 |
| Love with the Proper Stranger, no original, com Natalie Wood e Steve McQueen |
É possível amar um desconhecido?
Amor à primeira vista, coup de foudre, química absoluta ao primeiro encontro. É. Claro.
No entanto, não se pretende aqui falar do amor. Apenas da relação ou contato que se pode estabelecer com desconhecidos, de alguém que apenas conhecemos de passagem, como numa estação de comboios, numa ocasião qualquer em que começamos um diálogo que ficará porventura inacabado, no caso de nunca mais virmos a encontrar tais indivíduos. Mas que valeu por aqueles momentos, porque nos mostrámos como somos, sem jogos nem calculismo de ambas as partes, e nos aceitaram e nos ouviram. Sem condicionalismos de qualquer espécie.
A minha teoria é de que somos bem mais autênticos com quem não nos conhece. E que o julgamento que farão de nós será mais justo porque imparcial, porque desprovido de conhecimento e laços afetivos que em muito podem tolher a verdade e não levar a sério aquilo que se diz. Quantas vezes os "amigalhaços", colegas e mesmo familiares não nos escutam e até brincam com aquilo que dizemos ou sentimos? Porque às vezes há uma necessidade (?) quase estúpida de ter de se ser engraçado o tempo todo e, desta forma, não é possível ter conversas sérias e profundas. Têm-nos como garantidos, de uma forma peculiar, estranha, e não nos reconhecem muitas ânsias, receios, talentos e outros. E assim não nos mostramos como somos, eles e nós.
Gosto de desconhecidos, no geral e ao mesmo tempo em situações particulares. E isto pode passar por falar e desabafar com um médico que nunca me viu, por falar com alguém num aeroporto (no aeroporto de Casablanca tive uma das minhas melhores conversas de sempre com um casal que seguia para Paris), por fazer acções de formação, por exemplo, em que não conheço absolutamente ninguém. Posso, nestas, estar muito mais à vontade para participar, sem que alguém se melindre ou não leve a minha parte profissional a sério e sobretudo porque as pessoas estarão concentradas na minha prestação e não nas relações que tenho com elas (não as há, e se são feitas a partir do zero). Não há expetativas, fasquia, sentimentos envolvidos, nada. Avaliação mais justa, mais imparcial, mais verdadeira.
As pessoas desconhecidas com quem estabelemos contato podem, também e curiosamente, deixar-nos marcas profundas. Algo que se disse, que se partilhou, um gesto, um sorriso, uma atenção que não foi pedida nem podia ser cobrada, e ainda por vezes uma vaga e singular tristeza por não as voltarmos a ver. Uma espécie de saudade de quem não chegámos a conhecer verdadeiramente nem por muito tempo, estranha, estranha saudade. Porque podem ter ajudado a decidir algo, a enveredar por um novo caminho. Podem, pois, alterar o rumo da nossa vida, às vezes muito mais do que quem está perto.
Porque os que estão perto aprisionam-nos muitas vezes, ao invés de nos libertarem. Estamos presos pelo sentimento, pela relação afetiva que existe, pelo compromisso estabelecido, pela relação de poder. E podendo e devendo ser muito bom, pode e não deve ser nefasto. Ou seja, deixem-nos ser quem somos e não nos controlem muito nem dirijam o nosso pensamento. Aconselhar quando é solicitado, ajudar idem aspas, mas deixar-nos voar se nos apetece, pensar com cabeça própria, ser independentes na nossa conduta. Ser mais livres...apesar dos afetos que nos preenchem e de que absolutamente necessitamos.
Quanto aos desconhecidos que vamos encontrando por aí, nas encruzilhadas da geografia ou da vida, sem afetos construídos à partida mas autenticidade natural, eles têm a sua função na nossa existência. Alguns passarão eventualmente depois a conhecidos, a amigos, a amantes, como o título do texto sugere. Aí começarão os afetos. E também as cobranças... e a nossa concessão para agradar, para não magoar, para sermos amados, para não defraudar as expetativas. Terá chegado então, sem margem para dúvidas, a altura para dizer "Mata-me de amor, (mas) dá-me liberdade"...