que significa ausência de força. Se entendida como modo de vida, forma de estar, instrumento usado para fazer os outros permanecer perto de si. Portanto, dispensável, inaceitável, horrível.

escrito para o bahiamulher

novembro 11, 2012

Trouxe para aqui




"...lembro que Portugal deu novos mundos ao mundo e novos labregos também ..."
 (in Tralapraki)


Não resisti, até porque sem auto-crítica e sentido de humor não vamos lá.

Adenda: São imprescindíveis para enfrentar o quotidiano e torná-lo melhor. Não fosse ser mal interpretada, daí a nota.



Engraçado

Muito, mesmo.


novembro 10, 2012

As possibilidades

Inteirei-me acerca do assunto Isabel Jonet através dos jornais online. Depois vi uma ou outra referência no FB e em alguns blogues. Os ânimos exaltaram-se, as ofensas fizeram-se sentir (de quem se sentiu ofendido), a polémica estalou. Contudo, parece-me  necessário reagir com alguma racionalidade ao teor das declarações da presidente do Banco Alimentar. No, fundo, o que foi que disse? Que os portugueses têm vivido acima das suas possibilidades. Isto é uma inverdade? Não será, em alguns casos, em muitos casos. Poder-se-ia inclusivamente dar-se exemplos, variados e muitos, em que houve passos maiores do que as pernas. E não é suficiente a explicação de que os bancos e o crédito permitido a isso levaram, isso seria desresponsabilizar individualmente as escolhas e atrevimentos de cada um. Temos sido uma sociedade de alto consumo, e muitos de nós convenceram-se que eram ricos. Ousámos ter e ter mais, independentemente dos facilitismos que encontrámos e da incompetência das más governações que nos souberam simultaneamente (des)acompanhar. Continuemos.
Por outro lado, ouvir dizer que temos de aprender, reaprender a viver com menos, não me ofendendo minimamente, até porque não temos outra solução, significa também o reconhecimento de um retrocesso. E aqui as dificuldades agravam-se para muitos, as grandes dificuldades. Não queremos, porque é mau sinal, regressar a tempos que julgávamos idos, de dificuldades e emigração, de pobreza e estagnação a vários níveis. A conquista da democracia e outros avanços sociais e políticos da nossa história recente deixaram-nos entrever outras possibilidades, percorrer outros caminhos, alcançar outras formas de vida. Perdê-los é andar para trás, é distanciarmo-nos de um padrão que julgámos possível, que nós tornámos possível e que nos deixaram acreditar que era possível. Embora, e ainda assim, urja a redifinição de prioridades.
As reações emotivas demais, em cadeia e desprovidas de reflexão fazem cada vez menos o meu género. Mas a dignidade que deve presidir às condições de vida faz parte das minhas preocupações. Não o consumo, não o esbanjamento, não o show off mas os bens essenciais. Se estes faltarem não se trata de sacrifícios necessários nem de uma vida mais modesta, trata-se de uma não vida. 

novembro 09, 2012

Kissing you


Shakespeare e cinema juntos, num Romeu e Julieta pop, com uma banda sonora daquelas. 
Sons etéreos para o amor eterno.

novembro 08, 2012

A boca dos inocentes


Nunca o soubera. Mas eis que chega a revelação, ainda a tempo:
És uma grande cozinheira, mãe!
Isto dito enquanto se lambuzava, com um número assaz razoável de costeletinhas de borrego grelhadas e temperadas com sumo de limão. Isto é tão bom, mãe, melhor que hamburguer, enquanto os dedinhos engordurados levavam avidamente inclusive os ossinhos à boca.
Deus fala verdade pela boca dos inocentes.
Sou feliz.
Ainda vou a tempo de concorrer ao próximo Masterchef.


Negativismos



Tendo a admirar quem manifesta posturas interventivas, sentido crítico, quem questiona e não se conforma. Mas confesso que de uma forma doseada, ou seja, não aguentaria viver em permanente desafio, em constante desacordo, sobretudo se essa atitude é meramente teórica, destrutiva, pessimista e desconfiada. As teorias da conspiração, as manias de perseguição e outras paranóias que revelam obsessão e pouca reflexão não encontram acolhimento nem paciência deste lado, pelo simples facto de gostar de mais ponderação e frieza analítica no julgamento das coisas. A maturidade, aliás, é passível de trazer esse distanciamento mental, já longe das paixões mais exacerbadas da juventude. Mas o pior de tudo, e aqueles com quem não partilharia mais do que umas horas da minha vida, são os anarquistas niilistas, se assim se podem chamar. Percebendo eu pouco de filosofia formal, o que pretendo dizer é que me cansam os teóricos do caos, aqueles que mal em tudo veem, que sentem gozo em tudo destruir, que só levantam obstáculos, que só sabem duvidar, que nunca confiam, que não sabem em nada acreditar. Este negativismo omnipresente é do pior. Se ocasionalmente posso achar graça e até comungar das suas observações em alguns aspetos, a verdade é que não me identifico com os que apenas destroem e nada constroem.  Que fique claro: a intervenção é essencial, a consciência idem aspas, a coragem e o risco são admiráveis. Mas a pura maledicência, a anarquia estéril, o pessimismo crónico, a mente destrutiva, a generalização malévola e a incapacidade de reconhecer o bom, de apreciar o que há de bom são facetas que deixam a desejar, para dizer o mínimo. Que canseira, viver assim, que perversidade, até . Porque não só não são capazes de fazer (mais) felizes os outros como, sobretudo, eles próprios.

