setembro 30, 2011

México

Aprecio mais mas muito mais as telas (e murais) do mulherengo mexicano do que as da sua doida e fascinante mulher. Para lá da invulgar e louca relação entre os dois e da admiração que tenho invariavelmente por Frida - rebeldia, alegria, resistência à dor, ousadia, sofrimento, feminino feminismo - a arte de Diego Rivera é inconfundível e marcante. Nos seus quadros viaja-se até a um México bem menos sofrido, ainda que ilustrando profissões de gente simples, colorido, belo e entendível.

E, claro está, lá estão tantas vezes os bouquets de jarros, que fazem parte das minhas flores de eleição, sobretudo quando em tela. Estes são quadros (ao contrário de outros igualmente famosos que me dariam pesadelos caso os visse a meio da noite e provavelmente não só) que, decididamente, conseguiria ter na minha sala. Vê-los na parede seria incursar, ainda que por momentos, no fantástico, criativo e eternizante mundo de uma coisa chamada arte.

setembro 28, 2011

Roma


Como não amar o cinema clássico?
Como não admirar Fellini?
Como não gostar de Roma?
Como não sentar-se na Fontana di Trevi?
Como não recordar Mastroianni?
Como não suspirar por Anita Ekberg?
Como não celebrar o amor?
Como não querer viver La Dolce Vita?



setembro 25, 2011

Conto-vos como foi

                                 

              Fui uma feliz e irrequieta mariarapaz na minha meninice. Andava sempre, sempre com feridas nos joelhos. Mas daquelas que doíam a valer, enormes, e muitas vezes fazia feridas em cima das que já lá estavam, de uma aventura desastrada anterior, à espera de sararem. Saltava à corda e lá dava um trambolhão. Andava de bicicleta e lá ia mais outro. Jogava ao elástico e idem aspas. Corria e percorria os pinhais e chegava a casa com mais um joelho a sangrar. Uma vez fui mais longe. Dei um grande e ousado salto, pois andava a explorar a casa maior da rua, ainda em construção, e, sim, fui bater na parede em frente. Ainda hoje não calculo muito bem as distâncias, acho. (Estas, que as outras creio que sim e faço por isso.) O meu nariz sangrava, pois então, cheguei a casa a chorar de dor, vi a minha mãe aflita  e, sim, o dito nariz não foi mais o mesmo.
             Tinha muita, diria extrema, dificuldade em voltar para casa. Já gostava de rua, de andar por todo o lado e muitas vezes andava sozinha,  Eram outros tempos, felizes e simples, sem tecnologias e muita correria e brincadeiras de vizinhança fora de portas. Explorava tudo à volta, a pé ou de bicicleta. Ao domingo ia à missa com a canalha vizinha e o momento alto da mesma era quando o padre dizia - saudai-vos na paz de cristo. Adivinhem porquê. Risinhos e emoção na parte de trás da igreja, mas ao mesmo tempo tudo tão inocente, tão naive. Até o catolicismo era uma coisa divertida. Era uma grande alegria quando na Páscoa, por exemplo, o padre vinha e nós tinhamos alecrim espalhado à frente da porta e na rua.
             As minhas brincadeiras de rua eram muito arrapazadas - jogava à cavilha, dava uns toques de futebol com o Paulo, filho da dona da mercearia, tinha carrinhos e um apreço especial por um mercedes azul que viria, de resto, a ser roubado. Pois sim, até as crianças têm apetência por furtos de carros de brincar imponentes e de grandes marcas. Depois, mais ameninada, brincava ao lencinho com a rapaziada do bairro, jogava às lojas (os bocados das telhas eram a carne, a urze era o arroz), às casinhas e mesmo os legos na sala serviam não para fazer blocos nem torres mas para inventar pessoas e casas, em constante interação, romance, família, enfim, coisas de miúdas.
            Quando vinha da escola no inverno e já começava a escurecer, ficava sentada a ver televisão e a comer bolachas (a minha paixão pelas mesmas tem, pois, raízes profundas). Fiquei sozinha em casa por volta dos 9, 10 anos quando a minha mãe começou a trabalhar. Ela só chegava às 8 da noite e o meu pai trabalhava por turnos e à noite. Tinha medo, muitas vezes, do escuro e dos ladrões. Por isso a sala, virada para a rua, estava sempre com a luz acesa e a persiana corrida para cima.  Para me proteger, tinha um cão chamado Fixe que, na verdade, era uma cadela. A casa tinha, portanto, pátio e um grande quintal. Saí de lá aos 16 anos. E, no apartamento, a vida de criança de joelhos esmurrados,  livre e aventureira, pelo espaço e pela idade, não mais seria a mesma.

setembro 24, 2011

Dupla personalidade


Uma querida amiga diz que as pessoas na internet são diferentes daquilo que são ao vivo. Diz ela que há algumas, poucas, que são iguais, mas que, de facto, quase todas parecem ser mais vivas e interessantes virtualmente do que são depois no contato cara a cara.
Vejamos então onde é que paira a nossa verdadeira personalidade. Mostrar-se-á ela online, quando estamos sós, na maior parte das vezes, concentrados, sem inibições vindas de um olhar mais intenso ou crítico? Ou será ela mais autêntica na realidade offline, em que o espaço, o ruído, a psicologia inerente ao contato humano, a personalidade do outro podem interferir sobremaneira na mensagem e no tom?
Quando estamos instalados no nosso sofá, provavelmente estaremos confortáveis e relaxados, daí que possamos ter (mais) graça, um espírito mais desperto e tiradas mais acutilantes e inteligentes, teremos maior boa disposição e humor. Não vemos a(s) pessoa(s) e não queremos causar boa impressão do ponto de vista físico e da aparência - podemos estar de pijama e com o cabelo desalinhado que nada disso  importa. Quando no trabalho, na rua ou no lazer, poderemos estar mais condicionados, por fatores externos à nossa vontade e ao nosso domínio. Laboral ou socialmente temos uma imagem a manter (ou a construir), podemos sentirmo-nos mais intimidados pela presença física do(s) outro(s), a própria circunstância do discurso oral pode limitar-nos (com aspetos como fluência, audição, cansaço e outros) - a nossa presença e qualidade de intervenção pode, assim, sair algo diminuída.
Por outro lado, pode dizer-se que precisamente por esses fatores é que se vê o caráter do indíviduo. Se ele consegue, ou não,  fazer frente a esses condicionalismos do contato real poderá indicar traços da sua personalidade. Da mesma forma, há quem advogará que no mundo virtual as pessoas podem criar personagens, inventar e jogar papéis, sendo o que não são. A timidez fica, porventura, escondida no ecrã.
Nesta altura, perguntemo-nos a nós próprios. Serei eu mais autêntico quando estou no chat ou no facebook ou é-me mais fácil e natural relacionar-me fora do computador? Ou, melhor ainda, conseguirei manter as minhas caraterísticas, e aqui falamos essencialmente das boas, nas duas dimensões? Esperam-se partilhas. E aqui, do silêncio e conforto do seu sofá. Ou até do anonimato. O que quer que isso queira dizer...

setembro 21, 2011

Há Lodo No Cais, ainda (e) bem.

A consciência e/ou a culpa. Provavelmente dos sentimentos mais difíceis de digerir e que mais podem perturbar a serenidade da nossa própria alma. Aqui, a (não)consciência da personagem de Marlon Brando põe em perigo o romance com a muito esquecida e aqui doce Eva Marie-Saint.  De forma ora terna, ora mais sensual, as cenas entre os dois são antológicas.


