outubro 29, 2011

A simples o que é de simples


Andava para escrever sobre isto há algum tempo. E há três dias atrás dei por mim a explicar o significado de Less is more ao meu CEF de Tratadores. Automaticamente, veio-me à ideia a vontade em abordar o conceito de simplicidade, essencialmente no que diz respeito à escrita. Havia lido um texto do AJS na Tabu sobre o tema e dei por mim a pensar nisso e a tentar, eu própria, dissertar sobre o que afinal significa ter um estilo simples.
Não gosto de ou me identifico com tudo o que AJS escreverá mas recordo vários textos dele precisamente por serem simples, provavelmente. Com isto quero eu dizer que a simplicidade é amiga da clareza e esta da compreensão e esta da memória. Mas estou eu a afirmar que AJS escreve de forma simples? Escreve - ele di-lo, aliás, e chega mesmo a dizer que sempre foi acusado precisamente disso, dos seus textos serem demasiado simples, toscos, quase primários na forma. Que chegam mesmo a duvidar que ele os reveja e faça correções, como se a simplicidade não fosse ela, também, árdua de conseguir.
Mas estas voltas servem o meu propósito: dizer que também eu aprecio a simplicidade na escrita. Registo muito mais a mensagem do que quando leio textos demasiado elaborados,  densos, herméticos, intelectualóides, porque, muitas mas  muitas vezes, tal emaranhado nos leva a uma maior dispersão. Relembro agora mesmo alguns nomes cujos textos são habitualmente complexos, não me cativando e criando desnecessários obstáculos à retenção da informação ou captação da mensagem para uma desejável posteridade. Quantas vezes não lemos nós textos dos quais nos ficou muito pouco algum tempo depois? (Estou, nalguns casos, obviamente, a ser simpática.)
Nesta altura, poderá dizer-se que assim acontece por défice cognitivo. Mas a simplicidade, de quem a aprecia e sobretudo a de quem escreve, não é um reflexo de uma inteligência menor. Apenas é um estilo que reflete, sim, uma capacidade, em princípio natural, a de ser mais eficazmente claro. Não é, portanto sinónimo, de pobreza. Pode ser (basta recordar textos de alunos com dificuldades) mas não é necessariamente. Sobretudo, e obviamente, em escritores de renome, jornalistas conceituados, bloguistas de qualidade e outros. Claro que aprecio uma escrita interessante e envolvente, um estilo criativo, mas realmente não obscuro, não indecifrável, não sinuoso, não confuso, não rebuscado, pois realmente não. E são muitos os textos simples absolutamente grandiosos. E como ficam na memória, como se eternizam até.
Pessoalmente, sou demasiado autista e distraída e mais uns outros defeitos em cima como ler pouco comparada com leitores, diria, profissionais, para ter um léxico erudito, culto e variadíssimo como desejaria. De qualquer forma, para lá das limitações e perceções de quem gosta de escrever, são afinal os leitores os grandes juízes em relação a como se escreve. Inevitavelmente - Is less more?

outubro 28, 2011

MyZen.blog


Gosto de tudo o que é ou diz chill out, lounge, moods, instrumental, new age, zen e afins. Com esta música, ou em espaços assim talhados, saio da rotina amalucada em que se vive quando se é mulher, mãe, profissional, amiga, esposa, conselheira, dona de casa, cozinheira, e ainda mais mais. Viajo e vou para bem longe. Como gosto de estar longe, quando os dias e as horas correm apressadamente, quando o tempo foge e vai, quando não sei nem me deixam parar, quando não compreendo a canseira e a luta, quando renego e odeio o cansaço, quando quero basicamente fugir.
Tenho, admito, grandes, enormes dificuldades em correr. E não estou a falar de jogging. Que não faço, de resto. Será disso? Não deixo, digo eu, de ser, vá, um bocadinho dinâmica, mas há cá um lado ocioso, queridos leitores, que me coloca sérios obstáculos à corrida vertiginosa das alturas mais violentas em termos de trabalho. Começar a correr às 7.30 com o miúdo - e sei que já vou cá com uma sorte - e continuar a correr na escola, almoçar com as colegas a correr, voltar a correr para a tarde, sair a correr, chegar a casa e correr mais um pouco,correr depois com os papéis, não, isso queria eu, I mean,  correr para os papéis, deitar-me um tudo ou nada fartinha de uma extenuante maratona em que não me inscrevi. Correr, na verdade, não me é natural.
Por outro lado, o conceito chill out passa também, e muito, por arrefecer depois de uma grande aventura, de uma noitada cheia de animação, de uma experiência carregada de adrenalina. O sabor será o mesmo, no fim de contas, mesmo que o prazer não o tenha sido antes. Uma pausa no ritmo, um momento tranquilo, uma incursão interior. Inner time...
Viaja-se, pois, ao som dos sons calmos, melodiosos, enigmáticos, orientais e interculturais, geográficos, espirituais, daquelas mesclas fabulosas que fazem da natureza e dos oceanos, dos pássaros e da chuva, dos sintetizadores e de instrumentos new wave, dos cânticos afro e ameríndios e dos monges europeus ou made in tibet. Viajo e sou feliz. Bocadinhos preciosos e precisos. Como este.


P.S.Ainda mais, claro, com o saxofone.
P.S.2 Sim, sei o que se passou com Oliver Shanti.
P.S.2.a. Não, não consigo deixar de gostar da sua música.

outubro 25, 2011

Os Mortos



Há uns anos leccionei uma obra de James Joyce, em inglês mas adaptada a miúdos, para a  leitura extensiva que se pedia no 9º ano. Foi escolha minha ( apoiada, felizmente, pela colega com quem trabalhei) por ter gostado tanto de a ler na universidade. No original, The Dead, uma short story que faz parte de Dubliners (Gente de Dublin), conta a história irlandesa de um casal assombrado pela morte dum antigo amor da mulher. Este chamava-se, porque não esqueço, Michael Furey e, doente,  passou uma noite à chuva, encharcado torrencialmente até de manhã, por amor a Grettta,  morrendo depois de uma pneumonia.

O marido, Gabriel, não é capaz de expressar o grande amor que tem pela esposa e sofre ao descobrir que ela ainda relembra o amante, muito tempo depois. Inseguro, interroga-se onde é que falhou. A questão de fundo subjacente à obra é saber se é preferível arriscar e poder morrer cedo, deixando marcas profundas, sobretudo e aqui no coração dos outros, ou levar uma vida longa, sem riscos nem paixões e sem, desta forma, deixar marcas da sua tranquila passagem pela terra. A frase no livro, em inglês, é ela própria inesquecível e emblemática. Better pass boldly into that other world, in the full glory of some passion, than fade and wither dismally with age.

Não é a primeira vez que relembro esta obra nos textos que escrevo. De facto, a discussão desta difícil escolha foi muito bem entendida e trabalhada pelos alunos (sim, eram excelentes) e foi por demais interessante ver como optavam por um caminho ou outro, justificando-se, e na impossibilidade de, idealmente, terem os dois: viver muito intensamente e/ou viver longamente. Uma espécie de live fast, die young? Ousar, obter o sabor máximo da vida, pagar um preço alto por isso e tornar-se depois imortal, espiritualmente? Ou preferíriamos o contrário? Nunca ousar, viver by the rule,  morrer de velho e desaparecer-se completamente com o corpo? Viver  e morrer em glória versus simplesmente existir.

