junho 10, 2011

Great expectations



A noção de felicidade é relativa e até pessoal, sabemos. Porém haverá pontos em comum nas definições que daremos e também caminhos que se podem dizer similares na sua procura. Um deles, e a jogar um papel primordial, é a questão das expectativas. E comecemos por dizer já claramente, fazendo eu minhas as palavras de Alberoni: "para sermos felizes devemos aceitar o insucesso (...) não esperarmos nada, e então a felicidade surgirá."
De facto, as expectativas quando são (muito) altas levam-nos a um estado de ânsia e adrenalina que pode vir a ser completamente defraudado. E sendo, surgem depois a desilusão, o desgaste e a dor, em doses que variam de caso para caso, consoante aquilo que se esperou. Quer-se com isto dizer que devemos não sonhar? Actualmente prefiro falar em metas e objectivos, pois apesar das palavras serem mais pragmáticas e frias, traduzem melhor o almejar de algo para quem os sonhos significam pertencer a uma juventude fantasiosa e mais ingénua algures lá atrás. Então, na maturidade, poderemos e devemos continuar a ter objectivos e entusiasmo por eles, mas este de alguma forma comedido, sabendo que aqueles podem falhar, numa mistura de confiança e (mas) realismo que importa não disassociar. Saber que há outros factores e actores no caminho para o oscar, dar-lhes a devida importância, não embarcar em cegueiras disfarçadas de optimismos. Querer voar? Sim, muito até, mas ter consciência de quão real poderá ser também o perigo da queda.
A ideia de nos preparamos para o pior não é fácil de ouvir e não é agradável, ainda mais aos espíritos aventureiros, corajosos, determinados, até criativos. Mas é de facto fantástico contarmos com pouco, ou se possível nada, e conseguirmos muito. Então seremos felizes, apesar de "o processo" ter sido duro, de algum sofrimento até, no fundo revertemos a ordem da qual falava acima - aqui trata-se de sofrer algo primeiro para ser bem feliz depois. Claro que o leitor pode considerar que vai dar ao mesmo. Mas por certo não, não será a mesma coisa. O prémio do esforço será bem mais saboreado do que a aparente ou ilusória felicidade que construímos, ou diria vislumbrámos, seguida de uma abrupta interrupção, de um letal corte, de um decepcionante final.
É tudo uma questão de aprendizagem. Quando se é muito novo sonha-se muito, ou ambiciona-se fazer muita coisa, ir a todo o lado, ter, ver, viver... Muitos de nós ao  longo do tempo têm vindo a   fazer essa reeducação. E isso traz uma serenidade incrível, ainda que não desprovida de metas, de todo. Não esperar ou querer muito e de forma rápida, intensa ou avassaladora é um tranquilizante diário e abre caminhos à verdadeira felicidade - aquela das coisas simples, sim, e também a outra que, por certo, com um bocadinho de confiança em nós e especialmente no futuro, estará lá à nossa espera. Mas funcionando como troféu pela paciência e pela esperança misturadas no humilde sentimento que devemos ter perante a nossa pequenez no mundo e perante os percalços da nossa existência.

junho 05, 2011

Um pouco de(o) Brasil

                                

Tenho reparado, com muito agrado, que há visitas do Brasil a este blogue. Por isso achei bem deixar aqui algumas impressões sobre a minha própria visita a esse país de língua irmã. Este texto é então, e sobretudo, para "você".
Começo por dizer que me emocionei várias vezes (talvez por coincidir com a sensibilidade por uma incipiente gravidez, que não  veio a ter sucesso, de resto). Nem sei bem porquê - ou saberei? -  mas realmente senti vontade de chorar em vários momentos, por pura emoção. Pela natureza e paisagens que observava - as bananeiras, a cana de açúcar, os coqueiros, os mangais, as cachoeiras, pelas pessoas - simples, na sua maior parte, pois visitei o estado de Pernambuco, algumas de rosto sofrido, disponíveis, até quase servis e inocentes algumas também, pela terra e a sua incrível variedade - numa mistura de verde, praia, beleza, pobreza, pessoas a pé por caminhos longos e desabitados, casas com grades e do tamanho de uma cozinha, mas também belos palacetes à beira-mar e hotéis maravilhosos, brancos, negros, mulatos, matinais sucos de frutas, pequenos mas aventureiros safaris,  peixe grelhado ao ar livre e gambas consumidas nas cadeiras da praia, enfim, um mosaico geográfico físico e humano verdeiramente emocionante, contrastante e intenso. Ao mesmo tempo descontraído, a convidar ao relaxamento e à autenticidade. Só na cidade de Recife tive um "glimpse", um vislumbre europeu, do qual estou, às vezes, farta. O chic do hotel a lembrar-me a etiqueta social, que muitas vezes não me apetece. O resto - Porto de Galinhas, a maravilhosa Olinda, Primavera e outras, era, foi, uma viagem ao diferente, ao desconhecido, à história, a qualquer coisa que já deixámos ou fizémos (pouco, pensei por vezes), nós, Portugal, desde o tempo das espantosas descobertas.
Enquanto viajava relembrava, quase automaticamente, o Brasil que nos foi dado a ver através das novelas, especialmente duas - Gabriela Escrava Isaura. Eu era tão pequena mas apaixonei-me por Ilhéus, pela Malvina e tenho até um texto dedicado a essa telenovela, marcante do lado de cá. Foi a primeira e também eu não a esqueci mais. Na segunda recordo a crueldade da escravatura, heranças do colonialismo português, a revolucionária Lucélia Santos, a leitura do livro homónimo. Enquanto viajava, dizia, olhava e imagens atravessavam a minha mente e misturavam-se, criando-se e recriando-se histórias e espaços entre o ficcional e o real. Ficava em silêncio e sentia. Sentia e emocionava-me, numa experiência transatlântica, histórica e até literária. Uma mescla cultural, portanto, que despertava peculiarmente as emoções.
Não tenho autoridade nem conhecimento para falar deste país imenso, rico e contrastante. Registo aqui uma mera impressão. Não conheço a Cidade Maravilhosa, nem Brasília, São Paulo, Porto Alegre nem a região amazónica, nem Fortaleza nem fui à Baía de Amado. Não conheço, in loco, muitas maravilhas nem provavelmente problemas da realidade brasileira. Mas posso dizer que o bocadinho do país que vi me tocou profundamente. O Brasil, entre momentos fantásticos e realidades menos atractivas, com em qualquer lado, ficou cá dentro, na alma. Talvez por já lá estar desde há muito tempo...

maio 29, 2011

À primeira



Há esta fantástica teoria sociológica que diz que a primeira impressão diz tudo sobre a natureza do indivíduo. A primeira e não a segunda. Explique-se. Na segunda impressão que obtemos de uma pessoa ela já se terá comportado de acordo com as nossas expectativas, de acordo com uma espécie de regras sociais ou outras que estiverem a contextualizar o encontro connosco. Já houve uma certa preparação, consciente ou até inconsciente. É, pois, enganadora e inverdadeira. Na primeira impressão, ou se preferir no primeiro encontro de todos, trata-se de conhecer-se desconhecidos. E, desta forma, os indivíduos são naturalmente eles, "sem ensaio", não há ainda nenhuma espécie de jogo nem de tentativa de agradar ou de desagradar, de estar de acordo ou não, de encaixar ou não por esta ou outra razão.
Então, e ainda segundo esta teoria, a qual li há vários anos e acabei por corroborar, mais tarde o comportamento desse indivíduo, e o desenvolvimento da nossa relação com ele, irá bater certo com a imagem que dele retivemos na primeira impressão, mesmo na primeiríssima. É verdade que não nos lembramos da impressão primeira que construímos em/de toda a gente, mas se nos concentrarmos podemos porventura recordar algumas. E aí vão caber as boas e as más impressões. E se fizermos um esforço ainda maior vamos provavelmente acabar por concluir que sim, que a boa veio mais tarde a confirmar-se, pela atitude e importância que a pessoa terá tido na nossa vida, ou que a má, e infelizmente, também se veio a confirmar.
Quantas pessoas deixam de fazer parte do nosso percurso por incompatibilidades de carácter, de postura e de acções?  Tentemos pensar em algumas delas. Não será que o primeiríssimo encontro nos revelou uma natureza que não nos agradou? Qualquer coisa que observámos e de que não gostámos? Uma leve, ligeira falha de personalidade? Dir-se-ia que sim. Não, não é uma teoria sem sentido. É, pelo contrário, extraordinária e ajuda a entender porque muitos relacionamentos ou relações funcionam e outras não. Agora para entendê-la e quiçá corroborá-la é preciso estar aberto a caminhos que nos levam ao conhecimento da natureza humana.
Lembro-me de muitas primeiras impressões. Boas e más. E na maior parte dos casos que recordo, vieram de facto a confirmar-se os receios ou entusiamos iniciais. Não acredita? Experimente. E, claro está, desejo que o encontro número um, que não tem necessariamente que passar pela conversa, lhe tenha deixado marca positiva. Significará que encontrou mais uma pessoa que decididamente vale a pena.

