maio 22, 2012

Iluminação




Não é que eu não goste de outros géneros também. Aliás em casa, atualmente, nem sequer tenho nada deste tipo. Mas é provável que seja infelizmente. O meu gosto pelo moderno não esgota a minha paixão pelo exótico, por estes ambientes das mil e um noites e mais alguma.

Um salão destes só estimula o devaneio a oriente ao mesmo tempo que convida ao total relaxamento em ambientes claros pontuados por reconfortantes madeiras e, o melhor de tudo, por luzes emanadas de candeeiros impregnados de  exotismo que criam ambientes que pessoalmente me seduzem. 

É, definitivamente, sítio interior para mim. Cintilação Xerazade... Manias, pronto.

maio 20, 2012

"Retidão e moralismo"


"(...) O estudante defende que os professores são injustos mas ele copia o trabalho de um colega. O comerciante lamenta-se pelo facto de as pessoas não pagarem os impostos mas ele foge ao IVA. (...) O moralista toma a atitude de moralizador muito íntegro mas depois faz o que lhe apetece. Tem sempre na boca expressões morais como direito, dever, bem, mal, justo, injusto. Porém, como na parábola do evangelho, vê o argueiro no olho do outro mas não a trave no seu. 
Os sentimentos específicos da moralidade são o sentimento do dever, o sentimento de culpa, a arrependimento e o remorso. Pelo contrário, o moralista condena, indigna-se, protesta, estigmatiza, pede justiça, castigos exemplares. Olha sempre para os outros, nunca para si mesmo." (Francesco Alberoni, O Otimismo)
Aos de cima, poderíamos acrescentar muitos mais exemplos de moralistas e hipócritas que proliferam à nossa volta. Que infelizmente proliferam à nossa volta. Não é preciso centrarmo-nos apenas nos políticos, como deve ter percebido, eles atravessam transversalmente todas as profissões, géneros, religiões, idades e áreas geográficas. Esse é que é o grande problema. Pois se nem a evolução dos tempos o tem conseguido, difícil é  conseguir de alguma maneira uma ordem que possa mudar as cabeças desonestas disfarçadas de morais. Desta forma, até quando e porque temos nós que levar com a falsa moralidade que habita longe da verdadeira retidão?

A crença, a constância e o objetivo



O que faz a pessoa ter perseverança ou, ao invés, desistir facilmente?
Porque é que umas pessoas vão até ao fim, lutando pelos seus objetivos, extremamente focadas e outras abandonam projetos a meio, nunca conseguindo finalizar uma meta?
Há de facto indivíduos muito empreendedores que parecem ter sempre muitos planos, que apregoam estar sempre cheios de ideias mas que depois não as conseguem por em prática, ou que iniciando as coisas não chegam ao seu término, não chegando por isso a ter sucesso em nada.
Já outros, falando menos e parecendo menos ocupados conseguem levar a bom porto as suas ambições, evidenciando um alto grau de consecução que não se esgota nas palavras  ao vento e em  flutuantes castelos no ar.
O que os distingue, afinal?
Bem, talvez a lista seja longa.
Uma boa dose de paciência, talvez, mas também de objetividade que não se distrai com pormenores idealistas, antes focando-se numa visão a longo prazo (ou médio) que fixa bem os seus intentos e que tem em conta uma motivação interior forte, inabalável e que assenta em valores, princípios e, sobretudo, crença.
A palavra chave será mesmo acreditar, em si primeiro, e depois na sorte e confiar também nos outros. Um desconfiado não pode medrar. Um medroso também não. E um que duvida de si próprio idem aspas. Não que o vencedor não tenha dúvidas. Tem-nas e é saudável que as tenha. Poderá até recear o fracasso, o adversário, isso será sinónimo de humildade, de reconhecimento do valor dos outros, mas no meio das incertezas continuará motivado e não desistirá. Será perseverante, não se dará por vencido à primeira dificuldade, ao primeiro obstáculo.
O que acaba as tarefas e acaba os projetos também não é uma pessoa inconstante, que muda de opinião a toda a hora, de vontade, de humor, de tudo. Pois sendo assim é difícil levar uma ideia até ao fim e, pior, levar os outros até ao fim. Tem de haver uma perenidade qualquer de sentimentos, de ideais, de posturas, de objetivos. Ou, então, até terminar uma missão. Pode adotar uma completamente nova logo a seguir, requisitando novas perspetivas. Mas aí já teve sucesso em conseguir levar a cabo a anterior.
As pessoas que mudam de planos e projetos como quem muda de camisa vivem num frenesim de ações goradas. Para pessoas com mentes claras e com metas delineadas isto pode ser de enlouquecer. Tanto a nível pessoal como profissional, sobretudo se somos forçados a com elas trabalhar. Este tipo de líderes, por exemplo, pode ser extremamente lunático e até perigoso, se for despótico. Já se for em casa, pode ser divertido se se achar graça e um inferno se não se achar piada nenhuma.
Financeiramente, também pode ser desastroso. A não ser que haja rendimento de outro tipo de fonte que permita estes desvios e os disfarce de estimulantes. A inconstância é uma carga de trabalhos. Até nos amores, ai nos amores.
Por isso, nada como focar. Focar naquele ponto e aguentarmo-nos por lá. Ou então, se acabada uma coisa qualquer, ir para outra já desligados do que está, ficou para trás. Só assim o sucesso nos bate à porta. E o sucesso é o objetivo. Ou não?

também no bahiamulher

maio 19, 2012

As palavras dos outros

Não costumo colecionar citações nem procurá-las amiúde e no entanto reconheço que são um excelente manancial potenciador de importantes reflexões. Isto se forem significativas, como julgo acontecer com tantas, ditas por escritores, filósofos, políticos de impacto mundial e outras figuras de renome no campo das artes, da cultura e muitos outros.
Vejo, porém, que está na moda citar e citar e muitas citações não têm muito que se lhes diga. Também não chega apenas citar se não se percebeu e se mostra que se percebeu que se interiorizou a ideia. Como docente e avaliadora de um trabalho, por exemplo,  prefiro sempre as ideias próprias às citações de outros. Estas são boas para ilustrar e para dar o mote para o desenvolvimento de um conceito, de uma análise a partir de uma ideia. Mas não gosto da ausência de espírito crítico que só desfila tiradas de autoria alheia, sem cunho próprio nem autocriação. Também não sou boa a decorar citações, provavelmente por causa disto, a não ser que sejam míticas, altamente emblemáticas, incrivelmente significativas, com as quais tenho uma relação afetiva e pessoal, e sobre as quais me apeteça debruçar, o que neste caso, aqui, significa escrever.
Espera-se, pois, uma citação para a próxima. De vez em quando lá me salta uma à memória, não porque ande a vasculhar a mente (e muito menos o Citador) para me lembrar sofregamente delas mas porque numa delas tropecei a propósito de alguma coisa que aconteceu e que tão bem reflete as palavras ditas, e bem, por alguém que as tornou imortais. Enquanto não vem nenhuma, estas palavras são só minhas.