novembro 07, 2012

Yes, we still can




Imagino que o tema hoje, a nível praticamente mundial, seja Obama. Também eu, cá da minha insignificância e ignorância política, saúdo a sua reeleição. Pode não conseguir fazer milagres, não resolver tudo, mas é inconfundível a sua aura. Tem, tão somente, um estilo profundamente inspirador. Tudo nele é confiável - perpassa harmonia, tranquilidade, equilíbrio, humanidade. É a voz, o sorriso, o sentido de humor, o teor vivificante dos seus discursos, aquela espécie de alento que transmite, a elegância das palavras, a força e confiança que ecoam e se projetam em quem o ouve. Vivem-se tempos difíceis, em que números e mercados controlam as melhores das intenções, em que os valores humanos parecem escoar-se face a forças de poder e consumo, em que grandes injustiças parecem não ter fim e até se agudizam. Mas ainda há integridade, inclusivamente a nível político. Não perfeição, mas integridade. Obama parece ser e será um desses seres íntegros, verdadeiros, autênticos. Move-se numa esfera difícil, alvo fácil de controvérsia, de crítica permanente. Não será Lincoln, não será Roosevelt, os mais amados presidentes americanos, bravos e fulcrais peças nas suas épocas. Estará, seguramente, ao serviço dos interesses norte-americanos em questões internacionais, interesses discutíveis para muitos. Mas será do melhor que se pode encontrar nos dias que correm e não são poucos os países, e os líderes, que compõem este nosso globo. Venham mais quatro.

novembro 06, 2012

Quando nos enamoramos?

"Enamoramo-nos quando estamos prontos para mudar, quando estamos prontos a deixar uma experiência já feita e gasta e temos o impulso vital para realizar uma nova exploração, para mudar de vida. Quando estamos prontos a tirar proveito de capacidades que não tínhamos explorado, a explorar mundos que não tínhamos explorado, a realizar sonhos e desejos a que tínhamos renunciado. Enamoramo-nos quando estamos profundamente insatisfeitos com o presente e temos a energia interior para iniciar outra etapa da nossa existência. (...) O enamoramento acontece quando encontramos alguém que nos ajuda a crescer, a realizar novas possibilidades. A ir numa direção que corresponde às nossas exigências interiores. (...) O estado nascente amoroso é a tentativa de mudar radicalmente a própria vida. (...) Todos os enamoramentos são potencialmente revolucionários."
Francesco Alberoni, "Amo-te"

Absolutamente. É preciso um desencanto, um vazio para que o amor a sério possa nascer. Não surgirá se quisermos continuar da mesma forma, com as mesmas rotinas e hábitos, se insistirmos em atividades e divertimentos a toda hora, sem pausas para sentir o desalento, a inutilidade, a extrema necessidade de uma mudança radical. Só insatisfeitos nos poderemos enamorar. O que, espantosamente, pode ser tranquilizador. Resta apenas encontrar alguém que nos faça entrever e entrar nesse outro mundo.

Evolução



Ora aqui está uma boa imagem para fazer pensar nisto tudo.
(do FB, Obvious)

Nada de nada



Caros, queridos leitores 
Não estranhem aparecer como Fátima e/ou Faty Laouini. Pus-me a mexer em definições no esquema que não soube prever e controlar e o meu perfil que era Fátima passou, sem querer, para o perfil Google que tinha como Faty (que é o nome que uso também no FB). Mas sou a mesma e isso é que importa. Aliás, há quem me chame Fátima, outros Faty, outros Fatinha, outros Laouini. Até já me chamaram Alouin (Halloween??? Meu Deus!). Nunca escondi que aprecio a diversidade. E agora para por o nome Fátima outra vez (sobretudo como comentadora noutros blogues) não sei. Fui ao perfil e consegui por o nome como título mas apareceu a "velha" fotografia do Google e mesmo alterando a foto na página Google não consegui tirar o Faty no perfil do blogue. Enfim, desastres de quem não domina nada disto. Também não se espantem por haver alterações no esquema ou no modelo, de vez em quando necessito. Sempre mudei os móveis em minha casa frequentemente. Agora já não o faço há tempos e confesso que já sinto falta. Obviamente que quem é demasiado conservador não poderá ler ou apreciar nada disto - o blogue e esta imprevisibilidade. E se preconceituoso, pior ainda. Sou livre e faço o que quero - quero dizer, também faço o que não quero, como nisto dos nomes e das fotos. Obrigada por conseguirem ler este post até ao fim. Não faz a felicidade de ninguém e é irrelevante, totalmente.
Pronto, já passou.

