agosto 30, 2011

Uma história bem contada



He even took
the Gramophone on safari.
Three rifles...
supplies for a month and Mozart.
He began our friendship
with a gift.
And later...
not long before Tsavo...
he gave me another.
An incredible gift.
A glimpse of the world
through God's eye.
And I thought...
"Yes, I see.
This is the way
it was intended."
I've written about
all the others...
not because I loved them less...
but because
they were clearer, easier.
He was waiting for me there.
But I've gone ahead of my story.
He'd have hated that.
Denys loved to hear
a story told well.
You see...
I had a farm in Africa...
at the foot of the Ngong Hills...


E a história começa, e com ela a nossa viagem até África.

agosto 29, 2011

The Book of Faces

 


Dos blogues que vou seguindo, há uma temática que lhes é comum - um texto sobre o Facebook e como as relações passaram a ser diferentes com o advento deste e doutros fenómenos da Internet. Há quase sempre um lado negativo que apontam a este tipo de vida online mas também há, nessa crítica, aspetos vistos de um ponto de vista humorístico. Por exemplo, é apontado como estranho o facto de, como em nenhum outro lugar, as pessoas ficarem amigas de pastelarias, esplanadas, restaurantes e muitos e outros  mais num instantinho. Ou seja faz-se o Gosto / Like e já cá cantam mais não sei quantos amigos na nossa lista. Nesta linha, dei por mim a pensar que só vou em 217 amigos (tive a infeliz ideia de bloquear uns poucos que não me ligavam nenhuma) e que este número pode ser maior (tornando-me eu, logo, mais popular) se eu também ficar amiga da restauração e outras que tais. Mas poderei ser eu realmente amiga de uma pastelaria? Bem, ... sou amiga dos pastéis, ai sou, até fã e daquelas incondicionais. Ora isto já é um bom começo, certo? Certamente que sim. Não estranhem, pois se os meus amigos aumentarem nos próximos tempos.
Mas, humor à parte, eu sou aficionada do FB. Como, com a maternidade, me tornei mais caseira lá vou, quero pensar, mantendo contato com o mundo. Gosto, francamente de ir sabendo notícias e vendo fotos de férias (ok, é o meu pequeno lado voyeur). Há sugestões que valem a pena, musicais, cinematográficas, leituras, acontecimentos e divertimento, e que me permitem uma atualizaçãozita que, doutro modo, não conseguiria. Depois para quem gosta fortemente de comunicar e mesmo reacender amizades entretanto desaparecidas ou esquecidas, também é interessante. Rever (pois não é o livro das caras?) rostos perdidos no tempo e nos percursos de cada um, e depois interagir é também (re)construir histórias e às vezes afetos, ainda que de uma forma não física.
De qualquer forma, há nitidamente a tendência para interagir mais com as pessoas que fazem parte do nosso mundo real, ou seja, há lá amigos com os quais nunca falamos, provavelmente até não estão editados na nossa Home. Sim, eu própria o faço. Ou seja as inibições da distância física e emocional, verificadas na vida lá fora, são transportadas para o espaço cibernauta. Portanto, daqueles amigos todos, estarão conhecidos, colegas, até não conhecidos, e menos, muito menos amigos a sério. Mas também digo que tal facto acaba por não ser uma desvantagem, de todo. Tudo pode ser positivo, consoante o uso que se faça e os objetivos de cada um de nós. Assim, até uma pastelaria pode ter sentido. Principalmente se a dita começar a comentar as minhas fotos...e clicar Like, pois claro.

agosto 26, 2011

O Pecado Não Mora ao Lado


Coisas que me passaram ou passam completamente ao lado:

* farmville
* futebol, sim, deixei de apreciar
* peso pesado
* concursos de talentos ao domingo à noite
* os csi todos
* amy winehouse
* festivais de verão
* djs (nomes e como cabeças de cartaz)
* o código da vinci e outras histórias afins
* tudo do harry potter
* paulo coelho (mas não o designer)

Nota: O uso de minúsculas é intencional, sim. Significa que estas coisas não tiveram ou não têm importância nenhuma para mim.

agosto 22, 2011

Urgente

Este post não tem nada a ver com o anterior. Não é por ser verão e a estação ser silly que o mundo pára, sobretudo nas regiões onde está, digamos, muito quente, eufemisticamente falando. Na Líbia poderá acontecer hoje ainda a mudança. Da incerteza quanto ao futuro à certeza que é o corte com um passado que não serve.

Mas vem esta pequena introdução a propósito da Síria. Com a minha mania da geografia, associo facilmente as letras das matrículas a cidades e países. O meu primeiro carro foi um Clio verde que durou quinze anos até ao abate, e tinha DS na matrícula. Batizei-o de Damasco (batizei outros, o Clio cinza de uma amiga, por exemplo, era o DAkar). Geo delírios, pois então. Mas estava eu a dizer que o meu Clio fazia-me lembrar a Síria e a sua milenar capital.
Sei, lamentavelmente, pouco sobre a Síria. Tenho este fascínio pelo seu nome, evoca memórias bíblicas traduzidas em séries exibidas na Páscoa, mas de facto, parece possuir uma história rica e mesmo uma sociedade culta. De Bashar Al-Assad sei pouco, lembro-me do seu pai antes dele e não pensei que o massacre e o terror que tem carregado contra o seu povo pudessem vir a acontecer. De fato e gravata, ar até distinto, parecia, visto de longe, pertencer a outro tipo de líderes que, apesar de se manterem no poder por muito tempo, sempre demonstrariam alguma humanidade. Pois não foi o caso. A violência que assola a Síria é inaceitável e o preço que pagam os seus naturais e habitantes, pela liberdade, justiça e verdade, é demasiado caro.
Um a um, estamos a assistir a um novo tempo na irmandade árabe. Os anseios por uma vida mais justa e mais digna não são apanágio só de alguns, obviamente. Há toda uma nova geração mais informada a desejar outro modo de vida. Na Síria, com ou sem Irão (que não é árabe, já agora), e sabendo como dificultará qualquer revolução, está, sói dizer-se, na hora.  Aguarda-se o desenrolar dos acontecimentos.... embora cada dia que passe signifique mais uma vida, mais um ato de coragem traduzido em morte. Por isso mesmo. Urge. It´s time to go.

agosto 21, 2011

O meu verão



O que me lembra o verão do meu absoluto contentamento?

- ruas floridas e dias quentes no alentejo
- manhãs de sol que fazem querer ir para a rua
- dias longos em que não apetece voltar para casa
- noites de estio a passear a pé
- cheiro a mar e maresia na praia pela manhã
- conchas e baldinhos na areia
- vestidos leves e sandálias rasas
- andar de bicicleta até tarde
- adolescentes  festas de aldeia
- campos cheios de flores
- viagem pela estrada rumo ao sul
- imenso azul, do céu e do mar
- romance(s)...

Entre as memórias de criança, os tempos da adolescência, o sabor em adulta e até os filmes que evocam o verão... incrível gosto pelo sol, luz e calor desses dias.

agosto 16, 2011

Ocidentalismos - versão 2


O texto anterior debruçava-se sobre uma certa forma de radicalismo. Mas há outras e este é sobre o contrário, ou seja, é acerca da visão colonialista e arrogante culturalmente que muitos revelam na blogosfera. Tal como os anteriores, também devem estar estes submersos em ideologias muito vincadas ou muito próprias. Vêem no "ocidente" todas as maravilhas do planeta e nos outros pontos do mundo e seus habitantes todos os males. Acham que o colonialismo não existiu ou foi ´meiguinho´, que os "nossos valores" são os mais corretos e que a "nossa civilização" é superior. Desta forma todos os que chegam à Europa e aos EUA vindos de outros continentes e culturas vêm, necessariamente, conspurcar a perfeita sociedade que os caracteriza. Estes comentadores e bloguistas são, desta forma, contra a Imigração (mas não tanto contra a E) e contra o multiculturalismo, pois defendem que as pessoas de outras raças e religiões não se integram, fazem distúrbios e até que são inferiores inteletual e moralmente. São indivíduos assim que muitas vezes insistem numa guerra de civilizações, num confronto entre culturas.  Escusado será dizer que fico aterrada com estas formas de intolerância e desconhecimento...
As pessoas, em todo o lado, têm basicamente as mesmas aspirações, sonhos e delírios. Podem estar marcadas pela sua cultura em determinados aspectos, mas na sua essência, terão anseios muito semelhantes. Valores como a liberdade, a paz, a família, e objectivos como ter uma vida digna ou um pouco mais, são transversais. Dizer que viver numa sociedade livre resulta de intrínsecas características culturais é ridículo e ao mesmo tempo inaceitável. A recente revolução árabe é prova disso... Todos os povos podem funcionar em liberdade e democracia, se conseguirem lutar por elas e a elas tiverem acesso. Colocar as suas culturas num plano inferior é hediondo. Podem estar em diferentes níveis de desenvolvimento, isso sim. Há que lhes dar tempo, em muitos casos. Mas a natureza humana é revestida do mesmo material e por isso sou adepta da multiculturalidade, pois só pode enriquecer e renovar as sociedades. Mas para isso há que manter uma atitude aberta, tolerante, curiosa e construtiva. Do lado dos "ocidentais" e do lado dos que imigram, nomeadamente.
Tudo isto para renegar estes pensamentos de direita extrema (no anterior refutava a visão de uma extrema esquerda). A noção de superioridade cultural não é própria dos humanistas, dos sábios, dos conhecedores, dos verdadeiros viajantes, do planeta e da alma. O "ocidente", com tudo o que tem de bom na sua democracia não perfeita, não pode julgar-se dono do mundo nem impor os seus padrões de vida. Prefiro vê-lo como um conceito primeiramente geográfico e reconhecer as suas qualidades mas não esquecendo que as outras regiões e culturas também as têm e que em muitas delas ainda há um tempo que é preciso decorrer. Aos extremistas que são cruelmente etno e geocêntricos aconselha-se a conhecerem, a misturarem-se, a aprenderem, a refletirem, a serem humildes, despertos, positivos e generosos... Só assim a tolerância, a visão, a construção e a justiça poderão emergir.