Capricórnio

Tinhas que me pôr um fato, uma gravata...
E então, não estás feliz?
Estou mas não era preciso isto.
Não sejas assim.
Não sejas tu, concentra-te no essencial. Porque dás tanto valor às tradições, às cerimónias, às datas e às coisas para assinalares no calendário?
Mas como viver sem festa e alegria?

maio 18, 2012

Ato final

                                 
Há algumas semanas aconteceu discordar de uma perspetiva de suicídio como um ato egoísta. Se há ou não pessoas que podem escrever bilhetes a despedir-se da vida ou a indiciar suicídios que depois não chegam a ser concretizados porque tais avisos foram intencionalmente colocados em locais de fácil descoberta e com isso quiseram chamar a atenção em atitudes de chantagem psicológica que se podem apelidar de egoístas já não sei, é bem possível. Agora que o suicídio a sério não pode ser visto como algo feito de ânimo de leve, não pode. E não pode porque ele significa o expoente máximo de algum tipo de sofrimento, ou melhor, do sofrimento psicológico elevado à categoria do insuportável, do não mais comportável. Dizer que as pessoas o fazem por capricho isso, sim, é não pensar nos outros, nos que não estão a viver numa zona de segurança e de alegrias da qual felizmente nós podemos saudavelmente usufruir. Amiúde reparo que há uma grande crueldade para com as patologias do foro mental. Que muita gente se julga acima destas fragilidades que, por vezes, podem surgir de um desnorte inesperado, súbito, que nada nem ninguém fazia prever. Se é certo que há certo tipo de personalidades que podem predispor mais para certo tipo de reações, também certo tipo de educações familiares e percursos de vida, com elementos como sorte à mistura, parecem jogar o seu papel na caminhada mais ou menos equilibrada que vamos por aqui fazendo.
Mas a verdade, e que convinha não esquecer, é que desvios da rota de domínio e de confortos emocionais e outros podem acontecer quando menos se espera. E se outros os têm demasiado cedo, outros poderão vir a tê-los mais tarde. Julgar as quedas é fácil, do alto de quem tudo tem e a quem nada falhou. É logicamente preciso saber levantarmo-nos, seguir em frente, mas é preciso apoio, muitas vezes, quando a força lá dentro não é suficiente por si só. E se ele não chega e a doença se instala está meio caminho feito para a destruição dos sonhos, da esperança, do discernimento. Como era bom ninguém chegar aí. Como era bom que todos resistissem. Como era bom que a vida fosse sempre maior que a morte. Que o alívio da dor nunca passasse pelo ato extremo, louco e ousado de sair de cena, de deixar de ser visto. E como era também bom se ninguém apelidasse de egoísta alguém que por esta altura tudo perdeu. Bom que ninguém olhasse só para as suas forças e se esquecesse da falta de forças dos outros. Que ato trágico, o suicídio. Não o condeno, apenas o lamento, não me sigo segundo a moral judaico-cristã nem qualquer outra parecida. O meu lamento, insisto, reside apenas no profundo e humano desejo que tenho em ver alguém vencer os seus fantasmas e manter-se no palco da vida apesar dos pesares que esta possa ter.

maio 17, 2012

Aflorar

Cá está o prometido post sobre as flores.
As razões são várias, a primeira sendo que ando tão cheia de trabalho (sei, leitor, que me compreende e partilhará deste estado que nos impede de) que hoje não vai dar para muito mais. A segunda razão é que, apesar de não ter jeito nenhum para a jardinagem e para tratar e cuidar de flores, gosto delas, aprecio aqueles jardins bonitos, muito British, campos floridos são uma coisa que me delicia a vista, e pronto, a terceira, é primavera, não há como não falar de flores e penso que ainda o não tinha feito. Não sou, assim, alguém que cultive (literalmente) com paixão total as flores, que as busque avidamente nos supermercados ou nos hortos amiúde mas quando lá vou, sobretudo a estes últimos, pela frescura que lá inspiro, não deixo de me inebriar com o seu aromático perfume. Gosto de receber belos arranjos florais naqueles dias em que mos oferecem, gosto de as pôr em bonitas e modernas jarras, sim têm é de ser jarras  de design moderno, se não cheira-me a bouquets estilo antigo e aí já estraga um bocadito o efeito. É como os quadros. Adoro Van Gogh  e até gosto de girassóis mas decididamente o seu quadro não faz parte dos meus preferidos. É da jarra...só pode ser. Vai daí que gosto de flores soltas, ao natural, colhidas no campo, ou então, se em presente, num  ramo arranjado com uns toques modernos que espicacem a criatividade. E a cor, oh as cores. Que seria dos nossos olhos sem as cores das flores?
Não sei a maior parte dos nomes das muitas flores que embelezam o império dos nossos sentidos. Mas sei que flor pode rimar fora da forma com alguma espécie de amor.