novembro 05, 2012

Alto e baixo astral



Ao longo da sua carreira de docente - pensa que já poderá falar assim - encontrou muitos alunos com uma baixa auto-estima. E ela, que gosta de astrologia e já leu umas coisas a sério sobre o assunto, espantava-se como é que signos/naturezas teoricamente fortes, independentes e positivos se mostravam em tudo ao contrário do que lera. Sim, espantemo-nos. Muitas vezes ia ver a data de nascimento dos alunos para confirmar ou não as suas leituras psicológicas dos mesmos. Parece tontice, ausência de inteligência e de seriedade, pois parece. Era simplesmente uma forma, entre outras, de entender a razão pela qual não acreditavam em si próprios e se mostravam tão inibidos em vários aspetos, com tanta falta de auto-confiança. E aqui está o resultados dessas suas observações. Conheceu muitas vezes os pais dos alunos, desses alunos, na qualidade de diretora de turma. E automaticamente fazia-se luz. Miúdos com grande potencial vivencial eram pura e simplesmente vítimas de uma educação rígida, seca, castradora até, de vistas curtas (já para não falar da total ausência de conhecimentos dos pais, realidades socioeconómicas que assim se repercutiam). Como conseguir crianças ou adolescentes felizes se não há palavras de afeto, de encorajamento, injeções de auto-estima que os façam sentir especiais, capazes, com valor? Como encontrar espírito crítico e abertura nos alunos se não há liberdade (com valores e limites), tolerância e visão? Como educar jovens equilibrados e sadios sem compreensão nem diálogo, sem fé nas suas potencialidades nem e, basicamente, sem lhes dar a conhecer que os amamos?
Não se duvida, claro está, que os pais amam os seus filhos, que desejam o melhor para eles. Mas não expressar esse sentimento, não demonstrá-lo verbal e fisicamente pode criar o maior dos equívocos. Pode nascer nos miúdos uma visão distorcida do que são, perturbada pelo pouco reconhecimento que os pais lhes parecem dar. Se apenas se exige, se apenas se cobram notas e comportamentos corretos e nunca se elogia nem se encoraja pode erguer-se uma fasquia baseada apenas nas expetativas, nas metas a alcançar, descurando-se o lado afetivo e o entusiasmo que devemos desenvolver na relação entre nós e os nossos descendentes. Daí que possam aparecer - e aparecem - alunos desajustados também de famílias com uma boa situação socioeconómica. Porque só o dinheiro e os bens materiais não chegam para reforçar a auto-confiança. Uma boa imagem exterior, por exemplo, nem sempre corresponde a uma boa imagem interior de si próprios. Tem de se chegar lá dentro, edificar pensamentos positivos acerca deles mesmos, potenciando as suas caraterísticas e valorizando-as no que têm de melhor. Os progenitores que fazem isto conseguem criar os seus filhos desenvolvendo neles amor próprio, mesmo em signos/naturezas aparente e teoricamente mais pessimistas e mais frágeis. Daí que a educação tenha um papel primordial na atitude geral de um indivíduo face à vida. Grandes traumas interiores por ela causados não podem senão criar comportamentos patológicos ou desviantes e uma grande inflexibilidade, desafeto e tacanhez não podem criar senão inseguranças e inibições. 
Esta sua abordagem ligada aos astros pode ser alvo de chacota, acusada de leviana, palerma e nada credível. Mas recordou uma vez, entre muitas, em que um aluno mal comportado na aula lhe dava algum trabalho. Fechado mas perturbador, inacessível mas turbulento, um dia ouviu-a dizer-lhe, depois de lhe perguntar o seu signo (ao falar do seu comportamento): Que estranho, os Caranguejos são tão queridos. O miúdo ouviu aquilo, enquanto saíam da sala. Ao outro dia, e a partir daí, não havia menino. Uma autêntica metamorfose tinha-se dado. Passou a  sorrir para ela, a ser doce e mesmo um bom aluno, até ao fim do ano. Chamem-lhe tola.

novembro 04, 2012

A lista é vida

Finalmente. O Schindler português. Há anos que eu dizia e digo que o nosso cinema tem de nos fazer conhecer a nossa história, as nossas figuras - esta figura. Quero ver, evidentemente.


