outubro 19, 2012

Portuguese do it better?

Não me passaram ao lado as manifestações, evidentemente, embora não me tenha debruçado sobre elas de forma sólida. Não me movo na área do jornalismo nem da política para escrever de forma suficientemente sábia e que diga mais do que tantos bloguistas mais experts na matéria. De qualquer forma, saliento um pormenor, provavelmente algo em que muitos não terão pensado mas que a mim  me assaltou o pensamento. É apenas um pormenor, repito. No Facebook circulava há dias ou semanas (sou tão intemporal com certos tempos, por vezes) a foto da jovem abraçada ao polícia ( a tal miúda que depois viria a mostrar-se menos de uma forma e mais de uma outra numa revista cor de rosa). E como legenda da foto aparecia o seguinte: Portuguese do it better (por comparação com uma foto das manifestações espanholas em Madrid em que os ânimos foram bem outros). Ainda que muitos se espantem, não gostei nada do que vi/li. O que significa isso? Que somos melhores do que os espanhóis? Um povo pacífico (amorfo, é mais o caso) que sabe sempre comportar-se de forma digna, mesmo num protesto? Realmente é bom não haver violência. É bom as pessoas controlarem os impulsos mais primários, atitudes provocatórias e destruidoras de bens e património. É bom a polícia não exceder-se - nem os manifestantes. Mas isso faz-me sentir feliz? O ser melhor do que o povo espanhol? Exibir uma superioridade na desgraça? Condenando a violência, por vezes não é ela uma forma de desespero? Resultado de uma situação incomportável e que as pessoas já não controlam? Como posso sentir-me superior no desespero? Na tragédia? Não deveria estar solidária com um povo que sofre o mesmo que o meu? Partilhar a dor e não gabar-me da minha civilidade nestas circunstâncias? Não sei o que os leitores pensarão. Volto a dizer que achei descabido, arrogante e, mais, não gostaria que os espanhóis no Facebook pusessem "Spaniards do it better" em relação a qualquer coisa em que os portugueses porventura pudessem ter falhado ou estado menos bem. Que conclusão tola de uma manifestação. Tão desviante daquilo que verdadeiramente importa. Nós portugueses somos assim - falamos mal de nós próprios a maior parte do tempo, denegrimos, mal ou bem, a imagem da nossa sociedade frequentemente mas depois gostamos tanto de nos comparar por cima em relação a outros países assim que surge uma oportunidade.  Gostamos tanto de passar por um país de passivos, perdão, brandos costumes. Já tantas vezes li também não somos a Grécia, não somos como os gregos, bla bla. Depois espantem-se e indignem-se quando outros - os alemães, os franceses, etc - dizem ou parecem dizer algo parecido. Estou-me nas tintas para ver qual é a manifestação melhor. Quero é que elas resultem,  em práticas concretas para fazer face aos problemas. Cá e, porque não quero ser  etnocêntrica, também lá. 

outubro 18, 2012

ARTEsanato


É-me muito difícil resistir a peças deste género e outras de cariz étnico, de vários pontos do mundo. Feiras e lojinhas deste tipo sempre me atraíram, embora tenham fechado muitas lojas que visitava regularmente com evidente prazer. Afinal, não são bens de primeira necessidade. Tão somente objetos decorativos que nos fazem viajar (na impossibilidade de o fazermos geografica e fisicamente) e dar um toque mais exótico aos nossos espaços europeus, urbanos, rotineiros e/ou funcionais. Gosto, gosto, gosto.

outubro 16, 2012

Os putos ... a aprenderem


Em França o presidente pondera acabar com os trabalhos de casa nas escolas, à semelhança de outros países que já o fizeram, de diferentes maneiras, até. Estive a ler a notícia no Público online, onde se diz também que Eduardo Sá, conhecido pedopsicólogo e psicanalista, corrobora esta posição, fundamentalmente para dar às crianças tempo para brincarem.
Bom, sou docente. Há três anos que não mando trabalhos de casa - estou numa escola profissional, pública, não são propriamente crianças os meus alunos, mas como não os faziam e também não sou apologista de passar aulas a corrigir trabalhos de casa, estamos assim. Falo do trabalho de casa de hoje para amanhã ou para a aula seguinte, porque há alguns, a médio prazo, que são pedidos, certamente. Isto pode ser e será discutível, tendo em conta a faixa etária dos alunos e tendo em conta que os trabalhos de casa obrigam os alunos a organizar-se, a concentrar-se nas matérias, a aprender mais, à partida.
Contudo, no caso de alunos mais jovens, e sobretudo crianças, não é tão controverso. É bem mais claro para mim que, de facto, as crianças precisam de tempos para brincar, para explorar, para descobrir ou apenas estar sem nada fazer.  São tantas as atividades extra-curriculares em que crianças, desde tenra idade, e miúdos maiores participam que lhes resta pouco tempo quando chegam a tarde tardíssimo desse movimento todo. Já fui pequena e nunca ia brincar antes de fazer os trabalhos de casa. Mas as aulas não duravam o dia todo nem havia o ballet nem o inglês nem o basquetebol nem nada parecido. No meu caso e em muitos casos da minha geração. Tinha, pois, imenso tempo de tarde para brincar, correr, saltar, andar fora de casa e mesmo regressar da rua perto da hora do jantar. Os tempos mudaram. Crianças e jovens estão enclausurados ou em grupo - nas aulas, nas atividades, no computador, na playstation, nos jogos vídeo, nas explicações. São cada vez menos as oportunidades de vida ao ar livre e não há momentos em que possam estar fora da pressão que sempre comporta estar em grupo. São essenciais espaços e tempos em que se possa fugir a essas exigências, libertadores, próprios da infância e da juventude primeira. 
Com isto quero dizer que não sou contra esta medida política. Um dos fatores que leva os  políticos franceses a ponderarem esta opção é a de que pais e família com maiores habilitações ajudam mais do que pais com habilitações inferiores, alastrando-se os contrastes socioeconómicos negativamente à aprendizagem  e avaliação escolares. Também tem, desta forma, uma vertente social que não é descabida. Poder-se-á alegar que sempre foi assim e que portanto será uma questão menor. Mas, de qualquer forma, não me repugna que haja poucos trabalhos de casa para jovens que têm tantas disciplinas e o horário cheio e tudo aquilo que já mencionei. E se falarmos de crianças, então muito menos. Porque que bom é, especialmente nesta fase da vida, ter um livro para ler e não o fazer.

outubro 15, 2012

Coisas


Uma coisa que não me enfureceu mas também não me agradou por aí além:
- a atribuição do Nobel da Paz à União Europeia. Pode ser que os fundamentos da sua criação sejam inspiradores e apaziguadores, serão, no rescaldo do que foi a Segunda Guerra e numa tentativa de aproximar as nações para lá do ponto de vista geográfico. Mas não se evitaram cenários como a dilaceração cruel da ex-Jugoslávia, cruel porque mortífera, nem a recusa até hoje da entrada da Turquia me parece algo profundamente conciliador. E depois a Paz, o Nobel da Paz, sempre distinguiu alguém, ou deveria, com caraterísticas humanistas e não propriamente com conotações económico-consumistas, certo?