O verso de Dylan Thomas "Do Not Go Gentle Into That Good  Night" transparece claramente aqui. A noite como metáfora da morte e a suavidade como sinónimo de brandos atos ou ações.  Relembrando os mortos da comunidade num jantar no Natal, numa Irlanda aqui coberta de uma simbólica neve, a personagem de Gabriel surge cultivada, racional, serena, aborrecida, "pequena". Michael Furey, ao invés, surge cheio de ímpeto, fogo, paixão. E, naturalmente, Gretta preferiu este último. Penso que a história é um retrato de muitas relações estáveis, apagadas, sem chama, mortas, se olharmos para o casal protagonista, e de como a alma feminina anseia por muito mais, um rasgo, uma ousadia, um ato de amor louco, que incendeie os seus devaneios românticos.

Fiquei fascinada pelo "livro", ao contrário do que um título assim poderia sugerir. Ainda por cima vi e continuo a ver o espantoso Gabriel Byrne, ele próprio irlandês, na figura da personagem homónima (mas que não protagonizou o filme de John Huston, curiosamente). Assim, The Dead para mim está vivo. Bem vivo, apesar de não ver ninguém na figura de Michael Furey. Mas também não teve ele a parte mais difícil? Ou será que não? Leitor, escolha o seu caminho. Ou não.

outubro 24, 2011

Eternity


Podia ser um anúncio a publicitar um calvin klein nos anos 50. Mas é uma cena que ficou para a posteridade graças a uma arte que não deixa morrer os seus intervenientes mais visíveis. São incontáveis, de resto, as imagens que compõem a galeria do cinema que povoa o imaginário coletivo e também o individual.

Esta é uma delas. Numa praia, o beijo entre Burt Lancaster, musculado e viril, e uma habitualmente recatada Deborah Kerr foi, na altura, quebra barreiras no caminho para o tratamento do amor físico, erótico e sexual no grande écrã. Hoje não nos surpreenderíamos com uma cena assim. Mas aquando do lançamento do filme, a história de amor entre Burt, um oficial do exército no Hawai, e a personagem casada de Kerr arrebatou muitas plateias, numa abordagem considerada picante para a época. No filme entra também um muito jovem Frank Sinatra, que ganhou o oscar para ator secundário, e o sempre atormentado e sensível Montgomery Clift.

A ideia do beijo das personagens, deitados dentro de água, que era para ser em pé, parece que partiu do ator principal e a sensualidade tradicionalmente escondida da atriz principal parece que foi despoletada pela relação que extrapolaram para a vida real. Por isso tudo e pelo sucesso que o filme viria a alcançar, a praia de Halona Cove tornou-se parte da rota turística durante muitos anos. Ao que li, a cena foi considerada tão erótica que foram banidas fotos pela Motion Picture Association of America e porque os projecionistas ficavam com bocados da fita como souvenirs algumas versões foram encurtadas.

E, de repente, lembrei-me do padre censor em Cinema Paradiso. Numa cena perfeitamente banal para as plateias de hoje, ele estaria lá a dizer corta e o Toto vê-la-ia, concerteza, já na maturidade, nos beijos cortados do momento final do filme italiano. Porque esta sensual imagem perdurou  "até à eternidade" e de que maneira.  Na minha memória,  absolutamente confirmo. Na sua?

outubro 22, 2011

Outono árabe

Os efeitos da primavera prolongam-se.


 
1.As imagens de Khadafi/Gaddafi a ser capturado e praticamente chacinado não são agradáveis de ver. Chocam e perturbam, mesmo sendo quem foi e o que fez. De qualquer forma, temos nós uma distância física e emocional que nos permite discernir entre o certo e o errado, entre o moralmente correto e o princípio da imoralidade. Desta forma, este tipo de atos, mesmo contra ditadores, surgem a nossos olhos como violentos, irracionais, inaceitáveis. Por outro lado, poderão ser e serão vistos como compreensíveis se pensarmos na destruição, na revolta e no caos físico e emocional do país e dos que travam esta batalha há vários meses. E nas vítimas de 42 anos de medieval terrorismo. Para lá das tentativas de definir e descrever os rebeldes e do rumo que a Líbia possa tomar, a realidade é que no terreno e a quente as emoções estarão ao rubro e atos impulsivos e desprovidos de legalidade serão, invariavelmente, o seu resultado. Outra verdade é que o coronel se pôs, definitivamente, a jeito. As atitudes e as palavras dúbias e tresloucadas, assim como o não querer deixar o poder quando lhe foi claramente mostrado que seria difícil senão impossível mantê-lo, não fizeram mais do que cavar o seu fim e desta maneira. Pois não se colhe, quase sempre, o que se semeia?

2.A Tunísia vai a votos amanhã, dia 23. Os cidadãos que vivem no estrangeiro já estão a votar nas embaixadas. Ao invés dos anos anteriores, são eles que têm de se deslocar às capitais dos países onde residem para deixar a sua participação no ato eleitoral deste ano, histórico, sobretudo pela maneira como foi feita a sua revolução. Foi também a primeira no mundo árabe, o rastilho, e o melhor dos exemplos até aqui.
Parece que o candidato islamita segue na frente das sondagens. O mundo ou grande parte dele tem os olhos postos nesta eleição. Ela poderá servir de modelo para as outras que ocorrerão ou poderão vir a ocorrer, sobretudo nesta região geográfica e e humana. O mundo a ocidente estará expetante e temerá provavelmente a vitória do candidato islamita. Mas se olharmos para a Turquia temos um presidente dum partido semelhante a comandar o país. E a Turquia tem vindo a evoluir em muitos campos, nomeadamente o económico. Erdogan, pela postura e pela influência que já tem, é sem dúvida um líder equilibrado (chamou o coronel líbio à razão e fez o mesmo em relação ao presidente sírio) que tem mantido os acordos tradicionais com o ocidente. Não que tenham todos que o fazer obrigatoriamente. Não que o ocidente seja o paradigma da perfeição e do equílibrio (ainda mais nos dias de hoje, sabemos bem porquê). Mas porque acredito que a maioria de nós espera uma mudança de liberdade para o povo tunisino, neste caso. Com todos os defeitos da democracia, mas também com todas as suas grandes vantagens. E esperando a prova de que é sempre e sempre possível mudar.