E isto lembra-me como gosto de história e de como estive quase a enveredar pelo ensino de história na altura de escolher o curso. Não fosse o gosto pela comunicação global teria sido essa a opção. E daí deve-me ter ficado o gosto pelos filmes de época, uma vez que são estes que (nos) retratam tempos idos e nomes que são, hoje, apenas isso, nomes. Mas nomes que fizeram a diferença. Não há como divulgá-los e celebrá-los. 

Uma questão de privacidade



Incrível, e triste, a forma como certa imprensa faz capas não consentidas com problemas pessoais de atores, celebridades aqui do nosso pequeno burgo, artistas ou outros. Uma coisa é aparecer-se numa capa (e lá dentro) de forma digna, voluntária, consciente, pensada. Não se é menos válido por tal facto (o meu texto Cor-de-rosa continua espantosamente a ser o mais lido de sempre aqui no blogue e é onde desmistifico, tento, algumas ideias elitistas sobre as revistas sobre famosos). Não se é menos credível ou menos digno por isso. Agora, as matérias não autorizadas que são feitas a partir de falsos ou anónimos testemunhos, com enfoque em problemas familiares e, pior, em problemas de saúde, causadores de sofrimento e que devem ser vividos na esfera pessoal, parecem-me perfeitamente inaceitáveis. Basta um olhar de relance nos escaparates ou uma visita ao cabeleireiro (o que fiz ontem) para vermos que há um devassar de intimidades que não foi aprovado pelas pessoas em causa, que é claramente sensacionalista, voyeurista e mesmo cruel. E também se nota que certas figuras da sociedade ou do jet set ou da televisão portugueses estão mais expostas do que outras, mais vulneráveis, sem qualquer tipo de proteção. Sim, porque há quem esteja protegido. Há figuras sobre as quais nunca saiu um artigo ou uma foto mais comprometedora ou reveladora, e porque haveria de sair, mas o que é certo é que sobre outras saem e saem amiúde. Lamento que em certas alturas em que era necessária compreensão e necessário respeito pelos problemas pessoais de alguns se faça precisamente o contrário - vender às custas desta falta de humanidade. Com a colaboração de anónimos e falsos amigos, claro, com declarações duvidosas ou francamente inoportunas. O que sentirá alguém com um problema pessoal profundo quando vê a sua intimidade e o direito a essa privacidade completamente expostos? Não se sentirá melhor, com certeza, poderá até agudizar os problemas, ao sentir-se sobre uma enorme pressão pública. Dislike.

novembro 03, 2012

A ceifeira

       
The Solitary ReaperWilliam Wordsworth 

BEHOLD her, single in the field,
Yon solitary Highland Lass!
Reaping and singing by herself;
Stop here, or gently pass!
Alone she cuts and binds the grain,
And sings a melancholy strain;
O listen! for the Vale profound
Is overflowing with the sound.

No Nightingale did ever chaunt
More welcome notes to weary bands
Of travellers in some shady haunt,
Among Arabian sands:
A voice so shrilling ne'er was heard
In spring-time from the Cuckoo-bird,
Breaking the silence of the seas
Among the farthest Hebrides.

Will no one tell me what she sings?--
Perhaps the plaintive numbers flow
For old, unhappy, far-off things,
And battles long ago:
Or is it some more humble lay,
Familiar matter of to-day?
Some natural sorrow, loss, or pain,
That has been, and may be again?

Whate'er the theme, the Maiden sang
As if her song could have no ending;
I saw her singing at her work,
And o'er the sickle bending;--
I listen'd, motionless and still;
And, as I mounted up the hill,
The music in my heart I bore,
Long after it was heard no more.



A sonoridade das palavras, o ritmo do poema, a musicalidade dos versos.
Estudos universitários que deixa(ra)m saudades.
E foi assim: This poem in my heart I bore long after it was read no more.

novembro 02, 2012

Extravagâncias


frida-2

Tenho tendência para achar graça à extravagância. Aquela extravagância que é claramente ostensiva, assumida, colorida, doida. Geralmente trata-se de indivíduos altamente bem dispostos, ousados, desafiadores mas ao mesmo tempo nada deprimidos, antes radiosos, algo boémios e com visão alargada. Acho que fazem falta para animar a malta e pecam por serem escassos na vida quotidiana, no local de trabalho, na rotina de sempre. Antes e sempre a extravagância, por contraste com as vistas curtas, a mentalidade pequena, de aldeia (nada tenho contra as aldeias, cada vez gosto mais, da sua simplicidade, escreverei sobre isso qualquer dia), o preconceito, a  existência avarenta e mesquinha, a frustração invejosa. Geralmente, os extravagantes arrancam-me gargalhadas, e fazer rir é uma belíssima caraterística. O bom astral, a auto-confiança, a presença vistosa, se acompanhados de culta sabedoria e experiência de vida, alegram muito os dias que se desejam bons. Estrelas de cinema, artistas, celebridades com talento, intelectuais e outros contam com extravagantes nas suas fileiras. Que sensaborão e cinzento panorama teríamos sem eles. Apenas vejo um aspeto negativo. É aparecerem, frequentemente, apenas no écrã, nos media. Não estão, pois, suficientemente perto para encherem de graça e atrevimento o nosso previsível quotidiano.