maio 16, 2012

Olha, tu aí

                                          
Faz-me sempre muita impressão as pessoas que conversando connosco não dizem o nosso nome e não olham para nós. É o máximo da frieza, do disconnect automático on the spot, e espanta-me não se aperceberem de como o eye contact é fundamental para se criarem laços, sejam eles qual forem, momentâneos ou mais perenes, profissionais, sociais ou mesmo pessoais. E maior impressão me faz se isso vem de professores, classe que deveria ter aprendido essas teorias nas muitas formações que fizeram, já que para muitos, está visto, não lhes será inato.
Impressão, má impressão e a seguir repulsa, vontade de estar do outro lado do mundo. Não por carência, era o que faltava, a situação que despoletou este texto é meramente profissional e acabará brevemente, oh yes thank god,  mas por falta de pachorra para lidar com má educação e pessoas formatadas, heartless e com uma incomodativa mania que estão ali para liderar desde o início e que os outros são meramente secundários, assunções assim vindas não sei de onde .
E é por estas e por outras que as avaliações em trabalhos de grupo com pessoas que nunca vimos nem com as quais, pelos vistos, não temos qualquer tipo de empatia nem identificação nem no estilo nem nas ideias sempre me moeu a cabeça. Não há, a meu ver, porque forçar o trabalho em grupo não desejado. Os resultados podem ser catastróficos e as pessoas de fora podem não se aperceber das dores que infligem aos que estão dentro. Sabemos que há necessidades de trabalho de equipa mas há sempre uma escolha. Se não estamos bem e se anulamos o eu e sofremos há um escolha - sair. Sempre odiei o coletivismo forçado, e as imagens de uma união soviética feliz a trabalhar alegremente em prole do grupo saiu completamente gorada, certo? Claro, ninguém aguenta não poder realizar escolhas individuais quando o grupo não preenche as nossas ânsias.
Mas vem isto tudo a propósito de alguém que estando a trabalhar comigo desde há algumas semanas não olha para mim uma única vez. Até que ontem saiu: hey, não olhes só para a(s) tua(s) (outras duas) colega(s), assim penso que não gostas de mim, já estou a ficar carente (não estava, estava a ficar irritada, o que é, Monty Python dixit, uma coisa completamente diferente). Trabalhar em grupo significa pluralismo e sobretudo envolvimento. Se não o houver, não me apetece fazer a ponta de um chavo. E eu envolvo-me se disserem o meu nome e olharem para mim. Duas coisinhas tão simples, vão direitinhas ao coração. Não sei porquê e se lhe acontece o mesmo a si ou não. Mas o que importa é que sem envolvimento não há produção. Pois máquina não sou.

maio 15, 2012

Bravura II

             
Li  ou ouvi algures e tantas vezes tinha pensado nisso antes e continuo a pensar depois que um texto nunca diz tudo. Por muito que até estejamos um bom tempo sobre ele debruçados há sempre alguma coisa que escapa, que se esqueceu na altura, que apetece completar depois porque entretanto se amadureceu  o assunto. Num dos últimos que escrevi aqui, pareceu-me que não terei sido bem explícita, não querendo dizer que o tenha sido nos outros.
Falava sobre a coragem no feminino e de como o uso da voz tornava a mulher admirável no catálogo das minhas eleitas. Mas pelos comentários que tão simpaticamente me deixam e tão atentamente leio senti que não terei transmitido a ideia da bravura tal qual a construí na minha cabeça. Fazer ouvir uma voz, dissonante para mais, e isto serve para mulheres e homens, não é um ato de coragem para quem detem o poder, isso é obviamente  fácil. É-o para quem não o tem - aí é que é difícil. Pois a coragem envolve invariavelmente algum risco. A bravura implica sair da zona de segurança, em termos físicos muitas vezes, mas nos termos em que coloquei o teor do texto, sobretudo em termos morais. Trata-se portanto de arriscar algum tipo de privilégio: um emprego, um lugar, uma regalia, uma amizade, um favor, um sei lá o quê. Isso sim é ter audácia. E calarem-se, como dizia, revelando falta de solidariedade nos momentos em que ela é pedida, e falta de verdade, sabendo-se o que pensam, e ainda cobardia moral, são coisas que francamente não agradam a quem admira o arrojo.
Que há outros tipos de coragem, há. Que há pequenas cobardias em cada um de nós, provavelmente também, em pequenas dimensões quotidianas (eu cá sou mariquinhas com aranhas, operações - um viva para cirurgiões e enfermeiros) mas a valentia moral é algo que muito aprecio. Sobretudo vinda de alguém sensato e pequeno, sem nome nem poder de espécie alguma que enfrenta poderosos de grande nome mas às vezes e não poucas de pequena envergadura ética.

Orange



Where are you going?
Somewhere.
Don´t go.
Gotta go...
What will you do?
Find something juicy.

maio 14, 2012

O mundo ao contrário





Pode um peça de teatro infantil conter uma mensagem perfeitamente adulta? Claro que sim. Apesar da cor, da música, da bonecada, das gargalhadas, da atenção da pequenada face às histórias a que pude assistir há dois dias em O mundo de pernas para o ar, a tirada final era aliás muito mais dirigida aos graúdos, distraídos que estariam os pequenos com as nuvens e os peixes e os candeeiros e as minhocas todos a viver às avessas. Pela maturidade que não comportam, cabe aos adultos educarem-nos nesta verdade: às vezes, para se ser feliz, não se pode viver de acordo com o que é previamente estabelecido. Tem de se estar mesmo de pernas para o ar, por muito estranho que possa parecer visto de fora. A cara de espanto dos miúdos isso ilustrava. Mas a questão é que não estando não se respeitará a essência e a verdade dentro de cada um... terão para isso os grandes de o entenderem.

maio 13, 2012

Planeta

Tenho um nadinha de exploradora, que se encontra em standby, desde há algum tempo. Mas muito do que sou ou gostaria de ser passa ou passaria, também, por aqui.

Guerrinhas



Não sei se lhe acontece e, francamente, não sei se é bom ou mau sinal e nem é isso que me leva a registar esta nota. Mas amiúde tenho reparado, e já lá vão anos e anos, que me relaciono relativamente bem com pessoas que não se podem ver. Quer dizer, lá vou tendo um relacionamento positivo, tanto na esfera profissional como até pessoal, social, com pessoas que depois não nutrem qualquer tipo de simpatia umas pelas outras. E assim sendo tenho muitas dificuldades em juntá-las. Já me aconteceu tê-las em casa ou encontrarmo-nos no café e vê-las engalfinharem-se ao ponto de eu própria me sentir incomodada, porque não gosto de ver pessoas de que gosto ou simpatizo em guerra umas com as outras. Penso que uma amiga já me disse que é por eu gostar de pessoas tão diferentes, que depois fica difícil conciliar estilos e atitudes e esperar consensos. Mas realmente costumo prender-me ao lado bom dos indivíduos, não significando que não veja o menos bom - o que há é uma margem de tolerância relativamente simpática e quando não há largo, parto, elimino, que é para não cair em tentação de gostar de alguma coisa mínima.
Assim sendo, posso ter amigos que quase se degladiam em arenas que não o deviam ser. Porque apesar de gostar ou conseguir conviver sem problemas com elas, também é verdade que há muitas pessoas que não fazem nada para evitar conflitos. Atenção, acho que, pessoalmente, não deixo de dizer nada se acho que é imprescindível dizê-lo. "Não deixas de dizer nada, mas tens maneiras de o dizer" ouvi há dias dizer uma querida amiga. Bom, quero acreditar que assim é.  Já tive alguns conflitos, não os procuro  nem gosto deles, sou combativa, mas apenas quando me pressionam a sê-lo. O ar cândido cria algumas ideias erradas e isso é que não pode ser. Para além disso tenho opinião e não há porque escondê-la. If not, make peace. Por outro lado, porque haveriam os meus amigos e as pessoas com quem me relaciono sentir simpatia umas pelas outras apenas porque eu sinto? Isto é levantar muito a fasquia, quer da exigência quer da ingenuidade.
De maneira que assim é e assim vai continuar a ser. A dar-me bem e a relacionar-me com doces, no geral, que se tornam muito ácidos aos olhos de outros. Não podemos gostar todos de amarelo. (Eu gosto.)