maio 18, 2011

Do infiel amor

Muito se tem escrito sobre a infidelidade. Falado, ainda mais. E, no entanto, há sempre um ponto de vista que pode ser acrescentado a todas as coisas, e esta não será excepção. Ou por experiência pessoal, ou por reflexão, ou por histórias ouvidas, ou por nos apetecer. Neste caso, deixa-se hoje uma breve impressão.  Não se trata aqui de apontar as razões nem falar das consequências, muito menos de dissertar sobre a desilusão ou sofrimento que pode causar. Apenas de saber quem é capaz de o fazer. Fazer a pergunta - quem pode trair? Bem, basicamente...todos. Isso mesmo. Toda a gente. Ou seja, que ninguém se ponha de fora ou, como se diz, ponha as mãos no fogo...por ninguém, inclusivé por nós próprios.
Porque há indivíduos que juram a pés juntos nunca serem capazes de o fazer e, o que é mais extraordinário ainda, juram que o outro, a cara-metade, a alma gémea ou outros epítetos, nunca o faria. Ora isto é de uma arrogância descomunal, muito mais do que ingenuidade. E nunca lhe chamaria confiança, nem segurança, mas mais uma apregoada auto-estima que carece de sensatez. Pressupor que não há ninguém no mundo que iguale ou ultrapasse os nossos encantos, bem, parece-me altamente sobrançeiro e ainda por cima irreal. A sedução que porventura temos ou tivemos no momento da conquista pode desvanecer-se aos olhos do outro, assim como a dele se pode desvanecer perante os nossos. Pensar que somos eternos, insubstituíveis, idolatrados, enfim, não estará propriamente no campo da necessária racionalidade nem de uma desejável modéstia.
Provavelmente haverá que distinguir a chamada facadinha, fruto de uma atracção meramente física, química, luxúria mais ou menos apurada, espicaçada por fantasias, da paixão avassaladora que às vezes nos entra pela porta adentro, a do coração, pois, surgindo mesmo contra a nossa vontade. E se a primeira parece menos desculpável, fruto de um carácter fraco e sujeito a tentações fáceis, a segunda traz sem dúvida mais sofrimento, pois poderá ser irremediável, tendo nós perdido para sempre, e para um novo amor. Ou seja, a traição cujo fétiche é sexual não é tão gravosa nem aniquiladora, em comparação com uma paixão amorosa de rompante, embora seja a primeira realmente mais irritante e mais estupificadora.
Nas duas, há contudo uma grande desilusão por parte de quem é traído. Por amor ou por orgulho, ninguém gosta de sofrer ou perder. Não sei se se gosta de trair. Agora que somos perfeitamente capazes de o fazer, em diferentes circunstâncias e por diferentes causas, acho sinceramente que sim. Não tenhamos certezas absolutas sobre o futuro, nem sobre a nossa vontade, fate sometimes is stronger than will... Não ponhamos o livre arbítrio, que existe, a dominar sempre as emoções... ou as voltas da vida.

maio 08, 2011

Os Bons Rebeldes

Este texto foi publicado no Diário de Aveiro, a 14 de Outubro do ano 2000. Já passou uma década desde que iniciei  estas andanças... Retomo-o aqui. Para quem me conhece não será novidade o conteúdo (uma das minhas obsessões), para quem não me conhece, aqui fica o registo.

É sempre a mesma coisa. Leio a coluna do Alçada Baptista numa conhecida revista feminina e concluo que partilhamos muitos valores e também algumas inquietações. Uma delas é precisamente a dificuldade em aderir à "uniformidade" que vai presidindo aos mecanismos da sociedade.. É realmente redutora a estruturação que se pretende fazer do pensamento e comportamentos humanos. Até actualmente, com tanto enfoque  dado ao respeito pela diferença e pela diversidade, o que é certo é que nas coisas mais simples do dia-a-dia noto com frequência que há uma tendência forte para anular as vozes ou sensações discordantes, quer subestimando-as quer criticando-as e rotulando-as sem qualquer conhecimento de causa. Acontece que, também para mim, não haverá nada mais fundamental do que o respeito pela individualidade e a consequente consideração pelas ideias e atitudes de cada um.
Já por várias vezes me vi obrigada a dizer que só respeitando a minha singularidade e o meu direito de dizer não é que eu poderei relacionar-me de uma forma que pretendo sempre harmoniosa. É bem verdade que me rebelo contra um determinado número de coisas mas há que dizer que esta não é de todo uma atitude gratuita, antes - a tendência é sempre a de não pessoalizar as questões já que a minha visão das coisas, porventura única em alguns momentos, esbarra sim contra sistemas uniformizados e teorias organizadas sob os quais nos fazem ou querem fazer pensar e/ou agir.
Diga-se, de resto, que não é fácil nem cómodo assumir posições de diferença. Não esqueçamos que ao longo da história, e salvaguardando as devidas distâncias, o facto é que os espíritos livres têm sido injustamente julgados no seu tempo, só mais tarde sendo reconhecidos. Portanto, e tal como Alçada Baptista diz, estes comportam grande desvantagem em relação àqueles que se movem no aconchego e na conformidade do todo. De qualquer maneira, tenho a dizer que não consigo, muito francamente, aderir aos pequenos mundos regidos por uma farda - até porque se perde logo uma coisa chamada originalidade, a qual torna, sem dúvida, a existência menos mecânica e menos quotidiana.
O cunho próprio de cada um e a sua exclusividade são, pois, traços que não podem ser apagados sob pena da tela humana ficar empobrecida. Tais considerações não devem ser, logicamente, vistas como um convite à arrogância (longe, longe disso!), o que se pretende é o direito à mais profunda autenticidade existente dentro da alma e da mente de cada um de nós, sobretudo daqueles que dela não abdicam.
Exemplificando um pouco com a profissão que exerço, nomeadamente, verifica-se que um dos critérios na avaliação dos alunos é o seu espírito de grupo, sendo penalizados aqueles que preferem (porque lhes é mais fácil, porque assim rendem mais, simplesmente porque sim) trabalhar individualmente. Esta situação desagrada-me frequentemente porque desvaloriza-se, assim, a independência e a autonomia e procura-se, à força, nestes casos, fomentar a uniformidade, ainda que esta até possa ser absurdamente estéril.
Alargando agora a ideia, concluo, então, com um apelo bem simples - deixe-se os mais dependentes funcionarem numa perfeita igualdade e os menos respirarem na mais completa, absoluta e construtiva liberdade.

abril 30, 2011

Blade Runner II - Love Story

Não sou grande apreciadora do género ficção científica. No entanto, há alguns títulos que francamente me marcaram, uma vez que, muito mais do que a tecnologia e efeitos especiais envolvidos, que detesto, se debruçam sobre aspectos da existência humana. Nesta linha, destaca-se hoje o filme que dá título ao texto.
Tendo já sido visto há bastantes anos, lembro-me sobretudo das impressivas imagens finais, em que a personagem de Harrison Ford se interroga sobre o futuro da sua relação com a de Sean Young. Sabendo que não será eterna, arrasta-se a mesma questão a todas as outras - mas qual será? Qual de nós pode assegurar que a sua relação afectiva, amorosa será vivida até à eternidade? Mesmo sem os condicionalismos de um tempo limitado de vida, quem pode garantir que ela dure para sempre? Por isso a cena final é tão bonita, inesquecível, porque se trata de uma incerteza que a todos nós pertence...
Los Angeles, futuro. Harrison Ford é um ex-polícia (um blade runner) que regressa ao activo para encontrar e aprisionar os replicantes que entretanto se revoltaram numa colónia fora da Terra e que a esta regressam para tentar alargar o seu tempo de vida. Na sua missão, acaba por conhecer a personagem de Sean Young, que é ela própria uma replicante mas que desconhece esse facto, pensando ser humana. Está, portanto, condenada. Os replicantes não durarão mais de quatro anos, tendo sido assim criados como forma de evitar que desenvolvam emoções ou ambicionem alguma forma de independência. Rachel é uma replicante experimental, injectada com memórias de infância transferidas da sobrinha do seu criador, de quem é assistente. Confrontada por Rick relativamente à sua natureza, entra em choque, foge e também ela tem que ser neutralizada. Mas acaba por salvar o blade runner da morte e, obviamente, ele tenta protegê-la.
Com o desenrolar dos acontecimentos e a morte quer do criador quer dos outros replicantes, os dois tentam encetar uma nova étapa, algures. À tocante e filosófica questão - It´s too bad she won´t live, but then again...who does? - Harrison Ford opta por viver na ausência de certeza mas amar, viver. Não eternamente mas o momento, o sentimento, aquilo que faz o seu presente. O futuro.. desconhece-o. Tal como nós.

                                                

abril 27, 2011

(Des)Construção em auto-retrato


Sejamos francos - estamos preparados para falar da nossa alma e sobretudo conhecermos os nossos defeitos? Não, de todo. E, no entanto, o auto-conhecimento é das áreas mais fundamentais da existência humana. Através dele poderemos encetar novas possibilidades e descartar outras, ajustando-as ao nosso eu e construindo, dessa forma, as melhores vias rumo aos nossos desejos...
O que se nota, então? Frivolidade - na maior parte das conversas, falsa autenticidade - na maior parte das posturas, superficialidade - em grande parte das relações, sobretudo se forem de trabalho. Com isto quer-se dizer que não há verdade na maior parte das nossas atitudes, pois não transparecem aquilo que verdadeiramente somos. Porquê? Porque o cansativo e postiço jogo social a isso o obrigará mas também e fundamentalmente por profundo desconhecimento de quem somos. Se ignoro os traços do meu retrato como pintá-lo para que outros o vejam?
Domínios como a psicologia, a terapia, a análise, a astrologia  e outros que tais ainda continuam a ser alvo de estigmas por boa parte dos indivíduos. Troçando e rejeitando as suas potencialidades, continuam aqueles a acreditar em coisas que não são, projectando imagens de si mesmos que não correspondem à realidade nem nada que se pareça. A isto provavelmente chamar-se-á medo. O auto-conhecimento reveste-se de contornos que nem sempre serão agradáveis. Desmontar as peças e ganhar consciência de características menos positivas assusta-nos; queremos ser bons, mesmo excepcionais, a toda a hora se possível, ter domínio absoluto das nossas emoções e, sobretudo, não perder esse domínio perante os outros. Queremos estender as nossas luminosas e às vezes apregoadas qualidades a tudo, trabalho, casa, família, sociedade, amizade e mais que sejam. O lado obscuro...não o queremos entrever.
Qual a razão de não querermos esse confronto? Qual a razão pela qual não queremos aprofundar o conhecimento de nós próprios? Ficaremos mais chatos aos olhos dos outros? Menos divertidos? Ou também acarretará, realmente, algum tipo de sofrimento interior? Não podemos ficar  um pouco melancólicos ou pensativos, pois é. A sociedade de hoje não promove a introspecção, nem a verdade, pelo contrário, exige alegria e tontice em estilo non-stop. E lá continuamos, falsamente impávidos e serenos, usando a máscara que comprámos para nós mesmos e que não ousamos retirar. Preconceito, falta de coragem, pressão, inconsciência, dissimulação, jogo, inverdade, imagem, todos se combinam para nos afastar de nós mesmos.
Faz ... pensar? Estamos a sentir porventura menos ... alegria? Estamos a olhar para ... dentro de nós? Óptimo, óptimo. Precisamos absolutamente destes cortes reflectivos. Não poderemos existir sempre em ritmo voraz... conhecer a matéria de que somos feitos implica tempo, esforço, profundidade, até dor. Podemos não estar preparados mas, diria, é essencial.