outubro 31, 2012

Os que deixam marca

Imagino que as pessoas marcantes são aquelas que não esquecemos, que se perpetuaram na nossa memória de forma voluntária ou não. Acredito que é sempre de forma involuntária, até. O que não significa que não queiramos lembrar algumas, muitas. Mas outras há que gostaríamos de apagar da lembrança e, no entanto, não nos é possível. Estão lá para nos confrontarmos com encontros menos felizes, opções que fizemos ou falhámos, momentos que escolhemos viver ou não. Estão lá para que possamos tirar algum tipo de lição, na maior parte das vezes. Para que os encontros, as opções, os momentos presentes e futuros sejam encarados sob outras perspetivas, uma vez dotados de experiências passadas. E que dizer das pessoas marcantes que desejamos recordar sempre, ainda presentes na nossa vida ou, frequentemente, levadas com a aragem dos anos, das escolhas, dos imprevistos, dos desencontros, dos momentos que não foram mais eternos? Porque razão persistem ou persistirão na nossa memória para além do comum? Pode ter sido uma convivência intensa, um amor que não maturou, uma frase que se disse, um estilo de vida que vislumbrámos, uma atitude ousada, uma partilha de qualquer espécie, um conforto quando precisámos, um rasgo de loucura, um ensinamento inesperado, um instante que nos deixou feliz. Qualquer coisa de belo, de intrigante, desconcertante, inteligente, doce, inesquecível, que nos reforçou o alento, a esperança, a confiança, a cumplicidade, a audácia. Qualquer coisa que nos fez evoluir de alguma forma. Que nos fez ir mais longe.
Podem as pessoas que gostaríamos de esquecer ter conseguido algo parecido? Provavelmente. Se houve dor, esta também faz crescer. O enveredar por outros caminhos, o explorar outras possibilidades. As pessoas marcantes subsistem na nossa mente, e muitas vezes no coração, porque algo nelas desencadeou alguma espécie de movimento em nós, de processo, ou mesmo de revolução. Independentemente da duração e da intensidade, elas podem ter mudado - e mudaram - algo em nós e no modo como vivíamos ou pensávamos que vivíamos. São muito diferentes daquelas que esquecemos, tantas, boas pessoas ou não, mas indiferentes, e que se apagaram porque nada de novo nos trouxeram. De forma positiva ou negativa, as pessoas marcantes deixaram-nos um legado, por muito estranho que este possa ser. Acredito que se tratou de um legado maioritariamente positivo, se encetou uma mudança de que necessitávamos, se nos deu um outro olhar sobre nós e o resto. Por isso nos marcaram - essas pessoas. Ou nós a elas.

outubro 30, 2012

O jogo



Nas escolas exigem-nos sucesso. Praticamente total. Disso depende a abertura de cursos, a criação ou perda de turmas, o assegurar ou não de postos de trabalho dos docentes. Deste sucesso depende, pois, a sobrevivência. Digam lá se o jogo não está viciado. Digam lá se podemos ser honestos intelectualmente face a uma espécie de ultimato. Ou passas ou morres. Digam lá como manter a fasquia da exigência e do rigor, sobretudo no que diz respeito ao conhecimento, nestas circunstâncias. Porque queremos sobreviver, tão somente. Exigem-nos, assim, piruetas, malabarismos, habilidades, talentos que não sabemos que temos. Porque há alunos que não querem aprender, que nada fazem, que esperam o diploma, que se dedicam apenas às componentes técnicas e ainda assim nem todos. Como promover o conhecimento, o saber e, sobretudo, a honestidade intelectual nas escolas? Quando os dados estão como estão e o jogo está perdido se não aceitarmos as suas regras sujas? Que tipo de gerações futuras e sociedade teremos sem uma base sólida de esforço, de trabalho e, relegado para segundo ou terceiro plano, de saber?
Trata-se de um dilema, daqueles que provocam revolta se quisermos jogo limpo. As metas são altas, muito altas tendo em conta os discentes que se estão nas tintas para o estudo. Mas o preço também é muito alto se não soubermos fazer milagres. 

outubro 28, 2012

Nasce selvagem




Cinquenta por cento doce, cinquenta por cento selvagem. O segredo era conseguir-se despertar-lhe a ternura e não acirrar o seu lado indomável. O segredo era saber quando afastar-se e aproximar-se. O segredo era ter um lado dócil e um lado bravo que exigisse dele os mesmos cuidados. Ou os mesmos tormentos. O segredo era apreciar a sua natureza, quando chovesse ou fizesse sol. Era saber conviver com ela, ou com ele, surpreendo-o com a espantosa gestão do seu lado imprevisível. E à força de tanta mestria conseguir domesticar essa imprevisibilidade. Era o segredo. Que poderá ou não continuar a sê-lo.