maio 12, 2012

Os nossos filhos são e não são nossos


             

O tom religioso em O Profeta de Kahlil Gibran parece à partida não se coadunar com os tempos apressados, desumanizados e dir-se-ia quase “ateizados” que correm. Mas, espantosamente, o seu conteúdo é intemporal e, por isso mesmo, atualíssimo para os dias de hoje. No capítulo que dedica aos filhos, diz-nos que os filhos não nos pertencem, que têm os seus próprios pensamentos. Uma coisa que parece óbvia, há tanto tempo, e que, na prática, é geradora de muitos problemas.
Para muitos pais, é muito difícil a aceitação de que os filhos não são o seu prolongamento. Para quase todos nós, poderá avançar-se. Prolongamento do seu projeto de vida, dos seus sonhos, do seu ego, das suas vaidades, dos seus devaneios de criança, até das suas frustrações (já que não pude ser ao menos que tu possas…). É-lhes muito difícil que os filhos façam escolhas diferentes daquelas que eles próprios preconizaram para os mesmos, que rumem a sítios por eles impensados e por isso impensáveis, que se atrevam a contrariar muitas das suas expetativas em relação a amores e orientação sexual, a carreiras e sonhos de protagonismo, a estilos de vida e até de imagem e look exterior.
Quantos problemas geracionais na família se poderiam evitar se a filosofia do let (it) go pudesse acompanhar o amor incondicional que se tem por um filho? Deixar fluir um pouco mais as suas próprias ânsias e desejos, deixá-lo ir ao encontro do seu próprio caminho? Nem sempre é fácil, porque julgamos saber o que é melhor para os nossos filhos, muitas vezes queremos tão somente protegê-los de adversidades maiores, mas a nossa bitola deixa de saber medir quando eles crescem e fazem escolhas que nós também ousámos fazer, noutros tempos e noutras circunstâncias. Há um corte, algures, que terá de ser feito, saudavelmente feito, sob pena de comprometermos o crescimento de alguém que não pode ficar pequenino e dependente para sempre. Porque nós também já nos libertámos. E se não o fizemos é porque não atingimos a maior idade psicológica, aquela que existe para além da data no calendário.
Há pais que, amando os seus rebentos, lhes fomentam a autonomia e lhes proporcionam um crescimento saudável (não estamos a falar da amamentação nem da alimentação, por favor, a maternidade e paternidade não se esgotam na satisfação básica destes e outros aspetos) e harmonioso, que vai respeitando as personalidades e preferências e aptidões dos filhos, desde pequenos até adolescentes e adultos. Já outros, amando-os na mesma, porventura aqueles que focam a educação nas necessidades básicas em detrimento de outras dimensões (não vendo a parentalidade como um todo), são extremamente rígidos com a diferença, a originalidade, a sensibilidade, até o talento, ou a falta de identificação com eles mesmos. Então, procuram à força que os filhos sejam iguais a eles, caindo em atitudes de rigidez e inflexibilidade que muito ferem quem não entende porque diabo há de ser igual, pensar de maneira semelhante.
Há resultados catastróficos em educações deste tipo, expetáveis e imagináveis para quem vislumbra para além do que parece ser apenas uma educação rigorosa e apurada. Elas parecem residir e residirão também no amor, que afinal todos sentem, mas acima dele está algures uma ordem qualquer, algo de difícil definição, entre o amor e a exigência dura, despudorada, mecânica, tacanha, vaidosa, sem afetos e mil coisas mais.
É maravilhoso ser-se mãe e ser-se pai. É também difícil sê-lo e não cometer erros. Mas não queiramos ser donos dos nossos filhos ad eternum. Há e haverá uma altura em que eles se soltam e soltarão. Para o bem, se para o bem os tivermos, no amor, educado. E para o bem, esperando que tenham a maior sorte deste mundo. Para o bem deles e, assim, para o nosso.
 publicado no site baiano onde colaboro

maio 11, 2012

Sense(s)

               
They asked her about the colour of days and she answered they came in quite different shades. Then they asked her about their flavour and she replied that lately they smelled like routine and responsibility, hard work and tiredness and that she would like them to taste more like freedom and time, pleasure and laughter. They still asked her about the way they looked and still she replied they could look a lot better. And they went on, asking if she could hear them. She said they could be heard in less decibels, in quieter tones. Then they asked her if she was losing her senses. She said that her senses were still pretty much alive. So alive that they allowed her to look at days with good sense and with good sense aknowledge that a lot more sense is and will always be expected to come out of them. And that she would wait to touch the peaceful merriness of such days again.