outubro 21, 2011

Do lado de dentro


Promo

                   Nunca tinha estado na RTP. Fui em serviço, com 25 alunos, e pude ver como se faz um programa de talentos. A espera, os takes, o público e como se programa os seus entusiasmos e aplausos, a adrenalina da equipa de produção, o profissionalismo concentrado da apresentadora, a descontração e humour do júri, os nervos dos concorrentes, os constantes retoques na maquilhagem, o cenário do estúdio e de como tudo nos surge maior, mais brilhante e mais natural depois no pequeno écrã.
                 Não tenho muita paciência para coisas ensaiadas. Gosto pouco de repetir as coisas e já estava saturada com tanta encenação. O cansaço da interminável viagem num autocarro escolar a precisar de reforma não ajudara. Mas ao mesmo tempo não consegui evitar uma sensação de entusiasmo por ver tão perto figuras conhecidas e apreciadas da nossa televisão e da música portuguesa. O lado adolescente não terá sido erradicado com os anos. Péssimo, poderá dizer-se. Mas curiosamente ele pode levar-nos a ser mais felizes, ainda que com coisas leves, possivelmente tontas e superficiais para alguns.
                No final o contato com as celebridades que temos, os sorrisos simpáticos, as palavras agradáveis, as fotos para a posteridade. Não dou valor aos autógrafos e, portanto, não os pedi. Mas chegar à fala e ser-se bem acolhido por figuras desta nossa praça tornou a jornada bem mais reconfortante. Ainda que por breves instantes, estes foram flashes (pois não é de luzes, palco e camaras de que falamos?) que nos animam e nos fazem ver as coisas (neste caso um programa televisivo) sob uma outra perspetiva. A de dentro.

outubro 17, 2011

Do lado de fora

A indignação não me está a passar ao lado. Apenas não a comento porque há blogues onde isso é feito de maneira muito melhor, porque de uma certa forma todos estão a comentá-la por estes dias, porque não é caraterística minha comentar a atualidade aqui (embora possa haver exceções), porque tanto haveria para dizer e não estou com tempo, porque não me apetece, porque não.
E, no entanto, não acho nada digno ver a recompensa do meu e nosso trabalho ser decapitada e o meu e nosso quotidiano ser decepado abruptamente. Violenta linguagem para violentas medidas.

Na verdade,  gosto que venham à minha casa para terem um pouco de conforto (e às vezes desconforto, hélas e quiçá) ao nível da alma essencialmente, que possam incorrer em viagens ao interior de nós próprios, que percorram os mundos dos afetos e também dos factos, é certo, mas mais dos primeiros, provavelmente.

Portanto, neste momento, esta porta está fechada à crise e à austeridade. Nada de finança, nada de banca, nada de economia. Não por alheamento, não por ignorância, não por irrealismo, não por superficialidade. Apenas porque apetece-me escrever sobre outras coisas nestes e nos outros dias. Mas, e diga-se em abono da verdade, quem me conhece sabe da minha imprevisibilidade. Amanhã poderá ser diferente...

outubro 15, 2011

Momento


A entrevista de Lobo Antunes foi um momento de serena e inspiradora pausa no meio do alucinante (des)informativo e estupidificante lúdico que grassa, de modo geral, nas televisões generalistas. E foi  porque nos leva a ouvir, a interiorizar, a refletir, a ir mais além. Porque significa escutar, beber as palavras, aprender, evoluir. Não é um homem que nos faça rir ou nos entretenha, ao invés é de uma honestidade brutal, as partilhas vêm do profundo âmago, sem piadas, sem mentiras, mesmo sem certezas.  Espanta-se ele com as certezas que tantos exibem facilmente, reconhecendo rapidamente as mentiras por detrás das aparentes seguranças. Não há verdade. E, desta forma, políticos iludem e depois desiludem, a cultura, porque expressão das verdades, não tem nem pode ter lugar, o país afunda-se na mediocridade e na deceção.
Que momento de introspetivo (re)conhecimento nos deu. Como a escrita e a reflexão nos podem dar sábios de exceção, como a tolerância e a visão nos dão a conhecer humanistas de primeira. Haverá quem não tenha visto não por opção mas também quem o terá feito, mudado de canal para programas mais vorazes, que não obriguem a parar e pensar. Pois a crise também é n/do espírito. Há uma demissão generalizada em relação ao pensamento, ao silêncio, ao confronto interior, ao (auto) conhecimento, ao estímulo inteletual. Os prazeres sensoriais, materiais sobrepõem-se, de forma avassaladora, aos espirituais.
Precisa-se, exige-se mais momentos como este nas televisões mainstream, nos media em geral, na escola, na sociedade. Sob pena de não sabermos construir, criar, intervir, crescer. A cultura é fundamental para o desenvolvimento da humanidade, das sociedades. A cultura dos livros e das ideias, e também a cultura do amor e dos afetos, a cultura do conhecimento e da arte, a cultura da reflexão e mesmo do silêncio. Revigora-nos, fortalece-nos, enriquece-nos, abre os nossos horizontes, alimenta os nossos sonhos, promove momentos felizes. Como o de ontem, na RTP1.

outubro 12, 2011

China Girl

A canção do David Bowie nos fantásticos idos anos 80 adivinhava uma estrela oriental de primeiro plano. Lembro-me de a ter conhecido na RTP2, no tempo em que passavam belos filmes "estrangeiros" (leia-se não em inglês) e quando, também eu, tinha mais tempo. Ora, isto já foi há...algum tempo. Muito tempo. (?) O filme foi o Ju Dou, do aclamado Zhang Yimou. Interpretava ela uma mulher casada com um velho que tinha um sobrinho que a Ju Dou do filme haveria de amar. O cenário era uma tinturaria cheia de intensidade cromática que não mais esqueci, emblemática, de certa forma, do exotismo a oriente, do inebriar dos sentidos pelo qual é lendário. O filme é trágico e Gong Li eternizava-se como super estrela. Belíssima, exótica, um grande número de filmes marcantes viriam, festivais de cinema por todo o mundo renderam-se-lhe, premiaram-na e prestam-lhe homenagem.
Mais velha, revi-a não há muito tempo em Miami Vice, no remake da famosa série do nosso mais que apreciado detetive Sonny Crocket. Ao lado de Colin Farrel conseguiu ainda exibir uma enorme sedução, eu pelo menos fixei o par como dos que mais resultaram no écrã nos últimos tempos. Sim, não tenho ido ao cinema. Mas costumo achar que os filmes são eternos e não têm idade. Tal como toda a arte, de resto.  A minha noção de tempo, mais uma vez... Há quem vá dizer que isto foi há séculos. Mas o que queria mesmo  dizer é que a atriz de Adeus Minha Concubina é de uma beleza e magnetismo sem fim. E, ao mesmo tempo, como ela emite ondas de sensibilidade. Sensual e zen, ela é uma estrela à mais que inevitável escala global dos tempos modernos. Sou fã.