                           Edie: I want you to stay away from me.
                     Terry: Edie, you love me... I want you to say it to me.
                     Edie: I didn't say I didn't love you. I said, "Stay away from me!

No original, "On The Waterfront" - o clássico de Elia Kazan que vi e revi e que adoro, do género saber diálogos/deixas de cor. Ainda. Antigo, a preto e branco, sem efeitos especiais, realista e até político, será difícil as novas gerações apreciarem-no e mesmo conhecerem-no. E, no entanto, faz parte da história do cinema. Desde sempre, inesquecível.

setembro 20, 2011

Adolescência



Quando nos encontramos
na rua
ou à porta do café
sinto-me como se estivesse desnudada
e com muita gente ao pé.
Intimidada
ridícula e sem jeito
tento saudar-te
mas sem efeito,
de tão embaraçada que estou
de tão insegura que sou.



(Provavelmente escrito aos 13,14 anos..., em ensaios poéticos de uma miúda)

setembro 17, 2011

Diz-me com que carteira andas...


           Fará a carteira, como li num blogue há umas semanas, parte da identidade feminina?
          A autora defendia que sim, que a carteira é um objeto integrante da personalidade de uma mulher, que diz muito acerca do seu caráter, que é um acessório natural como a sua pele. Sorri. Se é de facto assim pouca coisa abona em meu favor. Pois, na verdade, eu cá não gosto de andar com carteira. Ando porque é preciso (nunca consigo encontrar nada à primeira e penso sempre que perdi a chave do carro, de resto) mas livro-me dela sempre que posso, e andar de mãos livres é mesmo o que gosto, como se a ausência de peso e de tudo o que ela acarreta significasse uma automática leveza e liberdade. E não significa?
            Não é que não aprecie  ver carteiras bonitas, aprecio mesmo bastante, há muitas que facilmente me piscam o olho e ainda por cima ficam tão bem combinadas com a roupa e demais acessórios, sobretudo para quem tem esse talento de saber  acertar tudo. Mas não tenho paciência para mudar de carteira todos os dias e consoante as cores que se vestem, o que quero mesmo é despachar-me e não chegar atrasada de manhã. Então lá vou comprando umas que tenham várias cores (como a atual) e que me permitam conjugar a noção de estética a que também não escapo Ou então neutras, preta ou castanha ou cinzenta no inverno e uma clara, branca provavelmente, no verão. Cores mais berrantes para combinar já dão muito trabalho.
           De qualquer forma, o que a autora quereria dizer no seu texto é que a qualidade da bolsa, mala, carteira diz muito sobre a qualidade de quem a usa, assim tipo proporcional. Do género mala cavalinho, pessoa com dinheiro e/mas descolorida e desinteressante, mala chanel opulenta e chic mas algo tradicional, mala versace ousada e in, mala guess jovem, fresca ou aventureira e outras. Bem, aí a minha cotação anda pelas ruas da amargura. Pode haver uma mais original  (e não muito cara, quase nunca) que diga algo sobre mim mas a maior parte das vezes, em que nem sequer a uso, devo passar a mensagem de que há pouco para descobrir.
          E eu a pensar que a personalidade passava por outras coisas. Assim mais essenciais, do ser ou fazer e não do ter ou mostrar. Tonta. Estou a ver que tenho que apostar numa carteira a sério. Não numa carteira séria (livra) mas numa acção a sério e não a brincar. Sugestões?

setembro 14, 2011

A SóS

O que é a solidão? Tema recorrente na música, e noutras manifestações artísticas que não mais fazem do que espelhar a alma e os estados de espírito, como podemos defini-la?
Provavelmente haverá que destrinçar as noções de sozinho e de só. Está-se sozinho muitas vezes porque os outros estão ocupados, porque há essa necessidade por imperativos exteriores, porque nós o queremos e nos sabe bem. Esta solidão física pode ser muito positiva, já que nos faz recarregar baterias, meditar ou mesmo criar. A muitos de nós é difícil estar 24 horas em permanente convívio, socialização, partilha e comunicação. Precisamos desse espaço só nosso para as energias se renovarem, as do corpo e da mente.

Está-se só, muitas vezes por opção, ao que dizem, se bem que nem sempre o sintam, ou porque o percurso de vida assim o obrigou. Esta solidão afetiva será bem mais difícil, árida, dura. Mesmo que a liberdade seja um precioso bem que nos permite fazer o que nos apetece e ser absolutos donos de nós mesmos, às vezes todos ou quase todos ansiamos por umas amarras feitas de afetos que deem algum sentido aos nossos dias para além das obrigações profissionais, carreira e mesmo apenas  da sobrevivência.

De qualquer forma há estados solitários que são precisos, ainda que possam ser dolorosos, constituindo fases em que há um redescobrir de quem se é ou daquilo que se quer ou do que não esteve bem. Se seguidos a alguma desilusão são fundamentais para o renascimento, para o encontro, com um novo companheiro, e sem tempo definido, que pode durar pouco, bastante ou muito mais .

Há ainda a situação de muita gente se queixar de não ter ninguém para "sair" (lembram-se de Marilyn, que lamentava, sendo a mais amada mulher no planeta, não ter companhia num sábado à noite?) ou ainda há aqueles que recusam sair para conviver ou conhecer alguém, independentemente das razões. Os sociólogos e psicólogos que vou lendo debruçam-se invariavelmente sobre a questão da solidão. Termino com uma mais que interessante, porque conhecedora, citação de Isabel Leal, no seu livro Guia de Sentimentos Prováveis:

"Mas a generalidade disso a que se chama solidão não tem que ver com nenhum tipo de isolamento social nem com falta de pessoas para interagir. A maioria das vezes, solidão é sinónima de infelicidade. A infelicidade que grassa sobre o facto de alguém não se sentir amado nem amar." Neste sentido, é bom estar sozinho quando não se está só...da mesma forma que se pode estar só no meio de muita gente a fazer-nos companhia.

