Aqui há tempos um grupo de estudantes chineses que estudam português deslocaram-se ao nosso país. Diziam ter ficado chocados com o facto de, cá, não haver pessoas nas ruas. Na China estão habituados a ver muitas e muitas, claro. Mas o que é certo é que não se trata apenas de uma situação de carácter demográfico. A verdade é que as pessoas em Portugal desapareceram das ruas. Não posso falar por todas as cidades mas por aquelas em que me movo. A culpa é dos centros comerciais, obviamente. O facto de ser prático ter as lojas todas à mão e de se estar abrigado do frio e da chuva explica as romarias diárias e ainda mais de fim de semana para tais mecas do consumismo. Acrescentando-se o facto do pequeno comércio ter sido arruinado pelas grandes superfícies, desaparecendo lojas e lojas das ruas e avenidas, está ainda melhor explicado o fenómeno.
Se no Verão as pessoas andam invariavelmente na ruas para apanhar sol e ar fresco, já no Outono e Inverno se altera o panorama. As ruas estão desertas, tristes, sem vida. Na altura do Natal nem a iluminação traz as pessoas para a rua, enchendo-se os centros comerciais, pelo contrário. Lembro-me de Aveiro na altura em que ainda não havia Fórum nem Feira Nova nem nada do género. Lembro-me de fazer compras natalícias debaixo de frio e às vezes de chuva pela avenida acima. Lembro-me dessa azáfama própria da quadra, das pequenas lojas estarem cheias e de ver tanta gente na rua. E de uma espécie de felicidade que se sentia, o movimento, a luz...
Sinto verdadeiramente saudades desses tempos. As ruas sem ninguém, à noite ( e agora anoitece muito cedo) chegam a ser algo assustadoras, escuras e sem alma. As pessoas pouco ou nada (con)vivem nas ruas, as janelas encerram-se e certos sítios são um autêntico deserto. A essa hora, as grandes superfícies apinham-se de gente. Os centros comerciais transbordam de pessoas, ávidas de compras e de comida rápida. Até os cinemas como os conhecíamos deixaram de existir. Também passaram para os centros comerciais. As salas estão espalhadas por um corredor escuro e as pessoas refugiam-se em várias ao mesmo tempo e pouco ou nada se encontram no intervalo. Os cinemas ao estilo de Cinema Paraíso deixaram de nos fazer sonhar. Aliás, já agora, também esse filme é emblemático do "progresso" de uma cidade. De como a alma desaparece e surge uma cidade impessoal e sem margem para sonhos. Na rua estão carros e carros e o velho cinema foi demolido. Fica a nostalgia de um tempo que não voltará.
Sem ser saudosista, também às vezes sinto alguma nostalgia do que era ou foi... Agora que o Inverno está à porta e o Natal também, bem que gostaria de ver vida nas ruas da cidade. Talvez porque a cidade sempre nos lembre um local de encontros e de movimento, era bom termos mais e muitas pessoas que a vivessem fora de portas...

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