agosto 11, 2011

Ocidentalismos


As pessoas falam muito ou escrevem ainda mais mas a verdade é que a Europa e os EUA continuam a atrair gente de todo o mundo. Ou seja, por muitos defeitos que tenham, a vida que permitem ainda é melhor do que a permitida em muitas nações. Sim, há uma absoluta crise de valores:  há um consumismo doido, há frieza e arrogância nas relações humanas, há má-educação e agressividade, há um acelerado ritmo de vida e de trabalho doentio porque exagerado em muitos casos, há ausência de reconfortantes afetos, há um sem número de coisas que tem tornado estas sociedades longe do ideal que muitas vezes apregoam (acrescentando-se  os crescentes  problemas económicos).
Mas vejamos. Muitas das pessoas que criticam a torto e a direito tudo o que é ocidental (para mim, noção geográfica, primeiro que tudo), com ódios fossilizados que saltam à vista, fruto por vezes de ideologias muito marcadas e que lhes roubam a independência de espírito, não saberão concerteza o que é viver na Somália e no Corno de África, no Iraque, na Síria, na Líbia, no Haiti, nas Filipinas, no Afeganistão, no Yémen, e isto para não apontar muitos mais nomes de países cujas situações são complicadas por diversas razões. Ora nestes e noutros locais luta-se por uma sobrevivência a vários níveis. Guerra, fome, seca, corrupção, censura, opressão, medo, terror, pobreza, tudo a um nível extremo que porventura nunca experimentámos, nestes tempos modernos em que se esperava que coisas deste género estivessem completamente erradicadas.
Daí que fazer acusações primárias, baratas e desprovidas de reflexão seja fácil e cómodo. Não são estas democracias ocidentais, perfeitas. Bem sabemos que não. Mas entre elas e muitos outros sistemas negadores das essenciais liberdades e dos essenciais bens, escolhamos as que melhor nos convêm. E parece-me que a resposta é clara. Os fenómenos migratórios (com e ou com i) explicam essa preferência. Vem este pequeno apontamento a propósito das leituras que faço dos jornais online. Os comentadores disparam sobre a Europa e os EUA como sendo os responsáveis por todos os males do mundo. São, de facto, responsáveis por acções erradas e por exportarem modelos  de vida aparentemente perfeitos mas não estão sozinhos.
As viagens que fiz fisicamente e ainda faço culturalmente mostram-me que há pessoas maravilhosas por esse mundo fora, autênticas nas sua simplicidade, longe da cultura do consumismo vazio e agressivo. Mas e que tal não esquecer também, em muitos desses locais, que há ditadorzecos fora do normal, nacionais e locais, carniceiros e algozes, corruptos e egoístas, fantoches e idiotas, que oprimem e reprimem, usam e abusam, mantendo as suas populações no obscurantismo, na ignorância, no medo, na pobreza, no atraso, no desespero? Sem leis que as protejam, sem direitos, sem dignidade, sem vida? Caros comentadores...apanhem o avião e experimentem viver assim. Longe da zona de conforto que tanto denigrem. Depois digam alguma coisa, se entretanto tiverem sobrevivido. Cá vos esperamos com as vossas sábias tiradas.

agosto 09, 2011

When you´re tired of London you´re tired of life



Eu que não costumo comentar a atualidade neste espaço, de vez em quando lá sinto que tem mesmo que ser.

Londres. A primeira viagem que fiz ao estrangeiro, já lá vão vários anos, foi a esta cidade. Quinze dias passados maravilhosamente, por entre passeios a pé, visitas a locais de interesse, muito calor (naquele ano estavam 34 graus de verão), comunicação em inglês, cosmopolitismo, arte e cultura, divertimento, pequenas aventuras, riso, numa jornada de descoberta de uma capital animada, viva, multicultural, variada, fantástica. Desses dias ficaram-me muitas memórias só do melhor e uma vontade imensa de voltar.
Vejo agora as imagens televisivas e não reconheço os espaços nem as pessoas nem a atitude nem absolutamente nada. Estranho e não entranho, decididamente. Não é aquela a cidade que vi, embora saibamos que as coisas são, frequentemente, diferentes na perspetiva de um turista. De qualquer forma, como explicar o que está a acontecer? A violência, a pilhagem. Tensões raciais? Causas económicas? Uma grande crise financeira a alastrar mas também uma absoluta crise social e moral? De quem é a culpa? Jovens a filmarem os seus atos para o youtube - a internet? As políticas erradas? O capitalismo selvagem? A cultura da agressão e da selvajaria? São questões que se levantam, provavelmente com múltiplas respostas. Só sei que não gosto do que vejo e entristece-me saber que na Londres onde fui feliz se vivem momentos como este...
Samuel Johnson disse a frase que dá título ao texto. Não me cansei de Londres... estarão os implicados nos tumultos cansados da vida?

agosto 08, 2011

Elementar




Dificilmente haverá coisa de que goste mais do que explorar - passear, viajar, conhecer, absorver os locais. É quando estou no meu melhor e me sinto estimulada - nesse contacto com a geografia física (e, por vezes, humana também). Aliadas ao verão, todas as experiências de fugir da rotina sabem ainda melhor e não dão azo a preocupações, afinal é por isso que as férias também são tão apetecíveis.
De qualquer forma, nesta pequena incursão por um sul do país que já conhecia em grande parte, dei por mim a reparar em pormenores de correção linguística que teima em não vingar. Passo a explicar. Em inúmeros restaurantes, residenciais, cafés e outros ligados à área do turismo e restauração continua-se a escrever mal a preposição "à". Ou seja, por onde quer que ande ou andasse lá estava escrito "aberto das 9 ás 17h" ou "polvo á lagareiro" ou "encerrado á segunda-feira". E isto foi no sul e é aqui no centro/norte - a incapacidade de escrever corretamente a preposição "à" ou "às". Mas ninguém repara e diz alguma coisa? Provavelmente fazem como eu - vêem e indignam-se mas nada dizem. Mas, e dentro do(s) negócio(s), ninguém reconhece o erro? Bem, a verdade é que se trata de um erro recorrente e mesmo sistemático, até nas escolas (já dei por um numa repografia, por exemplo) e instituições públicas, o que ainda se revela mais grave. E locais como o Badoca Park, que visitei a semana passada, onde vão também alunos, e onde estava também registado o horário com mais um afirmativo e inaceitável "ás" (por favor, poupem-nos, não se trata de um jogo de cartas).
Mas as incorreções e desconhecimento do funcionamento da língua num nível dir-se-ia básico, se é grave em português, também o será noutras línguas. Que dizer de "keep this toilets clean", repetido nos WCs mesmo em frente ao Casino de Tróia? Sim, não consegui evitar os tiques de professora. Quando se escreve numa língua estrangeira, o cuidado deve ser o mesmo ou ainda maior - pedir-se a quem saiba para escrever com o máximo de correção. Senão, é como as instruções que acompanham os eletrodomésticos oriundos do estrangeiro- olhamos para as páginas em português e aparecem muitas coisas estranhas à nossa língua e ao sistema da mesma. Penso que deveria haver mais rigor na tradução tratando-se de lugares públicos,  essencialmente se se trata de um nível linguístico quase elementar. Não se pretende que toda a população domine a língua estrangeira por completo mas que quando a queiram registar por escrito procurem informar-se devidamente.
Quanto à nossa língua e ao indevido uso e abuso da preposição "à" ou "ás" sugiro uma ASAE linguística para ir por esse país fora corrigir o que não está bem. Tratar-se-ia de um emprego deveras agradável para quem gosta de percorrer os trilhos das estradas e ainda juntar a parte gastronómica ao conjunto da aventura... (se bem que nas escolas, hélas, também devessem aparecer). Eu cá não me importaria... e você?

julho 27, 2011

De Bronze

Tal como prometido, aqui fica uma lista de morenos absolutamente marcantes para mim. Faltam outros, certamente, mas estes por alguma razão transmitiram ou transmitem algo mais em determinada altura ou circunstância. O cinema é, mais uma vez, grande fonte inspiradora porque fazedora de mitos. E aqui,  charme e sedução aliados ao talento são chaves para a posteridade...

