março 16, 2011

O outro grito

No outro dia assisti a uma  impressionante reportagem sobre a actual situação nos Montes Golan. Pertencendo à Síria, foram primeiro capturados (na Guerra dos Seis Dias, 1967) e, depois, unilateralmente anexados por Israel (em 1981), não tendo sido essa anexação reconhecida pela comunidade internacional.
A reportagem chamava-se "Across the Shouting Valley" e dava conta da algo bizarra e comovente forma de comunicação entre famílias e amigos separados pela história, pela guerra, pela fronteira, pela inimizade, pela tonteria humana. Vemos como as pessoas comunicam acenando lenços, gritando e usando um megafone para poderem falar e matar saudades de quem não podem tocar fisicamente. Estão em dois lados opostos da barricada. Chegarem a um encontro físico, para dois países inimigos, implicaria esforços diplomáticos consideráveis, presenças das autoridades e controlos de documentos.
No filme é ilustrada uma situação dessas quando uma árabe síria casa com um árabe que vive no lado israelita, precisamente nos Montes Golan, já que se apaixonaram aquando, se bem me lembro, de uma visita de trabalho deste à Síria. O casamento, só possível cinco anos depois, foi de um aparato estatal fora do comum. Entrega da noiva num checkpoint. Tropa a acompanhar, muita lágrima e um futuro marcado por uma estranha distância familiar. De facto, a noiva não mais voltaria ao seu país e comunica com os pais por telefone, já que vivem na capital síria. Há mais de 20 anos que assim é. (O pai, que se encontrava em Damasco por altura da invasão, não teve nunca mais autorização para regressar à terra natal nos Golan).  Porque não abrem o checkpoint - pergunta. De que modo isso afecta a segurança? Porque não posso ver a casa onde cresci? Porque não posso ver a minha mãe?
Milhares de sírios fugiram quando centenas de aldeias foram arrasadas com a invasão israelita. Hoje, restam apenas algumas aldeias onde estão muitos sírios, agora no "lado de cá - Israel". São estas pessoas que, por entre lágrimas e corações feridos, comunicam aos gritos, pelo vale que divide as duas nações, com os seus familiares e amigos do "lado de lá". É a única forma de se "verem". Envelhecem separados, nascem e crescem crianças separados, morrem separados. Por fronteiras realmente fisicas, também emocionais, tanto tontas  como cruéis. Arame farpado revestido de loucura e intolerância humanas...
Ver esta reportagem fez-me lembrar dos tempos em que eu era uma pró-palestiniana acérrima. Com o passar do tempo lá me aburguesei também eu um pouco... tornei-me porventura menos radicalizada,  ao ponto de quase esquecer que o conflito israelo-árabe tem, de facto, contornos muito difíceis de esquecer por quem os sofreu na pele. Defendendo a paz e a necessidade absoluta de coexistirem em harmonia, não deixo contudo de ficar chocada com situações de grande injustiça que muitos árabes viveram. Se os judeus muito sofreram e foram despojados de tudo numa europa hitlerizada, também não deixa de ser verdade que muitos palestinianos e outros árabes da região também perderam tudo...terras, famílias, empregos, vidas.
Comovo-me imensamente com os olhos inundados de quem grita e com as vozes que ecoam através do vale.... num programa que vale a pena ver. Para saber. Que não deixemos nunca de saber. É que no ocidente vem tudo muito filtrado...ao sabor dos nossos objectivos. Mas há um outro lado que importa conhecer. Conhecíamos nós esta Síria? O grito do vale? Pobre geografia a nossa, a que se esgota nos pacotes de viagens e nos jornais telealarme...

março 11, 2011

(In)Comunicabilidade



Um dos meus filmes de eleição é "Babel". Conjuga a minha grande paixão pela geografia com o tema da comunicação (ou falta dela). A frase do trailer que promove o filme é ela própria absolutamente fantástica e emblemática: If you want to be understood ... listen. De facto, será inegável que ouvir será uma belíssima característica. Que nem todos partilham, ainda assim. Há pessoas que falam falam, falam o tempo todo e soam mesmo estridentes aos nossos ouvidos. Ouvem-se a elas próprias e nunca a nós. Quem nunca conheceu ou experienciou alguém ou algo assim? Que pena que assim seja, perder-se a noção da presença do outro, das suas necessidades ou alegrias, para não mencionar só ansiedades. Como é possível não ouvir? Bem, não quer dizer que se assimile tudo vindo de toda a gente, mas é imperativo na relação entre amigos, pelo menos. Assim é. Não nos interessam as historietas e lamúrias de muitos, ou as fofoquices e mesquinhices de outros. Mas ouvir quem nos é caro torna-se quase obrigatório. Até para grandes distraídos, como é o meu caso. Comunicar (expressar-se e ouvir, simultaneamente) com o outro é alimentar as relações humanas, é fomentar a intercomunicação pessoal, é construir afectos como a amizade.
No filme, essa necessidade imperiosa de comunicação é expressa pelo não domínio da mesma língua. Sabemos como é importante falar a mesma língua e não apenas do ponto de vista formal. É preciso falar, mesmo, a mesma linguagem, ainda que a língua seja comum. Ilustrando a primeira, no filme temos uma cena verdadeiramente portentosa. A personagem do Gael Garcia Bernal entra em conflito absoluto com os polícias na fronteira México-EUA precisamente por causa do factor língua. Entra em pânico, de certa forma, mas causado também (e não ingenuamente por parte dos objectivos do realizador) pela incapacidade de ouvir... de ambas as partes, ao que me lembro. Que provoca um grande mal-entendido. As coisas precipitam-se e seguem um curso alucinante e também trágico, de alguma maneira. Se passarmos para outra parte do mundo (que belo filme a fazer-nos viajar) encontramos filha e pai japoneses manifestando uma total ausência de comunicação. Isto ilustra perfeitamente a segunda. Dominando ambos a mesma língua física, não falam a mesma linguagem. Há silêncio, há desconhecimento, há distância. E a não-comunicação está lá na mesma. Levando à incompreensão. E a comportamentos de estranha tristeza e deriva da adolescente.
Também nós provavelmente conhecemos indivíduos que não "falam a mesma língua" que nós. Língua em comum mas linguagem em total colisão. E provavelmente também não conseguimos desenvolver com eles relações para além de trabalho ou outras menos significativas ainda. E pode até acontecer que estejam na nossa família, é possível. Não a escolhemos, a alargada, pois não? Mas se se trata de amigos, fruto da nossa escolha, então é imprescindível que nos conheçamos. E esse conhecimento advém de partilharmos uma linguagem em comum. Com amigos estrangeiros´teremos que ter uma outra ponte comum também... a língua formal. Porque sem ela não há comunicação mais aprofundada que resista.
Entre língua e linguagem, parece-me então que é difícil coabitar, melhor, coexistir, numa babel linguística e de ideias e emoções não expressas. Embora e como toda a cena do inusitado acidente em Marrocos sugere (Cate Blanchet é alvejada por um miúdo que experimentava uma arma do alto do monte, enquanto dormitava no autocarro de turistas) haja uma coisa que liga os povos e as pessoas - a solidariedade, a vontade de ajudar, a identificação pelos sentimentos, o impulso pela sobrevivência e em última instância a vitória sobre a tragédia. Estando-se receptivo ultrapassam-se muitas das barreiras linguísticas.
Portanto, e voltando ao princípio, se queres ser entendido ... ouve.

março 05, 2011

Em nome da graça


Inspirada pelo blogue de um amigo, também eu almejei escrever um texto humorístico. Mas a coisa tá difícil cá para este lado. Primeiro é preciso ter graça. Onde está ela? Conheço uma que trabalha comigo, podia ir buscá-la. Mas será isso que me salva? Segundo é preciso procurar um tema, um tópico, uma figura, uma coisa qualquer. Não me lembro de nada. Tento e não consigo mesmo lembrar-me. Jesus Christ. Quer isto dizer que nada tem piada? Para mim? Confesso que, por esta altura, estou a ficar assustada. Leitor ajude-me. O que é que pode ser verdadeiramente cómico para eu fazer o texto? O primeiro-ministro? Portugal? Eu sei que são engraçados mesmo anedóticos mas não me fazem rir muito. Não sei bem porquê mas ...não. Mesmo fechando os olhos e concentrando-me muito... ná, na dá. E lá fora? O Gadaffi tem a sua piada mas não me apetece falar dele. Gosto francamente de o ver atirar papeís na ONU, eu própria fiz isso uma vez quando apresentei um espectáculo de escola, e é uma coisa verdadeiramente libertadora. Olha atirar os papéis todos da escola isso sim teria muita graça. Graça, Maria, Isabel, Esmeralda, Lena... todas ficariam mais leves aposto. Mas o coronel tem uma parte que me chateia, coisa mínima, que é eliminar os opositores. Não sei porquê mas sempre gostei muito de oposições. Sejam elas quais forem. Ser do contra é bem mais divertido do que pertencer ao governo. Uma pessoa fica mais descontraída, pode ser irresponsável e ninguém se manifesta para nós sairmos. Step down, em inglês, que é mais engraçado. (Steps - Passos. Oh pá, esta veio a calhar.) Também podia falar do inglês. Os alunos a aprenderem inglês. Mas como sabem tanto não dá pica. Teriam que ser mesmo fraquinhos. E esses não há. Lamentamos mas não há nos mercados. (Nestes só há nervos e os nossos alunos são do mais relax que há.) Com o decorrer do tempo, fruto de brilhantes políticas educativas e de tecnologia super avançada, a massa estudantil tem-se refinado. Aliás nem sei o que é que os professores fazem na sala de aula. Não estamos a ser, desta forma, francamente úteis. Isto sim, isto pode ser hilariante. Não está o leitor a rir já a bandeiras despregadas? (Não percebo bem esta expressão mas achei que ficava bem aqui. Afinal sempre contém a palavra rir.) Bolas, acho que afinal a graça mora aqui. E eu a pensar que era outra pessoa. Tonta. Sou mesmo distraída. Deixem-me ir ali perguntar aos da casa quem sou. (vou e venho) Pronto, já estou mais descansada. Afinal sou eu. Ooops, por momentos duvidei que era séria e sem piada. Prometo que vou tentar num próximo texto. Era melhor que tivesse sido humorística num primeiro e não num segundo. Afinal primeiro é primeiro e segundo é segundo. Mas sempre pode ser num terceiro. Assim a coisa já muda completamente de figura. Um mau primeiro é mau mas um bom terceiro já é bom. Obrigado leitor por me compreender. E acompanhar. Se você ainda está aí, puxa, você tem mesmo sentido de humor. Você acha piada a tudo. Estou parva. Aliás agora está na moda ser parvo. Livra de não o ser. Hehe.


