dezembro 14, 2011

Prince charming

Vi-me assim um bocadinho para o aflita para escolher uma foto. Porque tantas e tantas, tão emblemáticas da beleza e carisma de Christian Bale.
E pensar que a primeira vez que o vi no écrã era ele um miúdo literalmente perdido nos tumultos a oriente por altura da segunda guerra. O filme era Empire of the Sun (cujo título combina duas palavras poderosas em forma bilingue), e uma grande obra de Spielberg que marcou e tocou quem viu.
O menino cresceu, em charme, importância, talento, versatilidade. Pois os papéis que faz são diversos, antagónicos, inesperados. O melhor e às vezes o pior que há dentro de nós.
O meu lado romântico atira-me para The New World  mas quantas fitas poderia listar aqui que dão conta do trabalho e do impacto do galã britânico, em crescendo também para mim.
Continua, pois, o top. Nem só de géneros se fazem as preferências, não é? Há rostos e estilos que valem em exclusivo. Este vale.


P.S. Partilhamos o dia de aniversário. Celebro duplamente, pois claro.

dezembro 13, 2011

Top 3

De quem gosto no masculino, assim tipo irresistível.



1. Exploradores, aventureiros, geógrafos, elementos do National Geographic no terreno
Aqueles que têm, obviamente, uma grande paixão pela geografia, pelos grandes espaços, pelo desconhecido, pelas diferentes culturas, pelas viagens, pelo mundo. Uma mistura de James Cook e David Livingstone em versão tempos modernos, Indiana Jones fora da ficção, audaciosos, curiosos, pioneiros, independentes, fazem, decididamente, parte do meu imaginário de heróis.






2. Jornalistas/repórteres
Daqueles que não estão sentados no estúdio e muito menos engravatados. Daqueles que fazem reportagens de locais difíceis, em zonas de guerra, a oriente e em lugares exóticos, ao estilo de O Ano de Todos os Perigos, de Peter Weir. Um romance pelo meio, a coragem, o risco, a verdade. As experiências que os fazem estar a milhas dos comuns, as vivências que espantam uma coisa chamada medo. On location, claro.




 


3. Realizadores de cinema
Os grandes cinéfilos, os grandes criadores de mitos, os grandes fazedores de sonhos. E, voilá, a cadeira de realizador, a inteligência, o colete com bolsos, o humor, a capacidade de dirigir, a informalidade, o megafone na mão, a criatividade, a ousadia, a arte, o set, a capacidade de fazer nascer ícones, a intelectualidade, o compromisso engagé, a política, a modernidade, tudo.


E não necessariamente por esta ordem.

dezembro 12, 2011

Resoluções ainda antes do ano novo

Prometo que vou arranjar tempo na pausa natalícia para ler os meus blogues favoritos (estou atrasada)  e mesmo descobrir novos
(porque é um prazer aprender com os outros)

Prometo dar mais atenção ao pequeno
(pobrezinho, diz que eu trabalho muito)

Prometo que vou continuar a gostar da net mas também da vida lá fora
(sobretudo se estiver bom tempo)

Prometo que o meu próximo texto sob o signo da rebeldia não será sobre cozinha
(prometo solenemente)

Prometo tentar escrever textos sobre coisas simples como acordar, deslocar-me para o local de trabalho, almoçar, limpar a casa e o o que faço ao serão
(vou fazer um esforço, que espero não ser inglório, por não racionalizar tanto)

Prometo que vou tentar portar-me bem, do género não ser irreverente
(oxalá consiga, para o bem comum)

Prometo que continuarei a rir  e a sorrir, assim haja saúde
(a ser animada e a colorir tudo o que é cinzento)

Prometo uma série de coisas que agora não vêm ao caso
(e das quais nem me lembro)

Prometo continuar por aqui  se depender da minha vontade
(que é habitualmente de ferro) ( a vontade) (eu não sou nadinha de ferro)

Prometo
(eu que nem aprecio promessas - apenas a do Bernardo Santareno)

dezembro 10, 2011

Rebeldias


Se há coisa que gera consensos é a cozinha. Falar-se de religião, de política, de filosofia, de literatura, de cinema até, de futebol, de cultura e tantas outras coisas mais, que implicam formas de pensamento mais organizadas e ao mesmo tempo podem levantar, algumas delas, mais paixões pessoais, é, de facto, bem mais problemático. E, assim, muitas  pessoas coíbem-se mais de emitir opiniões. A cozinha, a gastronomia, pelo contrário, e o culto da mesa e da (boa) comida são, definitivamente, uma área de segurança. As pessoas exultam perante o cheirinho de um belo assado, o sabor de uma sobremesa deliciosa, a frescura de uma bebida de verão. E nunca se zangam, nunca discutem, nunca se dividem. Mesmo se os gostos não coincidirem perfeitamente, não faz mal - o gosto está lá, sobretudo aquele que passa pela cozinha ( a parte da casa de que menos gosto) e pela arte de deliciar através dos aromas a saber bem.
Primeiro é uma necessidade básica, e depois é um um aspeto de identidade cultural, uma tradição, um conhecimento que é passado de geração em geração, não invalidando que surjam novas abordagens, novas propostas, novas receitas. Há um campo de infinita criatividade que pode ser cultivado. E quem cozinha, é sempre elogiado ( e está certo que o seja). Quem não saliva perante bons e belos pratos? Ainda por cima, não é uma atividade intelectual, por isso pode reconhecer-se o talento gastronómico à vontade, especialmente se se for mulher. A fada do lar e a boa cozinheira são sempre e ainda, quer-me parecer, mais apetecíveis ou populares do que as que fogem da cozinha ( e dos bordados e do ponto cruz e outras cruzes). Pois a cozinha reconforta-nos, alimenta-nos, aguça-nos o apetite. Outros talentos já nos incomodam mais ou deixam-nos sem palavras, não somos capazes de os reconhecer verbalmente. Daí que seja notoriamente mais fácil ser-se visitado, em sentido conotativo, quando se oferecem bolinhos ou bacalhau cozinhado de mil maneiras.
Não que eu tenha nada contra os bolinhos. Sou até bastante, por demais apreciadora de tudo o que é doce em termos de sabor, não resisto a sobremesas, adoro a nova cozinha em que o prato parece vazio - sim, a estética gourmet deixa-me de água na boca, enquanto um prato ao estilo rancho me dá azia. Adoro restaurantes (mas não me convidem para jantar na cozinha, se já fujo da minha, imagine-se o que sinto na dos outros), petiscos e roteiros gastronómicos. Portanto gosto de apreciar e degustar iguarias e de que maneira. (Não gosto de culinária, claro. E a visão da cozinha não é nem será para mim erótica, e muito menos o frigorífico, ao estilo das nove semanas e mais meia. Tal eletrodoméstico só me gela a temperatura. E, já agora, o fogão? Outro não, é um tipo de fogo que me põe a milhas.)
O que eu quererei dizer com isto tudo é que a cozinha - quer como arte quer como espaço - faz parte do imaginário e das fantasias de muitos, e que é fácil haver, assim, manisfestações de júbilo por qualquer coisa que cheire a confeção - sejam livros, sejam posts, sejam programas, sejam workshops, sejam lá o que for. E está isto muito e muito bem. Está na moda e trata-se de um entusiasmo do qual, também eu, posso beneficiar muito, se sentada para jantar. Mas, e perdão por ser assim, se a ler ou a tirar algum tipo de realização pessoal,  sabe-me a pouco. Trata-se de um gosto que, por defeito de fabrico, falta de pachorra ou algo parecido, não passa por além do paladar. Sempre fiquei a conversar com a ala masculina em reuniões de família e outras, enjoam-me as conversas de receitas.
Obviamente que, e infelizmente, não sirvo (para) bolinhos.

dezembro 09, 2011

Pós


Isto do pós party é um bocadinho difícil.
Já não sei quem disse, porque o li há muito, penso que terá sido Nietzsche, que as maiores obras são escritas no meio de grandes crises. Ou seja, por outras palavras, o sofrimento traz a genialidade. Quererá isto dizer que precisamos de estar mal para fazer e, neste caso, escrever bem? Não creio, no sentido em que se pode escrever bem, sem se ser genial, estando-se, também, bem. Mas realmente quando se está muito bem, a passar umas belas férias, no início de uma paixão nova, em espírito de festa porque se está verdadeiramentre alegre e a celebrar com verdadeira vontade, e noutras do género, torna-se mais difícil discorrer sobre qualquer ideia, ou pelo menos registá-la com um toque minimamente convincente. Porque se está meio tonto, não dizzy mas foolish, meio apalermado de contente e portanto não se diz grande coisa (sim, também é uma pretensão dizer que se diz algo importante quando se está sóbrio de ideias).  Não há condições que favoreçam a reflexão e o pensamento.
Celebrar é o oposto de pensar, em última instância. E, desta forma, é o festejo inimigo da criação. E será isto necessariamente mau? Não, não, de todo. Porque se conforta e revigora o corpo , porque se renova a alma e porque se dá descanso ao cérebro. Tudo junto, trata-se, pois, de um espantoso yin yang, essencial para seguir em frente.
Nietzsche, e a ser ele, sabia o que dizia mas eu acho que também sei. Salvaguardando as devidas distâncias, claro, que não são poucas. Uma delas é não almejar, mesmo se fosse possível, a qualquer tipo de estatuto de genial infeliz.

dezembro 07, 2011

Tempo de festa

 
A celebrar.
O trabalho como uma espécie de jornalista.
O aniversário do pequeno.