setembro 11, 2011

Cor-de-rosa


Aqui há tempos li um interessante texto do Pedro Rolo Duarte sobre a imprensa dita cor-de-rosa. Dizia ele, no blogue que sigo quase numa base diária, que era daqueles que vai acompanhando estas publicações. Assim, sem complexos nem stresses, a confirmar que a verdade e a simplicidade são caraterísticas que lhe aprecio sobremaneira. Há dias li, através do blogue da Helena Sacadura Cabral, um texto noutro blogue em que a autora desancava, ainda que de uma forma algo humorística, algo repito, o teor das referidas revistas. Fiquei com a impressão de que ela, e tanta gente mais, despreza, desvaloriza e diminui,  não apenas o teor dos artigos (que os há discutíveis e de mau gosto, sim) mas também os intervenientes, aqueles que são alvo de textos não consentidos e mesmo os que os consentem. Ou seja, nivela-se tudo da mesma forma.
Acontece que no meio de muita coisa fabricada, enganosa e desrespeitadora (quando não é consentido) encontra-se também verdades, confissões, partilhas (quando se consente, naturalmente). E não vejo porque é que as pessoas  que expõem ou a sua sala ou um estado de alma têm de ser crucificadas por abrirem as portas e deixarem entrever um pouco das suas manias ou hábitos ou gostos ou desilusões. Não compreendo porque é que atores, modelos, empresários, escritores, cantores, artistas são menos válidos por fazerem uma capa. Ou porque é que a palavra celebridade acarreta um estigma de incompetência ou tolice. Pode ser que os haja assim e há, mas outros não o são e ainda por cima fazem aquilo que gostam - não é obrigatório ter uma profissão agarrada aos papéis, às contas, às leis, a um escritório e ser , muitas vezes, chata para se ter uma função. Esta pode ser social, cultural, pop até . Não simpatizo por aí além com modelos nem morro de amores por jogadores de futebol  atualmente e admiro os médicos sem fronteiras e os cirurgiões mas ainda assim digo que os há bons e maus em todas elas.
Vai daí que aparecer numa revista não é necessariamente sinónimo de idiotice ou frivolidade. Há pessoas válidas e talentosas no meio de outras que não o são. Há entrevistas interessantes e maduras no meio de outras frívolas e sem interesse. Há curiosidades que valem a pena no meio de outras que não. Não vejo o porquê de alguns acharem que tudo é fútil, que todos são inúteis e que se é inteletualmente inferior por se ler este tipo de publicações. Há revistas que são melhores no meio de outras piores. Vai daí que nem sempre me fique pelas do cabeleireiro. De vez em quando estão algumas no sofá. Sim, descontrai-se com essas novidades. Não se é automaticamente estúpido, nem temos que ser herméticos e sensaborões para o não ser. Gosto do brilho, da cor dos artistas, do glamour, ainda que nem sempre isso me apeteça e ainda que seja cansativo e redutor alguém poder ser só isso. O que posso não apreciar é aparecerem no meio deles outros que nada disso têm. Mas tenho opção de escolha, posso escolher lê-los ou não. Sem preconceitos, sem stresses. Não falava eu em descontrair?...

setembro 09, 2011

A Sul

O verão que agora termina confirmou a minha predileção pelo sul. O sol,  o apetecível calor, claro, e depois o branco, aquele imaculado branco das casas, o azul do céu que teima em persistir, a calma das ruas e a calma do mar, as praias de água também ela calma, as flores nos jardins e os pinheiros mansos, a maneira aberta e hospitaleira das gentes, disto e de mais ainda, gosta-se, e muito, depois eterniza-se como exemplo de uma maravilhosa vida estival...
Ao mesmo tempo as noites a convidarem a passeios e bebidas frescas, música na rua, esplanadas cheias, pessoas animadas a conviverem, nacionais e estrangeiros em alegrias de quem está fora da rotina. O ceú estrelado,o luar claro e límpido, o não apetecer voltar para casa. Soltamo-nos, não temos horários, absorvemos os locais, os ambientes, mergulhamos facil e placidamente numa existência de doces hábitos. A sul, encontramos o calor e a luz que a alma procura.
Regressando ao norte, sente-se  e vê-se a temperatura drasticamente a descer, a cor das casas a escurecer, a tranquilidade a esvanecer-se, a vida de cidade e as suas exigências a tolher os nossos, meus, devaneios veraneantes de relaxamento. Deixa-se para trás um espaço e um estilo de vida que nos dá tão somente prazer. Voltar cá acima. Como custa sair do sonho de uma, não, de muitas noites de verão.

agosto 31, 2011

Contradiction, by FL

É possível um indivíduo ser...

- racional e emotivo
- frio e distante e quente e afetuoso
- avant garde e conservador
- descontraído e stressado
- generoso e individualista
- independente e sociável
- leve e profundo
- duro e sensível
- comunicativo e reservado
- simples e complexo
- científico e espiritual
- prático e criativo
- informal e hierárquico
- ousado e tímido
- realista e utópico
- curioso e autista

...ao mesmo tempo?

Pode. Chama-se psicologia, personalidade, cruz, sei lá.

agosto 30, 2011

Uma história bem contada



He even took
the Gramophone on safari.
Three rifles...
supplies for a month and Mozart.
He began our friendship
with a gift.
And later...
not long before Tsavo...
he gave me another.
An incredible gift.
A glimpse of the world
through God's eye.
And I thought...
"Yes, I see.
This is the way
it was intended."
I've written about
all the others...
not because I loved them less...
but because
they were clearer, easier.
He was waiting for me there.
But I've gone ahead of my story.
He'd have hated that.
Denys loved to hear
a story told well.
You see...
I had a farm in Africa...
at the foot of the Ngong Hills...


E a história começa, e com ela a nossa viagem até África.

agosto 29, 2011

The Book of Faces

 


Dos blogues que vou seguindo, há uma temática que lhes é comum - um texto sobre o Facebook e como as relações passaram a ser diferentes com o advento deste e doutros fenómenos da Internet. Há quase sempre um lado negativo que apontam a este tipo de vida online mas também há, nessa crítica, aspetos vistos de um ponto de vista humorístico. Por exemplo, é apontado como estranho o facto de, como em nenhum outro lugar, as pessoas ficarem amigas de pastelarias, esplanadas, restaurantes e muitos e outros  mais num instantinho. Ou seja faz-se o Gosto / Like e já cá cantam mais não sei quantos amigos na nossa lista. Nesta linha, dei por mim a pensar que só vou em 217 amigos (tive a infeliz ideia de bloquear uns poucos que não me ligavam nenhuma) e que este número pode ser maior (tornando-me eu, logo, mais popular) se eu também ficar amiga da restauração e outras que tais. Mas poderei ser eu realmente amiga de uma pastelaria? Bem, ... sou amiga dos pastéis, ai sou, até fã e daquelas incondicionais. Ora isto já é um bom começo, certo? Certamente que sim. Não estranhem, pois se os meus amigos aumentarem nos próximos tempos.
Mas, humor à parte, eu sou aficionada do FB. Como, com a maternidade, me tornei mais caseira lá vou, quero pensar, mantendo contato com o mundo. Gosto, francamente de ir sabendo notícias e vendo fotos de férias (ok, é o meu pequeno lado voyeur). Há sugestões que valem a pena, musicais, cinematográficas, leituras, acontecimentos e divertimento, e que me permitem uma atualizaçãozita que, doutro modo, não conseguiria. Depois para quem gosta fortemente de comunicar e mesmo reacender amizades entretanto desaparecidas ou esquecidas, também é interessante. Rever (pois não é o livro das caras?) rostos perdidos no tempo e nos percursos de cada um, e depois interagir é também (re)construir histórias e às vezes afetos, ainda que de uma forma não física.
De qualquer forma, há nitidamente a tendência para interagir mais com as pessoas que fazem parte do nosso mundo real, ou seja, há lá amigos com os quais nunca falamos, provavelmente até não estão editados na nossa Home. Sim, eu própria o faço. Ou seja as inibições da distância física e emocional, verificadas na vida lá fora, são transportadas para o espaço cibernauta. Portanto, daqueles amigos todos, estarão conhecidos, colegas, até não conhecidos, e menos, muito menos amigos a sério. Mas também digo que tal facto acaba por não ser uma desvantagem, de todo. Tudo pode ser positivo, consoante o uso que se faça e os objetivos de cada um de nós. Assim, até uma pastelaria pode ter sentido. Principalmente se a dita começar a comentar as minhas fotos...e clicar Like, pois claro.

agosto 26, 2011

O Pecado Não Mora ao Lado


Coisas que me passaram ou passam completamente ao lado:

* farmville
* futebol, sim, deixei de apreciar
* peso pesado
* concursos de talentos ao domingo à noite
* os csi todos
* amy winehouse
* festivais de verão
* djs (nomes e como cabeças de cartaz)
* o código da vinci e outras histórias afins
* tudo do harry potter
* paulo coelho (mas não o designer)

Nota: O uso de minúsculas é intencional, sim. Significa que estas coisas não tiveram ou não têm importância nenhuma para mim.

agosto 22, 2011

Urgente

Este post não tem nada a ver com o anterior. Não é por ser verão e a estação ser silly que o mundo pára, sobretudo nas regiões onde está, digamos, muito quente, eufemisticamente falando. Na Líbia poderá acontecer hoje ainda a mudança. Da incerteza quanto ao futuro à certeza que é o corte com um passado que não serve.