Marlon Brando
Até lhe fiz um pequeno poema na adolescência. Gigante e completamente imprevisível dentro e fora da tela, os filmes dos anos 50 fizeram dele um ícone. "Há Lodo no Cais", cujas falas sei de cor e tantos outros. Magnético e invulgar, gostou sempre de mulheres exóticas. Fantástico ainda em "O Padrinho" e "Apocalypse Now", já depois da juventude.

Art Malik
Britânico, com um impecável inglês, de origem paquistanesa, os papéis oscilam entre o charme exótico  e o fatal terrorista. Marcante em "A Jóia da Coroa", pérola da televisão nos anos 80. Geralmente ator secundário no cinema, foi de fato na TV que alcançou alguns papéis de protagonista. Lembram-se de "Harém"?

Eros Ramazzotti
É tudo - a envolvente música, a emotiva língua italiana, o rosto belo ao estilo Roma, a paixão. Mesmo com cabelos brancos, continua a seduzir pelo avassalador romantismo associado à sua persona. Experimente ouvir "Silver e Missie", e tantas outras...

Andy Garcia
Não esqueço a eletrizante personagem em "O Padrinho III". Foi nessa altura que o descobri, a energia mas também a ternura que acaba por passar nos seus filmes. Muito latino no look e nas emoções, é um fantástico actor - tanto em filmes de ação como em dramas românticos.

Eduardo Moscovis
Não me levando propriamente a suspirar, considero-o um galã com interpretações ora sedutoras ora divertidas. Há que honrar o Brasil nesta lista, já que possui uma panóplia de galãs considerável de geração para geração.

José Mourinho
Longe vão os tempos em que gostava de futebol. Mas admiro-lhe a atitude vencedora e "especial" num país amorfo e submisso que gosta de pensar que é humilde. A sorte protege os audazes, gosto de pensar. E, claro, é um homem muito bonito.

Tony Leung
Como eu gostei de "O Amante". Que filme intenso, pelas cores, pela história, por um certo erotismo. Fiquei fã deste actor chinês. Também destaco a longa-metragem urbana  "O Expresso de Chungking". Está mais velho, mas é um galã oriental.

Daniel Day-Lewis
Sobretudo por "Em Nome do Pai" que me fez sair do cinema arrebatada, na altura. Eletrizante e tocante interpretação. E depois como o romântico asteta Newland Archer em "A Idade da Inocência", um dos meus de eleição. E tantos outros.

Clive Owen
É frequente ver escrito Clive rules! nas páginas de fãs. Mas é, de facto, o rei. Pura sedução. Só a voz "estremece" e a beleza é reconhecidamente apanágio deste também talentoso actor britânico. Gostei muito do fucking caveman em "Closer - Perto Demais", do vibrante médico em "Amor sem Fronteiras" e de praticamente todos os papéis que faz. Ainda espero por um grande papel romântico ao estilo dos Oscars.

Nesta incursão pelos cabelos castanhos, agradou-me também o fato de viajar pela geografia do mundo, percorrendo quase todos os continentes.

Mas falta ainda outra lista...que ficará para a próxima.  Em tempo de férias, divirtamo-nos com leituras mais leves e quiçá façamos o mesmo. Que tal contribuir com a sua lista de morenos nos comentários? Fico à espera...

julho 20, 2011

De Ouro

Esperando por uma consulta, entretive-me a ler revistas de jornais. Deparei-me com uma, já de alguns meses atrás, que tinha como tema o Dourado. Entre outras coisas tinha um apontamento sobre homens louros que marcaram gerações, a nível artístico, futebolístico e até político. Achei a ideia engraçada e concordei que alguns deles são ou foram realmente marcantes. Inspirada por tal ideia fica aqui a minha lista.

1- James Dean

Cresci a ver cinema clássico na RTP. Os seus 3 filmes foram emblemáticos, pela rebeldia, beleza e vulnerabilidade. Fotogénico, as suas fotos fazem parte da galeria dos ícones.

2- Robert Redford



O que eu suspirei por ele em Flor à Beira do Pantano, com a Natalie Wood. E mesmo já depois da juventude ainda gostei de o ver em África Minha e Havana. Um expoente de romantismo.

3 - Steve McQueen
 


Fantástico actor de ação mas com inesquecíveis momentos de paixão. Bullit, Amar um Desconhecido, A Grande Evasão, Papillon, a lista de grandes filmes é longa.

4 - Rutger Hauer


Gosto deste holandês, enigmático, muitas vezes com papéis difíceis e estranhos e que adorei ver na fantasia romântica LadyHawke. Também bom em Blade Runner.

4 - Simon LeBon


O meu ídolo da primeira adolescência. Sim, tive o quarto cheio de posters dele e da sua banda, Duran Duran. Era um pop dos anos 80, criticado por muitos, mas adorado pelas fãs femininas. Não fugi à regra.

5 - Sean Bean


Não é um actor por aí além conhecido, mas eu gosto do cinema britânico e dos seus atores. Esteve tão bem na série da BBC, O Amante de Lady Chatterley. E depois em The Field, numa personagem sofredora.

6 - James Spader


Eu gostei de Sexo, Mentiras e Vídeo. E gostei de Loucos de Paixão. E de outros. Sensível, belo, doce e ao mesmo tempo assertivo.

7- Justin Timberlake


Não é que goste de todas as músicas, longe disso. Longe. Mas é tão eletrizante, tão magnético e sexy. Pronto, é isso.

8 - Jude Law


Muito interessante, muito bonito, excelente para filmes europeus - leia-se britânicos -  pela elegância e recorte ao estilo de "angry young men", ou seja bastante literário.


O mais certo é ter esquecido alguns mais. E ah, claro. Prometo fazer uma coisa idêntica para os morenos...

julho 16, 2011

em desACORDO

Custou-me imensooooo retirar o C do título do blogue. Custou horrores, pronto.

julho 12, 2011

O bilionário

É extraordinário o poder do (bom) cinema. As viagens que permite, o conhecimento que se tira, as reflexões que inspira. Ainda ontem pude fazer tudo isto ao mesmo tempo. quando finalmente vi Slumdog Millionaire. Não sendo um filme propriamente arrebatador ou soberbo, não deixa de ser extraordinariamente marcante, pela narrativa em inocente flashback, pelos cenários de miséria humana e física, e mesmo pela banda sonora, à la Bollywood. Mas aquilo que me leva a escrever são de facto as lições, ou seja, as conclusões que invariavelmente se tirarão da sua história invulgar, se bem que nem sempre imprevisível.
A primeira é a noção de conhecimento. O que é o conhecimento? Quem o detem? Será ele apanágio de alguns? É dado pelos livros e pela educação? Ou pode alguém sem instrução deter o saber pela sua incrível história de vida? Se a isso, ainda por cima, aliar memórias de dor ou de uma dura existência que soube ultrapassar? A forma como Jamal consegue responder às perguntas do concurso mais popular de sempre é fruto de um percurso de vida feito de encruzilhadas e desencontros, de experiências marcadas pela violência e pelo desafecto, e nunca de uma salutar aprendizagem própria de uma criança feliz e enquadrada familiar e socialmente.  Daí que ninguém acredite na sua inusitada sabedoria. O puto dos bairros de lata a catalizar os sonhos de uma Índia miserável - fantástica alegoria. E fantástica redenção.
Mas outra grande conclusão é que, apesar de tudo, Jamal foi e é realmente saudável na sua alma e carácter e que essa bondade e generosidade que dá à vida e aos outros vão ser recompensadas mais tarde. Exactamente o contrário da personalidade e fim do seu irmão, Salim. Apesar dos ocasionais laivos de consciência deste, particularmente em relação aos desesperos de Jamal, a verdade é que escolheu desde sempre uma vida errante, feita de jogadas, de esquemas falhados, de violência, de morte. Aquilo que deu, colheu - perfeitamente sintomática a cena em que é assassinado na banheira estando coberto não de água (a transparência, a limpidez) mas de notas (a ambição, o falso poder). De qualquer forma, ele terá aberto o caminho para a felicidade do irmão - eliminando os algozes e "libertando" Latika. Terão os maus também coração? Ou a sua maldade foi apenas resultado da miséria e da sua desesperada incapacidade de fazer as escolhas certas?
Outro aspecto inerente à estranha beleza do filme é a recorrente dimensão da perda da inocência num mundo que não contempla o crescimento harmonioso de crianças e adolescentes. A inocência dificilmente consegue prevalecer quando se trava uma luta árdua e desigual pela sobrevivência. E como sempre acontece, há momentos de choque nesse processo. Queremos mudar as coisas, desejamos que não fossem assim, pensa-se nos nossos filhos e, por contraste, no dilacerante desabrigo daqueles miúdos. Mas ao mesmo tempo, também, prova-se que a doçura e pureza da alma se podem conservar - Jamal consegue-o e é tocante que o faça no meio de tanta dificuldade.
Há ainda a questão da inveja que o sucesso de alguém simples desperta. O vaidoso apresentador de televisão pretende continuar a ser a estrela do mesmo. Aparecer um miúdo de 18 anos que lhe rouba o protagonismo não é tolerável, por isso fornece-lhe a resposta errada, ficando surpreendido quando ela é, inteligentemente, preterida. Todo o concurso opõe a vaidade e o estrelato construído pelos media à  verdade e autenticidade do concorrente. A última pergunta é de uma facilidade evidente e Jamal, o rafeiro, como chega a ser chamado, não sabe. Porthos, Athos mas... Aramis? Mas na sua clara inocência aventura-se seguramente pela resposta certa. Confiança e sorte fazem dele um vencedor natural, porque a sua simplicidade triunfa sobre a desconfiança.
Finalmente, talvez mesmo o amor. Mais uma vez, aparece aqui como motivação para algo mais, como uma espantosa forma de elevação do indivíduo. Por Latika e pelo desejo de a rever e de amá-la, o rapaz do chá inscreve-se no concurso. E ganha. E com ele, o dinheiro que nunca divinizou, e a miúda agora mulher dos seus atribulados tempos de infância nas ruas e bairros de uma Bombaim/Mumbai de que se soube libertar.