Patriotismo

Finalmente lá me resolvi a escrever uma coisa que poderá desagradar a alguns leitores - pois teve o mesmo efeito em mim. Há dias, um estrangeiro meu conhecido, que está em Portugal a doutorar-se na área das letras no Porto, dizia-me que achava que a crise em Portugal era basicamente propaganda. Vindo da Sorbonne, onde esteve 7 meses, salientava que em Portugal as pessoas vivem bem, têm belos carros, casas, que os hipermercados estão cheios e que há muito consumo. Disse-lhe que a crise se vem arrastando e que esse estilo de vida, observado por inúmeros estrangeiros, verdade seja dita, está a perder-se, pois até na classe média estão a sentir-se sérias dificuldades. Não estamos a conseguir viver como outrora, tem havido cortes nos salários, em subsídios e a austeridade é para continuar. Ficou surpreso quando lhe falei, desagradada, pois então, que, também no meu caso, me cortaram subsídios e que isso significa perda de benefícios e outros. Mas têm de contribuir para recuperar o vosso país, isso é inclusivamente uma questão de patriotismo, avançou. Aqui, o verniz estalou. Não discuti mais o caso porque o nosso encontro estava a chegar ao fim e eu estava com pressa. Mas... patriotismo? Patriotismo quando trabalho há anos e vejo cortados tantos direitos de que outros já usufruíram, em várias áreas? Bem sei que tem razão quando diz que nós, portugueses, consumimos demasiado. Sabemos que este consumo desenfreado, baseado no crédito e nas aliciantes bancárias, também fez claros estragos. Mas porque me hei de eu sentir patriótica se cumpri o meu dever, paguei os meus impostos, fui uma cidadã exemplar e em retorno vejo despojadas as minhas posses? Mas o meu caso, classe média, funcionária pública (ah, será esse o meu pecado, claro) nem é nada relevante. Ou é muito pouco. Mas que dizer de quem ficou desempregado? De quem tudo perdeu? De quem não pode sequer sustentar uma família com os bens essenciais? Que fazer quando há um casal a viver desta forma? E com filhos, muitas das vezes? Que dizer da emigração forçada dos jovens e não tão jovens como escape para uma vida aqui, sem dignidade possível? Que espécie de patriotismo poderão eles sentir? Como lhes exigir que amem o seu país e se sacrifiquem por ele quando os seus projetos estão constantemente a ser adiados? E como explicar a um idoso que deve contribuir também com o seu esforço (e que esforço, tantas vezes) quando já se havia esforçado como forma do estado lhe assegurar uma velhice tranquila?  Penso que são precisos sacríficios, de vez em quando, a nível pessoal e coletivo, como nesta situação. Mas isso também é fácil de dizer quando ainda há muito que se consegue assegurar. Impossível dizê-lo quando já se tem pouco ou nada. O que é que podes fazer pelo teu país e não o que é que o teu país pode fazer por ti. Parece-me, é verdade, que precisamos de nos lembrar disto, ocasionalmente e com sentido de responsabilidade, com a responsabilidade que também devemos ter e que nos é naturalmente exigida. Mas o teu, o meu país também não pode retirar-me tudo, desiludir-me quando cumpri e acreditei. Porque, lá está, não o amarei da mesma maneira.

outubro 27, 2012

Esplendor na relva

       
Maravilhoso filme, o primeiro de Warren Beatty, e um de muitos em que Natalie Wood surge esplendorosa, apesar de sofrida. Um romance que não podia acabar como acabou, uma história com demasiadas interferências, um eco de um tempo e ainda assim tão intemporal, tão eterno. Porque o amor torna tudo possível, mesmo quando não desejamos que assim fosse.