outubro 11, 2011

Puro abrigo


Vou só escrever um pouquinho sobre as pessoas puras. O facto da sua ausência total de malícia nos fazer sentir confortáveis, protegidos, serenos. E desta forma gostarmos sobremaneira de estar com elas.
Claro que há tipos de malícia que podem, por vezes, ser estimulantes, espicaçam-nos, fazem-nos dar uma resposta - por vezes também ela maliciosa, indo ao encontro da malandreca provocação. Mas o problema é que tal estímulo pode ser, ele também, cansativo, irritante se sempre constante. Para se conseguir estar fora da zona de conforto emocional é preciso estar-se forte,  fisica e psicologicamente. Ao invés, com as pessoas desprovidas de segundos sentidos e de jogos verbais, sentimo-nos abrigados mesmo em momentos mais desabrigados.
Lembro-me agora e de repente de algumas pessoas assim, sem intenções ocultas por detrás das palavras que soltam, das observações que fazem. As suas conversas são límpidas, cristalinas, saudáveis. Podem não nos arrancar  gargalhadas nem qualquer tipo de emoção mais forte mas é precisamente por isso que muitas vezes são tranquilizantes. Quem não precisa de uma tratamento spa de  vez em quando? Quem aguenta viver em constante ritmo de montanha russa? Quem não se revitaliza com silêncios cúmplices ou ausências de perturbantes brincadeiras por momentos?
As pessoas puras são cruciais sobretudo nos dias que compõem os nossos invernos interiores. Elas trazem um fiozinho de sol que aquece o desabrigo causado pelas palavras más, pelas palavras dúbias, pelas palavras que nos gelam. E, por isso, lembrei-me delas e escrevi para elas. Para que elas conservem a pureza do seu coração e a segurança que nos trazem aos afetos que sobrevivem ao alucinado torpor do quotidiano.

outubro 10, 2011

And now for something completely different

As nuvens carregadas não combinam com as altas temperaturas não outonais que temos nestes dias. Digamos que elas terão mais a ver com o mood resultante do atolanço em burocrática e administrativa papelada e reuniões e horas não letivas ditadas pelo ME que nos vão estafando como se não tivesse havido pausa de verão. Digam lá se não tenho razão. Vocês, os que sabem do que falo.
O banco está à espera de alguém com uma folguinha para se sentar. Não devemos ser nós certamente . Mas prometo que a seguir volto a postar uma coisa bem mais animada. Afinal, sempre não chove...

outubro 08, 2011

A Vez e a Voz das Mulheres


Imensamente satisfeita com o tripartido Nobel da Paz deste ano. Sobretudo pela iemenita. De véu e de preto, pega no megafone e desfila pelas ruas a pedir liberdades num país cujo regime as vai negando. A primavera árabe teria invariavelmente de ser premiada. E vai daí que me lembrei de uma mulher que conheci há um ano atrás na Tunísia.
Estivemos à conversa sentadas cá fora, ao pé da pequena mercearia da aldeia, a tentar apanhar algum fresco dum pouco frequente vento que corria. Professora primária, de cabelo curto, sindicalista e ativista, de certa forma, dos direitos das mulheres num país ainda na altura sob a alçada de Ben Ali. Diga-se que, curiosamente ou não, o antigo regime apregoava e praticava a liberdade social no que dizia respeito às mulheres. A primeira-dama, odiada pela oligarquia e corrupção da família Trabelsi, dava, no entanto, exemplos de modernidade no campo social. Era-se livre para não usar véu (mais o lenço, na verdade), era-se livre para estudar, para trabalhar, entre outros aspetos menos e outros mais importantes.
Esta mulher que conheci  falava-me da recente tendência das jovens tunisinas em quererem usar o lenço, por um lado como forma de desafiar o regime que reprimia subtilmente  a liberdade religiosa dos muçulmanos, e por outro como objeto de moda. Estava assim na moda afirmar o lenço como acessório fashion e ao mesmo tempo como marca de identidade cultural. Dizia-me a professora, que nunca o usaria, e que não compreendia, desta e de uma certa forma,  as jovens que o faziam, quando eram livres, como até ali, para não o usarem.
E ali ficámos a trocar impressões e ideias sobre a vida das mulheres e dos professores em ambos os países. Também lá a classe docente vinha a sofrer dos mesmos males que a nossa. Alunos cada vez menos motivados e mais indisciplinados, destratamento dos professores por medidas políticas cada vez mais globalizadas, burocráticas e económicas, desrespeito social por uma classe de educadores que já viu melhores dias. E eu a adorar esta conversa, a frontalidade e a força desta senhora, a espantosa liberdade que ostentava e de que, claramente, se orgulhava.
Porque há um ideia errada, erradíssima que as mulheres árabes ou são todas oprimidas ou todas submissas. Nem uma coisa nem outra. Há caminhos a percorrer, nos regimes e mentalidades dos seus sistemas políticos ou sociais, mas há muitas que têm uma voz. E dei por mim a pensar que aqui no "ocidente" onde as mulheres conduzem, têm emprego, votam, divorciam-se, e muito mais, tenho encontrados muitas que não têm, contudo, uma voz. Ou seja, apesar das liberdades todas, elas não são livres dentro de si. São modernas mas não são livres. Cumprem, criam em determinadas áreas até mas não intervêem. Não se ouve nem se conhece a sua "voz". Ou estarei redondamente enganada?

Mrs Soffel


"Just a little violet from across the way
Came to cheer a prisoner  in his cell one day.
Just a little  flower sent by a loving hand,
As a kindly meaning that true hearts  understand.
God has smiled upon it and the sender  fair,
And soon that little token, wrapped in hand neat,
Rests quietly in the  grave,
For which a heart that's true does beat."

O filme retrata um história verdadeira. Este poema foi escrito por Ed Biddle para a esposa do diretor da prisão onde cumpria pena, e com quem viveu uma intensa e trágica paixão. No écrã, a voz de Mel Gibson, ainda muito jovem, torna ainda mais eternas as palavras dirigidas à personagem de Diane Keaton - a Mrs Soffel do título do texto. A música de Mark Isham é bela, melancólica, comovente, singular... Escutá-la aqui pode ser também um forte convite a (re)ver este belíssimo, belíssimo filme. Para os românticos, indubitavelmente, mas talvez não só.
Poster de «O Fogo da Paixão»
Em português,  Mrs Soffel - O Fogo da Paixão

outubro 05, 2011

Amar Um Desconhecido




Love with the Proper Stranger, no original, com Natalie Wood e Steve McQueen
  
É possível amar um desconhecido?
Amor à primeira vista, coup de foudre, química absoluta ao primeiro encontro. É. Claro.