julho 08, 2011

(Pro)Fundo


Não vou falar da Moody´s nem da crise nem das portagens nem do casamento monegasco nem de nenhum outro acontecimento mais ou menos actual. Disso toda a gente estará a falar nestes dias e também sobre isso a escrever.
De que falarei hoje, então? Das crises, é certo. Mas das existenciais, daquelas que nos dilaceram a alma e que nos desorientam durante um tempo, daquelas que não gostamos de viver nem de assumir, muitas vezes, e que não nos deixam viver, também, dificultando ainda mais as coisas.
Explica-se. Há uma recusa, essencialmente por parte dos outros, em que se atravessem momentos destes. Há quase uma social obrigatoriedade de estarmos sempre felizes, sempre satisfeitos, sempre preenchidos, sempre activos, sempre aptos. E, no entanto, não estamos. E nem podíamos estar. As crises são essenciais para a renovação do indivíduo. Leiam-se os textos de Isabel Leal e de Alberoni (quantas vezes o cito aqui e quantas vezes me inspira a escrever) e veja-se a perspectiva sábia de quem sabe.
Por muito que soframos, porque elas doem, verdadeiramente, por muito que não seja agradável de assistir, sobretudo para quem está (mais) perto, elas são cruciais para se dar o renascimento. As palavras que as descrevem são duras - depressão, crise nervosa, e remetem para áreas difíceis de digerir como a psiquiatria, em última instância. Mas curiosamente elas são naturais e desta forma deveriam ser encaradas, ao invés do estigma da patologia que as acompanha.
Let´s put it on the line: não é melhor que nos reconfortem com um inteligente vai passar, é só preciso tempo do que um atrofiado não podes sentir-te assim? Não é melhor que nos digam é compreensível, toda a gente passa por isso do que és doente e és tu o culpado? Porque não se tranquilizam as pessoas umas às outras? Porque as assustam e insistem em fazer senti-las fora do normal? Que tipo de superioridade querem mostrar? Força e domínio? Auto-controlo? Saúde mental absolutamente relativa?
Uma pessoa que viveu uma crise, ou mais, porque elas são periódicas (sim, vá, tranquilizemo-nos), é uma pessoa mais forte. Sim. É uma pessoa mais preparada, mais experiente, mais profunda. Porque dela(s) deverá ter apre(e)ndido um grande número de coisas. Experimente conversar com alguém a quem tudo sempre correu bem, que nunca se afundou em melancolia ou desilusão. Encontrará frescura, decerto. Mas encontrará conhecimento? Combatividade? Resistência? Colherá ensinamentos? Provavelmente, não.
Por isso, e por muito que nos custe estar na mó de baixo, até porque o tempo parece infinito e não vemos saída aparente, a verdade é que sairemos, e vencedores sairemos. Porque confrontámo-nos connosco próprios, fomos ao fundo de nós mesmos, renascemos e continuamos em frente.

julho 04, 2011

Ignorâncias


1- Não ler Saramago
2- Não ouvir música clássica
3- Não saber nada de economia
4- Não estar a par do acordo ortográfico excepto nas consoantes mudas
5- Não ter ido a Nova Iorque
6- Não saber o nome de muitas doenças ou órgãos ou ... afins
7- Não ver nunca o CSI nem o Dr House nem nenhumas séries parecidas e americanas
8- Não gostar de coisas tipo Harry Potter e O Código DaVinci
9- Não saber o nome das músicas actuais (nem de quem as canta, 90% das vezes)
10- Não gostar de nem conhecer a(s)  lei(s)
Isto está, claramente, ... mau.

junho 30, 2011

Irreversibilidade


Procuro não comentar a actualidade, neste blogue, por várias razões. Nem fui nunca admiradora de Angélico, pelo contrário, detestava o estilo que ajudou a criar, já para não falar da série que o lançou. Mas a morte do jovem actor, da maneira que ocorreu, levanta algumas reflexões. Entre o público fã, maioritariamente adolescente, estava um míúdo na vigília , dos seus 14, 15 anos a chorar que, interpelado pela repórter, disse "Ele era um exemplo para todos nós." Oh pá, isto é que não, penso eu automaticamente. Bem sabemos que os fenómenos de idolatria que se verificam na adolescência e primeira juventude explicam estes exageros de linguagem mas há que destrinçar a massa de que se faz um ídolo daquela de que se faz um exemplo.
Os ídolos situam-se quase sempre nos sectores da música, do cinema, do desporto, da televisão. São pessoas que quase sempre (nos) seduzem por uma imagem que constroem - de beleza, de juventude, de moda, de rebeldia, de irreverência. Contudo, muitos dos seus comportamentos, como se sabe, estão longe de serem um exemplo. Ou seja virtudes como a responsabilidade, o civismo, o empenho, a constância, a educação, o respeito pelo outro, muitas vezes passam-lhes completamente ao lado. Até alguém que gosta do brilho destas estrelas, reconhece que muitas das suas atitudes e percursos de vida pessoal não fazem parte do seu projecto de vida. Podíamos até enumerar aqui muitos nomes, nacionais e internacionais.
Daí que apreciar a sua música ou a sua arte, ou apenas o seu estilo, corpo ou rosto, não seja (nem deve ser) a mesma coisa do que lhes apreciar o carácter ou a conduta de vida e querer viver algo semelhante. Sem moralismos, opções de imaturidade familiar, irresponsabilidade laboral, drogas, pedofilia, agressão, violência, crime, excentricidades perigosas e (auto)destrutivas afiguram-se como características não desejáveis para uma saudável e feliz existência, ainda que estas noções possam ser absolutamente relativas. Mantenhamos estas celebridades como ídolos de quem somos fãs por uma ou outra razão mas não lhes chamemos propriamente exemplos.
O culto da velocidade extrema em espaços civis é irresponsável, egoísta e imaturo. Filmes como Velocidade Furiosa dão-lhe um ar glamoroso (já repararam com as bandas sonoras glorificam tantas vezes actos de insanidade ou violência?) mas fora da ficção é condenável e, pior, traz riscos irreversíveis. Como no exemplo deste jovem , cuja morte me chocou, é certo, pela sua juventude e pela dor que deve representar para os seus pais e amigos, mas que, reafirmo, não é exemplo para ninguém.