Mas vem esta pequena introdução a propósito da Síria. Com a minha mania da geografia, associo facilmente as letras das matrículas a cidades e países. O meu primeiro carro foi um Clio verde que durou quinze anos até ao abate, e tinha DS na matrícula. Batizei-o de Damasco (batizei outros, o Clio cinza de uma amiga, por exemplo, era o DAkar). Geo delírios, pois então. Mas estava eu a dizer que o meu Clio fazia-me lembrar a Síria e a sua milenar capital.
Sei, lamentavelmente, pouco sobre a Síria. Tenho este fascínio pelo seu nome, evoca memórias bíblicas traduzidas em séries exibidas na Páscoa, mas de facto, parece possuir uma história rica e mesmo uma sociedade culta. De Bashar Al-Assad sei pouco, lembro-me do seu pai antes dele e não pensei que o massacre e o terror que tem carregado contra o seu povo pudessem vir a acontecer. De fato e gravata, ar até distinto, parecia, visto de longe, pertencer a outro tipo de líderes que, apesar de se manterem no poder por muito tempo, sempre demonstrariam alguma humanidade. Pois não foi o caso. A violência que assola a Síria é inaceitável e o preço que pagam os seus naturais e habitantes, pela liberdade, justiça e verdade, é demasiado caro.
Um a um, estamos a assistir a um novo tempo na irmandade árabe. Os anseios por uma vida mais justa e mais digna não são apanágio só de alguns, obviamente. Há toda uma nova geração mais informada a desejar outro modo de vida. Na Síria, com ou sem Irão (que não é árabe, já agora), e sabendo como dificultará qualquer revolução, está, sói dizer-se, na hora.  Aguarda-se o desenrolar dos acontecimentos.... embora cada dia que passe signifique mais uma vida, mais um ato de coragem traduzido em morte. Por isso mesmo. Urge. It´s time to go.

agosto 21, 2011

O meu verão



O que me lembra o verão do meu absoluto contentamento?

- ruas floridas e dias quentes no alentejo
- manhãs de sol que fazem querer ir para a rua
- dias longos em que não apetece voltar para casa
- noites de estio a passear a pé
- cheiro a mar e maresia na praia pela manhã
- conchas e baldinhos na areia
- vestidos leves e sandálias rasas
- andar de bicicleta até tarde
- adolescentes  festas de aldeia
- campos cheios de flores
- viagem pela estrada rumo ao sul
- imenso azul, do céu e do mar
- romance(s)...

Entre as memórias de criança, os tempos da adolescência, o sabor em adulta e até os filmes que evocam o verão... incrível gosto pelo sol, luz e calor desses dias.

agosto 16, 2011

Ocidentalismos - versão 2


O texto anterior debruçava-se sobre uma certa forma de radicalismo. Mas há outras e este é sobre o contrário, ou seja, é acerca da visão colonialista e arrogante culturalmente que muitos revelam na blogosfera. Tal como os anteriores, também devem estar estes submersos em ideologias muito vincadas ou muito próprias. Vêem no "ocidente" todas as maravilhas do planeta e nos outros pontos do mundo e seus habitantes todos os males. Acham que o colonialismo não existiu ou foi ´meiguinho´, que os "nossos valores" são os mais corretos e que a "nossa civilização" é superior. Desta forma todos os que chegam à Europa e aos EUA vindos de outros continentes e culturas vêm, necessariamente, conspurcar a perfeita sociedade que os caracteriza. Estes comentadores e bloguistas são, desta forma, contra a Imigração (mas não tanto contra a E) e contra o multiculturalismo, pois defendem que as pessoas de outras raças e religiões não se integram, fazem distúrbios e até que são inferiores inteletual e moralmente. São indivíduos assim que muitas vezes insistem numa guerra de civilizações, num confronto entre culturas.  Escusado será dizer que fico aterrada com estas formas de intolerância e desconhecimento...
As pessoas, em todo o lado, têm basicamente as mesmas aspirações, sonhos e delírios. Podem estar marcadas pela sua cultura em determinados aspectos, mas na sua essência, terão anseios muito semelhantes. Valores como a liberdade, a paz, a família, e objectivos como ter uma vida digna ou um pouco mais, são transversais. Dizer que viver numa sociedade livre resulta de intrínsecas características culturais é ridículo e ao mesmo tempo inaceitável. A recente revolução árabe é prova disso... Todos os povos podem funcionar em liberdade e democracia, se conseguirem lutar por elas e a elas tiverem acesso. Colocar as suas culturas num plano inferior é hediondo. Podem estar em diferentes níveis de desenvolvimento, isso sim. Há que lhes dar tempo, em muitos casos. Mas a natureza humana é revestida do mesmo material e por isso sou adepta da multiculturalidade, pois só pode enriquecer e renovar as sociedades. Mas para isso há que manter uma atitude aberta, tolerante, curiosa e construtiva. Do lado dos "ocidentais" e do lado dos que imigram, nomeadamente.
Tudo isto para renegar estes pensamentos de direita extrema (no anterior refutava a visão de uma extrema esquerda). A noção de superioridade cultural não é própria dos humanistas, dos sábios, dos conhecedores, dos verdadeiros viajantes, do planeta e da alma. O "ocidente", com tudo o que tem de bom na sua democracia não perfeita, não pode julgar-se dono do mundo nem impor os seus padrões de vida. Prefiro vê-lo como um conceito primeiramente geográfico e reconhecer as suas qualidades mas não esquecendo que as outras regiões e culturas também as têm e que em muitas delas ainda há um tempo que é preciso decorrer. Aos extremistas que são cruelmente etno e geocêntricos aconselha-se a conhecerem, a misturarem-se, a aprenderem, a refletirem, a serem humildes, despertos, positivos e generosos... Só assim a tolerância, a visão, a construção e a justiça poderão emergir.