            No entanto, não se pretende aqui falar do amor. Apenas da relação ou contato que se pode estabelecer com desconhecidos, de alguém que apenas conhecemos de passagem, como numa estação de comboios, numa ocasião qualquer em que começamos um diálogo que ficará porventura inacabado, no caso de nunca mais virmos a encontrar tais indivíduos. Mas que valeu por aqueles momentos, porque nos mostrámos como somos, sem jogos nem calculismo de ambas as partes, e nos aceitaram e nos ouviram. Sem condicionalismos de qualquer espécie.
            A minha teoria é de que somos bem mais autênticos com quem não nos conhece. E que o julgamento que farão de nós será mais justo porque imparcial, porque desprovido de conhecimento e laços afetivos que em muito podem tolher a verdade e não levar a sério aquilo que se diz. Quantas vezes os "amigalhaços", colegas e mesmo familiares não nos escutam e até brincam com aquilo que dizemos ou sentimos? Porque às vezes há uma necessidade (?) quase estúpida de ter de se ser engraçado o tempo todo e, desta forma, não é possível ter conversas sérias e profundas. Têm-nos como garantidos, de uma forma peculiar, estranha, e não nos reconhecem muitas ânsias, receios, talentos e outros. E assim não nos mostramos como somos, eles e nós.
          Gosto de desconhecidos, no geral e ao mesmo tempo em situações particulares. E isto pode passar por falar e desabafar com um médico que nunca me viu, por falar com alguém num aeroporto (no aeroporto de Casablanca tive uma das minhas melhores conversas de sempre com um casal que seguia para Paris), por fazer acções de formação, por exemplo, em que não conheço absolutamente ninguém. Posso, nestas, estar muito mais à vontade para participar, sem que alguém se melindre ou não leve a minha parte profissional a sério e sobretudo porque as pessoas estarão concentradas na minha prestação e não nas relações que tenho com elas (não as há, e se são feitas a partir do zero). Não há expetativas, fasquia, sentimentos envolvidos, nada. Avaliação mais justa, mais imparcial, mais verdadeira.
          As pessoas desconhecidas com quem estabelemos contato podem, também e curiosamente, deixar-nos marcas profundas. Algo que se disse, que se partilhou, um gesto, um sorriso, uma atenção que não foi pedida nem podia ser cobrada, e ainda por vezes uma vaga e singular tristeza por não as voltarmos a ver. Uma espécie de saudade de quem não chegámos a conhecer verdadeiramente nem por muito tempo, estranha, estranha saudade. Porque podem ter ajudado a decidir algo, a enveredar por um novo caminho. Podem, pois, alterar o rumo da nossa vida, às vezes muito mais do que quem está perto.
          Porque os que estão perto aprisionam-nos muitas vezes, ao invés de nos libertarem. Estamos presos pelo sentimento, pela relação afetiva que existe, pelo compromisso estabelecido, pela relação de poder. E podendo e devendo ser muito bom, pode e não deve ser nefasto. Ou seja, deixem-nos ser quem somos e não nos controlem muito nem dirijam o nosso pensamento. Aconselhar quando é solicitado, ajudar idem aspas, mas deixar-nos voar se nos apetece, pensar com cabeça própria, ser independentes na nossa conduta. Ser mais livres...apesar dos afetos que nos preenchem e de que absolutamente necessitamos.
         Quanto aos desconhecidos que vamos encontrando por aí, nas encruzilhadas da geografia ou da vida, sem afetos construídos à partida mas autenticidade natural, eles têm a sua função na nossa existência. Alguns passarão eventualmente depois a conhecidos, a amigos, a amantes, como o título do texto sugere. Aí começarão os afetos. E também as cobranças... e a nossa concessão para agradar, para não magoar, para sermos amados, para não defraudar as expetativas.  Terá chegado então, sem margem para dúvidas, a altura para dizer "Mata-me de amor, (mas) dá-me liberdade"...

setembro 30, 2011

México

Aprecio mais mas muito mais as telas (e murais) do mulherengo mexicano do que as da sua doida e fascinante mulher. Para lá da invulgar e louca relação entre os dois e da admiração que tenho invariavelmente por Frida - rebeldia, alegria, resistência à dor, ousadia, sofrimento, feminino feminismo - a arte de Diego Rivera é inconfundível e marcante. Nos seus quadros viaja-se até a um México bem menos sofrido, ainda que ilustrando profissões de gente simples, colorido, belo e entendível.

E, claro está, lá estão tantas vezes os bouquets de jarros, que fazem parte das minhas flores de eleição, sobretudo quando em tela. Estes são quadros (ao contrário de outros igualmente famosos que me dariam pesadelos caso os visse a meio da noite e provavelmente não só) que, decididamente, conseguiria ter na minha sala. Vê-los na parede seria incursar, ainda que por momentos, no fantástico, criativo e eternizante mundo de uma coisa chamada arte.

setembro 28, 2011

Roma


Como não amar o cinema clássico?
Como não admirar Fellini?
Como não gostar de Roma?
Como não sentar-se na Fontana di Trevi?
Como não recordar Mastroianni?
Como não suspirar por Anita Ekberg?
Como não celebrar o amor?
Como não querer viver La Dolce Vita?



setembro 25, 2011

Conto-vos como foi

                                 

              Fui uma feliz e irrequieta mariarapaz na minha meninice. Andava sempre, sempre com feridas nos joelhos. Mas daquelas que doíam a valer, enormes, e muitas vezes fazia feridas em cima das que já lá estavam, de uma aventura desastrada anterior, à espera de sararem. Saltava à corda e lá dava um trambolhão. Andava de bicicleta e lá ia mais outro. Jogava ao elástico e idem aspas. Corria e percorria os pinhais e chegava a casa com mais um joelho a sangrar. Uma vez fui mais longe. Dei um grande e ousado salto, pois andava a explorar a casa maior da rua, ainda em construção, e, sim, fui bater na parede em frente. Ainda hoje não calculo muito bem as distâncias, acho. (Estas, que as outras creio que sim e faço por isso.) O meu nariz sangrava, pois então, cheguei a casa a chorar de dor, vi a minha mãe aflita  e, sim, o dito nariz não foi mais o mesmo.
             Tinha muita, diria extrema, dificuldade em voltar para casa. Já gostava de rua, de andar por todo o lado e muitas vezes andava sozinha,  Eram outros tempos, felizes e simples, sem tecnologias e muita correria e brincadeiras de vizinhança fora de portas. Explorava tudo à volta, a pé ou de bicicleta. Ao domingo ia à missa com a canalha vizinha e o momento alto da mesma era quando o padre dizia - saudai-vos na paz de cristo. Adivinhem porquê. Risinhos e emoção na parte de trás da igreja, mas ao mesmo tempo tudo tão inocente, tão naive. Até o catolicismo era uma coisa divertida. Era uma grande alegria quando na Páscoa, por exemplo, o padre vinha e nós tinhamos alecrim espalhado à frente da porta e na rua.
             As minhas brincadeiras de rua eram muito arrapazadas - jogava à cavilha, dava uns toques de futebol com o Paulo, filho da dona da mercearia, tinha carrinhos e um apreço especial por um mercedes azul que viria, de resto, a ser roubado. Pois sim, até as crianças têm apetência por furtos de carros de brincar imponentes e de grandes marcas. Depois, mais ameninada, brincava ao lencinho com a rapaziada do bairro, jogava às lojas (os bocados das telhas eram a carne, a urze era o arroz), às casinhas e mesmo os legos na sala serviam não para fazer blocos nem torres mas para inventar pessoas e casas, em constante interação, romance, família, enfim, coisas de miúdas.
            Quando vinha da escola no inverno e já começava a escurecer, ficava sentada a ver televisão e a comer bolachas (a minha paixão pelas mesmas tem, pois, raízes profundas). Fiquei sozinha em casa por volta dos 9, 10 anos quando a minha mãe começou a trabalhar. Ela só chegava às 8 da noite e o meu pai trabalhava por turnos e à noite. Tinha medo, muitas vezes, do escuro e dos ladrões. Por isso a sala, virada para a rua, estava sempre com a luz acesa e a persiana corrida para cima.  Para me proteger, tinha um cão chamado Fixe que, na verdade, era uma cadela. A casa tinha, portanto, pátio e um grande quintal. Saí de lá aos 16 anos. E, no apartamento, a vida de criança de joelhos esmurrados,  livre e aventureira, pelo espaço e pela idade, não mais seria a mesma.