abril 19, 2011

Incompatibilidade


Será a vaidade compatível com a felicidade? Não, não é. Esta é a resposta dada no filme Ligações Perigosas, na figura de Madame de Merteuil e na deixa mais emblemática de toda a longa-metragem. De facto, ela triunfa sobre Valmont, para quem o orgulho e a reputação acabam por ser mais fortes do que o verdadeiro amor. Assim, cava a sua infelicidade e mesmo a morte.
Li o livro muito novinha, um romance epistolar de relativa dificuldade para a idade, e foi, pois, já em adulta e no grande écrã que esta história me surpreendeu em todo o seu fulgor. O jogo de sedução, ou seduções, e os jogos de palavras fazem deste filme um invulgar e interessante estudo de enredos palacianos, de histórias de alcova, de  intrigas da nobre corte.
A história gira em torno de três personagens principais, Madame de Merteuil, Visconde de Valmont e Madame de Tourvel. Os primeiros são experientes na arte do amor, ou dever-se-ia antes dizer, nas artes da sedução. Seduzem, gozam, e depois largam as presas sem qualquer pingo de sentimento ou arrependimento. Há neles um lado profundamente diabólico, ainda que, em Madame de Merteuil seja mais tarde explicada a razão de tal comportamento - tendo amado e sofrido, resolveu não mais sofrer por causa de um homem. Desta forma algo feminista, domina os sentimentos, nega-se ao amor, e mesmo os seus ciúmes em relação a Valmont são canalizados para a intriga e para a malícia. Madame de Tourvel, pelo contrário, encarna a virtude. Sensível, honesta, piedosa e mesmo crente, acaba, no entanto, por sucumbir nas garras de Valmont. Contudo ele próprio é surpreendido pelo verdadeiro amor que ela lhe desperta, e renega-o, também, pela reputação de amante e sedutor sem piedade. Desafiado por uma enciumada Madame de Merteuil, espalha a infelicidade em Tourvel e nele próprio, não indo a tempo de redimir o verdadeiro amor que sente pela primeira vez.
Fazendo um paralelo com as nossas vidas, quantas vezes o nosso orgulho nos impede de ser felizes? Não reconhecer o erro, não pedir desculpa, não admitir que se falhou, medo de cair no ridículo - quantas vezes estas atitudes nos roubam vislumbres de felicidade?  Quantas e quantas vezes a nossa vaidade nos fere e nos aniquila? Quantas vezes a falta de humildade cava o nosso destino?
Quantas vezes fazemos nós opções para alimentar o nosso ego, para manter um almejado estatuto, para exibir relativa qualidade, para impressionar apenas os outros, para criar certo impacto? Indo, dessa forma, ao desencontro daquilo que realmente nos podia fazer feliz? Da mais profunda verdade que existe dentro de nós?
Podem, de facto, coisas como o orgulho e o desejo de manter uma reputação traçar muitas das nossas atitudes, laboral, social e até familiarmente. Uma vaidade que nos impede de perspectivar as coisas com autencidade e humildade e que nos afasta, assim, de caminhos para a verdadeira felicidade.
Mas, e apesar de sabermos ou apenas sentirmos que "vanity and happiness are incompatible", quantas vezes insistimos?...

abril 11, 2011

Amor nascente



Caro leitor, deixe-me dizer-lhe uma coisa. Se estiver a sentir um grande mal-estar com o seu presente, então você está pronto para se enamorar de novo. Está naquela situação em que se quer ver livre de uma velha vida para começar uma nova. E só o amor poderá levá-lo à consecução desse novo projecto de vida. Quem assim expõe a teoria do enamoramento como estado nascente é Francesco Alberoni, sociólogo italiano, nos seus belíssimos livros Amo-te e Enamoramento e Amor, este anterior.
Defende o autor que não conseguem apaixonar-se as pessoas profundamente deprimidas, por falta de impulso vital. Mas aquelas em que há um profundo descontentamento com o actual, tendo havido ou levando a rupturas, que estão cheias de impulso vital mas que está ou tem estado de alguma maneira sufocado, por várias circunstâncias, então essas sim estão em terreno movediço para viverem um novo amor.
Pois só um novo amor as pode redimir. Só um novo amor as pode levar ao encontro das suas novas aspirações, dos seus novos planos, das suas novas metas. Encontrando, muitas muitas vezes, alguém que também se esteja a libertar para uma existência diferente, que esteja desiludido, que sinta considerável para não dizer enorme desconforto na sua vivência actual. O encontro de duas pessoas assim leva, quase sempre invariavelmente, a uma fusão de dois projectos de vida. Sendo este o grande ponto de união entre dois seres que se enamoram e querem construir uma vida em comum. Juntos, querem por fim ao que está para trás, acabar com aquilo que não os fez feliz, cortar com laços ou modus vivendi com os quais não se identificam mais.
Explicável. A pessoa que está feliz não se apaixonará de novo no auge dessa felicidade. Tem de haver uma espécie de infelicidade, uma recusa daquilo que está a viver, uma insatisfação gritante prestes a rebentar. Assim está a enviar sinais aos outros, de que procura outra forma de existir, de se perpetuar no tempo. É quase a teoria de "O Segredo", a de que se recolhe aquilo que se envia ao mundo. Então, certamente que um novo amor surgirá. Alberoni também diz que esta restruturação poderá ser preenchida pela conversão religiosa. Assim não sendo, só o enamoramento poderá salvar o indivíduo de uma aniquilação do eu, de uma morte psicológica, de um estado vegetativo em termos afectivos e mentais.
Voltando ao princípio, leitor, olhe à sua volta... Se estiver a sentir evidente mal-estar com o presente  da sua vida pessoal, então...atenção. Precisa de um estado nascente que o (re)desperte, de um amor novo que o projecte em direcção aos seus novos sonhos. D"Um movimento colectivo a dois". Pode, nesta situação, enamorar-se verdadeiramente. Para alguns, será hora...

abril 07, 2011

Ligações quase perigosas


É possível gostar de uma pessoa e não conseguir (con)viver com ela? Sim, é. A Elizabeth Taylor (nem de propósito) e o Richard Burton, que se casaram por duas vezes, afirmavam que se amavam mas que era impossível partilharem a vida. Sem querer entrar pela zona da paixão amorosa, pretendo debruçar-me aqui pela vertente da amizade (ou algo parecido).
De facto, constata-se que ao longo do tempo houve amizades que não se perpetuaram. Umas por percursos irremediavelmente diferentes, nomeadamente profissionais e mesmo geográficos, e outras por diferenças de personalidade, incompatibilidades de objectivos, desencontros nos projectos de vida. E, não se tratando de partilhar a casa, o espaço quotidiano, envolviam, da mesma forma, estar junto. No café, na praia, no parque, no cinema, nos jantares, no lazer, e às vezes no dever, já que algumas ou muitas das nossa relações próximas da amizade se constroem no local de trabalho.
Mas então se fomos próximos de alguma maneira, o que nos afastou?
Afastou-nos essa postura face ao eu e face aos outros, a perspectiva de vermos a existência, a maneira como nos relacionamos com o que está à volta, as metas que delineamos para nós, os actos que acabam por colidir, as reacções que não se encontram. A forma, claramente. E por vezes também a alma.
Não é preciso odiar um individuo para não conseguir con(viver) com ele, longe disso. Há pessoas de quem gostamos sem adorarmos, provavelmente, mas em quem encontramos sempre uma qualidade, ou várias. Ou seja, reconhecemos nelas muita coisa engraçada, que pode ter sido exactamente o que nos prendeu inicialmente a elas. Mas se por acaso a alma estiver em desalinho com a nossa, se a mente se mostrar obscura aos nossos olhos, então será difícil resistir, o relacionamento. Desviamo-nos por sobrevivência, para não compactuarmos com uma maneira de ser e estar e com uma visão com as quais não nos identificamos. Porque queremos estar libertos, de alguma forma, ser nós próprios, escolher outros caminhos.
Depois também aquelas pessoas que até têm uma bela alma, ou perto disso. Mas a forma como a expressam pode tornar-se cansativa, nomeadamente, não se aguentando muito tempo. Demasiado estimulantes, tornam-se...extenuantes. E conseguimos conviver com elas apenas durante algumas horas, partes do dia, enfim, não a tempo inteiro. Há uma forma que não vai ao encontro da nossa. Até porque demasiada intensidade leva, de facto à exaustão. Funciona um pouco como a paixão...esta terá de passar a amor tranquilo para se conseguir respirar.
Encontramos ainda aquelas que são francamente desestimulantes. Não nos cansam, pois não, mas aí também não nos despertam atenção em particular. Podem ser e às vezes são excelentes pessoas, daquelas que se diz é boa pessoa, mas são facilmente esquecíveis, não procuramos a sua presença, e não conseguimos, também aqui, perpetuar uma relação ad eternum. Às vezes fazem parte também da nossa família e  até são prestáveis e gostam de nós mas não conseguiríamos estar com elas por tempos indeterminados. Só encontros fugazes, às vezes obrigatórios
Não que nenhuma relação seja eterna. Mas para qualquer tipo de convivência saudável e feliz ser possível há-se haver ali um equilíbrio qualquer, ao sabor do nosso jeito, da nossa psique, da nossa existência. Não há pessoas ideais. Mas há quem fique bem mais perto do que outras. E, quando é possível a escolha, ficar ou não ficar, eis a questão. Eu cá aprecio (con)viver em liberdade. Ajustes, concessões, às vezes são naturalmente precisos, mas que o preço não seja demasiado alto. Que as ligações me permitam ser espontaneamente eu própria.