agosto 11, 2011

Ocidentalismos


As pessoas falam muito ou escrevem ainda mais mas a verdade é que a Europa e os EUA continuam a atrair gente de todo o mundo. Ou seja, por muitos defeitos que tenham, a vida que permitem ainda é melhor do que a permitida em muitas nações. Sim, há uma absoluta crise de valores:  há um consumismo doido, há frieza e arrogância nas relações humanas, há má-educação e agressividade, há um acelerado ritmo de vida e de trabalho doentio porque exagerado em muitos casos, há ausência de reconfortantes afetos, há um sem número de coisas que tem tornado estas sociedades longe do ideal que muitas vezes apregoam (acrescentando-se  os crescentes  problemas económicos).
Mas vejamos. Muitas das pessoas que criticam a torto e a direito tudo o que é ocidental (para mim, noção geográfica, primeiro que tudo), com ódios fossilizados que saltam à vista, fruto por vezes de ideologias muito marcadas e que lhes roubam a independência de espírito, não saberão concerteza o que é viver na Somália e no Corno de África, no Iraque, na Síria, na Líbia, no Haiti, nas Filipinas, no Afeganistão, no Yémen, e isto para não apontar muitos mais nomes de países cujas situações são complicadas por diversas razões. Ora nestes e noutros locais luta-se por uma sobrevivência a vários níveis. Guerra, fome, seca, corrupção, censura, opressão, medo, terror, pobreza, tudo a um nível extremo que porventura nunca experimentámos, nestes tempos modernos em que se esperava que coisas deste género estivessem completamente erradicadas.
Daí que fazer acusações primárias, baratas e desprovidas de reflexão seja fácil e cómodo. Não são estas democracias ocidentais, perfeitas. Bem sabemos que não. Mas entre elas e muitos outros sistemas negadores das essenciais liberdades e dos essenciais bens, escolhamos as que melhor nos convêm. E parece-me que a resposta é clara. Os fenómenos migratórios (com e ou com i) explicam essa preferência. Vem este pequeno apontamento a propósito das leituras que faço dos jornais online. Os comentadores disparam sobre a Europa e os EUA como sendo os responsáveis por todos os males do mundo. São, de facto, responsáveis por acções erradas e por exportarem modelos  de vida aparentemente perfeitos mas não estão sozinhos.
As viagens que fiz fisicamente e ainda faço culturalmente mostram-me que há pessoas maravilhosas por esse mundo fora, autênticas nas sua simplicidade, longe da cultura do consumismo vazio e agressivo. Mas e que tal não esquecer também, em muitos desses locais, que há ditadorzecos fora do normal, nacionais e locais, carniceiros e algozes, corruptos e egoístas, fantoches e idiotas, que oprimem e reprimem, usam e abusam, mantendo as suas populações no obscurantismo, na ignorância, no medo, na pobreza, no atraso, no desespero? Sem leis que as protejam, sem direitos, sem dignidade, sem vida? Caros comentadores...apanhem o avião e experimentem viver assim. Longe da zona de conforto que tanto denigrem. Depois digam alguma coisa, se entretanto tiverem sobrevivido. Cá vos esperamos com as vossas sábias tiradas.

agosto 09, 2011

When you´re tired of London you´re tired of life



Eu que não costumo comentar a atualidade neste espaço, de vez em quando lá sinto que tem mesmo que ser.

Londres. A primeira viagem que fiz ao estrangeiro, já lá vão vários anos, foi a esta cidade. Quinze dias passados maravilhosamente, por entre passeios a pé, visitas a locais de interesse, muito calor (naquele ano estavam 34 graus de verão), comunicação em inglês, cosmopolitismo, arte e cultura, divertimento, pequenas aventuras, riso, numa jornada de descoberta de uma capital animada, viva, multicultural, variada, fantástica. Desses dias ficaram-me muitas memórias só do melhor e uma vontade imensa de voltar.
Vejo agora as imagens televisivas e não reconheço os espaços nem as pessoas nem a atitude nem absolutamente nada. Estranho e não entranho, decididamente. Não é aquela a cidade que vi, embora saibamos que as coisas são, frequentemente, diferentes na perspetiva de um turista. De qualquer forma, como explicar o que está a acontecer? A violência, a pilhagem. Tensões raciais? Causas económicas? Uma grande crise financeira a alastrar mas também uma absoluta crise social e moral? De quem é a culpa? Jovens a filmarem os seus atos para o youtube - a internet? As políticas erradas? O capitalismo selvagem? A cultura da agressão e da selvajaria? São questões que se levantam, provavelmente com múltiplas respostas. Só sei que não gosto do que vejo e entristece-me saber que na Londres onde fui feliz se vivem momentos como este...
Samuel Johnson disse a frase que dá título ao texto. Não me cansei de Londres... estarão os implicados nos tumultos cansados da vida?

agosto 08, 2011

Elementar




Dificilmente haverá coisa de que goste mais do que explorar - passear, viajar, conhecer, absorver os locais. É quando estou no meu melhor e me sinto estimulada - nesse contacto com a geografia física (e, por vezes, humana também). Aliadas ao verão, todas as experiências de fugir da rotina sabem ainda melhor e não dão azo a preocupações, afinal é por isso que as férias também são tão apetecíveis.
De qualquer forma, nesta pequena incursão por um sul do país que já conhecia em grande parte, dei por mim a reparar em pormenores de correção linguística que teima em não vingar. Passo a explicar. Em inúmeros restaurantes, residenciais, cafés e outros ligados à área do turismo e restauração continua-se a escrever mal a preposição "à". Ou seja, por onde quer que ande ou andasse lá estava escrito "aberto das 9 ás 17h" ou "polvo á lagareiro" ou "encerrado á segunda-feira". E isto foi no sul e é aqui no centro/norte - a incapacidade de escrever corretamente a preposição "à" ou "às". Mas ninguém repara e diz alguma coisa? Provavelmente fazem como eu - vêem e indignam-se mas nada dizem. Mas, e dentro do(s) negócio(s), ninguém reconhece o erro? Bem, a verdade é que se trata de um erro recorrente e mesmo sistemático, até nas escolas (já dei por um numa repografia, por exemplo) e instituições públicas, o que ainda se revela mais grave. E locais como o Badoca Park, que visitei a semana passada, onde vão também alunos, e onde estava também registado o horário com mais um afirmativo e inaceitável "ás" (por favor, poupem-nos, não se trata de um jogo de cartas).
Mas as incorreções e desconhecimento do funcionamento da língua num nível dir-se-ia básico, se é grave em português, também o será noutras línguas. Que dizer de "keep this toilets clean", repetido nos WCs mesmo em frente ao Casino de Tróia? Sim, não consegui evitar os tiques de professora. Quando se escreve numa língua estrangeira, o cuidado deve ser o mesmo ou ainda maior - pedir-se a quem saiba para escrever com o máximo de correção. Senão, é como as instruções que acompanham os eletrodomésticos oriundos do estrangeiro- olhamos para as páginas em português e aparecem muitas coisas estranhas à nossa língua e ao sistema da mesma. Penso que deveria haver mais rigor na tradução tratando-se de lugares públicos,  essencialmente se se trata de um nível linguístico quase elementar. Não se pretende que toda a população domine a língua estrangeira por completo mas que quando a queiram registar por escrito procurem informar-se devidamente.
Quanto à nossa língua e ao indevido uso e abuso da preposição "à" ou "ás" sugiro uma ASAE linguística para ir por esse país fora corrigir o que não está bem. Tratar-se-ia de um emprego deveras agradável para quem gosta de percorrer os trilhos das estradas e ainda juntar a parte gastronómica ao conjunto da aventura... (se bem que nas escolas, hélas, também devessem aparecer). Eu cá não me importaria... e você?

julho 27, 2011

De Bronze

Tal como prometido, aqui fica uma lista de morenos absolutamente marcantes para mim. Faltam outros, certamente, mas estes por alguma razão transmitiram ou transmitem algo mais em determinada altura ou circunstância. O cinema é, mais uma vez, grande fonte inspiradora porque fazedora de mitos. E aqui,  charme e sedução aliados ao talento são chaves para a posteridade...

Marlon Brando
Até lhe fiz um pequeno poema na adolescência. Gigante e completamente imprevisível dentro e fora da tela, os filmes dos anos 50 fizeram dele um ícone. "Há Lodo no Cais", cujas falas sei de cor e tantos outros. Magnético e invulgar, gostou sempre de mulheres exóticas. Fantástico ainda em "O Padrinho" e "Apocalypse Now", já depois da juventude.