"Though nothing can bring back the hour
Of splendour in the grass, of glory in the flower,
We will grieve not, rather find
Strength in what remains behind."
                                                                                                                                                                        (William Wordsworth)                                                         

Transições



De repente, hoje lembrei-me que os períodos de transição não podem ser senão complexos, confusos, arriscados e cravados de incertezas. O que constitui um álibi muito bom para quem não defende a mudança. Seja em que área for e a propósito do que quer que seja, são períodos que não tranquilizam e não asseguram necessariamente uma melhoria. Mas o que é facto é que a podem trazer. Posto isto, continuaremos alguns a querer conservar o que tínhamos, por receio de virmos a ter algo pior. E continuaremos outros a desejar e a realizar a mudança, convencidos, porque esperançados, de que teremos melhor. E desta forma, ganha-se e perde-se, algumas vezes, inúmeras vezes. Não podemos é classificar, adivinhando, o estado final pela transição que acompanha o processo. A transição agita, erra, questiona, avança e recua, inquieta, assusta. Porque também, e no seu melhor, renova, transfigura, repensa, faz evoluir. Aguentando-a apenas ou até usufruindo dela, mas não esperando que seja idealmente perfeita. Não julgar, pois, o aftermath pelo tumulto natural das transições.

outubro 26, 2012

Chamar, não, desligar a música



Já lá vão uns anos. Li algures que o teste da velhice surgiria quando deixasse de identificar as músicas e os artistas que passam na MTV. Já lá vão uns anos. Em que me tornei velha, portanto. Já lá vão uns anos em que deixei de ver canais de música, inclusivamente. E já lá vão também uns anos em que a música deixou de fazer parte das minhas áreas de cultivo, independentemente do tipo de música de que gosto e se é a certa, a culta, a moderna ou não.
Na verdade, apesar de adorar certas melodias, sons e músicas, estas sobretudo passadas, não sou nada musical atualmente. Era-o, fui-o, na adolescência e prolongou-se até alguns anos depois, uma cultura musical simpática (apesar de ser muito mais cinéfila, desde sempre). Tinha tempo, tinha boa memória, não havia internet, sobretudo em casa, nem facebook, nem um traquinas a espalhar-me brinquedos pela casa toda. Literalmente toda. Desta forma há um desconhecimento descomunal sobre tudo o que é música e artista novo nos panoramas nacional e internacional. Reconheço vozes e estilos apenas dos cantores e bandas que já conhecia antes. Nomes novos, nada. Em casa gosto do silêncio, da net e a televisão está ligada nos canais infantis. No carro, venero o silêncio e a comunhão com o espaço exterior, pelo menos no verde trajeto que faço para o trabalho. Por vezes lá escuto alguma rádio e aprecio uma canção ou outra, verdade seja dita, sem saber muitas vezes, a maior parte das vezes, quem canta. Tornei-me distraída para estas coisas, e proliferam nomes novos a mais para uma pessoa velha. Antes de ser mãe, espantava-me quando as minhas colegas, as que tinham filhos, não tinham visto nem ouvido nem sabido de uma data de coisas. Tornei-me igualzinha a elas. Ou pior, pois há mulheres super que tudo conseguem acompanhar, embora seja difícil com crianças a precisar de cuidados e atenção permanentes e um trabalho absorvente. Esta ignorância musical atual cava um abismo enorme entre mim e os meus alunos adolescentes. Não me venham com hip hop e trance, techno e house, alternativa e agora gangnam. Que falta de paciência e que falta de conhecimento e já agora falta de prazer para escutar estas coisas. O que me vale é que quando levo canções para a aula, velhas mas populares e eternas, eles conhecem-nas relativamente bem. O revivalismo dos anos 80 (que grande década musical) e a cultura musical de alguns ajuda. Mas ainda assim sou gozada por não conhecer muita coisa.
Ainda vai/s a tempo de se/te atualizar/es e de curtir/es os sons de agora, poderão dizer. Oh meus amigos, sei que estou velhíssima, não me deem música.

outubro 25, 2012

Deslumbrante



Não podemos, mas não podemos mesmo, perder a capacidade de nos deslumbrarmos. O deslumbre não precisa de ser face a grandes gestos, a grandes ousadias, a grandes eventos, a grandes façanhas humanas. Pode ser mas não apenas. Pode tratar-se do deslumbre perante pequenas coisas, simples, de natureza geográfica e física por exemplo, ou então pequenas coisas vindas de outros, de quem amamos ou apenas conhecemos. O que importa é a sensação de paz e de plenitude, a surpresa com a generosidade e com a elegância, o sentir da vida que pulsa numa manhã de verão e o sentir dos afetos que vão povoando os nossos dias. O deslumbre exige que sejamos capazes de nos maravilhar, ainda, como se crianças fôssemos. Quem conserva um lado infantil, genuíno, pode mais facilmente espantar-se amiúde com a beleza do mundo e também a das gentes, a interior, a que é invisível à primeira vista. Mas ninguém consegue o deslumbramento em estados depressivos. É preciso a energia vital estar desperta para nos enternecermos com um final de tarde outonal, um banho de mar numa praia quase vazia, uma rua fresca sob o arvoredo, o chilrear de um pássaro numa manhã de sol. É preciso a energia vital para nos deliciarmos com as mãos de uma criança, com um sorriso franco e amigo, com um convite para chá e torradas, para uma tardada no sofá em família. Quando um problema é avassalador, tudo parece perder - perde - o encanto. Envelhecemos de repente e não acreditamos no futuro. E isto pode ser devido a uma tragédia, a uma doença, a uma perda, a um viver sem dignidade de alguma forma. Resta-nos esperar. E no meio da angústia, esperar por um tempo melhor. Um tempo em que, esperançosamente, nos voltemos a deslumbrar. Buscando o menino ou a menina que há em nós. Só assim olharemos em frente e esboçaremos sorrisos interiores. Porque, se bem, e no meio de imperfeições diversas, tanta coisa nos soará perfeita.