março 26, 2011

A Jóia da Coroa II


Por ser também o nome de uma excelente série britânica dos anos 80 que vi e revi e que se me perpetuou na memória. Hari Kumar. Daphne Manners. E de como o Raj britânico não aceitou nunca a fusão amorosa das duas culturas. Na verdade, a colonização britânica na Índia foi sempre caracterizada por uma considerável distância psicológica entre colonizador e colonizado, dir-se-ia mesmo distância afectiva. Eram muito mal vistos os romances interculturais, sobretudo se era a mulher a ser a "branca". Como era aqui o caso. Daí que a violação de Daphne, não por Hari, obviamente, mas por um grupo de violentos e radicais indianos, tenha servido os propósitos daqueles que apregoavam a segregação social, de um lado e de outro. Um romance entre duas pessoas que se tinham apaixonado tornou-se uma acendalha para a resistência indiana, e um reforço dos princípios racistas e coloniais de muitos ingleses.
Mas curiosamente essa Índia colonial sempre exerceu um grande fascínio em mim. Valiosa, opulenta... Aqueles grandes palácios e aquelas paisagens exóticas, a vida serena de que os britânicos usufruiam, em contraste com a colorida e barulhenta confusão típica indiana, mas ao mesmo tempo o modo como se atraiam algumas vezes apesar das diferenças, do lifestyle, das feridas, do abismo. De tal forma que, sendo eu uma incurável geo-romântica, sempre adorei estas histórias de amor conturbadas e abrigadas por um fundo preenchido com fronteiras culturais e afins. Em "Passagem para a Índia" (maravilhosos filme e livro no curriculum) também há quase uma história dessas a acontecer. Mas o estigma da violação persiste e, consequentemente, o da não-comunhão física e espiritual também... Como a querer dizer que tal não seria, nem foi, possível. Porque os indivíduos e os impulsos da sua alma são muitas vezes esmagados pelo todo, pelas conjuncturas políticas, sociais e históricas. E lá não se vive o amor.
A perspectiva que tenho sobre a Índia, foi então, durante muito tempo romanceada e filtrada pelo cinema e pela literatura. Com o passar do tempo, e com a tendência para o exótico chic, lá se esbateu a vontade de conhecer esta nação. Por isso achei extraordinário o programa sobre os "Portugueses Pelo Mundo" que vi há dias. A forma descontraída e adaptável como enfrentam a experiência Índia. Caos, cor, tradição, pobreza, riqueza cultural, anacronismo, espiritualidade, confusão, exotismo, miséria - uma mescla única mas que admito como difícil no terreno. Fascinante mas a exigir um estofo muito próprio, um despojamento de noções como conforto, luxo, organização, estética, qualidade e outros. Dizia há muitos anos uma conhecida minha, uma hippie de grande simplicidade e total ausência de vaidade, "Não entendi a Índia". Ela, profundamente espiritual e sem caprichos. Portanto não será para todos a capacidade de se adaptar ao estilo de vida indiano e às suas idiossincracias. Leva-me a pensar que não a teria, de todo. E, de certa forma, gostaria que assim não fosse. De não me ter ficado pela visão romântica. De não ter ficado presa às memórias dos livros e filmes que li e vi. De não conseguir lidar com a brutal ainda que autêntica sensorial realidade de um fantástico e avassalador país de contrastes. Barreiras interiores...a ultrapassar...?


março 16, 2011

O outro grito

No outro dia assisti a uma  impressionante reportagem sobre a actual situação nos Montes Golan. Pertencendo à Síria, foram primeiro capturados (na Guerra dos Seis Dias, 1967) e, depois, unilateralmente anexados por Israel (em 1981), não tendo sido essa anexação reconhecida pela comunidade internacional.
A reportagem chamava-se "Across the Shouting Valley" e dava conta da algo bizarra e comovente forma de comunicação entre famílias e amigos separados pela história, pela guerra, pela fronteira, pela inimizade, pela tonteria humana. Vemos como as pessoas comunicam acenando lenços, gritando e usando um megafone para poderem falar e matar saudades de quem não podem tocar fisicamente. Estão em dois lados opostos da barricada. Chegarem a um encontro físico, para dois países inimigos, implicaria esforços diplomáticos consideráveis, presenças das autoridades e controlos de documentos.
No filme é ilustrada uma situação dessas quando uma árabe síria casa com um árabe que vive no lado israelita, precisamente nos Montes Golan, já que se apaixonaram aquando, se bem me lembro, de uma visita de trabalho deste à Síria. O casamento, só possível cinco anos depois, foi de um aparato estatal fora do comum. Entrega da noiva num checkpoint. Tropa a acompanhar, muita lágrima e um futuro marcado por uma estranha distância familiar. De facto, a noiva não mais voltaria ao seu país e comunica com os pais por telefone, já que vivem na capital síria. Há mais de 20 anos que assim é. (O pai, que se encontrava em Damasco por altura da invasão, não teve nunca mais autorização para regressar à terra natal nos Golan).  Porque não abrem o checkpoint - pergunta. De que modo isso afecta a segurança? Porque não posso ver a casa onde cresci? Porque não posso ver a minha mãe?
Milhares de sírios fugiram quando centenas de aldeias foram arrasadas com a invasão israelita. Hoje, restam apenas algumas aldeias onde estão muitos sírios, agora no "lado de cá - Israel". São estas pessoas que, por entre lágrimas e corações feridos, comunicam aos gritos, pelo vale que divide as duas nações, com os seus familiares e amigos do "lado de lá". É a única forma de se "verem". Envelhecem separados, nascem e crescem crianças separados, morrem separados. Por fronteiras realmente fisicas, também emocionais, tanto tontas  como cruéis. Arame farpado revestido de loucura e intolerância humanas...
Ver esta reportagem fez-me lembrar dos tempos em que eu era uma pró-palestiniana acérrima. Com o passar do tempo lá me aburguesei também eu um pouco... tornei-me porventura menos radicalizada,  ao ponto de quase esquecer que o conflito israelo-árabe tem, de facto, contornos muito difíceis de esquecer por quem os sofreu na pele. Defendendo a paz e a necessidade absoluta de coexistirem em harmonia, não deixo contudo de ficar chocada com situações de grande injustiça que muitos árabes viveram. Se os judeus muito sofreram e foram despojados de tudo numa europa hitlerizada, também não deixa de ser verdade que muitos palestinianos e outros árabes da região também perderam tudo...terras, famílias, empregos, vidas.
Comovo-me imensamente com os olhos inundados de quem grita e com as vozes que ecoam através do vale.... num programa que vale a pena ver. Para saber. Que não deixemos nunca de saber. É que no ocidente vem tudo muito filtrado...ao sabor dos nossos objectivos. Mas há um outro lado que importa conhecer. Conhecíamos nós esta Síria? O grito do vale? Pobre geografia a nossa, a que se esgota nos pacotes de viagens e nos jornais telealarme...

março 11, 2011

(In)Comunicabilidade



Um dos meus filmes de eleição é "Babel". Conjuga a minha grande paixão pela geografia com o tema da comunicação (ou falta dela). A frase do trailer que promove o filme é ela própria absolutamente fantástica e emblemática: If you want to be understood ... listen. De facto, será inegável que ouvir será uma belíssima característica. Que nem todos partilham, ainda assim. Há pessoas que falam falam, falam o tempo todo e soam mesmo estridentes aos nossos ouvidos. Ouvem-se a elas próprias e nunca a nós. Quem nunca conheceu ou experienciou alguém ou algo assim? Que pena que assim seja, perder-se a noção da presença do outro, das suas necessidades ou alegrias, para não mencionar só ansiedades. Como é possível não ouvir? Bem, não quer dizer que se assimile tudo vindo de toda a gente, mas é imperativo na relação entre amigos, pelo menos. Assim é. Não nos interessam as historietas e lamúrias de muitos, ou as fofoquices e mesquinhices de outros. Mas ouvir quem nos é caro torna-se quase obrigatório. Até para grandes distraídos, como é o meu caso. Comunicar (expressar-se e ouvir, simultaneamente) com o outro é alimentar as relações humanas, é fomentar a intercomunicação pessoal, é construir afectos como a amizade.
No filme, essa necessidade imperiosa de comunicação é expressa pelo não domínio da mesma língua. Sabemos como é importante falar a mesma língua e não apenas do ponto de vista formal. É preciso falar, mesmo, a mesma linguagem, ainda que a língua seja comum. Ilustrando a primeira, no filme temos uma cena verdadeiramente portentosa. A personagem do Gael Garcia Bernal entra em conflito absoluto com os polícias na fronteira México-EUA precisamente por causa do factor língua. Entra em pânico, de certa forma, mas causado também (e não ingenuamente por parte dos objectivos do realizador) pela incapacidade de ouvir... de ambas as partes, ao que me lembro. Que provoca um grande mal-entendido. As coisas precipitam-se e seguem um curso alucinante e também trágico, de alguma maneira. Se passarmos para outra parte do mundo (que belo filme a fazer-nos viajar) encontramos filha e pai japoneses manifestando uma total ausência de comunicação. Isto ilustra perfeitamente a segunda. Dominando ambos a mesma língua física, não falam a mesma linguagem. Há silêncio, há desconhecimento, há distância. E a não-comunicação está lá na mesma. Levando à incompreensão. E a comportamentos de estranha tristeza e deriva da adolescente.
Também nós provavelmente conhecemos indivíduos que não "falam a mesma língua" que nós. Língua em comum mas linguagem em total colisão. E provavelmente também não conseguimos desenvolver com eles relações para além de trabalho ou outras menos significativas ainda. E pode até acontecer que estejam na nossa família, é possível. Não a escolhemos, a alargada, pois não? Mas se se trata de amigos, fruto da nossa escolha, então é imprescindível que nos conheçamos. E esse conhecimento advém de partilharmos uma linguagem em comum. Com amigos estrangeiros´teremos que ter uma outra ponte comum também... a língua formal. Porque sem ela não há comunicação mais aprofundada que resista.
Entre língua e linguagem, parece-me então que é difícil coabitar, melhor, coexistir, numa babel linguística e de ideias e emoções não expressas. Embora e como toda a cena do inusitado acidente em Marrocos sugere (Cate Blanchet é alvejada por um miúdo que experimentava uma arma do alto do monte, enquanto dormitava no autocarro de turistas) haja uma coisa que liga os povos e as pessoas - a solidariedade, a vontade de ajudar, a identificação pelos sentimentos, o impulso pela sobrevivência e em última instância a vitória sobre a tragédia. Estando-se receptivo ultrapassam-se muitas das barreiras linguísticas.
Portanto, e voltando ao princípio, se queres ser entendido ... ouve.