maio 10, 2012

(I)Móvel

Há vários anos tinha uma colega que gostava de resolver tudo pelo telefone. Era muito caseira e penso que isso lhe era extremamente cómodo. Eu, social, pelo contrário, preferia sempre ir ao local e falar cara a cara, in loco, apesar da deslocação ou provavelmente por causa dela.
Com o tempo, e com a agravada falta dele, agravei curiosamente o meu desagrado face a assuntos resolvidos ao telefone, sobretudo e diga-se em abono da verdade, ao telemóvel. Aliás, nunca comprei nenhum, foram sempre oferta e já vou para aí no sexto ou mais. Não ligo a marcas, a cores e modas, muito menos a topos de gama e uso-o neste momento para falar praticamente apenas com familiares e com colegas em situações muito pontuais (houve uma altura, há uns anos em que fui viciada em sms mas passou-me a dependência com a maternidade, depois com o advento do Facebook,  dos e-mails e com a internet em casa - nada é insubstituível).
Sim, resolvo muita coisa profissional por e-mail. É rápido e eu não tenho de falar, se estiver muito cansada isso é bom. No telefone fixo gosto de ter conversas mais longas com algumas pessoas mais próximas, amigos ou familiares, mas também não são todas que gosto de ouvir ao telefone, há vozes que são mais agressivas e cansativas pelos fios e também há diálogos que são sempre melhores ao vivo e a cores. Ao telemóvel idem aspas com a agravante de eu não gostar mesmo quase nada. As minhas conversas ao telemóvel têm sempre de ser muito rápidas. Por isso não entendo (embora não tenha nada que entender, também é verdade) quem passa horas ao telemóvel, horas, e, por vezes, a contar a sua vida e chegando a pormenores dignos de um romance bem contado e não necessariamente de qualidade. 
E depois há o local. Há pessoas que falam ao telemóvel, em tom razoavelmente alto que toda a gente ouve, em todo o lado, narrando episódios pessoais ou de outros - ai a má língua que a orelha do outro lado escuta avidamente -, sem olhar a coisas como privacidade, decência, linguagem, oportunidade, audiência e afins. Comunicar é bom, desabafar também, ter amigos e família a quem ligar também, receber chamadas também (para além dos mimos que sabem bem, dá um estatuto dos diabos, então as sms no natal e nos anos nem se fala), mas a torneira de histórias, queixumes, lágrimas, risos, festas, berros, zangas, declarações de amor duvidosas, ciumeiras, e mais não sei quantas emoções e sentimentos e palavras partilhadas em público acidentalmente e daí talvez não... é obra.
Cada um faz o que quer para ser feliz, desde que com isso não me faça infeliz- é como aquela coisa da liberdade, certo? Seja-se livre para falar ao telefone e ao telemóvel. Eu cá sou-o para falar cada vez menos porque gosto de internet quando não me apetece falar com ninguém - estado imóvel - e gosto de estar com as pessoas quando me apetece - estado móvel. Muito móvel. De preferência sem tele.

Food for thought


Este e-mail enviado por uma amiga que viaja e é interessada pelo mundo já está na caixa de correio há tanto tempo, desde o tempo em que eu nem pensava sequer vir a ter um blogue. Vem-me muitas vezes à memória a propósito das desigualdades dos hemisférios, das condições de vida díspares neste planeta. Era bom que não se tratasse de uma pirâmide (invertida) no globo em que vivemos. Era mesmo bom.


1 - Germany: The Melander family of Bargteheide 

Food expenditure for one week: 375.39 Euros or $500.07
 



2 - United States: The Revis family of North Carolina 

Food expenditure for one week $341.98
 



3 - Italy: The Manzo family of Sicily 

Food expenditure for one week: 214.36 Euros or $260.11
 
 

4 - Mexico: The Casales family of Cuernavaca 

Food expenditure for one week: 1,862.78 Mexican Pesos or $189.09
 



5 - Poland: The Sobczynscy family of Konstancin-Jeziorna 

Food expenditure for one week: 582.48 Zlotys or $151.27
 



6 - Egypt: The Ahmed family of Cairo 

Food expenditure for one week: 387.85 Egyptian Pounds or $68.53
 



7 - Ecuador: The Ayme family of Tingo 

Food expenditure for one week: $31.55
 



8 - Bhutan: The Namgay family of Shingkhey Village 

Food expenditure for one week: 224.93 ngultrum or $5.03
 



9 - Chad: The Aboubakar family of Breidjing Camp 


Food expenditure for one week: 685 CFA Francs or $1.23 



maio 09, 2012

Bravura



                  
O que é para si uma super mulher?
Não falemos dos atributos físicos, estará mais do que claro. Será, provavelmente para muitos, aquela que consegue fazer mil e quinhentas coisas ao mesmo tempo, revelando uma resistência física notável, indo buscar forças a reservas que parecem infindáveis, demonstrando um dinamismo a toda a prova, fazendo malabarismos vários e ainda conseguindo exibir um franco e genuíno sorriso, um toque feminino que tanto delicia o sexo oposto e mesmo uma excelente forma para os dias preenchidos que a ocupam atualmente. A super mulher é isto, certo. Há muitas, muitas e são fantásticas. Somos, somos, partindo do principio que sorrimos, que temos aquele ar e que não estamos mal na fotografia. Mas a super mulher é para mim que não sou homem aquela que tem voz. A verdadeira super mulher é aquela que, para além do que se disse antes, intervém, faz-se ouvir. Aquela que tem coragem e não tem medo. Que, por exemplo, numa reunião fala, mesmo se é a única com opinião dissonante. Que me perdoem todas as outras, as que são fantásticas. Mas é que esta faz parte das admiráveis.
Trabalhar muito, se se reparar bem,  pode fazer da mulher uma simples escrava mas exibir a sua voz opinando pode fazer dela a raínha da brava dignidade, habitualmente reservada e cultivada só nos homens. É mais incómodo e tão mais, repito, admirável.

Torre



   

Os que apreciam a história e os sentimentos preferirão a primeira, em detrimento do progresso e modernidade da segunda. Os que apreciam o exotismo dos sentidos mais a oriente preferirão a torre do Dubai à arquitetura datada da torre de Itália. Dois estilos, o mesmo impacto visual. A mesma criatividade e engenho?