setembro 24, 2011

Dupla personalidade


Uma querida amiga diz que as pessoas na internet são diferentes daquilo que são ao vivo. Diz ela que há algumas, poucas, que são iguais, mas que, de facto, quase todas parecem ser mais vivas e interessantes virtualmente do que são depois no contato cara a cara.
Vejamos então onde é que paira a nossa verdadeira personalidade. Mostrar-se-á ela online, quando estamos sós, na maior parte das vezes, concentrados, sem inibições vindas de um olhar mais intenso ou crítico? Ou será ela mais autêntica na realidade offline, em que o espaço, o ruído, a psicologia inerente ao contato humano, a personalidade do outro podem interferir sobremaneira na mensagem e no tom?
Quando estamos instalados no nosso sofá, provavelmente estaremos confortáveis e relaxados, daí que possamos ter (mais) graça, um espírito mais desperto e tiradas mais acutilantes e inteligentes, teremos maior boa disposição e humor. Não vemos a(s) pessoa(s) e não queremos causar boa impressão do ponto de vista físico e da aparência - podemos estar de pijama e com o cabelo desalinhado que nada disso  importa. Quando no trabalho, na rua ou no lazer, poderemos estar mais condicionados, por fatores externos à nossa vontade e ao nosso domínio. Laboral ou socialmente temos uma imagem a manter (ou a construir), podemos sentirmo-nos mais intimidados pela presença física do(s) outro(s), a própria circunstância do discurso oral pode limitar-nos (com aspetos como fluência, audição, cansaço e outros) - a nossa presença e qualidade de intervenção pode, assim, sair algo diminuída.
Por outro lado, pode dizer-se que precisamente por esses fatores é que se vê o caráter do indíviduo. Se ele consegue, ou não,  fazer frente a esses condicionalismos do contato real poderá indicar traços da sua personalidade. Da mesma forma, há quem advogará que no mundo virtual as pessoas podem criar personagens, inventar e jogar papéis, sendo o que não são. A timidez fica, porventura, escondida no ecrã.
Nesta altura, perguntemo-nos a nós próprios. Serei eu mais autêntico quando estou no chat ou no facebook ou é-me mais fácil e natural relacionar-me fora do computador? Ou, melhor ainda, conseguirei manter as minhas caraterísticas, e aqui falamos essencialmente das boas, nas duas dimensões? Esperam-se partilhas. E aqui, do silêncio e conforto do seu sofá. Ou até do anonimato. O que quer que isso queira dizer...

setembro 21, 2011

Há Lodo No Cais, ainda (e) bem.

A consciência e/ou a culpa. Provavelmente dos sentimentos mais difíceis de digerir e que mais podem perturbar a serenidade da nossa própria alma. Aqui, a (não)consciência da personagem de Marlon Brando põe em perigo o romance com a muito esquecida e aqui doce Eva Marie-Saint.  De forma ora terna, ora mais sensual, as cenas entre os dois são antológicas.


                           Edie: I want you to stay away from me.
                     Terry: Edie, you love me... I want you to say it to me.
                     Edie: I didn't say I didn't love you. I said, "Stay away from me!

No original, "On The Waterfront" - o clássico de Elia Kazan que vi e revi e que adoro, do género saber diálogos/deixas de cor. Ainda. Antigo, a preto e branco, sem efeitos especiais, realista e até político, será difícil as novas gerações apreciarem-no e mesmo conhecerem-no. E, no entanto, faz parte da história do cinema. Desde sempre, inesquecível.

setembro 20, 2011

Adolescência



Quando nos encontramos
na rua
ou à porta do café
sinto-me como se estivesse desnudada
e com muita gente ao pé.
Intimidada
ridícula e sem jeito
tento saudar-te
mas sem efeito,
de tão embaraçada que estou
de tão insegura que sou.



(Provavelmente escrito aos 13,14 anos..., em ensaios poéticos de uma miúda)

setembro 17, 2011

Diz-me com que carteira andas...


           Fará a carteira, como li num blogue há umas semanas, parte da identidade feminina?
          A autora defendia que sim, que a carteira é um objeto integrante da personalidade de uma mulher, que diz muito acerca do seu caráter, que é um acessório natural como a sua pele. Sorri. Se é de facto assim pouca coisa abona em meu favor. Pois, na verdade, eu cá não gosto de andar com carteira. Ando porque é preciso (nunca consigo encontrar nada à primeira e penso sempre que perdi a chave do carro, de resto) mas livro-me dela sempre que posso, e andar de mãos livres é mesmo o que gosto, como se a ausência de peso e de tudo o que ela acarreta significasse uma automática leveza e liberdade. E não significa?
            Não é que não aprecie  ver carteiras bonitas, aprecio mesmo bastante, há muitas que facilmente me piscam o olho e ainda por cima ficam tão bem combinadas com a roupa e demais acessórios, sobretudo para quem tem esse talento de saber  acertar tudo. Mas não tenho paciência para mudar de carteira todos os dias e consoante as cores que se vestem, o que quero mesmo é despachar-me e não chegar atrasada de manhã. Então lá vou comprando umas que tenham várias cores (como a atual) e que me permitam conjugar a noção de estética a que também não escapo Ou então neutras, preta ou castanha ou cinzenta no inverno e uma clara, branca provavelmente, no verão. Cores mais berrantes para combinar já dão muito trabalho.
           De qualquer forma, o que a autora quereria dizer no seu texto é que a qualidade da bolsa, mala, carteira diz muito sobre a qualidade de quem a usa, assim tipo proporcional. Do género mala cavalinho, pessoa com dinheiro e/mas descolorida e desinteressante, mala chanel opulenta e chic mas algo tradicional, mala versace ousada e in, mala guess jovem, fresca ou aventureira e outras. Bem, aí a minha cotação anda pelas ruas da amargura. Pode haver uma mais original  (e não muito cara, quase nunca) que diga algo sobre mim mas a maior parte das vezes, em que nem sequer a uso, devo passar a mensagem de que há pouco para descobrir.
          E eu a pensar que a personalidade passava por outras coisas. Assim mais essenciais, do ser ou fazer e não do ter ou mostrar. Tonta. Estou a ver que tenho que apostar numa carteira a sério. Não numa carteira séria (livra) mas numa acção a sério e não a brincar. Sugestões?

setembro 14, 2011

A SóS

O que é a solidão? Tema recorrente na música, e noutras manifestações artísticas que não mais fazem do que espelhar a alma e os estados de espírito, como podemos defini-la?
Provavelmente haverá que destrinçar as noções de sozinho e de só. Está-se sozinho muitas vezes porque os outros estão ocupados, porque há essa necessidade por imperativos exteriores, porque nós o queremos e nos sabe bem. Esta solidão física pode ser muito positiva, já que nos faz recarregar baterias, meditar ou mesmo criar. A muitos de nós é difícil estar 24 horas em permanente convívio, socialização, partilha e comunicação. Precisamos desse espaço só nosso para as energias se renovarem, as do corpo e da mente.