março 05, 2011

Em nome da graça


Inspirada pelo blogue de um amigo, também eu almejei escrever um texto humorístico. Mas a coisa tá difícil cá para este lado. Primeiro é preciso ter graça. Onde está ela? Conheço uma que trabalha comigo, podia ir buscá-la. Mas será isso que me salva? Segundo é preciso procurar um tema, um tópico, uma figura, uma coisa qualquer. Não me lembro de nada. Tento e não consigo mesmo lembrar-me. Jesus Christ. Quer isto dizer que nada tem piada? Para mim? Confesso que, por esta altura, estou a ficar assustada. Leitor ajude-me. O que é que pode ser verdadeiramente cómico para eu fazer o texto? O primeiro-ministro? Portugal? Eu sei que são engraçados mesmo anedóticos mas não me fazem rir muito. Não sei bem porquê mas ...não. Mesmo fechando os olhos e concentrando-me muito... ná, na dá. E lá fora? O Gadaffi tem a sua piada mas não me apetece falar dele. Gosto francamente de o ver atirar papeís na ONU, eu própria fiz isso uma vez quando apresentei um espectáculo de escola, e é uma coisa verdadeiramente libertadora. Olha atirar os papéis todos da escola isso sim teria muita graça. Graça, Maria, Isabel, Esmeralda, Lena... todas ficariam mais leves aposto. Mas o coronel tem uma parte que me chateia, coisa mínima, que é eliminar os opositores. Não sei porquê mas sempre gostei muito de oposições. Sejam elas quais forem. Ser do contra é bem mais divertido do que pertencer ao governo. Uma pessoa fica mais descontraída, pode ser irresponsável e ninguém se manifesta para nós sairmos. Step down, em inglês, que é mais engraçado. (Steps - Passos. Oh pá, esta veio a calhar.) Também podia falar do inglês. Os alunos a aprenderem inglês. Mas como sabem tanto não dá pica. Teriam que ser mesmo fraquinhos. E esses não há. Lamentamos mas não há nos mercados. (Nestes só há nervos e os nossos alunos são do mais relax que há.) Com o decorrer do tempo, fruto de brilhantes políticas educativas e de tecnologia super avançada, a massa estudantil tem-se refinado. Aliás nem sei o que é que os professores fazem na sala de aula. Não estamos a ser, desta forma, francamente úteis. Isto sim, isto pode ser hilariante. Não está o leitor a rir já a bandeiras despregadas? (Não percebo bem esta expressão mas achei que ficava bem aqui. Afinal sempre contém a palavra rir.) Bolas, acho que afinal a graça mora aqui. E eu a pensar que era outra pessoa. Tonta. Sou mesmo distraída. Deixem-me ir ali perguntar aos da casa quem sou. (vou e venho) Pronto, já estou mais descansada. Afinal sou eu. Ooops, por momentos duvidei que era séria e sem piada. Prometo que vou tentar num próximo texto. Era melhor que tivesse sido humorística num primeiro e não num segundo. Afinal primeiro é primeiro e segundo é segundo. Mas sempre pode ser num terceiro. Assim a coisa já muda completamente de figura. Um mau primeiro é mau mas um bom terceiro já é bom. Obrigado leitor por me compreender. E acompanhar. Se você ainda está aí, puxa, você tem mesmo sentido de humor. Você acha piada a tudo. Estou parva. Aliás agora está na moda ser parvo. Livra de não o ser. Hehe.


março 03, 2011

Mortificação




Dizia então eu que a Helena Sacadura Cabral faz observações no seu livro de crónicas com as quais eu me identifico bastante. Uma delas é a de achar que não compreende porque é que a ideia de sacrifício tem de estar associada à existência feminina. Ou seja porque é que a mulher tem de viver sacrificada e sofrida de alguma forma. Trabalho, obrigações domésticas, filhos e família, e todos os papéis que desenvolve ao mesmo tempo com grande esforço e muitas muitas vezes trazendo o esquecimento dela própria como ser individual, pensante e livre.
Será praticamente incontornável a ideia que tal sorte terá vindo através das gerações atingindo as (nossas) mães. Não tendo conseguido estas libertar-se e ter pensamento próprio, o que fizeram foi incutir nas filhas essa ideia de sacrífico, de dedicação extrema e sofrimento pelos outros, derrotadas por sentimentos de culpa surgidos por causa dessa forte moral nelas incutida. Moral ou moralidade. Pesada, incapacitante, castradora. Que têm que estar, de várias formas, ao serviço do homem, numa perspectiva toda ela machista que só arrasta, por exemplo, a já de si pouca colaboração masculina em termos domésticos, na generalidade.
As mulheres que não gostam de se sacrificar e assumem isso são consideradas egoístas, preguiçosas e inadequadas na sua performance sob a idealização feminina das gerações precedentes. E são consideradas assim também pelas suas pares de geração, uma vez que as mulheres sacrificadas e demasiado centradas em aspectos do quotidiano familiar e laboral que teimam em persistir acham as outras umas inúteis sem coração, altivas e não solidárias com o próximo.
Acontece que a nossa participação na sociedade não passa só pelo cumprimento dos deveres e ainda por cima com excesso de zelo. A vida não pode ser só penitência e tormento de moral cristã e de outras confissões. Também existimos ao usufruirmos dos prazeres e das liberdades que nos foram sendo concedidas por muitas lutas travadas. Também existimos como seres pensantes e intelectuais (ou isso tem que ser só para os homens? Era o que faltava.). Também existimos como opinadoras e quebradoras de barreiras. E tudo isto de forma consciente, fruto da nossa escolha, e livre, profundamente livre.
Ainda que com muitas obrigações (quão difícil é ser mulher com milhentos papéis a desempenhar) decididamente não temos que viver amarguradas e presas a esquemas sociais e familiares que nos tolhem as ideias. Não temos que ser escravas de ninguém.  Em casa mas também no trabalho. As mulheres que são escravas do emprego também não estão libertas. Alguns sacrifícios são exigidos mas caberão a todos, homens e mulheres. Nenhum estigma ou lei me diz que devo aceitar o sacrifício como um desígnio divino ou pior como um fado imposto por mulheres que não pensam ou que não se amam o suficiente.

março 01, 2011

Irmandade não muçulmana

Em algumas férias que passei na Tunísia pus-me a ver as telenovelas da Arábia Saudita. Não percebia a língua, claro mas gostava de ver aqueles casarões imensos, as belas roupas das mulheres, assim como os seus penteados  (e constatar que tapadas só mesmo fora de casa). Não creio que tenha sido apenas um pequeno ataque de futilidade que me deu. Via por curiosidade cultural, para tentar entrever algo mais da realidade de um país árabe rico, neste caso, mais do que aquilo que é mostrado no ocidente via telejornais alarmistas e por vezes (muitas vezes) extremamente redutores.
Esta introdução serve o propósito deste texto que é o de dar enfâse à chamada irmandade árabe por via de negar que seja a religião que os une. Expliquemo-nos.
A impressão com que fiquei e fico é a que é , fundamentalmente, a língua que une as nações árabes. Ou seja, há de facto uma grande identificação mas ela é sobretudo linguística, primeiro, e geográfica, depois. Não chamamos nós "país irmão" ao Brasil porque falamos a mesma língua? Não chamamos nós "nuestros hermanos" aos espanhóis porque partilhamos a Península? Entao, que esperar dos árabes, falantes da mesma língua (com algumas variantes) e perto uns dos outros na sua localização geográfica? Trata-se, de facto, de uma grande irmandade. Um pouco à semelhança daquela que existe na América Latina espanhola. Ouvem-se as mesmas canções e artistas de país para país, vêem-se os mesmos filmes e telenovelas de nação para nação, conhecem-se obras de autores e pensadores vizinhos e cuja língua podem entender e desta forma ler e conhecer.
E acrescento. Há países muçulmanos não árabes e a proximidade cultural e desta forma afectiva não é tão forte. Um argelino não se sentirá tão ligado à Turquia. E menos à Albânia. E bastante menos à Bósnia. Depois menos ao Irão. Depois ainda menos ao Paquistão e ao Afeganistão. Ainda menos às ex-repúblicas soviéticas do Uzbequistão e Turcomenistão e as outras. E ainda menos à Indonésia. E ainda menos ao Brunei. E menos menos às Ilhas Maurícias. Percebem o que quero dizer?
A união entre os árabes decorre da compreensão linguística e, consequentemente, cultural que os contempla e que é fruto da história e da geografia. A questão religiosa é, por muito que muitos achem que não, secundária e muito mais fragmentária. Se a região árabe fosse uma babel europeia esse sentimento de família seria muito menor ou nem existiria. É minha forte impressão. Registo-a aqui.