março 03, 2011

Mortificação




Dizia então eu que a Helena Sacadura Cabral faz observações no seu livro de crónicas com as quais eu me identifico bastante. Uma delas é a de achar que não compreende porque é que a ideia de sacrifício tem de estar associada à existência feminina. Ou seja porque é que a mulher tem de viver sacrificada e sofrida de alguma forma. Trabalho, obrigações domésticas, filhos e família, e todos os papéis que desenvolve ao mesmo tempo com grande esforço e muitas muitas vezes trazendo o esquecimento dela própria como ser individual, pensante e livre.
Será praticamente incontornável a ideia que tal sorte terá vindo através das gerações atingindo as (nossas) mães. Não tendo conseguido estas libertar-se e ter pensamento próprio, o que fizeram foi incutir nas filhas essa ideia de sacrífico, de dedicação extrema e sofrimento pelos outros, derrotadas por sentimentos de culpa surgidos por causa dessa forte moral nelas incutida. Moral ou moralidade. Pesada, incapacitante, castradora. Que têm que estar, de várias formas, ao serviço do homem, numa perspectiva toda ela machista que só arrasta, por exemplo, a já de si pouca colaboração masculina em termos domésticos, na generalidade.
As mulheres que não gostam de se sacrificar e assumem isso são consideradas egoístas, preguiçosas e inadequadas na sua performance sob a idealização feminina das gerações precedentes. E são consideradas assim também pelas suas pares de geração, uma vez que as mulheres sacrificadas e demasiado centradas em aspectos do quotidiano familiar e laboral que teimam em persistir acham as outras umas inúteis sem coração, altivas e não solidárias com o próximo.
Acontece que a nossa participação na sociedade não passa só pelo cumprimento dos deveres e ainda por cima com excesso de zelo. A vida não pode ser só penitência e tormento de moral cristã e de outras confissões. Também existimos ao usufruirmos dos prazeres e das liberdades que nos foram sendo concedidas por muitas lutas travadas. Também existimos como seres pensantes e intelectuais (ou isso tem que ser só para os homens? Era o que faltava.). Também existimos como opinadoras e quebradoras de barreiras. E tudo isto de forma consciente, fruto da nossa escolha, e livre, profundamente livre.
Ainda que com muitas obrigações (quão difícil é ser mulher com milhentos papéis a desempenhar) decididamente não temos que viver amarguradas e presas a esquemas sociais e familiares que nos tolhem as ideias. Não temos que ser escravas de ninguém.  Em casa mas também no trabalho. As mulheres que são escravas do emprego também não estão libertas. Alguns sacrifícios são exigidos mas caberão a todos, homens e mulheres. Nenhum estigma ou lei me diz que devo aceitar o sacrifício como um desígnio divino ou pior como um fado imposto por mulheres que não pensam ou que não se amam o suficiente.

março 01, 2011

Irmandade não muçulmana

Em algumas férias que passei na Tunísia pus-me a ver as telenovelas da Arábia Saudita. Não percebia a língua, claro mas gostava de ver aqueles casarões imensos, as belas roupas das mulheres, assim como os seus penteados  (e constatar que tapadas só mesmo fora de casa). Não creio que tenha sido apenas um pequeno ataque de futilidade que me deu. Via por curiosidade cultural, para tentar entrever algo mais da realidade de um país árabe rico, neste caso, mais do que aquilo que é mostrado no ocidente via telejornais alarmistas e por vezes (muitas vezes) extremamente redutores.
Esta introdução serve o propósito deste texto que é o de dar enfâse à chamada irmandade árabe por via de negar que seja a religião que os une. Expliquemo-nos.
A impressão com que fiquei e fico é a que é , fundamentalmente, a língua que une as nações árabes. Ou seja, há de facto uma grande identificação mas ela é sobretudo linguística, primeiro, e geográfica, depois. Não chamamos nós "país irmão" ao Brasil porque falamos a mesma língua? Não chamamos nós "nuestros hermanos" aos espanhóis porque partilhamos a Península? Entao, que esperar dos árabes, falantes da mesma língua (com algumas variantes) e perto uns dos outros na sua localização geográfica? Trata-se, de facto, de uma grande irmandade. Um pouco à semelhança daquela que existe na América Latina espanhola. Ouvem-se as mesmas canções e artistas de país para país, vêem-se os mesmos filmes e telenovelas de nação para nação, conhecem-se obras de autores e pensadores vizinhos e cuja língua podem entender e desta forma ler e conhecer.
E acrescento. Há países muçulmanos não árabes e a proximidade cultural e desta forma afectiva não é tão forte. Um argelino não se sentirá tão ligado à Turquia. E menos à Albânia. E bastante menos à Bósnia. Depois menos ao Irão. Depois ainda menos ao Paquistão e ao Afeganistão. Ainda menos às ex-repúblicas soviéticas do Uzbequistão e Turcomenistão e as outras. E ainda menos à Indonésia. E ainda menos ao Brunei. E menos menos às Ilhas Maurícias. Percebem o que quero dizer?
A união entre os árabes decorre da compreensão linguística e, consequentemente, cultural que os contempla e que é fruto da história e da geografia. A questão religiosa é, por muito que muitos achem que não, secundária e muito mais fragmentária. Se a região árabe fosse uma babel europeia esse sentimento de família seria muito menor ou nem existiria. É minha forte impressão. Registo-a aqui.

Bocadinho de mim


Tenho andado a reler algumas crónicas escritas por mulheres portuguesas e que tenho em casa, algumas já há bastante tempo. Os estilos são variados, umas mais profundas, outras mais superficiais, outras mais ternas outras mais científicas, umas mais sensíveis outras mais robustas.
Mas, de todas, provavelmente as de que mais gosto são as da Helena Sacadura Cabral. O livro "Bocados de Nós" está escrito de forma intimista, como bem gosto, e perpassa quer sensibilidade quer inteligência. A estas alia-se o gosto pela liberdade. Talvez por isso, e salvaguardando as diferenças no tempo e outras que mais, me identifique bastante com registos  por ela observados. Depois, está escrito de forma simples, autêntica e com uma clara intenção que é naturalmente perceptível. Ou seja lê-se e tira-se, de facto, alguma coisa. Há uma conclusão, uma ideia, uma mensagem. Não se limita a jogar com as palavras, pelo contrário, há mesmo uma ausência de jogos vocabulares ou estruturais, construídos propositadamente, muitas vezes, e sem nexo absolutamente nenhum. Não sou grande apreciadora de textos confusos, obtusos, difusos, sinuosos. Prefiro ideias filtradas pela transparência e pela clareza.
A Helena foca muitos pontos em que me revejo. Desde o seu pouco romantismo, aquele óbvio, comum e nauseante, até à sua pouca compreensão para com mulheres submissas e demasiado fúteis, até ao não ser "passadista" - de facto, estou sempre a olhar para o futuro -, enfim, a autora desfila uma lista de impressões que são um prazer ler e que nos fazem reflectir de forma coerente, lúcida e livre. Gostei também e muito do preambular prefácio escrito pelos seus dois filhos, tão diferentes, como sabemos, na sua visão política mas tão perto no afecto e reconhecimento dos talentos da mãe.
Parece-me ser, então, uma mulher de grande dignidade, livre no pensamento, franca e verdadeira, sem fazer concessões, em temas chave para mim como são os comportamentos humanos e os afectos. Curiosamente também, muito serena e tranquila na forma como expõe e assume as suas inquietações  ou irritações. Humana e humanista. Tudo muito eficaz, porque  natural e simples.