O primeiro está a ser um grande prazer, aliando o gosto pela escrita à coordenação do jornal nas suas várias frentes (Diário de Aveiro, O PONTO - hoje saiu um suplemento de 8 páginas, Revista Anual -  a sair brevemente, Anuário - lá para o fim do ano letivo, e o blogue da escola. Nova (não, a bem dizer não ) paixão.

O segundo é o grande prazer. A grande paixão. O coração cheio no meio da loucura das travessuras e na ternura das doçuras. Como é bom ser feliz assim, de maneira simples, incondicional, absoluta. Como o simples e o absoluto convivem e fazem viver, dando um incrivelmente maior propósito aos meus dias.

Como estou feliz por tudo e por hoje.

dezembro 04, 2011

10 things I hate about winter

great pic, sad soul

- dark, gloomy days
- insistent, persistent little rain
- the cold
- confinement. compulsory confinement, more like it.
- neverending evenings
- throat ache and coughing and colds and the flu and other illnesses
- naked trees
- umbrellas
- empty streets
- artificial lighting

As much as it may be absolutely glorified in stylish photography or in iconic movie scenes I surely don´t like to feel it. Look at it, ok, but not actually feel it. Xmas spirit, fireplace and family, romantic and snowy postcard-like stuff, blah blah blah, nice, sure, but still I don´t like it.
Is there a button to skip winter? Anywhere?

 
P.S. I´m starting a new tag today - In English. I had to do it. Didn´t I?
P.S.2. I´ve just realised, to my despair, it is still autumn.

dezembro 03, 2011

O riso e o siso



Será possível alguém brincar e rir a tempo inteiro e esperar certo tipo de credibilidade?
Sim e...não.
Vamos por partes.
1.A tirada de sabedoria popular portuguesa "muito riso pouco siso" parece injustiçar pessoas bem dispostas, brincalhonas e risonhas que, não obstante, mostram competência naquilo que fazem e sobretudo maturidade naquilo que são.
Não tem que se ter semblante carregado nem ser  altamente cirscunspeto e cismático para se ter valor, só faltava essa.  Rir é bom e recomenda-se, alivia as tensões, alegra quem está à volta, espalha bom ambiente em redor. Não é por se ser engraçado e divertido que se deixa de assumir responsabilidades e que se é incapaz de aprofundar as coisas com mais intensidade. Especialmente quando o caso é sério e exige uma postura adequada. Não se pode ser leve e superficial perante um problema, uma angústia, um dilema, uma doença. Pode ser-se otimista, o que é uma coisa completamente diferente, mas não frívolo. Ainda mais se as inquietações forem de outros. Aí entrar-se-á no campo da não desejável insensibilidade, da falta de sentimento e ausência de compaixão.
Rir e brincar é potenciar o positivismo, o sentido de humor como algo fundamental para dar mais cor ao cinzento dos dias e luz às pequenas depressões do quotidiano. A leveza e a alegria são refrescantes, revigorantes, estimulantes. E poder trabalhar, por exemplo, desta forma é reforçar a motivação e a produtividade. Sem mais nem menos.
2.Mas temos que ter cuidado. Há quem ria e brinque o tempo todo por nítida (ou não) incapacidade de lidar com a parte séria e lunar da existência. Incapacidade de enfrentar as situações menos boas, os sentimentos menos luminosos, as fases menos positivas. Enfrentar e dissecar, analisar, conversar sobre, aprofundar, no fundo, sentir. Manter-se numa nuvem leve perto do sol parece ser a sua (procurada) arma, como se o coração não pudesse ser atingido pela chuva, pela tempestade que desabriga outros, pelo trovão que assusta e cujo relâmpago pode, inclusivamente, aniquilar. Trata-se de um refúgio, de uma capa, máscara ou então pode até ser tontamente natural. Podemos até todos ter um lado assim, que nos faz manter orgulhosamente dignos e/ou inverdadeiros no meio de um temporal de emoções ou dores.
Será porventura mais grave quando esta postura é permanente. Grave? Se calhar não. As pessoas assim sofrem menos porque sentem muito menos. Mas também não podem esperar que sejam confiáveis para a confissão de reais problemas. Não serão um porto de abrigo eficaz porque não saberão ter a profundidade necessária para um aconselhamento maduro, sentido, até experiente. São, na verdade, eternos miúdos. Quem não gosta das crianças? Da sua genuína alegria sem dramas? Mas quem lhes pode confiar uma dúvida, um segredo, uma perturbação? Pois levam a vida a brincar e só assim são vistas. Um adulto que não consiga refletir nem partilhar pesos não pode esperar que os outros que o fazem o façam consigo. Porque não é simplesmente credível. Não o levamos a sério. E porque, não tendo de se ser sério, há alturas em que a seriedade é pedida ou exigida. Sob pena de rótulos como tontice e frivolidade nos serem colados.
3.Parecerá, então, natural que o equilibrio entre a leveza e brincadeira e a profundidade e sentimento seja o que mais se aproxima do ideal. Poder rir e brincar e ainda assim conseguir descer até ao âmago da questão, consoante os momentos, as pessoas, as necessidades e a verdade, pois claro. O cerne reside todo, afinal, na capacidade de não iludir a verdade. E, assim, os outros. Ou, pior, a si mesmos.

dezembro 01, 2011

Uma companhia


Cada vez que dou a Rádio no módulo "Os media e a comunicação global"  lembro-me sempre de um conto de Manuel da Fonseca - Sempre é uma companhia.
Para além de falar dos dias da rádio à la Woody Allen, de contar invariavelmente o episódio de Orson Welles na sua guerra dos mundos, e mesmo de passar o velho clássico dos Queen, à falta de melhor música, lembro-me sempre deste conto como referência para um certo estilo de vida, simples e mais comunitário, em tempo de ditadura e longe do teor consumista da sociedade portuguesa de hoje. Não o exploro em aula, a literatura portuguesa não combina com o ensino do inglês, mas a verdade é que nos ajuda a ter um pequeno vislumbre de como era viver a informação (e algum entretenimento) antes do advento da televisão. E de como a solidão, pessoal ou de uma comunidade, podia ser de certo modo confortada por um simples aparelho.
Já nasci com a televisão e os alunos já nasceram com os computadores e mesmo com a internet. Não sabemos o que é termos de nos deslocar ao café central da aldeia para ouvir as últimas notícias do país e do mundo. Mas quando era  pequena lembro-me de ouvir os "Parodiantes de Lisboa" ao almoço, gargalhadas e piadas que nos faziam sorrir, num ritual de alegria marcado para o meio dia. E foram anos a ouvir os discos pedidos, a vibrar com as escolhas, e outras vezes não, num altura ainda parca em quantidade de aparelhos de som a preços de hipermercado. Na adolescência sonhava acordada aos sons românticos do legendário e resistente "Oceano Pacífico", as ondas do mar a levarem-me para longe e a fazerem-me imaginar histórias e finais felizes. Foi uma grande amiga.
Atualmente, a rádio não será sempre a companhia que se procura. É difícil competir com a imagem, com a cor, com a voracidade visual de outros meios de maior impacto. Mas pode sempre ser ainda uma ótima companhia para muitos, em viagem ou no trabalho, na solidão da noite ou ainda da vida, no sentir de um romance ou de uma desilusão, quer se procure estar atualizado ou quer se vivam momentos mais intimistas ao som de música que toque também na alma. Intimistas, porque escutar a rádio é uma espécie de peculiar relação a dois.
É caso para reiterar, como na canção - rádio, alguém ainda gosta de ti.

novembro 29, 2011

Hoje


Hoje assisti a uma cena terrível, porque dolorosa para quem a viveu.
Hoje soube porque a mesma aconteceu.
Hoje descobri uma novidade que já não o era.
Hoje senti compaixão de uma miúda.
Hoje vim para casa preocupada.
Hoje comprovei que Portugal tem realidades não mais que medievais.
Hoje temi pelo futuro de outros.
Hoje fiquei comovida.
Hoje senti-me sensível.
Hoje mas não sempre.
Porque, assim, outros estarão a sofrer menos.
Hoje foi um dia difícil.
Porque feito de um estranho frio.

