Os efeitos da primavera prolongam-se.


1.As imagens de Khadafi/Gaddafi a ser capturado e praticamente chacinado não são agradáveis de ver. Chocam e perturbam, mesmo sendo quem foi e o que fez. De qualquer forma, temos nós uma distância física e emocional que nos permite discernir entre o certo e o errado, entre o moralmente correto e o princípio da imoralidade. Desta forma, este tipo de atos, mesmo contra ditadores, surgem a nossos olhos como violentos, irracionais, inaceitáveis. Por outro lado, poderão ser e serão vistos como compreensíveis se pensarmos na destruição, na revolta e no caos físico e emocional do país e dos que travam esta batalha há vários meses. E nas vítimas de 42 anos de medieval terrorismo. Para lá das tentativas de definir e descrever os rebeldes e do rumo que a Líbia possa tomar, a realidade é que no terreno e a quente as emoções estarão ao rubro e atos impulsivos e desprovidos de legalidade serão, invariavelmente, o seu resultado. Outra verdade é que o coronel se pôs, definitivamente, a jeito. As atitudes e as palavras dúbias e tresloucadas, assim como o não querer deixar o poder quando lhe foi claramente mostrado que seria difícil senão impossível mantê-lo, não fizeram mais do que cavar o seu fim e desta maneira. Pois não se colhe, quase sempre, o que se semeia?

2.A Tunísia vai a votos amanhã, dia 23. Os cidadãos que vivem no estrangeiro já estão a votar nas embaixadas. Ao invés dos anos anteriores, são eles que têm de se deslocar às capitais dos países onde residem para deixar a sua participação no ato eleitoral deste ano, histórico, sobretudo pela maneira como foi feita a sua revolução. Foi também a primeira no mundo árabe, o rastilho, e o melhor dos exemplos até aqui.
Parece que o candidato islamita segue na frente das sondagens. O mundo ou grande parte dele tem os olhos postos nesta eleição. Ela poderá servir de modelo para as outras que ocorrerão ou poderão vir a ocorrer, sobretudo nesta região geográfica e e humana. O mundo a ocidente estará expetante e temerá provavelmente a vitória do candidato islamita. Mas se olharmos para a Turquia temos um presidente dum partido semelhante a comandar o país. E a Turquia tem vindo a evoluir em muitos campos, nomeadamente o económico. Erdogan, pela postura e pela influência que já tem, é sem dúvida um líder equilibrado (chamou o coronel líbio à razão e fez o mesmo em relação ao presidente sírio) que tem mantido os acordos tradicionais com o ocidente. Não que tenham todos que o fazer obrigatoriamente. Não que o ocidente seja o paradigma da perfeição e do equílibrio (ainda mais nos dias de hoje, sabemos bem porquê). Mas porque acredito que a maioria de nós espera uma mudança de liberdade para o povo tunisino, neste caso. Com todos os defeitos da democracia, mas também com todas as suas grandes vantagens. E esperando a prova de que é sempre e sempre possível mudar.



