fevereiro 13, 2011

Portugalidades II

             Disse então na mensagem anterior que os portugueses se demitem das suas responsabilidades cívicas. Com isto estava a dizer que são pouco interventivos, preferindo queixar-se do que actuar em conformidade com as exigências das circunstâncias. Estava-se obviamente a falar de política mas pode-se alargar este comportamento ao dia-a-dia laboral, já que, nos momentos em que é preciso tomar uma posição, os portugueses optam, sim, mas pelo silêncio. Passa-se a explicar.
            Terei de me circunscrever ao meu próprio trabalho, pois é o meio que observo. Durante anos e anos o que tem feito a maior parte dos intervenientes nas reuniões? Obviamente, calado. Calado, no sentido em que fazem apenas balanços positivos das actividades, pois claro, como convém, e depois, sugerindo mais actividades em que, lá está, não pode faltar o tão portuguesinho culto da gastronomia. Almoços, lanches, pequenos-almoços, chá e queijos, churrascos, bifanas, e que mais. Atente-se que não estou contra nada disso. De todo. Não escapando à minha condição de portuguesa, também sei apreciar uma bela iguaria, oh se sei. E, obviamente, que a animação e convívio decorrentes são salutares. São. Não são? Claro que sim.
             Mas o que quero dizer é que a nossa participação nas reuniões se baseia em organizar momentos para alimentar o corpo, agora quando é preciso que o espírito dê o corpo ao manifesto (passe o pleonasmo) aí sim a coisa muda de figura. Aí os intervenientes calam-se. Quando têm de reflectir e de dizer o que pensam, fazendo intervenções de cariz mais político, e assumindo uma postura mais individual, quiçá, oh meu deus que silêncio.  Porque os portugueses gostam de estar abrigados no conforto do colectivo. Esticar o pescoço e arriscá-lo sozinho(s), isso é que não. E é uma pena.
             Porque as reuniões de trabalho são dos espaços mais privilegiados que temos para reflexão, conjunta ou não, e temos de saber aproveitá-los para mudar as coisas quando é preciso ou possível ou então somente para dar o nosso parecer. Estes momentos em que as pessoas reunem devem servir para o melhoramento das condições de trabalho e/ou outras e precisa-se da colaboração de muitos para o tornar praticável, esperançosamente. Quem se remete ao silêncio e pensa como nós não está a ajudar a construir a força que é precisa em muitas situações. Medo, indiferença, dissimulação, futilidade, comodismo, falsa cooperação, ignorância? Bem... nada disto é positivo. Quero acreditar que será por uma outra razão, mais abonatória como, por exemplo, pressa. Pressa em acabar a reunião e ir para casa. Até entendo, se for este o caso, as pessoas também se fartam de tanta solicitação. E o cansaço... Isso é notório. Mas uma reunião só é verdadeiramente interessante se houver a tal intervenção. Confronto de ideias e troca de opiniões.
             É que sou um bocado politizada. Entrar sempre  mudo e sair sempre calado não faz história. Claro que "falar" nem sempre é bem visto porque se tende a pessoalizar as tomadas de posição, vendo-as como contrárias e até desafiadoras ao sempre desejado bom e harmonioso trabalho sob uma gestão qualquer, quando não é nada disso que se trata. O que está aqui em discussão é esta permanente não intervenção dos portugueses, este deixar rolar, comer e calar, (talvez) sofrer em silêncio, qual herança salazarista cujo fado parece não ir embora. Que começa no quotidiano de todos nós. Figuras secundárias num filme que também deviam protagonizar. Não agarrar o momento, the spotlight...
           E, se bem que é preciso saber dizer, quando e onde, é uma pena, repita-se, que não sejamos mais exigentes, sob pena de mantermos o status quo que, possivelmente, não nos agrada por tempos indeterminados e de não ousarmos renovar, reinventar, reciclar, redirecionar, rever, restruturar...ou não. Pode ser que estejamos a opôr-nos, também, a uma mudança que não é desejável nem aceitável. Mas sempre a bem, em princípio, de muitos. Ou então podemos estar sós. Mas ao menos dissemos o que sentíamos e pensávamos. Interviemos, porventura fizemos pensar, e sem intenções obscuras, como atacar ou desestabilizar. Temos dito.

fevereiro 10, 2011

Portugalidades


Uma colega há uns anos afirmava, de forma simpática, que, nos meus textos, não dizia nada de novo. Concordei com ela, embora isso não me impeça de dar a  minha perspectiva e quiçá o toque pessoal. Desta forma, aqui vai mais um texto desse género. Novidade não será mas sempre sou eu a dizer.
Já ando há algum tempo para comentar a forte abstenção verificada nas eleições presidenciais de Janeiro (e também noutras eleições anteriores). Forte e lamentável, diria. Viver em democracia significa, entre várias outras coisas, poder votar. Por esta e outras liberdades houve muitos batalhadores, muitas lutas e muitas conquistas. Dirão os abstencionistas que não votar é também um direito que lhes assiste. Que é uma escolha pessoal, fruto do livre arbítrio que preside ao cidadão de nações democráticas. Até certo ponto, posso mesmo ter de anuir. Contudo, e apesar desse direito existir, não tenho propriamente de concordar com ele.

Os alunos podem faltar à aulas, o funcionário pode faltar ao trabalho, está nos seus direitos. Pois claro que está. (E, note-se, não estamos a falar de doença.) Mas, de forma massiva e continuada, torna impraticável a aprendizagem, a produção. Não se ajuda a construir o que quer que seja. Ora afigura-se-me que não votar, crónica e maçiçamente produz exactamente o mesmo resultado, ou seja ajuda a desconstruir, a não decidir, a não intervir,em última instância, a não actuar.

Esta demissão dos cidadãos de se responsabilizarem também pela escolha dos dirigentes não pode ser positiva. Até porque depois não lhes dá o direito de continuarem a dizer que nada muda, que tudo está péssimo, que todos são iguais. Resisto a esta visão eminentemente negativa da política. A mudança é sempre possível. Sempre o foi e sempre o será. É preciso primeiro acreditar e depois intervir. Por entre convulsões ou mais ou menos pacificamente, houve regimes que caíram, líderes que foram afastados, políticas que se alteraram, mudanças sociais que tiveram lugar, economias que mudaram. Tem sido assim o curso da história da humanidade.

Cair em pessimismos nihilistas e posições meramente anárquicas parece-me descabido e contra-producente. E também não quero acreditar que todos são iguais. Ficaram na história nomes, figuras que em muito contribuiram para o progresso das suas nações e para a melhoria das condições de vida e dos direitos humanos. Não se pode generalizar a corrupção, a mentira, a fraude, o autoritarismo. É preciso sim erradicá-los. E para isso nada como opinarmos nós em matérias como governação. Que o protesto não se transforme em indiferença. Está nas nossa mãos, pois, escrevermos os compêndios de história.

fevereiro 05, 2011

Cavaleiros das trevas

De cada vez que há um acontecimento que o justifique, lá navego pela internet  para ver os comentários postados às notícias. Que experiência aterradora, diga-se. Para além de não saberem escrever português, nem saberem pontuar, o teor medíocre que os comentaristas colocam nas suas opiniões põe-me doente. Ena tanta ignorância, tanto preconceito, tanto ódio. Donde vêm estes maus fígados, estas frustrações, este mal-estar com tudo e com todos? Emotividade violenta, virulenta, acompanhada das mais puras das irracionalidades. Como explicá-las? E, sobretudo, como digeri-las?

Ter sentido crítico, ter e expressar opinião são direitos fundamentais. Emitir opiniões diferentes, idem aspas. Mas há que discernir o bem e o mal, também naquilo que pensamos e que apregoamos. Sob pena de queremos validar coisas inaceitáveis e contrárias aos direitos, também fundamentais, dos outros. Há pontos que são claramente condenáveis. A discriminação, o racismo, a xenofobia, a violência, o ódio e outros que tais não são bem vindos nas sociedades ditas de direito, nos tempos modernos da civilização, num mundo, apesar de tudo, mais desperto para a opressão e sofrimento do outro. Liberdade, sim, sempre, mas com valores. Éticos e construtivos.

Ler comentários medíocres cujos autores se escondem sem rosto muitas vezes por detrás de alcunhas virtuais é penoso, triste e revoltante. Ver como instintos básicos ainda populam indivíduos no século XXI e como são veiculados online, na segurança do anonimato. Nessa altura, uma forte intolerância parece tomar conta, também, de mim. Ir por aí fora com uma varinha mágica e extinguir esses pensamentos, essas crueldades, esses cavaleiros destrutivos mergulhados nas trevas. Mas sendo contra as formas de violência mais primárias e gratuitas, resigno-me a irritar-me em silêncio, primeiro, e a denunciar, depois, comportamentos que estão para lá da minha sensível compreensão. E vou sempre esperando, pois claro. Esperando que se faça luz.

Uma amiga aqui há tempos dizia para eu, pura e simplesmente, não ler. Compreendo o que quis dizer e tem razão. Mas, lá está, esperançosa como sou volto à carga, esperando que apareçam almas iluminadas que saibam construir, de forma racional, aberta, informada, humanista, equilibrada e responsável, ainda que crítica.

fevereiro 03, 2011

Feminilidades

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Um dos filmes de que gostei muito foi "A Idade da Inocência". Não só porque habitualmente aprecio filmes de época, como também gosto de um romance impossível (só) na tela como ainda pelas personagens que, de alguma forma, me transmitem alguma coisa de inesquecível. A personagem da Madame Olenska poderá ser uma delas. E dei por mim a pensar que a escritora, de cujo livro se adaptou a história no cinema, Edith Warthon, é aquariana. E assim sendo teria invariavelmente de tocar o tema da liberdade e do inconvencionalismo, precisamente através da personagem da Michelle Pfeiffer, que de resto a interpretou com sublime sensibilidade. E passado alguns momentos, recordei outra heroína cuja escritora também é aquariana, Kate Chopin, e cujo livro "O Despertar" remete para a (re)conquista dessa independência e para os comportamentos livres  e sem amarras ao estipulado socialmente.

Foram dois livros que li há bastantes anos, portanto. As suas personagens femininas, protagonistas, têm de facto muito em comum. Recusam-se a levar os seus casamentos por diante e adoptam uma nova vida quando já não há laços verdadeiramente afectivos a segurá-los. Colidem, de alguma maneira, com a sociedade em que se movem. Mas, e curiosamente, são também enormes heroínas românticas. Por amor, por esse amor verdadeiro a que aspiram, acabam por fazer o contrário da heroína independente, forte, despojada, vanguardista, sem preconceito e profundamente inconvencional. Em The Awakening, Edna, depois de viver para ela e não mais só para a família, suicida-se quando é rejeitada através de um bilhete. Em The Age of Innocence, Ellen renuncia ao seu amor, volta para o marido que não ama e que a trai para, altruisticamente, não estragar a felicidade de sua prima. Portanto a sua independência e liberdade esbarram no verdadeiro amor, impedindo-as este de prosseguirem com o corte de um passado que não as fez/faz minimamente felizes. Uma contradição que aponta então para personagens ultra femininas e não feministas, de uma certa forma. Escolher o sofrimento, e ainda por cima por causa de um homem, não é coisa que movimentos de emancipação feminina possam apreciar.