Uma coisa que me chocou, como choca sempre:
- um indivíduo da Guiné Bissau, desempregado, sem antecedentes criminais, foi parar ao hospital por carregar 18 bolotas de cocaína dentro do corpo e uma ter rebentado. Que desespero pode levar alguém a cometer um ato de puro suicídio? Embrulhada em preservativos, a substância não circula(va) mundialmente para fazer o bem. É um negócio sujo, odioso e que espalha desgraça. Mas ao mesmo tempo, o horror que me faz sentir esta notícia, a de alguém engolir, desta forma chocante, cocaína que não só destrói outros como mata sobretudo quem a transporta.

Uma coisa que me sensibilizou, entre tantas outras:
- atores portugueses em grandes dificuldades económicas, num estado de amargura, tanto pelo desespero de não conseguirem remuneração como pelo vazio de não conseguirem fazer aquilo que sabem. Uma reportagem na SIC que mostrou um desencanto com o país, a cultura e, pior, com a vida. Palavras e tons que entristecem, que refletem os tempos difíceis, e muitas vezes também a queda de quem já esteve bem mais alto. Não são os únicos, obviamente, mas dói saber que gente com talento(s) e que nos habituámos a ver ao longo dos anos está na prateleira. Com tudo o que isso significa.

outubro 13, 2012

Ponto de viragem

A questão é conquistar aquilo que lhes foi negado e arriscar aquilo que conquistaram.

Esta é a frase - e conclusão - final de um excelente programa que vi no canal Nat Geo Wild sobre Cuba. Se há programas que nos fazem aprender, viajar e enriquecer, este foi seguramente um deles. Realizado com extrema sensibilidade, contando alguns aspetos da história recente da ilha mas sobretudo focando as dificuldades do povo cubano mas também as suas vitórias, este foi um programa que mostrou as potencialidades futuras da nação castrista e também as suas limitações presentes. Estas decorrem de opções políticas e de um regime que isolou os seus habitantes, evidentes através da degradação geral dos edifícios, da má qualidade da mancha urbana e da inexistência de infraestruturas a vários níveis. Também o isolamento - fruto de outro fator, um aniquilador embargo que dura há anos - a que chegou a ilha caribenha se sente a nível dos consumos básicos, desde comida, produtos de higiene e outros. E, claro, depois a abertura ao turismo como solução para o socialismo cubano, criando paraísos para estrangeiros e fazendo os nativos entrever um pouco do estilo de vida de paragens mais consumistas. Por outro lado, a educação e a saúde são  acessíveis e gratuitas para todo o povo.  Há ainda uma simplicidade geral, nos gostos e nos divertimentos, quase uma ingenuidade que toca, comove. Pureza geográfica e humana. Portanto, se Cuba se virar cada vez mais para o estilo de vida ocidental, nos desejos e no novo-riquismo que vai surgindo em algumas camadas da população (rendimentos vindos da família no estrangeiro), pode muito bem vir a fazer parte da (des)ordem mundial, com os bens de consumo a palpitarem. Resta saber então se o estado - e a nação - conseguirá aguentar triunfos que a revolução também trouxe.

outubro 11, 2012

Deserto vermelho


Já passou tempo, bastante tempo em que via filmes italianos em tardes passadas frente ao televisor. Só havia um canal, o estatal, e foi quando pude ver tantas obras-primas, nomeadamente da corrente neorrealista.
Il Deserto Rosso, de Michelangelo Antonioni, deixou-me desde cedo memórias de claro vazio existencial, antecipando as angústias modernas que povoam cada vez mais a nossa existência. Dupla internacional, que me conquistou, Monica Vitti e Richard Harris.

outubro 09, 2012

A idade da inocência



Há sempre uma altura em que perdemos a inocência. Geralmente isso acontece com uma desilusão, e pior, avanço eu, se for amorosa. Porque a deceção com uma amizade magoa mas com um amor que vislumbrámos como exclusivo fere ainda mais. Há quem não tenha desilusões durante grande parte da sua vida ou mesmo até nunca. Outros têm-nas cedo ou na idade madura. O discurso, após uma grande deceção pessoal, é diferente. Há um certo travo de amargura, resultado do contacto com um tipo de sofrimento emocional que não foi pedido nem previsto. Nada já surge de forma tão inocente, ingénua, crédula. Quem se dececionou será sempre mais desconfiado e menos maravilhado perante o mundo e as pessoas.   Mesmo se continuarem, como devem, a espantar-se e a deleitar-se com um número infindável de coisas boas, a perceção dos outros terá mudado alguma coisa. Desiludiram-se com a condição humana. E vai demorar o seu tempo até se reconciliarem, até se encantarem de novo. Que é a cura ideal para a deceção com alguém. Talvez menos inocentes, talvez nada inocentes, agora. Trará esse facto a certeza de evitar mais um baque de alma? Talvez não. Mas poderá torná-lo bem menos surpreendente ou mesmo menos doloroso. Embora o ideal fosse, neste caso, conservar sempre a inocência. Bom sinal seria.