Fidelidade



Um filme que é  uma incrível história de amor. De um homem por uma mulher,  e pela verdade, de uma mulher por uma causa, e pela verdade. E nossa, por um continente, e pela verdade por detrás do sofrimento. Para os amantes das viagens geográficas à procura da verdade, para os incondicionais do amor que vive para lá da morte.
O jardineiro, que não o era de profissão, manteve-se fiel. Fiel à esposa e sobretudo à sua memória, fiel à verdade, fiel a si mesmo. E nós mantemo-nos fiéis porque colados ao écrã desejando que a verdade fosse outra.
Um filme que desperta consciências, que nos acorda para questões humanitárias, que nos rompe a alma.
Trágico, belo, emocional, envolvente, tocante.
Quando o vi, senti um apertado nó na garganta. Impossível não sentir alguma dor. De cá de longe, na minha feliz existência de queixumes que não são nada. Triste pela Tess e pelo seu jardineiro, ambos mortos em África, por uma verdade que procuraram. E triste por um continente que se teima em não deixar florescer.
O sufocante cheiro da morte que intoxica as boas intenções de quem quer ainda mudar o mundo.

novembro 25, 2011

Looking back

                        
"Faria tudo igual outra vez?" Há um denominador comum na resposta a esta frequente pergunta. Trata-se de um unânime sim. Assim, sem mais nem menos. Não há cá arrependimentos nem hesitações, ao invés, exibe-se como grande certeza a escolha do caminho certo ou a tomada de decisões acertadas. Segurança absoluta. Não haveria outro percurso, fruto de uma clara opção, claramente.
Não acredito em nada disto, está claro.
Esta afirmação de que tudo o que se fez ou se experimentou ou não se fez e não se experimentou não é ou não foi passível de reflexões à posteriori afigura-se como uma arrogância existencial, como uma ideia errada de domínio sobre a vida e os outros. Pois quantos de nós não acharemos que, pelo contrário, mudaríamos muita coisa? Ou, pelo menos, algo? Quantos de nós acharemos as nossas escolhas e decisões sempre sensatas e justas e adequadas e perfeitas?
Uma amizade que se perdeu porque nunca se esclareceu o que faltava esclarecer, um amor que não se viveu porque não se deu a mínima hipótese, um emprego que não se conservou porque o esforço podia ter sido maior, uma nota que foi baixa porque não se preparou um exame a caminho, um conflito pessoal porque se ouviu quem não se devia ouvir. E tantas coisas que não vingaram por palavras erradas, por palavras desnecessárias, por palavras precipitadas, por palavras más.
E outros tantos atos impulsivos, tresloucados, fora do tempo e do contexto, tontos, irracionais, stressados, apressados, e mais tantos que tais. Argumentar-se-á que as pessoas aprendem com os erros - verdade, embora umas mais do que outras - , que tudo faz parte da grande experiência que é a vida, que é preciso é seguir em frente. Não penso, logicamente, de maneira diferente. É preciso seguir adiante, sim. Mas também quantas vezes magoamos os outros e nos magoamos a nós mesmos neste processo? E quanta dor não foi sentida? Ou quantas aventuras e alegrias foram eternamente adiadas?
Mais vale viver do que não viver de todo. Assino por baixo. Mas quantas coisas ficaram, também, por viver? Quantas coisas por fazer? Quantas coisas por ver, sentir, sonhar? Quantos novos caminhos por trilhar? Porque a maturidade permite-nos olhar para trás e refletir de forma bem mais imparcial, mais desapaixonada. O tempo matou, entretanto, a emoção. E não acredito que não fizéssemos as coisas de maneira diferente, sabendo mais agora. Não se sabia e muitas vezes foram as ações possíveis. Mas como carregadas do ímpeto da juventude ou da ingenuidade da mesma, acredito que a resposta de hoje à pergunta inicial é outra.
Mas é preciso um conjunto de requisitos. Se formos verdadeiros, se formos humildes, se evoluímos, se nos conhecermos, se soubermos refletir, se formos capazes de o admitir. Sem qualquer tipo de saudosismo nem culto de tiradas populares, não, não fariam, se soubessem o que sabem hoje.

novembro 22, 2011

Outros filmes

 

Num tempo em que não havia canais privados, num tempo em que não havia internet, num tempo em que não havia tantos efeitos especiais, num tempo em que eu fui adolescente, num tempo em que havia mais e melhor tempo.
As tardes da RTP (e também muitas noites) eram preenchidas com cinema clássico, maioritariamente de origem norteamericana mas ocasionalmente filmes italianos, franceses, britânicos. Os rostos e os nomes de uma incrível galeria de atores foi-me sendo, pois, altamente familiar, tendo aos 16,17 anos uma cultura cinematográfica relevante. Os meus colegas de liceu impressionavam-se com os meus conhecimentos na área, mas, de facto, era uma muito jovem cinéfila. Comprava livros de cinema e colecionava resumos de filmes, muito interessantes na altura, da revista TV Guia, para além de mini biografias, os quais colava num caderno A4 e que constituía uma espécie de bíblia que confortava a minha avidez pelas fitas. Os nomes dos realizadores também não me passavam, evidentemente, ao lado. E fui contruindo a minha lista de favoritos, ganhando os anos 50 e 60 como as décadas da minha preferência.
Cinema mudo nunca gostei. Anos 30 e 40, pouco, excetuando alguns filmes e figuras que são, naturalmente, geniais. Mas, no geral, achava tudo algo insípido, ou melhor, demasiado clássico. Os anos 50 e a geração de Brando e Dean trouxeram um cinema mais autêntico, mais problemático, mais perto da realidade, porque mais moody e mais psicológico. Era grande fã do Método de Stanislavski que foi ensinado no Actor´s Studio, inclusivamente por Lee Strasberg, e que criou uma geração de atores, a meu ver, assombrosa. Era, no fundo, uma intelectualização do cinema, longe das performances ligeiras e sem traumas das gerações anteriores. Até Marilyn o procurou, como forma de mostrar que era mais do que uma loura tonta. O fabuloso filme The Misfits ("Os Inadaptados") mostrou-a de maneira completamente diferente, indo também repescar um ator da velha guarda, a tal  mais heróica e menos introspetiva - Clark Gable.
A partir daí e até meados dos anos 70, quantos atores fulgurantes me deixaram marca. Mas os realizadores desta época também me marcaram muito com as suas longa-metragens. Elia Kazan, Robert Mulligan, Sydney Pollack, Martin Ritt, Robert Rossen, Joseph L. Mankiewski, Otto Preminger, George Stevens, Vincent Minnelli, só para mencionar alguns americanos e de cujos filmes ainda tenho memória. As suas obras eram, sobretudo, dramas. Histórias mais profundas, estados de espírito mais lunares, personagens menos perfeitas. E, no entanto, que belos filmes fizeram. E como tenho saudades desse absoluto classicismo, que desapareceu quase completamente do grande écrã. De um certo tipo de romance, como em "Esplendor na Relva", "Flor à Beira do Pântano", "Hud, o mais Selvagem entre Mil", "Lilith e o seu Destino", "Bruscamente no Verão Passado".
Ou "Verão de 42". Um filme que evoca uma geração, uma etapa, uma aprendizagem, um despertar. Outro(s) tempo(s).