Passa então, nestas duas histórias, um toque de romantismo inegável ou de como o verdadeiro amor não deixa, também, de trazer sofrimento e dor. De como pessoas, ou melhor, mulheres racionalmente independentes podem ficar somehow afectivamente dependentes. Liberdade e amor, duas vertentes que aparentemente não combinam... Com a acção a decorrer no século XIX, ambos de autoras norte-americanas, trata-se de livros belíssimos, onde perspassa uma grande sensibilidade e onde o leitor gostaria, certamente, de escrever um final bem diferente. De ter um destino mais feliz para as duas protagonistas/personagens principais. Por isso tudo e porque tratam, sem margem para dúvida, de dimensões também da vida actual, sim, sim, eis a sugestão.
A (re)ler e a não esquecer, possivelmente.

janeiro 22, 2011

Hasta siempre...


A propósito de revolução...independentemente do rumo que algumas delas tomam e das nossas posições face a elas, é inegável a beleza da música cubana e a riqueza da cultura do povo cubano. Do filme- documentário, que adorei, Buena Vista Social Club.


Revolução...Ao som de uma música de excepção, este video combina, para mim, duas coisas que têm sido constantes da minha vida :o gosto pela liberdade e o gosto pela geografia. Assim como se as viagens não fossem senão vôos físicos, sensoriais, claramente, e também comportamentais, mentais, ou seja de como os dois se podem incrivelmente mesclar e completar a existência.
Porque a liberdade é também um conceito muito individual, que nós exercemos ou não, todos os dias, no nosso quotidiano. Não depende somente da organização e/ou conjectura política, social, laboral e afins. Depende da nossa vontade. Fazer escolhas, optar, opinar, dizer não, estão muitas vezes ao alcance de todos e nem por isso todos o fazem. Ou seja pode uma pessoa ser prisioneira de si própria, e dos outros que lhe são queridos, porque revoltar-se será precisamente mais dificil se não houver coragem para romper com os nossos próprios esquemas de vida. Daí que ser livre seja algo que não é fácil porque nos pode deixar sozinhos ou isolados e dar azo a conflitos, naturalmente. Portanto quão mais fácil e cómodo não nos aventurarmos em sair do rebanho e gritar a plenos plumões que não queremos.
Quanto à geografia, ela é um salto no mundo mais diverso, que nos enriquece e espanta. Ela é feita de raças e cores, terras e flores, diferenças e parecenças. O universo visto do ponto de vista das pessoas e das culturas, das práticas e das regiões. Será esta a dimensão da geografia que mais nos estimula e /ou instiga, dependendo da nossa capacidade de absorver o desconhecido e torná-lo conhecido.
Viajar por Cuba, que ainda não visitei, neste vídeo dá-me a sensação de viajar livremente para um mundo à minha escolha. Por isso fico feliz, apanhando o avião da minha alma e percorrendo uma terra que ainda é emblemática em sonhos de revolução. Ecos de hasta siempre....

janeiro 17, 2011

Aroma de jasmim


1. Geralmente, não costumo comentar a actualidade, por uma ou outra razão. Mas desta vez impõe-se que escreva sobre a Tunísia, por variadíssimas razões. Em primeiro lugar, o cheirinho a revolução, justa e sedenta de liberdade, sempre teve, para mim, um significado sem fim. Em segundo, coisas como a coragem, que o povo tunisino revelou ter de forma sem paralelo no mundo árabe, sempre foram alvo da minha admiração. Em terceiro, porque envolve pessoas que fazem parte da minha vida e do meu círculo e, desta forma, não posso deixar de estar solidária.
2. Visitei a Tunísia várias vezes. O meu olhar não será propriamente o do turista comum, já que lá passei mais tempo, convivi directamente com o povo e observei muita coisa. Entristece-me constatar que muitos turistas apenas retiram as coisas menos boas que porventura possam ter vivido nas suas férias, como experiências menos felizes num hotel, ou com a comida ou ainda com ou outro nativo, ou por usarem lenço ou por deitarem algum olhar mais atrevido. Esquecem-se de ver as coisas como um todo e não analisam as potencialidades e as coisas boas deste país. Esquecem-se ou não são, pura e simplesmente, capazes de o fazer. Por defeito, falta de visão, egoísmo e snobismo culturais. Triste, sem dúvida.
3. A minha dentista, uma das poucas mulheres admiráveis que conheço pessoalmente, e que visitou o país por pouco tempo, foi rápida na sua análise inteligente. Diz ela, e eu subscrevo totalmente, que a Tunísia tem um povo espertíssimo, interessante e com muito potencial para desenvolver o país. De facto, o que sempre me saltou à vista foi o facto dos jovens tunisinos estarem tão bem informados acerca das coisas e mesmo do mundo, abertos e receptivos à troca de ideias e de experiências, falando facilmente várias línguas e mostrando uma capacidade de comunicação invulgar. Pude constatar isto no seio familiar mas também no comércio, no turismo, no lazer, na rua. Muitas conversas se apresentaram como estimulantes, vivas, e plurilinguísticas.
4. Claro que se falava de Ben Ali. Discretamente, ou seja, em círculos pequenos e próximos. Uma vez no aeroporto, o taxista, conhecido da família, disse-me para eu não falar do presidente ali, quando eu me preparava para dizer algo menos abonatório sobre tal figura. Claramente havia noção de que falar em público não era permitido, possível. Estavam fartos do presidente. Fartos. Fotografias penduradas por todo o lado, eram alvo de anedotas, por exemplo, porque os tunisinos conseguiam incrivelmente manter o humor no meio da repressão e da falta de condições de vida. A mulher do presidente era também alvo de inúmeras piadas, para além do próprio. O povo tunisino parecia resignar-se assim, rindo um pouco, pois eram (e são) calmos e pacificos. Digamos que Ben Ali se aguentou mais tempo no poder por ter optado por uma via anti-terrorista, anti-islâmica. O ocidente apoiou-o claramente por causa disso. E nós, turistas, estrangeiros, sentíamo-nos seguríssimos. Sempre me desloquei na mais absoluta tranquillidade e segurança. De qualquer forma o zelo anti-islamitas foi tão exagerado que ultimamante as mulheres tinham voltado a usar o lenço, por vontade própria, para desafiar o presidente e a sua repressão religiosa e das liberdades individuais.
5. Tem de haver algum esclarecimento sobre o papel das mulheres na Tunísia, porque me parece que alguns turistas confundem as coisas. Nas zonas turísticas viam-se mulheres de lenço e algumas de véu, mas eram sobretudo as turistas vindas do Golfo Pérsico. No geral, as tunisinas de lenço eram sobretudo mulheres idosas e/ou de zonas mais pequenas. Isto até, como disse, as mulheres optarem pelo lenço para mostrar o seu descontentamento e ultimamente, sim, viam-se muitas jovens usarem-no. Mas de livre vontade. A mulher tunisina goza dos mesmos direitos do homem, praticamente. Estudam, trabalham, têm profissões tradicionalmente mais masculinas, enfim, têm feito uma evolução algo serena a esse nível. Não nos podemos esquecer que em Portugal também essa igualdade só começou a ser consagrada a partir do 25 de Abril. Há pouco tempo, portanto. É preciso dar tempo aos países árabes e outros, a sua história ainda está a construir-se. Esta importância da mulher na sociedade tunisina era, de resto, apregoada pela primeira-dama. Esse mérito terá ela tido, assim como o primeiro presidente, o revolucionário Bourguiba, e o seu próprio marido.
6. De facto, somos muito céleres a criticar tudo o que é árabe, pois facilmente confundimos (a sua) cultura com (a sua) religião. A Tunísia trata-se de um estado laico e monogâmico. São muçulmanos, claro, mas porque não haveriam de o ser? A geografia e a história explicam-no. E isso serve para todas as religiões. Ter direito às liberdades individuais, incluindo as de culto, é obviamente apanágio das sociedades de direito. Fanatismo e terrorismo são outra história e não cabem aqui neste texto. Podemos não apreciar algumas tradições que ainda persistem, eu aliás não gosto de tradições em lado nenhum e ponto final. Mas estão enraizadas culturalmente nos países e há que respeitar, pelo menos, e esperar que evoluam. A Tunísia foi o primeiro país árabe a abolir a escravatura. O primeiro a instituir uma constituição. O primeiro a abolir a poligamia. O primeiro a legalizar o aborto. Marcos importantes, sem dúvida, altamente significativos. Estão virados para o progresso e defraudar esse processo é que também ditou a queda do ditador. Sem condições económicas e muita pobreza, não há desejo de progresso que aguente.
7. Porque a Tunísia é pobre. As pessoas vivem com muitas dificuldades, muitos edificios estão muito degradados, as ruas carecem de alcatrão e de limpeza, as pessoas têm um ar sofrido e de quem não está habituado a mordomias. Claro que há riqueza, mas concentrada em poucos. E claro que há absoluta limpeza mas nas zonas turísticas. E há glamour e beleza, também mais nas zonas destinadas so turismo. A zona de Hammamet Sul (Yasmine Hammamet), por exemplo, é de sonho, um paraíso de palmeiras, tranquilidade e mar azul. Lojas de um exotismo inebriante, avenidas sumptuosas, bares e esplanadas maravilhosos, hotéis de completo luxo, enfim local das mil uma noites a deliciarem os nossos sentidos. Mas essa Tunísia que obviamente se adora tem de se estender mais democraticamente ao resto das cidades e das populações.
8. Pela razão que o povo merece-o. São, na sua generalidade, das pessoas mais tranquilas e educadas que conheci. Sempre com um respeito imenso, somos tratados como raínhas e reis, pois a alma tunisina é gentil e galanteadora, cavalheiresca e aberta. Lembro-me de cada vez que me venho embora de ficar emocionada, verdadeiramente, pois as pessoas conquistam-nos com a sua afabilidade e trato. Por eles, estou muito contente com a revolução de jasmim. Muito mesmo. Que conquistem a liberdade por que há muito anseiam, que desenvolvam o país rumo ao progresso (embora este também seja discutível), que sejam donos de si próprios, que façam florescer a sua nação. Que o cheiro da sua flor mais emblemática inebrie esta e as gerações futuras.