maio 08, 2012

Santa avaliação mãe do diabo


                                   
Quando comecei o blogue explicava que o fazia porque queria partilhar impressões, ideias e até obsessões. Claro. Se fosse para falar de passarinhos não era preciso tanto - ainda assim hei de escrever um post sobre as florzinhas, fica para um dia mais agradável. São 22.30h, acabei há pouco de chegar a casa em trabalho non stop desde manhã e não estou propriamente no mood certo para flores. Flores para los muertos, só se for isso. Incondicional de Um Elétrico Chamado Desejo e de Tennessee Williams, de resto.
Obsessões. Qual delas me assomou, esta noite? Avaliação. Sim, avaliação. O autêntico culto da avaliação que cada vez mais se professa nos dias que nos dais hoje. Avaliação que estás no inferno, amaldiçoado seja o teu nome, não venha a nós o teu burocrático reino, não seja feita a tua estafante vontade, assim na escola como em todo o lado, não te perdoamos as tuas ofensas, nem perdoamos o que nos tens ofendido, não nos deixeis cair em maldita tentação, e livrai-nos do teu mal. E querem saber porquê?
Porque estou farta - não sei se ai desse lado também está, mas o blogue é meu e, portanto, esta é a impressão que há para hoje. Avalia-se tudo, todos avaliam todos, proliferam grelhas e excel, não sei como gerações inteiras foram avaliadas e produziram génios à mesma, não sei como as pessoas conseguiam ser inteligentes sem os milhares de descritores para tudo e nada (será que há para medir o ato de respirar e a intensidade e a frequência de acordo com os momentos do dia?), quantifica-se e pede-se para quantificar sempre mais, dentro da percentagem há espaço ainda para uma mini-percentagem, um desvario matemático que deixa em absoluto extâse os aficionados dos números e os propagadores de papelada. Criam-se empregos e dores de cabeça ao mesmo tempo, pressão e um declínio considerável no gosto pela aprendizagem, no prazer de aprender por aprender. Há naturalmente avaliações necessárias, mas há que encontrar um ponto de equilíbrio, uma confiança no processo e não tanto nos resultados quando for possível, uma abordagem de vida que não passe por mecanismos sistemáticos de avaliação para tudo, a toda a hora, baseados em máquinas de fazer papéis, uma espécie de lixo distratror do que verdadeiramente importa.
Vinha eu nestas reflexões típicas de terça em dias de ação, com o meu amigo de quatro rodas, que já apresentei anteriormente, quando rapidamente chego à cereja da moda das avaliações sem as quais as pessoas não existem - a avaliação num ciclo impensável, o pré-primário. Pois é, avalia-se as criancinhas desde tenra idade, não vão elas criar maus hábitos numa idade em que não podem apenas brincar, sociabilizar, fomentar relações, potenciar pequenas capacidades, não, temos que as estigmatizar ainda quando são bébés. E foi assim que, sem ser pedido ou desejado, o meu pequeno recebeu, naquela altura, duas semanas depois de completar 3 anos, a sua avaliação natalicia de final de período. E como não bastavam informações orais, informais, era quase um bébé, veio um grande relatório a acompanhar e, delírio dos delírios, uma caixinha no canto superior direito com é pontual ____ e é assíduo _____ à espera de uma x (cruz). Como se o pequeno pudesse ter algum tipo de responsabilidade em qualquer dos casos. Não sei se a cara séria e antipática de muitos pais que de manhã não respondem desde sempre aos meus bons dias quer  dizer alguma coisa. Do género estarem a favor. Se sim, coitados dos putos... avaliadores na escola e em casa, isto sim é uma cruz.
Que diabo de manias e de tendências de pouco valor e eficácia temos nós de aguentar de iluminados com muito pouca luz. Rogai, leitor, rogai, não pela pecadora, mas por nós e sobretudo pelos miúdos que não têm tempo para aprender e brincar ao sabor do prazer. Agora e na hora da nossa vida. Ámen.

maio 07, 2012

Aquário



                          
Estás sempre ausente.
Mas estás comigo na cabeça.
Não chega.
Preciso de ir ali fazer uma coisa.
Estás a ver?
Não posso estar... preso.
Voltas, ao menos?
Não volto sempre?

maio 06, 2012

Emoção




Quando era miúda, pré-adolescente, já nem sei em que ano foi, falava-se muito de um filme em que um casal disputava o filho após o divórcio : Kramer contra Kramer. Quando, posteriormente, o vi não percebi a razão pela qual as plateias tinham ficado tão emocionadas com uma história sem aventura nem romanticismo, sem viagem de espécie alguma, bem como gosto. E não entendi durante anos.
Nunca mais vi esse filme. Mas sei que, se o visse hoje, me emocionaria de forma não imaginada naquela altura em que não sabia o que era ser mãe. Porque muito mais emocionante e tocante do que ser filha é ser-se mãe. Não se entende uma mãe, a nossa mãe, até o sermos também. E por isso, porque esses olhos são indubitavelmente outros, a pequena tulipa de papel e o saco de pano com o meu cabelo comprido pintado de forma possível por um pequeno soube a tanto hoje, a mais do que tudo. 
Para as mães, pois. A nossa e a dos nossos filhos.

Tristemente belo


                
Pode a tristeza ser bela?
Assim de repente, não. Não é. Não é bonita, não é bom senti-la, não a queremos para nós nem para aqueles a quem verdadeiramente amamos.
Não gostamos de a sentir chegar, de a sentir instalar-se, de a sentir fazer arrancar-nos lágrimas que não são de contentamento, de a sentir sufocar-nos a voz, de a sentir afastar-nos, por vezes, de todos e mesmo de tudo.
Por isso a repudiamos, a evitamos, a negamos, mesmo quando ela está, de resto, visível aos outros, quando chegou sem ser convidada e pensamos que será fácil mandá-la embora.
Mas poderá ela ser bela, em alguma circunstância? Pode, sim. Pode na literatura e no cinema, na poesia que nos entristece mas enternece porque nos identificamos com ela, num filme que nos comove porque move todas as emoções que na maior parta das vezes, e ainda bem, não afloram à substância dos dias mais comuns. 
Muitos filmes que vi, e dos mais belos de sempre, perpassam ou perpassaram uma fina tristeza, sobretudo no final, que muito perdurou na memória coletiva de quem os viu - na minha individual, certamente. Porque o fácil seria o final feliz que a todos deixaria enlevados, o difícil será o corte no arrebatamento e no êxtase, a queda na tristeza que  não se procurou nem se queria, por sabermos que outros sofrem e com eles nós também.
Um dos filmes que me levou até esse estado lacrimejante foi e assim é sempre que o revejo  Out of Africa. Não chega dizerem-me que é cinema - a história é verdadeira, existiu. E mesmo que não fosse. Há um efeito de espantosa tristeza no final que combina elementos geográficos, poesia, cânticos africanos, uma morte e um amor que se quebra, o adeus a um continente, um regressar que não foi desejado, uma fazenda em África que se deixa para trás. Tudo em definitivo. A voz off de Karen, já envelhecida, e os leões simbolicamente a acasalarem na colina sobre a campa de Denys. Lindo.  Não se disse aqui que a tristeza podia ser incrivelmente bela?
Não é a nossa história, e ainda bem. É um filme, como podia ser um livro, um poema, um quadro. De uma tristeza e beleza sem fim. É o poder da arte, o de embelezar estados de alma que fora dela nos parecem e são invariavelmente feios, perturbadores e, por isso mesmo, indesejáveis.

maio 05, 2012

O mal é fácil

                            
   