junho 23, 2011

O último a ver



Parece realmente um enorme cliché mas quantidade e qualidade parecem não combinar quase nunca. No tempo em que havia só uma  televisão estatal, a RTP, a programação era de facto menos diversa mas tão mais marcante. Porque a organização sobretudo mental que (me) permitia, fruto dessa pouca oferta, levava-me a não perder programas que nunca mais esqueci e que quase desapareceram do mapa televisivo actual. Com a chegada das privadas, que durante algum tempo pareceram levar a melhor sobre a velha TV, mesmo nas minhas escolhas, o panorama alterou-se sobremaneira com a competição pelas audiências e uma proliferação confusa de programas que levam à repetição, à superficialidade, ao desnorte.
Meu, pelo menos. Há anos que não consigo seguir uma programação equilibrada e enriquecedora, tendo abandonado praticamente os canais privados por causa da sua cansativa, vazia e ilusória abordagem. Voltei de facto e com muito agrado ao canal mais antigo. Os telejornais são ligeiramente mais curtos, há uma preocupação com a informação e reportagens sérias fora das notícias das 20 horas, tem havido uma preocupação cultural interessante, sobretudo não é tão alarmista, nem stressante, nem vertiginoso.
Daí que assinale com desagrado o programa das noites de domingo - o reality-show que o não é, numa paródia, tem-se dito inteligente, aos formatos dos canais mais virados para o entretenimento fácil e oco. Não discuto se a ideia é interessante, mas penso que o resultado não o será. Não consigo ver nem um bocadinho (embora consiga ver o programa rival das tribos, pois consigo achar-lhe interesse antropológico), não me estimula minimamente e, pior, o nível de linguagem parece-me inaceitável num canal público que pretende (pretende?) formar os cidadãos. Não consigo achar normal na RTP, ao fim de semana e a uma hora que não é tardia, o uso que fazem do calão e afins, reforçando a ideia de que mensagem não há nenhuma e entretenimento muito pouco, numa combinação algo mal conseguida entre comédia e crítica. Não é este tipo de programas de que a RTP precisa e deve apostar. Deve manter-se na dianteira precisamente porque é diferente, porque constitui uma alternativa, porque não joga no mesmo campeonato dos restantes canais. Que saudades dessa televisão, quando havia só um canal...
Mas então dizia também que sou eu que não me consigo orientar no meio de tanta coisa que não (me) interessa. Então como a televisão dos canais mainstream nem sempre me satisfaz, ou satisfaz muito pouco, lá dou por mim no computador a fazer algo que me preenche muito mais quando há tempo para uma pausa no sofá. A escrever, sobre TV, por exemplo...

junho 16, 2011

Prazeres



Tirado do blogue de Pedro Rolo Duarte. Adaptado. (Ver autoria.)

Prazeres



O primeiro olhar da janela de manhã (se for de Verão)

O velho livro de novo encontrado

Rostos animados

Sol, o mudar das estações (e não neve)

O blogue (podia ser jornal  mas nem sempre)

O pequeno (tirei o cão)

A astrologia (era dialéctica)

Tomar duche, dormir (estava nadar)

Velha música (dos anos 80)

Sapatos cómodos

Compreender (e ser compreendido)

Música nova (tirando hip hop, rap, techno, house, trance etc etc)

Escrever, escrever (plantar não)

Viajar, ver cinema (cantar, credo!)

Ser amável.

                                                            Bertold Brecht e Eu

junho 10, 2011

Great expectations



A noção de felicidade é relativa e até pessoal, sabemos. Porém haverá pontos em comum nas definições que daremos e também caminhos que se podem dizer similares na sua procura. Um deles, e a jogar um papel primordial, é a questão das expectativas. E comecemos por dizer já claramente, fazendo eu minhas as palavras de Alberoni: "para sermos felizes devemos aceitar o insucesso (...) não esperarmos nada, e então a felicidade surgirá."
De facto, as expectativas quando são (muito) altas levam-nos a um estado de ânsia e adrenalina que pode vir a ser completamente defraudado. E sendo, surgem depois a desilusão, o desgaste e a dor, em doses que variam de caso para caso, consoante aquilo que se esperou. Quer-se com isto dizer que devemos não sonhar? Actualmente prefiro falar em metas e objectivos, pois apesar das palavras serem mais pragmáticas e frias, traduzem melhor o almejar de algo para quem os sonhos significam pertencer a uma juventude fantasiosa e mais ingénua algures lá atrás. Então, na maturidade, poderemos e devemos continuar a ter objectivos e entusiasmo por eles, mas este de alguma forma comedido, sabendo que aqueles podem falhar, numa mistura de confiança e (mas) realismo que importa não disassociar. Saber que há outros factores e actores no caminho para o oscar, dar-lhes a devida importância, não embarcar em cegueiras disfarçadas de optimismos. Querer voar? Sim, muito até, mas ter consciência de quão real poderá ser também o perigo da queda.
A ideia de nos preparamos para o pior não é fácil de ouvir e não é agradável, ainda mais aos espíritos aventureiros, corajosos, determinados, até criativos. Mas é de facto fantástico contarmos com pouco, ou se possível nada, e conseguirmos muito. Então seremos felizes, apesar de "o processo" ter sido duro, de algum sofrimento até, no fundo revertemos a ordem da qual falava acima - aqui trata-se de sofrer algo primeiro para ser bem feliz depois. Claro que o leitor pode considerar que vai dar ao mesmo. Mas por certo não, não será a mesma coisa. O prémio do esforço será bem mais saboreado do que a aparente ou ilusória felicidade que construímos, ou diria vislumbrámos, seguida de uma abrupta interrupção, de um letal corte, de um decepcionante final.
É tudo uma questão de aprendizagem. Quando se é muito novo sonha-se muito, ou ambiciona-se fazer muita coisa, ir a todo o lado, ter, ver, viver... Muitos de nós ao  longo do tempo têm vindo a   fazer essa reeducação. E isso traz uma serenidade incrível, ainda que não desprovida de metas, de todo. Não esperar ou querer muito e de forma rápida, intensa ou avassaladora é um tranquilizante diário e abre caminhos à verdadeira felicidade - aquela das coisas simples, sim, e também a outra que, por certo, com um bocadinho de confiança em nós e especialmente no futuro, estará lá à nossa espera. Mas funcionando como troféu pela paciência e pela esperança misturadas no humilde sentimento que devemos ter perante a nossa pequenez no mundo e perante os percalços da nossa existência.

junho 05, 2011

Um pouco de(o) Brasil

                                

Tenho reparado, com muito agrado, que há visitas do Brasil a este blogue. Por isso achei bem deixar aqui algumas impressões sobre a minha própria visita a esse país de língua irmã. Este texto é então, e sobretudo, para "você".
Começo por dizer que me emocionei várias vezes (talvez por coincidir com a sensibilidade por uma incipiente gravidez, que não  veio a ter sucesso, de resto). Nem sei bem porquê - ou saberei? -  mas realmente senti vontade de chorar em vários momentos, por pura emoção. Pela natureza e paisagens que observava - as bananeiras, a cana de açúcar, os coqueiros, os mangais, as cachoeiras, pelas pessoas - simples, na sua maior parte, pois visitei o estado de Pernambuco, algumas de rosto sofrido, disponíveis, até quase servis e inocentes algumas também, pela terra e a sua incrível variedade - numa mistura de verde, praia, beleza, pobreza, pessoas a pé por caminhos longos e desabitados, casas com grades e do tamanho de uma cozinha, mas também belos palacetes à beira-mar e hotéis maravilhosos, brancos, negros, mulatos, matinais sucos de frutas, pequenos mas aventureiros safaris,  peixe grelhado ao ar livre e gambas consumidas nas cadeiras da praia, enfim, um mosaico geográfico físico e humano verdeiramente emocionante, contrastante e intenso. Ao mesmo tempo descontraído, a convidar ao relaxamento e à autenticidade. Só na cidade de Recife tive um "glimpse", um vislumbre europeu, do qual estou, às vezes, farta. O chic do hotel a lembrar-me a etiqueta social, que muitas vezes não me apetece. O resto - Porto de Galinhas, a maravilhosa Olinda, Primavera e outras, era, foi, uma viagem ao diferente, ao desconhecido, à história, a qualquer coisa que já deixámos ou fizémos (pouco, pensei por vezes), nós, Portugal, desde o tempo das espantosas descobertas.
Enquanto viajava relembrava, quase automaticamente, o Brasil que nos foi dado a ver através das novelas, especialmente duas - Gabriela Escrava Isaura. Eu era tão pequena mas apaixonei-me por Ilhéus, pela Malvina e tenho até um texto dedicado a essa telenovela, marcante do lado de cá. Foi a primeira e também eu não a esqueci mais. Na segunda recordo a crueldade da escravatura, heranças do colonialismo português, a revolucionária Lucélia Santos, a leitura do livro homónimo. Enquanto viajava, dizia, olhava e imagens atravessavam a minha mente e misturavam-se, criando-se e recriando-se histórias e espaços entre o ficcional e o real. Ficava em silêncio e sentia. Sentia e emocionava-me, numa experiência transatlântica, histórica e até literária. Uma mescla cultural, portanto, que despertava peculiarmente as emoções.
Não tenho autoridade nem conhecimento para falar deste país imenso, rico e contrastante. Registo aqui uma mera impressão. Não conheço a Cidade Maravilhosa, nem Brasília, São Paulo, Porto Alegre nem a região amazónica, nem Fortaleza nem fui à Baía de Amado. Não conheço, in loco, muitas maravilhas nem provavelmente problemas da realidade brasileira. Mas posso dizer que o bocadinho do país que vi me tocou profundamente. O Brasil, entre momentos fantásticos e realidades menos atractivas, com em qualquer lado, ficou cá dentro, na alma. Talvez por já lá estar desde há muito tempo...