Está-se só, muitas vezes por opção, ao que dizem, se bem que nem sempre o sintam, ou porque o percurso de vida assim o obrigou. Esta solidão afetiva será bem mais difícil, árida, dura. Mesmo que a liberdade seja um precioso bem que nos permite fazer o que nos apetece e ser absolutos donos de nós mesmos, às vezes todos ou quase todos ansiamos por umas amarras feitas de afetos que deem algum sentido aos nossos dias para além das obrigações profissionais, carreira e mesmo apenas  da sobrevivência.

De qualquer forma há estados solitários que são precisos, ainda que possam ser dolorosos, constituindo fases em que há um redescobrir de quem se é ou daquilo que se quer ou do que não esteve bem. Se seguidos a alguma desilusão são fundamentais para o renascimento, para o encontro, com um novo companheiro, e sem tempo definido, que pode durar pouco, bastante ou muito mais .

Há ainda a situação de muita gente se queixar de não ter ninguém para "sair" (lembram-se de Marilyn, que lamentava, sendo a mais amada mulher no planeta, não ter companhia num sábado à noite?) ou ainda há aqueles que recusam sair para conviver ou conhecer alguém, independentemente das razões. Os sociólogos e psicólogos que vou lendo debruçam-se invariavelmente sobre a questão da solidão. Termino com uma mais que interessante, porque conhecedora, citação de Isabel Leal, no seu livro Guia de Sentimentos Prováveis:

"Mas a generalidade disso a que se chama solidão não tem que ver com nenhum tipo de isolamento social nem com falta de pessoas para interagir. A maioria das vezes, solidão é sinónima de infelicidade. A infelicidade que grassa sobre o facto de alguém não se sentir amado nem amar." Neste sentido, é bom estar sozinho quando não se está só...da mesma forma que se pode estar só no meio de muita gente a fazer-nos companhia.

setembro 11, 2011

Cor-de-rosa


Aqui há tempos li um interessante texto do Pedro Rolo Duarte sobre a imprensa dita cor-de-rosa. Dizia ele, no blogue que sigo quase numa base diária, que era daqueles que vai acompanhando estas publicações. Assim, sem complexos nem stresses, a confirmar que a verdade e a simplicidade são caraterísticas que lhe aprecio sobremaneira. Há dias li, através do blogue da Helena Sacadura Cabral, um texto noutro blogue em que a autora desancava, ainda que de uma forma algo humorística, algo repito, o teor das referidas revistas. Fiquei com a impressão de que ela, e tanta gente mais, despreza, desvaloriza e diminui,  não apenas o teor dos artigos (que os há discutíveis e de mau gosto, sim) mas também os intervenientes, aqueles que são alvo de textos não consentidos e mesmo os que os consentem. Ou seja, nivela-se tudo da mesma forma.
Acontece que no meio de muita coisa fabricada, enganosa e desrespeitadora (quando não é consentido) encontra-se também verdades, confissões, partilhas (quando se consente, naturalmente). E não vejo porque é que as pessoas  que expõem ou a sua sala ou um estado de alma têm de ser crucificadas por abrirem as portas e deixarem entrever um pouco das suas manias ou hábitos ou gostos ou desilusões. Não compreendo porque é que atores, modelos, empresários, escritores, cantores, artistas são menos válidos por fazerem uma capa. Ou porque é que a palavra celebridade acarreta um estigma de incompetência ou tolice. Pode ser que os haja assim e há, mas outros não o são e ainda por cima fazem aquilo que gostam - não é obrigatório ter uma profissão agarrada aos papéis, às contas, às leis, a um escritório e ser , muitas vezes, chata para se ter uma função. Esta pode ser social, cultural, pop até . Não simpatizo por aí além com modelos nem morro de amores por jogadores de futebol  atualmente e admiro os médicos sem fronteiras e os cirurgiões mas ainda assim digo que os há bons e maus em todas elas.
Vai daí que aparecer numa revista não é necessariamente sinónimo de idiotice ou frivolidade. Há pessoas válidas e talentosas no meio de outras que não o são. Há entrevistas interessantes e maduras no meio de outras frívolas e sem interesse. Há curiosidades que valem a pena no meio de outras que não. Não vejo o porquê de alguns acharem que tudo é fútil, que todos são inúteis e que se é inteletualmente inferior por se ler este tipo de publicações. Há revistas que são melhores no meio de outras piores. Vai daí que nem sempre me fique pelas do cabeleireiro. De vez em quando estão algumas no sofá. Sim, descontrai-se com essas novidades. Não se é automaticamente estúpido, nem temos que ser herméticos e sensaborões para o não ser. Gosto do brilho, da cor dos artistas, do glamour, ainda que nem sempre isso me apeteça e ainda que seja cansativo e redutor alguém poder ser só isso. O que posso não apreciar é aparecerem no meio deles outros que nada disso têm. Mas tenho opção de escolha, posso escolher lê-los ou não. Sem preconceitos, sem stresses. Não falava eu em descontrair?...

setembro 09, 2011

A Sul

O verão que agora termina confirmou a minha predileção pelo sul. O sol,  o apetecível calor, claro, e depois o branco, aquele imaculado branco das casas, o azul do céu que teima em persistir, a calma das ruas e a calma do mar, as praias de água também ela calma, as flores nos jardins e os pinheiros mansos, a maneira aberta e hospitaleira das gentes, disto e de mais ainda, gosta-se, e muito, depois eterniza-se como exemplo de uma maravilhosa vida estival...
Ao mesmo tempo as noites a convidarem a passeios e bebidas frescas, música na rua, esplanadas cheias, pessoas animadas a conviverem, nacionais e estrangeiros em alegrias de quem está fora da rotina. O ceú estrelado,o luar claro e límpido, o não apetecer voltar para casa. Soltamo-nos, não temos horários, absorvemos os locais, os ambientes, mergulhamos facil e placidamente numa existência de doces hábitos. A sul, encontramos o calor e a luz que a alma procura.
Regressando ao norte, sente-se  e vê-se a temperatura drasticamente a descer, a cor das casas a escurecer, a tranquilidade a esvanecer-se, a vida de cidade e as suas exigências a tolher os nossos, meus, devaneios veraneantes de relaxamento. Deixa-se para trás um espaço e um estilo de vida que nos dá tão somente prazer. Voltar cá acima. Como custa sair do sonho de uma, não, de muitas noites de verão.

agosto 31, 2011

Contradiction, by FL

É possível um indivíduo ser...

- racional e emotivo
- frio e distante e quente e afetuoso
- avant garde e conservador
- descontraído e stressado
- generoso e individualista
- independente e sociável
- leve e profundo
- duro e sensível
- comunicativo e reservado
- simples e complexo
- científico e espiritual
- prático e criativo
- informal e hierárquico
- ousado e tímido
- realista e utópico
- curioso e autista

...ao mesmo tempo?