novembro 20, 2011

Siga (,) de acordo


Tenho que ir avisando. Não sou linguista, historiadora, nem estudiosa de absolutamente coisa nenhuma. Registo aqui meras impressões, que valem o que valem, as tais incursões de que fala o subtítulo do blogue.
Posto isto, penso poder começar.
Ensinar uma língua estrangeira pode (e deve) dar novas perspetivas sobre as coisas. Não olhamos para a língua como algo estanque, apanágio só de alguns - dos falantes nativos, neste caso - , como algo imutável, de raízes históricas e de propriedade exclusiva. Olhamos para ela sob uma perspetiva eminentemente prática.
Assim sendo, temos uma visão de como é aprender a língua pela primeira vez, as dificuldades que pode causar, e também o potencial que significa em termos de comunicação global. Não há nada de mal na comunicação global - a aproximação das pessoas e das culturas é cada vez mais fácil e frequente, devido aos avanços tecnológicos, e isto não é. de longe, negativo. Apesar dos problemas que possam surgir da mistura e da diversidade, os benefícios são sempre e sempre maiores. E isto é ponto assente para mim.
Todos os dias agradeço o facto da língua inglesa não possuir acentos - eu e os meus alunos, que é por causa deles que fico satisfeita com tal caraterística, sendo menos um obstáculo para a sua aprendizagem. Agradeço pela simplicidade da sua gramática, pela abertura em conter vocábulos de tantas diferentes origens, pela descontração que, os native speakers, ao que me parece, encaram a sua língua - ou melhor a língua que já não é só sua. Pois, como todos sabem, tornou-se, por vários fatores, uma língua de caráter universal (negócios, comércio, ciência, tecnologia, pesquisa...).
Onde quero eu chegar, afinal?
Num ponto controverso - o novo acordo ortográfico. Na recusa e repulsa que está a causar entre tanta gente. Numa espécie de guerra que se está a instalar - de um lado os defensores da língua portuguesa, do seu património, visto daqui, da perspetiva do berço da língua - do outro os "paladinos do acordo", os que atraiçoam a sua língua por ousarem concordar ou apenas seguir, o inevitável. Pessoalmente, não quero comprar esta guerra. Não faz parte das minhas inquietações, não perturba os meus valores (que, quero acreditar, são humanistas). E não me considero traidora porque estou a tentar escrever de acordo. Nem nada que se pareça.
Ao princípio, confesso, estive quase contra. Não queria ser incomodada nos meus hábitos com uma reaprendizagem. Disso dei conta aqui, num pequeníssimo post anterior. Como me custou tirar o C do título do blogue. Mas porque o tirei, então? Porque não? A dor inicial, neste caso, baseava-se apenas numa questão estética, porque funcionalmente nada seria afetado. Porque acabei por seguir de acordo? Bem, porque sou prática, porque na minha escola é um dado já adquirido e porque não vejo a língua portuguesa como só minha (porque se visse isto do ponto de vista estritamente pessoal, realmente era uma trabalheira, um esforço de adaptação). Vejo-a como de todos - dos que a falam, aqui, do outro lado do Atlântico, em África e no Oriente, mas também dos que a aprendem. Então, veja-se.
Não será mais fácil, funcional, eficaz para quem aprende português, ter muito menos acentos? Não ter consoantes mudas que, na verdade, não dizem nada? E outros pormenores que visam uma maior simplificação? Penso que sim. Não se está a olhar para o passado, para a história  da língua, mas para o futuro. A aprendizagem da nossa língua será mais facilitada, tanto para as crianças que a aprenderão como para os estrangeiros que a quererão ou necessitarão de aprender. À semelhança do que se passa com o inglês, não me importaria nada que a minha língua fosse muito mais aprendida, e como a simplicidade ajudará nessa aprendizagem.
Pode, nesta altura, argumentar-se que o inglês respeita a diversidade no que diz respeito às suas variantes. Mas, de facto, as diferenças não são grandes, de todo. Elas situam-se essencialmente no vocabulário, algo próprio da distribuição geográfica ( e, está claro, nos sotaques), mas não tanto na grafia. Aqui, são poucas as variações. Quando ensino, tenho em conta a grafia norteamericana de algumas palavras e registo-as. Mas no essencial o inglês é bastante unificador. E assim deverá ser apreciado - como um todo.
Posto isto, conclui-se. Conclui-se que não gosto desta guerra, destes dois lados que se vêem como inimigos e, sobretudo, se me vêem como inimiga da minha própria língua. Não sou, obviamente. Apenas encaro isto tudo com descontração e otimismo para o futuro. Vejo, por defeito de profissão, a língua portuguesa como sendo de todos, de quem a queira aprender. A língua inglesa também é minha, quero pensar. As línguas existem para se poder comunicar, expressar ideias, trocar experiências, não para preservar qualquer tipo de ego nacional. Ter orgulho da própria cultura é fantástico, aprisionar essa cultura de forma possessiva e fechada, não me parece tão positivo.
Sei que é polémico. Sei que nada sei. Sei que isto é apenas uma impressão. Sei ainda pouco sobre o novo acordo. Sei que  não estou em desacordo. Sei que alguns, muitos, não gostarão. Sei que tudo é relativo. Sei que gosto da minha língua. Sei que gosto de escrever, em português. Sei falar inglês. Sei que gosto que o inglês seja simples. Sei que gosto de comunicar. Sei que gosto de ler os outros, com ou sem acordo. Sei que não gosto de guerra. Sei que gosto do meu país, apesar de. Sei que gosto de viajar. Sei que gosto de evoluir. Sei que gosto de história. Sei que vivo no futuro, muitas vezes. (Há lá coisas muito interessantes.)
Siga.

novembro 18, 2011

Aprovado


No outro dia conheci um jovem marroquino numa festa. Muito jovem mesmo, culto, bem vestido, estilo citadino moderno, encontra-se a fazer mestrado na universidade da cidade.
Disse que Gadaffi sempre foi um grande louco, que Bashar Al-Assad é o grande assassino e que a Arábia Saudita, onde já viveu algum tempo, é uma grande ditadura. As mulheres não podem conduzir, dizia indignado. E os EUA apoiam este tipo de regime. E acrescentava depois que o Irão apoia clara e vergonhosamente a Síria e que esta tem passado incólume a uma intervenção estrangeira, ocidental, devido precisamente a isso. Estas e outras ideias indicavam claramente a independência de espírito que tanto aprecio. E da política saltámos para os costumes.
O que me ri, pois. Contava ele que os seus pais, ambos professores, tinham casado em apenas três horas. Que não deram a mínima importância à tradição árabe, a do casamento durar vários dias. Entre gargalhadas, lá foi contando que toda a gente se espantou com (e criticou) tal opção. Família, comunidade local, Marrocos inteiro até. Ridículo, concordávamos. Porque também não sou destas festas, não tenho pachorra e é um desperdício de dinheiro. De quem não o tem inclusivamente. Nesta altura, um paquistanês anuía. Gastam tudo o que têm para impressionar os outros, disse, como se aquele dia fosse o último, o culminar de um percurso que termina ali. Ridiculous, again.
E lá recordei, em total sintonia de ideias, um casamento a que assisti na Tunísia. Quatro dias, melhor, quatro noites de festança. E era da parte do noivo, pois ao que parece na casa e no caso da noiva chega a ser uma semana. Cada luar trazia uma cerimónia diferente, um ritual diverso, um apontamento novo. Convidados que nunca mais acabam, porque vem toda a vizinhança, para além da família, e até podem juntar-se transeuntes ou conterrâneos. Costumes muito diferentes dos dos casamentos aqui. Não passa nada pela mesquita, ou pela religião, por exemplo, o que à partida pode surpreender. Ou não. Nem pela gastronomia, de todo. Muita música e dança, sobretudo. Aos primeiros acordes, toda a gente se levanta. Mulheres e homens dançam separadamente, mas com muita alegria. Deveras interessante do ponto de vista intercultural, antropológico, mas uma maratona de cansaço para a família e para o noivo e poupanças que se vão, especialmente com a despesa da última noite, que é a mais apoteótica. E para quem não tem paciência para casórios e dançarias, como eu, há infinitamente melhores programas.
O que tenho eu a ver com o que se gasta? Nada, claro. Mas não pude deixar de pensar que o que vem depois é bem mais importante. Como diziam os meus convivas, em vez de investirem na casa ou até numa pequena viagem dão uma mega festarola para inglês ver. Perdão, árabe. Ou até português, como foi o caso. Mas não se veja aqui qualquer tipo de crítica de cariz étnicocultural, isso não. Não me identifico com este tipo de mentalidade, venha ela donde vier. A ostentação irrita-me um bom bocado. O orgulho, o brio, a originalidade, não, são positivos, mas o show off sem base de sustentação, nomeadamente financeira, não o compreendo. Prioridades das quais não comungo. Ainda por cima se ditas pela tradição. Cruzes.
Mas, cá ou lá, nem todos são iguais. Ainda há quem não dê maiores passos que as pernas. Quem distinga o essencial, quem pense fora de esquemas de pensamento organizados, quem não ligue a tradições, quem decida por si próprio, quem não se endivide tolamente, quem saiba impressionar-se apenas a si mesmo. Omar, estás, evidentemente, aprovado.