"Ser bom é difícil."
A frase não será nova, mas foi dita por um aluno de 17 anos na aula e eleita in loco como a frase do dia. Um colega havia terminado uma apresentação oral e fazíamos, como é hábito, uma reflexão sobre a mesma e aqui sobre o tema ´Poverty´- aliás, o da extrema pobreza, chocados como estávamos com as imagens projetadas no excelente powerpoint com que o aluno em avaliação nos presenteara a todos.
Queremos ajudar mas não sabemos como, ouvia-se. Há sempre tantos entraves, insistia-se. Sozinhos é mais difícil, rematava-se. Apesar de sentados, contrariando o apelo a que o vídeo exibido fazia aos mais ricos deste mundo, lá nos conseguimos levantar ao menos na consciência, ainda que por uns breves instantes. Há que começar por algum lado; naquele momento a bondade terá saído da letargia distraída e cómoda dos nossos europeus dias. 
Mas não é só na área da solidariedade, da caridade, que as dificuldades se fazem sentir. Elas estendem-se a valores como o altruísmo mas também e apenas à integridade, à verdade e autenticidade, ao respeito, à tolerância. Podíamos dar milhares de exemplos ou mais, em milhares de situações, em tantas e tantas dimensões. As desilusões e as perdas são muitas.  O preço é alto, a luta e o desgaste são intensos. O esforço, inglório... Por causa disto, perde-se frequentemente o alento.
A bondade e a entrega não são necessariamente, pois, sinónimos de bonança, de justiça, de  merecida recompensa. Mas então, e honestamente, se não é fácil e se não vale a pena, porquê ser bondoso? Francesco Alberoni diz "A única resposta é esta: por dádiva, porque gostamos de alguém, porque queremos fazer o bem ao nosso filho, aos nossos amigos, à nossa cidade, à natureza, a quem vier. Se não existir este ´bem querer´original, livre, imotivado, gratuito, esta dádiva que surge diretamente da nossa natureza humana e da nossa liberdade, não poderá existir nenhuma moralidade".

maio 04, 2012

Grey


It´s raining a lot.
So it seems.
Want an umbrella?
Not for now.
You´ll soak.
Only for a moment.
Don´t be foolish, you´ll be ill.
There´s a chance I won´t...

maio 03, 2012

Sagrado

                                     
Não gosto de arte sacra. Não sou apreciadora de visitas a igrejas, tirar fotografias a pormenores de portas, ouvir as explicações dos guias sobre histórias de bulas e bençãos e mais coisas do género. Organizando.
1. Não senti nada de especial no Vaticano, a não ser um calor imenso para quem ia decentemente de calças, cansou-me a visita às infindáveis salas, não vi o papa nem lamentei tal facto, apreciei sobremaneira a "Pietá", é certo, pelas referências que fazem parte do nosso imaginário cultural.  Emoção? Sim, senti-a, e foi grande, quando avistei as escadas que enrolaram mais um assassinato nessa obra de culto meu que é o Padrinho III.
2. Em Florença, para onde quer que olhasse, só me lembrava de Quarto com vista sobre a cidade, de James Ivory.  Embora seja extraordinariamente enriquecedora em termos culturais, isso é inegável, a cidade não é a minha favorita em Itália (sou uma eterna romana). Adorei as estátuas mas não consegui passar horas a olhar para a as fachadas das igrejas e estava desejosa de apanhar ar puro depois de tanto túmulo.
3. Em Notre Dame não entrei, em St Paul´s Cathedral também não, em Westminster Abbey igual, em Pádua não me lembro de ter entrado, penso que por estarem em obras, na maior parte dos casos, mas realmente não. Mas gostei de Assis e mais ainda de Sienna - comprei lá uma bonita cruz com que gosto de ornamentar o pescoço. Tenho um fraquinho por cruzes como acessório, vá lá entender-se o fétiche. Acho que me lembra a Escrava Isaura a lutar contra a opressão. Chorei em Olinda, lá do alto.
4. Não gosto de altares em casa nem de tabernáculos nos quartos, por cima da cama, nem algo do género. Não gosto de ter de me levantar na missa, nunca entendi porquê, incomodam-me os rituais longos e com muita música pelo meio, não gosto do sermão e o que mais aprecio é o que se faz menos - ler as palavras da bíblia. Ainda não conheci nenhum padre que pudesse admirar pela visão do mundo, achei-os todos, conheci poucos é certo, demasiado localizados no espaço e na cabeça.

Fogueira para tanta heresia, pensarão alguns. Mas não sendo assim religiosa tipo beata acredito em Deus. É verdade. Só que gosto de conversar com ele em igrejas vazias e posso mesmo rezar numa mesquita (já o fiz em Istambul) e numa sinagoga, o que ainda não aconteceu. Acho que o deus é de todos e sou assim para o ecuménico nas ideias, que nas práticas a cultura faz muitos estragos e a ignorância dos cultos dos outros também. Portanto Natal e Páscoa são belas alturas para mim, sobretudo esta última, muito mais espiritual, sem compras, sem obrigações. Mas claro que sou católica - não praticante, ao que parece - porque nasci aqui e cresci aqui e isto serve para a mancha das religiões distribuídas geograficamente pelo globo. De qualquer forma, nunca quis mudar. Deus está, é o que interessa.
E pronto, era isso. 

Fado



Não, não é o Pingo Doce e a inenarrável e já histórica forma de assinalar o 1º de maio.
É uma canção made in escola onde trabalho, letra e música originais, interpretada por Juliana Carvalhais (que belíssima é esta miúda), e que arrecadou várias notas 20 na finalíssima do ano passado nas Escolíadas. Para quem não conhece, aqui fica.
Este vídeo é o da primeira sessão. É onde a filmagem está, porventura,  esteticamente melhor.

Fado é paixão...