Bocadinho de mim


Tenho andado a reler algumas crónicas escritas por mulheres portuguesas e que tenho em casa, algumas já há bastante tempo. Os estilos são variados, umas mais profundas, outras mais superficiais, outras mais ternas outras mais científicas, umas mais sensíveis outras mais robustas.
Mas, de todas, provavelmente as de que mais gosto são as da Helena Sacadura Cabral. O livro "Bocados de Nós" está escrito de forma intimista, como bem gosto, e perpassa quer sensibilidade quer inteligência. A estas alia-se o gosto pela liberdade. Talvez por isso, e salvaguardando as diferenças no tempo e outras que mais, me identifique bastante com registos  por ela observados. Depois, está escrito de forma simples, autêntica e com uma clara intenção que é naturalmente perceptível. Ou seja lê-se e tira-se, de facto, alguma coisa. Há uma conclusão, uma ideia, uma mensagem. Não se limita a jogar com as palavras, pelo contrário, há mesmo uma ausência de jogos vocabulares ou estruturais, construídos propositadamente, muitas vezes, e sem nexo absolutamente nenhum. Não sou grande apreciadora de textos confusos, obtusos, difusos, sinuosos. Prefiro ideias filtradas pela transparência e pela clareza.
A Helena foca muitos pontos em que me revejo. Desde o seu pouco romantismo, aquele óbvio, comum e nauseante, até à sua pouca compreensão para com mulheres submissas e demasiado fúteis, até ao não ser "passadista" - de facto, estou sempre a olhar para o futuro -, enfim, a autora desfila uma lista de impressões que são um prazer ler e que nos fazem reflectir de forma coerente, lúcida e livre. Gostei também e muito do preambular prefácio escrito pelos seus dois filhos, tão diferentes, como sabemos, na sua visão política mas tão perto no afecto e reconhecimento dos talentos da mãe.
Parece-me ser, então, uma mulher de grande dignidade, livre no pensamento, franca e verdadeira, sem fazer concessões, em temas chave para mim como são os comportamentos humanos e os afectos. Curiosamente também, muito serena e tranquila na forma como expõe e assume as suas inquietações  ou irritações. Humana e humanista. Tudo muito eficaz, porque  natural e simples.

fevereiro 13, 2011

Portugalidades II

             Disse então na mensagem anterior que os portugueses se demitem das suas responsabilidades cívicas. Com isto estava a dizer que são pouco interventivos, preferindo queixar-se do que actuar em conformidade com as exigências das circunstâncias. Estava-se obviamente a falar de política mas pode-se alargar este comportamento ao dia-a-dia laboral, já que, nos momentos em que é preciso tomar uma posição, os portugueses optam, sim, mas pelo silêncio. Passa-se a explicar.
            Terei de me circunscrever ao meu próprio trabalho, pois é o meio que observo. Durante anos e anos o que tem feito a maior parte dos intervenientes nas reuniões? Obviamente, calado. Calado, no sentido em que fazem apenas balanços positivos das actividades, pois claro, como convém, e depois, sugerindo mais actividades em que, lá está, não pode faltar o tão portuguesinho culto da gastronomia. Almoços, lanches, pequenos-almoços, chá e queijos, churrascos, bifanas, e que mais. Atente-se que não estou contra nada disso. De todo. Não escapando à minha condição de portuguesa, também sei apreciar uma bela iguaria, oh se sei. E, obviamente, que a animação e convívio decorrentes são salutares. São. Não são? Claro que sim.
             Mas o que quero dizer é que a nossa participação nas reuniões se baseia em organizar momentos para alimentar o corpo, agora quando é preciso que o espírito dê o corpo ao manifesto (passe o pleonasmo) aí sim a coisa muda de figura. Aí os intervenientes calam-se. Quando têm de reflectir e de dizer o que pensam, fazendo intervenções de cariz mais político, e assumindo uma postura mais individual, quiçá, oh meu deus que silêncio.  Porque os portugueses gostam de estar abrigados no conforto do colectivo. Esticar o pescoço e arriscá-lo sozinho(s), isso é que não. E é uma pena.
             Porque as reuniões de trabalho são dos espaços mais privilegiados que temos para reflexão, conjunta ou não, e temos de saber aproveitá-los para mudar as coisas quando é preciso ou possível ou então somente para dar o nosso parecer. Estes momentos em que as pessoas reunem devem servir para o melhoramento das condições de trabalho e/ou outras e precisa-se da colaboração de muitos para o tornar praticável, esperançosamente. Quem se remete ao silêncio e pensa como nós não está a ajudar a construir a força que é precisa em muitas situações. Medo, indiferença, dissimulação, futilidade, comodismo, falsa cooperação, ignorância? Bem... nada disto é positivo. Quero acreditar que será por uma outra razão, mais abonatória como, por exemplo, pressa. Pressa em acabar a reunião e ir para casa. Até entendo, se for este o caso, as pessoas também se fartam de tanta solicitação. E o cansaço... Isso é notório. Mas uma reunião só é verdadeiramente interessante se houver a tal intervenção. Confronto de ideias e troca de opiniões.
             É que sou um bocado politizada. Entrar sempre  mudo e sair sempre calado não faz história. Claro que "falar" nem sempre é bem visto porque se tende a pessoalizar as tomadas de posição, vendo-as como contrárias e até desafiadoras ao sempre desejado bom e harmonioso trabalho sob uma gestão qualquer, quando não é nada disso que se trata. O que está aqui em discussão é esta permanente não intervenção dos portugueses, este deixar rolar, comer e calar, (talvez) sofrer em silêncio, qual herança salazarista cujo fado parece não ir embora. Que começa no quotidiano de todos nós. Figuras secundárias num filme que também deviam protagonizar. Não agarrar o momento, the spotlight...
           E, se bem que é preciso saber dizer, quando e onde, é uma pena, repita-se, que não sejamos mais exigentes, sob pena de mantermos o status quo que, possivelmente, não nos agrada por tempos indeterminados e de não ousarmos renovar, reinventar, reciclar, redirecionar, rever, restruturar...ou não. Pode ser que estejamos a opôr-nos, também, a uma mudança que não é desejável nem aceitável. Mas sempre a bem, em princípio, de muitos. Ou então podemos estar sós. Mas ao menos dissemos o que sentíamos e pensávamos. Interviemos, porventura fizemos pensar, e sem intenções obscuras, como atacar ou desestabilizar. Temos dito.

fevereiro 10, 2011

Portugalidades


Uma colega há uns anos afirmava, de forma simpática, que, nos meus textos, não dizia nada de novo. Concordei com ela, embora isso não me impeça de dar a  minha perspectiva e quiçá o toque pessoal. Desta forma, aqui vai mais um texto desse género. Novidade não será mas sempre sou eu a dizer.
Já ando há algum tempo para comentar a forte abstenção verificada nas eleições presidenciais de Janeiro (e também noutras eleições anteriores). Forte e lamentável, diria. Viver em democracia significa, entre várias outras coisas, poder votar. Por esta e outras liberdades houve muitos batalhadores, muitas lutas e muitas conquistas. Dirão os abstencionistas que não votar é também um direito que lhes assiste. Que é uma escolha pessoal, fruto do livre arbítrio que preside ao cidadão de nações democráticas. Até certo ponto, posso mesmo ter de anuir. Contudo, e apesar desse direito existir, não tenho propriamente de concordar com ele.

Os alunos podem faltar à aulas, o funcionário pode faltar ao trabalho, está nos seus direitos. Pois claro que está. (E, note-se, não estamos a falar de doença.) Mas, de forma massiva e continuada, torna impraticável a aprendizagem, a produção. Não se ajuda a construir o que quer que seja. Ora afigura-se-me que não votar, crónica e maçiçamente produz exactamente o mesmo resultado, ou seja ajuda a desconstruir, a não decidir, a não intervir,em última instância, a não actuar.

Esta demissão dos cidadãos de se responsabilizarem também pela escolha dos dirigentes não pode ser positiva. Até porque depois não lhes dá o direito de continuarem a dizer que nada muda, que tudo está péssimo, que todos são iguais. Resisto a esta visão eminentemente negativa da política. A mudança é sempre possível. Sempre o foi e sempre o será. É preciso primeiro acreditar e depois intervir. Por entre convulsões ou mais ou menos pacificamente, houve regimes que caíram, líderes que foram afastados, políticas que se alteraram, mudanças sociais que tiveram lugar, economias que mudaram. Tem sido assim o curso da história da humanidade.

Cair em pessimismos nihilistas e posições meramente anárquicas parece-me descabido e contra-producente. E também não quero acreditar que todos são iguais. Ficaram na história nomes, figuras que em muito contribuiram para o progresso das suas nações e para a melhoria das condições de vida e dos direitos humanos. Não se pode generalizar a corrupção, a mentira, a fraude, o autoritarismo. É preciso sim erradicá-los. E para isso nada como opinarmos nós em matérias como governação. Que o protesto não se transforme em indiferença. Está nas nossa mãos, pois, escrevermos os compêndios de história.

fevereiro 05, 2011

Cavaleiros das trevas

De cada vez que há um acontecimento que o justifique, lá navego pela internet  para ver os comentários postados às notícias. Que experiência aterradora, diga-se. Para além de não saberem escrever português, nem saberem pontuar, o teor medíocre que os comentaristas colocam nas suas opiniões põe-me doente. Ena tanta ignorância, tanto preconceito, tanto ódio. Donde vêm estes maus fígados, estas frustrações, este mal-estar com tudo e com todos? Emotividade violenta, virulenta, acompanhada das mais puras das irracionalidades. Como explicá-las? E, sobretudo, como digeri-las?