Pode. Chama-se psicologia, personalidade, cruz, sei lá.

agosto 30, 2011

Uma história bem contada



He even took
the Gramophone on safari.
Three rifles...
supplies for a month and Mozart.
He began our friendship
with a gift.
And later...
not long before Tsavo...
he gave me another.
An incredible gift.
A glimpse of the world
through God's eye.
And I thought...
"Yes, I see.
This is the way
it was intended."
I've written about
all the others...
not because I loved them less...
but because
they were clearer, easier.
He was waiting for me there.
But I've gone ahead of my story.
He'd have hated that.
Denys loved to hear
a story told well.
You see...
I had a farm in Africa...
at the foot of the Ngong Hills...


E a história começa, e com ela a nossa viagem até África.

agosto 29, 2011

The Book of Faces

 


Dos blogues que vou seguindo, há uma temática que lhes é comum - um texto sobre o Facebook e como as relações passaram a ser diferentes com o advento deste e doutros fenómenos da Internet. Há quase sempre um lado negativo que apontam a este tipo de vida online mas também há, nessa crítica, aspetos vistos de um ponto de vista humorístico. Por exemplo, é apontado como estranho o facto de, como em nenhum outro lugar, as pessoas ficarem amigas de pastelarias, esplanadas, restaurantes e muitos e outros  mais num instantinho. Ou seja faz-se o Gosto / Like e já cá cantam mais não sei quantos amigos na nossa lista. Nesta linha, dei por mim a pensar que só vou em 217 amigos (tive a infeliz ideia de bloquear uns poucos que não me ligavam nenhuma) e que este número pode ser maior (tornando-me eu, logo, mais popular) se eu também ficar amiga da restauração e outras que tais. Mas poderei ser eu realmente amiga de uma pastelaria? Bem, ... sou amiga dos pastéis, ai sou, até fã e daquelas incondicionais. Ora isto já é um bom começo, certo? Certamente que sim. Não estranhem, pois se os meus amigos aumentarem nos próximos tempos.
Mas, humor à parte, eu sou aficionada do FB. Como, com a maternidade, me tornei mais caseira lá vou, quero pensar, mantendo contato com o mundo. Gosto, francamente de ir sabendo notícias e vendo fotos de férias (ok, é o meu pequeno lado voyeur). Há sugestões que valem a pena, musicais, cinematográficas, leituras, acontecimentos e divertimento, e que me permitem uma atualizaçãozita que, doutro modo, não conseguiria. Depois para quem gosta fortemente de comunicar e mesmo reacender amizades entretanto desaparecidas ou esquecidas, também é interessante. Rever (pois não é o livro das caras?) rostos perdidos no tempo e nos percursos de cada um, e depois interagir é também (re)construir histórias e às vezes afetos, ainda que de uma forma não física.
De qualquer forma, há nitidamente a tendência para interagir mais com as pessoas que fazem parte do nosso mundo real, ou seja, há lá amigos com os quais nunca falamos, provavelmente até não estão editados na nossa Home. Sim, eu própria o faço. Ou seja as inibições da distância física e emocional, verificadas na vida lá fora, são transportadas para o espaço cibernauta. Portanto, daqueles amigos todos, estarão conhecidos, colegas, até não conhecidos, e menos, muito menos amigos a sério. Mas também digo que tal facto acaba por não ser uma desvantagem, de todo. Tudo pode ser positivo, consoante o uso que se faça e os objetivos de cada um de nós. Assim, até uma pastelaria pode ter sentido. Principalmente se a dita começar a comentar as minhas fotos...e clicar Like, pois claro.

agosto 26, 2011

O Pecado Não Mora ao Lado


Coisas que me passaram ou passam completamente ao lado:

* farmville
* futebol, sim, deixei de apreciar
* peso pesado
* concursos de talentos ao domingo à noite
* os csi todos
* amy winehouse
* festivais de verão
* djs (nomes e como cabeças de cartaz)
* o código da vinci e outras histórias afins
* tudo do harry potter
* paulo coelho (mas não o designer)

Nota: O uso de minúsculas é intencional, sim. Significa que estas coisas não tiveram ou não têm importância nenhuma para mim.

agosto 22, 2011

Urgente

Este post não tem nada a ver com o anterior. Não é por ser verão e a estação ser silly que o mundo pára, sobretudo nas regiões onde está, digamos, muito quente, eufemisticamente falando. Na Líbia poderá acontecer hoje ainda a mudança. Da incerteza quanto ao futuro à certeza que é o corte com um passado que não serve.

Mas vem esta pequena introdução a propósito da Síria. Com a minha mania da geografia, associo facilmente as letras das matrículas a cidades e países. O meu primeiro carro foi um Clio verde que durou quinze anos até ao abate, e tinha DS na matrícula. Batizei-o de Damasco (batizei outros, o Clio cinza de uma amiga, por exemplo, era o DAkar). Geo delírios, pois então. Mas estava eu a dizer que o meu Clio fazia-me lembrar a Síria e a sua milenar capital.
Sei, lamentavelmente, pouco sobre a Síria. Tenho este fascínio pelo seu nome, evoca memórias bíblicas traduzidas em séries exibidas na Páscoa, mas de facto, parece possuir uma história rica e mesmo uma sociedade culta. De Bashar Al-Assad sei pouco, lembro-me do seu pai antes dele e não pensei que o massacre e o terror que tem carregado contra o seu povo pudessem vir a acontecer. De fato e gravata, ar até distinto, parecia, visto de longe, pertencer a outro tipo de líderes que, apesar de se manterem no poder por muito tempo, sempre demonstrariam alguma humanidade. Pois não foi o caso. A violência que assola a Síria é inaceitável e o preço que pagam os seus naturais e habitantes, pela liberdade, justiça e verdade, é demasiado caro.
Um a um, estamos a assistir a um novo tempo na irmandade árabe. Os anseios por uma vida mais justa e mais digna não são apanágio só de alguns, obviamente. Há toda uma nova geração mais informada a desejar outro modo de vida. Na Síria, com ou sem Irão (que não é árabe, já agora), e sabendo como dificultará qualquer revolução, está, sói dizer-se, na hora.  Aguarda-se o desenrolar dos acontecimentos.... embora cada dia que passe signifique mais uma vida, mais um ato de coragem traduzido em morte. Por isso mesmo. Urge. It´s time to go.

agosto 21, 2011

O meu verão



O que me lembra o verão do meu absoluto contentamento?

- ruas floridas e dias quentes no alentejo
- manhãs de sol que fazem querer ir para a rua
- dias longos em que não apetece voltar para casa
- noites de estio a passear a pé
- cheiro a mar e maresia na praia pela manhã
- conchas e baldinhos na areia
- vestidos leves e sandálias rasas
- andar de bicicleta até tarde
- adolescentes  festas de aldeia
- campos cheios de flores
- viagem pela estrada rumo ao sul
- imenso azul, do céu e do mar
- romance(s)...

Entre as memórias de criança, os tempos da adolescência, o sabor em adulta e até os filmes que evocam o verão... incrível gosto pelo sol, luz e calor desses dias.