maio 29, 2011

À primeira



Há esta fantástica teoria sociológica que diz que a primeira impressão diz tudo sobre a natureza do indivíduo. A primeira e não a segunda. Explique-se. Na segunda impressão que obtemos de uma pessoa ela já se terá comportado de acordo com as nossas expectativas, de acordo com uma espécie de regras sociais ou outras que estiverem a contextualizar o encontro connosco. Já houve uma certa preparação, consciente ou até inconsciente. É, pois, enganadora e inverdadeira. Na primeira impressão, ou se preferir no primeiro encontro de todos, trata-se de conhecer-se desconhecidos. E, desta forma, os indivíduos são naturalmente eles, "sem ensaio", não há ainda nenhuma espécie de jogo nem de tentativa de agradar ou de desagradar, de estar de acordo ou não, de encaixar ou não por esta ou outra razão.
Então, e ainda segundo esta teoria, a qual li há vários anos e acabei por corroborar, mais tarde o comportamento desse indivíduo, e o desenvolvimento da nossa relação com ele, irá bater certo com a imagem que dele retivemos na primeira impressão, mesmo na primeiríssima. É verdade que não nos lembramos da impressão primeira que construímos em/de toda a gente, mas se nos concentrarmos podemos porventura recordar algumas. E aí vão caber as boas e as más impressões. E se fizermos um esforço ainda maior vamos provavelmente acabar por concluir que sim, que a boa veio mais tarde a confirmar-se, pela atitude e importância que a pessoa terá tido na nossa vida, ou que a má, e infelizmente, também se veio a confirmar.
Quantas pessoas deixam de fazer parte do nosso percurso por incompatibilidades de carácter, de postura e de acções?  Tentemos pensar em algumas delas. Não será que o primeiríssimo encontro nos revelou uma natureza que não nos agradou? Qualquer coisa que observámos e de que não gostámos? Uma leve, ligeira falha de personalidade? Dir-se-ia que sim. Não, não é uma teoria sem sentido. É, pelo contrário, extraordinária e ajuda a entender porque muitos relacionamentos ou relações funcionam e outras não. Agora para entendê-la e quiçá corroborá-la é preciso estar aberto a caminhos que nos levam ao conhecimento da natureza humana.
Lembro-me de muitas primeiras impressões. Boas e más. E na maior parte dos casos que recordo, vieram de facto a confirmar-se os receios ou entusiamos iniciais. Não acredita? Experimente. E, claro está, desejo que o encontro número um, que não tem necessariamente que passar pela conversa, lhe tenha deixado marca positiva. Significará que encontrou mais uma pessoa que decididamente vale a pena.

maio 18, 2011

Do infiel amor

Muito se tem escrito sobre a infidelidade. Falado, ainda mais. E, no entanto, há sempre um ponto de vista que pode ser acrescentado a todas as coisas, e esta não será excepção. Ou por experiência pessoal, ou por reflexão, ou por histórias ouvidas, ou por nos apetecer. Neste caso, deixa-se hoje uma breve impressão.  Não se trata aqui de apontar as razões nem falar das consequências, muito menos de dissertar sobre a desilusão ou sofrimento que pode causar. Apenas de saber quem é capaz de o fazer. Fazer a pergunta - quem pode trair? Bem, basicamente...todos. Isso mesmo. Toda a gente. Ou seja, que ninguém se ponha de fora ou, como se diz, ponha as mãos no fogo...por ninguém, inclusivé por nós próprios.
Porque há indivíduos que juram a pés juntos nunca serem capazes de o fazer e, o que é mais extraordinário ainda, juram que o outro, a cara-metade, a alma gémea ou outros epítetos, nunca o faria. Ora isto é de uma arrogância descomunal, muito mais do que ingenuidade. E nunca lhe chamaria confiança, nem segurança, mas mais uma apregoada auto-estima que carece de sensatez. Pressupor que não há ninguém no mundo que iguale ou ultrapasse os nossos encantos, bem, parece-me altamente sobrançeiro e ainda por cima irreal. A sedução que porventura temos ou tivemos no momento da conquista pode desvanecer-se aos olhos do outro, assim como a dele se pode desvanecer perante os nossos. Pensar que somos eternos, insubstituíveis, idolatrados, enfim, não estará propriamente no campo da necessária racionalidade nem de uma desejável modéstia.
Provavelmente haverá que distinguir a chamada facadinha, fruto de uma atracção meramente física, química, luxúria mais ou menos apurada, espicaçada por fantasias, da paixão avassaladora que às vezes nos entra pela porta adentro, a do coração, pois, surgindo mesmo contra a nossa vontade. E se a primeira parece menos desculpável, fruto de um carácter fraco e sujeito a tentações fáceis, a segunda traz sem dúvida mais sofrimento, pois poderá ser irremediável, tendo nós perdido para sempre, e para um novo amor. Ou seja, a traição cujo fétiche é sexual não é tão gravosa nem aniquiladora, em comparação com uma paixão amorosa de rompante, embora seja a primeira realmente mais irritante e mais estupificadora.
Nas duas, há contudo uma grande desilusão por parte de quem é traído. Por amor ou por orgulho, ninguém gosta de sofrer ou perder. Não sei se se gosta de trair. Agora que somos perfeitamente capazes de o fazer, em diferentes circunstâncias e por diferentes causas, acho sinceramente que sim. Não tenhamos certezas absolutas sobre o futuro, nem sobre a nossa vontade, fate sometimes is stronger than will... Não ponhamos o livre arbítrio, que existe, a dominar sempre as emoções... ou as voltas da vida.

maio 08, 2011

Os Bons Rebeldes

Este texto foi publicado no Diário de Aveiro, a 14 de Outubro do ano 2000. Já passou uma década desde que iniciei  estas andanças... Retomo-o aqui. Para quem me conhece não será novidade o conteúdo (uma das minhas obsessões), para quem não me conhece, aqui fica o registo.

É sempre a mesma coisa. Leio a coluna do Alçada Baptista numa conhecida revista feminina e concluo que partilhamos muitos valores e também algumas inquietações. Uma delas é precisamente a dificuldade em aderir à "uniformidade" que vai presidindo aos mecanismos da sociedade.. É realmente redutora a estruturação que se pretende fazer do pensamento e comportamentos humanos. Até actualmente, com tanto enfoque  dado ao respeito pela diferença e pela diversidade, o que é certo é que nas coisas mais simples do dia-a-dia noto com frequência que há uma tendência forte para anular as vozes ou sensações discordantes, quer subestimando-as quer criticando-as e rotulando-as sem qualquer conhecimento de causa. Acontece que, também para mim, não haverá nada mais fundamental do que o respeito pela individualidade e a consequente consideração pelas ideias e atitudes de cada um.
Já por várias vezes me vi obrigada a dizer que só respeitando a minha singularidade e o meu direito de dizer não é que eu poderei relacionar-me de uma forma que pretendo sempre harmoniosa. É bem verdade que me rebelo contra um determinado número de coisas mas há que dizer que esta não é de todo uma atitude gratuita, antes - a tendência é sempre a de não pessoalizar as questões já que a minha visão das coisas, porventura única em alguns momentos, esbarra sim contra sistemas uniformizados e teorias organizadas sob os quais nos fazem ou querem fazer pensar e/ou agir.
Diga-se, de resto, que não é fácil nem cómodo assumir posições de diferença. Não esqueçamos que ao longo da história, e salvaguardando as devidas distâncias, o facto é que os espíritos livres têm sido injustamente julgados no seu tempo, só mais tarde sendo reconhecidos. Portanto, e tal como Alçada Baptista diz, estes comportam grande desvantagem em relação àqueles que se movem no aconchego e na conformidade do todo. De qualquer maneira, tenho a dizer que não consigo, muito francamente, aderir aos pequenos mundos regidos por uma farda - até porque se perde logo uma coisa chamada originalidade, a qual torna, sem dúvida, a existência menos mecânica e menos quotidiana.
O cunho próprio de cada um e a sua exclusividade são, pois, traços que não podem ser apagados sob pena da tela humana ficar empobrecida. Tais considerações não devem ser, logicamente, vistas como um convite à arrogância (longe, longe disso!), o que se pretende é o direito à mais profunda autenticidade existente dentro da alma e da mente de cada um de nós, sobretudo daqueles que dela não abdicam.
Exemplificando um pouco com a profissão que exerço, nomeadamente, verifica-se que um dos critérios na avaliação dos alunos é o seu espírito de grupo, sendo penalizados aqueles que preferem (porque lhes é mais fácil, porque assim rendem mais, simplesmente porque sim) trabalhar individualmente. Esta situação desagrada-me frequentemente porque desvaloriza-se, assim, a independência e a autonomia e procura-se, à força, nestes casos, fomentar a uniformidade, ainda que esta até possa ser absurdamente estéril.
Alargando agora a ideia, concluo, então, com um apelo bem simples - deixe-se os mais dependentes funcionarem numa perfeita igualdade e os menos respirarem na mais completa, absoluta e construtiva liberdade.