Art Malik
Britânico, com um impecável inglês, de origem paquistanesa, os papéis oscilam entre o charme exótico  e o fatal terrorista. Marcante em "A Jóia da Coroa", pérola da televisão nos anos 80. Geralmente ator secundário no cinema, foi de fato na TV que alcançou alguns papéis de protagonista. Lembram-se de "Harém"?

Eros Ramazzotti
É tudo - a envolvente música, a emotiva língua italiana, o rosto belo ao estilo Roma, a paixão. Mesmo com cabelos brancos, continua a seduzir pelo avassalador romantismo associado à sua persona. Experimente ouvir "Silver e Missie", e tantas outras...

Andy Garcia
Não esqueço a eletrizante personagem em "O Padrinho III". Foi nessa altura que o descobri, a energia mas também a ternura que acaba por passar nos seus filmes. Muito latino no look e nas emoções, é um fantástico actor - tanto em filmes de ação como em dramas românticos.

Eduardo Moscovis
Não me levando propriamente a suspirar, considero-o um galã com interpretações ora sedutoras ora divertidas. Há que honrar o Brasil nesta lista, já que possui uma panóplia de galãs considerável de geração para geração.

José Mourinho
Longe vão os tempos em que gostava de futebol. Mas admiro-lhe a atitude vencedora e "especial" num país amorfo e submisso que gosta de pensar que é humilde. A sorte protege os audazes, gosto de pensar. E, claro, é um homem muito bonito.

Tony Leung
Como eu gostei de "O Amante". Que filme intenso, pelas cores, pela história, por um certo erotismo. Fiquei fã deste actor chinês. Também destaco a longa-metragem urbana  "O Expresso de Chungking". Está mais velho, mas é um galã oriental.

Daniel Day-Lewis
Sobretudo por "Em Nome do Pai" que me fez sair do cinema arrebatada, na altura. Eletrizante e tocante interpretação. E depois como o romântico asteta Newland Archer em "A Idade da Inocência", um dos meus de eleição. E tantos outros.

Clive Owen
É frequente ver escrito Clive rules! nas páginas de fãs. Mas é, de facto, o rei. Pura sedução. Só a voz "estremece" e a beleza é reconhecidamente apanágio deste também talentoso actor britânico. Gostei muito do fucking caveman em "Closer - Perto Demais", do vibrante médico em "Amor sem Fronteiras" e de praticamente todos os papéis que faz. Ainda espero por um grande papel romântico ao estilo dos Oscars.

Nesta incursão pelos cabelos castanhos, agradou-me também o fato de viajar pela geografia do mundo, percorrendo quase todos os continentes.

Mas falta ainda outra lista...que ficará para a próxima.  Em tempo de férias, divirtamo-nos com leituras mais leves e quiçá façamos o mesmo. Que tal contribuir com a sua lista de morenos nos comentários? Fico à espera...

julho 20, 2011

De Ouro

Esperando por uma consulta, entretive-me a ler revistas de jornais. Deparei-me com uma, já de alguns meses atrás, que tinha como tema o Dourado. Entre outras coisas tinha um apontamento sobre homens louros que marcaram gerações, a nível artístico, futebolístico e até político. Achei a ideia engraçada e concordei que alguns deles são ou foram realmente marcantes. Inspirada por tal ideia fica aqui a minha lista.

1- James Dean

Cresci a ver cinema clássico na RTP. Os seus 3 filmes foram emblemáticos, pela rebeldia, beleza e vulnerabilidade. Fotogénico, as suas fotos fazem parte da galeria dos ícones.

2- Robert Redford



O que eu suspirei por ele em Flor à Beira do Pantano, com a Natalie Wood. E mesmo já depois da juventude ainda gostei de o ver em África Minha e Havana. Um expoente de romantismo.

3 - Steve McQueen
 


Fantástico actor de ação mas com inesquecíveis momentos de paixão. Bullit, Amar um Desconhecido, A Grande Evasão, Papillon, a lista de grandes filmes é longa.

4 - Rutger Hauer


Gosto deste holandês, enigmático, muitas vezes com papéis difíceis e estranhos e que adorei ver na fantasia romântica LadyHawke. Também bom em Blade Runner.

4 - Simon LeBon


O meu ídolo da primeira adolescência. Sim, tive o quarto cheio de posters dele e da sua banda, Duran Duran. Era um pop dos anos 80, criticado por muitos, mas adorado pelas fãs femininas. Não fugi à regra.

5 - Sean Bean


Não é um actor por aí além conhecido, mas eu gosto do cinema britânico e dos seus atores. Esteve tão bem na série da BBC, O Amante de Lady Chatterley. E depois em The Field, numa personagem sofredora.

6 - James Spader


Eu gostei de Sexo, Mentiras e Vídeo. E gostei de Loucos de Paixão. E de outros. Sensível, belo, doce e ao mesmo tempo assertivo.

7- Justin Timberlake


Não é que goste de todas as músicas, longe disso. Longe. Mas é tão eletrizante, tão magnético e sexy. Pronto, é isso.

8 - Jude Law


Muito interessante, muito bonito, excelente para filmes europeus - leia-se britânicos -  pela elegância e recorte ao estilo de "angry young men", ou seja bastante literário.


O mais certo é ter esquecido alguns mais. E ah, claro. Prometo fazer uma coisa idêntica para os morenos...

julho 16, 2011

em desACORDO

Custou-me imensooooo retirar o C do título do blogue. Custou horrores, pronto.