outubro 24, 2012

Leão


Esse ego...
Confiança, honey.
Essa individualidade...
Criatividade e independência, darling.
Essa teatralidade...
Emoção e humor, my dear.
Essa mania de seres o rei...
Pois, sim, mas com quem mais serás e sentir-te-ás tu uma raínha?

Cantar é triste

A voz e as suas músicas tocam-me. Para lá do usual, muito para lá do usual, mergulho num oceano de sentido sentimento, até de uma estranha espécie de dor. É uma viagem que faço, de forma rara, à mais profunda portugalidade e a um tempo em que história e memória se entrelaçam, enternecendo-nos e comovendo-nos de forma única. Há uma tristeza  e ao mesmo tempo uma beleza sem fim, um sentir de melancolia e o raiar da esperança em forma absoluta. Assim é este cantar. 

outubro 23, 2012

Da razão e da emoção



Ao ler este texto da Carla, também me assaltou a vontade de discorrer sobre o mesmo assunto. De como raciocínio e sensação devem co-habitar, criando-se equilíbrios que nos enriquecem e nos fazem mais completos.
Há indivíduos em que, claramente, prevalece a razão sobre a emoção. Têm, pois, uma grande necessidade de racionalizar as coisas, analisando-as, tentando encontrar explicações, levantando questões, dissecando-as, bem ou mal, não importa, e fazendo dessa prática a componente básica da sua existência. Neste sentido, não criam momentos de puro relaxamento, em que pensar e raciocinar tenham direito a uma pausa. Têm, pois, imensas dificuldades em descontrair-se, em deixar ir, em deixar fluir, exercendo uma espécie de controlo sobre tudo o que existe, sobretudo um controlo exagerado sobre eles mesmos. Conheci algumas pessoas assim, em que falar, discutir, bradar, indignar-se, concluir vinha sempre primeiro - ou substituía completamente - qualquer tipo de sensação mais livre. Há uns largos anos atrás, combinei andar de bicicleta com uma colega. Não voltei a repeti-lo. Apesar de ser uma pessoa com caraterísticas positivas, claro, a experiência sensorial que para mim deve ser o contacto com a natureza, o ar livre, o físico, saldou-se por um rotundo fracasso. Falou, intelectualizou e analisou o tempo todo, sentindo-me eu esgotada depois das pedaladas, não com estas, mas com tanta vertente cerebral quando o que queria era criar um momento de natural relaxamento. Trata-se de um pequeno exemplo, e vale o que vale. Mas, desta forma, concluo que não podia viver - sem a sensação, a emoção, as gargalhadas, o silêncio, a natureza, os prazeres, o que seja que me faz apenas sentir e usufruir.
Por outro lado, encontraremos indivíduos que são o oposto. Que apresentam grandes dificuldades em pensar, analisar, refletir sobre as coisas, deles e dos outros. Prevalece o sentimento, a emoção sobre qualquer tipo de razão. Reagem à base de sensações e pulsões primárias, com tudo o que a ausência de pensamento implica, na tomada de decisões, na análise de um problema, no diálogo que tantas vezes é preciso, nas atitudes que tomam e no curso de vida que acabam por trilhar. Extremamente emotivos, por vezes sentimentais demais, magoam-se e magoam, não pela frieza dos cerebrais, mas pela avalanche de emoções, frequentemente baralhadas, desarrumadas em que vivem. É-lhes difícil esfriar certos acontecimentos, palavras e gestos, numa espécie de turbilhão irracional que os arrasta e desgasta. Como viver a sentir o tempo todo? Como não teorizar e refletir? Como não aprender e reaprender? 
Posto isto, a Carla tem razão. Somos feitos - será bom que sejamos feitos - destas duas complementares componentes. O equilíbrio, nosso e dos que nos rodeiam, será bem maior se conseguirmos estabelecer uma união entre as duas, que resulte, umas vezes cometendo erros,  outras alcançando sucessos. Não nos dará a chave da felicidade total, nem esta existirá. Mas dará para nos aguentarmos, pensando quando há que pensar e sentindo o que há para sentir. Q.b. Ou não?