outubro 05, 2012

As novas vidas


A maternidade (e acredito que o mesmo se possa dizer da paternidade) traz-nos grandes e pequenos prazeres, pequenos e grandes pânicos. Passamos a dar valor a pequenas coisas que passamos a fazer e enchemos o coração com um afeto maior do que tudo. Passamos a preocupar-nos com pequenas coisas que não faziam parte do nosso rol de preocupações e ganhamos grandes medos face a outras realidades. Relativizamos coisas que antes nos angustiavam e tememos outras que antes não nos atemorizavam. Tornamo-nos mais serenas e também mais stressadas. Ganhamos forças e perdemos coragem. Reforçamos o nosso mundo de sentimentos e perdemos o sentido de aventuras. Já não queremos estar em todo o lado e queremos estar sempre ao seu lado. Pois os filhos trazem essa transformação, interior e exterior, com marcas visíveis na atitude e na postura perante as maravilhas ou dificuldades da vida.
Pessoalmente, tornei-me mais serena, menos impulsiva, menos aguerrida. Provavelmente menos corajosa e certamente menos aventureira. Não estou sempre a desejar viagens e estar em locais diferentes, nem me apetece ir ao outro lado do mundo, à procura de sensações diferentes. Pelo menos, com a mesma intensidade ou frequência. Passei a viver pequenas coisas quotidianas com outra perspetiva, com entusiasmo, pois olha-se o mundo pela segunda vez. Assim sendo, descobrimos coisas há muitos esquecidas ou aprendemo-las pela primeira vez, já que nos é naturalmente exigido que ensinemos o que sabemos, e o que não sabemos, aos nossos filhos. Também não me exponho tanto a confusões, profissionais ou outras, porque a serenidade é maior e aprendemos a gerir e a centrarmo-nos no que verdadeiramente importa.
Há, pois, uma centralização muito grande em torno da família. A dispersão de espaços e atividades e a socialização de que antes fazíamos questão, saem afetadas. Há quem consiga ainda gerir os dois mundos, o familiar e o social quase de igual forma, mas para quem trabalha e tem responsabilidades várias, torna-se mais difícil. Obviamente que temos todos de matar saudades da vida social de vez em quando mas não é possível fazê-lo com a mesma intensidade se se respeitar os horários vários de crianças e todas as suas necessidades. Ao mesmo tempo, há muitas vezes a preferência por ficar em casa, em família, porque a necessidade de acompanhamento é natural e é saudável que assim se faça.
Quando não se tem filhos, não se sente a falta, já dizia uma grande amiga. Mas quando se tem a falta é quase permanente. Não se está mais completo, e não é uma mera questão de saudades, é mais do que isso. É a preocupação constante com o seu bem-estar, a certeza de asseguramos a sua segurança e podermos protegê-los de possíveis perigos. O mundo lá fora surge agora como algo perigoso, de uma forma que não antevíramos antes. E dessa forma queremos manter-nos por perto.
A maternidade (ou, mais alargado, a parentalidade) é o grande teste da vida. Há um antes e um depois. Uns dias mais atarefados e cansativos, uns dias menos glamourosos e ousados mas sempre compensadores e felizes. Porque é, afinal de contas, a grande aventura.

escrito para o bahiamulher

outubro 03, 2012

Mudam-se os tempos... e as vontades?



Hoje de manhã, enquanto tomava um café, peguei num jornal nacional diário, o que não acontece com frequência, até porque a esta hora costumo estar nas aulas e não tenho acesso a jornais deste tipo. Isto leva-me a escrever sobre dois aspetos. O primeiro é que ler "no papel" é um prazer tão infinitamente maior do que ler online. Até porque a qualidade dos jornais escritos, físicos, é completamente outra. Pude ler, entre outros artigos e notícias, uma interessante crónica de Baptista Bastos, por exemplo. O autor falava do caráter dos homens, assente em qualquer coisa como o estado sólido, gasoso e líquido. A abordagem era essencialmente política e social, e não pretendia, à partida, distinguir os géneros. Mas fiquei eu depois a pensar se nas mulheres também é observável esta circunstância -  a de que há cada vez menos mulheres sólidas e do que esse estado significa - e os outros - no sexo feminino. Mas adiante.
Nas escolas, quando comecei a dar aulas, havia nos intervalos oportunidades de termos excelentes conversas, havia um jornal sempre sobre a mesa central na sala de professores e havia também um televisor. Penso que os jornais ainda se manterão na maior parte das escolas mas a televisão desapareceu. Os intervalos são de 5 minutos e é o tempo que levamos a sair de uma sala e a entrar noutra. A tertúlia que encontrei e que me elevava nos princípios da profissão desapareceu completamente. As pessoas entram e saem apressadas da sala de professores, vão tirar fotocópias, imprimem documentos e tentam dar conta das imensas papeladas de que o ensino se reveste atualmente.  Por outro lado fala-se muito e mais dos alunos e menos de outras coisas que ficam fora da esfera escolar. Deste modo, tornaram-se locais desinteressantes, sem espaço para falar e abordar outras temáticas que também nos enriqueceriam e que fazem parte do mundo que nos rodeia. As escolas são lugares pequeninos, com conversas pequeninas e visão pequenina. Nem interessa de quem é a culpa - poderia dar-se algumas explicações -, está-se assim e pronto. A ausência de televisão é uma coisa que não percebo. Deve ser porque não nos podemos distrair da missão nem um bocadinho. Nem que isso signifique estar alheado do mundo, claro. O mundo está cada vez mais pequeno dentro da sala de professores. Claro que ninguém tem tempo para estar sentado a ver televisão numa manhã ou tarde cheia de aulas e outros afazeres mas o que é um facto é que estava, dantes, lá e por causa das notícias ou o que fosse as pessoas conversavam e trocavam ideias sobre algo mais do que os problemas disciplinares, testes e outros parecidos. Os professores falam demasiado em talk shop. O assunto escola domina sempre os espaços, mesmo quando vamos almoçar. Satura e cansa-nos mais do que possamos imaginar.
E pronto, foi a reflexãozinha de hoje. O papel continua a ser precioso e a leitura dessa forma é inigualável. Não há modernidade virtual que o ultrapasse. E as escolas já não são o que eram - à força de concessões a não sei bem o quê. Ou sei. Uma excelente quarta-feira.

setembro 30, 2012

Uma no cravo outra na canela



No outro dia espreitei os comentários à notícia que dava conta de que os portugueses que tinham visto "Gabriela" nos primeiros episódios eram em larga escala. Os comentaristas, num português, vá, longe do ideal, insultavam o povo português por estar a ver novelas e não a ver, a fazer ou pensar em outras coisas. Bom, vejamos. Sabemos que há uma crise e que estamos, todos embora uns mais do que outros, a atravessar maiores dificuldades. Sabemos que devemos disso estar conscientes, intervir e tomar posições. Sabemos que a vida real é feita destas dificuldades sérias e de outras de outro tipo e às quais não podemos nem podíamos estar indiferentes. Mas também não é por vermos uma telenovela, com a acrescida curiosidade de a compararmos à versão original, que literalmente parou o país há tantos anos, que vamos ser menos sensíveis e menos preocupados com a realidade circundante. Apenas nos damos ainda a um pequeno luxo que é poder apreciar alguma coisa que nos ponha um pouco mais bem dispostos, menos apreensivos com o presente e com o futuro durante uma meia hora. Os divertimentos podem ser criticáveis em tempos difíceis, vistos como formas alienadas de fugir da realidade e como egoístas inconsciências, sociais e políticas, mas na verdade é legítimo também que as pessoas tentem aliviar as pressões quotidianas. Também pode ser discutível a noção de entretenimento de boa e de má qualidade. Há quem possa ver este tipo de programa como menor, intelectualmente pouco enriquecedor, podemos até concordar se é só isso que vemos e se apenas isso é transmitido pelos canais generalistas, o que sucede, infelizmente, com frequência. Sem dúvida. Mas há ficção que é adaptada de grandes obras literárias, como é o caso, e é um prazer vê-la no pequeno (ou grande) écrã. Pessoalmente sempre apreciei a ficção brasileira adaptada da literatura e tenho acompanhado "Gabriela" sempre que posso e quero. Comparo as duas versões, considero melhores alguns aspetos e algumas personagens não tão marcantes, sobretudo as femininas, essencialmente as femininas. E por estar meia hora por dia distraída não invalida que não esteja consciente do resto. Apenas é preciso sobreviver e ainda fazer alguma festa, se possível e quando possível, a propósito de pequenas coisas ou quiçá maiores. E não é só em Portugal que séries fazem furor, não somos menores do que os americanos ou ingleses que também se deixam seduzir por um ou outro programa televisivo. Poderá voltar-se à questão da qualidade, e levar-nos-ia para um outro tema, mas neste caso muita gente até releu ou está a ler pela primeira vez o livro de Jorge Amado para melhor compreender a história. Digam lá se isso não é positivo.  Não é, pois, por visitarmos de novo a Bahia que perdemos a dignidade ou o envolvimento - quando eles existem. Não é. 