julho 12, 2011

O bilionário

É extraordinário o poder do (bom) cinema. As viagens que permite, o conhecimento que se tira, as reflexões que inspira. Ainda ontem pude fazer tudo isto ao mesmo tempo. quando finalmente vi Slumdog Millionaire. Não sendo um filme propriamente arrebatador ou soberbo, não deixa de ser extraordinariamente marcante, pela narrativa em inocente flashback, pelos cenários de miséria humana e física, e mesmo pela banda sonora, à la Bollywood. Mas aquilo que me leva a escrever são de facto as lições, ou seja, as conclusões que invariavelmente se tirarão da sua história invulgar, se bem que nem sempre imprevisível.
A primeira é a noção de conhecimento. O que é o conhecimento? Quem o detem? Será ele apanágio de alguns? É dado pelos livros e pela educação? Ou pode alguém sem instrução deter o saber pela sua incrível história de vida? Se a isso, ainda por cima, aliar memórias de dor ou de uma dura existência que soube ultrapassar? A forma como Jamal consegue responder às perguntas do concurso mais popular de sempre é fruto de um percurso de vida feito de encruzilhadas e desencontros, de experiências marcadas pela violência e pelo desafecto, e nunca de uma salutar aprendizagem própria de uma criança feliz e enquadrada familiar e socialmente.  Daí que ninguém acredite na sua inusitada sabedoria. O puto dos bairros de lata a catalizar os sonhos de uma Índia miserável - fantástica alegoria. E fantástica redenção.
Mas outra grande conclusão é que, apesar de tudo, Jamal foi e é realmente saudável na sua alma e carácter e que essa bondade e generosidade que dá à vida e aos outros vão ser recompensadas mais tarde. Exactamente o contrário da personalidade e fim do seu irmão, Salim. Apesar dos ocasionais laivos de consciência deste, particularmente em relação aos desesperos de Jamal, a verdade é que escolheu desde sempre uma vida errante, feita de jogadas, de esquemas falhados, de violência, de morte. Aquilo que deu, colheu - perfeitamente sintomática a cena em que é assassinado na banheira estando coberto não de água (a transparência, a limpidez) mas de notas (a ambição, o falso poder). De qualquer forma, ele terá aberto o caminho para a felicidade do irmão - eliminando os algozes e "libertando" Latika. Terão os maus também coração? Ou a sua maldade foi apenas resultado da miséria e da sua desesperada incapacidade de fazer as escolhas certas?
Outro aspecto inerente à estranha beleza do filme é a recorrente dimensão da perda da inocência num mundo que não contempla o crescimento harmonioso de crianças e adolescentes. A inocência dificilmente consegue prevalecer quando se trava uma luta árdua e desigual pela sobrevivência. E como sempre acontece, há momentos de choque nesse processo. Queremos mudar as coisas, desejamos que não fossem assim, pensa-se nos nossos filhos e, por contraste, no dilacerante desabrigo daqueles miúdos. Mas ao mesmo tempo, também, prova-se que a doçura e pureza da alma se podem conservar - Jamal consegue-o e é tocante que o faça no meio de tanta dificuldade.
Há ainda a questão da inveja que o sucesso de alguém simples desperta. O vaidoso apresentador de televisão pretende continuar a ser a estrela do mesmo. Aparecer um miúdo de 18 anos que lhe rouba o protagonismo não é tolerável, por isso fornece-lhe a resposta errada, ficando surpreendido quando ela é, inteligentemente, preterida. Todo o concurso opõe a vaidade e o estrelato construído pelos media à  verdade e autenticidade do concorrente. A última pergunta é de uma facilidade evidente e Jamal, o rafeiro, como chega a ser chamado, não sabe. Porthos, Athos mas... Aramis? Mas na sua clara inocência aventura-se seguramente pela resposta certa. Confiança e sorte fazem dele um vencedor natural, porque a sua simplicidade triunfa sobre a desconfiança.
Finalmente, talvez mesmo o amor. Mais uma vez, aparece aqui como motivação para algo mais, como uma espantosa forma de elevação do indivíduo. Por Latika e pelo desejo de a rever e de amá-la, o rapaz do chá inscreve-se no concurso. E ganha. E com ele, o dinheiro que nunca divinizou, e a miúda agora mulher dos seus atribulados tempos de infância nas ruas e bairros de uma Bombaim/Mumbai de que se soube libertar.

julho 08, 2011

(Pro)Fundo


Não vou falar da Moody´s nem da crise nem das portagens nem do casamento monegasco nem de nenhum outro acontecimento mais ou menos actual. Disso toda a gente estará a falar nestes dias e também sobre isso a escrever.
De que falarei hoje, então? Das crises, é certo. Mas das existenciais, daquelas que nos dilaceram a alma e que nos desorientam durante um tempo, daquelas que não gostamos de viver nem de assumir, muitas vezes, e que não nos deixam viver, também, dificultando ainda mais as coisas.
Explica-se. Há uma recusa, essencialmente por parte dos outros, em que se atravessem momentos destes. Há quase uma social obrigatoriedade de estarmos sempre felizes, sempre satisfeitos, sempre preenchidos, sempre activos, sempre aptos. E, no entanto, não estamos. E nem podíamos estar. As crises são essenciais para a renovação do indivíduo. Leiam-se os textos de Isabel Leal e de Alberoni (quantas vezes o cito aqui e quantas vezes me inspira a escrever) e veja-se a perspectiva sábia de quem sabe.
Por muito que soframos, porque elas doem, verdadeiramente, por muito que não seja agradável de assistir, sobretudo para quem está (mais) perto, elas são cruciais para se dar o renascimento. As palavras que as descrevem são duras - depressão, crise nervosa, e remetem para áreas difíceis de digerir como a psiquiatria, em última instância. Mas curiosamente elas são naturais e desta forma deveriam ser encaradas, ao invés do estigma da patologia que as acompanha.
Let´s put it on the line: não é melhor que nos reconfortem com um inteligente vai passar, é só preciso tempo do que um atrofiado não podes sentir-te assim? Não é melhor que nos digam é compreensível, toda a gente passa por isso do que és doente e és tu o culpado? Porque não se tranquilizam as pessoas umas às outras? Porque as assustam e insistem em fazer senti-las fora do normal? Que tipo de superioridade querem mostrar? Força e domínio? Auto-controlo? Saúde mental absolutamente relativa?
Uma pessoa que viveu uma crise, ou mais, porque elas são periódicas (sim, vá, tranquilizemo-nos), é uma pessoa mais forte. Sim. É uma pessoa mais preparada, mais experiente, mais profunda. Porque dela(s) deverá ter apre(e)ndido um grande número de coisas. Experimente conversar com alguém a quem tudo sempre correu bem, que nunca se afundou em melancolia ou desilusão. Encontrará frescura, decerto. Mas encontrará conhecimento? Combatividade? Resistência? Colherá ensinamentos? Provavelmente, não.
Por isso, e por muito que nos custe estar na mó de baixo, até porque o tempo parece infinito e não vemos saída aparente, a verdade é que sairemos, e vencedores sairemos. Porque confrontámo-nos connosco próprios, fomos ao fundo de nós mesmos, renascemos e continuamos em frente.

julho 04, 2011

Ignorâncias


1- Não ler Saramago
2- Não ouvir música clássica
3- Não saber nada de economia
4- Não estar a par do acordo ortográfico excepto nas consoantes mudas
5- Não ter ido a Nova Iorque
6- Não saber o nome de muitas doenças ou órgãos ou ... afins
7- Não ver nunca o CSI nem o Dr House nem nenhumas séries parecidas e americanas
8- Não gostar de coisas tipo Harry Potter e O Código DaVinci
9- Não saber o nome das músicas actuais (nem de quem as canta, 90% das vezes)
10- Não gostar de nem conhecer a(s)  lei(s)
Isto está, claramente, ... mau.

junho 30, 2011

Irreversibilidade


Procuro não comentar a actualidade, neste blogue, por várias razões. Nem fui nunca admiradora de Angélico, pelo contrário, detestava o estilo que ajudou a criar, já para não falar da série que o lançou. Mas a morte do jovem actor, da maneira que ocorreu, levanta algumas reflexões. Entre o público fã, maioritariamente adolescente, estava um míúdo na vigília , dos seus 14, 15 anos a chorar que, interpelado pela repórter, disse "Ele era um exemplo para todos nós." Oh pá, isto é que não, penso eu automaticamente. Bem sabemos que os fenómenos de idolatria que se verificam na adolescência e primeira juventude explicam estes exageros de linguagem mas há que destrinçar a massa de que se faz um ídolo daquela de que se faz um exemplo.
Os ídolos situam-se quase sempre nos sectores da música, do cinema, do desporto, da televisão. São pessoas que quase sempre (nos) seduzem por uma imagem que constroem - de beleza, de juventude, de moda, de rebeldia, de irreverência. Contudo, muitos dos seus comportamentos, como se sabe, estão longe de serem um exemplo. Ou seja virtudes como a responsabilidade, o civismo, o empenho, a constância, a educação, o respeito pelo outro, muitas vezes passam-lhes completamente ao lado. Até alguém que gosta do brilho destas estrelas, reconhece que muitas das suas atitudes e percursos de vida pessoal não fazem parte do seu projecto de vida. Podíamos até enumerar aqui muitos nomes, nacionais e internacionais.
Daí que apreciar a sua música ou a sua arte, ou apenas o seu estilo, corpo ou rosto, não seja (nem deve ser) a mesma coisa do que lhes apreciar o carácter ou a conduta de vida e querer viver algo semelhante. Sem moralismos, opções de imaturidade familiar, irresponsabilidade laboral, drogas, pedofilia, agressão, violência, crime, excentricidades perigosas e (auto)destrutivas afiguram-se como características não desejáveis para uma saudável e feliz existência, ainda que estas noções possam ser absolutamente relativas. Mantenhamos estas celebridades como ídolos de quem somos fãs por uma ou outra razão mas não lhes chamemos propriamente exemplos.
O culto da velocidade extrema em espaços civis é irresponsável, egoísta e imaturo. Filmes como Velocidade Furiosa dão-lhe um ar glamoroso (já repararam com as bandas sonoras glorificam tantas vezes actos de insanidade ou violência?) mas fora da ficção é condenável e, pior, traz riscos irreversíveis. Como no exemplo deste jovem , cuja morte me chocou, é certo, pela sua juventude e pela dor que deve representar para os seus pais e amigos, mas que, reafirmo, não é exemplo para ninguém.