janeiro 07, 2011

Tratado da felicidade profissional



Aqui há tempos pude assistir a um interessante programa de televisão de carácter sociológico, tipo de programa que está, de resto, entre os meus preferidos no que diz respeito à informação.
Debruçava-se a análise feita no programa em questão sobre a falta de poder de decisão ou de opinião no mundo do trabalho de hoje por parte dos trabalhadores e funcionários, ou seja, de como a falta de participação afectiva ou psicológica por parte de quem executa tem tornado drasticamente as pessoas cada vez mais infelizes.
Assim é, de facto. Nas sociedades ocidentais e/ou desenvolvidas, com o acesso a bens materiais como nunca houve antes, partir-se-ia do princípio que as pessoas satisfariam os seus desejos e sonhos bem mais facilmente. Acontece que aumentam, de forma brutal e sintomática, o aumento dos comprimidos anti-depressão, num crescendo de anti-felicidade, anti-serenidade e anti-bem-estar preocupantes e galopantes. Na verdade, o que os sociólogos e psicólogos concluiram é que as frustrações do trabalho, aliadas às exigências com pouquíssimas compensações, muito têm contribuido para estes desiquilíbrios.
Dizem os entendidos que as pessoas, na sua esmagadora maior parte, estão infelizes com o modo como trabalham. Independentemente da profissão, há, de facto, e no geral, um cumprir rotineiro e estéril, sem que os que trabalham tenham hipóteses de emitir sugestões ou ideias que lhes digam directamente respeito. Ou seja, escolhem pouco, muito pouco. As coisas são-lhes apresentadas, sem que eles possam opinar, dizer o que sentem, criar, ousar, recusar, argumentar, em ultima instância, ser livres e, dessa forma, mais felizes. Diziam nesse programa os peritos que às vezes bastava opinar ou ter a hipótese de escolher uma coisa bem simples, pequena, mas que fizesse o trabalhador sentir que o que ele pensa é importante para a empresa, ou que está a ser dono de si próprio ou/e que pudesse torná-lo mais estimulado e dessa forma mais produtivo.
Penso não haver dúvidas quando se diz que pessoas motivadas produzem mais e mais eficazmente. E também absolutamente concordo em dizer-se que é um erro não se fomentar a felicidade no trabalho. Como  não? Porque dizem alguns que não estamos "aqui" para ser felizes? Por acaso as pessoas são robots? Não sentem? Que ideia disparatada... A realização profissional é fundamental para o equilíbrio do indivíduo, independentemente do lugar e da prioridade que ocupa na vida de cada um. E ela passará por um sentimento de satisfação em produzir, que invariavelmente brotará da possibilidade de opinar sobre aspectos da organização laboral, sobretudo aqueles que nos dizem directamente respeito.
 Desta forma, estão de parabéns aqueles que, nas chefias, tentam valorizar o lado humano de cada um, tentando ir ao encontro das necessidades e desejos dos seus trabalhadores, funcionários e afins. Em mega empresas, não será fácil mas não devem desistir. Saber que motivam as pessoas acarreta saber que irão colher melhores resultados, certamente.
Quanto a nós, os executantes, e para lá do mundo do trabalho, quanto mais felizes estivermos mais sã construiremos a sociedade e mais contagiantemente sadia se tornará a nossa passagem por aqui.

dezembro 28, 2010

Celebrações


Aqui há uns anos li uma hilariante crónica da Júlia Pinheiro sobre a passagem de ano. Arrancou-me várias e sonoras gargalhadas, pois de forma engraçada e sagaz foi capaz de captar o ridículo que às vezes tal festa pode conter. Sobretudo aquela parte em que ela diz que àquela hora já mais de metade se arrependeram de ter saído de casa.
A minha posição face ao reveillon não é, lamento eu, nem tão brilhante nem tão bem-humorada, pois acabei sempre por ter uma opinião um pouco dúbia em relação ao evento. Por um lado, gosto de sair e de me divertir, por outro, não gosto que me digam quando. Por um lado, sempre quis celebrar com os outros, fazer parte dos "felizes", por outro, celebrar o quê não sei exactamente porque no fundo no fundo é uma festa que não me diz rigorosamente nada. Não me sinto especialmente animada por terminar um ano velho e começar um novo, detesto balanços, não tenho nem quero ter grandes expectativas só porque se altera uma data no calendário e na verdade e obviamente engolir ou não as passas é literalmente igual ao litro, já que nos últimos anos me deixei disso, consciente e propositadamente, e a vida graças a deus, continuou e avançou.
Penso que a maturidade e a maternidade, ainda por cima conjugadas, trazem uma serenidade incrível. Não se está constantemente a fazer planos e a desejar acontecimentos incomuns porque a vida fica bem ocupada e momentos felizes podem ser de outra natureza, bem simples e mais caseiros, porventura. Não há necessidade de tornar o tempo ocupado e recear ficar sozinho porque de facto não se está mais sozinho. Quer dizer, pode estar-se socialmente mas não se está no coração. Daí que esta data não me cause mais nenhuma angústia (de ter de ir ou fazer algo) ou, simultaneamente, gosto especial. Que trabalheira, a de ter de arranjar um sítio para ir porque toda a gente faz o mesmo. Com  os anos, e thank god, trata-se agora quase de uma noite normal. Ficar em casa surge como algo natural e até prazeiroso. Não o será completamente porque somos bombardeados com imagens de festejos e aparente felicidade espalhadas pelos quatro cantos do mundo, e o lado social às vezes ainda lá saltita um pouquito. Mas estamos no bom caminho...
De resto, não sou apreciadora de todo da maior parte das datas assinaláveis no calendário. As ocasiões que gosto de celebrar, realmente, são os aniversários. São exclusivos, únicos, pertencem àquela pessoa e a mais ninguém. Aí admito gostar de festejar e muito. Precisamente porque não sou obrigada a e isso é valioso e para além disso a pessoa é valorizada, sem o pano de fundo das massas em histeria que o calendário acarretaria. Concluindo, ainda digo viva a festa e as festas. Não as mainstream, já disse, mas aquelas que eu escolho celebrar e onde eu possa optar por coisas e gestos bem simples ou mais faustosos.

dezembro 03, 2010

Palavras que faltam ou de como a generosidade se faz com verbos

       

A propósito do voluntarismo e da abnegação bondosa de pessoas como os médicos sem fronteiras, apetece-me hoje falar da generosidade vista sob um outro prisma. De facto, parece-me que ela não se esgota em estender a mão a quem precisa, ou seja, ela consiste em mais do que apenas dar "fisicamente", de acordo com as necessidades de ordem prática que se observam por esse mundo.
         Há, para mim, algo precioso a que chamaria a "generosidade das palavras" e que considero como das coisas mais fundamentais para tornar as pessoas psicologicamente felizes. Infelizmente, constato que grande parte das pessoas, por vezes até muito solidárias nas causas, não cultiva esta belíssima característica. Como se, ao fazê-lo, pudessem perder alguma importância ou poder em relação ao outro. Porque muitas das relações que estabelecemos com os outros assenta numa estranha dinâmica de poder, em que se pretende dominar e, assim sendo, não reconhecer o valor de outrém. Francesco Alberoni, cujos livros devoro, fala exactamente disso no seu livro "O Optimismo". Diz este sociólogo italiano que há pessoas que dominam outras anos e anos, sendo mesmo infinitamente medíocres e inseguras, pelo não uso do elogio, do reconhecimento, da valorização. Mantêm as suas "vítimas" presas, à espera de uma apreciação positiva, de uma palavra elogiosa, de um afecto verbal. Fazem o outro, superior na inteligência e na alma, sentir-se diminuído, frágil e sem qualidades.
        Ora isto é de uma crueldade e de uma frieza atrozes. E podem ser pessoas até simpáticas e faladoras a fazê-lo, ainda que as silenciosas e frustradas o possam fazer também. Penso poder dizer que há pessoas assim em todo o lado. Que teimam em não ser generosas verbalmente. Será que é por não serem capazes de o ser? E se tentassem, que tal? São muito tímidas? Que tal ir soltando essa timidez e abrir mais o coração? Não ficariam porventura mais reconfortadas com o obrigado vindo do outro lado? Dizer - tens talento, fizeste um trabalho excelente, isto está óptimo, gostei imenso, tu és fantástico, parabéns, e outras palavras motivadoras e estimulantes - é assim tão difícil? Ou é mesmo consciente e fruto de algum sadismo? Serão ecos de inveja mal disfarçada? Lamentável que assim seja. Sobretudo se se passar ao nível de familiares ou amigos...
        Parece-me que todos temos de fazer um esforço no sentido de fomentarmos cada vez mais a dávida das palavras...O nosso espírito português, não é segredo nem novidade, é algo mesquinho, não gosta muito que os outros brilhem, receamos perder importância ou protagonismo, isto é estupidamente ridículo e profundamente triste. Deveríamos saber que positivismo em relação ao trabalho, criatividade, habilidades e qualidades dos outros é algo contagiante, que palavras calorosas, inspiradoras e afáveis trazem felicidade e realização, e que receberão gratidão e amizade em troca. Há decididamente muito espaço para muitas, mesmo infinitas, estrelas cintilarem, não temamos ficar na sombra por reconhecermos o valor de alguém.
        Eugénio de Andrade diz, num dos seus belos poemas, que as palavras podem ser como um punhal... Mas diz também que algumas delas são como um cristal.  Ferir ou criar brilho, eis a questão. É nossa a escolha e está ao alcance de todos nós. Basta querer ser, verbal e afectivamente, generoso.