setembro 29, 2012

Naturalmente Maori


Nova Zelândia


                         


A Nova Zelândia, como pôde ser visto nos filmes “O Senhor dos Anéis” e “O Piano” de Jane Campion, tem paisagens absolutamente diversas e fascinantes. Bem lá em baixo (down under), esperam-nos umas boas horas de avião para avistar esta ilha de contornes únicos. Estamos perante um país moderno, democrático (foi o primeiro país a dar o voto às mulheres, por exemplo), progressista. A sua população parece viver em harmonia, combinando-se a cultura branca (originaria e maioritariamente anglo-saxónica) com a cultura nativa. Os Maoris participam ativamente em diferentes áreas da sociedade da Nova Zelândia.
                                      
Os primeiros encontros entre europeus e Maoris nem sempre foram pacíficos. Os exploradores Tasman e Cook tiveram, de resto experiências muito diferentes. Ao longo do tempo os Maori foram sofrendo com as guerras e epidemias e não só perderam população como lhes foi confiscada terra.
Atualmente, e desde umas décadas a esta parte, há uma reabilitação da sua cultura, reconhecendo-se não só a sua importância histórica como a sua criatividade nos campos da dança, música, escultura, canto e outras manifestações artísticas. De qualquer forma, permanecem ainda algumas diferenças económicas e sociais entre este grupo e outras etnias. 
                                                                                             
Jornal O Recado, ESAP

setembro 27, 2012

Mais vale cair em graça



É um facto, em tempos ditos democráticos e de apregoada valorização do mérito. Muitas decisões profissionais ainda decorrem de simpatias e antipatias pessoais. Por vezes pequenas coisas, mas que podem fazer grandes diferenças. No tratamento, na distribuição dos serviços,  nas promoções, na avaliação. Se temos a sorte de cair em graça, muito bem. Se não, a corda rebenta para o nosso lado. Mas poderá alegar-se que se se cai em graça é porque se é naturalmente engraçado e portanto meritoriamente reconhecido. Pois não é assim, já o sabemos, de acordo com o ditado que o título indicia. Há incompetentes, broncos e intratáveis que são favorecidos nos locais de trabalho e há competentes, briosos e inteligentes que não o são. Porque é que estes últimos não conseguem, muitas vezes, as simpatias e os agrados, feitos a outros, no exercício da profissão? Porque habitualmente falam, leia-se, manifestam a sua discordância, porque são independentes e não alinham em lobbies e grupinhos bajuladores, porque não trabalham para a fotografia, porque têm opiniões próprias e que não coincidem com as chefias e sub-chefias, porque mantêm a dignidade individual em detrimento do servilismo e da coletividade forçada. Todas estas caraterísticas pagam-se caro no emprego, sobretudo se não houver imparcialidade, rigor e honestidade por parte de quem decide e faz escolhas que afetam a organização do trabalho e consequentemente a vida laboral de quem comandam ou empregam. Enquanto funcionarmos assim, enquanto contribuirmos para que isto permaneça igual, nada mudará. De nada nos valeria ter os melhores políticos se na escala local, cá no mundo do trabalho, prevalecerem valores invertidos. O mérito é uma falácia, em muitos casos. E as represálias contra quem discorda e quem não adere a um denominador comum, seja ele qual for, continuam a fazer-se sentir. Os equilíbrios são difíceis de gerir, não agradamos a gregos e a troianos, mas a imparcialidade, justiça e reconhecimento do verdadeiro valor deveriam presidir a todas as posturas e decisões. Porque posso ser mesmo engraçada e ter o azar de não cair em graça.

setembro 26, 2012

Não poder muitas vezes é não querer

Por esta altura, costuma assaltar-me uma pequena irritação relacionada com a vida escolar. Gostaria de não ser mal interpretada, por isso vou tentar ser o mais clara possível. Trata-se dos manuais escolares, ou melhor, de uma quase aversão por parte de alguns alunos à aquisição dos livros de que precisam, como foi desde sempre, para a consecução das aulas.
Estamos num período complicado - a crise e a falta efetiva de dinheiro por parte de tantos, acrescida do preço bastante caro dos livros. 25, 30 euros por unidade é, de facto, uma soma difícil de comportar por muitas famílias portuguesas. Em todo o caso, nota-se que os alunos com verdadeiras dificuldades económicas desejam o/s livro/s, numa atitude humilde e até constrangida perante tal dificuldade. Esses acabam sempre por consegui-los, felizmente, até pelo sistema de empréstimo e de subsídios da escola. Mas aquilo que também se nota de uns anos a esta parte é, por parte de muitos alunos, uma péssima reação quando lhes dizemos que vamos precisar de manual. Provavelmente têm razão, num ensino verdadeiramente gratuito seriam grátis, mas não é e eu própria, em casos extremos, tiro imensas fotocópias que pago do meu bolso - porque me custa pedir-lhes dinheiro para elas. Ora bem, esta aversão aos manuais parece residir numa certa resistência ao aprender e ao prazer de o fazer, que também é apanágio de muita da nossa população estudantil. Quem está no meio, sabe disso. Reagem mal e curiosamente são, muitas vezes, alunos de 18, 20  e 22 anos que inclusivamente trabalham aos fins de semana e mesmo nas férias, nos estágios remunerados. Se trabalham aos fins de semana provavelmente fazem-no porque precisam de dinheiro. Justíssimo e é louvável o esforço. Mas pagam cigarros e copos, saídas para discotecas e algumas roupas de marca, têm  carta e vão de carro para a escola. Para além dos telemóveis da última fornada e dos gadgets eletrónicos, pois isso não pode faltar. Ora este trocar de prioridades, e este investimento quase nulo na educação, está no meu top de incompreensões, pronto. Antigamente, antes da sociedade de consumo, era eu pequena e não vivendo desafogadamente, os manuais eram sagrados. Aguardava a sua chegada com tanto entusiasmo e abria-os para os ver, encapava-os com tanto gosto, era uma festa. E isso prolongou-se até tarde, tanto que tenho todos os meus livros escolares, os da escola primária então tornaram-se uma relíquia que guardo religiosamente. 
A verdade é que, hoje em dia, há um desprezar dos livros, da palavra escrita, e um desinvestimento na escola em detrimento de outros bens materiais e estilos de vida que lhes são mais apetecíveis. Isto se saber mais implica abdicar de formas de entretenimento ou apostas na imagem. Considero que as editoras abusam claramente nos preços e que é difícil suportar as compras escolares quando se tem 2 ou mais filhos mas também há um desinteresse generalizado pela aprendizagem. Querem muitos formar-se e ter certificados e diplomas mas, na realidade, não querem aprender.