novembro 17, 2011

RETROperSPETIVA

Não sou grande fã de objetos retro (a não ser que sejam pop art) e detesto antiguidades. Para falar a verdade, estas deprimem-me. As feiras de velharias que proliferam por aí, e que acho muito bem que se façam, não são poiso para mim. A falta de brilho, as coisas velhas, a quinquilharia decadente, a inutilidade de grande parte delas, as coleções que não me dizem nada - moedas, postais, mais moedas, selos, moedas e mais selos, um pavor. Para mim, leia-se.
Não gosto de decorações antigas, sobretudo se tiver que me mover entre elas por algum tempo. Uma coisa é um luxuoso hotel decorado ao estilo século XIX, outra é ter em casa escrivaninhas do século XVII, uma cama do século XV e ainda um baú da época medieval. Credo. E quadros antigos? Daqueles que não são Van Goghs nem Klimts nem nada de geniais telas? Não gosto, não gosto. Prefiro o décor moderno, amplo, espaçoso, estilo lounge. Casas empilhadas de tralhas velhas põem-me, a bem dizer, doente.
Mais. Termas à antiga, fugir. Spas século XXI, sim, ir.
Parques com bancos antigos revestidos a antigos azulejos agora partidos convidam-me a ir para outro local. Fugir.
E bares vintage, que estão tão na moda? Fugir ou ir?
Bem, cafés vintage podem ser altamente estimulantes, mas tudo dependerá do grau de conservação e manutenção do espaço. Ou seja pode ter elementos decorativos de décadas ou séculos passados mas há que haver ali uma estética, um estilo que convide ao conforto, ao bem estar. Sem isso, nada feito. O Mercado Negro é um bar muito apreciado por uma certa élite universitária e não só e, porém, não gosto (certamente que o bar também não gosta de mim, não estou, pois, a fazer ninguém sofrer). Entro lá e só a visão daquela cozinha antiga, em estilo quase degradado, transformada em bar, gosh. Não gosto muito de cozinhas e muito mas muito menos de cozinhas antigas. (Nem de cebolas penduradas do teto - leia-se tecto - nem de alhos nem de chouriços nem nada parecido a pender.) Nossa senhora.
E feiras com roupa em segunda mão? Depende. Uma vez em Londres comprei umas camisolas numa dessas feiras. Vesti-as com um gosto tal, achei que era mesmo muito in, muito cool, muito londrino. Mas por cá confesso que não pratico, não sei. Será porque não há uma Candem Town por aqui perto? Deve ser.
Não sou, portanto, apreciadora de coisas usadas e de mobilário e bibelots que já tiveram o seu tempo.
Contudo, CONTUDO, adoro filmes de época. Estranho, não? Pus-me a pensar em mais esta grande incongruência minha. E talvez possa dizer-vos que é por me permitirem fazer uma viagem. Sempre gostei da ideia da máquina do tempo, que me pudesse transpor facilmente para uma qualquer época passada à minha escolha. E porque me permitem sair da realidade urbana, do frenético ritmo da sociedade atual. Viajo e ausento-me, vou para outros lados, conheço outros tempos e vivo outras histórias. E já agora viva o cinema de época e os filmes do passado. Dos quais gosto, claro, cresci a ver clássicos, inclusivamente a preto e branco. (Ah, gosto de fotografias antigas, de as ver. Mas não de as ter espalhadas pela casa, como já era de calcular.)
Viagens ocasionais ao passado, vistas no grande écrã, sim. Décor antigo, sem laivos de modernidade ou exotismo, sem espaço e sem design ... não. Ele há coisas.


novembro 15, 2011

O Marginal

Matt Dillon

Está mais velho e não gostei de o ver ao lado de Cameron Diaz (de quem não gosto, não consigo) naquela comédia em que também entra o Ben Stiller. Mas  já gostei muito de o ver em Crash, porque, no papel de um racista que vem a redimir-se, não deixou de passar uma estranha mas poderosa aura sensível.

Na sua juventude, os papéis que fez para Francis Ford Coppola marcaram uma geração. De ar e atitude rebelde, beleza sem fim, uma fina sensibilidade, eletrizou o écrã, num registo de mau rapaz com coração bom. Rumble Fish é inesquecível. O seu Rusty James, de fita na cabeça e mangas à cava, lembrava a geração de Brando e de James Dean nos anos 50 do século passado, em recortes de afirmação de uma juventude inquieta.

Discreto na vida pessoal, e provavelmente subaproveitado nos últimos tempos, possui, na sétima arte, uma icónica galeria de fotos que expressam um look, um estilo, uma identidade. Polegar para cima, definitivamente.

novembro 12, 2011

Histórias da meninice


A minha professora da escola primária era a D. Maria Augusta. Uma mulher alta e de constituição forte, austera na forma de vestir e na reputação que construiu. Muitos miúdos temiam-na e um chegou mesmo a confidenciar-me, muitos anos mais tarde, que tinha odiado a escola e que nunca mais quisera estudar.
Tinha dois filhos, uma menina, mais velha, e um menino meiguinho de ar adoentado, grandes olheiras e um sobretudo no inverno, que se chamava Zézinho. A professora morava num bairro chique da cidade, mas sei que rumou a sul,  algum tempo depois da tragédia. Nunca mais soube dela.
Relembro-a incontáveis vezes, faz parte do meu ideário de menina, num tempo em que fui feliz na pequena escola de uma área que também eu deixei para trás. Severa, sem dúvida, fama de exigente, e igual proveito. Mas era uma figura que eu admirava, que me ensinou e preparou muito bem, que me cativava para a aprendizagem, que me estimulava quando me destacava. "É sempre a nossa desenhista", disse, enquanto sorria e afixava um desenho meu no placard, e enquanto eu exultava, contente, com a pequena vitória no pequeno concurso de artes.
Quando estive doente com uma infeção intestinal, e no tempo que o médico ia a casa, foi visitar-me. Alegrou-me a sua visita - na verdade, reverenciava-a, fruto também de um enorme respeito que havia, naquela altura, para com os professores. Era comum dar-se presentes (hábito que quero absolutamente preservar com a educadora do meu pequeno). Numa ocasião, compramo-lhes  um exótico elefante numa feira de artesanato, que lhe fomos depois levar a casa. Não me lembro dos outros.
Um dia, veio a notícia triste. O Zézinho falecera.  Fiquei muito preocupada durante semanas. No nosso livro de Português, lá mais para a frente, havia uma lição com um menino chamado Zézinho. Como evitar que a professora Maria Augusta passasse por tamanha dor? A de repetir e relembrar o seu pequenito desaparecido precocemente? Andei a magicar naquilo. Disse, então, aos meus colegas para colarmos todos as folhas para que aquelas duas páginas desaparecessem miraculosamente - assim, aquando da altura da lição diríamos à senhora professora que não tínhamos nada disso no nosso manual. A ideia, tonta de inocência, não foi adiante. Mas lembro-me perfeitamente da minha angústia e depois do dia em que chegou a lição e da professora dizer - como compreendem não a vamos dar. E de como, de maneira simples, ultrapassou aquela página.
A minha escola primária permanece, ainda hoje, como uma feliz memória de tempos maravilhosos untados a frescura e deslumbre. Do gosto por aprender às brincadeiras do recreio, da excelente aluna que era à dor da professora vestida de preto até ao fim da escolaridade, dos dias de festa assinalados por almoços e cartõezinhos especiais às caminhadas traquinas em grupo até à escola.
Que doce recordação, apesar de tudo, a dos meus dias de escola terem sido assim.