novembro 28, 2010

Fronteiras de dor

                         
         Sou uma grande felizarda e muito feliz. Tenho tudo e não me falta nada. Peço desculpa por ser exigente, ser caprichosa, querer mais e queixar-me. A  minha vida é óptima e mais não se deve desejar. Mas qual a razão de tais conclusões, indaga-se o leitor. Certo, há de facto uma explicação. É que ontem revi Beyond Borders (Amor sem Fronteiras). E se juntar O Fiel Jardineiro e Diamante de Sangue, fica completa a trilogia de verdadeiros sangue, suor e lágrimas que tais filmes comportam. Vê-los significa simplesmente repensar todo o nosso comportamento...
         Temos sorte. Muita mesmo. Viver na Europa, EUA, Japão e afins é uma golpada de sorte decretada à nascença. Tirando a doença, que não distingue continentes, cores, nacionalidades e pessoas, os nossos problemas parecem ridículos perante a angústia e sofrimento de outros que vivem em zonas devastadas pela fome, pela guerra, pelo ódio. Na verdade, nós não sabemos nada acerca do sofrimento. Nada mesmo. Não sabemos o que é lutar para literalmente viver, ou melhor, sobreviver. Resistir, e muitas vezes sucumbir, perante grandes adversidades. Que consistem na falta de condições básicas para subsistir. Coisas perfeitamente triviais para a maioria de nós, tomadas como garantidas desde sempre.
          Visionar estes filmes dá-nos um soco no estômago, e faz-nos sentir alguma vergonha de nós próprios... O facto de sermos tão sortudos, o facto de não ajudarmos, provavelmente como deveríamos, o facto de não estarmos lá e de estarmos numa zona de conforto e segurança, o facto de criarmos problemas a partir do nada... Pelo menos durante duas horas, penso poder dizer que é impossível não reflectir na injustiça de tudo isso, na profunda desigualdade em que os seres humanos vivem, na tristeza e na angústia de vidas fora do próprio controlo, na imensa crueldade de certas existências.
          O tema dos refugiados, deslocados e outros que tais sempre me emocionou profundamente.  Não tendo eu própria jeito nenhum para o voluntariado, e chocando-me facilmente com a miséria, admiro de forma invulgar o trabalho das organizações não-governamentais e outras, que trabalham no terreno, para aliviar o sofrimento das pessoas em necessidade. Deixar o conforto para trás, ir ao incerto e trabalhar de forma abnegada e solidária, por pura bondade e capacidade de sacrifício, trata-se de algo admirável. A personagem de Nick é fantástica, emociona-nos, comove-nos e, diria, move-nos. Mas não são só os médicos que merecem louvores. Desde pessoal voluntário até trabalhadores dessas organizações, até aos jornalistas e repórteres que cobrem as notícias de regiões perigosas, pondo em risco a sua própria vida, todos eles merecem a nossa admiração. Pela ajuda, pela coragem, pelo abdicar de uma vida fácil e confortável. Penso que também são heróis, para além dos nativos que vivem em grande sofrimento físico e psicológico.
           Já há algum tempo que queria dizer tudo isto "publicamente". E, pelos comentários que vi na internet acerca do filme de ontem, não sou a única a manifestar desconforto perante as pequenas irritações do meu quotidiano. Elas não são nada, comparadas com boa parte dos problemas do real mundo. Claro que também não nos vamos torturar infinitamente por causa disso mas se tivermos consciência do que verdadeiramente importa, então seremos todos bem (mais) felizes...do lado de cá. Do lado de lá...bem, não será de felicidade que se trata. Apenas, e para já, tão somente, vida....

novembro 13, 2010

Uma espécie de morte saiu à rua

                                                                   
Aqui há tempos um grupo de estudantes chineses que estudam português deslocaram-se ao nosso país. Diziam ter ficado chocados com o facto de, cá, não haver pessoas nas ruas. Na China estão habituados a ver muitas e muitas, claro. Mas o que é certo é que não se trata apenas de uma situação de carácter demográfico. A verdade é que as pessoas em Portugal desapareceram das ruas. Não posso falar por todas as cidades mas por aquelas em que me movo. A culpa é dos centros comerciais, obviamente. O facto de ser prático ter as lojas todas à mão e de se estar abrigado do frio e da chuva explica as romarias diárias e ainda mais de fim de semana para tais mecas do consumismo. Acrescentando-se o facto do pequeno comércio ter sido arruinado pelas grandes superfícies, desaparecendo lojas e lojas das ruas e avenidas, está ainda melhor explicado o fenómeno.
Se no Verão as pessoas andam invariavelmente na ruas para apanhar sol e ar fresco, já no Outono e Inverno se altera o panorama. As ruas estão desertas, tristes, sem vida. Na altura do Natal nem a iluminação traz as pessoas para a rua, enchendo-se os centros comerciais, pelo contrário. Lembro-me de Aveiro na altura em que ainda não havia Fórum nem Feira Nova nem nada do género. Lembro-me de fazer compras natalícias debaixo de frio e às vezes de chuva pela avenida acima. Lembro-me dessa azáfama própria da quadra, das pequenas lojas estarem cheias e de ver tanta gente na rua. E de uma espécie de felicidade que se sentia, o movimento, a luz...

Sinto verdadeiramente saudades desses tempos. As ruas sem ninguém, à noite ( e agora anoitece muito cedo) chegam a ser algo assustadoras, escuras e sem alma. As pessoas pouco ou nada (con)vivem nas ruas, as janelas encerram-se e certos sítios são um autêntico deserto. A essa hora, as grandes superfícies apinham-se de gente. Os centros comerciais transbordam de pessoas, ávidas de compras e de comida rápida. Até os cinemas como os conhecíamos deixaram de existir. Também passaram para os centros comerciais. As salas estão espalhadas por um corredor escuro e as pessoas refugiam-se em várias ao mesmo tempo e pouco ou nada se encontram no intervalo. Os cinemas ao estilo de Cinema Paraíso deixaram de nos fazer sonhar. Aliás, já agora, também esse filme é emblemático do "progresso" de uma cidade. De como a alma desaparece e surge uma cidade impessoal e sem margem para sonhos. Na rua estão carros e carros e o velho cinema foi demolido. Fica a nostalgia de um tempo que não voltará.
Sem ser saudosista, também às vezes sinto alguma nostalgia do que era ou foi... Agora que o Inverno está à porta e o Natal também, bem que gostaria de ver vida nas ruas da cidade. Talvez porque a cidade sempre nos lembre um local de encontros e de movimento, era bom termos mais e muitas pessoas que a vivessem fora de portas...

novembro 06, 2010

Um eléctrico chamado desejo

                                                                                                             
A peça Um Eléctrico Chamado Desejo esteve em cartaz em Lisboa. Li-a quando frequentei a universidade, numa altura em que praticamente devorei as obras de Tennessee Williams. A actriz Alexandra Lencastre e o actor Albano Jerónimo dão corpo e voz às duas principais personagens, Blanche DuBois e Stanley Kowalski. Inesquecíveis figuras do texto dramático, também a sua representação no cinema, a preto e branco filmado, foi fulgurante, com os actores Vivien Leigh e um jovem Marlon Brando a lançarem-nas definitivamente para a posteridade.
Devo dizer que o facto de ter visto o filme terá contribuído para a minha paixão por tal história. E a personagem de Stanley Kowalski tornou-se bem mais "atraente" devido à interpretação magnética de Marlon Brando. Gostando tanto do actor, ficou difícil vê-lo como detestável...

Bem que gostaria de rever esta peça, agora em palco, do lado de cá, obviamente. Rever o confronto entre uma senhora educada, refinada,  mas também desiludida, fantasista e decadente, e o seu jovem cunhado, rude, sem refinamento, sensual e quase animalesco. E rever como esse confronto comporta uma carga sexual altamente considerável, de como os opostos se atraem, culminando essa relação na violação...mostrando Stanley o seu carácter intempestivo, bruto, para dizer o mínimo, ao expoente máximo. E relembrar a figura de Stella, a irmã mais nova de Blanche, casada com Stanley, que muito dócil, perdoa os comportamentos do marido devido à química sexual que existe entre eles e mantendo-a , dessa forma, presa a um marido algo violento.

O facto de Blanche ser sulista ( a história passa-se em Nova Orleães) e o seu cunhado ser originário da Polónia também parece põr em evidência a confrontação entre dois mundos, um estilo de vida prestes a desaparecer e outro a emergir, com a alteração e conflitos próprios dos fenómenos de imigração nos Estados Unidos. Uma era algo colonial que termina e outra mais urbana, trabalhista, que começa. Sonhos, práticas e perspectivas de vida em tudo diferentes.

Penso também que, sendo Williams homossexual, terá pintado, neste confronto emblemático e simbólico,  o homem com cores algo negativas e ter-se-á identificado com a mulher. Apesar dos seus ares e verdades serem também falsas, a sensibilidade de Blanche está lá, e não há como a não apreciarmos.  Quanto a Stanley, é básico e até sem moral, mas poder-se-á (de verdade?) dizer, também, autêntico. Nada como ver ou rever a peça para tirar as nossas próprias conclusões. Em palco ou na tela Blanche perde irremediavelmente, mas dentro do nosso coração?