setembro 25, 2012

A queda de um anjo





Leio na blogosfera acerca da entrevista que a miúda que abraçou o polícia na manifestação já deu e descubro que ela é do estilo concorrente a Secret Stories e coisas do género. Porquê? Porque o que diz deita por terra qualquer esperança na consciência política e ao menos cívica de quem quase criava uma imagem icónica da contestação de há duas semanas. Por isso é que eu acho que somos frequentemente precipitados, rápidos demais a julgar, quer pela negativa quer pela positiva. Estes entusiasmos são depois completamente defraudados por aquilo que se vê. E o mal não é aparecer numa revista, é posar em estilo pretensamente vedette e dizer banalidades acéfalas. Estupefacção e cada vez a mais a ideia de que é preciso ter calma e não dar o que se vê pela alma. (O título evoca, obviamente e apesar de tudo, uma aura espiritual que não se veio a comprovar.)

O grande mestre do crime


O affair. Das duas versões, prefiro esta, a primeira e original, de longe. Nunca fui fã da Faye Dunaway, o seu rosto não me transmite emoção nem simpatia, mas o mesmo já não digo do colega masculino protagonista do filme. Fui e continuo a ser uma grande fã de Steve McQueen. Dou-me conta - e não estarei sozinha - que encarnou personagens inesquecíveis em muitos filmes emblemáticos. Este é um deles. 
Vai uma partida de xadrez?

setembro 23, 2012

Há (des)graça e graça


Classroom Paintings - Mrs. Chamberlains Fifth Grade in Canajoharie by Elzbieta Zemaitis

As aulas começam e lá tiramos as rifas das turmas. Quando se dá continuidade (apenas defendendo-a se ela é vantajosa, porque tudo correu bem) a expetativa não é nenhuma em relação aos primeiros dias. Conhecemos os alunos e tal facto é extremamente apaziguador, pois tudo facilita, se nas condições referidas acima. Mas as turmas que se têm pela primeira vez representam sempre uma novidade e podem apresentar dificuldades. E isto porquê? Por causa dos engraçadinhos. Os engraçadinhos não têm graça nenhuma, embora pensem que têm. São o oposto dos alunos engraçados que, com graça natural, nos podem fazer e fazem sorrir e rir amiúde e contribuir para um excelente clima em sala de aula. Já vi que este ano me apareceram uns engraçadinhos, na pior das hipóteses. Na melhor, as graçolas que não têm piada da primeira semana poderão ser apenas reflexo de uma chamada de atenção inicial e de colocar o tradicional teste de início ao docente. Vamos pensar que sim, embora quem seja engraçado não precise de ser nem seja nunca engraçadinho. Nestas circunstâncias, ouvindo graçolas sem graça, as primeiras aulas são um medir de forças parvo e escusado que todos os anos temos de experienciar. E a verdade é que nem sempre há paciência nem ânimo para estas exteriorizações de "humor" mal educado e desbocado que grassa pelas salas de aula. A não ser que se tenha sorte e tenhamos alunos bons ou até excelentes na postura - como vou tendo, apesar de tudo. Por isso tenciono acreditar que as piadas que não o são não passarão da primeira semana.

setembro 22, 2012

O importante é poder viver

Hoje começa o outono.
Sendo, como já aqui dei conta, fã do verão, não deixo contudo de apreciar o outono no seu início. Depois da azáfama inicial da rentrée escolar, temos ali umas semanitas em que é agradável trabalhar - dar aulas ainda com energia acumulada durante as férias, ausência de testes e de avaliações formais, sem reuniões. Fosse o ano todo assim e era uma profissão feliz, ai pois era. Por outro lado, o verão (e sobretudo a praia) também cansa - o tempo bom convida a estar fora e andamos de um lado para o outro. Nesta altura começa a apetecer um certo recolhimento, ao ficar mais fresco (não foi o caso de hoje), portanto mais compatível com as exigências da minha profissão. Por isso, costuma ser uma boa fase. Mas desta vez o princípio do outono não está a ser aquilo que deveria ser porque assim desejaria que fosse. Porque mais importante do que o bom tempo ou o tempo ideal para trabalhar, mais importante do que ser feliz na profissão é a saúde, nossa e dos que amamos. Mesmo daqueles a quem não amamos ou que até já nos magoaram mas conhecemos. Ou mesmo de quem não conhecemos. Mais importante é estar cá e poder viver.
Todas as estações.

setembro 21, 2012

Virgem


                    


Tão by the book e miudinho …
Explica lá isso.
Os pormenores, os pormenores…
Que é que têm?
Nada, mas não percas a visão. A visão geral.
Não percas tu os pequenos detalhes que podem fazer a diferença.