Open mind


É a cultura sinónimo de abertura? Afigura-se-me que não.
Amiúde se poderá observar que ser-se culto, mesmo cultíssimo, não é necessariamente sinónimo de ser-se aberto ou adaptável. E, todavia, é a capacidade de adaptação uma das grandes virtudes do nosso tempo. 
Há por aí e além inúmeros indivíduos possuidores de grande cultura - por formação, por educação, por interesse, por investimento. Mas mostram-se, também, frequentemente intransigentes nas suas ideias, pouco tolerantes perante o que escapa à sua seletiva escolha. Mostrar-se herméticos e guardadores intocáveis das suas preferências e paixões é, de resto, parte da sua curiosa persona. E, assim, excluem outras formas de pensamento do seu aval, menosprezando-as e rotulando-as, não raras vezes.
A fidelidade à nossa identidade, pessoal e cultural, é positiva, naturalmente. Também penso que é necessário e saudável que se selecione. A multiplicidade e quantidade baralham, confundem, atrapalham, na sua generalidade. Mas, contudo, também podem enriquecer. A diversidade acabará por ser, quase sempre, profundamente enriquecedora. E o que é fundamental aqui é que a abertura possibilita uma permeabilidade sensível ao outro, e quão fundamental é conseguir estar na pele do outro, ainda que por breves instantes. Ver as coisas sob uma perspetiva que nós não possuíamos, que nós teimávamos em não reconhecer.
Vai daí que caraterísticas como a adaptabilidade e a tolerância sejam cruciais para a construção de algo novo ou para a reconversão de algo mais datado na linha do tempo. Se os afetos reclamam escolhas em exclusivo, o universo da ideias alimenta-se dos muitos outros. Só através deles poderemos reforçar as nossas aprendizagens. E só assim nos renovaremos e sobreviveremos às mudanças trazidas pela cadência da evolução humana.
A cultura pode e deve servir essa evolução. E o culto, mais do que os outros, não deve senão estar na linha da frente.

novembro 11, 2011

Mãe ( e pai) coragem

Recentemente li uma crónica da Margarida Rebelo Pinto no Sol. Foi a melhor que li dela até hoje, por claramente ir para algum lado. Escreveu sobre o filho e sobre o que significa ser mãe. Revi-me, de muitas formas, no tom terno em que, de certa forma, faz o elogio da maternidade.
Trata-se de, basicamente, ver o mundo pela segunda vez. E tal facto não pode deixar senão de trazer uma grande alegria - pois não é maravilhoso descobrir a vida uma outra vez? As cores e os animais, as histórias e as emoções, as gargalhadas e as travessuras. A desconcertante inocência de um primeiro vislumbre das coisas. É-se feliz por redescobrirmos pequenos prazeres, por realizarmos pequenas tarefas, por darmos pequenos passeios. Tudo volta a ganhar sentido, mais sentido, visto através de uns olhos que, não sendo os nossos, precisam do nosso olhar para entenderem a sua pequena existência.
Conduzir um filho pelas ruas do crescimento é desafiante, frequentemente exigente, mesmo extenuante. Mas não há certamente maior compensação do que ver uma criança feliz com as pequenas descobertas que faz ao ritmo do seu pequeno tempo. Não há satisfação maior e maior benção do que vê-la crescer. E ver que, de facto, é um prolongamento de nós mesmos, apesar de possuir, natural e obrigatoriamente, uma identidade própria. Prolonga-se o nosso sucesso, prolonga-se as nossas expetativas, prolonga-se o nosso orgulho. E não é mau, é bom, se sentido e gerido de forma equilibrada e saudável. Não há nada de errado no orgulho que se tem de um filho. Pois o certo é que assim seja.
Ter um filho é não ter mais uma casa quieta. É a deliciosa confusão, os brinquedos espalhados pelo chão, as reprimendas por vezes em tons mais elevados, as traquinices que sujam os tapetes, o está quieto insistente, o não ver outro canal que não o jim jam, a loucura das pequenas desobediências, os risos sinceros e contagiantes, as palavrinhas que inventam, a casa cheia. Sem eles, a casa está, simplesmente, vazia. E, sem eles, nós nunca mais estamos completos.
Vê-los, depois de algum tempo no local de trabalho, ou sem contar, é reforçar os valores da serotonina, é encher o coração, é o brotar de uma emoção talhada a sorrisos e bem estar, de uma força interior mesclada de ternura e plenitude. Outras coisas parecem insignificantes ou, pelo menos, secundárias. Eles são a nossa grande obra, como dizia uma amiga, a nossa tese de um curso intensivo de incondicional amor. São eles que nos injetam de doce coragem. Quem não tem, não sente a falta, dizia outra amiga. Mas quem tem, sabe o que eles nos fazem falta.
Porque, com eles, nunca mais estamos sozinhos.

novembro 09, 2011

Geocentricidades


Um aluno meu mostrava a sua tristeza porque um americano no chat dizia que Portugal estava muito abaixo dos EUA. E estava ainda mais dececionado porque, dizia, os americanos não sabem onde fica Portugal. Pensam que é uma província espanhola, rematou.
Sorri.
Disse-lhe que há cerca de 10 anos uma conhecida, licenciada em, digo não digo, vá lá, História, não sabia onde era a Tunísia. Ele ficou a pensar e perguntou-me se ficava ao pé do Egito. (Sim, custa tirar o p, aqui.)
Acrescentei que os países de pequena dimensão ou pouco impacto tecnológico ou mediático são esquecidos relativamente à sua geografia (e a tudo o resto, consequentemente). Saberão todos onde fica a Roménia? Ou o Nepal? E tantos outros? Sabem os países vizinhos, basicamente. É que acabamos todos por ser muito geocêntricos. Se nos diz respeito, se faz parte da nossa esfera, ou das nossas imediações, conhecemos. Se não, não.
Claro que gostaria que os americanos, quase lendários no desconhecimento da geografia fora das américas, e não só, soubessem identificar o meu país. Mas há muitas histórias paralelas que ilustram o desconhecimento ou o desinteresse por estas questões culturais e espaciais. Uma amiga que está na Alemanha dizia-me que uns amigos a convidaram a ir à barraquinha de Marrocos numa feira cultural. Ela respondeu que era a barraquinha da Tunísia  e eles disseram que era a mesma coisa.
Marrocos e Tunísia não são, pois está claro, a mesma coisa, assim como Portugal e Espanha não são a mesma coisa, por muitas semelhanças linguísticas e geográficas que possam ter. Mas isto dirá muito da importância dos países em termos de impacto cultural, decorrente, sem margem para dúvida, do seu poderio políticoeconómico. Já para não falar das  geo atrocidades que são cometidas pelos estudantes.
Assim sendo, lembrei-me agora de um aluno na disciplina de História que localizou, num teste, a Grécia na África do Sul. Colocar a nação helénica em baixo foi de uma capacidade de previsão invulgar para um puto de 14 anos, uma verdadeira premonição da tragédia grega, pondo-a, no fundo,  a atravessar  o Cabo das Tormentas.
E, claro, certamente que terá sido um não pequeno tormento para a professora.

Incomum amor


Um conhecido meu uma vez disse que a Sade era a mulher mais bonita do mundo. De facto, possui uma beleza morena e exótica que me levará a concordar.
Mas ela é ainda mais icónica por causa daquela voz suave, melodiosa e envolvente e da música que faz, também ela suave, melodiosa e envolvente.
Mergulha-se, assim, num mundo de elegantes sensações serenas e sensuais.
Uma espécie de romantic chic para quem gosta de flirtar o amor.
Absolutamente incomum.

novembro 07, 2011

(N) A verdade

   

Haverá certamente em mim o gosto pela verdade, tantas vezes ela é mencionada aqui e tantas vezes tem feito parte das minhas obsessões. Porém, e dei comigo a pensar nisto mais do que uma vez, não sou nem de longe uma defensora da verdade em todas as circunstâncias.
Pois não, para dizer a verdade.
E continuando a detestar a mentira e a dissimulação.

