
Vamos mal em matéria de prioridades. E vamos mal nos valores passados em casa.
Na escola onde leciono há um sistema de empréstimo de livros desde que lá estou para fazer face às dificuldades económicas dos alunos e às despesas que sempre acarreta a compra de manuais escolares. Os alunos têm de entregá-los, e em boas condições, no final do ano letivo, o que nem sempre acontecia. Vai daí que este ano tiveram de pagar uma caução por cada um deles, no valor de 5 euros.
Alegaram que não podiam pagar (a maior parte das turmas precisará apenas de 3, 4 manuais). E foram adiando, mais por preguiça e relaxamento, o empréstimo. A capacidade de imaginação e de trabalho dos professores, mais uma vez, foi salvando a situação - fotocópias, recursos a powerpoints, listenings, vídeos e demais tecnologias, escola virtual). Alunos aplicados, entretanto, nem sequer o compraram na escola - arranjaram-no prontamente, fora, nas livrarias, ou, havendo reais dificuldades, e apesar dos subsídios, por intermédio de amigos ou familiares.
Hoje perguntei pelo livro - é janeiro, as aulas começaram em setembro. Vários, imensos alunos continuam sem manual para trabalhar na aula. Está metade com, metade sem. Estratégias reformuladas na hora, aulas que não são como deviam, atenção dispersa, o velho filme de quem recusa aprender. Mas o pior não é isso. O pior é mesmo não terem dinheiro para os livros. Na maioria dos casos de que me apercebi: portáteis, telemóveis, iPads, consolas, playstations, sapatilhas nike, marcas e marquinhas, cavalos. Sim, cavalos. Deu-me, assim, a bem dizer, uma cólera que não queria tão súbita. A progenitora acabou de lhe ofertar uma égua, decerto para juntar ao cavalo da menina que está nas boxes do centro hípico da escola, não vá este sentir-se sozinho.
Claro que os livros escolares devem estar em segundo, quarto, vigésimo-segundo, centésimo, último lugar. Primeiro o entretenimento e a equitação. Os tempos livres, caramba, moldam o nosso caráter e potenciam o nosso percurso profissional, pessoal e mais ais que tais. Eu cá também acho que não devia gastar alguns muitos euros em fotocópias, quando a reprografia está fechada em horário que devia estar aberta, nem tinteiro em casa. Não sei se comprava um cavalo mas podia comprar, por exemplo, um camelo, afinal sempre é mais exótico e eu sou dada a paisagens do deserto.
Vai-se mal no mundo dos animais racionais. Que racionalizam muito pouco e assim deseducam brutalmente os mais novos. Comprar um dicionário de inglês? Não, não dá, os pais depois não podem comprar um nokia topo de gama ao menino. Ai, estas prioridades. Não as entendo e como são difíceis de entender.
