setembro 20, 2012

Tudo o que o verão permite


Há pessoas que têm um love affair permanente com o verão, o que me parece ser perigosamente o meu caso. Desta forma que quando o veem chegar ao fim, o que acontece cada ano, podem sentir-se abruptamente nostálgicas e tristes. Afinal, não é fácil fizer adeus a quem se gosta, ainda por cima quando essa separação não é voluntária nem acordada entre os dois. O verão amado nesse aspeto é malvado pois vai sem autorização, ainda que com a garantia que estará de volta no próximo ano. Mas um ano é muito tempo para as pessoas solares. Não admira que algumas façam incursões por países tropicais quando estão o outono e o inverno instalados no hemisfério norte. Ter de suportar a atrofia dos dias, mais curtos, mais cinzentos, mais frios e mais chuvosos não é propriamente uma ideia que enamore os adeptos do sol quente.
Na verdade, há pessoas que funcionam a energia solar. E se de braço dado com um calor que aconchega e liberta ao mesmo tempo, melhor. A luminosidade do verão, a vida ao ar livre que proporciona são talismãs de saúde e de felicidade para quem gosta de abraçar os dias de forma mais descontraída, arejada e natural. Tornam-se essas pessoas, elas próprias, mais luminosas, mais calorosas, mais frescas por dentro e por fora. O macilento, o enclausurado, o rígido e outros resultados de estações que não aquecem ficam miraculosamente fechados no estival frenesim das alegrias das manhãs soalheiras, das tardes à beira mar e das noites quentes que nos acariciam até de madrugada.
Não digo nada de novo – as pessoas de climas quentes parecem ter um fulgor de viver bem mais visível e exótico do que as de países frios e mais sombrios. A falta de sol justifica, ao que parece, uma certa percentagem de suicídios e muita gente sofre quebras de energia consideráveis em épocas e dias de chuva e céu cinzento. Não me esqueço que, uma vez num comboio enquanto viajava pela Escócia, falava com um jovem escocês que dizia intencionar mudar para a Europa do Sul por não aguentar mais o tempo atmosférico na Grã-Bretanha. E sabemos que quando se muda de país há dificuldades que podem ser causadas pelo clima frio e duro e que podem mesmo condicionar a opção de ir ou a permanência nesse local.
Amar o verão é sinónimo de amar uma certa forma de liberdade. Porque também coincide com as férias para a grande maioria das pessoas, é um desligar dos horários, das obrigações, dos espaços fechados e das rotinas de sempre. Mergulhar no verão é, se desta maneira, viver de forma mais tranquila e mesmo indulgente, entregando-nos aos pequenos ou grandes agrados que fazem dele a estação dos prazeres. Caímos em volúpias com a natureza, os outros, a geografia, as viagens, de uma forma simples ou mais ousada mas sempre regeneradora.
Dizer adeus ao verão é despedirmo-nos de uma refrescante fonte de delícias. Podemos até sofrer de algum distúrbio psicológico com a perda do amado verão mas também, e talvez por isso, devemos encarar isto de forma natural, pensando de forma positiva que o estio voltará a beijar-nos daqui a um ano, e focando-nos em pontos positivos das estações que aí vêm. Podemos ser indiscutivelmente fiéis ao verão mas devemo-nos deixar cativar pelas outras estações, racionalidade dixit. Até porque precisamos de estar saudáveis para viver de novo o nosso amor quando ele voltar.


(escrito para o bahia mulher)

setembro 19, 2012

Pequenas questões



Duas questões que posto aqui, consciente de que podem ser polémicas:

1. leio e ouço dizer amiúde que alternativa não há - a este governo e o mesmo já se dizia em relação ao anterior. Que nunca os partidos pequenos poderiam governar porque, sem arcabouço, seria o caos total. Mas como sabemos nós isto? Já experienciámos, porventura, algum governo fora do bloco central? Não há pessoas, à partida, sérias e competentes noutros quadrantes? Não existe vida para além de quem nos (des)governou até agora?

2. leio num jornal online que  o filme anti-islão põe o profeta Maomé a ter sexo com mulheres e homens e que incita ao abuso sexual de crianças. Considero isto abominável, independentemente da liberdade de expressão como direito sem questão. Interrogo-me se fizessem - os judeus ou os muçulmanos ou os hindus ou outros de confissão diferente - semelhante filme sobre Cristo. Haveria decerto, sobretudo dentro dos setores mais tradicionalistas e conservadores, muita gente ofendida, e compreensivelmente. (Continuando a condenar a generalização e a violência, agora e sempre, para que não haja dúvidas.)

setembro 18, 2012

Humor media

Uma colega e amiga enviou-me uns anúncios engraçados para eu utilizar na aula, se o desejar - uma vez que começo a dar o Consumismo ao 12º ano. Um deles é egípcio. Gostei de ver um país árabe neste registo, humorístico, tão diferente daquilo que nos entra pela porta adentro diariamente, via televisão e media de informação. Sempre considerei que precisamos de ver realidades e culturas diferentes para que nos possamos familiarizar e aproximar delas (e o mesmo diria lá). À noite, o Miguel Sousa Tavares reforçou esta minha ideia, ao dizer que estamos a assimilar uma imagem destes países que, existindo, não é a única (a propósito dos condenáveis e inaceitáveis atos de violência por causa do filme anti-islão). Disse e concordo que precisamos de os ver a fazer outras coisas, nomeadamente trabalhar e outras que fazem parte do quotidiano e que nos façam ver que existe vida para além da rua, das manifestações, dos ataques, do radicalismo. Porque a ausência dessas imagens de vida e normalidade, e até de descontração, também cria um certo radicalismo do lado de cá. É assustador ver em que moldes alguns se referem a estes e outros países e povos baseados apenas no lado negativo e mais visível (generalizando, também). É só dar uma volta pelos comentários online nos jornais e blogosfera. Os media, ainda mais em tempos apelidados de globais, podem ajudar na aproximação entre as diferentes sensibilidades e hábitos. Oh, se podem. Ou podiam.


setembro 17, 2012

Os seus amores







Ele colecionou amores. Viveu-os todos, praticamente, com a mesma intensidade. Casou e descasou, teve filhos, apaixonou-se subitamente e desapaixonou-se da mesma forma. Teve uma vida amorosa plena, daquelas que se contam em sobressalto malandreco e dão origem a livros de que alguém sempre gosta . Ela não colecionou amores. Poucos namoros se lhe reconhecem, pouquíssimas paixões se lhe conhecem. Viveu um grande amor. Casou, teve filhos, teve uma vida afetiva plena, de um só amor que lhe encheu todas as medidas. Não se apaixonou subitamente mas também não se desapaixonou jamais. Foram ambos felizes. Porque amaram muito cada um à sua maneira. Morrerão  juntos?

setembro 16, 2012

Em alta



Há um programa de televisão de que gosto muito - "Alta Definição". Nem sempre o vejo mas quando acontece delicio-me e enterneço-me com as excelentes entrevistas e sensibilidade que perpassam do mesmo. Também não sou totalmente imune ao efeito lágrima que o Daniel Oliveira parece acionar em cada programa. Trata-se de um momento intimista de televisão, em que artistas e profissionais de várias áreas têm  tempo para falar de si próprios, num registo muito humano que escasseia nos ritmos vorazes e conteúdos vazios de que é feita muita da programação do pequeno écrã. Perdi entrevistas, muitas, que decerto muito teria apreciado, mas há certamente mais para ver. É bom saber que há inúmeras, inúmeras pessoas interessantes e importantes no nosso país e que bom é descobrir-lhes um lado mais íntimo, de forma consentida, sem nunca se perder a elegância nem o bom senso. E olhem que o Daniel faz muitas perguntas... mas tem um modo ultra sensível e empático de as fazer. Consegue, dessa forma, muitas partilhas, confissões e desabafos. Por mim o "Alta", que já dura há 3 anos, nunca iria de baixa.