                                      

outubro 22, 2010

QualIDADE


A obsessão com a imagem e com a eterna juventude tem feito muitas vítimas, eu diria precoces, nos media no nosso país, nomeadamente no mundo da televisão. São facilmente postos na prateleira apresentadores, jornalistas, repórteres e até actores que ultrapassem uma determinada faixa etária. Qualquer coisa como ao perder-se frescura perde-se qualidade. Nada mais errado, afigura-se-me. A experiência e o tempo são mais-valias indiscutíveis a muitos níveis, mas numa área em que o visual impera, aposta-se nos rostos (e nos corpos) jovens em detrimento da sabedoria.
Não há em Portugal muitos programas que tenham como apresentadores pessoas já de idade. O nome não consegue perpetuar-se no tempo, ou se calhar fica o nome mas não há trabalho, verdadeiramente. Assim acontece também com jornalistas e repórteres. Assiste-se a um desfilar constante de novas caras no jornalismo, nos telejornais, nos programas de informação. Sobretudo nas televisões privadas. É raro um profissional bem mais velho continuar no ar, acompanhar-nos durante décadas, como acontece com programas lá fora. Ser o nome desse profissional o chamariz, como sinónimo de experiência e conhecimento de vida.
Na ficção então nem se fala. São lançados dezenas, centenas de novos actores e actores novos numa base que diria diária. Inexperiência, pouca qualidade, pouca profundidade, assim se pontua muita da ficção nacional . Entretanto, alguns da velha guarda passam por dificuldades económicas por não encontrarem trabalho. E depois temos os programas para lançar (maioritariamente falsas) estrelas na música e na dança. Todos direccionados para gente muito jovem, fundamentalmente. Assim como os reality-shows - os  participantes são jovens, essencialmente.
E assim se faz uma televisão que não privilegia as pessoas de mais idade, a sua visão das coisas e do mundo, e o relato das suas experiências de vida. Não se estranhe, pois, o desrespeito com que tantos são tratados pelas gerações mais novas... Temos vindo a retirar-lhes importância, a dizer que pouco valem e que em nada contribuem para o nosso entretenimento e informação. É pena, porque não corresponde à verdade. Ainda temos muito a aprender com eles e a rir com eles. E, por isso, digo não ao culto da imagem e da obrigatória  juventude. O tempo passa e coisas preciosas o acompanham. É só termos a oportunidade de conhecê-las.

outubro 10, 2010

Presidência

  



Acho que ainda não tinha dito publicamente que aprecio a figura de Manuel Alegre. E que, por isso, vejo com muitos bons olhos que ele me represente enquanto presidente. De facto, ele reúne uma série de características que me agradam.

Desde logo, é poeta. Alguém que tem pelas palavras o culto que ele tem não podia deixar de ser alvo da minha admiração. Sempre gostei dos escritores, dos homens das letras, dos intelectuais por serem quase automaticamente humanistas e sensíveis, de visão alargada e sábios. Acho que um presidente com esta dimensão engrandece um país, projectando-o culturalmente.

Depois, é Alegre um símbolo. Daquilo que foram lutas anteriores e porventura sonhos que se projectam até hoje. Esteve antes e tem estado depois, sempre e profundamente engagé com os valores sociais e humanistas que são apanágio de uma geração de lutadores pela liberdade.

Aparece-me também como alguém íntegro, sólido, seguro, conhecedor e ainda, fundamental para mim, de pensamento independente. O facto de estar ligado a um partido não invalida que, frequentemente, não tenha opiniões próprias e diferentes das dos demais. Tal facto revela coragem e força moral, traços de carácter imprescindíveis para mim.

E depois tem uma presença muito agradável, passando por uma voz carismática e inconfundível, até ao trato relativamente afectivo, despojado de falsidades e de concessões. Directo, verdadeiro, autêntico. Profundamente realista, também. Sem pessimismo, com uma visão a raiar o optimismo de pés-no-chão, bem como gosto.

Numa altura em que a política surge cheia de figuras de pendor economicista, tecnológico e administrativo, bem que me apetece ver alguém para quem o humanismo e as pessoas são valores inestimáveis.
Por mim, bem que pode ser (o meu) presidente.

outubro 02, 2010

A contragosto

                                                         

Tenho para mim a teoria de que as pessoas que gostam de cozinhar são bem mais felizes. Porque a comida constitui uma grande fonte de consolação e prazer. Desta forma, quem cozinha e o faz alegremente, reune uma série de condições que muito contribuem para a felicidade.
Desde já o relaxar. As pessoas que cozinham por gosto dizem relaxar na cozinha, aproveitando, desta maneira, para descomprimir de pressões laborais, nomeadadamente, e outras. Depois, o convívio. Poder convidar e satisfazer com mais ou menos deliciosas iguarias os nossos familiares, amigos e outros, é algo que dá satisfação pelo convívio que permite, pela interacção pessoal que fomenta. Sejamos francos - a maior parte dos rendez-vous familiares e sociais passa, indiscutivelmente, por uma parte entusiastacamente dedicada à comida. Convida-se muito para almoçar, jantar, lanchar e convida-se pouco para uma conversa, tertúlia ou para uma sessão de cinema sem comes e bebes a acompanhar. Ainda por cima num país claramente voltado para a gastronomia. Não me lembro, dos países que visitei, de uma nacional obsessão com a comida como a nossa. E ainda, a reputação. Continua a ser exultante uma reputação de boa cozinheira, sobretudo nas mulheres. Afinal torna-as um bom partido, a tal ideia de que os homens se prendem pelo estômago parece aqui encaixar perfeitamente.

Compreendo agora porque nunca fui um bom partido... Cozinhar não é um prazer, fujo da cozinha quando posso, só faço o muito trivial para me alimentar a mim e aos meus, portanto não relaxo minimamente nesse espaço. Reputação, zero. Pudera, não organizo jantares com muita frequência. Recebo, claro, e adoro mas tem, nesse dia, da cozinha ser partilhada a dois, e eu fico com uma ínfíma parte - a dos doces - portanto, os louros não vão, nem podiam ir, para mim. E depois com isto tudo tenho a casa menos cheia do que gostaria. Quem vem visitar-me, sem comida? Trata-se de um convite pouco apelativo.
Posto isto, concluo que adoraria saber e sobretudo gostar de cozinhar. Até porque sou gulosa e aprecio comida também. Mas tenho verificado que, com o acentuar do tempo, a minha pouca propensão para a culinária (fruto também de um carácter impaciente onde é preciso ter paciência) se tem vindo a esbater ainda mais... Se quero ser feliz,e digo infelizmente por todas as razões que apontei, tenho mesmo que sair da cozinha.

setembro 24, 2010

À la generala

                                        

Não gosto de pessoas mecânicas. Não têm nuances, são quadradas, insuportavelmente previsíveis, geralmente falam sem parar. Falam e o seu discurso agride-me, automaticamente faz-me querer ir para bem longe. Sobretudo mulheres. Aquelas que debitam certezas a torto e a direito, não têm dúvidas e são insensíveis. Que cruz ter que me relacionar com elas. Chamo-lhe mulheres generais. Se fosse homem, chutava-as para canto. São o oposto do que aprecio, são quase sempre controladoras, castradoras e umas grandes chatas. Pena que nos aparecem na família, no trabalho e, sendo assim, nem sempre lhes conseguimos escapar. Mas eu tenho reacções psicológicas e físicas imediatas que assinalam o meu desconforto emocional com este tipo de pessoas, desde um sorriso estupidamente amarelo até à falta de qualquer entusiasmo. Na verdade, deprimem-me. São pior do que o inverno, pois este ainda me aconchega em muitos momentos.

Não podemos gostar de tudo, não é verdade? Sempre houve tipos de pessoas que nos irritaram a todos. A mim são estas super convencidas das suas verdades, quase infalíveis e que não têm hesitações nem fragilidades. Aparentemente, claro. Por vezes são as mais inseguras de todas. Por essa razão arranjam capas de força que tentam, a todo o custo, fazer passar. Já dizia uma amiga minha há tempos que conhece poucas pessoas simples na sua maneira de ser. Não podia concordar mais. Falta de simplicidade, de autenticidade, disfarçadas de competentes e de sábias.

Nunca gostei do tipo mãezinha e paternalista. Dão-nos conselhos quando não são pedidos, ensinam-nos coisas que não pedimos nem queremos aprender, fazem de nós estúpidos quando tantas vezes se trata precisamente do contrário. Estas pessoas, e mulheres já agora, quase nunca têm visão. Nem inteligência emocional. Não percebem que maçam, que incomodam, que alguém mais livre pura e simplesmente não está interessado no seu discurso nem no seu mundo, que geralmente é muito pequeno e sem graça.