junho 23, 2011

O último a ver



Parece realmente um enorme cliché mas quantidade e qualidade parecem não combinar quase nunca. No tempo em que havia só uma  televisão estatal, a RTP, a programação era de facto menos diversa mas tão mais marcante. Porque a organização sobretudo mental que (me) permitia, fruto dessa pouca oferta, levava-me a não perder programas que nunca mais esqueci e que quase desapareceram do mapa televisivo actual. Com a chegada das privadas, que durante algum tempo pareceram levar a melhor sobre a velha TV, mesmo nas minhas escolhas, o panorama alterou-se sobremaneira com a competição pelas audiências e uma proliferação confusa de programas que levam à repetição, à superficialidade, ao desnorte.
Meu, pelo menos. Há anos que não consigo seguir uma programação equilibrada e enriquecedora, tendo abandonado praticamente os canais privados por causa da sua cansativa, vazia e ilusória abordagem. Voltei de facto e com muito agrado ao canal mais antigo. Os telejornais são ligeiramente mais curtos, há uma preocupação com a informação e reportagens sérias fora das notícias das 20 horas, tem havido uma preocupação cultural interessante, sobretudo não é tão alarmista, nem stressante, nem vertiginoso.
Daí que assinale com desagrado o programa das noites de domingo - o reality-show que o não é, numa paródia, tem-se dito inteligente, aos formatos dos canais mais virados para o entretenimento fácil e oco. Não discuto se a ideia é interessante, mas penso que o resultado não o será. Não consigo ver nem um bocadinho (embora consiga ver o programa rival das tribos, pois consigo achar-lhe interesse antropológico), não me estimula minimamente e, pior, o nível de linguagem parece-me inaceitável num canal público que pretende (pretende?) formar os cidadãos. Não consigo achar normal na RTP, ao fim de semana e a uma hora que não é tardia, o uso que fazem do calão e afins, reforçando a ideia de que mensagem não há nenhuma e entretenimento muito pouco, numa combinação algo mal conseguida entre comédia e crítica. Não é este tipo de programas de que a RTP precisa e deve apostar. Deve manter-se na dianteira precisamente porque é diferente, porque constitui uma alternativa, porque não joga no mesmo campeonato dos restantes canais. Que saudades dessa televisão, quando havia só um canal...
Mas então dizia também que sou eu que não me consigo orientar no meio de tanta coisa que não (me) interessa. Então como a televisão dos canais mainstream nem sempre me satisfaz, ou satisfaz muito pouco, lá dou por mim no computador a fazer algo que me preenche muito mais quando há tempo para uma pausa no sofá. A escrever, sobre TV, por exemplo...

junho 16, 2011

Prazeres



Tirado do blogue de Pedro Rolo Duarte. Adaptado. (Ver autoria.)

Prazeres



O primeiro olhar da janela de manhã (se for de Verão)

O velho livro de novo encontrado

Rostos animados

Sol, o mudar das estações (e não neve)

O blogue (podia ser jornal  mas nem sempre)

O pequeno (tirei o cão)

A astrologia (era dialéctica)

Tomar duche, dormir (estava nadar)

Velha música (dos anos 80)

Sapatos cómodos

Compreender (e ser compreendido)

Música nova (tirando hip hop, rap, techno, house, trance etc etc)

Escrever, escrever (plantar não)

Viajar, ver cinema (cantar, credo!)

Ser amável.

                                                            Bertold Brecht e Eu

junho 10, 2011

Great expectations



A noção de felicidade é relativa e até pessoal, sabemos. Porém haverá pontos em comum nas definições que daremos e também caminhos que se podem dizer similares na sua procura. Um deles, e a jogar um papel primordial, é a questão das expectativas. E comecemos por dizer já claramente, fazendo eu minhas as palavras de Alberoni: "para sermos felizes devemos aceitar o insucesso (...) não esperarmos nada, e então a felicidade surgirá."
De facto, as expectativas quando são (muito) altas levam-nos a um estado de ânsia e adrenalina que pode vir a ser completamente defraudado. E sendo, surgem depois a desilusão, o desgaste e a dor, em doses que variam de caso para caso, consoante aquilo que se esperou. Quer-se com isto dizer que devemos não sonhar? Actualmente prefiro falar em metas e objectivos, pois apesar das palavras serem mais pragmáticas e frias, traduzem melhor o almejar de algo para quem os sonhos significam pertencer a uma juventude fantasiosa e mais ingénua algures lá atrás. Então, na maturidade, poderemos e devemos continuar a ter objectivos e entusiasmo por eles, mas este de alguma forma comedido, sabendo que aqueles podem falhar, numa mistura de confiança e (mas) realismo que importa não disassociar. Saber que há outros factores e actores no caminho para o oscar, dar-lhes a devida importância, não embarcar em cegueiras disfarçadas de optimismos. Querer voar? Sim, muito até, mas ter consciência de quão real poderá ser também o perigo da queda.
A ideia de nos preparamos para o pior não é fácil de ouvir e não é agradável, ainda mais aos espíritos aventureiros, corajosos, determinados, até criativos. Mas é de facto fantástico contarmos com pouco, ou se possível nada, e conseguirmos muito. Então seremos felizes, apesar de "o processo" ter sido duro, de algum sofrimento até, no fundo revertemos a ordem da qual falava acima - aqui trata-se de sofrer algo primeiro para ser bem feliz depois. Claro que o leitor pode considerar que vai dar ao mesmo. Mas por certo não, não será a mesma coisa. O prémio do esforço será bem mais saboreado do que a aparente ou ilusória felicidade que construímos, ou diria vislumbrámos, seguida de uma abrupta interrupção, de um letal corte, de um decepcionante final.
É tudo uma questão de aprendizagem. Quando se é muito novo sonha-se muito, ou ambiciona-se fazer muita coisa, ir a todo o lado, ter, ver, viver... Muitos de nós ao  longo do tempo têm vindo a   fazer essa reeducação. E isso traz uma serenidade incrível, ainda que não desprovida de metas, de todo. Não esperar ou querer muito e de forma rápida, intensa ou avassaladora é um tranquilizante diário e abre caminhos à verdadeira felicidade - aquela das coisas simples, sim, e também a outra que, por certo, com um bocadinho de confiança em nós e especialmente no futuro, estará lá à nossa espera. Mas funcionando como troféu pela paciência e pela esperança misturadas no humilde sentimento que devemos ter perante a nossa pequenez no mundo e perante os percalços da nossa existência.