setembro 15, 2012

À espera de um milagre



Hoje não vi as notícias mas imagino, porque ouvi en passant na televisão de um consultório, que as violentas e inaceitáveis reações anti-americanas tenham continuado, alastrado e tomado proporções maiores por causa do tal filme americano anti-islão. 
Ora isto leva-me a escrever este post, juntamente com o facto de ter sido exibido há já algum tempo um filme na televisão tunisina que já havia causado alguns tumultos no país primeiro da primavera árabe e que me preparava para comentar aqui.

1. Enquanto lia no blogue de Joana Lopes este post, fiquei a saber que o filme do qual se havia falado anteriormente aqui em casa se chama "Persepolis", realizado por uma iraniana. Aquando da sua exibição na agora pela primeira vez livre de censura tv tunisina, setores mais radicalizados que têm emergido com a revolução (no tempo de Ben Ali estas posições eram abafadas e reprimidas) tiveram uma reação extremada, contrária ao pretendido pelo direito da liberdade de expressão, apanágio das verdadeiras democracias. A Joana disse algo que subscrevo totalmente - não é possível haver democracia sem verdadeira laicidade, após deslocar-se por vários países árabes, ao que me pareceu. Concordo, repito, mas refletindo bem ainda há, nesse aspeto, que dar tempo ao tempo. Por isso escrevi o post anterior, em que dava conta de uma certa pressa, do ponto de vista ocidental, em se conseguirem resultados do dia para a noite. Não é porque põem a andar um ditador  ("dégage") que todas as formas de democracia veem a luz do dia automaticamente. Eleições livres, uma televisão sem censura, liberdade para falar nos cafés sobre política (o que era impensável antes), liberdade religiosa individual e outras conquistas que estão a ser efetivas não invalidam que não continue a haver fortes marcas de tradição (ainda mais do que religião, e de como uma está tão mas tão ligada à outra), com todos os condicionalismos que se colocam, assim, à liberdade social, à liberdade de expressão e outras. Também em Portugal, se bem recordo, por ler ou ter ouvido, foram tecidas críticas e reações mais intempestivas houve quando passaram alguns filmes na televisão mais ousados. Acho que havia um, italiano, totalmente inofensivo, chamado "Pato com laranja" ( só o título é hilariante) que suscitou reações conservadoras. E bem depois, quando passou "Império dos sentidos" na nossa televisão, houve bispos e setores tradicionais muito ofendidos com a exibição. A televisão chega às massas, com tudo o que isso significa. Também os judeus se sentiram ofendidos com "A paixão de cristo", de Mel Gibson, organizando manifestações e apelidando-o de anti-semita, isto se falarmos em cinema e mais recente. A questão religiosa continua, desta forma, a ser muito sensível para muitos, que ainda não conseguiram secularizar a cabeça. Pedir que todos o façam rapidamente não é possível, será uma questão de tempo. E quando falo em impaciência do lado de cá (mundo ocidental) é porque nos colocamos frequentemente à frente de outros povos. Temos de compreender que outros ainda não estão e que nós também já evoluímos. Que tal dar o benefício da dúvida, esperar? O que são 35 anos na história? Nada. Outros chegarão onde estamos. Mas é cedo e não se pode ter tudo de repente, vai-se por partes.

2. Uma querida leitora e bloguista dizia, e tão bem no post anterior, que do lado de lá também são precipitados a atirar rockets e a fazer demais ações radicalizadas. Mas sem dúvida. Sem dúvida nenhuma. É perfeitamente inaceitável o tipo de reações que um filme ou um vídeo ou umas caricaturas suscitam pelo simples facto de se sentirem ofendidos na sua dignidade religiosa e cultural. Será, contudo, legítimo o sentimento de ofensa (embora não o partilhe, relativamente à minha religião, ou será por não ser praticante, não sei), mas nunca a violência que daí se origina e a generalização que se faz dos ofensores. Ainda agora vi no FB de uma amiga tunisina (já falei dela uma vez ou outra por aqui) um post que exibe um cartaz que pretende serenar os ânimos. Diz qualquer coisa como - eu sou americana e condeno o filme, e não acreditem que ele reflete o sentimento de todos os americanos, não reflete (acompanhada de uma foto). Compreende-se o objetivo da americana (a ser verdadeiro) e também o da tunisina. Ausência de racionalidade, de serenidade, de visão e de tolerância ditam estas incríveis radicalizações de discursos e de ações. Haja paciência também aqui! Porque falta tanta ponderação! Se compreendo que estas questões possam ser sensíveis, e repito, não comungo destas sensibilidades, já não compreendo o teor das reações. Nem as aceito, condeno-as até ao tutano e irritam-me profundamente. Porque deixam, também, marcas péssimas na imagem de povos e de uma religião, neste caso, tomando-se o todo pela parte e não deixando espaço para o reconhecimento da existência de quem pensa diferente também por lá. Não suporto extremismos de alguma espécie nem os variados males que fazem nascer. E lembrando-me da Joana, laicidade, como gosto dela.