abril 30, 2011

Blade Runner II - Love Story

Não sou grande apreciadora do género ficção científica. No entanto, há alguns títulos que francamente me marcaram, uma vez que, muito mais do que a tecnologia e efeitos especiais envolvidos, que detesto, se debruçam sobre aspectos da existência humana. Nesta linha, destaca-se hoje o filme que dá título ao texto.
Tendo já sido visto há bastantes anos, lembro-me sobretudo das impressivas imagens finais, em que a personagem de Harrison Ford se interroga sobre o futuro da sua relação com a de Sean Young. Sabendo que não será eterna, arrasta-se a mesma questão a todas as outras - mas qual será? Qual de nós pode assegurar que a sua relação afectiva, amorosa será vivida até à eternidade? Mesmo sem os condicionalismos de um tempo limitado de vida, quem pode garantir que ela dure para sempre? Por isso a cena final é tão bonita, inesquecível, porque se trata de uma incerteza que a todos nós pertence...
Los Angeles, futuro. Harrison Ford é um ex-polícia (um blade runner) que regressa ao activo para encontrar e aprisionar os replicantes que entretanto se revoltaram numa colónia fora da Terra e que a esta regressam para tentar alargar o seu tempo de vida. Na sua missão, acaba por conhecer a personagem de Sean Young, que é ela própria uma replicante mas que desconhece esse facto, pensando ser humana. Está, portanto, condenada. Os replicantes não durarão mais de quatro anos, tendo sido assim criados como forma de evitar que desenvolvam emoções ou ambicionem alguma forma de independência. Rachel é uma replicante experimental, injectada com memórias de infância transferidas da sobrinha do seu criador, de quem é assistente. Confrontada por Rick relativamente à sua natureza, entra em choque, foge e também ela tem que ser neutralizada. Mas acaba por salvar o blade runner da morte e, obviamente, ele tenta protegê-la.
Com o desenrolar dos acontecimentos e a morte quer do criador quer dos outros replicantes, os dois tentam encetar uma nova étapa, algures. À tocante e filosófica questão - It´s too bad she won´t live, but then again...who does? - Harrison Ford opta por viver na ausência de certeza mas amar, viver. Não eternamente mas o momento, o sentimento, aquilo que faz o seu presente. O futuro.. desconhece-o. Tal como nós.

                                                

abril 27, 2011

(Des)Construção em auto-retrato


Sejamos francos - estamos preparados para falar da nossa alma e sobretudo conhecermos os nossos defeitos? Não, de todo. E, no entanto, o auto-conhecimento é das áreas mais fundamentais da existência humana. Através dele poderemos encetar novas possibilidades e descartar outras, ajustando-as ao nosso eu e construindo, dessa forma, as melhores vias rumo aos nossos desejos...
O que se nota, então? Frivolidade - na maior parte das conversas, falsa autenticidade - na maior parte das posturas, superficialidade - em grande parte das relações, sobretudo se forem de trabalho. Com isto quer-se dizer que não há verdade na maior parte das nossas atitudes, pois não transparecem aquilo que verdadeiramente somos. Porquê? Porque o cansativo e postiço jogo social a isso o obrigará mas também e fundamentalmente por profundo desconhecimento de quem somos. Se ignoro os traços do meu retrato como pintá-lo para que outros o vejam?
Domínios como a psicologia, a terapia, a análise, a astrologia  e outros que tais ainda continuam a ser alvo de estigmas por boa parte dos indivíduos. Troçando e rejeitando as suas potencialidades, continuam aqueles a acreditar em coisas que não são, projectando imagens de si mesmos que não correspondem à realidade nem nada que se pareça. A isto provavelmente chamar-se-á medo. O auto-conhecimento reveste-se de contornos que nem sempre serão agradáveis. Desmontar as peças e ganhar consciência de características menos positivas assusta-nos; queremos ser bons, mesmo excepcionais, a toda a hora se possível, ter domínio absoluto das nossas emoções e, sobretudo, não perder esse domínio perante os outros. Queremos estender as nossas luminosas e às vezes apregoadas qualidades a tudo, trabalho, casa, família, sociedade, amizade e mais que sejam. O lado obscuro...não o queremos entrever.
Qual a razão de não querermos esse confronto? Qual a razão pela qual não queremos aprofundar o conhecimento de nós próprios? Ficaremos mais chatos aos olhos dos outros? Menos divertidos? Ou também acarretará, realmente, algum tipo de sofrimento interior? Não podemos ficar  um pouco melancólicos ou pensativos, pois é. A sociedade de hoje não promove a introspecção, nem a verdade, pelo contrário, exige alegria e tontice em estilo non-stop. E lá continuamos, falsamente impávidos e serenos, usando a máscara que comprámos para nós mesmos e que não ousamos retirar. Preconceito, falta de coragem, pressão, inconsciência, dissimulação, jogo, inverdade, imagem, todos se combinam para nos afastar de nós mesmos.
Faz ... pensar? Estamos a sentir porventura menos ... alegria? Estamos a olhar para ... dentro de nós? Óptimo, óptimo. Precisamos absolutamente destes cortes reflectivos. Não poderemos existir sempre em ritmo voraz... conhecer a matéria de que somos feitos implica tempo, esforço, profundidade, até dor. Podemos não estar preparados mas, diria, é essencial.

abril 19, 2011

Incompatibilidade


Será a vaidade compatível com a felicidade? Não, não é. Esta é a resposta dada no filme Ligações Perigosas, na figura de Madame de Merteuil e na deixa mais emblemática de toda a longa-metragem. De facto, ela triunfa sobre Valmont, para quem o orgulho e a reputação acabam por ser mais fortes do que o verdadeiro amor. Assim, cava a sua infelicidade e mesmo a morte.
Li o livro muito novinha, um romance epistolar de relativa dificuldade para a idade, e foi, pois, já em adulta e no grande écrã que esta história me surpreendeu em todo o seu fulgor. O jogo de sedução, ou seduções, e os jogos de palavras fazem deste filme um invulgar e interessante estudo de enredos palacianos, de histórias de alcova, de  intrigas da nobre corte.
A história gira em torno de três personagens principais, Madame de Merteuil, Visconde de Valmont e Madame de Tourvel. Os primeiros são experientes na arte do amor, ou dever-se-ia antes dizer, nas artes da sedução. Seduzem, gozam, e depois largam as presas sem qualquer pingo de sentimento ou arrependimento. Há neles um lado profundamente diabólico, ainda que, em Madame de Merteuil seja mais tarde explicada a razão de tal comportamento - tendo amado e sofrido, resolveu não mais sofrer por causa de um homem. Desta forma algo feminista, domina os sentimentos, nega-se ao amor, e mesmo os seus ciúmes em relação a Valmont são canalizados para a intriga e para a malícia. Madame de Tourvel, pelo contrário, encarna a virtude. Sensível, honesta, piedosa e mesmo crente, acaba, no entanto, por sucumbir nas garras de Valmont. Contudo ele próprio é surpreendido pelo verdadeiro amor que ela lhe desperta, e renega-o, também, pela reputação de amante e sedutor sem piedade. Desafiado por uma enciumada Madame de Merteuil, espalha a infelicidade em Tourvel e nele próprio, não indo a tempo de redimir o verdadeiro amor que sente pela primeira vez.
Fazendo um paralelo com as nossas vidas, quantas vezes o nosso orgulho nos impede de ser felizes? Não reconhecer o erro, não pedir desculpa, não admitir que se falhou, medo de cair no ridículo - quantas vezes estas atitudes nos roubam vislumbres de felicidade?  Quantas e quantas vezes a nossa vaidade nos fere e nos aniquila? Quantas vezes a falta de humildade cava o nosso destino?
Quantas vezes fazemos nós opções para alimentar o nosso ego, para manter um almejado estatuto, para exibir relativa qualidade, para impressionar apenas os outros, para criar certo impacto? Indo, dessa forma, ao desencontro daquilo que realmente nos podia fazer feliz? Da mais profunda verdade que existe dentro de nós?
Podem, de facto, coisas como o orgulho e o desejo de manter uma reputação traçar muitas das nossas atitudes, laboral, social e até familiarmente. Uma vaidade que nos impede de perspectivar as coisas com autencidade e humildade e que nos afasta, assim, de caminhos para a verdadeira felicidade.
Mas, e apesar de sabermos ou apenas sentirmos que "vanity and happiness are incompatible", quantas vezes insistimos?...