Muitas vezes me interrogava como era possível haver carcereiras nazis. Depois do que disse, acaba-se por compreender. As pessoas mecânicas que obedecem cegamente, que não são sensíveis, que não revelam compreensão dos estados de alma, ora, estão perfeitas para a função. Elas existem não para alegrar os nossos dias mas para os infernizar, não para nos descontrair mas para nos oprimir. Não têm alma nem cor. Posto isto, declaro que não gosto delas e já era altura de o dizer.

setembro 15, 2010

Teoria da conspiração

Concluiu-se, confirmou-se, reforçou-se, reteirou-se indubitavelmente que há vítimas no caso Casa Pia. Que, tendo elas existido, as suas queixas foram e são, desta forma, verdadeiras. Disto não  restaram dúvidas. Todos são unânimes. Agora no que diz respeito aos arguidos o caso muda de figura. Pelo que pude perceber, jornalistas, mais ou menos intelectuais, ainda põem dúvidas na sentença dos condenados. Questionam se serão culpados. Dizem que as provas são apenas as testimoniais, não sendo portanto sólidas e consistentes. O bastonário da ordem dos advogados, um homem muito pequeno nas vistas e nas afirmações, chega quase a esquecer-se das vítimas, no fulgor da defesa da pena dos arguidos. Parece-me que há alguma coisa que não bate certo. Pois então se há verdade nas suas histórias, serão os jovens que relataram os seus traumas uma espécie de self-made victims? Ou seja, há vítimas mas não há culpados? Os arguidos estão todos inocentes (todos o proclamam, à excepção de Silvino) ? Fantástica fantochada estaria a ser construida? Fantástica, também ela, teoria. Não me parece. Aliás, não acredito. Acredito que para as vítimas reviver as coisas nos media e no tribunal foi algo altamente penoso, ninguém gosta de revelar traumas de ânimo leve, eles significam sofrimento e não será fácil fazê-lo publicamente. Não vou, então, na teoria dos analistas que acham que as condenações serviram apenas para a justiça limpar a face. Agora que ela mostrou que os crimes, graças a deus, podem ser puníveis, sim. E ainda bem. Que não há nomes mediáticos nem pessoas com altos cargos que amedrontem os juízes. Acho bem. Acho mesmo muito bem.

setembro 05, 2010

Anacronismo



Às vezes acho que sou um pouco anacrónica, eu que, de uma forma geral, tanto gosto do progresso. Isto relaciona-se com o facto de não lidar muito bem com as novas tecnologias, ou parte delas. Assustam-me e algumas repelem-me, inclusivamente. Ou não lhes consigo achar piada. Playstations, consolas, iPods, IPhones, MP3s, jogos de computador e outros não me dizem nada, absolutamente nada. Pelo contrário, acho que contribuem para a confusão mental em que vivemos. Para a não assimilação das coisas de forma concentrada e concertada, para a não experiência de momentos de silêncio criativo, para a não vivência de afectos que em muito nos equilibrariam.


Anacrónica e contraditória. Ora vejamos. Gosto de internet, da informação que permite, da comunicação que posso desenvolver com os outros, das redes sociais, pois então. Há momentos em frente ao computador que podem ser valiosos, por essa comunicação com o outro, pela criatividade que certos softwares nos permitem, pelas leituras invariavelmente a só que podemos fazer e pelo enriquecimento que tudo isso significa. De qualquer maneira, passar o dia inteiro frente a um écrã já é problemático, onde estão o sol e o ar livre, os sons da rua, as experiências que o mundo verdadeiro e sensorial, de forma avassaladora e maravilhosa ou não, nos oferece. Há então que dosear com equilíbrio as vertentes real e virtual, por forma a não perdermos a melhor pitada de ambas.


Mas estava eu a dizer ao princípio que não gosto de certas tecnologias. De facto, passam-me ao lado e assusta-me que tantos jovens e até crianças já delas sejam dependentes. Se por um lado as podem estimular, também as podem reprimir, ou seja, anular certas formas de liberdade e de libertação que outros espaços e actividades despertam e desenvolvem. É a saúde que está em causa, sim. Mental e mesmo física. Os écrãs prendem e cansam, não permitem a mobilidade, difusam as percepções dos sentidos, fazem perder tempo para convívios, afastam o toque físico entre as pessoas. Em última instância, as tecnologias tornam as pessoas bem mais infelizes, se bem que muitas não se aperceberão disso e dirão que não. E, depois, violentas. Os jogos de computador que vejo jogar fomentam isso mesmo, ainda por cima num turbilhão de imagens e sons verdadeiramente alucinantes, onde está uma coisa chamada serenidade, não sabemos, não conhecemos.


Desta forma, estou fora de moda. Não quero jogar em frente a um écrã, não quero passar o dia com auscultadores nos ouvidos, não quero brincar de forma interactiva. Quero poder correr e saltar, ouvir o som das aves e do rio, sentir o sol a queimar a pele, jogar monopólio e party com os amigos, respirar ar puro e fresco, quero viajar e olhar pela janela. Ver o mundo real e sentir a sua infindável diversidade. Ai como estou demodé e ultrapassada.

agosto 18, 2010

As inverdades


A propósito dos incêndios deste mês, as notícias na televisão davam conta de que um quartel espera as viaturas há já uns longos três anos. O secretário de estado apareceu, então, a dizer que se tinha de compreender isso, uma vez que eram burocracias e trâmites legais que tinham que ser respeitados. Esta resposta tirou-me do sério. Em vez de afirmar que tal situação era incomportável e inaceitável, e de dizer que iria pessoalmente encarregar-se do caso, era o mínimo, na minha opinião, o senhor perspassou uma passividade incrível, a juntar a pouca vontade em resolver as situações com eficácia. A partir disto, extrapolei para conclusões bem gerais. É para mim incompreensível que as pessoas responsáveis não aproveitem os media para actuar de forma eficaz em problemas reais. Estão sempre preocupadas com a sua própria fotografia, sair bem é o objectivo primordial...

Recordemos quando há tiroteios ou situações mais violentas em bairros problemáticos. Aparece logo o presidente da junta ou de uma outra coisa qualquer a dizer que são situações raras, que as pessoas são pacíficas, que se trata de episódios esporádicos e outras tiradas que tais. Em vez de aproveitarem o enfoque dado e de dizerem claramente que precisam de ajuda e que as coisas realmente não estão bem, preferem atenuar, ocultar, na verdade mentir sobre a realidade. E assim não se resolvem as coisas, e assim não se julgam culpados, e assim se perpetuam comportamentos à espera de uma tragédia maior qualquer...

Vive-se, de facto, no país do faz-de-conta. As coisas são difusas e iludidas. A vaidade, o orgulho e o medo de perder o lugar de quem é responsável sobrepõe-se à verdade. Isto aflige-me, isto pertuba-me, isto revolta-me. Pronto, está dito.

agosto 02, 2010

IncoMODA


De vez em quando a minha relação com a moda assola-me os pensamentos. Basicamente acho que ela é péssima, ou seja, não tenho jeito para escolher roupa elegante, não tenho paciência para comprar roupa, não sei comprar quando as colecções saem, pareço tonta quando vejo muita roupa numa loja e me perco no meio de tanta oferta, bah, um terror. Porventura dir-se-ia que não, pois disfarço por vezes com uma outra outra peça mais compostinha, comprada num dia em que alguma obsessão com a imagem e vaidade pessoal também me atacaram e me levaram para o centro comercial, mas a verdade é que me dá muito trabalho seguir a moda, já para não falar numa espécie de ódio que por vezes sinto em relação a esse mundo. Às vezes penso que tenho alma de hippie, pois irrita-me que alguém dite aquilo que tenho que vestir ou não me e ainda por cima o faça frequentemente, ao sabor de uma estação, assim como me dana o facto de me apetecer agora comprar roupa de praia e já não haver nada pois os saldos já levaram tudo porque a nova colecção é que já impera e exibe-se nas montras e nos escaparates das lojas. Mas eu sinto calor agora, penso eu. Não me apeteceu comprar nada leve antes porque ainda estava frio, bolas. Raios para o system da moda. E ainda por cima não poder comer bolachas para caber na roupa. Raios para isto tudo, ser mulher é uma trabalheira, e não serei a primeira a dizê-lo. Sou?

julho 24, 2010

Publicidade pessoal


Estava no outro dia a pensar que há pessoas que têm uma capacidade incrível de se auto-promoverem. Vendem facilmente as suas ideias, o seu ego e sei lá mais o quê, mesmo se não há nada de realmente visionário ou surpreendente, mas elas são mestras na propaganda de si próprias, e, posto isto, dei por mim a pensar que tenho muito a aprender com elas. A reserva, que desde sempre me acompanhou em muitos domínios e que se tem acentuado com o tempo, é inimiga do sucesso, do reconhecimentos dos outros. Pareceria que não, que quem tem valor acaba sempre por ser recompensado, mas não,olha que não, como diria o outro, isto sem marketing não vai lá, as pessoas não vão ler-nos ou ouvir-nos ou convidar-nos ou promover-nos e etc e tal senão nos pusermos em bicos de pés a dizer hei olha para mim sei fazer isto sou bom naquilo e outros do género. A mim irrita-me fazer publicidade de mim mesma, é contra a minha natureza, não sei fazê-lo. Mas este mundo é voraz e a competição é jogada para valer e a doer por muita gente, portanto temos de arranjar estratégias de sobrevivência e se quisermos algum merecido destaque há que auto-promovermo-nos. Davam-me jeito umas lições de marketing pessoal., seguramente, partindo do princípio de que queria mesmo aprender, esquecendo um pouco o meu carácter ingénuo, despreocupado e sem jeito para vendas.

julho 14, 2010

O Leitor


Não vou falar de si...:) Mas do filme que finalmente consegui ver. Aluguei-o e toca de o ver pela noite dentro. Valeu a pena. Trata-se de um filme um pouco para o triste é certo, com uma carga dramática forte e um densidade psicológica assinalável, esta bem ao meu estilo. No fundo é uma história de amor muito invulgar, embora eu considere que quem mais amou foi o "miúdo"... A personagem da Hanna Schmitz, brilhantemente interpretada pela belíssima Kate Winslet é difícil, queremos gostar dela, até porque a literatura que aprecia sempre esteve ligada à sensibilidade, mas ela raramente mostra algum pingo de humanidade. Na cena do reencontro final, muitos anos mais tarde, Michael espera que ela se tenha redimido, que mostre humanismo de alguma forma, mas há ali uma frieza, uma incapacidade de sentir os afectos... Então porque se envolveu Hanna com o miúdo? Lembro-me de ter pensado em solidão, em brutal solidão quando ela desnuda o seu corpo e seduz pela primeira vez o miúdo... É um filme em que a verdade está quase sempre escondida, as razões de Hanna permanecem misteriosas como o seu passado. E fora do comum a cena em que, por orgulho, vergonha, prefere ser condenada a admitir que não sabe ler... Um filme perturbante porque diferente, inesperado, surpreendente e, sim, melancólico.