setembro 13, 2012

À espera de Job



Andamos todos muito impacientes porque nos tornámos todos muito impacientes. Não estou a falar da política nacional, dos efeitos da crise, porque são sérios, nem das reações (e aflições) que a mesma legitimamente provoca. Mas de um modo geral, falta a todos nós paciência. Queremos tudo e rapidamente. Desse mal também às vezes admito poder padecer ou já terei padecido, se bem que tenho treinado uma maior serenidade à medida que os anos vão passando. Também era melhor. Ou não era, quer dizer, significaria que não teria aprendido nada. Mas nota-se realmente uma grande dose de impaciência em relação a muita coisa, sobretudo aos tempos dos outros. Do género eu posso tardar em evoluir mas os outros não. Essa intolerante e apressada intranquilidade é visível naquilo que se escreve, que se diz e na ausência de reflexão mínima para se escrever e dizer com equilíbrio e verdade. Isto veio a propósito, neste caso, do filme que passou na televisão tunisina há algum tempo atrás (pois, não me enganei e não se trata do filme americano de agora, o tal que tem originado cenas lamentáveis por parte de quem insiste em não evoluir). De repente, queremos que a democracia recentemente conquistada (e tanto tempo que falta para a sua consolidação plena, nomeadamente nas cabeças, porque é natural que leve tempo, até muito tempo) seja um facto estendível a tudo para além das eleições livres. Sobre esse ponto em particular alinhavarei um post em particular, mas aquilo que ressalta é que não damos - ou não estamos aptos a dar - tempo ao tempo. É que a nossa pressa em julgar e tirar conclusões anda, ainda por cima, de braço dado com uma incrível falta de memória, pessoal e coletiva, em relação ao que fomos até há bem pouco tempo e ao que continuamos a ser em muitas vertentes. Sempre achei que as pessoas fazem voar o tempo. Sempre achei que considerar 35 ou 50 anos como muito é descabido e inverdadeiro na longa linha da história das nações e do mundo. 35 anos e 50 anos não são nada na evolução do tempo. E não é por termos nascido ou termos vivido fora de problemáticas situações políticas e sociais que devemos esquecer como fomos e ainda somos, de resto. A nossa impaciência, e consequentes erros de julgamento, é terrivelmente condicionada por esta desmemorização, e pior ainda se somos pessimistas e nunca acreditamos no real progresso social. Falta tanta calma, tanta lucidez, tanta racionalidade no turbilhão das emoções e dos etnocentrismos que grassam por aí. E o mais espantoso de tudo é que esta ausência de paciência não parece criar nenhum tipo de vantagem. As pessoas indignam-se e algumas vivem permanentemente indignadas mas não há, frequentemente, ação concreta que depois seja visível, do género fazer melhor, optar melhor. Por outro lado, condena-se e condena-se e muitos esquecem-se de olhar para o seu próprio percurso, no meio em que se moveram e movem, e de como é preciso tempo para tanta e tanta coisa. Sei que este tipo de texto não é para todos, há quem  não aprecie este tipo de reflexão, pois estão no seu direito, há quem possa pensar que nos estamos a vergastar, a infligir um autossofrimento de alguma espécie mas... não. Realmente, não. Sem qualquer tipo de traumas. Apenas não defendo que se seja muito lesto a julgar. A precipitação não é construtiva. Ela confunde, baralha mas não cria nem muda. Portanto, na verdade, não ajuda a coisíssima nenhuma.

setembro 12, 2012

Summertime


She was already missing sunny days that were not gone yet. She was already missing the warm rays that had not left yet. She was already longing for summer before this very one had ended. For she feared the dark and the wet, the short and the cold days that lay still ahead. Why wouldn´t she, after all? Why wouldn´t she hate the idea of having to wait another year till she found light and happiness? Till she merged herself into sweet dullness and revigorating sunshine? Why do inner moods have or tend to wave along outer physical circumstances? No wonder she was, as always at this time, feeling a bit under the weather.

setembro 11, 2012

Duelo ao sol


O western mais sedutor da história. Mítico par, personagens movidas a orgulhos e paixões, a beleza selvagem de Jennifer Jones. Eterno, até porque duelos assim não brilham no écrã facilmente nos dias de hoje. Saudades deste cinema.

setembro 10, 2012

Ilhas de diferença



À partida, parecemos todos iguais - o ser humano, sabemos, tem motivações semelhantes, assim como medos e sonhos, angústias e sentires. Acabamos todos por, mais ou menos de forma consciente e voluntária, fazer as mesmas opções e apresentar projetos e padrões de vida muito similares. Somos, então, parecidos enquanto indivíduos, especialmente se falamos de amigos e de pessoas com as quais temos afinidades. É muito bom descobri-las e através delas construirmos relações de afetos variados. Procuramos estar rodeados de formas de estar que não entrem em conflito com as nossas, pelo menos quando podemos selecionar os relacionamentos. Em todo o caso e ainda assim, mesmo entre os amigos e os bons colegas e as pessoas de quem gostamos, pode na verdade, haver diferenças consubstanciais entre nós. Vinha no outro dia a pensar nisto ao volante, em como à superfície parecemos uma coisa, diria até bem mais simples do que depois somos realmente e de como às vezes não nos damos, por incapacidade ou vontade, a conhecer totalmente, mesmo com amigos queridos e colegas de eleição. Ou seja de como a nossa complexidade interior é bem maior e de como isso nos torna tão mais diferentes dos demais. Ou se calhar serei apenas eu a sentir assim. De como no íntimo de mim mesma não sou nada daquilo que se julga, do que aparento, ou serei menos ou mais do que isso. Somos mais e menos do que aparentamos e não se aplica a fórmula matemática. Também é verdade que há pessoas mais complexas do que outras, para quem a fasquia da exigência está mais alta em relação a muita coisa e mais alguma. Mas isso explica a razão pela qual uns encaram certas situações com naturalidade e outros com apreensão e vice-versa. E não é por nos movermos nas mesmas águas que daremos respostas iguais aos estímulos e ás necessidades. Sempre recordo a frase de Miguel Torga, "O que eram as pessoas? Ilhas. Ilhas isoladas e um braço estendido à espera que alguém atravesse a ponte". Nós somos ilhas, de mais fácil ou mais difícil acesso. Também há quem estenda mais facilmente o braço e, estendido ou não, sempre pode haver quem atravesse a ponte, ou não. Insularidades interiores. São elas que nos dificultam um determinado número de coisas mas também são elas que nos resguardam de possíveis desabrigos. Não somos iguais, longe disso. Procuramos sê-lo, frequentemente, porque nos facilita e adoça a vida, se bem que muitas vezes quando não somos deixamos marcas extraordinárias dessa singular diferença.

setembro 09, 2012

De primeira água


 (roubado do FB)


Se há caraterística negativa que me pode fazer rir à brava é o sarcasmo. Mais ou menos negativa, isto é. Quando me arranca uma valente gargalhada, bem aplicado e pertinente, até é bem positivo. As pessoas sarcásticas têm quase sempre por base um enorme sentido de humor, para além de uma inteligência que nos espicaça, sharp. Podem ser estimulantes, se utilizarem o seu sarcasmo no melhor sentido, ao serviço da boa disposição e da inteligência construtora. Ou mesmo como registo necessário a uma postura que pede resposta à altura. Tendo, apesar de tudo, em conta o espaço, o timing e o alvo, podem ser divertidamente demolidoras. Ou demolidoramente divertidas. 
As observações sarcásticas de um outro género, a raiar o cinismo e que apenas são expressas para destruir o outro, de forma direta, já pertencem a um outro departamento. Não têm, geralmente, piada alguma e os seus praticantes, se sem coração, acabam por nos afugentar.
Mas mantendo-nos nos mares do humor fino e inteligente, o sarcasmo é de tubarão. Quer dizer, de primeira água.