abril 11, 2011

Amor nascente



Caro leitor, deixe-me dizer-lhe uma coisa. Se estiver a sentir um grande mal-estar com o seu presente, então você está pronto para se enamorar de novo. Está naquela situação em que se quer ver livre de uma velha vida para começar uma nova. E só o amor poderá levá-lo à consecução desse novo projecto de vida. Quem assim expõe a teoria do enamoramento como estado nascente é Francesco Alberoni, sociólogo italiano, nos seus belíssimos livros Amo-te e Enamoramento e Amor, este anterior.
Defende o autor que não conseguem apaixonar-se as pessoas profundamente deprimidas, por falta de impulso vital. Mas aquelas em que há um profundo descontentamento com o actual, tendo havido ou levando a rupturas, que estão cheias de impulso vital mas que está ou tem estado de alguma maneira sufocado, por várias circunstâncias, então essas sim estão em terreno movediço para viverem um novo amor.
Pois só um novo amor as pode redimir. Só um novo amor as pode levar ao encontro das suas novas aspirações, dos seus novos planos, das suas novas metas. Encontrando, muitas muitas vezes, alguém que também se esteja a libertar para uma existência diferente, que esteja desiludido, que sinta considerável para não dizer enorme desconforto na sua vivência actual. O encontro de duas pessoas assim leva, quase sempre invariavelmente, a uma fusão de dois projectos de vida. Sendo este o grande ponto de união entre dois seres que se enamoram e querem construir uma vida em comum. Juntos, querem por fim ao que está para trás, acabar com aquilo que não os fez feliz, cortar com laços ou modus vivendi com os quais não se identificam mais.
Explicável. A pessoa que está feliz não se apaixonará de novo no auge dessa felicidade. Tem de haver uma espécie de infelicidade, uma recusa daquilo que está a viver, uma insatisfação gritante prestes a rebentar. Assim está a enviar sinais aos outros, de que procura outra forma de existir, de se perpetuar no tempo. É quase a teoria de "O Segredo", a de que se recolhe aquilo que se envia ao mundo. Então, certamente que um novo amor surgirá. Alberoni também diz que esta restruturação poderá ser preenchida pela conversão religiosa. Assim não sendo, só o enamoramento poderá salvar o indivíduo de uma aniquilação do eu, de uma morte psicológica, de um estado vegetativo em termos afectivos e mentais.
Voltando ao princípio, leitor, olhe à sua volta... Se estiver a sentir evidente mal-estar com o presente  da sua vida pessoal, então...atenção. Precisa de um estado nascente que o (re)desperte, de um amor novo que o projecte em direcção aos seus novos sonhos. D"Um movimento colectivo a dois". Pode, nesta situação, enamorar-se verdadeiramente. Para alguns, será hora...

abril 07, 2011

Ligações quase perigosas


É possível gostar de uma pessoa e não conseguir (con)viver com ela? Sim, é. A Elizabeth Taylor (nem de propósito) e o Richard Burton, que se casaram por duas vezes, afirmavam que se amavam mas que era impossível partilharem a vida. Sem querer entrar pela zona da paixão amorosa, pretendo debruçar-me aqui pela vertente da amizade (ou algo parecido).
De facto, constata-se que ao longo do tempo houve amizades que não se perpetuaram. Umas por percursos irremediavelmente diferentes, nomeadamente profissionais e mesmo geográficos, e outras por diferenças de personalidade, incompatibilidades de objectivos, desencontros nos projectos de vida. E, não se tratando de partilhar a casa, o espaço quotidiano, envolviam, da mesma forma, estar junto. No café, na praia, no parque, no cinema, nos jantares, no lazer, e às vezes no dever, já que algumas ou muitas das nossa relações próximas da amizade se constroem no local de trabalho.
Mas então se fomos próximos de alguma maneira, o que nos afastou?
Afastou-nos essa postura face ao eu e face aos outros, a perspectiva de vermos a existência, a maneira como nos relacionamos com o que está à volta, as metas que delineamos para nós, os actos que acabam por colidir, as reacções que não se encontram. A forma, claramente. E por vezes também a alma.
Não é preciso odiar um individuo para não conseguir con(viver) com ele, longe disso. Há pessoas de quem gostamos sem adorarmos, provavelmente, mas em quem encontramos sempre uma qualidade, ou várias. Ou seja, reconhecemos nelas muita coisa engraçada, que pode ter sido exactamente o que nos prendeu inicialmente a elas. Mas se por acaso a alma estiver em desalinho com a nossa, se a mente se mostrar obscura aos nossos olhos, então será difícil resistir, o relacionamento. Desviamo-nos por sobrevivência, para não compactuarmos com uma maneira de ser e estar e com uma visão com as quais não nos identificamos. Porque queremos estar libertos, de alguma forma, ser nós próprios, escolher outros caminhos.
Depois também aquelas pessoas que até têm uma bela alma, ou perto disso. Mas a forma como a expressam pode tornar-se cansativa, nomeadamente, não se aguentando muito tempo. Demasiado estimulantes, tornam-se...extenuantes. E conseguimos conviver com elas apenas durante algumas horas, partes do dia, enfim, não a tempo inteiro. Há uma forma que não vai ao encontro da nossa. Até porque demasiada intensidade leva, de facto à exaustão. Funciona um pouco como a paixão...esta terá de passar a amor tranquilo para se conseguir respirar.
Encontramos ainda aquelas que são francamente desestimulantes. Não nos cansam, pois não, mas aí também não nos despertam atenção em particular. Podem ser e às vezes são excelentes pessoas, daquelas que se diz é boa pessoa, mas são facilmente esquecíveis, não procuramos a sua presença, e não conseguimos, também aqui, perpetuar uma relação ad eternum. Às vezes fazem parte também da nossa família e  até são prestáveis e gostam de nós mas não conseguiríamos estar com elas por tempos indeterminados. Só encontros fugazes, às vezes obrigatórios
Não que nenhuma relação seja eterna. Mas para qualquer tipo de convivência saudável e feliz ser possível há-se haver ali um equilíbrio qualquer, ao sabor do nosso jeito, da nossa psique, da nossa existência. Não há pessoas ideais. Mas há quem fique bem mais perto do que outras. E, quando é possível a escolha, ficar ou não ficar, eis a questão. Eu cá aprecio (con)viver em liberdade. Ajustes, concessões, às vezes são naturalmente precisos, mas que o preço não seja demasiado alto. Que as ligações me permitam ser espontaneamente eu própria.

março 26, 2011

A Jóia da Coroa II


Por ser também o nome de uma excelente série britânica dos anos 80 que vi e revi e que se me perpetuou na memória. Hari Kumar. Daphne Manners. E de como o Raj britânico não aceitou nunca a fusão amorosa das duas culturas. Na verdade, a colonização britânica na Índia foi sempre caracterizada por uma considerável distância psicológica entre colonizador e colonizado, dir-se-ia mesmo distância afectiva. Eram muito mal vistos os romances interculturais, sobretudo se era a mulher a ser a "branca". Como era aqui o caso. Daí que a violação de Daphne, não por Hari, obviamente, mas por um grupo de violentos e radicais indianos, tenha servido os propósitos daqueles que apregoavam a segregação social, de um lado e de outro. Um romance entre duas pessoas que se tinham apaixonado tornou-se uma acendalha para a resistência indiana, e um reforço dos princípios racistas e coloniais de muitos ingleses.
Mas curiosamente essa Índia colonial sempre exerceu um grande fascínio em mim. Valiosa, opulenta... Aqueles grandes palácios e aquelas paisagens exóticas, a vida serena de que os britânicos usufruiam, em contraste com a colorida e barulhenta confusão típica indiana, mas ao mesmo tempo o modo como se atraiam algumas vezes apesar das diferenças, do lifestyle, das feridas, do abismo. De tal forma que, sendo eu uma incurável geo-romântica, sempre adorei estas histórias de amor conturbadas e abrigadas por um fundo preenchido com fronteiras culturais e afins. Em "Passagem para a Índia" (maravilhosos filme e livro no curriculum) também há quase uma história dessas a acontecer. Mas o estigma da violação persiste e, consequentemente, o da não-comunhão física e espiritual também... Como a querer dizer que tal não seria, nem foi, possível. Porque os indivíduos e os impulsos da sua alma são muitas vezes esmagados pelo todo, pelas conjuncturas políticas, sociais e históricas. E lá não se vive o amor.
A perspectiva que tenho sobre a Índia, foi então, durante muito tempo romanceada e filtrada pelo cinema e pela literatura. Com o passar do tempo, e com a tendência para o exótico chic, lá se esbateu a vontade de conhecer esta nação. Por isso achei extraordinário o programa sobre os "Portugueses Pelo Mundo" que vi há dias. A forma descontraída e adaptável como enfrentam a experiência Índia. Caos, cor, tradição, pobreza, riqueza cultural, anacronismo, espiritualidade, confusão, exotismo, miséria - uma mescla única mas que admito como difícil no terreno. Fascinante mas a exigir um estofo muito próprio, um despojamento de noções como conforto, luxo, organização, estética, qualidade e outros. Dizia há muitos anos uma conhecida minha, uma hippie de grande simplicidade e total ausência de vaidade, "Não entendi a Índia". Ela, profundamente espiritual e sem caprichos. Portanto não será para todos a capacidade de se adaptar ao estilo de vida indiano e às suas idiossincracias. Leva-me a pensar que não a teria, de todo. E, de certa forma, gostaria que assim não fosse. De não me ter ficado pela visão romântica. De não ter ficado presa às memórias dos livros e filmes que li e vi. De não conseguir lidar com a brutal ainda que autêntica sensorial realidade de um fantástico e avassalador país de contrastes. Barreiras interiores...a ultrapassar...?