Ter sentido crítico, ter e expressar opinião são direitos fundamentais. Emitir opiniões diferentes, idem aspas. Mas há que discernir o bem e o mal, também naquilo que pensamos e que apregoamos. Sob pena de queremos validar coisas inaceitáveis e contrárias aos direitos, também fundamentais, dos outros. Há pontos que são claramente condenáveis. A discriminação, o racismo, a xenofobia, a violência, o ódio e outros que tais não são bem vindos nas sociedades ditas de direito, nos tempos modernos da civilização, num mundo, apesar de tudo, mais desperto para a opressão e sofrimento do outro. Liberdade, sim, sempre, mas com valores. Éticos e construtivos.

Ler comentários medíocres cujos autores se escondem sem rosto muitas vezes por detrás de alcunhas virtuais é penoso, triste e revoltante. Ver como instintos básicos ainda populam indivíduos no século XXI e como são veiculados online, na segurança do anonimato. Nessa altura, uma forte intolerância parece tomar conta, também, de mim. Ir por aí fora com uma varinha mágica e extinguir esses pensamentos, essas crueldades, esses cavaleiros destrutivos mergulhados nas trevas. Mas sendo contra as formas de violência mais primárias e gratuitas, resigno-me a irritar-me em silêncio, primeiro, e a denunciar, depois, comportamentos que estão para lá da minha sensível compreensão. E vou sempre esperando, pois claro. Esperando que se faça luz.

Uma amiga aqui há tempos dizia para eu, pura e simplesmente, não ler. Compreendo o que quis dizer e tem razão. Mas, lá está, esperançosa como sou volto à carga, esperando que apareçam almas iluminadas que saibam construir, de forma racional, aberta, informada, humanista, equilibrada e responsável, ainda que crítica.

fevereiro 03, 2011

Feminilidades

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Um dos filmes de que gostei muito foi "A Idade da Inocência". Não só porque habitualmente aprecio filmes de época, como também gosto de um romance impossível (só) na tela como ainda pelas personagens que, de alguma forma, me transmitem alguma coisa de inesquecível. A personagem da Madame Olenska poderá ser uma delas. E dei por mim a pensar que a escritora, de cujo livro se adaptou a história no cinema, Edith Warthon, é aquariana. E assim sendo teria invariavelmente de tocar o tema da liberdade e do inconvencionalismo, precisamente através da personagem da Michelle Pfeiffer, que de resto a interpretou com sublime sensibilidade. E passado alguns momentos, recordei outra heroína cuja escritora também é aquariana, Kate Chopin, e cujo livro "O Despertar" remete para a (re)conquista dessa independência e para os comportamentos livres  e sem amarras ao estipulado socialmente.

Foram dois livros que li há bastantes anos, portanto. As suas personagens femininas, protagonistas, têm de facto muito em comum. Recusam-se a levar os seus casamentos por diante e adoptam uma nova vida quando já não há laços verdadeiramente afectivos a segurá-los. Colidem, de alguma maneira, com a sociedade em que se movem. Mas, e curiosamente, são também enormes heroínas românticas. Por amor, por esse amor verdadeiro a que aspiram, acabam por fazer o contrário da heroína independente, forte, despojada, vanguardista, sem preconceito e profundamente inconvencional. Em The Awakening, Edna, depois de viver para ela e não mais só para a família, suicida-se quando é rejeitada através de um bilhete. Em The Age of Innocence, Ellen renuncia ao seu amor, volta para o marido que não ama e que a trai para, altruisticamente, não estragar a felicidade de sua prima. Portanto a sua independência e liberdade esbarram no verdadeiro amor, impedindo-as este de prosseguirem com o corte de um passado que não as fez/faz minimamente felizes. Uma contradição que aponta então para personagens ultra femininas e não feministas, de uma certa forma. Escolher o sofrimento, e ainda por cima por causa de um homem, não é coisa que movimentos de emancipação feminina possam apreciar.


Passa então, nestas duas histórias, um toque de romantismo inegável ou de como o verdadeiro amor não deixa, também, de trazer sofrimento e dor. De como pessoas, ou melhor, mulheres racionalmente independentes podem ficar somehow afectivamente dependentes. Liberdade e amor, duas vertentes que aparentemente não combinam... Com a acção a decorrer no século XIX, ambos de autoras norte-americanas, trata-se de livros belíssimos, onde perspassa uma grande sensibilidade e onde o leitor gostaria, certamente, de escrever um final bem diferente. De ter um destino mais feliz para as duas protagonistas/personagens principais. Por isso tudo e porque tratam, sem margem para dúvida, de dimensões também da vida actual, sim, sim, eis a sugestão.
A (re)ler e a não esquecer, possivelmente.

janeiro 22, 2011

Hasta siempre...


A propósito de revolução...independentemente do rumo que algumas delas tomam e das nossas posições face a elas, é inegável a beleza da música cubana e a riqueza da cultura do povo cubano. Do filme- documentário, que adorei, Buena Vista Social Club.


Revolução...Ao som de uma música de excepção, este video combina, para mim, duas coisas que têm sido constantes da minha vida :o gosto pela liberdade e o gosto pela geografia. Assim como se as viagens não fossem senão vôos físicos, sensoriais, claramente, e também comportamentais, mentais, ou seja de como os dois se podem incrivelmente mesclar e completar a existência.
Porque a liberdade é também um conceito muito individual, que nós exercemos ou não, todos os dias, no nosso quotidiano. Não depende somente da organização e/ou conjectura política, social, laboral e afins. Depende da nossa vontade. Fazer escolhas, optar, opinar, dizer não, estão muitas vezes ao alcance de todos e nem por isso todos o fazem. Ou seja pode uma pessoa ser prisioneira de si própria, e dos outros que lhe são queridos, porque revoltar-se será precisamente mais dificil se não houver coragem para romper com os nossos próprios esquemas de vida. Daí que ser livre seja algo que não é fácil porque nos pode deixar sozinhos ou isolados e dar azo a conflitos, naturalmente. Portanto quão mais fácil e cómodo não nos aventurarmos em sair do rebanho e gritar a plenos plumões que não queremos.
Quanto à geografia, ela é um salto no mundo mais diverso, que nos enriquece e espanta. Ela é feita de raças e cores, terras e flores, diferenças e parecenças. O universo visto do ponto de vista das pessoas e das culturas, das práticas e das regiões. Será esta a dimensão da geografia que mais nos estimula e /ou instiga, dependendo da nossa capacidade de absorver o desconhecido e torná-lo conhecido.
Viajar por Cuba, que ainda não visitei, neste vídeo dá-me a sensação de viajar livremente para um mundo à minha escolha. Por isso fico feliz, apanhando o avião da minha alma e percorrendo uma terra que ainda é emblemática em sonhos de revolução. Ecos de hasta siempre....