Defendo-a como base para as relações autênticas, como uma ética de conduta, como essencial para a construção positiva e honesta de algo. Mas não sou apologista do seu uso a todo o custo, em qualquer altura, em qualquer lugar, com qualquer pessoa.
Há verdades que são desnecessárias, há verdades que são cruéis, há verdades que  são impulsivas, há verdades que devem, simplesmente, ficar guardadas. E algumas até se desvanecerão...na memória de um tempo que foi.
Devemos ter contenção na nossa franqueza. Nem sempre o conseguimos, por fatores psicológicos e circunstanciais, mas não devemos fazer o culto da verdade a qualquer preço. Se apenas magoa e destrói, então há que pensar antes. Há que pensar no recetor e no momento, no lugar e na situação e tudo isto ao mesmo tempo. Tem que haver inteligência emocional. Esta sim, deve ser cultivada. E a partir dela a verdade será mais construtiva, mais oportuna ou mais apreciada. 
Há também o caso em que se apregoa verdades mas em que não se confronta a maior verdade de todas - aquela que está, bem profunda, dentro de nós. E não podemos ser verdadeiros perante os outros e a vida se não o formos para nós mesmos.
A verdade clarifica, enaltece, constrói. Mas a verdade também faz doer, separa e destrói. Está nas nossas mãos, na maior parte das vezes, escolher o lado que queremos fazer nascer. E, para isso, há que medir bem a dimensão da verdade e onde e quando a expressamos. Temos que ser inteligentes também na alma. Essa é que é a verdade.

novembro 05, 2011

Cansada de Guerra


Sempre gostei muito do título Tereza Batista Cansada de Guerra, de um dos meus preferidos de sempre, Jorge Amado. Vem-me inúmeras vezes à memória, em alturas em que sinto um maior desalento ou menos paciência.
Quando me preparava para escrever sobre algo relacionado, resolvi, como sempre, procurar uma foto adequada no google. Teclei a palavra cansada e eis que, automaticamente, surgiram infinitas fotos de infinitos textos de infinitos blogues de infinitas mulheres em infinitos desabafos.
Desisti de escrever. Não diria nada de novo.
De qualquer forma, senti-me compreendida, não estou sozinha.
Mas não senti nenhuma espécie de felicidade acrescida, pelo contrário. São, pois,  as mulheres quem mais sentem este estado indesejável, limitativo, dilacerante?
Pois, de facto, longos são os seus dias. E infinitas as tarefas e os papéis que as (e se) obrigam a desempenhar.
Ritmos que lhes  impõem, faturas que lhes cobram, reputações que lhes colam. E batalhas que, tolamente ou não, decidem elas próprias travar.
Cansadas, não conseguem por fim à guerra. Prisioneiras das exigências, campeãs da fadiga.


E, no meio disto, ainda se lhes diz para serem belas.
E algumas, espantosamente ou não, ainda o conseguem ser.

novembro 03, 2011

A friend to all is a friend to none


A M. é amiga de toda a gente.
Almoça com muitos colegas, com qualquer colega, convida novos e velhos colegas todos os dias.
Diz coisas sem parar, fala e fala, socializa muito.
É simpática, sorri e parece que está sempre de bem com tudo.
Não tem problemas, pergunta pelas novidades e sabe sempre as notícias.
É popular e controlada.
Gosta de todos.

A frase de Aristóteles aplica-se extraordinariamente bem a este caso, porventura não único. Certamente não único. Esta multiplicidade é irritantemente impossível e reflete uma total ausência de paixão. A M. não se dedica a uma pessoa ou outra um pouco mais, não conforta nem ouve, sobretudo não sente. É alguém que se carateriza por uma fina frieza, por uma estranha aparência de cumplicidade, por um laço afetivo que é um total logro.
Porque os afetos significam também exclusividade, e significam sentir e sofrer com os outros,  partilhar.
A amizade é essa partilha, agora estou bem agora estou mal, e tu também. Não deve ser obsessiva - daí a sua grande diferença em relação ao amor - , não deve cobrar, não deve limitar, deve ser livre, espontânea, honesta. Deve ser baseada na verdade. Todos os sentimentos, alegrias e dores são entendidos na verdadeira amizade. E essa base de que falava não se alicerça no número e na quantidade e numa esquisita e desapaixonada forma de gostar igual para todos.

A M. é amiga de todos e não é amiga de ninguém.

Poderá haver um lado M, em todos nós, quando falamos da maior parte das relações de trabalho, essencialmente. Mas haverá certamente o outro, o mais exclusivo, o mais seletivo, o mais verdadeiro, o que funciona movido a paixão. E, desta forma, identificaremo-nos apenas com alguns colegas - ao almoço ou para além dele. Seremos, então, amigos apenas de alguns.  E já estamos cheios de sorte.





novembro 01, 2011

O discurso do general



What we do in life ... echoes in eternity.

My name is Maximus Decimus Meridius commander of the Armies of the North, General of the Felix Legions, loyal servant to the true emperor: Marcus Aurelius.

Father to a murdered son, husband to a murdered wife. And I will have my vengeance, in this life or the next.

Strength and honor.

Are you in danger of becoming a good man?

I think you have a talent for survival.

At my signal, unleash hell.

Whatever comes out of these gates, we've got a better chance of survival if we work together.

I knew a man once who said, "Death smiles at us all. All a man can do is smile back."


Violentas, másculas, não suaves, não doces. E, no entanto, são palavras que não se esquecem, em diálogos de exceção, que se sabem de cor.

Não é uma história para mulheres e, no entanto, há as que a apreciaram, que a viram mais do que uma vez e que não deixam de relembrar.
Não é uma personagem de família vulgar e, no entanto, está carregada de sensibilidade e ternura. 

Filme dominado por homens e dirigido potencial e primeiramente aos homens e, no entanto, sempre lhe encontrei muita beleza. Que passa, realmente, pelas palavras. A voz de Russel Crowe, sem dúvida, ajudou a perpétuá-las no tempo, numa espécie de culto filosófico do seu discurso.

Mundo masculino, duro e até bruto, e, no entanto, estou entre os muitos fãs. Porque brutalmente inspirador. Quem, afinal, não admira a força e a honra?



outubro 29, 2011

A simples o que é de simples


Andava para escrever sobre isto há algum tempo. E há três dias atrás dei por mim a explicar o significado de Less is more ao meu CEF de Tratadores. Automaticamente, veio-me à ideia a vontade em abordar o conceito de simplicidade, essencialmente no que diz respeito à escrita. Havia lido um texto do AJS na Tabu sobre o tema e dei por mim a pensar nisso e a tentar, eu própria, dissertar sobre o que afinal significa ter um estilo simples.
Não gosto de ou me identifico com tudo o que AJS escreverá mas recordo vários textos dele precisamente por serem simples, provavelmente. Com isto quero eu dizer que a simplicidade é amiga da clareza e esta da compreensão e esta da memória. Mas estou eu a afirmar que AJS escreve de forma simples? Escreve - ele di-lo, aliás, e chega mesmo a dizer que sempre foi acusado precisamente disso, dos seus textos serem demasiado simples, toscos, quase primários na forma. Que chegam mesmo a duvidar que ele os reveja e faça correções, como se a simplicidade não fosse ela, também, árdua de conseguir.
Mas estas voltas servem o meu propósito: dizer que também eu aprecio a simplicidade na escrita. Registo muito mais a mensagem do que quando leio textos demasiado elaborados,  densos, herméticos, intelectualóides, porque, muitas mas  muitas vezes, tal emaranhado nos leva a uma maior dispersão. Relembro agora mesmo alguns nomes cujos textos são habitualmente complexos, não me cativando e criando desnecessários obstáculos à retenção da informação ou captação da mensagem para uma desejável posteridade. Quantas vezes não lemos nós textos dos quais nos ficou muito pouco algum tempo depois? (Estou, nalguns casos, obviamente, a ser simpática.)
Nesta altura, poderá dizer-se que assim acontece por défice cognitivo. Mas a simplicidade, de quem a aprecia e sobretudo a de quem escreve, não é um reflexo de uma inteligência menor. Apenas é um estilo que reflete, sim, uma capacidade, em princípio natural, a de ser mais eficazmente claro. Não é, portanto sinónimo, de pobreza. Pode ser (basta recordar textos de alunos com dificuldades) mas não é necessariamente. Sobretudo, e obviamente, em escritores de renome, jornalistas conceituados, bloguistas de qualidade e outros. Claro que aprecio uma escrita interessante e envolvente, um estilo criativo, mas realmente não obscuro, não indecifrável, não sinuoso, não confuso, não rebuscado, pois realmente não. E são muitos os textos simples absolutamente grandiosos. E como ficam na memória, como se eternizam até.
Pessoalmente, sou demasiado autista e distraída e mais uns outros defeitos em cima como ler pouco comparada com leitores, diria, profissionais, para ter um léxico erudito, culto e variadíssimo como desejaria. De qualquer forma, para lá das limitações e perceções de quem gosta de escrever, são afinal os leitores os grandes juízes em relação a como se escreve. Inevitavelmente - Is less more?