maio 02, 2012

fUTILIDADE

               
A futilidade é muitas vezes associada à mulher, às conversas de mulheres, até ao gosto das mulheres. Partindo do princípio que a futilidade é sinónimo de superficialidade, de ausência  de seriedade que é salutar e de uma preocupação por algo mais do que não sejam sapatos, maquilhagem ou o que vestir para uma saída à noite. No entanto, parece-me isto ser extraordinariamente redutor. Porque há coisas de mulheres que também a mim me parecem fúteis para além destas - entenda-se se de forma continuada, sem mais nada para além delas. E porque há coisas de homens que me parecem igualmente fúteis - se de forma continuada, sem mais nada para além delas. Estará o erro então na repetição, na exaustão de um tema que não revela profundidade, empenhamento com os outros, um lado engagé com o mundo? Pode. Aliás deve. Deve ser isso, porque nós todos temos o direito de aliviar com coisas ditas fúteis de vez em quando. Não vem mal ao mundo com isso. Se é só isso a tempo inteiro ou quase e a nós nos desagrada, então é o nosso conceito de futilidade a funcionar.
O que é a futilidade?
É algo de negativo, seguramente. Não é só feminino, mais do que seguramente. Revela quase sempre uma concentração em torno do umbigo, segura e perfeitamente. Reflete uma personalidade medrosa ou alienada, mergulhada num mundo seu, por defesa, infantilidade  ou egocentrismo, incapaz de entrever a realidade, com toda a segurança. Isto no pior. E  piorando um pouco mais - há gente fútil com diploma, o que pode ser surpreendente para os mais distraídos e ingenuamente convencidos de que quem tem um canudo licenciou-se na perfeição. 
Continuando. O que são futilidades para si?
Vou dar-lhe algumas ideias. Conversas ou fixações que podem ou não converter-se depois em obsessões, não sei detetar quando passa a algo compulsivo, sobre sapatos e malas, MP3s e 4s, receitas, futebol, unhas e rímel, ginásio e músculos, bricolage, carros, bares in e out, cores e acessórios fashion, telemóveis topo de gama, e tantas outras coisas de que agora não me lembro. Ui, há aqui coisas que são verdadeiras paixões, para muitos de nós. E podem sê-lo. Isto para dizer que o fútil para si pode não ser o fútil para mim. Agora que o fútil me parece ser uma superficial insistência num aspeto pouco altruísta ou pouco profundo e que pouco enriquece o outro, isso sim. Mas também não podemos estar o tempo inteiro a a aprofundar algo. Há que vir cá acima respirar um bocadinho. Temos é que vir sozinhos ou com alguém que partilhe essas nossas pequenas futilidades. É que há delas de que eu fujo a sete pés, pequeninas ou maiores. E outras de que outros fogem. 
Uma das minhas, entre outras,  é escrever umas coisas de vez em quando que são teorias de trazer por casa. Fuja, leitor, leitora, fuja enquanto pode. Isto de profundo não tem nada. Pouco útil, mas foi um bocadinho em que vim cá acima.

maio 01, 2012

Dolce far niente


                       

Eu trabalho porque preciso de dinheiro para viver e teria muito prazer em não trabalhar. Não é que eu não tenha prazer em trabalhar. (...) O trabalho é apenas uma parte do dia que eu me esforço por esquecer o mais possível quando não estou a trabalhar. Quando trabalho, trabalho, embora sempre com a ideia de deixar de o fazer, quando não trabalho, não trabalho e sempre com a ideia de como seria bom não deixar de o fazer. (...) 
Eu próprio sou também trabalhador e tenho muito respeito por todos os desempregados que sofrem por não terem emprego. Apesar de gostar muito de não trabalhar, também eu estaria agora a sofrer se não tivesse trabalho.  (...) Dizia o outro que entre a dor e o nada preferia a dor. Há pessoas que precisam de trabalhar ou, pior ainda, de trabalhar muito para se sentirem vivas. Lá nisso, assumo, sou diferente: entre o trabalho e o nada, prefiro o nada. (...) José Ricardo Costa (Ponteiros Parados)

Adoro quando encontro pessoas irreverentes, absolutamente livres por dentro, que assumem a diferença sem complexos e sem quererem agradar a todos.
Fazem-me sorrir, rir, anuir, vão ao encontro de muito do que sou e de que gosto. E nem imaginam, por isso, o bem danado que me fazem, neste caso, ao lê-las. 

Aos bons livros

                           
Ouve-se amiúde vou para o café sempre com um bom livro, não me deito sem um bom livro antes, nas férias não dispenso um bom livro. Entendemos - entendemos? - o que se quer dizer mas ... afinal, o que é um bom livro? Trata-se de, aqui, entrar em terreno algo perigoso sobretudo para quem, aí, lê muito e considera que lê os bons livros, ou ainda mais para quem considera que há os livros certos e os errados e nada no meio. Não tendo nada a ver com a literatura, não sou professora de português sequer, nem tendo nada a ver com nada, posso dar a minha impressão de tudo.
Afigura-se-me, e é meramente uma impressão, que quando falam no "bom livro" estão, na esmagadora maioria das vezes, a referir-se ao romance, que nada pode ter a ver com romântico, romance aqui no equivalente ao inglês novel. E portanto aqui caberá tudo. Desde os clássicos consagrados aos mais desgraçados, até aos ´light´ que querem desgraçar ou se desgraçaram por recriação própria, ou ainda a tipos de "literatura" em voga durante tempos que depois se vão (ao estilo pop da música, e atenção que não faço juízos de valor), enfim uma panóplia de oferta e de procura para todos os gostos, línguas, e ´moods´. Não faltam escaparates e curiosamente há menos e menos livrarias. 
Mas um bom livro tem necessariamente de ser um romance? Ou só romances? Então uma biografia? E crónicas, ensaios? E livros de análise sociológica, de psicologia? E um atlas? E uma enciclopédia? Não nos dão conhecimento? Não nos abrem as portas ao mundo e às suas diversas formas e cores? Não nos fazem entrever a alma humana? Porque é que só a ficção é meritória? Aliás, quantos romances não são escritos a partir de brutais experiências sensoriais, geográficas, psicológicas? E não podemos sentir prazer ao folheá-los, aos outros, que não têm personagens e intriga ficcionais mas que nos podem empolgar ou interessar ainda assim?
Gosto de ficção - mas há alguns anos que não leio. Por várias razões, não interessa, mas penso poder dizer que o cinema substitui fulgurantemente as minhas necessidades de sonho e evasão romântica. Nesta altura, gosto francamente de me concentrar noutro tipo de leituras. E isso é ler. Isso é também adquirir algo. Ou muito, até. Porque um bom livro é sobretudo algo que nos faz crescer. De nada adianta devorar "bons livros" se se continua igual por dentro, se nada se evolui, se se fica meramente pelo devaneio, pela coleção e debitar de livros lidos e pela ausência de abertura.
Lembra-me tudo isto agora uma conhecida há vários anos. Lia muito e continuava uma preconceituosa da quinta casa. Lia romances sem parar, e andou uma altura em que leu aqueles livros todos daqueles relatos das mulheres muçulmanas sob as garras de maridos possessivos e perturbados. Claro que existiram e existem e é importante denunciar essas (e outras) histórias de horror, mas ela esqueceu-se de ler coisas como  As Escadas do Levante (Amin Maalouf) falando em "bons romances", e de ver algo diferente por aquelas (ou outras) bandas. Mau é assumir o todo pela parte. E mau é ler muito e não discernir depois o certo do errado. Mau é achar que se lê sempre o bom. Mau é ler muito e não progredir. Mau é não evoluir. Com literatura, cinema ou sem.
Bom é ler quando com isso se vai crescer.