janeiro 17, 2011

Aroma de jasmim


1. Geralmente, não costumo comentar a actualidade, por uma ou outra razão. Mas desta vez impõe-se que escreva sobre a Tunísia, por variadíssimas razões. Em primeiro lugar, o cheirinho a revolução, justa e sedenta de liberdade, sempre teve, para mim, um significado sem fim. Em segundo, coisas como a coragem, que o povo tunisino revelou ter de forma sem paralelo no mundo árabe, sempre foram alvo da minha admiração. Em terceiro, porque envolve pessoas que fazem parte da minha vida e do meu círculo e, desta forma, não posso deixar de estar solidária.
2. Visitei a Tunísia várias vezes. O meu olhar não será propriamente o do turista comum, já que lá passei mais tempo, convivi directamente com o povo e observei muita coisa. Entristece-me constatar que muitos turistas apenas retiram as coisas menos boas que porventura possam ter vivido nas suas férias, como experiências menos felizes num hotel, ou com a comida ou ainda com ou outro nativo, ou por usarem lenço ou por deitarem algum olhar mais atrevido. Esquecem-se de ver as coisas como um todo e não analisam as potencialidades e as coisas boas deste país. Esquecem-se ou não são, pura e simplesmente, capazes de o fazer. Por defeito, falta de visão, egoísmo e snobismo culturais. Triste, sem dúvida.
3. A minha dentista, uma das poucas mulheres admiráveis que conheço pessoalmente, e que visitou o país por pouco tempo, foi rápida na sua análise inteligente. Diz ela, e eu subscrevo totalmente, que a Tunísia tem um povo espertíssimo, interessante e com muito potencial para desenvolver o país. De facto, o que sempre me saltou à vista foi o facto dos jovens tunisinos estarem tão bem informados acerca das coisas e mesmo do mundo, abertos e receptivos à troca de ideias e de experiências, falando facilmente várias línguas e mostrando uma capacidade de comunicação invulgar. Pude constatar isto no seio familiar mas também no comércio, no turismo, no lazer, na rua. Muitas conversas se apresentaram como estimulantes, vivas, e plurilinguísticas.
4. Claro que se falava de Ben Ali. Discretamente, ou seja, em círculos pequenos e próximos. Uma vez no aeroporto, o taxista, conhecido da família, disse-me para eu não falar do presidente ali, quando eu me preparava para dizer algo menos abonatório sobre tal figura. Claramente havia noção de que falar em público não era permitido, possível. Estavam fartos do presidente. Fartos. Fotografias penduradas por todo o lado, eram alvo de anedotas, por exemplo, porque os tunisinos conseguiam incrivelmente manter o humor no meio da repressão e da falta de condições de vida. A mulher do presidente era também alvo de inúmeras piadas, para além do próprio. O povo tunisino parecia resignar-se assim, rindo um pouco, pois eram (e são) calmos e pacificos. Digamos que Ben Ali se aguentou mais tempo no poder por ter optado por uma via anti-terrorista, anti-islâmica. O ocidente apoiou-o claramente por causa disso. E nós, turistas, estrangeiros, sentíamo-nos seguríssimos. Sempre me desloquei na mais absoluta tranquillidade e segurança. De qualquer forma o zelo anti-islamitas foi tão exagerado que ultimamante as mulheres tinham voltado a usar o lenço, por vontade própria, para desafiar o presidente e a sua repressão religiosa e das liberdades individuais.
5. Tem de haver algum esclarecimento sobre o papel das mulheres na Tunísia, porque me parece que alguns turistas confundem as coisas. Nas zonas turísticas viam-se mulheres de lenço e algumas de véu, mas eram sobretudo as turistas vindas do Golfo Pérsico. No geral, as tunisinas de lenço eram sobretudo mulheres idosas e/ou de zonas mais pequenas. Isto até, como disse, as mulheres optarem pelo lenço para mostrar o seu descontentamento e ultimamente, sim, viam-se muitas jovens usarem-no. Mas de livre vontade. A mulher tunisina goza dos mesmos direitos do homem, praticamente. Estudam, trabalham, têm profissões tradicionalmente mais masculinas, enfim, têm feito uma evolução algo serena a esse nível. Não nos podemos esquecer que em Portugal também essa igualdade só começou a ser consagrada a partir do 25 de Abril. Há pouco tempo, portanto. É preciso dar tempo aos países árabes e outros, a sua história ainda está a construir-se. Esta importância da mulher na sociedade tunisina era, de resto, apregoada pela primeira-dama. Esse mérito terá ela tido, assim como o primeiro presidente, o revolucionário Bourguiba, e o seu próprio marido.
6. De facto, somos muito céleres a criticar tudo o que é árabe, pois facilmente confundimos (a sua) cultura com (a sua) religião. A Tunísia trata-se de um estado laico e monogâmico. São muçulmanos, claro, mas porque não haveriam de o ser? A geografia e a história explicam-no. E isso serve para todas as religiões. Ter direito às liberdades individuais, incluindo as de culto, é obviamente apanágio das sociedades de direito. Fanatismo e terrorismo são outra história e não cabem aqui neste texto. Podemos não apreciar algumas tradições que ainda persistem, eu aliás não gosto de tradições em lado nenhum e ponto final. Mas estão enraizadas culturalmente nos países e há que respeitar, pelo menos, e esperar que evoluam. A Tunísia foi o primeiro país árabe a abolir a escravatura. O primeiro a instituir uma constituição. O primeiro a abolir a poligamia. O primeiro a legalizar o aborto. Marcos importantes, sem dúvida, altamente significativos. Estão virados para o progresso e defraudar esse processo é que também ditou a queda do ditador. Sem condições económicas e muita pobreza, não há desejo de progresso que aguente.
7. Porque a Tunísia é pobre. As pessoas vivem com muitas dificuldades, muitos edificios estão muito degradados, as ruas carecem de alcatrão e de limpeza, as pessoas têm um ar sofrido e de quem não está habituado a mordomias. Claro que há riqueza, mas concentrada em poucos. E claro que há absoluta limpeza mas nas zonas turísticas. E há glamour e beleza, também mais nas zonas destinadas so turismo. A zona de Hammamet Sul (Yasmine Hammamet), por exemplo, é de sonho, um paraíso de palmeiras, tranquilidade e mar azul. Lojas de um exotismo inebriante, avenidas sumptuosas, bares e esplanadas maravilhosos, hotéis de completo luxo, enfim local das mil uma noites a deliciarem os nossos sentidos. Mas essa Tunísia que obviamente se adora tem de se estender mais democraticamente ao resto das cidades e das populações.
8. Pela razão que o povo merece-o. São, na sua generalidade, das pessoas mais tranquilas e educadas que conheci. Sempre com um respeito imenso, somos tratados como raínhas e reis, pois a alma tunisina é gentil e galanteadora, cavalheiresca e aberta. Lembro-me de cada vez que me venho embora de ficar emocionada, verdadeiramente, pois as pessoas conquistam-nos com a sua afabilidade e trato. Por eles, estou muito contente com a revolução de jasmim. Muito mesmo. Que conquistem a liberdade por que há muito anseiam, que desenvolvam o país rumo ao progresso (embora este também seja discutível), que sejam donos de si próprios, que façam florescer a sua nação. Que o cheiro da sua flor mais emblemática inebrie esta e as gerações futuras.

janeiro 07, 2011

Tratado da felicidade profissional



Aqui há tempos pude assistir a um interessante programa de televisão de carácter sociológico, tipo de programa que está, de resto, entre os meus preferidos no que diz respeito à informação.
Debruçava-se a análise feita no programa em questão sobre a falta de poder de decisão ou de opinião no mundo do trabalho de hoje por parte dos trabalhadores e funcionários, ou seja, de como a falta de participação afectiva ou psicológica por parte de quem executa tem tornado drasticamente as pessoas cada vez mais infelizes.
Assim é, de facto. Nas sociedades ocidentais e/ou desenvolvidas, com o acesso a bens materiais como nunca houve antes, partir-se-ia do princípio que as pessoas satisfariam os seus desejos e sonhos bem mais facilmente. Acontece que aumentam, de forma brutal e sintomática, o aumento dos comprimidos anti-depressão, num crescendo de anti-felicidade, anti-serenidade e anti-bem-estar preocupantes e galopantes. Na verdade, o que os sociólogos e psicólogos concluiram é que as frustrações do trabalho, aliadas às exigências com pouquíssimas compensações, muito têm contribuido para estes desiquilíbrios.
Dizem os entendidos que as pessoas, na sua esmagadora maior parte, estão infelizes com o modo como trabalham. Independentemente da profissão, há, de facto, e no geral, um cumprir rotineiro e estéril, sem que os que trabalham tenham hipóteses de emitir sugestões ou ideias que lhes digam directamente respeito. Ou seja, escolhem pouco, muito pouco. As coisas são-lhes apresentadas, sem que eles possam opinar, dizer o que sentem, criar, ousar, recusar, argumentar, em ultima instância, ser livres e, dessa forma, mais felizes. Diziam nesse programa os peritos que às vezes bastava opinar ou ter a hipótese de escolher uma coisa bem simples, pequena, mas que fizesse o trabalhador sentir que o que ele pensa é importante para a empresa, ou que está a ser dono de si próprio ou/e que pudesse torná-lo mais estimulado e dessa forma mais produtivo.
Penso não haver dúvidas quando se diz que pessoas motivadas produzem mais e mais eficazmente. E também absolutamente concordo em dizer-se que é um erro não se fomentar a felicidade no trabalho. Como  não? Porque dizem alguns que não estamos "aqui" para ser felizes? Por acaso as pessoas são robots? Não sentem? Que ideia disparatada... A realização profissional é fundamental para o equilíbrio do indivíduo, independentemente do lugar e da prioridade que ocupa na vida de cada um. E ela passará por um sentimento de satisfação em produzir, que invariavelmente brotará da possibilidade de opinar sobre aspectos da organização laboral, sobretudo aqueles que nos dizem directamente respeito.
 Desta forma, estão de parabéns aqueles que, nas chefias, tentam valorizar o lado humano de cada um, tentando ir ao encontro das necessidades e desejos dos seus trabalhadores, funcionários e afins. Em mega empresas, não será fácil mas não devem desistir. Saber que motivam as pessoas acarreta saber que irão colher melhores resultados, certamente.
Quanto a nós, os executantes, e para lá do mundo do trabalho, quanto mais felizes estivermos mais sã construiremos a sociedade e mais contagiantemente sadia se tornará a nossa passagem por aqui.

dezembro 28, 2010

Celebrações


Aqui há uns anos li uma hilariante crónica da Júlia Pinheiro sobre a passagem de ano. Arrancou-me várias e sonoras gargalhadas, pois de forma engraçada e sagaz foi capaz de captar o ridículo que às vezes tal festa pode conter. Sobretudo aquela parte em que ela diz que àquela hora já mais de metade se arrependeram de ter saído de casa.
A minha posição face ao reveillon não é, lamento eu, nem tão brilhante nem tão bem-humorada, pois acabei sempre por ter uma opinião um pouco dúbia em relação ao evento. Por um lado, gosto de sair e de me divertir, por outro, não gosto que me digam quando. Por um lado, sempre quis celebrar com os outros, fazer parte dos "felizes", por outro, celebrar o quê não sei exactamente porque no fundo no fundo é uma festa que não me diz rigorosamente nada. Não me sinto especialmente animada por terminar um ano velho e começar um novo, detesto balanços, não tenho nem quero ter grandes expectativas só porque se altera uma data no calendário e na verdade e obviamente engolir ou não as passas é literalmente igual ao litro, já que nos últimos anos me deixei disso, consciente e propositadamente, e a vida graças a deus, continuou e avançou.
Penso que a maturidade e a maternidade, ainda por cima conjugadas, trazem uma serenidade incrível. Não se está constantemente a fazer planos e a desejar acontecimentos incomuns porque a vida fica bem ocupada e momentos felizes podem ser de outra natureza, bem simples e mais caseiros, porventura. Não há necessidade de tornar o tempo ocupado e recear ficar sozinho porque de facto não se está mais sozinho. Quer dizer, pode estar-se socialmente mas não se está no coração. Daí que esta data não me cause mais nenhuma angústia (de ter de ir ou fazer algo) ou, simultaneamente, gosto especial. Que trabalheira, a de ter de arranjar um sítio para ir porque toda a gente faz o mesmo. Com  os anos, e thank god, trata-se agora quase de uma noite normal. Ficar em casa surge como algo natural e até prazeiroso. Não o será completamente porque somos bombardeados com imagens de festejos e aparente felicidade espalhadas pelos quatro cantos do mundo, e o lado social às vezes ainda lá saltita um pouquito. Mas estamos no bom caminho...
De resto, não sou apreciadora de todo da maior parte das datas assinaláveis no calendário. As ocasiões que gosto de celebrar, realmente, são os aniversários. São exclusivos, únicos, pertencem àquela pessoa e a mais ninguém. Aí admito gostar de festejar e muito. Precisamente porque não sou obrigada a e isso é valioso e para além disso a pessoa é valorizada, sem o pano de fundo das massas em histeria que o calendário acarretaria. Concluindo, ainda digo viva a festa e as festas. Não as mainstream, já disse, mas aquelas que eu escolho celebrar e onde eu possa optar por coisas e gestos bem simples ou mais faustosos.