outubro 28, 2011

MyZen.blog


Gosto de tudo o que é ou diz chill out, lounge, moods, instrumental, new age, zen e afins. Com esta música, ou em espaços assim talhados, saio da rotina amalucada em que se vive quando se é mulher, mãe, profissional, amiga, esposa, conselheira, dona de casa, cozinheira, e ainda mais mais. Viajo e vou para bem longe. Como gosto de estar longe, quando os dias e as horas correm apressadamente, quando o tempo foge e vai, quando não sei nem me deixam parar, quando não compreendo a canseira e a luta, quando renego e odeio o cansaço, quando quero basicamente fugir.
Tenho, admito, grandes, enormes dificuldades em correr. E não estou a falar de jogging. Que não faço, de resto. Será disso? Não deixo, digo eu, de ser, vá, um bocadinho dinâmica, mas há cá um lado ocioso, queridos leitores, que me coloca sérios obstáculos à corrida vertiginosa das alturas mais violentas em termos de trabalho. Começar a correr às 7.30 com o miúdo - e sei que já vou cá com uma sorte - e continuar a correr na escola, almoçar com as colegas a correr, voltar a correr para a tarde, sair a correr, chegar a casa e correr mais um pouco,correr depois com os papéis, não, isso queria eu, I mean,  correr para os papéis, deitar-me um tudo ou nada fartinha de uma extenuante maratona em que não me inscrevi. Correr, na verdade, não me é natural.
Por outro lado, o conceito chill out passa também, e muito, por arrefecer depois de uma grande aventura, de uma noitada cheia de animação, de uma experiência carregada de adrenalina. O sabor será o mesmo, no fim de contas, mesmo que o prazer não o tenha sido antes. Uma pausa no ritmo, um momento tranquilo, uma incursão interior. Inner time...
Viaja-se, pois, ao som dos sons calmos, melodiosos, enigmáticos, orientais e interculturais, geográficos, espirituais, daquelas mesclas fabulosas que fazem da natureza e dos oceanos, dos pássaros e da chuva, dos sintetizadores e de instrumentos new wave, dos cânticos afro e ameríndios e dos monges europeus ou made in tibet. Viajo e sou feliz. Bocadinhos preciosos e precisos. Como este.


P.S.Ainda mais, claro, com o saxofone.
P.S.2 Sim, sei o que se passou com Oliver Shanti.
P.S.2.a. Não, não consigo deixar de gostar da sua música.

outubro 25, 2011

Os Mortos



Há uns anos leccionei uma obra de James Joyce, em inglês mas adaptada a miúdos, para a  leitura extensiva que se pedia no 9º ano. Foi escolha minha ( apoiada, felizmente, pela colega com quem trabalhei) por ter gostado tanto de a ler na universidade. No original, The Dead, uma short story que faz parte de Dubliners (Gente de Dublin), conta a história irlandesa de um casal assombrado pela morte dum antigo amor da mulher. Este chamava-se, porque não esqueço, Michael Furey e, doente,  passou uma noite à chuva, encharcado torrencialmente até de manhã, por amor a Grettta,  morrendo depois de uma pneumonia.

O marido, Gabriel, não é capaz de expressar o grande amor que tem pela esposa e sofre ao descobrir que ela ainda relembra o amante, muito tempo depois. Inseguro, interroga-se onde é que falhou. A questão de fundo subjacente à obra é saber se é preferível arriscar e poder morrer cedo, deixando marcas profundas, sobretudo e aqui no coração dos outros, ou levar uma vida longa, sem riscos nem paixões e sem, desta forma, deixar marcas da sua tranquila passagem pela terra. A frase no livro, em inglês, é ela própria inesquecível e emblemática. Better pass boldly into that other world, in the full glory of some passion, than fade and wither dismally with age.

Não é a primeira vez que relembro esta obra nos textos que escrevo. De facto, a discussão desta difícil escolha foi muito bem entendida e trabalhada pelos alunos (sim, eram excelentes) e foi por demais interessante ver como optavam por um caminho ou outro, justificando-se, e na impossibilidade de, idealmente, terem os dois: viver muito intensamente e/ou viver longamente. Uma espécie de live fast, die young? Ousar, obter o sabor máximo da vida, pagar um preço alto por isso e tornar-se depois imortal, espiritualmente? Ou preferíriamos o contrário? Nunca ousar, viver by the rule,  morrer de velho e desaparecer-se completamente com o corpo? Viver  e morrer em glória versus simplesmente existir.

O verso de Dylan Thomas "Do Not Go Gentle Into That Good  Night" transparece claramente aqui. A noite como metáfora da morte e a suavidade como sinónimo de brandos atos ou ações.  Relembrando os mortos da comunidade num jantar no Natal, numa Irlanda aqui coberta de uma simbólica neve, a personagem de Gabriel surge cultivada, racional, serena, aborrecida, "pequena". Michael Furey, ao invés, surge cheio de ímpeto, fogo, paixão. E, naturalmente, Gretta preferiu este último. Penso que a história é um retrato de muitas relações estáveis, apagadas, sem chama, mortas, se olharmos para o casal protagonista, e de como a alma feminina anseia por muito mais, um rasgo, uma ousadia, um ato de amor louco, que incendeie os seus devaneios românticos.

Fiquei fascinada pelo "livro", ao contrário do que um título assim poderia sugerir. Ainda por cima vi e continuo a ver o espantoso Gabriel Byrne, ele próprio irlandês, na figura da personagem homónima (mas que não protagonizou o filme de John Huston, curiosamente). Assim, The Dead para mim está vivo. Bem vivo, apesar de não ver ninguém na figura de Michael Furey. Mas também não teve ele a parte mais difícil? Ou será que não? Leitor, escolha o seu caminho. Ou não.

outubro 24, 2011

Eternity


Podia ser um anúncio a publicitar um calvin klein nos anos 50. Mas é uma cena que ficou para a posteridade graças a uma arte que não deixa morrer os seus intervenientes mais visíveis. São incontáveis, de resto, as imagens que compõem a galeria do cinema que povoa o imaginário coletivo e também o individual.

Esta é uma delas. Numa praia, o beijo entre Burt Lancaster, musculado e viril, e uma habitualmente recatada Deborah Kerr foi, na altura, quebra barreiras no caminho para o tratamento do amor físico, erótico e sexual no grande écrã. Hoje não nos surpreenderíamos com uma cena assim. Mas aquando do lançamento do filme, a história de amor entre Burt, um oficial do exército no Hawai, e a personagem casada de Kerr arrebatou muitas plateias, numa abordagem considerada picante para a época. No filme entra também um muito jovem Frank Sinatra, que ganhou o oscar para ator secundário, e o sempre atormentado e sensível Montgomery Clift.

A ideia do beijo das personagens, deitados dentro de água, que era para ser em pé, parece que partiu do ator principal e a sensualidade tradicionalmente escondida da atriz principal parece que foi despoletada pela relação que extrapolaram para a vida real. Por isso tudo e pelo sucesso que o filme viria a alcançar, a praia de Halona Cove tornou-se parte da rota turística durante muitos anos. Ao que li, a cena foi considerada tão erótica que foram banidas fotos pela Motion Picture Association of America e porque os projecionistas ficavam com bocados da fita como souvenirs algumas versões foram encurtadas.

E, de repente, lembrei-me do padre censor em Cinema Paradiso. Numa cena perfeitamente banal para as plateias de hoje, ele estaria lá a dizer corta e o Toto vê-la-ia, concerteza, já na maturidade, nos beijos cortados do momento final do filme italiano. Porque esta sensual imagem perdurou  "até à eternidade" e de que maneira.  Na minha memória,  absolutamente confirmo. Na sua?